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VÍNCULO K (KNOWLEDGE) E O DESENVOLVIMENTO DA
CAPACIDADE SIMBÓLICA*
EIXO III – PSICANÁLISE COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES
Marisa Pelella Mélega
Introdução
O simbólico em sentido amplo, é o modo de representação indireta e figurada de
uma idéia, de um conflito, de um desejo inconsciente. Neste sentido, em
psicanálise, podemos considerar simbólica qualquer formação substitutiva.
Em sentido restrito, é um modo de representação que se distingue principalmente
pela constância da relação entre o símbolo e o simbolizado. Essa constância
encontra-se não apenas no mesmo indivíduo e de um indivíduo para o outro, mas
nos domínios mais diversos (mito, religião, folclore, linguagem, etc.) e nas áreas
culturais mais distantes entre elas.
A noção de simbolismo está hoje estreitamente ligada à psicanálise, entretanto as
palavras simbólico, simbolizar, simbolização são muitas vezes utilizadas em
sentidos diversos; finalmente os problemas que dizem respeito ao pensamento
simbólico, à criação e ao manejo dos símbolos dependem de tantas disciplinas,
(psicologia, lingüística, epistemologia, literatura, história das religiões, etnologia,
etc.) que existe especial dificuldade em querer delimitar um uso propriamente
psicanalítico destes termos e em distinguir-lhes as diferentes acepções.
*Modificação do trabalho apresentado durante o International Centennial Conference on the Work
of W.R.Bion, 16 a 19 de Julho de 1997 – Turin/Itália.
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A noção de simbólico teve, a partir de Freud, uma evolução no pensamento
psicanalítico passando pelas contribuições de M.Klein, M.Milner, D.Winnicott,
H.Segal, W.Bion e mais recentemente D.Meltzer.
Bion produziu ao longo dos anos, desde 1957, um corpo teórico em que construiu
um modelo de mente essencialmente epistemológico, diverso do modelo de mente
freudiano (econômico) e do kleniano (teológico). Foi ele quem descreveu dois
funcionamentos da mente: a mente automática, ou protomente, e a mente
simbólica e quem afirmou que o pensar é resultante de um processo que se inicia
com a elaboração das experiências sensoriais e emocionais, colocando desta
forma a emoção no centro do significado da vida psíquica, contrariando tudo o que
até então se afirmara sobre o pensar como um processo intelectual .
E ainda, para espanto provável dos filósofos, afirmou que os pensamentos
precedem o pensar, e que existem independentemente do pensador .
Neste ponto achamos interessante relembrar o conceito de fantasia inconsciente
(Susan Isaacs - 1952) como sendo "a representante mental do instinto", a
passagem do biológico para psíquico, passagem esta que nós, ousadamente,
poderíamos considerar como a primeira atividade simbólica. Bion conjeturou que
essa passagem do biológico para o mental acontecia por um funcionamento da
personalidade que ele chamou "função alpha". Partindo de dados sensoriais e
emocionais a "função alpha" geraria conteúdos mentais que ele denominou
"elementos alpha", armazenáveis na mente e utilizáveis para pensar, e que são os
sentidos (meanings) daquela experiência.
Para pensar é indispensável que se construa um aparelho, que Bion descreveu
como resultante de uma relação continente-conteúdo, sendo seu protótipo a
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relação mãe-bebê. A mãe operando com "reverie" (capacidade de receber as
identificações. projetivas realistas do bebê) e elaborando-as em significados pela
sua função alfa, devolvendo-as ao bebê e este introjetando-as e se identificando
com o funcionamento mental da mãe. Pensar, para Bion, não tem apenas o
sentido de examinar e resolver conflitos, mas o de criar significados e de viver
num mundo de significados, não simplesmente adaptar-se ao mundo externo tal
como este é encontrado.
Em "Uma Teoria do Pensar" (1962) Bion afirma que o significado das emoções é
o centro da questão e que o desenvolvimento da personalidade depende do
pensar sobre as emoções que são as que vinculam as relações íntimas e a partir
delas "sonhamos", produzimos imagens oníricas, pensamentos-sonhos.
As emoções, continua Bion, são as que vinculam as relações intimas e descreveu
os vínculos originados das emoções: amor (L), ódio (H) e conhecimento (K), e
vínculos anti-emoção – Amor (-L) = Puritanismo; Ódio (-H) = Hipocrisia;
Conhecimento(-K) = Filistinismo – (estar contrário a qualquer idéia nova, condição
esta que impede o aprender da experiência), constituindo deste modo uma Teoria
dos Afetos.
Segundo essa teoria, a experiência emocional é transformada em pensamento
onírico toda vez que acontecer um vínculo de conhecimento (K). Tal
transformação dá-se através de um misterioso processo pela ação do que ele
chamou de função Alfa, resultando primeiramente em uma imagem onírica. A
imagem onírica é para Bion o primeiro pensamento, é o primeiro sentido da
experiência emocional, é a pedra fundamental sobre a qual apóiam-se todos os
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outros possíveis níveis de pensamento mais elaborados (abstrações e
generalizações).
As primeiras realizações da função alfa na vida do ser humano são feitas pela
mãe. Quando o bebê está sendo amamentado, está sendo alimentado com o leite
e com o funcionamento da mente da mãe. Ela transmite ao bebê através de seus
olhos, de sua voz, da forma como o segura, “algo” que elaborou em sua mente a
partir do que percebeu do bebê, “algo” em forma simbolizada e que dá condições
a ele de ter uma imagem onírica, de compreender, de dar sentido ao que está
experimentando, dando início a um pensamento.
II.
A observação da relação mãe-bebê método Esther Bick nos propicia a
possibilidade de acompanhar alguns momentos da intimidade de uma relação
mãe-criança e de estudar o que se passa no trajeto entre a emoção e a produção
da imagem onírica (representação da emoção). Aproxima-nos da “área de
mistério” onde atua a função Alfa.
Sabemos que é primeiramente a mãe a realizar a função Alfa pelo bebê e que se
expressa, inicialmente, através de seu “reverie” e de sua atenção-presença
mental. Podemos observar um bebê sendo amamentado: sugando leite do peito
da mãe, olhando nos olhos que estão atentos a ele, ouvindo a voz da mãe dirigida
a ele, sentindo o firme aconchego de seus braços. Este conjunto de atitudes da
mãe surgem do seu estado de mente empático com a fragilidade e a dependência
do bebê. A mãe transmite, dessa forma, ao bebê o que ela elaborou a partir do
que percebeu do estado emocional do bebê.
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Júlia está com três meses e sete dias e a observadora descreve na supervisão
cenas colhidas durante a visita à família:
“... a mãe aproximou-se do berço e Júlia, ao vê-la, agitou os braços e sorriu
demoradamente. A mãe inclinou-se sobre o berço e, dirigindo-lhe o olhar,
perguntou-lhe se estava com fome. Júlia respondia “A-rru” seguidamente. A mãe
levantou-a do berço para trocar sua fralda. Enquanto isso, falava com Júlia e com
a observadora. Ao terminar a troca, a mãe levantou Júlia, segurou-a contra o
peito e voltou a indagar se estava com fome, ao que ela respondia com “A-rru”.
Foram até o living onde o pai estava telefonando, e a bebê foi deitada no sofá ao
lado do pai; em seguida, a mãe sentou-se e, enquanto conversava com o marido
sobre assuntos a serem resolvidos durante o dia, tirou a blusa, colocou Júlia no
colo, mas não ofereceu imediatamente o peito. Júlia emitiu um choro forte e a
mãe aproximou-lhe o mamilo, o bebê abocanhou com força, mamando
seguidamente por volta de cinco minutos. Engasgou por duas vezes, afastou-se e
rapidamente retornou ao peito. Mexia com a mão direita no colo da mãe enquanto
mamava; sua mão esquerda estava solta e, a um certo momento, sua mãe
segurou-a e percebeu que estava fria. Aqueceu-a com sua própria mão, enquanto
olhava nos olhos de Júlia. Nesse momento, Júlia olhou para os olhos da mãe e
soltou o mamilo. A mãe disse: “Pronto! Não olho mais! Continue mamando,
mocinha.” Reconduziu-a ao mamilo e a bebê pegou, sugou e largou, sorrindo,
olhava nos olhos da mãe, falava “A-rru” e passava a mãozinha no seio. Essa cena
repetiu-se três vezes. Por fim, a mãe achou que ela não queria mais mamar, e
colocou-a de pé em seu colo para que arrotasse.”
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Os detalhes muito bem observados nessas cenas apresentadas permitiram entrar
na intimidade dessa relação mãe-bebê, em que Júlia foi tendo a experiência de
ser compreendida em suas comunicações mostrando incorporar tais
configurações de compreensão e configurando-se um vínculo K entre M e B
essencial para aprender da experiência.
A boca-mamilo-leite é acompanhada pelos olhos-mente-atenção-compreensão da
mãe. Não é difícil imaginar que Júlia esteja “pensando”, dando sentido à relação
com o seio e com a mãe, através de sorrisos, olhares e “A-rrus”, produzindo
representações e signos, a caminho da criação de símbolos. As experiências de
acolhimento e transformação descritos possibilitam supor que a Júlia esteja
introjetando de um "seio pensante".
III.
O que dificulta o início da vida de um bebê é ter uma mãe que não desenvolveu
identificação com um "seio pensante", que o ajude a transformar o intolerável em
tolerável. Desse modo, ela não pode responder criativamente (com reverie) às
identificações projetivas do bebê, dando significado. Ao devolvê-las sem
significado e, freqüentemente, acrescidas da sua (da mãe) própria angústia,
constitui-se numa experiência aterrorizante e inominável para o bebê.
A continuidade de experiências dessa natureza, um vínculo anti-conhecimento (-K)
pode levar o bebê à introjeção de um objeto que não compreende, que não
transforma – seio não pensante.
A relação de amamentação de Arminda ocorreu de forma bem diversa da de Júlia,
como podemos acompanhar em algumas visitas de observação que supervisionei.
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Na primeira, Arminda pegou e sugou o peito oferecido pela mãe. A mãe, então,
disse:
“Devagar, porque dói... se continuar a doer, vou dar-te o leite em pó, que a tua avó
sugeriu”. O bebê continuou a sugar, e a mãe: “Vou arrumar-te uma mãe que sabe
dar de mamar.” Arminda continuou mamando até adormecer ao peito. Sua mãe
disse: “Não dorme, não, nenê, senão a mãe tem pensamentos ruins”, e acordou o
bebê.
Arminda tornou a sugar e, a um certo momento, a mãe disse: “Chega de mamar!”
e tirou-a do peito. Contou então para a observadora que, freqüentemente,
Arminda ficava chorando, e ela chorava junto. Achava ser dor de barriga e
perguntava se o seu leite era bom. Enquanto isso, o bebê voltou a adormecer, e a
mãe, novamente, mostrou-se aflita e movimentou a criança para acordar.
Na segunda visita, a observadora encontrou a mãe muito angustiada porque o
bebê não parava de chorar. A mãe sacodia-a no colo, mas não conseguia
acalmá-la. Ofereceu, então, o peito, que o bebê pegava e largava, até que, na
sexta tentativa, iniciou a sugar.
Na terceira visita, Arminda adormeceu no colo após a mamada, e a mãe
estimulou-a para que acordasse. O bebê acordou, chorou e vomitou. A mãe
tentou acalmá-la e a criança adormeceu. A mãe, então, disse: “Não dorme, filha,
fica um pouco com a mamãe, não me deixe sozinha.”
As condutas descritas fizeram-nos pensar o quanto a mãe sentia-se incapaz, sem
confiança em seus recursos para modular e transformar as comunicações do bebê
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(“Não sei o que se passa quando ela chora”; “Será que meu leite é bom?”; “Tenho
maus pensamentos quando ela dorme”).
Poderíamos mesmo afirmar que, embora a mãe esteja presente e disponível para
com o bebê, e até sofra junto com ele, está sob a “influência de fantasias”
geradoras de angústias, que dificultam a percepção de seu real desempenho
como mãe, a percepção do que realmente o bebê precisa. Uma mãe sem
"reverie", não tem condições de criar novos significados: a experiência emocional
presente e atual da mãe em interação com seu bebê, não está sendo percebida e
transformada em símbolos-pensamentos. Nessas condições, não há aprendizado
pela experiência emocional.
Ela interpreta o choro como fome e a continuação do choro como ela ser incapaz
de satisfazer a fome do bebê. Para ela, a criança adormecendo, equivale a estar
morrendo. Parece-nos evidente que o bebê está sendo solicitado a ser continente
da angústia da mãe (“Não dorme, filha, fica um pouco com a mãe, não me deixe
sozinha”).
Conjeturamos o quanto o bebê estava sendo estimulado, por precisar mostrar à
mãe, continuamente, que estava vivo. Observamos que estava se tornando um
bebê agitado, que ria e chorava, dava gargalhadas, vomitava freqüentemente
após a mamada e não dormia de noite. A mãe disse que por não agüentar o
choro do bebê oferecia colo continuamente para acalmá-la. Pensamos o quanto o
bebê estava "tendo que se ocupar" da angústia da mãe, que o invade a todo
momento. Meses mais tarde, o observador foi informado pela mãe que Arminda
apresentava insônia todas as noites.
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Arminda não estava progredindo em sua capacidade de continência psíquica ferramenta indispensável para seu desenvolvimento. A mãe de Arminda não
estava tendo condições de realizar a função Alfa pelo bebê o suficiente para que o
bebê pudesse introjetar com estabilidade tal funcionamento.
Quanto às condições psíquicas da mãe aventamos a hipótese de uma depressão
pós-parto (Esther Bick 1950). A questão é que esta atitude da mãe permaneceu
por 9 meses (data a partir da qual a observadora não teve mais acesso à esta
dupla M-B) fazendo-nos pensar na presença de outros fatores na personalidade
da M contribuindo para a não superação da depressão.
A necessidade constante de contato sensorial do bebê com a mãe (continuamente
no colo)mostra-nos quão pouco tinha se desenvolvido a sua capacidade simbólica.
Esta, fruto de um vínculo K que a M não tinha condições de oferecer, ela que já
sabia (-K) que todo choro era fome e que o dormir significava morte.
IV.
Teria sido essa também a experiência infantil de Gianni? Ele foi trazido ao meu
consultório no colo da mãe, apresentando um quadro de parada de
desenvolvimento. Não aceitava alimentação, não tinha iniciado a andar nem a
falar, e estava com 22 meses.
Pela avaliação que realizamos pudemos localizar fatores específicos da relação
dos pais com Gianni, geradores de tal bloqueio do desenvolvimento, mas
encontramos também nesse caso, uma insuficiência de "reverie" materno que
possibilitasse a formação de vínculos de conhecimento (K), que resultassem em
símbolos.
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No momento em que foi oferecido um continente transformador - a relação
analítica - Gianni retomou seu desenvolvimento, ativando sua capacidade
simbólica, cujos inícios foram extraordinários. Demonstrou uma progressiva
autonomia na sala. No terceiro mês de análise, começou a andar e passou a
entrar sozinho.
Na primeira vez que ele entrou sozinho, ele perambulou pela sala, em uma atitude
de reconhecimento, acendeu e apagou o interruptor da luz, e eu acompanhei seus
movimentos, falando: “abriu”, “fechou”. Ele olhou para a minha boca, para a
lâmpada que acendia e apagava, e pareceu estar unindo minha boca e fala, com
seu dedo no interruptor e luz. Passou a fazer o mesmo com o interruptor de fora
da sala e, nesse momento, eu abri a torneira da pia e ele retornou à sala, viu o
jorro de água e pediu, esticando os braços, para eu levantá-lo. Ele tocou a água
com as mãos, riu com felicidade, falou coisas incompreensíveis; lambe a mão
molhada e me olha. Digo-lhe que “encontrou um mamá”, e ele continuou tocando
a água e lambendo seus dedos, passando a água pelo rosto, como que se
revestindo daquela água.
O fluxo de água foi uma continuidade que o atraiu, como minha fala. Ele foi
estabelecendo equações simbólicas entre o interruptor, que acendia e apagava a
luz que entrava pelos seus olhos, e a minha boca que, se abrindo e fechando,
fazia sair palavras que entravam pelo seu ouvido e que testemunhavam minha
atenção-compreensão pelo que fazia e buscava.
Gianni estabeleceu vínculos com meus olhos-atenção, minha boca-palavras,
representantes sensoriais do meu funcionamento mental. Um seio-mente falante
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e pensante, que o alimenta de significados, promovendo sua vida de fantasias e o
processo de formação de símbolos.
A água da torneira que foi equacionada à minha fala foi equacionada a um
“mamá”, que equivale ao seio que o alimenta, e que ele usou imediatamente,
transferindo-o para a mãe. De fato, na sessão seguinte, a mãe informou que
agora ele a chamava de mamãe.
V. Seio-Pensante, Superego Pensante, Superego Anti-Pensamento
A teoria do pensar de Bion fala de uma “passagem misteriosa” denominada
função Alfa, que vai da experiência emocional para a sua representação em
imagem onírica, em símbolo.
Em seu artigo “Além da Consciência”, D. Meltzer considera que essa zona de
mistério modifica o conceito de superego. Se a primeira realização da função Alfa
na vida do bebê não é realizada pelo bebê, mas pela mãe, temos que considerar
sua introjeção como um superego pensante. Esse superego pensante será o
iniciador do pensar, sempre que o self defrontar-se com uma nova experiência
emocional, para a qual o indivíduo não tenha equipamento para pensar. É
indispensável ter-se um objeto pensante, que possa ser reativado sempre que o
self defrontar-se com uma nova experiência, para continuar o desenvolvimento
emocional.
A história de Ugo (oito anos), contada pela mãe na primeira entrevista de
avaliação, deixava transparecer a predominância de um vínculo anti-conhecimento
(-K). Desde a ameaça de aborto, ela passou a sentir-se muito insegura, embora a
partir do terceiro mês, a gravidez tivesse seguido normalmente. Ugo foi
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amamentado desde a maternidade, mas demorava muito para mamar, e chorava
tanto, que após quinze dias, foi introduzida a mamadeira.
No terceiro mês, foi acrescentada a sopa, mas ele não aceitava. Insistia muito,
forçava-o a comer e o pai também ficava furioso com ele. Ela sabia que a conduta
estava errada, mas não suportava que ele não comesse.
Até hoje, essa dificuldade persiste e é uma “guerra” na hora das refeições.
Esse pequeno relato nos fez pensar tanto numa atividade projetiva dos pais no
bebê, quanto num fator constitucional da criança, um “bad-feeder” que precisaria
de uma mãe confiante em si mesma, com capacidade de aguardar, suportando a
demora da sua resposta, confiar na criação de significados de vida ao seu bebê,
ao invés de, imediatamente, dar significados de morte.
Na sala de análise, Ugo primeiramente se apresentou com grande imobilidade
física. Sentado no divã, movimentando apenas as mãos, enquanto “jogava-me”
perguntas do tipo “Adivinha...?” Estaria ele perguntando: “Adivinha se estou vivo?
Adivinha se vou continuar vivendo?”
Fui percebendo que relacionar-se, para ele, era um jogo de adivinhação, mais do
que um diálogo para tentar compreender um ao outro. O medo era de ser
invadido com minha palavras, idéias, e então ele nem escutava o sentido, mas
recusava sistematicamente o que lhe dizia. Como as colheradas de comida que a
mãe oferecia?
Além da dificuldade de incorporar alimento, Ugo tinha dificuldade de aprender na
escola. Passava a tarde fazendo as lições com a mãe do lado - comportamento
que lembrava o da alimentação.
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A experiência analítica com crianças como Ugo, exige do analista uma grande
capacidade de lidar com identificações projetivas violentas, intrusivas, em que se
chega ao limite da tolerância e próximo à ruptura de uma relação! Penso ter sido
essa a maneira de Ugo evoluir do vínculo amor-ódio para o vínculo de
conhecimento (K).
Na transferência, ele me fazia viver o bebê submetido, forçado a comer por uma
mãe e pai violentos, ele agora tendo os sentimentos violentos que ia enfiando-os
na analista.
O estado de mente de violência se manifestou inicialmente sob a forma de uma
bola de plasticina (massinha) que ele atirava com toda a força entre duas
almofadas do encosto do divã. A seguir, se transformava num jogo de troca de
almofadas, que ia crescendo até ser lançada com muita força e, por fim, se
transformar numa luta em que eu segurava a almofada que ele esmurrava como
um boxe. Todo o tempo das sessões desse período era preenchido pelo boxe e o
que eu fosse comentando não era levado em consideração por ele. Quando eu
pedia uma pausa para tentarmos compreender o que estava se passando naquela
sessão, ele tolerava muito mal a espera e me apressava para continuarmos.
E se eu assim não o fizesse, ele se deitava no divã e interrompia o contato
comigo. Penso que ele sentia minha atitude como uma recusa em acompanhá-lo,
frustrando-o em sua atividade prazerosa, de qualidade erotisada, a luta. Tal
brincadeira teria o benefício de fazê-lo experimentar a possibilidade de “entrar”,
de ser tomado por um objeto e aprender a colocar dentro dele um objeto.
Pensamos que Ugo viveu a experiência de uma mãe que não conseguiu acolhê-lo
dentro de si, em sua mente, tentando descobrir e dar o que ele precisava, e ele,
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um bebê sem capacidade de tomar uma mãe para dentro dele, nem seu leite, nem
os significados que ela dava ao que ele expressava.
Continuando a experiência de projetar suas fantasias de violência e sadismo,
agora ele sendo o ativo-agressor e não o passivo submetido, chegamos ao que
penso ter sido o “turning point” dessa análise.
Assim, numa determinada sessão, limito sua luta com a almofada, por estar se
tornando intolerável e, ao abrir a caixa, sugiro substituir a luta por uma
dramatização entre bonecos. Escolho um boneco mulher, um menino e um bebê,
e ele se senta no divã e me pede dois bonecos homens e um menino. Inicia a
dramatização num ponto da sala do qual não posso vê-lo. Ele me diz que é uma
luta porque vai haver o rapto de uma criança. A um certo momento, Ugo morde a
mão do boneco raptor até arrancá-la e passa a morder as outras dizendo que vai
devorá-los, e assim arranca braços e pernas com os dentes, falando como se
estivesse se transformando em um monstro, cuspindo as partes mordidas no chão
e jogando os restos no chão com violência contra a parede, totalmente dentro da
dramatização.
Finaliza dizendo que todos estão mortos, o pai está morto, só sobrou o bebê.
Uma semana após, ele jogou todo o material de sua caixa, conservando apenas
uma luva de boxe (feita de uma toalha e um saco de estopa), provavelmente num
gesto de livrar-se de tudo o que foi obrigado a aceitar.
Nas sessões seguintes, a “luva de boxe” se tornou uma bola que ele me pediu
para tentar acertar dentro de sua caixa vazia, que ele defendia colocando-se na
frente.
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Comentei que “estávamos começando de novo”, que havia um bebê que estava
começando a comer, mas resistia e uma mãe tinha que ser “bem esperta” para
conseguir que ele pusesse algo dentro de sua boca.
Ugo escutou e passou a jogar agora defendendo bem menos o gol e deixando
entrar muito mais vezes a “bola”.
Nas sessões seguintes, foram se alternando os jogos (de incorporação / de fazer
entrar), acompanhados de uma conduta de tomar goles de água da pia da sala, e
movimentos de expulsão através da conduta muscular e do desprezo pelo o que ia
lhe dizendo. Chegou a um ponto em que ele me agrediu fisicamente e eu
suspendi sua ação, dizendo-lhe haver limite para a aceitação e para a tolerância e
que ele podia se esforçar para mostrar o que ele sentia de um outro modo. Ele se
“recolheu”, sentando-se no divã, sem me olhar, mostrando muita hostilidade.
Disse-lhe como ele estava frustrado ao ver que eu não podia aceitar todas as suas
manifestações. Ele me escutou, mostrando fisionomia de ódio e, com certo
desprezo, jogou a última coisa que havia em sua caixa e fez um gesto como que
devolvendo-a e foi embora antes de terminar a hora.
Na sessão seguinte, ele passou a se comunicar por gestos, sem falar. Escreveu
na mesa de fórmica com um lápis que trouxera de casa e propôs lutar por 20
minutos com as regras que fizéramos e o restante do tempo seria para conversar.
Após esse acordo, ele se levantou e foi tomar água na pia.
Nas sessões seguintes, após a luta, ele tomava com freqüência goles de água da
pia que foram se alternando com escutar o que ia lhe dizendo.
Aos poucos, foi acontecendo um diálogo entre ele e eu que resultou na expansão
de sua atividade simbólica, na sala com grande produção de imagens gráficas e
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em sua vida externa com incremento da participação no esporte, na expressão de
seus sentimentos e no aproveitamento escolar.
Comentários finais:
Tentei mostrar de que modo a experiência de observação da relação mãe-bebê,
método Esther Bick, e a experiência de supervisão da observação da relação
mãe-bebê dão a oportunidade de entrarmos na intimidade dos processos de
formação de símbolos, área de mistério, onde atua a função Alfa, de acordo com a
teoria de Bion.
Cenas tomadas de visitas de Observação, como as de Júlia e de Arminda,
parecem contar algo dos inícios de um caminho simbólico, exitoso ou frustrado.
Como que num salto imaginativo, pudemos acompanhar as repercussões das
perturbações da reverie materna e do ambiente, para o desenvolvimento da
capacidade simbólica ao tomar contato com as cenas da análise de Gianni e de
Ugo.
Gianni, com uma parada do desenvolvimento psico-motor e Ugo com uma inibição
para se alimentar e para o aprendizado puderam resgatar sua capacidade para
aprender da experiência, criar símbolos e pensar a partir das suas próprias
emoções.
Resumo:
A autora parte de sua experiência em análise de Crianças e Adolescentes e em
Observação Mãe-Bebê Esther Bick para iluminar alguns passos no processo de
formação simbólica.
Uso como referencial Teórico “Uma Teoria do Pensar” (1962) de Bion.
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Bibliografia
BICK, E. "Notes on Infant Observation in Psychoanalytic Training”. International
Journal of Psychoanalysis, London, XLV, 4, 5f5f8.5661,1964
BION, W. (1962) “Second Thoughts - Selected Papers on Psychoanalysis”
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BION, W. (1962) “Learning from Experience”. London Heinemann
MÉLEGA, M. P. (1991) “Constituição x Ambiente: Diálogo Decisivo na Formação
e Transformação Psíquica”. Revista Brasileira de Psicanálise, vol.27,
nº 4, São Paulo, 1993, pp.681-705
MÉLEGA, M. P. (1993) “Supervision Through the Psychoanalytical Method”
Publicações Científicas do CEPSI-MBF, vol.IV, 1993, pp.127-154
MÉLEGA, M. P. (1993) “Supervisão da Observação da Relação Mãe-Bebê:
Ensino e Investigação. Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 29, nº2,
São Paulo, 1995, pp.263.282
MELTZER, D. “Além da Consciência”. Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 26,
nº 3, São Paulo, 1992, pp. 397-408
MELTZER, D. “Dream Life”. London, Clunie Press, 1984
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