Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
O TRABALHO NA TERCEIRA IDADE: A CONTINUAÇÃO DE UMA
IDENTIDADE SOCIAL?
Rosimeire de Oliveira
Sueli Galego de carvalho
Universidade Presbiteriana Mackenzie – São Paulo, Brasil
Resumo
O número de idosos tem aumentado cada vez mais. Este fato é indicador de progresso
social, porém, traz novas demandas e novos problemas. No Brasil ainda temos poucos
estudos voltados para a terceira idade, e também uma escassez de investimento
público destinado a essa população. Grande parte dos idosos, no Brasil, e no mundo
permanece trabalhando depois da aposentadoria. Esta é uma conquista dos
trabalhadores, mas a mudança do trabalho para o repouso gera transformações
altamente significativas. O trabalho tem valor moral na sociedade moderna e o ócio é
tido como imoral, e, no entanto o indivíduo passa a pertencer ao grupo dos ociosos
após a aposentadoria. O objetivo deste estudo é identificar o significado do trabalho
no cotidiano de um grupo de aposentados idosos. Foram entrevistados 10 idosos
aposentados que continuam trabalhando. As entrevistas foram gravadas em áudio e
transcritas. O roteiro de entrevista continha 12 perguntas semi-dirigidas. Os dados
coletados mostraram que os principais motivos para idosos continuarem trabalhando
são: gostar de trabalhar (100%); ter trabalhado a vida inteira e se acostumado com
essa condição (80%); necessidade financeira (70%); fugir do estigma de que idoso é
inútil (70%); manter contato social (60%). A necessidade financeira é bastante
relevante na manutenção do trabalho na terceira idade, porém, aspectos de motivação
intrínseca são os principais mantenedores do trabalho entre os participantes. Os
resultados apontam que políticas públicas devem considerar que parte dos idosos
deseja continuar ativa e promover condições satisfatórias para isto.
Palavras-Chave: Idoso, Aposentado, Trabalho
Introdução
Até o momento temos poucos estudos sobre o lugar do idoso e do aposentado
no mundo do trabalho. Porém, essa população tem aumentado cada vez mais (Neri,
Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
1993). O aumento da expectativa de vida é um indício de progresso social, no entanto,
isto traz novas demandas e novos problemas. As necessidades ocasionadas pelo
aumento do contingente de pessoas na terceira idade são acompanhadas de demandas
que precisam ser supridas pelas políticas públicas, pelas instituições e pela sociedade
de modo geral (Neri, 2004).
Segundo Neri (1993), é inevitável que o idoso sofra algumas perdas nesta fase
da vida, assim como ocorre em todas as etapas do desenvolvimento. Porém, há um
grande número de idosos que consegue manter a capacidade biológica e o
funcionamento biopsicossocial bem próximo aos dos adultos jovens. Pois, o acúmulo
de conhecimento e desenvolvimento de habilidades compensam as perdas naturais.
Desta forma, muitos idosos têm plena capacidade de continuarem
desenvolvendo uma atividade laboral de maneira satisfatória. O estigma social de que
o idoso é inútil e a aposentadoria o fim da carreira profissional de um indivíduo não
tem mais razão de existir no contexto atual da terceira idade. Mas, infelizmente, esta
ainda não é nossa realidade.
Segundo Bragança (2004), os significados do trabalho e da aposentadoria são
postulados pela lógica do capitalismo. Nesta lógica o indivíduo é valorizado pelo que
produz. Assim, muitas vezes, a aposentadoria é percebida como uma situação de
desvalorização em consequência do fim da participação no processo de produção
capitalista. A aposentadoria, muitas vezes, é o fim das atividades produtivas ou o fim
do trabalho remunerado com a chegada da terceira idade, criando a ideia de pobreza e
incapacidade e aumentando o imaginário social de estigma de inutilidade do idoso.
Surge aí um novo conjunto de valores e práticas de exclusão cultural e social.
O trabalho tem um papel muito importante na vida do homem moderno.
Segundo (Moser, 2001) moralmente o trabalho é tido como edificante, “o trabalho
enobrece o homem”. E o ócio como imoral, e, no entanto o indivíduo passa a
pertencer ao grupo dos ociosos após a aposentadoria.
Sendo o trabalho representante da identidade do indivíduo a aposentadoria
pode repercutir como uma perda de identidade, uma vez que, ele deixará de pertencer
a um determinado grupo social (Carlos et al., 1999).
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responsabilidade de seu(s) autor(es).
As pessoas vivem a experiência da aposentadoria de maneira diferenciada em
consequência dos diversos significados que dão para o trabalho e para a
aposentadoria. Para alguns, essa experiência é indesejada, já para outros a
aposentadoria é um evento aguardado na vida. A aposentadoria traz à tona dois
assuntos delicados; velhice e sobrevivência econômica. Muitas pessoas veem na
aposentadoria o veredicto da velhice.
Com a redução da renda os
aposentados podem vir a ter necessidades
financeiras ou a ter que baixar seu padrão de vida. Estes fatores associados podem
levar um indivíduo ao desespero. Para fugir dessa situação, muitos postergam a
aposentadoria ou não param de trabalhar depois dela.
A maior parte dos idosos que estão no mercado de trabalho é composta por
pessoas que dependem do rendimento da atividade para sobreviverem ou para manter
seu padrão atual de vida. O aumento no número de idosos ativos é consequência da
diminuição da renda trazida pela aposentadoria (Wajnman, et al., 2004).
Embora seja sabido que a aposentadoria geralmente representa redução na
renda, fatores de ordem emocionais são importantes reforçadores para que o
aposentado permaneça trabalhando, como por exemplo, o desejo de reconhecimento e
de continuar sendo útil em um meio social que é contextualizado pela capacidade de
produção (Carlos, et al., 1999).
Este estudo buscou investigar qual o significado do trabalho na vida de
pessoas idosas e aposentadas que continuam ativas em um período em que o esperado
é que elas estejam descansando.
Método
Foram entrevistados 10 aposentados de ambos os sexos, com idade entre 60 e
73 anos que não pararam de trabalhar após a aposentadoria e a terceira idade. O
roteiro de entrevista continha 12 perguntas semi-dirigidas. Não houve uma escolha
prévia das profissões, mas, buscamos entrevistar pessoas com diferentes tipos de
funções e remunerações. Dentre os participantes temos: 1 professora universitária, 1
taxista, 2 costureiras, 1 chefe de seção, 1 comerciante, 1 professor de inglês, 1
executivo, 1 doméstica e 1 consultor em marketing.
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Os entrevistados foram indicados para participarem da pesquisa por pessoas
que conheciam o estudo e tinham contato com aposentados que continuavam
trabalhando após os 60 anos. O primeiro contato com cada um dos participantes foi
feito por telefone. Neste contato, era explicado o objetivo da pesquisa e feito o convite
para a entrevista, que então era agendada. As entrevistas foram realizadas em local e
horário escolhidos pelos participantes.
As entrevistas foram gravadas em áudio para garantir fidedignidade à análise e
posteriormente foram transcritas para apoiar a análise dos dados. Os entrevistados
receberam informações sobre os objetivos do estudo e também sobre a liberdade de
participação e todos foram comunicados da possibilidade de se retirarem do estudo a
qualquer momento, segundo os padrões éticos necessários às pesquisas com seres
humanos.
Resultados
A análise dos dados revelou que o trabalho na terceira idade é uma forma de
manutenção da identidade dos sujeitos. Todos os entrevistados disseram que
continuam trabalhando pelo fato de gostarem de trabalhar (100%).
“Eu trabalho porque eu gosto de trabalhar mesmo” (68 anos, comerciante).
“Eu sempre trabalhei porque eu gosto muito” (72 anos, costureira).
“Tem gente que não gosta de trabalhar, mas eu gosto de trabalhar, eu gosto. Eu acho
gostoso” (68 anos, taxista).
Também foi possível observar que estes sujeitos estão condicionados ao
trabalho por terem trabalhado durante muito tempo de suas vidas. Dos 10
entrevistados 8 disseram não se acostumariam a ficar sem trabalhar (80%).
“A aposentadoria é para gente descansar. Mas, eu não consigo. Eu não consigo
porque eu me criei na agitação de trabalho. Eu não consigo ficar sem trabalhar”
(68, anos comerciante).
“Eu não quero parar também, sempre trabalhei” (61, anos doméstica).
“Eu vou trabalhar até o fim, sempre trabalhei e quero morrer trabalhando” (67, anos
executivo).
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Uma parte dos entrevistados citou que não conseguiria se manter apenas com
o valor da aposentadoria, pois o valor que recebem é muito baixo e por isso o trabalho
também significa uma forma de manutenção da sobrevivência (70%).
“Continuo primeiro por questão financeira, necessidade financeira” (60 anos
professora de inglês).
“Aposentadoria é uma ajuda que a gente tem. Mas a inflação acaba como tudo, não
sobra quase nada. Se eu for depender da aposentadoria eu não vivo” (66, anos
costureira).
“Para mim significa somente um complemento de ganho, porque o valor que a gente
recebe é tão pouco. Após 31 anos de trabalho, se você não trabalhar você não tem
como sobreviver com a aposentadoria” (62 anos, encarregado de seção).
O estigma de que o idoso é inútil e não tem mais valor como mão-de-obra é
algo que incomoda os entrevistados e eles fazem questão de negar este constructo
social. E uma das formas de negação é a permanência no trabalho (70%).
“E também poder produzir depois de uma certa idade dá conforto para as pessoas”
(60 anos, professora de inglês).
“O aposentado que não tem percepção intelectual da nova fase de vida vai se
deteriorar por se sentir inútil. Chega ao ponto se sentir inútil e se afunda no sofá e
para sua vida ali. Não tem nada mais negativo” (67 anos, executivo).
“Mas, parar de vez eu não quero. Assim a gente fica doente. Não quero não. Eu
quero ser útil fazer alguma coisa para ocupar a cabeça. Ser útil” (61 anos,
doméstica).
A análise dos dados também revelou que o trabalho é um importante meio de
contato com o mundo para estas pessoas. Os entrevistados sentem medo de ficar
isolados se deixarem de trabalhar (60%).
“Eu acho interessantíssimo você poder ter uma rede de contatos e interagir com as
pessoas. Acho o ponto negativo da aposentadoria é você perder sua rede de
contatos” (64 anos, consultora de marketing).
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“Fico sempre ativa, converso. Dentro de casa você fica muito isolada. No meu
trabalho eu converso, sei das coisas que estão acontecendo. Se eu não trabalhasse ia
ter que ficar o dia inteiro esperando minhas netas chegarem para poder conversar”
(66 anos, costureira).
“O que eu mais gosto no meu trabalho? Conversar com o público, né? Tenho os
amigos no ponto. Eu sou de falar muito com o povo, eu gosto de conversar, trocar
ideia, né?” (68 anos, taxista).
Considerações Finais
Foi possível verificar que o trabalho tem um papel muito importante na vida
do grupo de aposentados idosos. Porém, esse significado se apresenta em várias
vertentes.
O gosto pelo trabalho é unanimidade entre todos os participantes da pesquisa.
No entanto, o gostar de trabalhar pode ser resultado de um processo de
condicionamento ocorrido durante a vida profissional dos participantes. Pois, o
segundo motivo para a continuação do trabalho, mais citado nas entrevistas, foi o de
não se adaptarem com o ócio por terem trabalhado a vida toda e estarem acostumados
a esta rotina.
Ao pensar em trabalho, muitas vezes, fazemos uma relação direta com meio de
sobrevivência. O trabalho, para a maioria das pessoas, é uma imposição e a hipótese
inicial deste estudo seria que os entrevistados continuam trabalhando por necessidade
financeira. Porém, este não foi o motivo predominante surgido nas entrevistas. Sendo
assim, o trabalho não significa apenas uma questão econômica para este grupo de
idosos.
O estigma de que a pessoa que se aposentou e chegou à terceira idade é inútil,
é algo que incomoda, 7 dos 10 entrevistados. E o trabalho aparece como sendo uma
forma de fugir deste estigma, de negação deste ideário social pejorativo. Estes idosos
tentam colocar este constructo à prova por meio da permanência no trabalho.
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Os participantes também sentem necessidade de manterem contato social nesta
fase da vida. E talvez, o trabalho seja o meio escolhido para isso, devido à falta de
projetos de lazer e interatividade direcionados para idosos.
Para Bragança (2004), os significados do trabalho e da aposentadoria estão
pautados na lógica capitalista. Assim, as pessoas são valorizadas pelo que produzem.
Por isso, muitas vezes, a aposentadoria é vista como um fator de desvalorização
decorrente do fim da participação na produção capitalista. Este fato alimenta o
estigma social de inutilidade do idoso. E (Moser, 2001) observa que o trabalho é
altamente valorizado na sociedade moderna e o ócio é repudiado.
O estudo dos dados confirma as falas destes autores e revela que o trabalho
tem uma representação muito importante na identidade destas pessoas, pois ele é uma
atividade que preencheu grande parte das existências dos indivíduos. Para os
entrevistados há uma correlação entre existir e trabalhar. “Então, eu acho que é isso,
se você parar de trabalhar você morre um pouco” (SIC). E, além de meio de
sobrevivência, o trabalho é uma maneira de afirmação e de manutenção da autoestima dos sujeitos idosos. Por isso, se torna emergente a criação de políticas públicas
que abram espaço para a atuação destas pessoas no mercado de trabalho uma vez que
o trabalho significa a continuidade de manutenção da identidade social e
consequentemente uma vida saudável para estas pessoas. Com o aumento do número
de idosos em todo o mundo haverá também aumento da demanda de vagas de
trabalhos para pessoas na terceira idade.
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Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total
responsabilidade de seu(s) autor(es).
http://www.sumarios.org/listarRevistaN03.php?
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Acesso
em
27/09/2008 às 20:45.
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60. Rio de Janeiro: IPEA, v. , p. 453-480.
Rosimeire de Oliveira ([email protected]). Bacharel em Psicologia pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie. Cursando a formação em Psicólogo na mesma
instituição.
Sueli Galego de carvalho ([email protected]). Graduada em Psicologia,
Mestrado em Psicologia e Doutorado em Administração de Empresas. Professora do
Programa de Mestrado em Distúrbios do Desenvolvimento da U. P. Mackenzie e
Coordenadora de Pesquisa da instituição.
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