CAPÍTULO 1 Introdução ao Tema 1.1. O QUE É LIXO dos hábitos de consumo: enquanto a população mundial cresceu 18% entre 1970 e 1990, o lixo produzi- Lixo é normalmente conhecido como tudo aquilo do aumentou 25% no mesmo período. Atualmente, que não presta mais. Tecnicamente, é composto de o Brasil produz cerca de 240 mil toneladas diárias de restos das atividades humanas considerados inúteis, lixo, com uma produção média maior do que 1 kg indesejáveis ou descartáveis por seus geradores, apre- por habitante/dia (Pesquisa Nacional de Saneamento sentando-se sob o estado sólido, semi-sólido ou Básico, IBGE, 2000). semilíquido. Essa noção varia no espaço e no tempo, O Quadro 1 apresenta a variação da geração de de acordo com as diversas culturas. Na China antiga, resíduos por habitante no Brasil em função do tama- por exemplo, qualquer pedaço de papel contendo nho da população urbana. alguma escrita era considerado valioso e não deveria ser jogado fora, embora pudesse ser queimado como Quadro 1. Geração de lixo por habitante no Brasil por faixa de população ritual de respeito. Já para os antigos romanos, lixo, ou lix, significava cinzas, ou seja, recomendando sua queima. GERAÇÃO A dimensão do problema do lixo foi sendo percebida ao longo dos processos de urbanização e industrialização. No campo, sobras de alimentos podiam ser enterradas, decompondo-se no solo, enquanto outros resíduos eram eventualmente queimados. Mas o que fazer com resíduos de vidro e metal, ainda mais nas cidades, com muita área construída e grande den- DE LIXO POR HABITANTE NO BRASIL População Urbana (habitantes) Geração por Habitante (kg/hab.dia) Até 30 mil 0,50 De 30 mil a 500 mil De 0,50 a 0,80 De 500 mil a 5 milhões De 0,80 a 1,00 Acima de 5 milhões Acima de 1,00 Fonte: Manual de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos - Secretaria Especial do Desenvolvimento Urbano da Presidência da República - SEDU/IBAM, 2001. sidade populacional? A questão foi se agravando com a inexistência de planos de gestão adequados, associados à evolução ! Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO 1.1.1. Composição e classificação dos resíduos Também historicamente, a composição do lixo tem variado, indicando tendências de crescimento Os tipos e quantidades de resíduos diferem entre de alguns grupos de materiais, como, por exemplo, os países do mundo e ao longo do tempo, pelo de- os plásticos nas embalagens, conforme mostra o senvolvimento de novas tecnologias, grau de urbani- Quadro 3. zação e padrão de produção, consumo e distribuição Em função da origem, os resíduos podem ser clas- de bens, entre outros fatores. Variam até entre cida- sificados em domiciliar, comercial (de lojas, escritóri- des ou bairros, em função do poder aquisitivo da po- os, bancos, etc.), público (de varrição, capina em áreas pulação e dos hábitos de consumo. Enquanto o plás- públicas, e feiras livres), industrial, agropecuário, da tico, por exemplo, representa 5 a 10% do peso do construção civil, serviços de saúde e hospitalar, de por- lixo brasileiro, no Rio de Janeiro chega a 26% tos e aeroportos e terminais de transporte. Conhecer (CEMPRE, Fichas Técnicas, 1997). essa classificação é importante, pois a origem do lixo O Quadro 2 expressa a variação das composições determina a responsabilidade pelo seu gerenciamento. do lixo em alguns países, evidenciando que o Cabe às prefeituras apenas a coleta dos resíduos de percentual de matéria orgânica tende a ser menor origem domiciliar, comercial e pública. Os demais são nos países industrializados. de responsabilidade dos respectivos geradores, que Quadro 2. Composição do lixo em alguns países C OMPOSIÇÃO Componente Matéria orgânica Brasil EM Alemanha P ESO (%) Holanda EUA 65,00 61,20 50,30 35,60 Vidro 3,00 10,40 14,50 8,20 Metal 4,00 3,80 6,70 8,70 Plástico 3,00 5,80 6,00 6,50 25,00 18,80 22,50 41,00 Papel Fonte: Manual de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Secretaria Especial do Desenvolvimento Urbano da Presidência da República - SEDU/IBAM, 2001. " Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO costumam contratar empresas particulares para Embora os resíduos perigosos estejam muito pre- removê-los. sentes no lixo de origem industrial e de serviços de Os catadores recolhem os materiais gerados nes- saúde - por isso sua coleta ser de responsabilidade ses setores, mas podem negociar com indústrias, do gerador - há materiais que também oferecem ris- postos de saúde, farmácias, obras e outros setores co no lixo domiciliar e comercial. Entre eles estão as a retirada de alguns recicláveis, desde que previamen- lâmpadas fluorescentes (contêm mercúrio e berílio), te separados. Para tanto, é bom conhecer a legisla- termômetros quebrados (contêm mercúrio), em- ção relativa à limpeza urbana de cada município e os balagens de venenos, solventes, vernizes e tintas riscos potenciais do manuseio de alguns resíduos. (podem conter cromo, chumbo, etilbenzeno, tolueno Quadro 3. Evolução da composição do lixo na cidade de São Paulo EVOLUÇÃO DA COMPOSIÇÃO DO LIXO NA CIDADE DE SÃO PAULO EM MASSA (%) Material 1927 1957 1969 1976 1991 1996 Matéria Orgânica 82,5 86,0 52,2 62,7 60,6 52,2 Papel 13,5 16,7 29,2 21,4 13,8 19,2 Plásticos --- --- 1,9 5,0 11,5 14,8 Metais 1,7 2,2 7,8 4,0 3,5 2,6 Couro, têxteis, borracha 1,5 2,7 3,8 2,9 4,4 5,7 Vidro 0,9 1,4 2,6 1,7 --- 2,3 Entulho --- --- --- 0,7 --- --- Madeira --- --- 2,4 1,6 0,7 0,7 Outros --- 0,1 --- --- --- 2,5 Densidade (kg/m3) 500 300 230 --- 234 --- Umidade (%) --- --- --- --- 40-60 --- Fonte: Leão, A.L. & Tan, I.H. 1998. Potential of Municipal Solid Waste - MSW As a Source of Energy in São Paulo. Its Impact on CO2 Balance. Biomass and Bioenergy, v.14, n.1, p.83. 15 Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO xileno, acetona), frascos com remédios, etc. Essas mento a problemas de saúde resultantes des- substâncias, quando acumuladas, são extremamente sas situações. perigosas à saúde. Podem provocar cânceres, má for- Por outro lado, mesmo um aterro sanitário bem mação em bebês e abortos, além de causar irritação operado também apresenta impactos político-admi- na pele, intoxicação por inalação, contaminação do nistrativos, econômicos e ambientais, a saber: desvalorização do entorno pela sua simples solo e da água utilizada na cooperativa ou do lençol presença, bem como pelos problemas causa- freático. dos por sua operação, como o excesso de trá- Por isso, ainda que recicláveis total ou parcialmen- fego e o lixo derramado pelo caminho; te, recomenda-se não trabalhar com esses materiais. exige material de cobertura, muitas vezes retirado de cortes de morros, deteriorando a pai- 1.1.2. Impactos causados pelo lixo sagem; à medida que um aterro fica saturado, novos Muitos impactos estão associados ao lixo, varian- terrenos precisam ser desapropriados o in- do em função das práticas da população, das caracte- vestimento em novos aterros, que exigem in- rísticas do município, do volume coletado e tratado e fra-estrutura especial, é grande; das formas de destinação. Em linhas gerais, a dispo- a inexistência de espaços disponíveis para no- sição inadequada do lixo em logradouros públicos e vos aterros, às vezes, faz com que o lixo de lixões a céu aberto acarreta impactos sanitários e es- um município tenha de ser levado a outro, téticos: exigindo negociações políticas e econômicas; a decomposição do lixo gera gases associa- a decomposição do lixo atrai vetores de doen- dos ao efeito estufa e chorume, líquido polu- ças, como baratas, moscas e ratos; embalagens podem acumular água, favorecendo ente que infiltra no solo, podendo contaminar a criação de pernilongos e outros insetos trans- a água subterrânea; esses gases e o chorume, missores de doenças, como a Dengue; portanto, precisam ser drenados e tratados no aterro; embalagens e outros objetos lançados nas ruas considerando o potencial de materiais reciclá- podem entupir canais e valas, favorecendo en- veis presentes nos resíduos sólidos urbanos, chentes; jogar lixo fora é desperdiçar dinheiro. a paisagem é afetada pelo acúmulo de lixo em terrenos baldios e lixões; gasta-se muito na limpeza pública e no atendi- $ Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO O QUE É UM ATERRO SANITÁRIO? ALGUMAS CURIOSIDADES O aterro é uma forma de disposição final de Na Idade Média, as pilhas de lixo fora dos resíduos no solo, através de confinamento em portões de uma cidade francesa eram tão altas camadas cobertas com material inerte, segun- que ameaçavam a segurança, já que invasores do normas operacionais específicas, de modo a conseguiam escalar o lixo e passar sobre suas evitar danos ou riscos à saúde pública e à segu- muralhas. Há também casos de aeroportos, rança, diminuindo impactos ambientais. construídos próximos a lixões, que precisam ser interditados quando a população de urubus oferece risco para pouso e decolagem. Atualmente, a legislação não permite a instalação de aeroportos próximos a lixões devido a razões de segurança. Lixão e urubus: perigo para as aeronaves (www.resol.br) 17 Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO 1.1.3. Destinação do lixo 1.1.4. Reciclagem A destinação normalmente dada ao lixo brasileiro - Reciclagem é a recuperação de materiais por meio os lixões - está longe da legalidade e do que é reco- de processamento industrial, para a produção de um mendado por tratados internacionais. Estudos e do- bem que pode ou não ser do mesmo tipo ou ter a cumentos ambientais ressaltam que é muito mais fá- mesma função que o original. Cacos de uma garrafa de cil gerenciar o lixo quanto menos lixo houver. E apon- vidro, por exemplo, podem ser transformados em nova tam como diretriz a minimização de resíduos, basea- garrafa ou usados na composição de asfalto. da nos procedimentos conhecidos como os 3 Rs: Sua definição aplica-se principalmente ao material Redução no consumo (na fonte geradora), pós-consumo, ou seja, aquele que saiu da fábrica, foi Reutilização direta dos produtos e comercializado e descartado. Há quatro tipos de re- Reciclagem de materiais. ciclagem: A ordem dos Rs segue o princípio de causar primária - o material mantém as mesmas pro- menor impacto, evitando a geração de resíduos e di- priedades físico-mecânicas e de valor econô- minuindo a quantidade de materiais para reciclagem mico do material inicial, por exemplo, latas de após seu descarte. Melhor do que fazer adubo alumínio retornando à indústria para gerar la- (compostagem) de sobras de comida, por exemplo, tas de alumínio; é reduzir o desperdício. Estima-se que 40 pés de al- secundária - o material perde algumas proprie- face, a cada 100 colhidos, acabam no lixo. O desper- dades, como resistência ou cor, e por isso de- dício nas grandes cidades é imenso: o entulho gerado ve ser usado em aplicações de requisitos técni- na cidade de São Paulo, por exemplo, seria suficiente cos diferentes ou menos rigorosos: por exem- para construir 35 casas por dia. plo, garrafas PET retornando à indústria para a fabricação de vassouras; A adoção desses procedimentos diminui significa- terciária - o material presta-se apenas à incine- tivamente a quantidade de lixo a ser disposto. Todos os esforços devem ser feitos para se reduzir ração energética para recuperação da ener- a produção do lixo, através de uma profunda revisão gia embutida, devido ao elevado nível de conta- de nossos padrões de produção, distribuição e con- minação (mistura com outros materiais). sumo. Este guia, porém, não aborda as inúmeras pos- Exemplo disso são plásticos e papéis muito sibilidades de redução, mas explora a obtenção de sujos ou contaminados; quaternária - a última possibilidade antes do materiais recicláveis como oportunidade de geração aterro sanitário é a transformação do material de trabalho e renda para catadores. 18 - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO em composto, que representa uma fonte de coleta, tendo instituído nutrientes e energia, já que ajuda a substituir um código de cores pa- fertilizantes químicos. ra os diferentes tipos As principais categorias de materiais recicláveis de resíduos a ser adota- contidas no lixo são papéis, plásticos, vidros e me- do na identificação de tais que, atualmente, compõem cerca de 35% do coletores e transporta- peso do lixo brasileiro, conforme o Quadro 2. dores, bem como em As associações setoriais de vidro, plástico, papel campanhas informativas e papelão, alumínio e aço, em parceria com o Com- para a coleta seletiva promisso Empresarial para a Reciclagem - CEMPRE, (Resolução n° 275/2001): desenvolveram os símbolos padronizados para cada verde para o vidro, a- material, apresentados na Figura 1. zul para o papel, verme- Mas, confira a efetiva reciclabilidade do material, lho para o plástico e consultando a empresa produtora através do Servi- amarelo para os metais. ço de Atendimento ao Consumidor (SAC), pois os Como alternativa de símbolos, muitas vezes, são usados indiscriminada- renda aos catadores, mente em embalagens que não são recicláveis no essa prática, de forma Brasil. Isso confunde a população, que separa mate- abrangente e organiza- riais para coleta seletiva sem saber que estes volta- da, é a alma do negó- rão a ser lixo após a triagem na cooperativa. cio das cooperativas . Figura 1. Simbolos de reciclagem para os principais materiais vidro AÇO Capítulo 1 - Introdução ao Tema papel Reciclar e compostar materiais com resíduos al misturados não é fácil, por isso a reciclagem deve ser precedida de um sistema de coleta seletiva – tipo de recolhimento de materiais pré-selecionados alumínio nas fontes geradoras (domicílios, comércio, etc.). Esse processo é um importante instrumento de gestão dos resíduos e que deveria ser previsto pelas administrações municipais em suas políticas públicas, dadas as vantagens advindas de se destinar menos lixo plástico aos aterros. O Conselho Nacional do Meio AmbienteCONAMA reconhece a importância dessa forma de 19 Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO 1.2. A CADEIA DE RECICLAGEM 1.1.5. Compostagem: a reciclagem dos resíduos orgânicos E OS CATADORES 1.2.1. A cadeia de reciclagem Resíduos como sobras de alimentos do lixo domiciliar, das feiras, de restaurantes, bem como restos de poda e capina também podem ser reaproveitados A reciclagem é um conjunto de operações inter- comercialmente através da compostagem, conside- ligadas e realizadas por diferentes agentes econômi- rando-se, especialmente, que mais da metade do peso cos, cuja finalidade é a re-introdução de materiais do lixo brasileiro é matéria orgânica. presentes nos resíduos gerados pelas atividades hu- A compostagem, já empregada pelas primeiras manas nos processos produtivos. Esses materiais - sociedades agrícolas, é um processo controlado de chamados de recicláveis - uma vez submetidos a es- decomposição, desenvolvido por microorganismos sas operações, passam a ser insumos para a produ- específicos e que trata e estabiliza resíduos para a ção de novos produtos. produção de fertilizante orgânico, melhorando as ca- Essas operações podem ser consideradas elos da racterísticas físico-químicas do solo. Seu papel no cadeia de reciclagem, na qual são processados resí- solo é mais como condicionador do que como fertili- duos oriundos de outras cadeias produtivas. No lixo zante, melhorando a capacidade do solo de reter doméstico, por exemplo, encontram-se materiais das umidade e facilitando o desenvolvimento das raízes. cadeias têxtil, de papel, de embalagens, de produ- As técnicas envolvidas pressupõem orientação de ção de alimentos, entre outros. Os elos e os agen- profissional especializado, e com o domínio do tes da reciclagem estão, esquematicamente, repre- processo, espaço disponível e mercado, o compos- sentados na Figura 2. to pode ser mais um item a ser comercializado pela O primeiro elo corresponde à operação de segre- cooperativa para atender à população, à agricultura gação dos resíduos que, normalmente, é realizada e até para a Prefeitura, nas atividades de jardinagem pelos mesmos agentes que os produziram no local municipal. de geração. Na indústria, os rejeitos da produção É importante ressaltar que a presença de metais passíveis de aproveitamento são separados e, pesados nos compostos é algo a ser levado em con- parcialmente, utilizados no próprio processo pro- ta, especialmente quando utilizadas em grandes quan- dutivo. É o caso da fusão de peças defeituosas numa tidade como na horticultura. A compostagem a par- fábrica de garrafas de vidro ou do re-aproveitamen- tir de lixo que sofreu coleta seletiva se bem contro- to de sobras de madeira na fabricação de móveis, na lada reduz esse problema. forma de chapas reconstituídas. Nas residências, os Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO materiais recicláveis secos (alumínio, papel, plásti- des onde ocorrem as operações de beneficiamento. cos, vidros, etc.) são separados dos úmidos (cons- Atuam nesse elo os catadores, organizados ou não tituídos principalmente de orgânicos), que terão em associações ou cooperativas, as empresas pri- destinação final em aterro, incineração ou mesmo vadas de coleta de lixo e as prefeituras. lixões. Os agentes que intervêm nesse primeiro elo O terceiro elo, de triagem e classificação, corres- são as indústrias, o comércio, os prestadores de ser- ponde às operações de limpeza, classificação mais viços, órgãos públicos e consumidores em geral. fina e enfardamento dos materiais. Os principais agen- O segundo é o da coleta seletiva, assim denomi- tes nessa fase são os catadores organizados em coo- nada por ser uma forma de recolhimento e trans- perativas ou associações, sucateiros e aparistas. porte de materiais diferenciada daquela praticada com No quarto elo, que envolve as operações de be- o lixo comum, denominada convencional. Os mate- neficiamento, são aplicados procedimentos específi- riais são recolhidos em empresas ou domicílios, to- cos para cada material, transformando os resíduos tal ou parcialmente separados e, dependendo do ní- recicláveis em novos insumos para a indústria. Por vel de separação, são enviados para as operações exemplo, no caso do plástico, essa transformação é de triagem e classificação ou diretamente às unida- realizada pelas operações de moagem, lavagem, seca- Figura 2. Representação esquemática da cadeia de reciclagem. OPERAÇÕES GERAÇÃO E SEGREGAÇÃO Indústrias Comércio Prestadoras de Serviços Instituições População COLETA SELETIVA Catadores Empresas de coleta de lixo Prefeitura TRIAGEM E CLASSIFICAÇÃO Catadores Aparistas Sucateiros AGENTES BENEFICIAMENTO Empresas de beneficiamento Cooperativas RECICLAGEM Indústrias Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO gem, aglutinação, extrusão ou granulação. No caso sumos em instalações que utilizam somente materiais do vidro, os procedimentos compreendem a separa- reciclados ou sua mistura com matérias-primas virgens. ção por cor, a limpeza, a quebra, a retirada de tampas e outros materiais, a moagem e a lavagem. Nessa etapa, os agentes mais comuns são as em- O conjunto das operações de triagem, classifi- presas que podem realizar algumas ou todas essas ati- cação e beneficiamento pode ser denominado vidades. No caso dos plásticos, por exemplo, algumas “preparação para a reciclagem”. apenas produzem flakes, outras avançam até a produção de pellets. Somente alguns núcleos de catadores mais 1.2.2. Inserção dos catadores na cadeia de reciclagem organizados já realizam operações de beneficiamento, transformando latas de alumínio em lingote, PET desfiado em vassouras ou produzindo flakes. Finalmente, o último elo é o da reciclagem, propria- A atividade dos catadores na cadeia de reciclagem mente dita, quando os produtos intermediários oriun- concentra-se na coleta, triagem e classificação dos dos das operações anteriores são utilizados como in- resíduos, principalmente domésticos. Algumas coope- Investimentos (1.000R $ ) Figura 3. Relação entre preço e investimentos para PET transparente. 300 Pe l l e t 250 Flake 3/8 200 150 Flake 3/4 100 Granel 50 0 0 0,5 Prensado 1 1,5 Preço de venda (R$/kg) Fonte: Levantamento junto a fabricantes, março de 2003. 22 2 2,5 Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO ofertam produtos em melhores condições de rativas buscam ampliar seus rendimentos, cami- limpeza e classificação; nhando em direção às operações de beneficiamento. barateiam o transporte, prensando as cargas. Essa não é uma trajetória simples, dado o volume de investimento exigido, os gastos com a operação e Quantidade, qualidade e regularidade no forneci- manutenção dos equipamentos, e a necessidade de mento de matérias-primas são requisitos essenciais capacitação técnica e gerencial. As vantagens, en- da produção industrial. Assim, quanto mais os cata- tretanto, são evidentes: um quilo de PET transparen- dores aprimorarem o gerenciamento de seus em- te alcança hoje (março de 2003), no mercado, o pre- preendimentos, melhores serão as condições para ço médio de R$ 0,30; se o material for prensado, o a venda direta e, conseqüentemente, obtenção de seu preço pode dobrar, e na forma de flakes de 3/8 preços melhores. de polegada pode chegar a R$ 1,50. Mas se tiver pas- A economia de energia e de matéria-prima virgem sado pelo processo de extrusão, sendo vendido em propiciada pela re-introdução de materiais recicláveis pellet, chega a R$ 2,00. O gráfico apresentado na Fi- no processo de produção tem estimulado seu consu- gura 3, elaborado a partir de informações sobre o mo e atraído o interesse de empresários com maior beneficiamento do plástico, ilustra bem essa questão, qualificação e capital, inclusive nas operações até en- associando o preço de venda do material ao seu está- tão exclusivas dos catadores - coleta, triagem e clas- gio de beneficiamento e a uma estimativa do investi- sificação. Dependendo de sua evolução, essa situação mento necessário para produzi-lo. Todavia, é preciso pode resultar num estreitamento de espaço para o atenção com a comercialização, pois alguns segmen- desenvolvimento de suas atuais atividades. Enfrentar tos, como o PET, são oligopolizados (pequeno nú- essa realidade exige maior articulação por parte dos mero de compradores), o que reduz o preço de ven- catadores e o desenvolvimento de ações para: elevar o nível de organização, construindo re- da da matéria-prima. des e aumentando as escalas de produção; Normalmente, os catadores realizam um trabalho individual e desorganizado, com renda muito bai- requalificar suas atividades no âmbito das opera- xa e péssimas condições de trabalho. Organizados ções de reciclagem: capacitar-se tanto para as em cooperativas ou associações, mesmo quando não operações que hoje realizam como para aquelas avançam para operações de beneficiamento, vêm que se caracterizam de beneficiamento, buscan- apresentando melhores resultados em termos de do conseguir produtos mais adequados ao pro- renda, devido às seguintes razões: cessamento industrial; melhorar a qualidade, evitando a mistura de conseguem vender os materiais em maiores materiais e a presença de corpos estranhos volumes; ! Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO O garrafeiro era figura respeitada nos bairros e (pedra, metais, etc.), garantindo melhores vilas das cidades, mas, ao longo do tempo, desapa- condições de comercialização; receu, dando lugar ao catador, que recolhe os mate- qualificar-se para a gestão de negócios, dando riais de residências e empresas, sem ter que pagar especial atenção à busca por financiamento sub- ou trocar algo pelo que foi recolhido. Essa mudança sidiado e ao estabelecimento de parcerias com revela, por um lado, que o crescimento das cidades os setores público e privado. e o modelo de consumo alteraram significativamente a quantidade dos resíduos gerados - há um ex- ANOTE cesso de material descartado - e, por outro, que o Um dos grandes problemas para a viabilização aumento do nível de desemprego e maiores exigên- da indústria de reciclagem é a disponibilidade cias para acesso ao mercado de trabalho restringi- de matérias-primas em condições e volume suficientes. Essa dificuldade está, em sua maior parte, relacionada à grande dispersão dos resíduos pós-consumo. 1.3. OS CATADORES A presença de pessoas que vivem do comércio de materiais refugados data do início do processo de industrialização. Já no começo do século XX, há registros de imigrantes espanhóis que trabalhavam como compradores de sucata no bairro do Brás, em São Paulo. As famílias acumulavam sucatas em seus quintais, principalmente garrafas e materiais ferrosos, revendendo-os ou trocando-os junto aos sucateiros. Em muitos lugares, os materiais eram guardados pelas crianças, pois os recursos da venda das garrafas e ferros velhos eram destinados a elas, Coletor de lixo na década de 40 (www.resol.com.br) que logo os transformavam em doces e balas. 24 Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO ram, dramaticamente, as possibilidades de sobrevi- gar no mercado de trabalho formal. Existem, ainda, vência para importantes contingentes sociais. aqueles um pouco mais escolarizados que também O crescimento da atividade de catação, de modo não conseguem uma posição profissional num mun- geral, tem fortes vínculos com níveis extremos de do marcado pelo compasso tecnológico e digital, pobreza. Parte dessas pessoas revira latas e sacos ou são homens e mulheres com histórias de vida de lixo, marcando presença nos lixões à procura de muitas vezes assinaladas pela violência, pelo sofrimen- algo aproveitável para comer. Entretanto, a maioria to e pelo preconceito. De modo geral, são explora- das pessoas que trabalha nos lixões ou nas ruas co- dos pelos donos de lixões e sucateiros, que os leta principalmente materiais para revender. Esse é obrigam, muitas vezes sob chantagem, a entrega- o trabalho que lhes permite sustentar suas famílias, rem seus materiais a preços muito inferiores aos pra- cuja qualidade de vida é péssima, em especial para ticados no mercado. Podem ser identificados três tipos de relações as crianças, sujeitas a todos os riscos que o viver no básicas entre catadores e sucateiros: e do lixo traz. os catadores dependem totalmente dos sucateiros, pois estes são donos dos carrinhos e 1.3.1 Perfil dos catadores os catadores moram nos depósitos; a dependência é parcial, pois os catadores utilizam os carrinhos dos sucateiros; Os catadores compõem um importante grupo que contribui para a gestão dos resíduos sólidos nas os catadores são mais independentes, pois ape- cidades, ainda que na grande maioria de modo infor- nas vendem os materiais para os sucateiros. mal. Ao longo do dia, coletam, separam e vendem o É bom destacar que a organização dos catadores que as casas, comércios e indústrias descartam. Pre- de rua geralmente é mais difícil do que a dos catado- sentes nas pequenas e grandes cidades, vivem do res dos lixões. Estes possuem maior senso comunitá- lixo, catando materiais recicláveis nas ruas e nos li- rio e a grande presença de mulheres facilita o traba- xões, muitas vezes, em péssimas condições de salu- lho social elas ouvem mais, acreditam mais na possi- bridade. Trabalham, a maior parte deles, de forma bilidade de transformar suas vidas e bebem menos solitária e isolada e não conseguem bons preços para que os homens. Já os catadores de rua não atuam seus materiais. numa área restrita, não têm horários e o trabalho na Muitos desses trabalhadores constituem uma mas- rua lhes dá a sensação de liberdade. E a atividade sa de desempregados que, por sua idade, condição dispersa, muitas vezes solitária, faz com que se tor- social ou baixa escolaridade, não encontram mais lu- nem mais individualistas. # Capítulo 1 - Introdução ao Tema 1.3.2. Importância dos catadores - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO za e de vida dos produtos. Todos os dias, os catadores impedem que toneladas de materiais recicláveis Tanto os catadores dos lixões como os das ruas sigam para os aterros sanitários ou sejam jogados fazem-se presentes na maioria dos municípios bra- nos lixões. Atuando paralelamente aos serviços mu- sileiros. Esses homens e mulheres, jovens e idosos, nicipais, esse exército de trabalhadores informais des- intervêm de maneira fundamental no ciclo de limpe- via, hoje, entre 10 e 20% dos resíduos urbanos para Coletor de materais recicláveis com seu carrinho característico $ Capítulo 1 - Introdução ao Tema - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO um circuito econômico complexo, que passa por papel na economia, diminuem a quantidade de lixo a intermediários e termina nas empresas de recicla- ser tratado pelas municipalidades. Possuem muitos gem de plástico, vidro, papel, alumínio e ferro. conhecimentos específicos e habilidades para iden- Mesmo com todos os obstáculos, os catadores tificar, coletar, separar e vender materiais recicláveis. dos lixões e das ruas das cidades são responsáveis Garimpam no lixo o desperdício de recursos natu- por cerca de 90% do material que alimenta indús- rais, que retorna ao processo produtivo como ma- trias de reciclagem no Brasil. Além de terem um téria-prima secundária. CONQUISTANDO ORGANIZAÇÃO E RESPEITO No final dos anos de 1980, a partir da OAF - Orga- Por essa história e pela capacidade de articulação nização de Auxílio Fraterno, iniciou-se o processo do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais de organização dos catadores, dando início à expe- Recicláveis, eles se fizeram presentes no processo riência da Coopamare (Cooperativa de Catadores de debate da Política Nacional de Resíduos Sólidos, Autônomo de Papel, Aparas e Materiais Reaprovei- que os apontava como parceiros preferenciais na táveis - São Paulo) e que serviu de referência para a gestão desses resíduos, e também conquistaram seu criação da Asmare (Associação dos Catadores de reconhecimento como categoria profissional, oficia- Papel, Papelão e Material Reaproveitável - Belo Ho- lizado no CBO - Classificação Brasileira de Ocupa- rizonte). Já nos anos de 1990, com o apoio do Fórum ções. Nacional de Estudos sobre a População de Rua, fo- Lenta, mas contínuamente, o padrão de relação dos ram promovidos encontros e reuniões em vários lo- catadores com a sociedade altera-se a partir da supe- cais do país e novos parceiros foram incorporados, ração dos preconceitos, da elevação de seu nível de como a Caritas Brasileira e a Federação das Associ- organização, do reconhecimento de seu papel econô- ações de Reciclagem do Rio Grande do Sul. No ano mico e ambiental e da conquista de maior amparo, de 2001, foram realizados eventos, como o 1 Con- seja do poder público ou das organizações da socie- gresso Nacional de Catadores de Materiais dade civil. Não deixarão, porém, de enfrentar for- Recicláveis e a 1a Marcha da População de Rua, que tes obstáculos econômicos, para os quais necessi- resultou na criação de um movimento nacional de tam de preparo, ampliando a compreensão de que catadores. lixo é problema, mas também negócio. o % Capítulo 1 - Introdução ao Tema & - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO