13. Determinantes do envelhecimento ativo Sara Nigri Goldman Vicente de Paula Faleiros Você se lembra da situação de Dona Joana, relatada no Módulo 1? Dona Joana vive fazendo seus doces, cuidando da família e enfrentando muitos problemas cotidianos, mas gosta de votar e desconhece seus direitos. Após sua visita ao Posto de Saúde, ela decidiu mudar de vida e ter um envelhecimento ativo, pois se deu conta de que estava com problemas de hipertensão, além de ter que cuidar da fratura na perna causada por uma queda. Sua perna foi engessada e ela pôde retomar o trabalho. Enquanto se recuperava, teve que fazer seus doces sentada, mas em conflito com a filha, que cobrava dela a atenção para os netos, e com o filho, dependente químico. O sofrimento de Dona Joana fazia com que intensificasse suas orações e desabafava sozinha chorando, triste e deprimida. Usava seus chás para se acalmar, mas passava as noites despertando, principalmente por ter que obter a renda necessária para os remédios e para atender seus compromissos financeiros. Depois de ter tirado o gesso, uma cliente convidou-a para uma reunião com umas amigas que caminhavam no parque próximo de sua casa. Ela começou a ir à reunião e, mesmo devagar, foi participando das caminhadas aos domingos com as novas amigas. Essa atitude de mudança de comportamento fez com que melhorasse seu estilo de vida, o que, no processo de envelhecimento ativo, é caracterizado como uma forma de autocuidado para tornar o envelhecimento mais saudável. 317 ENVELHECIMENTO E SAÚDE DA PESSOA IDOSA Dona Joana não fumava nem usava álcool, vivia sempre trabalhando, esquecendo-se de si mesma e deixando de cuidar de sua roupa, de reparar os estragos em sua casa e mesmo de ir a um oculista, apesar de ter confundido um dia o açúcar com o sal, perdendo uma remessa de doces. Esta forma de descuido consigo se chama autonegligência e é uma das formas de violência muito comum, porém pouco percebida pelos profissionais da saúde. Atividade 1 Relacione as estrofes do “Poema do mais triste maio”, de Manuel Bandeira (2001), com a depressão e a situação social de Dona Joana. O poema está disponível no blog http://cardeo.blogspot.com/2008/03/agora-vou-conheceruma-baiana-que-vai.html. Manuel Bandeira, apesar da consciência da velhice, conseguiu escrever um poema, e Dona Joana conseguiu sair da situação de restrição pessoal e social para cuidar e também saber de si. Elabore um texto sintético com sua análise e envie para o tutor. Para refletir Cora Coralina, poetisa e também doceira, escreveu: A autora destas estrofes, Cora Coralina, assumiu sua identidade num processo de muita luta contra o machismo, a sociedade de seu tempo e os preconceitos da academia. Publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade. Procure se informar sobre Cora Coralina na internet. Estrofe do poema “Semente e fruto” “Fiz nome bonito de doceira, glória maior. E nas pedras rudes de meu berço gravei poemas.” Estrofe do poema “Todas as vidas” “Vivi dentro de mim a lavadeira do rio Vermelho Seu cheiro gostoso d’água e sabão” “Vivi dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha e filharada.” 318 Determinantes do envelhecimento ativo Estrofes do poema “Minha cidade” “Minha vida meus sentidos, minha estética, todas as vibrações de minha sensibilidade de mulher, têm, aqui, suas raízes”. Estrofes do poema “Eu sou aquela Mulher” “Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. Ensinou o amar a vida. Ser otimista”. Fonte: Cora Coralina (TELES, 2003). Atividade 2 Contraponha as estrofes de poemas de Cora Coralina ao poema de Manuel Bandeira, destacando as similaridades e diferenças. Envie para o tutor Dona Joana tem uma boa condição genética, que são fatores pessoais, mas sua saúde e sua participação dependem também das condições sociais, além das comportamentais. Os determinantes para o envelhecimento ativo estão apresentados na Figura 1, a seguir, de autoria da Organização Mundial da Saúde (www. opas.org.br). Para saber mais, leia a publicação Envelhecimento ativo: uma política de saúde da Organização Mundial da Saúde (2005), na página eletrônica do Ministério da Saúde http:// portal.saude.gov.br/portal/ arquivos/pdf/envelhecimento_ ativo_idoso.pdf. O documento também está disponível na biblioteca do AVA e no CD-ROM do curso. 319 ENVELHECIMENTO E SAÚDE DA PESSOA IDOSA Figura 1 – Os determinantes do envelhecimento ativo Fonte: Organização Mundial da Saúde (2005, p. 19). É importante notar que as dimensões de gênero e cultura perpassam todos os determinantes, pois o envelhecimento se apresenta objetiva e subjetivamente diferente conforme as culturas e situações de gênero. Apesar de pensionista, Dona Joana continua trabalhando, nem percebeu que a aposentadoria deveria ser um momento muito especial na vida dos trabalhadores, que lhe permitiria ter tempo livre, usufruir de espaços de sociabilidade. Algumas de suas amigas ficaram deprimidas ao saírem da atividade produtiva, principalmente o seu vizinho, Seu Vitor, 65 anos, morador da rua Sergipe n. 5, que se sentiu “vagabundo”, e, além disso, sua permanência em casa não foi muito bem aceita. O chefe do Seu Vitor, Seu Antenor, 68 anos, morador da rua Mato Grosso do Sul n.10, no entanto, se preparou melhor para a aposentadoria, usando o Programa de Preparação para a Aposentadoria, encontrado na Biblioteca do AVA e no CD-ROM do curso. 320 Determinantes do envelhecimento ativo Atividade 3 Você conhece algum Programa de Preparação para a Aposentadoria? Como funciona? Converse com os idosos do seu território sobre suas atividades na velhice e preencha o seguinte quadro. O que fazem O que gostariam de fazer Recursos do município Oportunidades para o envelhecimento Faça um comentário crítico sobre o quadro e envie para o tutor. Dona Joana, no entanto, é independente e tem sua autonomia de decisão condicionada pelas suas relações sociais e pelos meios de que dispõe. Sua independência está vinculada à sua capacidade funcional, mas sua autonomia depende de suas decisões. Uma amiga, mesmo numa cadeira de rodas, toma decisões sobre sua vida. A autonomia de uma pessoa consiste na possibilidade de intervir, de decidir sobre sua vida, seus projetos, suas ações em interação com outras pessoas. A independência é, não somente a capacidade, mas a habilidade de lidar com as tarefas da vida diária como se alimentar, vestir-se, caminhar, telefonar. Atividade 4 Distinga independência de autonomia. Para realizar esta atividade, consulte os conceitos abordados na Unidade de Aprendizagem III, Módulo 6 – Processo de envelhecimento. Envie para seu tutor. 321 ENVELHECIMENTO E SAÚDE DA PESSOA IDOSA Na família e na sociedade, muitas vezes nega-se à pessoa idosa a sua autonomia com a justificativa de perda da sua independência. Uma pessoa dependente de cuidados para a vida diária pode conservar a sua autonomia. Veja os filmes Mar Adentro e Invasões Bárbaras, nos quais, respectivamente, um tetraplégico e um moribundo idoso tomam decisões sobre sua morte em consonância com suas trajetórias de vida. Os filmes sugeridos podem ser encontrados nas locadoras de vídeo de seu bairro/região. É interessante ler o livro Incidente em Antares, de Erico Verissimo (2006), que conta a história de mortos que voltam do túmulo para presenciar as discussões dos herdeiros. Para conhecer mais sobre cuidados para idosos, leia o livro Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra, de Leonardo Boff (1999). Do ponto de vista ético, cabe à pessoa idosa deliberar sobre seu tempo, seu dinheiro, seus bens, a menos que tenha uma incapacidade que tolha essas faculdades. Nas famílias, muitas vezes as pessoas idosas são pressionadas para não saírem de casa, para não comerem o que gostam e mesmo para não namorarem ou terem novos companheiros ou companheiras. Às vezes, para não dividir seus bens sobre os quais estão de olho os herdeiros. Na conjuntura atual, de desemprego de jovens e de novos arranjos familiares, o idoso é solicitado a amparar os membros mais novos de sua família. Não só em função do desemprego, mas também do trabalho dos pais, está se tornando comum que os avós cuidem dos netos. O pedido de guarda dos netos na Justiça, por parte das avós, está aumentando. O crédito consignado, não raro, está sendo usado pelos filhos ou parentes das pessoas idosas para atenderem suas necessidades, em detrimento das condições de vida do próprio idoso. A perda da independência se amplia com o passar dos anos e os idosos precisam de seus recursos para cuidar de si, para seu lazer e para seus remédios. Os idosos, principalmente os dependentes e semidependentes, precisam de cuidados. Essa dialética do cuidado há que ser contemplada, não só no interior das famílias, mas também por meio da concretização de políticas sociais. Historicamente, o cuidado tem sido atribuição quase exclusiva do sexo feminino. Uma cena cada vez mais freqüente revela mulheres idosas cuidando de outros idosos, o que pode acentuar ainda mais a vulnerabilidade dessas mulheres. O cuidado se torna ainda mais difícil pela implementação, ainda precária, de alternativas ao isolamento, como os recursos previstos na Lei n. 8842/94 (BRASIL, 1994), tais como: centros-dia, hospitais-dia, casas-lares, repúblicas, oficinas abrigadas de trabalho, atendimentos comunitários domiciliares e centros de convivências. Registre-se, também, que há a precariedade de pessoal qualificado para atendimento às necessidades básicas dos idosos. Por outro lado, as entidades de longa permanência, 322 Determinantes do envelhecimento ativo necessárias em algumas situações, chamadas Instituições de Longa Permanência para Idosos, costumam ser filantrópicas ou privadas – estas com preço inacessível para a população de média e baixa renda, além de contarem, em sua maioria, com serviços insatisfatórios para os idosos. Assim, a família se sente cada vez mais onerada no trato de seus membros de todas as gerações que apresentem vulnerabilidades de toda ordem. Volta-se, assim, ao que Guita Debert (1999) chama de “reprivatização da velhice”, que corresponde ao afastamento gradual do Estado de sua função de proteção, delegando às famílias, brutalmente afetadas pelas mazelas do neoliberalismo, a responsabilização pelo atendimento às situações de vulnerabilidade. Referências BANDEIRA, M. Poema do mais triste maio. In: ______. Antologia poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. BRASIL. Lei n. 8.842, de 4 de janeiro de 1994. Dispõe sobre a política nacional do idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, p. 77, 5 jan. 1994. DEBERT, G. G. A reinvenção da velhice: socialização e processo de reprivatização da velhice . São Paulo: EDUSP; FAPESP, 1999. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Tradução: Suzana Gontijo. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005. Disponível em: <http://portal. saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/envelhecimento_ativo_idoso.pdf> TELES, J. M. No santuário de Cora Coralina. 3. ed. Goiânia: Kelps, 2003. VERÍSSIMO, E. Incidente em Antares. São Paulo: Cia. das Letras, 2006. 323