DESIGUALDADES E POLÍTICAS PÚBLICAS: A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO ALTERNATIVA REAL À HEGEMONIA CAPITALISTA GT 5 – Estado, políticas públicas e economia solidária 1 – Resultado de Pesquisa OLIVEIRA, Gustavo M. de1 WALLAUER, Jéssica C.2 Resumo O Brasil é historicamente um país desigual. Basta deter-se às diferentes etapas de sua evolução econômica e social para aferir essa conclusão: 1) período de colonização; 2) trabalho escravo; 3) consolidação da pobreza pela adesão ao capitalismo e ao neoliberalismo. São períodos históricos que remetem a desigualdades tanto materiais como imateriais. Este artigo propõe investigar como a Economia Solidária (ES) se constitui em uma alternativa contra-hegemônica ao sistema capitalista. Neste contexto, a problemática a ser respondida é: dadas as desigualdades socioeconômicas e as políticas públicas brasileiras, como a economia solidária pode ser alternativa real de promoção da equidade e combate a pobreza? Num esforço de compreensão do problema, a pesquisa debruçou-se em esforços, prioritariamente recentes, de pesquisadores que trabalham na área. Além disso, foi realizada pesquisa de campo cujo objeto empírico é a Diretoria de Economia Solidária de Novo Hamburgo (RS) e a Incubadora Pública de Economia Solidária do mesmo município. As primeiras análises conclusivas apontam que políticas públicas que promovam a formação, tanto técnica como de consciência coletiva e cidadã, que viabilizem a criação de novos empreendimentos econômicos solidários, que articulem e fortaleçam as redes, são essenciais para tornar a ES uma alternativa frente a hegemonia capitalista. Palavras-chave: Desigualdades; Políticas Públicas; Economia Solidária. Introdução O Brasil é historicamente um país desigual. Basta deter-se às diferentes etapas de sua evolução econômica e social para aferir essa conclusão: 1) período de colonização; 2) trabalho escravo; 3) consolidação da pobreza pela adesão ao capitalismo e ao neoliberalismo (QUIJANO, 2005). São períodos históricos que remetem a desigualdades tanto materiais como imateriais – a 1 Mestrando em Ciências Sociais, linha de pesquisa Sociedade, Economia e Emancipação. [email protected]. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. 2 Mestranda em Ciências Sociais, linha de pesquisa Sociedade, Economia e Emancipação. [email protected]. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. rigor, marcadas por dicotomias: empregados e empregadores, pobreza e riqueza, brancos e negros, homens e mulheres, etc. Assumindo isso como premissa inicial, o presente artigo propõe investigar como a Economia Solidária (ES) se constitui em alternativa para a redução das desigualdades, através do combate a pobreza e da promoção da consciência coletiva e cidadã, efetivando-se, assim, como um movimento contra-hegemônico ao sistema capitalista. A ES é composta por uma ampla rede de relações que dialogam entre si, a fim de fortalecer seus Empreendimentos Econômicos Solidários (EES). Os próprios associados, os EES, os fóruns municipais, estaduais e nacionais e as feiras de comercialização e trocas são protagonistas no processo de fortalecimento desse movimento (ASSEBURG; GAIGER, 2007). O papel do Estado, contudo, a partir de suas políticas públicas, é o que se constitui como cerne do objeto analisado neste trabalho. Neste contexto, a problemática a ser respondida é: dadas as desigualdades socioeconômicas e as políticas públicas brasileiras, como a economia solidária pode ser alternativa real de promoção da equidade e combate a pobreza? Num esforço de compreensão do problema, a pesquisa debruçou-se em esforços, prioritariamente recentes, de pesquisadores que trabalham na área. Além disso, foi realizada pesquisa de campo cujo objeto empírico é a Diretoria de Economia Solidária de Novo Hamburgo (RS) e a Incubadora Pública de Economia Solidária do mesmo município. A reflexão é iluminada por autores que tem se dedicado às temáticas aqui abordadas, como Zygmunt Bauman, Boaventura de Souza Santos, Jessé Souza, Marcelo Medeiros, Celi Scalon, Celina Souza, Luiz Inácio Gaiger, Marília Veronese, Adriane Ferrarini, entre outros. A seguir apresentam-se contribuições teóricas sobre desigualdades, políticas públicas e economia solidária, respectivamente, para que seja possível, a partir de uma maior apropriação destes temas, se analisar o caso da diretoria de ES de Novo Hamburgo (RS) e da incubadora pública de ES do mesmo município, a fim de compreender as relações locais entre as políticas empreendidas nesta cidade, visando a promoção e fortalecimento da ES como forma desenvolvimento sustentável, rompendo com a lógica do sistema capitalista, diminuindo as desigualdades e combatendo a pobreza. Faces da Desigualdade Não são poucas as experiências positivas encontradas, quando pesquisado o contexto histórico do sistema de organização socioeconômico operado na grande maioria dos países mundo afora. Pode-se citar, mesmo que com algum receio de errar, o desenvolvimento tecnológico e os avanços na área da medicina como pontos fortes proporcionados pelo avanço da globalização e dos Estados capitalistas. 2 Por outro lado, esse mesmo sistema que desenvolve tecnologia e curas para doenças antes terminais, produz o que pode-se chamar de doença social, a saber: as desigualdades sociais. As bases fundamentais para a perpetuação e promoção do capitalismo no mundo, em nada estão relacionadas com as características de uma sociedade mais justa e igualitária. As promessas não cumpridas da modernidade, da ciência e do capitalismo são elementos que configuram a questão social contemporânea no mundo globalizado. Por um lado, tais promessas traduzem paradoxos: avanço tecnológico e aumento da pobreza; constituição legal de direitos e impossibilidade prática de garanti-los. Por outro lado, a questão social também engloba formas de resistência e de experimentações locais de práticas, conhecimento e valores contra-hegemônicos (FERRARINI, 2008, p.59). Acúmulo individual de riqueza, individualismo, desconfiança, meritocracia, consumismo exacerbado, destruição ambiental, preconceitos das mais variadas ordens, justiça parcial, exploração da força de trabalho, são reações produzidas pelo capitalismo. Em contrapartida, distribuição horizontal, coletividade, confiança, oportunidades iguais, consumo racional, sustentabilidade ambiental, reconhecimento às diferenças, justiça imparcial, trabalho digno, são, respectivamente, características que teriam a força de transformar as relações de uma sociedade. É preciso considerar que, nem mesmo nas experiências onde o capitalismo assumiu um formato menos explorador, entregando aos cidadãos direitos sociais e serviços públicos de qualidade, nos chamados Estados de bem-estar social (Welfare State3), as desigualdades não foram superadas e se faz necessário investigar os reais objetivos deste modelo, como aponta Bauman (2013, p.34-36): Na verdade, o Estado do bem-estar (social) dificilmente surgiria se os donos de fábrica não tivessem considerado a proteção de um “exército de reserva de mão de obra” (manter os reservistas em boa forma para o caso de serem chamados de volta ao serviço ativo) um investimento. [...] Um Estado é “social” quando promove o princípio da comunalidade endossada, do seguro coletivo contra o infortúnio individual e suas consequências. É esse princípio – declarado, posto em operação e em cujo funcionamento se acredita – que ergue a “sociedade imaginada” até o nível de uma “totalidade autêntica” – uma comunidade tangível, percebida e vivida -, e portanto substitui (para empregar os termos de John Dunn) a “regra do egoísmo”, que gera desconfiança e suspeita, pela “regra da igualdade”, que inspira confiança e solidariedade. A contribuição de Bauman (2013) aqui apresentada, faz com que a reflexão acerca das consequências geradas pelo capitalismo sejam postas à prova, uma vez que, conforme citado pelo autor, mesmo nos sistemas de bem-estar social já experimentados, o que ele chamou de a regra do egoísmo não foi capaz de ser substituída pela regra da igualdade. Em outras palavras, não se tem provas históricas que apontem para um sistema capitalista que fosse capaz de operar sem desigualdades e injustiças sociais. 3 O Estado de bem-estar social, ou Welfare State, é um sistema de organização social que ganhou força, posto em prática, a rigor, por projetos políticos conservadores e liberais (sob ponto de vista econômico), na tentativa de deslegitimar o socialismo que começava a ser experimentado em alguns países. Era preciso provar que o capitalismo poderia entregar bem-estar social às sociedades, o que era (e ainda é) negado pelos teóricos e atores políticos socialistas. 3 As desigualdades, seja no Brasil como nos demais países do mundo, transcendem a questão econômica, de poder aquisitivo e acumulação de capital. As desigualdades são também imateriais, como optou-se por tratar neste texto, ao referir-se às questões culturais. Porém, a lógica do pensamento econômico liberal tende a fazer com que o senso comum dê conta de naturalizar tais desigualdades apenas como materiais, Senão, vejamos. A crença fundamental do economicismo é a percepção da sociedade como sendo composta por um conjunto de homo economicus, ou seja, agentes racionais que calculam suas chances relativas na luta social por recursos escassos, com as mesmas disposições de comportamento e as mesmas capacidades de disciplina, autocontrole e autorresponsabilidade. Nessa visão distorcida do mundo, o marginalizado social é percebido como se fosse alguém com as mesmas capacidades e disposições de comportamento do indivíduo da classe média. Por conta disso, o miserável e sua miséria são sempre percebidos como contingentes e fortuitos, um mero acaso do destino, sendo a sua situação de absoluta privação facilmente reversível, bastando para isso uma ajuda passageira e tópica do Estado para que ele possa “andar com as próprias pernas”. Essa é a lógica, por exemplo, de todas as políticas assistenciais entre nós (SOUZA, 2009, p.17). Desta forma, conforme aponta Souza (2009), cria-se um “pensamento comum” de que todos os sujeitos tem as mesmas oportunidades como ponto de partida, restando apenas a ele mesmo decidir seu futuro e suas condições de vida. O que não está posto ainda, neste esforço, é que as desigualdades imateriais existem e podem maximizar as materiais, ou vice e versa. A seguir, conceitua-se os diferentes tipos de desigualdades aqui estudadas. Desigualdades Materiais Algumas formas empregadas para se medir as desigualdades materiais, ou seja, de renda e acúmulo de capital, são através da análise e compreensão de programas do Estado voltados a superação da fome, por exemplo, hoje transformados em programas mais amplos, como o Programa Bolsa Família (PBF) e também através da diferenciação de classes sociais medidas pelos rendimentos brutos familiares. Além disso, é possível verificar o abismo que existe entre os mais ricos e os mais pobres através de dados obtidos da Declaração do Imposto de Renda no Brasil, como mostram Medeiros, Souza e Castro (2012). Contribuindo para o tema, Cattani e Oliveira (2012, p.17) consideram que, ao se medir a desigualdade de renda entre as populações, o que se percebe é alarmante: Considerando-se o “polo pobreza”, existe uma infinidade de situações que comprovam a permanência, se não o aumento, de bolsões de miséria, de condições degradadas da existência humana. Milhões de indivíduos no mundo todo são afetados pelo flagelo da miséria e incontáveis estatísticas oficiais e estudos científicos atestam a existência de desigualdades comparáveis às piores condições humanas do passado pré-capitalista. Alberto Bialakowsky (2007), um dos mais eminentes sociólogos da América Latina, se refere mesmo a existência de populações extermináveis, submetidas a um holocausto permanente. 4 A contribuição de Cattani e Oliveira (2012) se materializa a partir das considerações de Medeiros, Souza e Castro (2012), ao analisarem dados da Declaração do Imposto de Renda no Brasil. De acordo com estes autores, os 0,1% mais ricos do Brasil receberam, em média, no ano de 2012, mais de 2,3 milhões de reais, enquanto os 5% mais ricos, também em média, e no mesmo período, receberam cerca de 197 mil reais. O que se percebe, mesmo voltando-se a diferença entre os 0,1% e os 5% mais ricos, é uma grande distância entre os totais per capta, porém, ao se comparar com uma família que recebeu, por exemplo, dois salários mínimos por mês4, em 2012, confirma-se a preocupação de Cattani e Oliveira (2012). Desigualdades Imateriais Conforme já citado anteriormente, no início deste capítulo, as desigualdades imateriais existem e não são menos importantes do que as materiais, pelo contrário, ambas estão imbricadas onde uma contribui para a maximização da outra, e vice e versa. Para Veronese (2009a, p.4), “o modo como a dominação econômica, política e cultural produz e reproduz as desigualdades se traduz em hierarquias entre os tipos de conhecimento e de prática social exercidos entre os atores”, o que, evidencia a influência dos diferentes tipos de desigualdade sobre a vida dos sujeitos. Os pobres não só são excluídos do sistema bancário, mas também dos espaços educativos, midiáticos e informacionais, das oportunidades de trabalho digno e bem remunerado, dos espaços decisórios e da possibilidade de se auto-representar de forma positiva. Suas subjetividades, modo de ver o mundo, maneira de viver, senso estético, são descartados como alternativas não credíveis e não desejáveis de vida (VERONESE, 2009a, p.4). A partir da contribuição da autora, o que se constata é que, realmente, as desigualdades são para além da questão econômica, aparecendo também em áreas como o acesso a cultura, a participação nos espaços público, acesso a educação de qualidade, etc.. Souza (2009, p.19-21) aponta que, o que ele chama de “herança imaterial” acaba por reproduzir ainda mais as diferenças materiais, a saber: É a herança imaterial, mesmo nesses casos de frações de classes em que a riqueza material é o fundamento de todo privilégio, na verdade, que vai permitir casamentos vantajosos, amizades duradouras e acesso a relações sociais privilegiadas que irão permitir a reprodução ampliada do próprio capital material. [...] Essa herança da classe média, imaterial por excelência, é completamente invisível para a visão economicista dominante do mundo. Tanto que a visão economicista “universaliza” os pressupostos da classe média para todas as “classes inferiores”, como se as condições de vida dessas classes fossem as mesmas. [...] O processo de modernização brasileiro constitui não apenas as novas classes sociais modernas que se apropriam diferencialmente dos capitais cultural e econômico. Ele constitui também uma classe inteira de indivíduos, não só sem capital cultural nem econômico em qualquer medida significativa, mas desprovida, esse é o aspecto fundamental, das precondições sociais, morais e culturais que permitem essa apropriação. 4 Em 2012 o salário mínimo do Brasil era de R$ 622,00. Dois salários mínimos por mês (R$ 1.244,00) representavam R$ 14.928,00 por ano. Ou seja, uma família com renda de dois salários mínimos por mês, acumula apenas cerca de 7,5% se comparado aos 5% mais ricos. 5 Analisando Souza (2009), o que se conclui é que as relações sociais provocam produção e reprodução das desigualdade imateriais que, se a cabo, refletem também nas questões materiais (econômicas). Em outras palavras, os ricos possuem relações culturais e privilégios, por exemplo, que proporcionam um ponto de partida muito mais vantajoso que os pobres. O papel das Políticas Públicas As políticas públicas aparecem como uma ferramenta do Estado para enfrentar os problemas sociais e objetivar os avanços necessários para proporcionar uma vida justa à todos. São consideradas políticas públicas todas as ações de um projeto de governo que objetive avanços sociais ou econômicos. Apesar disso, de acordo com Souza (2006, p.2), na América Latina, ainda não se conseguiu formar coalizões políticas capazes de equacionar minimamente a questão de como desenhar políticas públicas capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico e de promover a inclusão social de grande parte de sua população. Ou seja, até mesmo por tratar-se de “jovens” democracias, ainda é preciso grande avanço neste campo na América Latina e no Brasil. O que estão postos, porém, são os desafios e enfrentamentos necessários. As desigualdades, sem dúvidas, aparecem como um destes problemas a serem solucionados. Se o que se vive no Brasil, por exemplo, é um Estado democrático e é o Estado o detentor destas ferramentas, as políticas públicas, é preciso entender, mesmo que minimamente, o papel dos governos enquanto propositores destas políticas, em Souza (2006, p.4): Debates sobre políticas públicas implicam responder à questão sobre o espaço que cabe aos governos na definição e implementação de políticas públicas. Não se defende aqui que o Estado (ou os governos que decidem e implementam políticas públicas ou outras instituições que participam do processo decisório) reflete tão somente as pressões dos grupos de interesse, como diria a versão mais simplificada do pluralismo. Também não se defende que o Estado opta sempre por políticas definidas exclusivamente por aqueles que estão no poder, como nas versões também simplificadas do elitismo, nem que servem apenas aos interesses de determinadas classes sociais, como diriam as concepções estruturalistas e funcionalistas do Estado. No processo de definição de políticas públicas, sociedades e Estados complexos como os constituídos no mundo moderno estão mais próximos da perspectiva teórica daqueles que defendem que existe uma "autonomia relativa do Estado", o que faz com que o mesmo tenha um espaço próprio de atuação, embora permeável a influências externas e internas (Evans, Rueschmeyer e Skocpol, 1985). Essa autonomia relativa gera determinadas capacidades, as quais, por sua vez, criam as condições para a implementação de objetivos de políticas públicas. A margem dessa "autonomia" e o desenvolvimento dessas "capacidades" dependem, obviamente, de muitos fatores e dos diferentes momentos históricos de cada país. De acordo com o que Souza (2006) traz para o debate, é do tensionamento entre as demandas da sociedade, organizada ou não como movimentos sociais, que o que a autora chama de “autonomia relativa do Estado” aparece como fator determinante para a criação, implementação e avaliação de políticas públicas. Em outras palavras, por mais que uma política pública seja 6 demandada pela sociedade, ou seja, de baixo para cima, é o Estado (ou os governos) que tem o poder de implementação de cima para baixo. “Sabemos que a desigualdade não é um fato natural, mas sim uma construção social. Ela depende de circunstâncias e é, em grande parte, o resultado das escolhas políticas feitas ao longo da história de cada sociedade” (SCALON, 2011, p.50), desta forma, considerando-se a desigualdade como o resultado de escolhas políticas, o Estado deveria, pelo menos em uma situação considerada ideal, se utilizar de sua autonomia frente as decisões de importância social, para pensar e propor políticas públicas que deem conta deste problema que pode ser visto como um paradoxo, haja vista que, o Estado é capitalista e o capitalismo produz desigualdade, porém, é este mesmo Estado que têm nas mãos a autonomia para combater essa mesma desigualdade. Tem-se até aqui neste trabalho, elementos que tornam capaz de se constatar que o Brasil é um país com grandes problemas de desigualdade e que as políticas públicas, mesmo no Brasil, um país com uma democracia bastante recente, aparecem como uma ferramenta capaz de solucionar problemas como a própria desigualdade. Porém, uma política pública precisa estar calcada em programas que a façam eficaz. A seguir, apresentam-se alguns aspectos fundamentais da economia solidária, para que se possa pensar nesse “movimento” como política pública de diminuição das desigualdades e combate a pobreza extrema. A Economia Solidária como movimento contra-hegemônico ao sistema capitalista Se a economia tradicional e dominante, mesmo quando em alta, não suporta todos os cidadãos em seus postos de trabalho, outras formas aparecem como alternativa para esta questão, Veronese (2009b, p.4) trata desta “segunda via”: O caráter contraditório das relações sociais na contemporaneidade abre espaços para que distintos atores sociais busquem oportunidades para o encaminhamento de suas demandas, incluindo aqueles que se veem sem possibilidades de inclusão digna no mercado de trabalho predominantemente capitalista. Diante dessa realidade, o trabalho associativo e cooperativo parece ser uma das respostas viáveis, em termos de condições e meios de trabalho, ao considerar-se o empobrecimento das populações e a falta de oferta de emprego. Aqui, a baixa oferta de emprego que contribui para o aumento da desigualdade se apresenta como um problema social a ser combatido. Neste mesmo sentido, Veronese (2009b) complementa dizendo que a ES aparece como alternativa à baixa oferta no modelo de economia dominante, o que é confirmado por Gaiger e Laville (2009, p.162): “A economia solidária é um conceito amplamente utilizado em vários continentes, com acepções variadas que giram ao redor da ideia de solidariedade, em contraste com o individualismo utilitarista que caracteriza o comportamento econômico predominante nas sociedades de mercado”. 7 Entre os valores fundamentais das experiências de economia solidária, a partir de práticas baseadas em autogestão, estão: democracia; participação; igualitarismo; cooperação; viabilidade; responsabilidade social; e desenvolvimento humano (GAIGER, 2003). Ao que Asseburg e Ogando (2006), ainda adicionam a solidariedade. Isso mostra que a ES é uma alternativa de inclusão dos cidadãos no trabalho e, além disso, sob uma forma “não alienante”, resgatando aqui o conceito de alienação do sujeito, de Karl Marx5. Ao se listar tais características, é possível se imaginar que o trabalho, para os indivíduos que ali estão, seja de fato um trabalho digno e mais gratificante do que o trabalho naturalizado pela economia dominante, fazendo com que os sujeitos envolvidos neste movimento transcendam a lógica de mercado, calcada no individualismo e na competição, com vistas a um projeto de autonomia econômica e social. Asseburg e Gaiger (2007, p.509-510) contribuem relatando que A valorização do protagonismo dos atores econômicos como um elemento estratégico para o seu êxito é correntemente aplicada àqueles segmentos patronais que empregam os trabalhadores. Quando estes resolvem prescindir de patrões e empregar por sua conta seus recursos produtivos, direcionando para esse fim o seu fundo de trabalho comum(Coraggio, 1999:142-145), o que sucede? Quando algumas das rédeas da sua vida econômica passam às suas mãos, os trabalhadores reproduzem ou reduzem as desigualdades? A pergunta trazida pelos autores não é de fácil resposta, porém, a busca por esta resposta talvez apareça como um dos elementos mais importantes deste esforço. Se o objetivo é verificar como as políticas públicas aparecem como ferramenta de promoção da economia solidária, na busca pela diminuição das desigualdades materiais e imateriais, o que está se querendo, também, é justamente dar as rédeas aos trabalhares, a rigor, pobres, visto que entre as características da economia solidária estão a participação, a democracia e cooperação, entre outros. Relações entre Desigualdades, Políticas Públicas e Economia Solidária Conforme já supracitado, porém, de forma fragmentada, entende-se que a ampliação e reprodução de práticas como as verificadas nas experiências de Economia Solidária, através de seus Empreendimentos Econômicos Solidários e das suas redes, podem se caracterizar como uma forma promissora de movimento contra-hegemônico ao capitalismo e de diminuição das desigualdades. O Estado, através de sua autonomia relativa pode, a partir da promoção e implementação de políticas públicas, promover o movimento de ES, como já o faz, inclusive, a nível nacional e também em alguns estados. Neste sentido, Schiochet (2009, p. 268), afirma: 5 Para Karl Marx, sujeito alienado é aquele que não consegue perceber a possibilidade de uma mudança. O sujeito que não se reconhece no produto de seu trabalho, que não se satisfaz na sua atividade de trabalho, que não se reconhece enquanto membro de um gênero e que não reconhece a alteridade é um sujeito impotente. É a reprodução perfeita das estruturas vigentes em uma sociedade pautada pelo trabalho e em que a estrutura econômica assume papel determinante. 8 O consenso é que somente como política pública a economia solidária poderá sair do seu confinamento (França Filho et al., 2006)6 e “experimentalismo social” para se constituir em uma força contra-hegemônica capaz de construir uma “outra economia”, plural para uns, socialista e autogestionária para outros. Existe uma clara dimensão normativa na análise da economia solidária como política pública, que corresponde a uma identificação entre as políticas públicas de economia solidária e determinados partidos e grupos políticos que ascendem ao governo (por exemplo, radicais, socialistas, verdes). Atualmente, o maior agente institucional para o desenvolvimento e fortalecimento da ES no Brasil é a SENAES7. A SENAES, por exemplo, possui autonomia para a formatação de convênios com municípios, a fim de fortalecer a ES e, por sua vez, reduzir as desigualdades. Confirmando a importância da ES como alternativa a economia tradicional e dominante, recentemente, após rumores de extinção da SENAES, Boaventura de Souza Santos enviou uma carta aberta8 ao Governo Federal Brasileiro, expondo sua preocupação e atenção em relação a continuidade desta secretaria: Sendo assim, me junto ao apelo dos movimentos sociais e venho, por meio desta carta, requerer a manutenção e a ampliação desta política pública executada pela Secretaria Nacional de Economia Solidária, em parceira com o movimento popular de economia solidária e liderada por Paul Singer – nome que tem a confiança dos movimentos sociais. Boaventura têm importantes estudos relacionados a ES e em trabalhos que tratam da Ecologia dos Saberes e das Epistemologias do Sul, por exemplo, aprofunda os debates acerca das desigualdades imateriais e de suas consequências sociais. O caso da diretoria de Economia Solidária e da Incubadora Pública de Economia Solidária do Município de Novo Hamburgo (RS) Para conhecer a experiência desenvolvida da cidade de Novo Hamburgo (NH), os autores deste esforço realizaram entrevistas diretamente com a gestora da Incubadora Pública de ES que também exerce a função de diretora de ES do município. Além disso, foi realizada observação participante em um Fórum Municipal de Economia Solidária. 6 Ver FRANÇA FILHO, G. C. et al. (Org.). Ação pública e economia solidária: uma perspectiva internacional. Salvador: Edufba; Porto Alegre: Ed. da UFRGS. 2006. 7 Secretaria Nacional de Economia Solidária. 8 Disponível em: http://www.fbes.org.br/index2.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=1948&Itemid=18. 9 Figura 1 – Estrutura e hierarquia da Economia Solidária no Município de Novo Hamburgo (RS) Fonte: Elaborado pelos autores Conforme a Figura 1, a Diretoria de ES do município é subordinada a SEDETUR, apesar de, segundo a diretora entrevistada, dialogar constantemente com as demais secretarias municipais a fim de promover o movimento. A Diretoria de ES é responsável pela realização dos Fóruns Municipais de ES e pela gestão da Incubadora Pública de ES. Além disso, também subordinado a SEDETUR, existe o Conselho Municipal de ES, que tem como objetivo principal entregar ao poder público as demandas vindas dos Empreendimentos Econômicos Solidários. A Incubadora Pública de Economia Solidária de NH A Incubadora Pública de ES de NH se consolidou em janeiro de 2013, a partir de um convênio da prefeitura municipal, através da Diretoria de ES, com a SENAES. Contando com amplo espaço físico, localiza-se no centro da cidade. Atualmente atende cerca de 150 mulheres, todas beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF), o que reafirma o papel da ES como uma forma de redução das desigualdades e superação da pobreza. Quando iniciou seus trabalhos, em 2013, a incubadora chegou a atender mais de 250 mulheres. A captação de pessoas para a incubadora aconteceu através de parceria com a SMDS9 do município, que auxiliou através dos atendimentos direto nos CRAS10, da busca ativa e de outras iniciativas. Em janeiro de 2015, quando completara dois anos de atuação, a incubadora terminou um primeiro ciclo com as mulheres participantes. Três EES foram consolidados. Ao final do primeiro semestre do ano de 2015 a incubadora iniciou um novo ciclo com novas mulheres sendo incubadas, 9 Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. Centro de Referência em Assistência Social. 10 10 entretanto, neste momento (Julho/2015), a incubadora realiza oficinas abertas de formação técnica por ainda não ter conseguido reunir os esforços necessários para a formação de uma nova turma. Prioritariamente, a incubadora forma competências técnicas relacionadas ao artesanato, com utilização de resíduos oriundos de diversas fontes. Porém, já existem movimentos para oficinas de fabricação de móveis, serviços diversos (jardinagem, limpeza residencial, entre outros), confecção de calçados, etc.. Como percebido em um grande número de EES já consolidados, os ganhos econômicos também não são considerados relevantes no caso das mulheres incubadas. Normalmente elas veem na ES uma alternativa para complementação de sua renda principal, que pode ser proveniente de programas assistenciais ou mesmo de atividades autônomas e/ou informais. As mulheres recebem lanches e vale transporte por participarem do projeto, além de existir uma política de comercialização do que é produzido na incubadora. Empresas (para captação de resíduos recicláveis), a Universidade Feevale (para assessoria em formações), as demais secretarias municipais, além de feiras semanais e em eventos culturais na cidade, aparecem como atores importantes no desenvolvimento de uma rede eficiente dentro do projeto. A incubadora apresenta também papel fundamental na formação de consciência coletiva e cidadã das pessoas envolvidas. De acordo com a gestora, das 150 mulheres que estão incubadas, a grande maioria apresentou alto poder de compreensão sobre as questões de pertencimento, autonomia e emancipação. Grupos se formaram por afinidade e sempre trabalharam com nível elevado de comprometimento. As formações de consciência coletiva sobre autogestão, associativismo, cooperação, emancipação, etc., são trabalhadas, a rigor, pela própria gestora no diaa-dia e também como parte do “plano de curso”. Já as formações técnicas, atualmente, são realizadas através de parceria com o SENAC11. Acerca das formações de consciência coletiva e cidadã, cabe destacar, na íntegra, uma fala da gestora: Eu, esses dias, fiz com elas uma dinâmica, foi em uma formação há um pouco mais de tempo. Eu disse: vamos fazer um desenho ou vocês escrevem. Como nem todas escrevem, quem quisesse poderia escrever e quem preferisse poderia desenhar. O desenho ou o texto era pra dar conta de representar o que vocês (as mulheres) pensam da incubadora. Foi muito legal o que elas desenharam. Muitas desenharam casas, representando acolhimento e outras desenharam flores. Gostaria de saber o que subjetivamente representam as flores. Em um dos grupos, desenharam mesas com cadeiras minúsculas, o que representa uma maior importância ao ambiente do que as pessoas que ali frequentam. Foi muito interessante o que elas escreveram! Enfim, na fala, ao explicar seus desenhos e textos elas acharam excelente poder conversar mais, participar mais de forma ativa. Uma colocou e eu achei muito interessante, que eu (a gestora) sou uma pessoa provocativa e que pela primeira vez ela se permitiu que alguém mexesse no íntimo dela. Eu pensei: Meu Deus, isso é muito forte! 11 Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. 11 Nesta conversa a gestora relatou ter tratado de assuntos como a atual crise econômica, as possibilidade s regulamentação do aborto e de redução da maioridade penal e, além disso, questões sobre a exploração do trabalho na economia dominante. Uma atividade que se iniciou com uma proposta pedagógica dada e que acabou abordando diversos outros temas importantíssimos aos debates sociais. A gestora ainda relatou um caso específico de uma mulher participante do projeto como exemplo de superação pessoal, mas também, de eficiência da incubadora como forma de emancipação e empoderamento: A participante do projeto que gostaria de usar como exemplo positivo chegou aqui, ainda em 2013, em condição de analfabetismo. Após algumas conversas, muitos incentivos, consegui articular uma vaga para ela nas séries iniciais do EJA12 em uma escola da cidade. Hoje ela já sabe ler quase tudo e escreve seu nome e mais algumas palavras, porém, o mais importante foi a transformação percebida nela como pessoa. Era quieta, não falava muito, hoje é quem puxa a frente, não deixa as colegas para baixo e faz a coisa acontecer. No seu bairro, é responsável pela indignação de diversas outras mulheres e as motiva dia após dia a buscarem uma condição de vida melhor. Esse é um caso pessoal que muito me orgulha! A incubadora não conta com um regimento interno, atualmente, que apresente o desenho de um ciclo com início e fim para as participantes do projeto, porém, a primeira “turma” já está incubada a dois anos. Alguns limites para a formação e consolidação dos EES Após a participação do autor em um encontro do Fórum Municipal de ES, pode-se constatar o que talvez seja um dos maiores desafios para todo o movimento de ES no município e, por que não, no Brasil: a formação dos grupos com vistas a criação de um EES. De acordo com o relato de um participante do encontro, é de difícil compreensão a resistência dos participantes da ES na cidade em formar grupos de trabalho, para que encaminhem a certificação estadual reconhecendoos com um EES e também para que possam otimizar seus esforços. Um EES certificado pode, por exemplo, comercializar para o estado como participante da ES, o que, para um trabalhador informal ou legalizado como Micro Empreendedor Individual, não é permitido. Outra dificuldade sinalizada, aqui pela gestora da incubadora, foi em relação as questões de comercialização. Segundo ela, “as mulheres acabam orientando seus produtos de acordo com o que gostam de fazer, sem pensar no consumidor, o que dificulta, muitas vezes, a comercialização do que é produzido”. Considerações Finais As primeiras análises conclusivas, ainda que precoces – é pequena a quantidade de pesquisas relacionando as iniciativas do Estado para a promoção da economia solidária como forma 12 Educação para Jovens e Adultos. 12 de redução das desigualdades e combate à pobreza –, apontam para a seguinte resposta: sim, o Estado tem papel relevante para a sobrevivência do movimento através de políticas públicas que promovam o movimento e que assistam os EES depois de consolidados. O que se pôde perceber, após a revisão teórica e a fase de campo, é que a economia solidária aparece como uma alternativa real de redução das desigualdades, tanto as materiais, através da complementação da renda de famílias que recebem recursos de programas como o PBF, por exemplo, como das imateriais, a partir do aumento do nível educacional e do alcance da alfabetização e da formação de consciência coletiva e cidadã. Conforme apresentado acima, é determinante que políticas públicas como a que deu origem a incubadora estudada, dê conta, além da formação técnica, da formação de consciência coletiva e cidadã, só assim, limites como o apresentado pelo participante do fórum, que ainda permite que o individualismo transcenda a coletividade, sejam superados. Sendo assim, conclui-se que políticas públicas que promovam a formação, tanto técnica como de consciência coletiva e cidadã, dos sujeitos envolvidos, que viabilizem a criação de novos EES, que articulem e fortaleçam as redes, e que coloquem em evidência a ES como uma alternativa para maior equidade e combate a pobreza, podem, a médio e longo prazo, ajudar à torna-la cada vez mais uma realidade e a aumentar sua abrangência em detrimento ao modelo tradicional e dominante de economia que, notoriamente, não suporta todos os sujeitos no seu sistema de produção e que não distribui a riqueza acumulada de forma justa. Referências ASSEBURG, Hans Benno; GAIGER, Luiz Inácio. A Economia Solidária diante das Desigualdades. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 50, nº 3, 2007, p.499 a 533. ASSEBURG, Hans Benno; OGANDO, C.B. A Economia Solidária no Rio Grande do Sul: resultados do primeiro mapeamento nacional. A perspectiva dos direitos humanos. San José, UNESCO, 2006, 82p. 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