UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA PAULA FERREIRA MARTINS O PROCESSO RECENTE DE AUMENTO DA FORMALIZAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO: 2004-2009 RIO DE JANEIRO 2010 PAULA FERREIRA MARTINS O PROCESSO RECENTE DE AUMENTO DA FORMALIZAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO: 2004-2009 Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências Econômicas. ORIENTADOR: João Luiz Maurity Saboia RIO DE JANEIRO 2010 Martins, Paula Ferreira, 1985O Processo Recente de Aumento da Formalização do Mercado de Trabalho Brasileiro: 2004-2009 / Paula Ferreira Martins. - 2010. 127 f.; 30 cm. Orientador: João Luiz Maurity Saboia. Dissertação de Mestrado – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia, 2010. 1. Empregos. 2. Mercado de Trabalho. 3. Formalização. I. Saboia, João Luiz Maurity. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. O Processo Recente de Aumento da Formalização do Mercado de Trabalho Brasileiro: 2004-2009. PAULA FERREIRA MARTINS O PROCESSO RECENTE DE AUMENTO DA FORMALIZAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO: 2004-2009 Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências Econômicas. Banca Examinadora: ___________________________________________________ Prof. João Luiz Maurity Saboia (Orientador) – IE/ UFRJ _________________________________________________ Prof.a Maria Helena Lavinas de Morais – IE/ UFRJ _________________________________________________ Prof. Claudio Salvadori Dedecca – IE/ UNICAMP RIO DE JANEIRO 2010 As opiniões expressas neste trabalho são de responsabilidade exclusiva da autora. Agradecimentos Agradeço primeiramente à minha família por todo o carinho e amor que dedicaram a mim até hoje. À minha mãe como eterna incentivadora e pronta para inúmeras injeções de ânimo e ao meu pai como eterno amigo e companheiro. Agradeço também ao meu namorado Pedro de Oliveira Guimarães, pela especial e maravilhosa jornada dos últimos anos. Sua companhia e amor foram fundamentais para este trabalho e vão continuar sendo essenciais na minha vida. Não posso de deixar de agradecer aos meus amigos de graduação e da vida Letícia Magalhães, Marconi Vianna, Renata Camilo, José Roberto Resende, Camila Fernandes e Maina Tavares. Expresso aqui minha sincera admiração por todos eles. Minhas amigas de mestrado Lívia Lima e Thaís Krutman também foram essenciais nesta caminhada. Estudos, conversas e confissões tornaram-me mais madura e compreensiva. Agradeço imensamente ao professor João Saboia por ter aceitado me orientar neste trabalho. Suas orientações desde o início da graduação foram muito importantes para o gosto que tenho pelo estudo do mercado de trabalho brasileiro. À professora Lena Lavinas, dedico especial agradecimento. Tendo como principais qualidades a força e a capacidade de provocar em seus alunos o sentimento de mudança, me fez perceber o quanto podemos ser transformadores. Por fim, agradeço o apoio dado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e por todos os funcionários do Instituto de Economia da UFRJ. Muito obrigada a todos! Resumo A questão do emprego tem, em tempos recentes, ocupado lugar de destaque no debate econômico nacional. Após mais de uma década de intenso processo de desestruturação do mercado de trabalho, esta dissertação propõe-se a discutir as características de seu processo de reestruturação, iniciado em 2004, e concluir com um retrato atual do mercado de trabalho brasileiro. Na década de 1990, as transformações em curso atuaram no sentido da adesão, sem maiores reflexões, às exigências imediatas da rentabilidade e da competitividade. Em meio às reformas implementadas, prosseguiu a tendência de aprofundamento da flexibilização das relações de trabalho. O fortalecimento da regulação privada promoveu, então, a criação de novas formas de contratualidade que, em geral, condicionaram os trabalhadores a situações precárias. A queda no número de empregos formais, aliado ao aumento da informalidade na indústria e a intensificação da terciarização também se tornaram mais evidentes. Esta onda de fenômenos parece emergir por razões associadas à conjuntura da época, marcada pela reestruturação produtiva decorrente da abertura da economia de forma acelerada e pelo desmonte do sistema de planejamento do Estado. A partir de 2004, a economia brasileira consegue aproveitar-se de ambiente favorável no mercado mundial. Os empregos formais entram em trajetória de intenso crescimento. Este ocorre de modo não-homogêneo, marcado por diferenças regionais e setoriais importantes. A Região Sudeste continua a ser o motor deste crescimento e o setor terciário aumenta sua participação relativa na geração líquida de empregos formais. Entretanto, os empregos formais criados continuam a expor traços de precariedade, como a baixa remuneração e a alta rotatividade. Assim, apesar do processo de revitalização iniciado, conclui-se que o mesmo ainda não foi suficiente para alterar significativamente a estrutura ocupacional brasileira. Palavras-Chaves: Emprego; Mercado de Trabalho; Formalização. Abstract The employment issue has, in recent times, taken a prominent place in the national economic debate. After more than one decade of an intense process of elimination of the labor market structure, this dissertation proposes to discuss the features of its restructuring process, initiated in 2004, and concludes with a recent overview of the Brazilian labor market. In the 1990s, transformations act in attending for adhesion, without further reflection, the immediate demands of profitability and competitiveness. Among the reforms implemented, the trend of more flexible labor relations continues. The strengthening of private regulation promotes, then, the creation of new forms of contractual arrangements that, in general, condition workers to precarious situations. The decline of formal employment, together with the increase in industry’s informality, and the intensification of outsourcing also become more evident. These phenomena seem to emerge on the grounds of situation at that time, that is, the restructuring of production due to the openness of the economy at a rapid pace and the dismantling of the system of state planning. Since 2004, the Brazilian economy can take advantage of favorable market environment worldwide. The formal employments enter in an intensive growth trajectory. This occurs in a non-homogeneous way, marked by regional and sectorial differences. The Southeast continues to be the engine of growth and the tertiary sector increase its relative share in the net generation of formal employment. However, the formal jobs created continue to exhibit traits of insecurity, such as low pay and high turnover. Thus, despite the revitalization process, it seems that it is not enough to significantly alter the occupational structure in Brazil. Key Words: Employment, Labor Market; Formalization. Lista de Tabelas, Figuras e Gráficos Tabela 1.1 – Flexibilização nas Formas de Contratação .................................................................. 30 Gráfico 1.1– População Ocupada de 15 anos ou mais por Posição na Ocupação – 1991/2000 ....... 33 Tabela 1.2 – Variação do Emprego Formal por Região – Capital e Interior – Indústria – 1992/1999 .......................................................................................................................................................... 34 Gráfico 1.2 – Percentual da População Ocupada no Setor de Serviços e na Indústria de Transformação – janeiro 1991 – janeiro 2000.................................................................................. 35 Gráfico 1.3 – Grau de Informalidade na Indústria de Transformação – janeiro 1991 – .................. 36 janeiro 2000...................................................................................................................................... 36 Gráfico 1.4 – Transições Previstas a partir da Formalidade – 1984-2000 ....................................... 38 Gráfico 2.1 - Grau de Estruturação do Mercado de Trabalho: Anos Selecionados.......................... 41 Gráfico 2.2 – Taxa de Crescimento do Produto Nacional Bruto – Mundo, China e Brasil ............. 41 Gráfico 2.3 – Saldo da Balança Comercial Brasileira – 1995/2008 ................................................. 42 Gráfico 2.4 – Comparação entre o Limite Superior para a Meta de Inflação e a Inflação Efetiva (IPCA) – 2001/2008 ......................................................................................................................... 43 Gráfico 2.5 – Formação Bruta de Capital Fixo – R$ de 1980 (Base 2008) – 1994-2008 ................ 44 Gráfico 2.6 – Saldo Dessazonalizado de Empregos Formais – jan/2008 a dez/2009 ...................... 46 Tabela 2.1 – População Estimada por Faixa Etária e Razão de Dependência – 2005-2050 ............ 48 Gráfico 2.7 – Evolução do Emprego Formal - Saldo Líquido Anual – 2000-2009 ......................... 50 Tabela 2.2 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Região – 2004 – 2009 ............ 52 Tabela 2.3 – Taxa de Crescimento do Emprego Formal por Região – 2004-2009 .......................... 53 Tabela 2.4 – Geração de Empregos por Unidade da Federação – 2004-2009.................................. 55 Gráfico 2.8 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos nas Regiões Metropolitanas e NãoMetropolitanas – 2004-2009 ............................................................................................................ 56 Tabela 2.5 – Variação do Emprego por Região – Capital e Interior – Todos os Setores -2004-2009 .......................................................................................................................................................... 57 Tabela 2.6 – Variação do Emprego na Indústria por Região – Capital e Interior – 2004-2009 ....... 57 Tabela 2.7 - Variação do Emprego na Indústria por Região – Capital e Interior – 2000-2004........ 58 Tabela 2.8 – Geração de Emprego por Município – 50 Melhores – 2004-2009 .............................. 59 Tabela 2.9 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Setor de Atividade – 2004-2009 .......................................................................................................................................................... 61 Tabela 2.10 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Subsetor de Atividade – 20042009 .................................................................................................................................................. 62 Tabela 2.11 – Taxa de Crescimento do Emprego Formal por Setor e Região - 2009 ...................... 64 Gráfico 2.9 – Distribuição Percentual da Criação de Empregos por Gênero – 2004-2009 .............. 66 Tabela 2.12 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Gênero e Grau de Instrução – 2004-2009 ........................................................................................................................................ 67 Tabela 2.13 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Gênero e Faixa Etária – 20042009 .................................................................................................................................................. 69 Tabela 2.14 – Admissão e Desligamento por Tipo de Movimentação – 2004-2009 ....................... 71 Tabela 2.15 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Setor e Faixa de Salário Mínimo - 2009.................................................................................................................................. 73 Tabela 2.16 – Remuneração Real Média de Admitidos e Desligados por Setor – 2004 e 2009 ...... 73 Gráfico 2.11 – Diferencial de Salário Real Médio de Admitidos e Desligados – 2004-2009.......... 75 Gráfico 2.10 – Evolução da Taxa de Rotatividade Mensal – Brasil – Todos os Setores - 2004-2009 .......................................................................................................................................................... 77 Tabela 2.17 – Índice de Qualidade do Emprego Formal por Setor e Subsetor – 2004 .................... 81 Tabela 2.18 – Índice de Qualidade do Emprego Formal por Setor e Subsetor – 2008 .................... 82 Tabela 2.19 – Classificação dos IQEFs dos Setores – 2004 e 2008 ................................................. 83 Tabela 2.20 – Classificação dos IQEFs dos Subsetores – 2004 e 2008 ........................................... 84 Figura 3.1 – Os Grupos de Informalidade ........................................................................................ 91 Gráfico 3.1 – Distribuição Percentual da População Ocupada por Posição na Ocupação – Brasil – 2008 .................................................................................................................................................. 93 Tabela 3.1 – Distribuição Percentual da População Ocupada por Posição na Ocupação e Contribuição para a Previdência – Brasil e Grandes Regiões – 2008 .............................................. 94 Gráfico 3.2 – Percentual da População Ocupada no Informal 1 por Unidade da Federação – 2008 95 Tabela 3.2 – Distribuição Regional e Setorial da População Ocupada (%) – 2008 ......................... 97 Tabela 3.3 – Quociente de Especialização Regional (QEsj) - 2008 ................................................. 98 Tabela 3.4 – Quociente de Diferenciação (QDij) - 2008 ............................................................... 100 Gráfico 3.3 – Rendimento Médio Real da População Ocupada por Posição na Ocupação – Brasil 2008 ................................................................................................................................................ 102 Gráfico 3.4 – Percentual da População Ocupada nos Grupos Informal 1, Informal 2, Informal 3 e Informal 4 – Brasil – 2008 ............................................................................................................. 104 Gráfico 3.5 – Percentual da População Ocupada no Grupo Informal 1 por Setor – 2008 ............. 105 Gráfico 3.6 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e por Gênero – 2008 ................. 106 Tabela 3.5 – Rendimento Médio por Posição na Ocupação e por Gênero – 2008 ......................... 107 Gráfico 3.7 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e por Cor – 2008 ...................... 108 Gráfico 3.8 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e Anos de Estudo – 2008 ......... 109 Tabela 3.6 – Contribuição Previdenciária por Tipo de Posição na Ocupação – 2004/2008 .......... 110 Tabela 3.7 – População Ocupada de 16 a 59 anos de idade por Posição na Ocupação e Proteção Previdenciária – 2004/2007............................................................................................................ 111 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 12 Capítulo 1 – O Mercado de Trabalho Brasileiro nos Anos 1990 ................................................ 15 1.1 Considerações Iniciais ....................................................................................................... 15 1.2 O Contexto Macroeconômico ........................................................................................... 20 1.3 As Novas Relações de Trabalho........................................................................................ 26 1.4 As Dinâmicas Espacial e Setorial do Emprego ................................................................. 34 1.5 Conclusão .......................................................................................................................... 39 Capítulo 2 – Caracterização do Processo de Aumento da Formalização do Mercado de Trabalho Brasileiro entre 2004 e 2009 ....................................................................................................... 40 2.1 Primeiras Evidências ......................................................................................................... 40 2.2 A Geografia da Formalização ........................................................................................... 52 2.3 Setores de Atividade.......................................................................................................... 61 2.4 Características do Trabalhador Formal no Brasil .............................................................. 65 2.5 A Remuneração do Trabalhador Formal ........................................................................... 72 2.6 A Rotatividade da Mão de Obra ........................................................................................ 76 2.7 A Qualidade do Emprego Formal ..................................................................................... 79 2.8 Principais Conclusões ....................................................................................................... 86 Capítulo 3 – O Retrato Atual do Mercado de Trabalho no Brasil ............................................... 89 3.1 Considerações Iniciais ....................................................................................................... 89 3.2 O Retrato do Mercado de Trabalho Brasileiro .................................................................. 91 3.2.1 Distribuição por Posição na Ocupação ....................................................................... 92 3.2.2 Aspectos Geográficos ................................................................................................. 94 3.2.3 Diferenças Regionais e Setoriais na Distribuição da População Ocupada ................. 97 3.2.4 Aspectos relacionados à Remuneração .................................................................... 101 3.2.5 Características dos Grupos de Informalidade ........................................................... 104 3.2.6 A Informalidade e a Previdência Social ................................................................... 110 3.3 Principais Conclusões ..................................................................................................... 112 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................... 113 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................... 116 ANEXO .................................................................................................................................... 121 12 INTRODUÇÃO A discussão sobre a evolução do emprego formal decorre de sua importância. Em primeiro lugar, é por intermédio dele que se ordena de forma mais regrada, equilibrada e homogênea o mercado de trabalho, num contexto predominantemente capitalista de produção (CARDOSO JR., 2007). Na origem do modelo brasileiro de proteção social, havia ampla correspondência entre a relação trabalhista assalariada e a vinculação previdenciária compulsória, tornando informais e sem direitos previdenciários quaisquer trabalhadores sem carteira assinada. Com a Constituição de 1988, no entanto, houve o rompimento desta relação biunívoca, através do reconhecimento da existência de inúmeras outras formas de inserção das pessoas na estrutura produtiva. A contribuição voluntária para o Regime Geral da Previdência Social fez com que esses outros trabalhadores pudessem ter proteção contra os principais riscos do mercado de trabalho. Porém, até hoje, esta possibilidade ainda não alcança boa parte dos trabalhadores, pois os mesmos não conseguem contribuir de forma contínua a ponto de serem beneficiários deste sistema ou até não possuem informação suficiente para ―ir atrás‖ dos benefícios de que têm direito. Esse é um dos motivos para que o trabalho com carteira assinada continue a ter importância no conjunto do mercado de trabalho brasileiro. O emprego formal é também responsável pelo acesso mais fácil do trabalhador ao crédito, porque o mesmo consegue comprovar sua renda, o que facilita seu acesso a bens e serviços. Ademais, o trabalhador formalizado tem mais frequentemente acesso a serviços sociais oferecidos pelo empregador, como vale alimentação, cesta básica, vale transporte, seguro saúde e outros. Serviços desse tipo podem fazer diferença em tempos de crise. Por 13 fim, o trabalhador formal pertence a uma rede de proteção social que reduz a sua vulnerabilidade, sendo o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o Seguro Desemprego formas de enfrentar as situações de desemprego. Além desses motivos de natureza individual, o crescimento relativo do trabalho implica em impactos positivos sobre o trabalho informal. Comerciantes de favelas, prestadores de serviços para pessoas pobres e outros trabalhadores informais que dependem da renda dos mais pobres, por exemplo, são indiretamente beneficiados quando um número maior de pessoas nas comunidades onde vivem passam a trabalhar de modo formalizado. Com mais renda circulando e mais estabilidade no fluxo de recursos, quase todos na comunidade se beneficiam. Como um todo, o emprego formal implica, na maioria das vezes, em melhores condições de trabalho e uma renda estável para os indivíduos. Por esses motivos, o crescimento do trabalho formal é um dos grandes propulsores do processo de distribuição de renda no Brasil e da melhora das condições de vida, principalmente das classes mais pobres. Trata-se, portanto, de variável chave a ser acompanhada. Justificada a importância do emprego formal para o conjunto do mercado de trabalho do País e para a situação sócio-econômica de seus habitantes, esta dissertação tem por objetivos analisar as principais características do processo de aumento da formalização do mercado de trabalho brasileiro, entre 2004 e 2009, e discutir como se encontra a estrutura ocupacional nacional. Estes dois objetivos estão interligados à medida que o processo recente de aumento da formalização das relações de trabalho pode causar impactos positivos na estrutura ocupacional. As características principais dos empregos formais criados neste período permitem que se conclua pela mudança ou não de parte da estrutura, pois a mesma não é formada apenas por relações de trabalho formalizadas. Aliás, 14 as relações informais constituem historicamente a maior parte, o que torna ainda mais relevante a verificação deste processo. Para isso, esta dissertação inicia-se com os principais argumentos sobre o setor formal e o trabalho formal, de modo a delimitar e diferenciar de modo mais claro esses dois conceitos. Em seguida, discutem-se os aspectos mais relevantes que marcaram o mercado de trabalho na década de 1990. Muitos estudiosos imputam a essa década a fase de desestruturação deste mercado. Sob esse pano de fundo, inicia-se a análise, propriamente, do processo de aumento da formalização do mercado de trabalho, através da verificação das características mais relevantes dos empregos formais criados no período 2004-2009. Por fim, de posse dessas características, esta dissertação debruça-se sobre os diferentes matizes do trabalho informal, a partir da construção de quatro conceitos distintos para a informalidade. Faz-se, com isso, um retrato mais completo e recente do mercado de trabalho brasileiro. A mudança ou não da estrutura ocupacional, decorrente do aumento da formalização, é indicada na conclusão. 15 Capítulo 1 – O Mercado de Trabalho Brasileiro nos Anos 1990 1.1 Considerações Iniciais Qualquer definição ou tentativa de delimitação de uma questão polêmica gera discussões e discordâncias. Diversos estudiosos do mercado de trabalho brasileiro, por exemplo, discordam do modo como o setor (in)formal deste mercado é definido. Outros argumentam que o próprio conceito é falho, devendo, portanto, ser substituído. Sendo assim, antes de se iniciar a discussão sobre mercado de trabalho, é importante que fiquem claros os argumentos conflitantes e, consequentemente, a posição defendida neste trabalho. Em primeiro lugar, é a natureza complexa do setor informal que torna seu conceito motivo de grande controvérsia técnica e acadêmica (PAMPLONA & ROMEIRO, 2002). Deste modo, as descobertas e prescrições de política atribuídas ao setor informal não são sempre comparáveis (SETHURAMAN, 1981). Desde que a Employment Mission to Kenya da Organização Internacional do Trabalho (OIT) introduziu o conceito de setor informal, em 1972, inúmeras definições vêm sendo introduzidas pela literatura, sendo as alternativas em parte dependentes do entendimento de cada autor ou pesquisador (LUBELL, 1991). O relatório da OIT sobre o Quênia define a informalidade econômica segundo diversas características, como: A facilidade de entrada; A dependência por recursos endógenos; A propriedade familiar dos recursos; 16 A pequena escala de produção; A tecnologia intensiva em trabalho; As habilidades conseguidas fora do sistema de educação formal; e Os mercados competitivos e não-regulados. As definições subseqüentes são, então, variantes dessa lista, com diferentes ênfases. Sethuraman (1981), por exemplo, pondera que a multiplicidade de critérios para a definição do setor informal, proposta pelo ―Relatório Quênia‖, causa ambigüidade, porque cada critério poderia ser utilizado para criar um universo próprio. Para ele, um dos primeiros problemas encontrados na tentativa de se definir o setor informal é a escolha de uma unidade econômica apropriada. Esta unidade poderia ser representada pelos indivíduos, pelos domicílios ou, ainda, pelas empresas. Uma vez que o suposto dualismo entre os setores formal e informal é definido em termos de atividades, é possível focar a atenção tanto nos indivíduos engajados nessas atividades como nas empresas em que eles participam. Consequentemente, o setor informal é objeto de diferentes interpretações. Uma abordagem que foque os indivíduos, por exemplo, deve, segundo o autor, separar o mercado de trabalho urbano nos segmentos formal e informal, onde o último seria definido de modo a incluir os trabalhadores no setor ―desprotegido‖. De acordo com esta visão, o emprego no setor formal é, de alguma forma, protegido. Sendo assim, o nível de salários ou as condições de trabalho neste setor não estão disponíveis, em geral, para os trabalhadores em busca de emprego no mercado, a menos que eles consigam cruzar, de algum modo, a barreira à entrada do mesmo. Por outro lado, o setor informal pode ser equiparado a um segmento desprotegido do mercado de trabalho onde existe a livre entrada 17 devido à alta rotatividade. Neste, em geral, os salários são significativamente menores que os do setor formal. Uma das críticas da abordagem focada nos indivíduos é de Cacciamali (1999). A autora critica a utilização direta, e sem maiores qualificações, de categorias relativas à inserção do indivíduo no mercado de trabalho para a caracterização do setor informal. Segundo a mesma, um trabalhador sem carteira assinada pode fazer parte do setor formal, desde que a empresa contratante deste setor esteja tentando, por exemplo, reduzir seus gastos com encargos trabalhistas. Do mesmo modo, um empregado com carteira de trabalho assinada pode ser considerado como parte do setor informal, se estiver envolvido num processo produtivo típico deste segmento da economia. O que se presume, portanto, é que cada definição pode ser justificada levando-se em conta o propósito da investigação. A escolha em favor das atividades ou empresas não nega a utilidade de outras abordagens baseadas em indivíduos ou domicílios (SETHURAMAN, 1981). Conforme o autor, essas abordagens são, pelo contrário, complementares. O foco em grupos particulares de trabalhadores ou segmentos do mercado de trabalho é, na visão do mesmo, altamente desejável desde que provenham caminhos para a resolução de problemas desses grupos específicos e para o melhor funcionamento do mercado de trabalho urbano nos países em desenvolvimento. Saboia & Saboia (2004) argumentam que, dadas as características do mercado de trabalho brasileiro e as estatísticas disponíveis no País, é muito comum incluir no setor informal, além do trabalhador por conta própria, o empregado sem carteira assinada, limitando o setor formal ao empregado com carteira assinada e ao trabalhador do serviço público civil ou militar. 18 Ao dedicar atenção aos indivíduos que fazem parte do setor informal do mercado de trabalho brasileiro, propriamente, outras considerações precisam ser feitas. De acordo com Pamplona & Romeiro (2002), há enorme heterogeneidade dentro do setor em questão, ou seja, ―as pessoas que participam da economia informal não têm igual acesso aos mercados nem as mesmas dotações de capital técnico e humano‖. Isto significa que esses indivíduos possuem diferentes níveis de renda, perfil ocupacional e condições de trabalho. Cacciamali (2002) reforça essa visão e ressalta o aumento do trabalho informal no setor formal. A visão estática de concentrar no setor informal, portanto, todas as relações de trabalho que não se encaixam nos segmentos assalariados, poderia ser ampliada por meio de uma visão dinâmica, a do processo de informalidade (DUARTE, 2006). Conforme esta dinâmica, não existiria a dicotomia obrigatória entre os setores formal e informal. Do mesmo modo, Pamplona & Romeiro (2002) argumentam que a economia informal é subordinada à parte formal, porém deixam claro que esta subordinação não significa necessariamente a exploração do informal pelo formal, e sim a vinculação entre as duas partes. Oliveira (2003) evidencia também que os trabalhadores do setor informal atuariam nos pequenos espaços econômicos deixados pela acumulação capitalista, ao invés de estarem totalmente desvinculados do sistema. É preciso afirmar, ainda, que as diferentes definições sobre o tema estão vinculadas à existência e ao conteúdo dos recursos estatísticos disponíveis para mensurar o fenômeno. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vem procurando incluir, em suas pesquisas, formas mais desagregadas de definição da posição na ocupação dos trabalhadores, de modo que é possível ampliar as análises do mercado de trabalho no País. 19 Discutidas as principais divergências conceituais, e na medida em que nesta dissertação a unidade utilizada é a pessoa e não a atividade, a escolha foi a de se trabalhar com o conceito de ―trabalho (in)formal‖ ou ―(in)formalidade‖, em vez do conceito de ―setor (in)formal‖. A próxima seção dedica-se a traçar um panorama econômico amplo da década de 1990, provendo subsídios para a posterior análise do crescimento da informalidade verificado nessa década. 20 1.2 O Contexto Macroeconômico Numa primeira aproximação, a economia brasileira dos anos 1990 pode ser dividida em três momentos.1 O primeiro deles, de 1990 a 1994, indica uma fase de alta inflação e crescimento oscilante do Produto Interno Bruto (PIB). Com dois planos de estabilização fracassados e inúmeros casos de corrupção, o período encerra-se com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992). O segundo período, de 1994 a 1999, é marcado pelo sucesso de um plano de estabilização de preços, o Plano Real, a sobrevalorização cambial e as altas taxas de juros. Por fim, o terceiro período, que vai de 1999 a 2003, é reconhecido pela adoção do regime de câmbio flutuante, além do regime de metas de inflação e a perseguição do superávit primário. Entre 1990 e 1994, a maior preocupação foi com a inflação galopante. A média anual do Índice Geral de Preços (IGP) neste período, por exemplo, chegou a 1.210%. Para tentar acabar com este processo, o Governo Collor (1990-1992) propôs dois planos de estabilização, o Plano Collor I e o Plano Collor II. O primeiro deles, lançado em 1990, teve como principais medidas o congelamento de preços de bens e serviços e a reintrodução do cruzeiro como padrão monetário. Além disso, o plano promoveu algumas medidas fiscais, como o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto sobre Obrigações Financeiras (IOF). Foi na área financeira, contudo, que o plano ―inovou‖ com o chamado seqüestro de liquidez.2 De acordo com Castro (2005), o diagnóstico do plano era de que existia uma ―fragilidade financeira do Estado‖ que deveria ser corrigida através 1 Analisa-se mais precisamente o período compreendido entre 1990 e 2003. Todas as operações financeiras que ultrapassassem o limite de NCr$50.000 (cerca de US$1.200, ao câmbio da época) seriam bloqueadas por um prazo de 18 meses (CASTRO, 2005). 2 21 de uma desindexação parcial da economia e da desoneração temporária do pagamento de juros sobre a chamada ―moeda indexada‖. Como resultado, o Plano Collor I fez com que a taxa de inflação passasse de 80% ao mês para um patamar próximo dos 10% ao mês, nos meses seguintes. Entretanto, dada a falta de credibilidade do plano, entre outros fatores, a inflação voltou a se acelerar durante o ano de 1990.3 O PIB, por sua vez, obteve, em 1990, forte retração, fechando o ano com taxa de crescimento de -4,3%. No início de fevereiro de 1991, foi lançada uma nova tentativa de estabilização de preços, o Plano Collor II. Este propôs a racionalização dos gastos nas administrações públicas, o corte das despesas e a aceleração do processo de modernização do parque industrial nacional. Com essas medidas, o governo acreditava que a inflação cairia lentamente, uma vez que seu comportamento fiscal interferiria nas expectativas da mesma. A adoção dessa estratégia gradualista, contudo, estava fortemente baseada na credibilidade do governo. Esta, por sua vez, vinha sendo, constantemente, abalada pelos casos de corrupção e, posteriormente, pelo processo de impeachment aberto contra o então presidente. Sendo assim, mesmo fazendo com que a taxa de inflação caísse por alguns meses, o Plano Collor II não logrou eliminar sua trajetória de alta. A conclusão, portanto, é a de que os planos de estabilização de preços do Governo Collor (1990-1992) não garantiram um processo de crescimento do emprego e da renda em níveis satisfatórios, além de não serem capazes de controlar o processo inflacionário em curso. Aliada às elevadas taxas de juros, a vulnerabilidade da conta de capitais aumentou o grau de incerteza dos agentes, o que desestimulou o investimento produtivo. 3 O Índice Geral de Preços (IGP) registrou, de dezembro de 1989 a dezembro de 1990, 1426,6% de aumento. 22 Com a entrada do vice-presidente Itamar Franco no cargo deixado por Fernando Collor, as taxas de crescimento do PIB expandiram-se, alcançando 4,9% em 1993, e 5,9%, em 1994, resultados estes associados ao comportamento de recuperação da indústria e da agropecuária. Em 1994, ainda no Governo Itamar (1992-1994), houve a concepção de um novo plano com o objetivo de eliminar a inflação, o Plano Real. Nesse sentido, seus formuladores afirmavam que o desajuste das contas públicas era a principal causa da alta generalizada de preços verificada. Deste modo, o ajuste fiscal seria a primeira etapa do plano. O segundo passo seria a desindexação da economia, propriamente, com a introdução da Unidade Real de Valor (URV). A URV correspondia a uma espécie de indexador geral e único da economia. Desta forma, se coordenaria, num único índice, as correções monetárias aplicadas aos preços e aos custos quando expressos em moeda corrente. A URV variaria diariamente de cotação, em relação ao meio de pagamento efetivamente usado nas transações, ou seja, aumentaria seu valor no mesmo ritmo da inflação neste meio de pagamento. Assim, os preços dos bens e serviços expressos em URV ficariam estáveis e, naturalmente, não teriam correção monetária. Seis meses após a introdução da URV, criouse o novo meio de pagamento a ela correspondente, o Real. Esta nova moeda transacional correspondente à URV, igualmente sem correção monetária, foi eficaz na absorção do processo inflacionário. No início de 1995, já com o resultado de uma nova eleição direta, Fernando Henrique Cardoso tomou posse sob um contexto de forte apreensão quanto à manutenção 23 das taxas de variação dos preços em níveis baixos. Outros dois problemas no horizonte próximo eram o desequilíbrio externo e uma séria crise fiscal (CASTRO, 2005). As taxas de inflação foram contidas e mantidas em patamares mais baixos. Segundo Cacciamali (1999), a estabilização dos preços acabou por firmar-se, mantendo um regime de taxa de câmbio sobrevalorizada - até 1999 - e taxas de juros elevadas, que iriam limitar o crescimento do produto e do emprego. O setor exportador, que tem como característica o oferecimento de empregos de melhor qualidade, viu-se prejudicado pela sobrevalorização do câmbio. A balança comercial, a partir de 1995, passou a ser constantemente deficitária, também por conta das medidas relacionadas à abertura brusca da economia à competitividade internacional, ainda durante o Governo Collor. Este déficit deveria ser compensado com a entrada de capital financeiro externo e, para isso, a manutenção de taxas de juros elevadas era uma condição. Entre 1995 e 1998, o ambiente macroeconômico do País continuou marcado pela sobrevalorização cambial e o diferencial positivo e elevado entre as taxas de juros domésticas e internacionais. Contudo, houve um contínuo e progressivo desgaste da âncora cambial como instrumento básico da política econômica (CASTRO, 2005). No âmbito externo, três crises internacionais ameaçavam a economia nacional. Primeiro, a crise do México, em 1995, fez com que o fluxo de dólares para o Brasil fosse interrompido subitamente. Neste momento, a solução foi elevar a taxa de juros. Esta, por sua vez, também foi uma maneira, via recessão, de diminuir o déficit da balança comercial, já que as empresas desviariam sua produção para o mercado externo, fazendo com que as exportações aumentassem. Em 1997, com a crise asiática, o mesmo ocorreu. O Brasil respondeu da mesma maneira e, novamente, perdeu reservas. Assim como a crise mexicana, esta foi uma crise 24 breve, pois logo em seguida foi restabelecida a condição de abundância de financiamento externo. Esta abundância de liquidez estava sendo destinada, cada vez mais, para as economias emergentes. No Brasil, propriamente, parte deste financiamento externo está sendo obtido com o processo de privatizações em curso. Finalmente, em 1998, com a crise da Rússia, foi detonada a aversão ao risco. O Brasil tentou aplicar a mesma receita das crises anteriores, porém o crédito não retornou ao País. Ademais, os investidores externos o viam, nesse momento, como sendo um País com graves desequilíbrios macroeconômicos. Esta última crise iria culminar, então, em queda acentuada de reservas e numa nova rodada de negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o governo, o acordo seria uma forma de se ganhar tempo, até que o mercado voltasse à normalidade. Em 1999, com a contínua deterioração das expectativas do mercado, adotou-se o sistema cambial de taxas flutuantes, com a desvalorização da moeda nacional. A decisão tomada, ainda no início de 1999, foi o aumento da taxa de juros para conter a inflação via demanda e para conter a desvalorização cambial. A partir desse momento, negociava-se o que seria o regime econômico conhecido como tripé. Em primeiro lugar, promoveu-se um regime de metas de inflação, que seriam perseguidas utilizando-se como instrumento a taxa de juros. Estas metas seriam préanunciadas. Sendo assim, o manejo das expectativas via metas poderia fazer com que o custo da desinflação fosse próximo de zero. Isto é, dada a plena credibilidade do Banco Central, haveria êxito em influenciar as expectativas inflacionárias. Ademais, o instrumento de taxa de juros para a contenção da demanda poderia ser menos requisitado. Em segundo lugar, o regime de câmbio flutuante deu maior liberdade à política monetária. Em outros termos, a taxa de juros não estaria mais a serviço da âncora cambial 25 para, por exemplo, ajustar as contas externas. Esta seria agora instrumento exclusivo das metas de inflação. Em terceiro lugar, metas de superávit primário seriam anunciadas ano a ano, com o objetivo de colocar o indicador dívida pública/ PIB em trajetória declinante. Sob o tripé, o comportamento da economia brasileira foi favorável quanto à inflação e as contas externas. A questão mais importante agora parecia ser a do crescimento econômico. O crescimento médio do produto brasileiro correspondeu a 2,1% a.a. entre os anos de 1999 e 2002, enquanto a média mundial girou em torno de 3,5% a.a. (GIAMBIAGI, 2005). Aliado a esse contexto macroeconômico, a década de 1990, no Brasil, teve como principais características a reestruturação produtiva decorrente da abertura da economia de forma acelerada, o desmonte do sistema de planejamento do Estado e a privatização de empresas estratégicas. Por reestruturação produtiva entende-se o processo de formação de um novo padrão industrial, que tem como elemento chave mudanças na base técnica de produção e nas relações de trabalho, a partir do chamado sistema de produção flexível (SANTOS, 2006). Esta reestruturação está ligada às novas tecnologias e às novas formas e métodos de gestão e organização do trabalho, compreendida como uma resposta à queda ou estagnação da produtividade (FILGUEIRAS, 2000). A característica essencial desse novo paradigma tecnológico/organizacional pode ser resumida pela palavra flexibilidade (HARVEY, 1992). O processo de abertura comercial, por sua vez, tônica da política econômica dos anos 1990, privilegiava ajustes que gerassem ganhos de produtividade para aumentar sua competitividade junto ao cenário internacional. Todo esse movimento impactou de forma decisiva sobre o mercado de trabalho brasileiro, como será evidenciado na próxima seção. 26 1.3 As Novas Relações de Trabalho A flexibilidade assumida pelo novo paradigma tecnológico/organizacional implica a necessidade de uma força de trabalho também flexível, mais qualificada e que deveria ter várias preocupações e realizar diversos tipos de tarefas. Segundo Castel (1998), a flexibilidade não se reduz à necessidade de que o operador ajuste-se mecanicamente a uma tarefa pontual e sim exige que este esteja sempre disponível a adaptar-se às flutuações de demanda. A busca de flexibilidade, no âmbito do mercado de trabalho, exige a ―livre contratação‖ entre capital e trabalho, sem nenhum tipo de restrição, e a ―livre negociação‖ sem intervenção e regulamentação por parte do Estado (FILGUEIRAS, 2000). Na mesma direção, surgem novos tipos de relacionamento entre as empresas, através das diversas formas de subcontratação. As empresas maiores utilizam-se dessas formas com o objetivo de reduzir custos e transferir responsabilidades e riscos para as empresas menores. Em outros termos, esta nova dinâmica econômica anuncia a ruptura do paradigma do assalariamento como forma dominante de mobilização da força de trabalho (LAVINAS et al., 2000). De acordo com a autora: ―O avanço tecnológico mesclado a um crescimento com base em alta produtividade do trabalho e, portanto, com pouca geração de emprego está revigorando outras formas de ocupação, em que a instabilidade nos contratos de trabalho, os empregos em tempo parcial, a terceirização e a contratação de trabalhadores a domicílio deixam de ser modalidades arcaicas ou condenadas ao desaparecimento para ocupar o centro das novas estratégias de gestão da força de trabalho‖ (LAVINAS et al., 2000, p. 1). Sendo assim, a flexibilização das relações trabalhistas possibilita uma série de vantagens para os empresários. Conforme Chahad (2002), os encargos trabalhistas e sociais da empresa podem ser reduzidos, pois haveria menos despesas com treinamento, 27 por exemplo. O quadro de empregados também pode ser menor, facilitando a administração de recursos humanos e enfraquecendo a ação dos sindicatos. Estas mudanças, consequentemente, liberam capital para aplicação em melhorias do processo produtivo e desenvolvimento ou aquisição de novas tecnologias, incrementando a qualidade dos bens produzidos e serviços prestados. Por fim, a produtividade e os lucros são aumentados. Por outro lado, Chahad (2002) também chama atenção para diversos problemas causados aos trabalhadores. Em primeiro lugar, os vínculos empregatícios tornam-se mais frouxos, portanto a rotatividade aumenta. Além disso, os empregos criados são, em sua maioria, empregos precários, ou seja, não envolvem diversos direitos de proteção social ou mesmo podem estar baseados em condições de trabalho que agravam a vulnerabilidade dos trabalhadores nesses inseridos. A reforma das relações de trabalho, pautada pela defesa da flexibilização e da desregulamentação de diversos direitos, é defendida assim como forma de redução do custo do trabalho e do aumento dos níveis de produtividade e competitividade. Conforme salienta Krein (2006), a flexibilidade pode ser entendida como um modo de reduzir, ou mesmo eliminar, as normas vigentes na lei ou contratos coletivos, permitindo maior liberdade para as empresas determinarem as condições de uso, de contratação e de remuneração do trabalho. O fortalecimento da auto-regulação do trabalho pelo mercado seria a ―chave para o progresso‖. Porém, de acordo com Castel (1998), esta estratégia seria prejudicial a médio e longo prazo para a própria empresa: ―Ora, nas transformações em curso, uma adesão de primeiro grau às exigências imediatas da rentabilidade pode revelar-se, a médio ou longo prazo, mas de modo certo, contraprodutiva para a própria empresa (por exemplo, um uso selvagem da flexibilidade rompe a coesão social da empresa ou desmotiva o pessoal)‖ (CASTEL, 1998, p. 522). 28 A alta rotatividade associada à intensa flexibilização implica prejuízo ao processo de aprendizado dentro das empresas. Isto porque este não é um processo passivo, no qual a firma recolhe informações pré-determinadas do ambiente e, sim, um processo ativo (NELSON & WINTER, 1982). De acordo com os mesmos autores, a firma é uma organização que sabe ―fazer coisas‖, e não somente a tradução de uma função de produção que combina insumos para a produção de certo produto. A dimensão tácita do conhecimento, ou seja, as instruções do processo produtivo nem sempre podem ser transmitidas em uma linguagem formal. Nem sempre o conhecimento de uma firma será igual ao de outra, por conta do fato do conhecimento produtivo não ser um conhecimento meramente ―codificável‖. Deste modo, a informação é ―estocada‖ nas memórias dos membros da organização, na qual reside todo o conhecimento, articulado e tácito, que constitui suas habilidades e rotinas individuais. Para os autores, as rotinas regem, portanto, o comportamento dos indivíduos e podem ser entendidas como a memória organizacional da firma. Sendo assim, a atividade de rotina constitui a forma mais importante de armazenar o conhecimento operacional específico de uma organização (NELSON & WINTER, 1982). Quando certo membro sai da empresa em que trabalha, sem aviso prévio, por exemplo, há perda de conhecimento por parte dessa firma. Esta perda significa o enfraquecimento da própria empresa. Além de todos esses desdobramentos, como salientado anteriormente por Castel (1998), a alta rotatividade desmotiva o trabalhador a fazer seu melhor para a empresa. Dentro desse contexto, a flexibilidade pode também ser associada à precarização, elemento histórico do mercado de trabalho brasileiro. Este fenômeno pode ser traduzido 29 pelo alto grau de informalidade, pelos baixos salários e pela enorme heterogeneidade da estrutura ocupacional (KREIN, 2006). Nesse sentido, diferentes formas de flexibilização das relações de trabalho podem ocorrer no campo da contratação, da remuneração e do tempo de trabalho. Conforme argumenta Krein (2006), a contratação dos trabalhadores pelas empresas foi flexibilizada de diversas formas, durante a década de 1990. A primeira delas diz respeito à grande facilidade para a rescisão do contrato de trabalho por parte das firmas. A segunda forma é o aparecimento ou a intensificação de diversas modalidades de contratos atípicos.4 A tabela 1.1 a seguir expõe alguns deles. 4 Considera-se contrato atípico aquele que exige regulamentação especial na legislação, em desacordo com o contrato padrão por prazo indeterminado. 30 Tabela 1.1 – Flexibilização nas Formas de Contratação Tema Trabalho por Tempo Determinado Lei 9.601/98 Contrato de Experiência Contrato por Obra Certa Lei 2.959/56 Cooperativas profissionais ou de prestação de serviços Lei 8.949/94 Trabalho em Tempo Parcial MP 1.709/98 Trabalho Temporário Portaria 2/96 Contrato de Apredizagem Lei 10.097/2000 Trabalho estágio MP 2164/99 e Lei 6.494/77 Iniciativas A essência está em desvincular o contrato por prazo determinado da natureza dos serviços prestados; muda os critérios de rescisão e reduz as contribuições sociais; cria o banco de horas. Tem duração máxima de 90 dias. O empregador não precisa dar aviso prévio e pagar a indenização de 40% sobre o depósito do FGTS, assim como as estabilidades provisórias limitam-se ao período de vigência do contrato de experiência. É um contrato por prazo determinado, comum na construção civil. Mesma regulação dos demais contratos por prazo determinado. Possibilita que os trabalhadores se organizem em cooperativas de prestação de serviços e executem o trabalho dentro de uma empresa, sem caracterização de vínculo empregatício e, portanto, sem os direitos trabalhistas assegurados na legislação e na Convenção Coletiva. Jornada de até 25 horas semanais; salário e demais direitos trabalhistas estarão em conformidade com a duração da jornada trabalhada; não prevê a participação do sindicato na negociação. Amplia a possibilidade de utilização da lei (6.019/74) de contrato temporário, generalizando a utilização do contrato de trabalho precário. É uma contratação temporária via agência de emprego privada, que segue a mesma regulação dos demais contratos por prazo determinado. Permite a intermediação da mão de obra aprendiz. Amplia as hipóteses de utilização do estágio, desvinculada da formação acadêmica e profissionalizante. Fonte: KREIN (2006), p. 59 Esses tipos de contratos nem deveriam ser chamados de atípicos, principalmente durante a década de 1990. Considerando as afirmações de Castel (1998), também se pode 31 afirmar que, no Brasil, parte das novas contratações foi feita, nesse momento, segundo essas formas de contrato. O avanço da chamada relação de emprego disfarçada pode ser descrita como uma terceira forma de flexibilização na contratação. Esta relação possui características do trabalho assalariado, entretanto o contrato firmado entre empregado e empregador não inclui, em suas cláusulas, alguns direitos trabalhistas e/ou previdenciários. A quarta forma de flexibilização na contratação, chamada de terceirização ou subcontratação, pode concretizar-se de inúmeros modos. O primeiro deles dá-se por meio de agências de intermediação da mão de obra. Estas promovem a contratação temporária do trabalhador, deixando de lado diversos direitos. Um segundo modo consolida-se através da contratação de cooperativas, ―pejotas‖, autônomos ou trabalho estágio. 5 Como evidenciado, esses são tipos de contrato precários. Uma terceira maneira de subcontratação está associada, por sua vez, à utilização do trabalho a domicílio. A flexibilização, entretanto, não se resume a variações na forma de contração do trabalhador. Mesmo aquele possuidor de um contrato estável a encara ao observar a composição de sua remuneração. Esta ocorre por meio do crescimento relativo da parcela variável de seu salário vis-à-vis a parcela fixa. Durante a década em questão, foram intensificados vários tipos de remuneração variável, como prêmios, bônus, comissões, além do chamado Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) – através da Medida Provisória 1.029 de 1994. Conforme enfatiza Krein (2006), este movimento tende a acentuar a desigualdade de renda na sociedade e a tornar o rendimento mais inseguro, uma vez que está mais vinculado ao desempenho do setor econômico no qual a empresa está inserida. 5 Os ―pejotas‖ são indivíduos contratados como pessoas jurídicas. 32 Por fim, medidas para moldar o tempo de trabalho à necessidade da empresa, como a criação do Banco de Horas – pela Lei 9.601/98 – a permissão de trabalho aos domingos – através da Lei 1.539/97 – e a compensação individual da jornada, causaram, em geral, ainda mais perdas para os trabalhadores. Ao submeter os trabalhadores a uma dinâmica de just-in-time e de controle de qualidade total, um dos objetivos é a eliminação total de tempos mortos e erros. Há, nesse sentido, a intensificação do ritmo de trabalho, associada ao rebaixamento das remunerações e ao corte de alguns direitos trabalhistas. Ademais, o trabalhador perde a garantia de estabilidade no emprego. Este se condiciona, cada vez mais, à sazonalidade do mercado ou às flutuações econômicas. A flexibilidade, tida como solução para o desemprego e para o aumento da competitividade, resulta, portanto, no contrário: ―A tendência de fortalecer a flexibilidade não trouxe os efeitos esperados em relação à criação de novos postos de trabalho, mas contribuiu para acentuar a precarização do trabalho e torná-lo mais inseguro, aumentando a concorrência predatória entre os participantes do mercado de trabalho‖ (KREIN, 2006, p. 72). Em meio a esses acontecimentos, outras tendências em relação ao emprego são verificadas. A diminuição do percentual de empregados com carteira assinada no total da população ocupada de 15 anos ou mais, por exemplo, em contraposição ao aumento da participação relativa dos empregados sem carteira e dos trabalhadores por conta-própria, evidencia o aumento da informalidade, durante toda a década em questão.6 6 Aqui, a informalidade é entendida como o percentual de trabalhadores sem carteira assinada mais os trabalhadores por conta própria no total de ocupados, como é feito na maioria dos estudos brasileiros que utilizam dados da PNAD e da PME. 33 Gráfico 1.1– População Ocupada de 15 anos ou mais por Posição na Ocupação – 1991/2000 60 (em % do total) 54,9 50 44,4 40 3,5 30 20 3,8 10 0 jan/91 jan/92 jan/93 jan/94 Empregados com carteira assinada jan/95 jan/96 jan/97 jan/98 Empregados sem carteira assinada jan/99 jan/00 Conta-própria Fonte: Banco Sidra/PME/IBGE No entanto, esta reorganização do emprego ocorreu de forma não homogênea, tanto setorial quanto espacialmente. Na próxima seção, são discutidas as duas principais tendências quanto à distribuição do emprego, entre 1990 e 2003. 34 1.4 As Dinâmicas Espacial e Setorial do Emprego O esforço da indústria em resposta ao processo de abertura comercial envolve a reestruturação organizacional e produtiva das empresas, passando pelo enxugamento dos quadros de pessoal (RAMOS, 2004). Um dos aspectos mais marcantes do ajustamento observado, portanto, está ligado ao nível do emprego no setor industrial. Este movimento é relevante, pois o setor industrial mostrava-se, em momentos anteriores, ser grande empregador. Como se pode observar na tabela 1.2, no setor industrial, a destruição líquida de empregos formais é intensa no período 1992-1999. O saldo é negativo em 830.761 empregos, o que corresponde a uma variação negativa do estoque em 1991 de 13,1%. Além disso, o Sudeste, região com grande estoque de empregos formais industriais, parece ter sido a mais afetada, com destruição líquida de cerca de 600 mil empregos. Tabela 1.2 – Variação do Emprego Formal por Região – Capital e Interior – Indústria – 1992/1999 Capital Região Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Interior Total Estoq. 1991 Var.abs. Var. % Estoq. 1991 Var.abs. Var. % Estoq. 1991 Var.abs. Var. % 3.260.205 -489.152 -15,0 3.073.085 -341.609 -11,1 6.333.290 -830.761 -13,1 127.495 -20.466 -16,1 41.801 578 1,4 169.296 -19.888 -11,7 494.767 -54.581 -11,0 268.709 -33.074 -12,3 763.476 -87.655 -11,5 2.088.889 -354.549 -17,0 1.911.928 -244.587 -12,8 4.000.817 -599.136 -15,0 411.411 -49.932 -12,1 789.069 -57.074 -7,2 1.200.480 -107.006 -8,9 137.643 -9.624 -7,0 61.578 -7.452 -12,1 199.221 -17.076 -8,6 Fonte: RAIS/MTE e CAGED/MTE Obs. Foram selecionados somente os trabalhadores CLT na RAIS Obs2. Para a agregação da indústria foram considerados os seguintes subsetores: extrativa mineral, indústria de transformação, serviços industriais de utilidade pública e construção civil. Esta perda de capacidade de geração de empregos pela indústria, no País como um todo, ocorre especialmente na indústria de transformação. Em contraposição a este movimento, observa-se uma forte expansão da participação do setor de serviços na criação de empregos. 35 Gráfico 1.2 – Percentual da População Ocupada no Setor de Serviços e na Indústria de Transformação – janeiro 1991 – janeiro 2000 25 56 (em % do total) 54 20 15 50 10 Serviços Indústria de Transformação 52 48 5 46 0 44 jan/91 jan/92 jan/93 jan/94 jan/95 jan/96 Indústria de transformação jan/97 jan/98 jan/99 jan/00 Serviços Fonte: Banco Sidra/PME Antiga/IBGE De acordo com Ulyssea & Reis (2005), a década de 1990 pode ser então caracterizada pela expansão de um setor com grau de informalidade tradicionalmente elevado (o setor de serviços) e a contração de um setor caracterizado por um maior grau de formalização (a indústria de transformação)7. Conforme alerta Ramos (2002), entretanto, o grau de informalidade da própria indústria também aumentou. Desta forma, para o autor não faz sentido falar apenas em efeito composição, isto é, não é totalmente correta a lógica de que se um setor bem formalizado encolheu, a informalidade tende a crescer e se tivesse se expandido, teria contribuído para diminuir a informalidade. 7 Para definição de grau de informalidade, vide nota no6. 36 Gráfico 1.3 – Grau de Informalidade na Indústria de Transformação – janeiro 1991 – janeiro 2000 35 30 25 20 15 10 jan/91 jan/92 jan/93 jan/94 jan/95 jan/96 jan/97 jan/98 jan/99 jan/00 Fonte: Ramos (2002) a partir da PME A distribuição espacial do emprego — segundo unidades da federação, regiões geográficas e as áreas metropolitanas vis-à-vis as áreas não-metropolitanas — também é modificada, muito por conta da chamada ―guerra fiscal‖, ou seja, dos diferentes incentivos fiscais dados às regiões. Esta dinâmica de realocação espacial do emprego formal é de natureza similar tanto no agregado como no segmento industrial, ambos marcados pela despolarização metropolitana, mas de forma mais aguda no segundo caso (RAMOS, 2004). Este resultado também é evidenciado pela tabela 1.2. Com raras exceções, tanto em termos absolutos 37 como relativos, a destruição líquida de empregos formais celetistas é maior nas capitais, em comparação ao interior, no período compreendido entre 1992 e 1999.8 Saboia (2000) também alerta para a dinâmica de realocação do emprego. Analisando o período 1989-1997, o autor já afirmava esse movimento de desconcentração industrial, através da constatação de um declínio do emprego deste setor nas principais capitais e regiões metropolitanas e o fortalecimento do interior dos principais estados industrializados e em alguns estados fora do eixo Sul-Sudeste. Aliado a isso, é possível afirmar que muitos trabalhadores migraram para a informalidade. Curi & Menezes-Filho (2004) confirmam esta suposição através do estudo de determinado painel rotativo da PME. Este painel recolheu informações nas mesmas residências nos meses t, t + 1, t + 2, t + 3, t + 12, t + 13, t + 14, t + 15, totalizando oito entrevistas distribuídas ao longo de 16 meses — para analisar as transições entre os diferentes tipos de ocupação de um mesmo indivíduo. Sendo assim, a mobilidade dos trabalhadores foi definida de acordo com a transição dos trabalhadores entre posições na ocupação entre a quarta e a oitava entrevista (CURI & MENEZES-FILHO, 2004). O gráfico 1.4 mostra o percentual de indivíduos que mudaram de posição na ocupação entre a quarta e a oitava entrevista ao longo do período amostral proposto. 8 Segundo a tabela 1.2, em termos absolutos, somente na região Sul, o interior destruiu mais empregos que as capitais. Em termos relativos, a destruição líquida no interior das regiões Nordeste e Centro-Oeste foi maior que em suas respectivas capitais. 38 Gráfico 1.4 – Transições Previstas a partir da Formalidade – 1984-2000 Fonte: Curi & Menezes-Filho (2004) a partir da PME De acordo com este gráfico, entre o período de 1984 a 2001 ocorreu um aumento na porcentagem de trabalhadores que transitaram de uma situação formal para a informalidade, para o desemprego e mesmo para fora da população economicamente ativa (PEA). Especialmente entre 1990 e 1999, o percentual de trabalhadores que saíram da posição formal cresceu, com aparente exceção para o percentual de trabalhadores que transitaram da formalidade para a posição de conta-própria. A partir de 1999, no entanto, esses percentuais diminuíram, indicando, provavelmente, o arrefecimento do processo de aumento da informalidade. 39 1.5 Conclusão Sob a marca da hiperinflação e de uma profunda instabilidade macroeconômica, chegam ao Brasil as receitas de flexibilização do mercado de trabalho, adotadas pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos, durante o período Thatcher e Regan (PRADO, 2008). Estas adentram sob a alegação de serem estimuladoras da acumulação de capital, do crescimento econômico e do emprego. Ademais, empresários as justificam como solução para a falta de competitividade da economia brasileira no cenário internacional. O quadro geral de flexibilização e desregulamentação de direitos fica evidente, particularmente durante a década de 1990. Além disso, a queda acentuada na criação de empregos formais, em contraposição ao aumento do número de empregos sem carteira assinada demonstra um claro processo de desestruturação do mercado de trabalho brasileiro. Entretanto, a partir de 2004, há uma mudança de padrão no mercado de trabalho (PRADO, 2008). Nesse sentido, o processo de revitalização do mesmo assume contornos relevantes. As características desse processo serão analisadas no próximo capítulo. 40 Capítulo 2 – Caracterização do Processo de Aumento da Formalização do Mercado de Trabalho Brasileiro entre 2004 e 2009 2.1 Primeiras Evidências A tendência de queda da participação do emprego formal no conjunto da estrutura ocupacional, verificada durante todos os anos 1990, dá sinais de reversão a partir de 2000. Segundo Baltar et. al. (2006), a inflexão do mercado de trabalho fica patente na maior elasticidade da ocupação não-agrícola diante do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e na ampliação da formalização dos vínculos de emprego. Entre 2004 e 2008, especialmente, o grau de estruturação do mercado de trabalho brasileiro apresentou aumento de mais de quatro pontos percentuais (Gráfico 2.1).9 Vale destacar ainda que, na primeira década do século XXI, especialmente entre os anos de 2004 e 2008, houve uma melhora no ambiente macroeconômico brasileiro. Grande parte dessa melhora esteve intimamente relacionada à dinâmica da economia internacional. Os anos que se seguem após 2003 foram de relativo crescimento mundial (Gráfico 2.2). 9 O grau de estruturação do mercado de trabalho brasileiro é a razão entre os empregados com carteira assinada, militares e servidores públicos, somados aos trabalhadores domésticos, também com carteira assinada, e o total de ocupados, exclusive os empregadores e os trabalhadores para o consumo próprio. 41 Gráfico 2.1 - Grau de Estruturação do Mercado de Trabalho: Anos Selecionados em % da população total ocupada 47,6% 43,1% 40,4% 41,1% 39,5% 1996 1999 2002 2005 2008 Fonte: Cardoso Jr (2007) e a partir da PNAD Gráfico 2.2 – Taxa de Crescimento do Produto Nacional Bruto – Mundo, China e Brasil taxa de crescimento do PNB (%) 13,0 11,6 10,0 10,1 10,4 9,0 9,1 8,3 5,7 5,7 5,1 4,9 2,8 2,2 4,5 4,0 3,6 5,1 3,2 3,2 2,7 1,3 2001 5,2 1,1 2002 2003 China Fonte: World Economic Outlook, FMI, 2009 2004 2005 Mundo 2006 Brasil 2007 2008 42 Tal crescimento, embora disseminado por todos os países, foi impulsionado, em grande medida, pela economia chinesa, com forte impacto nos preços das commodities. Esse movimento de crescimento dos preços foi particularmente benéfico para as exportações brasileiras. Com isso, a partir de 2002, o País conseguiu grandes saldos positivos na balança comercial (Gráfico 2.3). Neste contexto, os investimentos estrangeiros continuaram a entrar no País, propiciando, consequentemente, uma situação mais confortável para o financiamento da balança de pagamentos e o crescimento das reservas internacionais. A melhora das contas externas, além de permitir o crescimento das reservas internacionais, impactou a taxa de câmbio, que se valorizou praticamente durante todo o período. O comportamento do câmbio contribuiu favoravelmente para o controle do nível de preços, sendo este bem sucedido para todos os anos posteriores a 2004 (Gráfico 2.4). Gráfico 2.3 – Saldo da Balança Comercial Brasileira – 1995/2008 200.000 150.000 Valores em US$ milhões 100.000 50.000 0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 -50.000 -100.000 -150.000 -200.000 Balança comercial Fonte: Banco Central Exportação de bens Importação de bens 2007 2008 43 Gráfico 2.4 – Comparação entre o Limite Superior para a Meta de Inflação e a Inflação Efetiva (IPCA) – 2001/2008 14,0 12,5 12,0 10,5 10,0 9,3 8,0 8,0 7,7 7,6 6,0 6,0 7,0 6,5 6,5 5,9 5,7 5,5 6,5 4,5 4,0 3,1 2,0 0,0 2001 2002 2003 2004 Limite Superior (%) 2005 2006 2007 2008 Inflação Efetiva (IPCA % a.a) Fonte: Histórico de Metas para a Inflação no Brasil, Banco Central. Observação: Os anos de 2003 e 2004 tiveram as metas ajustadas pela Carta Aberta de 21/01/2003. Com isso, as incertezas com relação à economia brasileira diminuíram. Em um ambiente de menor incerteza, a partir de 2004, a formação bruta de capital fixo apresentou trajetória de expansão (Gráfico 2.5). 44 Gráfico 2.5 – Formação Bruta de Capital Fixo – R$ de 1980 (Base 2008) – 1994-2008 120 100 80 60 40 20 0 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Fonte: IPEADATA Cumpre ressaltar que o investimento acompanhou os aumentos das exportações e das vendas no mercado doméstico. Nos setores de atividade relativamente atualizados em tecnologia e organização, que conseguem competir pelo atendimento das vendas no mercado doméstico e de outros países, como mineração, siderurgia, papel e celulose, álcool e petroquímica, a capacidade produtiva tem crescido (NEIT, 2007). Por outro lado, outro investimento fundamental para a continuidade da acumulação de capital é em infra-estrutura, onde a ação pública é fundamental (BALTAR & LEONE, 2008). Nesse sentido, em 2007, o Governo Lula lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), prometendo aplicar em quatro anos um total de investimentos em infra-estrutura da ordem de R$503,9 bilhões, nas áreas de transporte, energia, saneamento, habitação e recursos hídricos. Em resumo, o País conseguiu aproveitar-se, em grande medida, de um relativo crescimento mundial e do aumento dos preços de seus produtos de exportação para reduzir 45 suas restrições externas e proporcionar certa melhora das contas públicas e de muitos de seus indicadores. Contudo, o País não diminuiu, substancialmente, suas taxas de juros, sendo este um ponto desfavorável pelo menos até 2008. Em setembro de 2008, o pedido de concordata do Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento americano, como parte da crise já instalada neste mercado financeiro, causou forte pânico nos mercados globais. Aumentaram a desconfiança quanto à solvência do sistema bancário norte-americano e a preocupação com os impactos recessivos no lado real da economia. Em dezembro do mesmo ano, houve sensível deterioração dos indicadores econômicos nos Estados Unidos, como a diminuição do gasto das famílias com consumo, o aumento do desemprego, a queda na confiança do consumidor e a menor disponibilidade de crédito. A economia mundial, consequentemente, sofreu com a desaceleração. No último trimestre de 2008 e no primeiro de 2009, houve forte redução da produção industrial no Brasil, sendo o comércio o setor menos afetado. O saldo líquido de empregos formais também acompanhou esse movimento, porém a taxa de desocupação não apresentou aumento expressivo. O governo brasileiro manteve uma política fiscal ativa, através da manutenção do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da redução de impostos sobre alguns setores da indústria, como a automobilística. Quanto à política monetária, a taxa nominal de juros ao ano caiu discretamente, entre setembro de 2008 e setembro de 2009, na tentativa da normalização do mercado de crédito. Neste sentido, a participação relativa dos bancos públicos no saldo total de créditos do Sistema Financeiro Nacional (SFN) aumentou. Esta ação contracíclica, desde o agravamento da crise, em setembro de 2008, tornou-se importante para sustentar o crescimento do crédito no período pós-crise. 46 Portanto, pode-se afirmar que a economia brasileira sofreu os impactos da crise, porém estes tiveram curta duração, de modo que a economia voltou rapidamente ao ritmo de crescimento anterior. Gráfico 2.6 – Saldo Dessazonalizado de Empregos Formais – jan/2008 a dez/2009 309,1 227,8 203,4 202,6 201,6 156,4 153,3 173,9 173,6 171,7 165,5 170,1 129,9 98,2 51,6 19,2 20,1 82,7 37,5 3,8 (29,0) (8,8) (91,5) (168,8) jan/08 mar/08 mai/08 jul/08 set/08 nov/08 jan/09 mar/09 mai/09 jul/09 set/09 nov/09 Fonte: CAGED/MTE. Elaboração: LCA Obs. Em milhares. Quanto ao mercado de trabalho, tema desta dissertação, é possível notar que o saldo líquido de empregos formais alcançou um ―vale‖ em dezembro de 2008 (Gráfico 2.6). Este é um mês conhecido por ser de ajuste geral da mão-de-obra no mercado de trabalho brasileiro. Isto é, há redução das admissões com relação à média mensal dos demais meses, e aumento das demissões. Nota-se, portanto, que este comportamento sazonal está, principalmente, ligado ao fato das empresas admitirem menos no referido mês. Além disso, é fato que, comparativamente a outros meses, um menor número de novas empresas iniciam suas atividades, o que reduz ainda mais o número de contratações. 47 Com o impacto da crise internacional, o desempenho negativo acentuado de dezembro de 2008 permaneceu no início de 2009. A partir de agosto, entretanto, houve efetiva recuperação do mercado de trabalho formal brasileiro. Cabe enfatizar que, ainda em 2008, a população brasileira correspondia a cerca de 190 milhões. Destas, 160,6 milhões compunham a população em idade ativa (PIA), ou seja, aquela com 10 anos ou mais de idade, no Brasil como um todo, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população economicamente ativa (PEA), que compreende o potencial de mãode-obra com que pode contar o setor produtivo, ou seja, a soma da população ocupada com a desocupada, correspondia a 99,5 milhões de pessoas. Seu crescimento médio anual foi de 1,75%, entre 2004 e 2008, segundo a PNAD. Por sua vez, a população ocupada, definida como o conjunto de pessoas que, num determinado período de referência, trabalhou ou tinha trabalho (mas não trabalhou) era de 92,4 milhões, em 2008. Por fim, a população desocupada, representada por aqueles indivíduos que não tinham trabalho, num determinado período de referência (30 dias, por exemplo), mas estavam dispostos a trabalhar, e que, para isso, tomaram alguma providência efetiva (consultando pessoas, jornais, etc), somavam cerca de 7,2 milhões de pessoas. Dentro desse contexto, é possível afirmar que a oferta de mão-de-obra vem sofrendo diversas transformações. De acordo com Tafner (2006), a fecundidade e a mortalidade são os principais determinantes da composição por sexo e idade da população em idade ativa, quando não se leva em conta os que imigram e os que emigram. Sendo 48 assim, cabe constatar que a população em idade ativa vem crescendo em número absoluto, porém sua taxa de crescimento tem caído com o passar dos anos. Vale ainda ressaltar, como faz Tafner (2006), que esta definição, bem como as demais, do IBGE, delimita uma idade mínima, dez anos, porém não uma idade máxima. Isto pode significar, então, uma maior participação de certos grupos de idade na PIA, em detrimento de outros. No caso brasileiro, a tendência de menor crescimento dos grupos mais jovens, em relação ao grupo dos mais velhos, vem acarretando o envelhecimento da PIA. Mesmo sendo consenso que o processo de envelhecimento da população já está em curso, pode-se afirmar que o Brasil ainda passa pela fase chamada de janela demográfica ou bônus demográfico. Isto porque mais da metade da população brasileira terá entre 15 e 64 anos, nas próximas décadas (Tabela 2.1). Deste modo, a maior concentração de pessoas adultas na população significa maior disponibilidade de mão de obra. Tabela 2.1 – População Estimada por Faixa Etária e Razão de Dependência – 2005-2050 Ano % 0-14 anos % 15-64 anos % 65 anos ou mais Razão de dependência 2005 27,5 66,3 6,2 50,9 2010 25,5 67,6 6,9 47,9 2015 22,8 69,2 8,0 44,5 2020 20,1 70,4 9,6 42,1 2025 18,3 70,3 11,4 42,3 2030 17,0 69,3 13,7 44,2 2035 16,0 68,3 15,7 46,4 2040 15,3 67,0 17,7 49,2 2045 15,0 65,1 20,0 53,7 2050 14,7 62,8 22,5 59,3 Fonte: Organização das Nações Unidas (ONU) - http://esa.un.org/unpp 49 É necessário atestar que este fenômeno não é eterno, uma vez que a menor fecundidade e maior longevidade da população atuam no sentido de dar mais peso relativo à população idosa, revertendo, portanto, a razão de dependência.10 O que vale enfatizar, neste sentido, é que, em qualquer país, a transição demográfica só acontece uma vez e somente uma vez se pode utilizar o bônus demográfico (ALVES, 2008). Tal período torna-se propício para a diminuição da incerteza, além da precariedade e da informalidade do mercado de trabalho brasileiro. Isto demanda um grande esforço em relação à educação e a capacitação dos indivíduos, a criação de oportunidades de emprego, sobretudo o formal, e o desenvolvimento de amplos planos de proteção social. Do contrário, o bônus pode se converter em uma carga adicional para o País, dada a provável pressão da população em busca de emprego, em uma situação de restrito incremento das oportunidades de trabalho. Dentro desse contexto, as novas oportunidades de emprego formal no Brasil foram significativas, no período de 2004 a 2009, mesmo com a crise. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o saldo de movimentação de admitidos e desligados, nesse período, registrou média em patamar bem superior a do período de 2000 a 2003. Enquanto no período compreendido entre 2000 e 2003, a média de empregos criados foi de cerca de 664 mil, entre 2004 e 2009, a média foi de cerca de 1 milhão e 350 mil empregos formais, correspondendo, portanto, a duas vezes a média dos anos anteriores (Gráfico 2.7). 10 Isto é, a razão entre o número de indivíduos de 0 a 14 anos e os com mais de 65 anos e os indivíduos de 15 a 64 anos. 50 O ano de 2007 foi, quantitativamente, o melhor dentro do período ora analisado com a criação de 1.617.392 empregos formais11. Ademais, no ano de 2009, pós-crise, obteve-se saldo positivo, 54,2% acima do saldo verificado em 2003. Gráfico 2.7 – Evolução do Emprego Formal - Saldo Líquido Anual – 2000-2009 1.617.392 1.523.276 1.452.204 1.253.981 1.228.686 995.110 762.415 657.596 645.433 591.079 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Fonte: CAGED/MTE Faz-se necessária, portanto, uma investigação mais aprofundada dos principais aspectos deste recente processo de aumento da formalização do mercado de trabalho brasileiro. Para que se possa traçar um quadro mais detalhado, a investigação das regiões geográficas, dos setores e subsetores de atividade econômica e a análise dos aspectos individuais dos trabalhadores formalizados serão os principais objetivos deste capítulo. 11 Vale ressaltar que o CAGED abrange somente os trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em todo o território nacional. Este cadastro é construído a partir das informações fornecidas pelos estabelecimentos, de forma compulsória, ao MTE. Constitui, portanto, relevante fonte de informação do mercado de trabalho de âmbito nacional e de periodicidade mensal, contemplando as movimentações de admissões e desligamentos dos trabalhadores. 51 Sendo assim, este capítulo está dividido em seis seções, além da introdução. A seção seguinte refere-se à geografia da formalização, isto é, em que regiões, estados e municípios foram criados mais empregos formais. A segunda seção diz respeito aos setores mais dinâmicos de atividade econômica, em relação à formalização. A terceira investiga as características do trabalhador formal brasileiro, em relação ao gênero, faixa etária e ao grau de instrução. A quarta seção analisa a questão da remuneração do trabalhador. Na quinta seção, há a construção do Índice de Qualidade do Emprego Formal (IQEF) e a avaliação de seu resultado. Por fim, a última seção apresenta as principais conclusões do capítulo. 52 2.2 A Geografia da Formalização A partir da análise dos dados do CAGED/MTE, pode-se afirmar que o processo de aumento da formalização do mercado de trabalho brasileiro, entre 2004 e 2009, não ocorreu de forma homogênea. A região Sudeste foi a que apresentou o maior volume de criação de empregos formais no período, correspondendo sozinha a 57,6% do total. Em especial, nos anos de 2005 e 2006, as participações relativas dessa região chegaram a 63,0% e a 62,9%, respectivamente (Tabela 2.2). Tabela 2.2 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Região – 2004 – 2009 2004 Brasil 1.523.276 Sudeste 53,6 Sul 21,7 Nordeste 12,3 Centro-Oeste 7,3 Norte 5,1 2005 1.253.981 63,0 12,9 15,7 4,5 3,9 2006 1.228.686 62,9 16,3 13,6 3,7 3,6 2007 1.617.392 58,7 18,6 12,6 5,8 4,3 2008 1.452.204 57,9 19,0 14,0 7,3 1,8 2009 995.110 47,8 18,5 22,8 7,0 3,7 Total 8.070.649 57,6 18,0 14,7 6,0 3,8 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos Obs.2 Ordenado pelo percentual de empregos criados em todo o período As demais regiões corresponderam a 42,4% do total de empregos formais criados, durante os seis anos de análise. Cumpre ressaltar que, comparando-se o ano de 2004 com o de 2009, apenas a região Nordeste ganhou participação relativa. A mudança mais significativa, no entanto, refere-se à passagem do ano de 2008 para o de 2009. Isto porque o eixo Sul/Sudeste perdeu cerca de dez pontos percentuais de participação relativa na geração de empregos formais celetistas. Enquanto isso, somente a região Nordeste ganhou mais de oito pontos percentuais de participação. Como as demais regiões mantiveram seus percentuais relativos, parece ter havido certa transferência de empregos formais celetistas da região Sudeste para a região Nordeste, entre 2008 e 2009, 53 especificamente. Este resultado também sugere que a região Sudeste foi muito afetada pela crise. Utilizando-se ainda os dados do CAGED, é possível estimar a taxa de crescimento do emprego formal, ano a ano. Para isso, compara-se o emprego gerado a cada ano com o estoque de emprego existente em 31 de dezembro do ano anterior. Tabela 2.3 – Taxa de Crescimento do Emprego Formal por Região – 2004-2009 Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste 2004 6,1 7,3 4,9 6,0 7,2 5,9 2005 4,7 4,3 4,9 5,5 3,3 2,8 2006 4,4 3,7 4,0 5,1 4,0 2,2 2007 5,6 5,6 4,7 6,0 5,7 4,5 2008 4,8 2,1 4,4 5,0 5,0 4,8 2009 3,1 2,8 4,7 2,7 3,2 3,0 Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/MTE Conforme os dados, a taxa de crescimento do emprego na região Sudeste foi maior que a média do País, entre 2005 e 2008. No entanto, em 2009, sua taxa de crescimento do emprego formal celetista foi de 2,7%, contra os 3,1% do País, demonstrando que o eixo Sul/Sudeste não logrou manter o mesmo padrão de crescimento dos anos anteriores. Por outro lado, a região Nordeste conseguiu manter seu padrão de crescimento do emprego formal, mesmo sob efeito da crise. Quanto à análise do processo de formalização nas Unidades da Federação de cada região, pode-se afirmar que, na região Norte, merece destaque o estado do Pará, pois foi o único em que se criou mais 100 mil empregos formais na totalidade do período. Na região Nordeste, Bahia, Pernambuco e Ceará foram os estados com maior criação de empregos formais. Ademais, os três estados obtiveram variações positivas, na comparação de 2004 e de 2009, ao contrário do Pará, anteriormente mencionado, em que a variação percentual foi negativa. 54 Em Goiás, foram criados mais de 200 mil empregos formais no período, bem como em todos os três estados da região Sul. Estes últimos ocupam a 4ª, 5ª e 6ª posições no ranking nacional. Em especial, o estado do Paraná apresenta o melhor resultado, com cerca de 600 mil empregos formais gerados. Por último, na região Sudeste, o estado de São Paulo é o maior responsável pelo bom resultado verificado. Em termos absolutos, São Paulo criou quase três milhões de postos de trabalho formais, entre 2004 e 2009. Em termos relativos, o mesmo responde por 61,5% dos empregos formais criados na região Sudeste e 35,4% do total do País. O estado de Minas Gerais ocupa a 2ª posição – com 10,8% do total do País – e o Rio de Janeiro a 3ª posição – com 9,1% (Tabela 2.4). 55 Tabela 2.4 – Geração de Empregos por Unidade da Federação – 2004-2009 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Total Variação 2004-2009 1.523.276 1.253.981 1.228.686 1.617.392 1.452.204 995.110 8.070.649 -34,7 SP 497.652 472.931 472.627 611.539 525.607 277.573 2.857.929 -44,2 MG 175.254 155.409 152.294 168.398 130.722 90.608 872.685 -48,3 RJ 107.830 121.111 116.158 144.786 154.596 88.875 733.356 -17,6 PR 122.648 72.374 86.396 122.361 110.903 69.084 583.766 -43,7 RS 116.822 26.263 52.099 94.324 90.554 64.226 444.288 -45,0 SC 90.751 63.631 61.322 83.630 73.906 51.014 424.254 -43,8 BA 52.724 63.952 25.089 58.720 40.922 71.170 312.577 35,0 PE 37.426 40.230 38.885 46.348 52.800 46.717 262.406 24,8 CE 31.240 30.875 33.560 39.722 41.441 64.436 241.274 106,3 GO 37.253 31.672 21.061 41.153 47.347 34.404 212.890 -7,6 ES 36.007 40.660 31.969 25.074 29.374 18.975 182.059 -47,3 DF 26.194 25.356 13.374 16.364 26.245 17.422 124.955 -33,5 PA 38.204 17.797 20.806 28.003 8.726 7.380 120.916 -80,7 AM 22.731 19.939 13.005 22.584 8.736 -1.408 85.587 -106,2 RN 17.992 18.396 15.341 15.004 13.531 4.800 85.064 -73,3 MT 27.768 -5.776 4.131 24.556 22.893 5.412 78.984 -80,5 PB 12.713 10.768 13.076 12.157 9.895 13.291 71.900 4,5 MA 10.039 12.882 13.732 16.178 19.344 -4.784 67.391 -147,7 MS 20.087 4.612 6.507 11.922 9.866 12.900 65.894 -35,8 SE 9.891 7.644 7.588 8.785 11.038 11.198 56.144 13,2 RO 6.035 4.884 4.671 8.333 5.380 24.875 54.178 312,2 PI 5.890 6.562 7.540 7.901 11.324 12.727 51.944 116,1 AL 9.682 5.705 12.055 -505 3.322 7.821 38.080 -19,2 TO 5.803 994 2.140 7.105 710 3.045 19.797 -47,5 AP 2.906 1.311 1.412 1.704 1.949 191 9.473 -93,4 AC 820 2.336 1.180 -96 499 1.969 6.708 140,1 RR 914 1.463 668 1.342 574 1.189 6.150 30,1 Brasil Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos Obs2. Ordenado pelo Total Dentro desse contexto, a partir da análise das regiões metropolitanas e nãometropolitanas, pode-se assegurar que estas últimas foram responsáveis por 55,9% do total de empregos formais criados, entre 2004 e 2009. No entanto, verifica-se que, de 2004 para 2005, as metrópoles ganharam participação relativa, enquanto o interior perdeu. Nos anos seguintes, os percentuais mantiveram-se estáveis (Gráfico 2.8). 56 Gráfico 2.8 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos nas Regiões Metropolitanas e Não-Metropolitanas – 2004-2009 % de empregos formais criados 64,1 54,6 45,4 54,1 54,5 45,9 45,5 53,2 46,8 53,4 46,6 35,9 2004 2005 2006 Metrópoles 2007 2008 2009 Interior Fonte: CAGED/MTE Ao separar a geração de emprego nas capitais e no interior do País12 e analisar a variação do período como um todo em relação ao estoque de 2003, foi possível constatar que as capitais obtiveram uma taxa de crescimento do emprego formal ligeiramente maior, em comparação com o interior. A exceção foi observada na região Sul, onde a taxa de crescimento do emprego formal no interior foi um pouco maior do que a das capitais. Ademais, formando-se um grupo com todas as microrregiões que compreendem as capitais e outro com todas as microrregiões do interior, verifica-se que a variação absoluta da criação de empregos formais estava dividida, praticamente, em partes iguais (Tabela 2.5). 12 Foram separadas as 27 microrregiões que abrangem as capitais e as restantes 529 foram consideradas como interior. 57 Tabela 2.5 – Variação do Emprego por Região – Capital e Interior – Todos os Setores 2004-2009 Região Capital Interior Estoq. 2003 Var.abs. Var. % Estoq. 2003 Var.abs. Brasil 12.068.518 4.028.979 33,4 12.849.245 4.041.690 Norte 678.965 216.152 31,8 375.390 86.662 Nordeste 2.295.241 728.837 31,8 1.543.416 457.956 Sudeste 6.407.462 2.291.457 35,8 7.163.234 2.354.581 Sul 1.563.038 492.867 31,5 3.001.398 959.433 Centro-Oeste 1.123.812 299.666 26,7 765.807 183.058 Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/ MTE Total Var. % Estoq. 2003 Var.abs. 31,5 24.917.763 8.070.669 23,1 1.054.355 302.814 29,7 3.838.657 1.186.793 32,9 13.570.696 4.646.038 32,0 4.564.436 1.452.300 23,9 1.889.619 482.724 Var. % 32,4 21,9 23,3 30,2 27,6 20,0 Na indústria13, os resultados não são muito diferentes. Na região Sul, a taxa de crescimento do emprego formal no período foi praticamente igual nas capitais e no interior. Entretanto, nas demais regiões do País, a referida taxa é maior nas capitais. Por outro lado, em termos absolutos, não se pode negar que a criação de empregos formais no interior do país é maior que a geração nas capitais. Além disso, pode-se afirmar que o processo de interiorização do emprego industrial permanece, principalmente, nas regiões Sudeste e Sul14. Com base nos dados, a criação absoluta de empregos no interior do Sudeste é cerca de 40% maior que nas capitais, enquanto no interior da região Sul, a geração de empregos formais foi quase três vezes maior que nas respectivas capitais (Tabela 2.6). Tabela 2.6 – Variação do Emprego na Indústria por Região – Capital e Interior – 20042009 Região Capital Interior Estoq. 2003 Var.abs. Var. % Estoq. 2003 Var.abs. Brasil 3.059.857 1.019.505 33,3 4.595.100 1.368.993 Norte 193.821 75.343 38,9 131.820 22.744 Nordeste 572.819 218.136 38,1 515.046 198.853 Sudeste 1.593.710 522.610 32,8 2.435.863 728.114 Sul 475.860 126.760 26,6 1.284.923 355.123 Centro-Oeste 223.647 76.656 34,3 227.448 64.159 Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/ MTE 13 Total Var. % Estoq. 2003 29,8 7.654.957 17,3 325.641 38,6 1.087.865 29,9 4.029.573 27,6 1.760.783 28,2 451.095 Var.abs. 2.388.498 98.087 416.989 1.250.724 481.883 140.815 Var. % 31,2 30,1 38,3 31,0 27,4 31,2 Compreende a indústria extrativa mineral, a indústria de transformação, os serviços industriais de utilidade pública e a construção civil. 14 Para mais informações, ver Saboia (2010). 58 Vale destacar ainda que, entre 2000 e 2004, o interior de todas as regiões brasileiras – com exceção do Norte - alcançou uma taxa de crescimento do emprego formal na indústria maior que a taxa das respectivas capitais, fazendo supor que o emprego formal havia migrado para fora das metrópoles (Tabela 2.7). Tabela 2.7 - Variação do Emprego na Indústria por Região – Capital e Interior – 20002004 Região Capital Estoq. 1999 Var.abs. Var. % Estoq. 1999 Brasil 2.994.873 253.979 8,5 4.176.027 Norte 170.484 26,5 124.197 45.168 Nordeste 576.479 25.210 4,4 449.350 Sudeste 1.595.215 76.419 4,8 2.276.092 Sul 433.257 87.886 20,3 1.127.288 Centro-Oeste 219.438 19.318 8,8 199.100 Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/ MTE Interior Var.abs. 803.355 21.084 108.415 365.105 264.899 43.830 Total Var. % Estoq. 1999 Var.abs. 19,2 7.170.900 1.057.334 17,0 294.681 66.252 24,1 1.025.829 133.625 16,0 3.871.307 441.524 23,5 1.560.545 352.785 22,0 418.538 63.148 Var. % 14,7 22,5 13,0 11,4 22,6 15,1 De acordo com Pochmann (2006), o emprego formal tem sua dinâmica ainda muito influenciada pelo comportamento da produção e da exportação de bens primários. Sendo assim, pode-se supor que as regiões metropolitanas tendem a perder importância relativa no total de empregos formais. No entanto, conforme o mesmo autor, isto não significa, necessariamente, a desconcentração do total das vagas geradas com carteira assinada no Brasil (POCHMANN, 2006). Como analisado, entre 2004 e 2009, somente as regiões Sul e Nordeste conseguiram taxas de crescimento ligeiramente maiores no interior. Supõe-se, portanto, que as mudanças no mapa da estrutura ocupacional ainda são tímidas e a concentração do emprego formal ainda é elevada nos grandes centros e no interior das regiões mais desenvolvidas.15 15 Esta suposição ficará mais clara no Capítulo 3, quando serão analisados os principais aspectos da estrutura ocupacional brasileira. 59 Esta conclusão é reforçada ao se analisar a situação sob o ponto de vista dos municípios brasileiros. O que se observa é a concentração da geração de empregos formais nos municípios localizados nas regiões metropolitanas. Tabela 2.8 – Geração de Emprego por Município – 50 Melhores – 2004-2009 2004 2005 2006 2007 2008 Bra sil UF 1.523.276 1.253.999 1.228.686 1.617.392 1.452.204 S ã o P a ulo SP 126.629 172.429 173.715 234.450 232.625 R io de Ja ne iro RJ 54.573 61.787 58.218 84.186 84.147 Be lo H orizonte MG 32.246 38.329 54.589 55.471 47.320 Curitiba PR 27.591 22.187 29.414 30.572 28.212 Forta le za CE 16.870 20.603 16.965 24.032 30.012 S a lva dor BA 17.254 22.235 12.097 19.004 23.492 Bra sília DF 26.194 25.356 13.374 16.364 26.245 R e cife PE 15.051 17.243 12.785 18.841 24.087 P orto Ale gre RS 15.873 15.680 11.910 19.983 24.133 Ma na us AM 22.938 20.347 12.760 21.322 9.673 Campinas SP 15.034 17.081 10.482 17.272 14.290 Goia nia GO 12.405 14.709 5.214 10.609 17.656 Guarulhos SP 14.743 10.933 13.484 16.150 10.358 São Bernardo do Campo SP 16.077 15.210 9.422 14.327 11.351 Barueri SP 10.205 9.494 10.812 17.033 7.049 N a ta l RN 8.694 9.600 8.780 11.402 11.293 São José dos Campos SP 7.764 6.100 4.159 14.932 13.674 Santo André SP 8.764 9.681 9.975 10.804 7.308 Be lé m PA 11.875 8.374 5.693 7.167 8.684 Ribeirão Preto SP 6.850 6.354 5.497 9.870 10.470 Sorocaba SP 8.245 10.780 8.552 8.614 9.808 Joinville SC 8.587 5.309 7.344 10.317 7.375 Caxias do Sul RS 12.371 4.500 5.938 11.670 7.860 Contagem MG 10.064 8.952 10.954 3.142 5.145 Uberlândia MG 7.939 5.608 3.561 8.825 9.312 Jundiaí SP 7.993 7.257 5.889 11.379 7.727 Duque de Caxias RJ 3.271 1.564 7.505 9.393 9.857 V itória ES 5.044 9.122 7.758 7.992 7.823 Floria nópolis SC 6.368 7.125 3.415 8.205 5.412 T e re sina PI 4.155 3.952 6.129 5.094 9.032 São Caetano do Sul SP 11.414 12.426 7.629 2.288 3.157 Osasco SP 4.909 11.594 3.448 9.659 5.563 S ã o Luis MA 3.349 7.628 9.115 10.417 12.670 Macaé RJ 5.706 4.296 7.786 6.796 10.013 P orto V e lho RO 2.558 1.969 1.899 2.436 3.896 Ca mpo Gra nde MS 7.634 4.180 1.311 5.886 9.059 Londrina PR 6.455 4.092 2.811 5.991 8.225 Maringá PR 6.349 2.877 4.111 5.907 8.657 São José do Rio Preto SP 4.441 4.384 5.449 5.985 6.758 Ara ca ju SE 5.062 5.488 5.464 3.495 6.076 Serra MG 6.290 9.349 5.556 1.559 5.814 Santos SP 5.244 6.265 5.366 4.887 6.735 Niterói RJ 3.855 3.643 5.496 4.038 9.253 Piracicaba SP 4.197 5.678 6.465 8.005 5.929 São Jose SC 4.281 3.677 3.191 6.248 7.668 Betim MG 4.398 5.950 4.604 10.166 2.202 Joã o P e ssoa PB 3.146 4.080 5.428 5.164 4.605 Blumenau SC 5.833 5.682 4.694 5.025 3.388 Bauru SP 5.239 4.759 3.686 5.706 5.170 Aparecida de Goiania GO 4.201 436 4.420 4.111 6.951 Total (50 melhores) 646.228 696.354 644.319 852.191 853.219 % dos 50 melhores 42,4 55,5 52,4 52,7 58,8 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos Obs2. Ordenado pelo Total 2009 995.110 131.113 51.540 34.270 18.897 35.391 32.786 17.422 20.275 19.054 -159 5.268 13.538 4.100 -1.066 7.522 2.759 2.912 2.973 7.002 8.873 -217 4.906 415 3.874 6.650 1.364 8.332 1.797 7.608 9.640 -375 838 -7.561 -87 20.743 5.006 5.191 4.202 4.965 6.020 2.518 1.756 3.866 -409 4.320 1.744 6.406 3.274 2.190 5.708 529.154 53,2 T ota l 8.070.667 1.070.961 394.451 262.225 156.873 143.873 126.868 124.955 108.282 106.633 86.881 79.427 74.131 69.768 65.321 62.115 52.528 49.541 49.505 48.795 47.914 45.782 43.838 42.754 42.131 41.895 41.609 39.922 39.536 38.133 38.002 36.539 36.011 35.618 34.510 33.501 33.076 32.765 32.103 31.982 31.605 31.086 30.253 30.151 29.865 29.385 29.064 28.829 27.896 26.750 25.827 4.221.465 52,3 60 Conforme os dados, dos 50 municípios listados, 19 são as capitais de seus respectivos estados, mais o município de Brasília, que pertence à capital federal. As dez primeiras posições, referentes à geração de emprego formal no período, pertencem às capitais. Três delas são da região Sudeste, duas da região Nordeste, duas da região Sul, uma da região Norte e uma da região Centro-Oeste. Por outro lado, vale ressaltar que diversas cidades do interior de São Paulo superaram algumas dessas capitais na geração de empregos formais, no período como um todo. Particularmente, a região do ABC Paulista, formada pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, gerou, de 2004 a 2009, mais de 150 mil empregos, o que a colocaria, teoricamente, na quinta posição. 61 2.3 Setores de Atividade Os setores de atividade que mais geraram emprego, no período, foram o comércio – 27,4% do total - e o setor de serviços – 40,9% do total. Tabela 2.9 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Setor de Atividade – 2004-2009 2004 2005 2006 2007 2008 1.523.231 1.253.905 1.228.686 1.617.392 1.452.204 0,7 0,8 1,0 0,6 0,6 33,1 14,2 20,4 24,4 12,3 0,3 1,1 0,6 0,5 0,5 3,3 6,8 7,0 10,9 13,6 26,5 31,1 27,4 25,0 26,3 30,9 45,4 42,5 36,3 44,6 0,0 1,7 0,7 0,9 0,7 5,2 -1,0 0,5 1,3 1,3 Extrativa mineral Indústria de transformação Serviços ind. de utilidade pública Construção civil Comércio Serviços Administração pública Agrop., extr veg., caça e pesca Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos 2009 Total 995.110 8.070.528 0,2 0,6 1,1 18,8 0,5 0,6 17,8 9,6 29,9 27,4 50,3 40,9 1,8 0,9 -1,5 1,2 No que diz respeito à evolução das participações relativas dos setores, nota-se que a construção civil foi o setor que mais aumentou sua participação relativa, de 2004 a 2009, passando de 3,3 para 17,8%. O setor de serviços também alcançou desempenho favorável, conseguindo aumentar sua participação relativa de 30,9 para 50,3%. Por outro lado, dois setores importantes perderam participação relativa, de 2004 para 2009. O primeiro deles, a indústria de transformação, que possuía 33,1% de participação nos empregos formais criados em 2004, passou para 1,1% em 2009. Este resultado é pior do que o verificado em 2008, quando sua participação foi de 12,3%. O outro setor que perdeu participação relativa foi a agropecuária que, em 2009, obteve resultado líquido negativo de quase 15 mil empregos formais. Vale ressaltar que o saldo líquido total de empregos, em 2008, ainda assim, superou os saldos líquidos de 2005 e 2006. Isto porque o setor de serviços como um todo mais do que compensou a diminuição de contratações na indústria. 62 O aumento da importância do setor de serviços na economia, em contraposição à redução da participação relativa dos empregos no setor agrícola e industrial, conhecido como terciarização, avança, associado, dentre outros fatores, ao diferencial de produtividade entre os setores. De acordo com Santos (2006), um aumento homogêneo da demanda na economia promoveria o aumento do emprego no setor de serviços, uma vez que este teria que contratar mais, compensando o fato de ser relativamente menos produtivo.16 Tabela 2.10 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Subsetor de Atividade – 2004-2009 2004 T ota l Extrativa mineral 2005 2006 2007 2008 1.523.276 1.253.981 1.228.686 1.617.392 1.452.204 2009 995.110 0,7 0,8 1,0 0,6 0,6 0,2 33,1 14,2 20,4 24,4 12,3 1,1 Ind. de prod. minerais não metálicos 1,0 1,0 0,8 0,8 0,9 0,5 Ind. metalúrgica 3,5 1,3 2,5 3,6 2,2 -2,7 Ind. mecânica 2,2 0,7 1,7 3,0 1,6 -1,4 Ind. do material elétrico e de comunicações 1,6 1,1 0,5 1,3 0,6 -1,1 Ind. do material de transporte 3,1 1,5 0,9 3,1 1,0 -1,8 Ind. da madeira e do mobiliário 2,0 -1,6 0,2 0,4 -0,9 -0,5 Ind. do papel, papelão, etc. 1,0 0,9 0,9 0,7 0,8 -0,1 Ind. da borracha, fumo, couros, peles, etc. 1,5 0,7 0,7 0,5 -0,2 0,0 Ind. química 3,0 2,1 2,1 1,9 1,3 1,5 Ind. têxtil 4,3 2,3 2,3 2,8 1,5 1,2 Ind. de calçados 2,4 -1,3 0,0 0,6 -0,6 1,3 Ind. de produtos alimentícios, bebidas, etc. 7,5 5,3 7,9 5,9 4,0 4,1 Serviços industriais de utilidade pública 0,3 1,1 0,6 0,5 0,5 0,5 Construção civil 3,3 6,8 7,0 10,9 13,6 17,8 Indústria de Transformação Comércio 26,5 31,1 27,4 25,0 26,3 29,9 Comércio varejista 21,6 26,4 22,6 20,6 21,4 25,1 Comércio atacadista 4,9 4,7 4,8 4,4 4,9 4,8 30,9 45,4 42,5 36,3 44,6 50,3 Serviços Instituições de crédito, seguros e capitalização Com e administração de imóveis, valores 0,5 2,7 2,2 1,4 1,5 0,4 12,0 16,5 15,1 15,4 16,4 16,8 mobiliários, técnico Transportesserv e comunicações Serv de alojamento, alimentação, reparação, manutenção, redação Serviços médicos, odontológicos e 6,5 7,5 5,0 3,8 6,2 5,1 7,3 11,8 13,4 10,5 12,7 16,3 2,6 3,9 4,3 3,1 5,3 7,9 veterinários Ensino 2,0 3,0 2,4 2,0 2,6 3,8 Adm. pública direta e autárquica 0,0 1,7 0,7 0,9 0,7 1,8 Agricultura, silvicultura, etc. 5,2 -1,0 0,5 1,3 1,3 -1,5 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos 16 É preciso ponderar esta afirmação, uma vez que, com o processo de reestruturação produtiva, alguns segmentos do setor terciário tornaram-se intensivos em capital, como as telecomunicações e a intermediação financeira. 63 Cumpre enfatizar que o setor de serviços é composto por atividades bastante heterogêneas. Sendo assim, a análise da criação de empregos formais por subsetores de atividade econômica implica a subdivisão deste setor, fazendo com que os 40,9% do total de empregos criados pelo setor, no período 2004-2009, fiquem dispersos em outras seis atividades, com características bastante distintas.17 O comércio, por sua vez, subdivide-se em comércio varejista e comércio atacadista. O varejo compreendeu 82,8% do total de empregos formais gerados no comércio, restando ao atacado apenas 17,2%, resultado este já esperado. Ao observar a taxa de crescimento do emprego formal por setor e por região (Tabela 2.11), para o ano de 2009, nota-se que os empregos formais da indústria metalúrgica e da indústria de material elétrico e comunicações foram os que mais ―encolheram‖ de 2008 para 2009, em todas as regiões do País. Principalmente, na região Sudeste, essas indústrias foram muito afetadas pela crise. Na região Nordeste, por sua vez, a taxa de crescimento do emprego formal na indústria de transformação, em 2009, foi de 4%, enquanto que, na região Sudeste, houve queda de 1,1%. Isto quer dizer que, o Sudeste, em 2009, destruiu 1,1% de todo o estoque de vínculos ativos formais existentes na indústria no ano anterior – 44.624 empregos. O resultado favorável da indústria de transformação, na região Nordeste, deveu-se, principalmente, a indústria de calçados, que obteve taxa de crescimento do emprego de 16,5%, em 2009. Cabe ressaltar que o emprego formal, nesta indústria, havia ―encolhido‖ 0,5% em 2008, em relação ao ano imediatamente anterior. Portanto, o que se pode afirmar é que houve uma recuperação substancial da indústria de calçados nessa região. Em termos absolutos, a mesma alcançou o maior número de empregos formais gerados, em 17 São elas: instituições de crédito; comercialização de imóveis e valores; transportes e comunicações; serviços de alojamento, alimentação, etc; serviços médicos, odontológicos e veterinários; e o ensino. 64 comparação com todas as demais indústrias, inclusive a de alimentos e bebidas – 16.647 empregos. Também o emprego formal na indústria de material de transporte, no Nordeste, conseguiu crescer 9,2%, em relação ao estoque de empregos formais em 2008. Ressalta-se, mais uma vez, a construção civil. Em todas as regiões, este setor obteve, mesmo com a crise, uma taxa de crescimento do emprego formal bastante expressiva. Este resultado é relevante, pois a construção civil é um setor, sabidamente, pouco formalizado. Tabela 2.11 – Taxa de Crescimento do Emprego Formal por Setor e Região - 2009 Extrativa mineral Indústria de Transformação Ind. de prod. minerais não metálicos Ind. metalúrgica Ind. mecânica Ind. do material elétrico e de comunicações Ind. do material de transporte Ind. da madeira e do mobiliário Ind. do papel, papelão, etc. Ind. da borracha, fumo, couros, peles, etc. Ind. química Ind. têxtil Ind. de calçados Ind. de produtos alimentícios, bebidas, etc. Serviços industriais de utilidade pública Construção civil Comércio Comércio varejista Comércio atacadista Serviços Instituições de crédito, seguros e cap. Com e administração de imóveis, valores mobiliários, serv técnico Transportes e comunicações Serv de alojamento, alimentação, etc. Serviços médicos, odont. e vet. Ensino Adm. pública direta e autárquica Agricultura, silvicultura, etc. Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/MTE Norte 2,3 -2,5 3,1 -3,8 -3,3 -3,3 -11,0 -5,7 -3,1 -1,1 -7,2 -6,6 2,1 3,4 4,0 13,8 3,4 3,0 5,8 2,8 3,3 5,4 -0,6 3,0 3,4 2,0 4,8 -0,6 Nordeste 2,7 4,0 3,0 0,0 -0,8 -4,8 9,2 2,0 1,0 -1,0 4,1 2,3 16,5 3,1 1,7 14,9 5,2 5,0 6,0 4,5 0,0 7,5 1,7 3,9 6,9 2,4 0,5 -3,7 Sudeste 2,2 -1,1 -0,3 -4,7 -4,0 -5,2 -3,8 -0,4 -0,6 -0,9 1,8 0,1 1,5 1,2 1,2 7,6 3,9 4,0 3,1 3,8 0,1 4,2 3,5 3,4 5,8 3,8 2,7 -0,2 Sul -5,2 0,7 3,9 -1,5 0,0 -1,7 -3,0 -0,7 0,3 1,5 2,2 2,7 -3,4 2,6 2,0 7,8 5,0 4,9 5,3 4,5 1,6 7,3 3,1 3,7 5,4 3,1 3,5 -2,1 Centro-Oeste -1,2 2,8 -0,6 -2,9 4,2 -3,8 10,4 -3,1 3,7 5,2 6,4 1,4 -4,0 4,2 -1,9 4,9 3,3 3,2 3,6 3,6 1,8 1,7 3,4 4,2 8,9 2,0 0,5 0,4 Brasil 1,2 0,1 1,2 -3,6 -2,6 -4,2 -3,4 -1,1 -0,1 0,0 2,1 1,2 4,3 2,3 1,4 9,2 4,2 4,2 4,1 3,9 0,6 4,9 3,0 3,6 6,0 3,2 2,3 -1,0 65 2.4 Características do Trabalhador Formal no Brasil As dificuldades de inserção no mercado de trabalho brasileiro são relevantes. Isto porque diversas situações enfrentadas pelos indivíduos, no período pré-laboral, colaboram para uma inserção, no mínimo, precária. Devido, por exemplo, à grande e precoce mortalidade masculina, a razão de sexo – que expressa o número de pessoas do sexo masculino para cada grupo de 100 pessoas do sexo feminino e que é obtida através do quociente entre as populações masculina e feminina por grupos de idade - vem diminuindo, paulatinamente, no Brasil. De acordo com o IBGE, em 1980, para cada grupo de 100 mulheres, havia 98,7 homens. Em 2000, já se observavam 97 homens para cada 100 mulheres e, em 2050, espera-se que a razão de sexo da população fique por volta de 94%. Dessa forma, verificam-se elevações no excedente feminino na população total que, em 2000, era de 2,5 milhões de mulheres e, em 2050, poderá atingir quase sete milhões. Não obstante, entre 2004 e 2009, os homens ficaram com 59,1% dos empregos formais celetistas criados no País, enquanto as mulheres obtiveram apenas 40,9%. Pode-se afirmar, portanto, que ainda há desigualdade quanto à inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho formal. Por outro lado, comparando o ano de 2009 com o de 2004, verifica-se que a criação de empregos formais, entre os homens, caiu 45,9%, enquanto que, entre as mulheres, houve diminuição de 15,1%. Em 2009, os empregos mais ocupados por homens, provavelmente os da indústria em geral, sofreram uma redução em sua taxa de crescimento, o que pode explicar a queda da participação relativa masculina no conjunto dos empregos formais criados no País, neste período. 66 Outra questão relevante pode ser suscitada em relação aos diferenciais de gênero no mercado de trabalho formal brasileiro. Lavinas (2001) argumenta que a participação feminina vem aumentando de forma linear e praticamente alheia às flutuações da atividade econômica. Razões não-econômicas, de natureza sociológica, relacionadas à busca de autonomia e igualdade, parecem explicar grande parte dessa tendência (LAVINAS, 2001). Além disso, de acordo com Lavinas (2001) e Ramos (2007), o aumento da participação feminina pode ser decorrente da necessidade de complementação dos orçamentos familiares, devido ao crescimento das famílias monoparentais chefiadas por mulheres. Cabe ressaltar que o melhor desempenho das mulheres na disputa por postos de trabalho pode ser explicado pela maior escolaridade e pelo menor custo de contratação. Gráfico 2.9 – Distribuição Percentual da Criação de Empregos por Gênero – 2004-2009 63,6 58,8 60,1 62,4 54,4 52,7 47,3 45,6 41,2 39,9 36,4 2004 2005 2006 Masculino Fonte: CAGED/MTE 37,6 2007 Feminino 2008 2009 67 De modo a confirmar essas suposições, o gráfico 2.9 mostra que a participação relativa das mulheres nos empregos formais criados tem tendência de alta, enquanto a participação relativa masculina tende a cair. Portanto, a tendência final seria de convergência. Em relação à escolaridade, os indivíduos com ensino médio completo foram os com maior participação nos empregos formais criados, no período em questão. Porém, o percentual de homens, com o ensino médio completo, formalizados em 2009, foi superior ao percentual para as mulheres. Tabela 2.12 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Gênero e Grau de Instrução – 2004-2009 2004 2005 Masculino 968.480 736.963 Analfabeto -0,2 -1,1 Até o 5o ano do Ens. Fund. incompleto 1,0 -2,9 5o ano do Ens. Fund. Completo -0,2 -5,2 Do 6o ao 9o ano do Ens. Fundamental 7,4 1,7 Fundamental Completo 17,1 12,3 Médio Incompleto 13,8 12,9 Médio Completo 53,2 69,3 Superior Incompleto 4,0 4,9 Superior Completo 4,0 8,1 Feminino 554.796 517.018 Analfabeto -0,1 -0,2 Até o 5o ano do Ens. Fund. incompleto -0,3 -1,3 5o ano do Ens. Fund. Completo 0,3 -2,6 Do 6o ao 9o ano do Ens. Fundamental 4,4 0,3 Fundamental Completo 11,2 6,7 Médio Incompleto 10,0 8,2 Médio Completo 57,9 67,8 Superior Incompleto 8,1 8,1 Superior Completo 8,5 13,0 Total 1.523.276 1.253.981 Analfabeto -0,2 -0,7 Até o 5o ano do Ens. Fund. incompleto 0,5 -2,2 5o ano do Ens. Fund. Completo 0,0 -4,1 Do 6o ao 9o ano do Ens. Fundamental 6,3 1,1 Fundamental Completo 15,0 10,0 Médio Incompleto 12,4 10,9 Médio Completo 54,9 68,7 Superior Incompleto 5,5 6,2 Superior Completo 5,7 10,2 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos 2006 739.050 -0,1 -0,9 -4,6 2,1 10,7 11,7 69,0 5,1 7,0 489.636 0,0 -0,3 -1,8 0,6 5,9 7,1 66,7 7,7 14,2 1.228.686 0,0 -0,7 -3,5 1,5 8,8 9,9 68,1 6,1 9,9 2007 1.009.017 0,1 -0,4 -1,0 5,7 10,3 11,3 63,4 4,4 6,2 608.375 0,1 -0,4 -1,0 2,0 6,0 8,2 65,1 7,3 12,8 1.617.392 0,1 -0,4 -1,0 4,3 8,7 10,1 64,0 5,5 8,7 2008 790.550 -0,3 -2,0 -3,8 2,4 6,8 10,3 71,1 5,8 9,6 661.654 0,1 0,5 -0,6 2,3 5,1 7,6 63,0 8,3 13,7 1.452.204 -0,1 -0,9 -2,3 2,4 6,1 9,0 67,4 6,9 11,5 2009 524.080 -0,3 2,3 -8,1 -6,5 0,3 9,0 89,1 5,6 8,7 471.030 -0,1 0,3 -2,3 -1,5 2,7 4,4 72,8 8,5 15,3 995.110 -0,2 1,3 -5,4 -4,1 1,4 6,8 81,4 6,9 11,8 68 Não obstante, os dados podem demonstrar que as mulheres que conseguem a formalização são aquelas com alto grau de instrução, enquanto que as mulheres com poucos anos de estudo perdem, muitas vezes, para os homens os postos de trabalho abertos. No caso do ensino superior completo, a participação feminina em 2009 foi quase o dobro da masculina. Nas faixas inferiores, até o quinto ano do ensino fundamental completo, ocorreu, sistematicamente, a destruição líquida de empregos formais, demonstrando a dificuldade de inserção dos trabalhadores de menor escolaridade. No plano geral, fica claro, portanto, que as empresas estão exigindo níveis de escolaridade cada vez mais altos para as vagas abertas.18 Nesse sentido, certas políticas públicas, como a de desenvolvimento de infraestrutura e habitacional, podem se constituir em instrumentos indutores importantes para geração de oportunidades para os trabalhadores de menor qualificação, bem como o sistema público de emprego pode atuar sobre essas ocupações com o objetivo de elevar a qualificação daqueles que as ocupam (DEDECCA & ROSANDISKI, 2006). Ainda de acordo com o CAGED, 68,7% dos empregos formais criados no período como um todo estavam na faixa dos indivíduos de 18 a 24 anos. Este percentual foi bem maior em 2009, quando 81,8% dos empregos gerados oscilavam dentro dessa faixa etária. Este resultado, no entanto, não significa que a situação dos jovens seja confortável. Dada a alta taxa de evasão escolar, dentre outros fatores, a maioria dos jovens, entre 18 e 24 anos tem baixo grau de escolaridade e, consequentemente, a remuneração desses indivíduos é, quase sempre, baixa, como será verificado mais adiante. 18 Não se pode esquecer que também há um problema de oferta para a população que está aumentando sua escolaridade. 69 Tabela 2.13 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Gênero e Faixa Etária – 2004-2009 2004 2005 2006 2007 2008 2009 967.962 736.283 738.637 1.009.448 791.322 524.164 Até 17 13,5 17,4 17,1 13,7 19,7 24,7 18 a 24 60,4 70,3 73,0 64,9 72,2 91,2 25 a 29 15,3 12,6 12,8 13,3 10,1 11,4 30 a 39 12,6 7,5 6,2 9,4 2,8 -0,9 40 a 49 4,4 1,2 0,5 3,8 1,8 -4,9 50 a 64 -4,2 -6,5 -7,1 -3,4 -4,3 -17,2 65 ou mais -2,0 -2,6 -2,4 -1,7 -2,2 -4,3 Fe minino Ma sculino 554.458 516.678 489.383 608.554 661.917 471.055 Até 17 14,9 16,7 17,3 15,4 16,6 20,7 18 a 24 62,7 67,2 68,8 66,7 64,1 71,4 25 a 29 12,8 12,4 11,9 13,4 13,3 11,8 30 a 39 12,5 9,2 8,3 9,6 9,6 6,7 40 a 49 2,4 0,6 0,3 0,9 2,3 -0,7 50 a 64 -4,7 -5,3 -5,9 -5,4 -5,4 -8,9 65 ou mais -0,6 -0,6 -0,6 -0,6 -0,6 -0,9 T ota l 1.522.420 1.252.961 1.228.020 1.618.002 1.453.239 995.219 Até 17 14,0 17,1 17,2 14,3 18,3 22,8 18 a 24 61,2 69,0 71,3 65,5 68,5 81,8 25 a 29 14,4 12,5 12,4 13,3 11,6 11,6 30 a 39 12,6 8,2 7,0 9,5 5,9 2,7 40 a 49 3,7 1,0 0,4 2,7 2,0 -2,9 50 a 64 -4,4 -6,0 -6,6 -4,2 -4,8 -13,2 65 ou mais -1,5 -1,8 -1,7 -1,2 -1,5 -2,7 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos Vale ressaltar que a partir dos 50 anos, o que há é destruição e não criação de empregos – mais de 600 mil em todo o período analisado, segundo o CAGED. Vários fatores podem explicar este resultado. Um deles é o próprio movimento de aposentadoria e o segundo é a dificuldade de inserção de pessoas mais velhas no mercado de trabalho. Além disso, em 2009, os dados do CAGED mostraram que houve mais desligamentos que admissões nas faixas de idade acima de 40 anos. Em particular, a faixa de indivíduos economicamente ativos de 40 a 49 anos sofreu uma perda de quase 30 mil postos de trabalho, no mesmo ano. Este resultado é o oposto do verificado em todos os anos anteriores então estudados. A faixa de 30 a 39 anos também deixou de criar empregos 70 formais, porém conseguiu fechar o ano de 2009 com saldo positivo de cerca de 27 mil vagas.19 Por último, a investigação sobre o tipo de movimentação dos admitidos e dos desligados permite concluir que a maior parte dos admitidos, no período pesquisado, foi do tipo reemprego. A admissão por primeiro emprego vem caindo, em termos percentuais, no País como um todo. Conforme Monte (2006), uma das justificativas para este fenômeno pode estar no problema de seleção adversa enfrentada pelo demandante da mão de obra. Em outros termos, o empregador não tem, a princípio, informação completa sobre a produtividade do trabalhador de primeiro emprego. Com informação incompleta, a seleção de trabalhadores mais produtivos envolveria custos elevados. Para não incorrer em todos esses custos, o empregador faz uso dos instrumentos disponíveis de identificação e seleção de indivíduos, como as características pessoais. Nesse sentido, a experiência profissional tem, provavelmente, papel fundamental, seja na inserção seja no acesso às ocupações mais rentáveis financeiramente. No que diz respeito aos desligamentos, a maior parte refere-se a demissões sem justa causa, isto é, por iniciativa do empregador20. É preciso observar, no entanto, que este tipo de demissão perdeu participação relativa de 2007 para 2008. Ao contrário, os desligamentos a pedido, ou seja, por iniciativa do empregado, aumentaram, na comparação 19 É preciso ter cuidado, no entanto, ao se analisar o saldo de admitidos e desligados por faixa etária, com base no CAGED. A Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), por exemplo, também mostra expansão nas faixas iniciais, porém não na mesma magnitude que o CAGED. A diferença entre as duas fontes existe, em grande medida, por causa de omissões – principalmente dos desligamentos - que se tornam mais frequentes, quando se trata de fluxo. Mais especificamente, o maior fluxo de admissões e desligamentos é detectado nas faixas etárias mais jovens, que possuem maior rotatividade, portanto mais sujeitas à ocorrência de omissões. 20 É fato que parte dessas demissões deve-se a acordos em que o empregado ―pede‖ para ser demitido para ter acesso ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). 71 desses dois anos. Em 2009, por sua vez, as demissões sem justa causa voltaram a aumentar.21 Tabela 2.14 – Admissão e Desligamento por Tipo de Movimentação – 2004-2009 2004 Total Admitidos 11.296.496 Admissão por primeiro emprego 18,4 Admissão por reemprego 81,6 Admissão por reintegraçao 0,0 Contrato de trabalho por prazo determinado 0,0 Total Desligados 9.773.220 Desligamento por demissão sem justa causa 79,1 Desligamento por demissão com justa causa 1,2 Desligamento a pedido 19,1 Desligamento por término de contrato 0,0 Desligamento por aposentadoria 0,3 Desligamento por morte 0,3 Término de contrato de trab. por prazo determ. 0,0 Saldo (Admitidos - Desligados) 1.523.276 Fonte: CAGED/MTE 2005 12.179.001 18,5 81,5 0,0 0,0 10.925.020 78,9 1,1 19,3 0,0 0,3 0,3 0,0 1.253.981 2006 12.831.149 17,8 82,2 0,0 0,0 11.602.463 78,9 1,1 19,4 0,0 0,3 0,3 0,0 1.228.686 2007 14.341.289 17,2 80,9 0,1 1,8 12.723.897 59,4 1,2 21,2 15,7 0,2 0,3 2,1 1.617.392 2008 16.659.331 16,7 81,6 0,1 1,6 15.207.127 57,8 1,2 23,8 14,8 0,1 0,3 2,0 1.452.204 2009 16.187.640 15,2 83,1 0,1 1,6 15.192.530 60,3 1,4 21,7 14,3 0,1 0,3 1,9 995.110 É possível afirmar, portanto, que o mercado de trabalho formal, no Brasil, tem sido favorável à inserção feminina. Além disso, a exigência de elevados níveis de escolaridade é patente quando se trata de emprego formal. Por fim, a necessidade de qualificação da mão-de-obra juvenil continua presente. 21 A partir de janeiro de 2007, foram incorporados novos tipos de movimentação de admissão – por reintegração e de contrato de trabalho por prazo determinado - e desligamento – por término de contrato e término de contrato de trabalho por prazo determinado - no CAGED. Além disso, houve o desmembramento do tipo de desligamento em ―Desligamento por demissão sem Justa Causa‖ e ―Desligamento por demissão com Justa Causa‖. Desta forma, na tabela 2.14, esses novos tipos estão com a freqüência zerada para competências anteriores a este período. Ademais, a movimentação ―Desligamento por demissão sem Justa Causa‖ abrangia essas classificações, até 2006. 72 2.5 A Remuneração do Trabalhador Formal Não basta verificar o saldo líquido de empregos, quantitativamente. Torna-se necessário analisar o comportamento da remuneração da mão-de-obra. Isto porque é a remuneração que, em última análise, explicitará o poder de compra desses trabalhadores formais. Em primeiro lugar, observando a remuneração por faixas de salário mínimo do saldo de empregos formais criados, é possível afirmar que os mesmos estavam, em grande medida, na faixa de 1,01 a 2 salários mínimos. Ou melhor, em todos os anos verificados – exceto no ano de 2004 - só houve criação líquida de empregos formais nas duas menores faixas de remuneração. Nas demais, houve destruição líquida de empregos. Isto demonstra que o saldo de empregos formais gerados no País possui remuneração baixa.22 Em termos setoriais, pode-se notar que, em 2009, apenas 14,3% dos empregos formais gerados de 1,01 a 2 salários mínimos localizavam-se na indústria de transformação, enquanto 42,4% desses eram de trabalhadores do setor de serviços (Tabela 2.15). Especialmente nesse ano, o setor que mais contribuiu para o maior número de desligamentos, em relação ao de admissões, foi o setor industrial. Para exemplificar, 44,5% do saldo líquido negativo de empregos, na faixa de 2,01 a 3 salários mínimos, foram de empregos industriais. Isto significa um pouco mais de 35 mil desligamentos, nessa faixa de remuneração. No mesmo ano, 44,7% do saldo líquido negativo de empregos, na faixa de mais de 20 salários mínimos, foram no setor de serviços – cerca de nove mil empregos. 22 Um percentual positivo relacionado a um total positivo significa criação de empregos. Um percentual positivo relacionado a um total negativo significa destruição de empregos. Por fim, um percentual negativo relacionado a um total negativo significa criação de empregos. A comparação entre os anos fica prejudicada pelos vários aumentos do salário mínimo. 73 Tabela 2.15 – Distribuição Percentual da Geração de Empregos por Setor e Faixa de Salário Mínimo - 2009 %s nas colunas Até 1 1,01 a 2 2,01 a 3 3,01 a 5 5,01 a 7 7,01 a 10 10,01 a 15 15,01 a 20 Mais de 20 2009 490.798 1.069.348 -245.945 -174.649 -63.105 Extrativa mineral 0,1 0,3 0,2 0,3 0,3 Indústria de transformação 21,0 14,3 44,5 40,8 42,1 Serviços utilid. pública 0,6 0,6 -0,3 0,8 1,8 Construção civil 7,2 18,3 10,2 10,3 9,6 Comércio 36,7 22,9 27,1 21,0 18,5 Serviços 29,8 42,4 8,5 20,5 25,6 Administração pública 0,6 0,9 -1,7 -0,5 -0,8 Agropecuária 4,1 0,4 11,6 6,9 2,8 Fonte: CAGED/MTE Obs. Geração de empregos obtida pelo saldo de admissões e desligamentos -38.871 -0,3 43,6 1,2 6,9 16,3 32,7 -1,9 1,5 -26.438 0,7 41,1 2,0 6,5 14,3 35,8 -0,9 0,4 -11.133 0,7 40,5 2,8 3,6 11,4 40,8 -0,4 0,5 -20.267 0,4 37,0 2,5 2,2 11,3 44,7 0,4 1,4 Além disso, no ano em questão, a indústria de transformação destruiu 247.096 empregos, nas faixas de remuneração acima de 2,01 salários mínimos, entretanto, criou 255.840 vagas nas faixas inferiores, de até 2 salários mínimos. O saldo final, portanto, desse setor, permaneceu positivo em 8.744 empregos formais. Sendo assim, houve, provavelmente, a substituição de empregos de melhor remuneração por outros de pior remuneração, em termos de salário mínimo. No que diz respeito ao diferencial do salário real médio dos admitidos e desligados, é possível afirmar que o salário médio real, em reais, dos admitidos é sistematicamente inferior ao dos desligados. Tabela 2.16 – Remuneração Real Média de Admitidos e Desligados por Setor – 2004 e 2009 2004 2009 A D A/ D (% ) A D A/ D (% ) Extrativa mineral 770,26 865,25 89,0 1.111,00 1.250,31 88,9 Indústria de transformação 513,13 606,70 84,6 771,64 930,89 82,9 Servicos industr de utilidade pública 663,58 840,63 78,9 871,75 1.142,41 76,3 Construção civil 533,06 599,18 89,0 826,99 894,27 92,5 Comércio 447,84 526,32 85,1 670,36 747,65 89,7 Serviços 562,50 654,54 85,9 806,36 902,48 89,3 Administração pública 664,29 698,44 95,1 1.104,70 1.128,73 97,9 Agropecuária 338,60 364,78 92,8 573,65 613,46 93,5 Total 499,28 578,55 86,3 754,50 850,87 88,7 Fonte: CAGED/MTE Base: 12_2009 Deflator: INPC 74 Com base na tabela 2.16, a indústria extrativa mineral foi o setor com salário real médio dos admitidos maior – tanto em 2004 como em 2009 -, resultado este influenciado, em grande medida, por grandes empresas, como a Petrobrás. Por outro lado, o setor agropecuário constituiu-se como o setor com pior remuneração real média, nos dois anos analisados. Para se chegar a esta conclusão, o salário médio mensal desses dois grupos foi deflacionado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).23 Com exceção da indústria extrativa mineral, da indústria de transformação e dos serviços industriais de utilidade pública, nos demais setores, o diferencial de remuneração diminuiu, ou seja, a razão entre a remuneração mensal de admitidos e desligados aumentou. Isto quer dizer que a admissão ocorreu, em 2009, sob uma remuneração real maior, em todos os setores, na comparação com 2004, porém, somente nos últimos cinco setores da tabela 2.16, a remuneração mensal dos admitidos cresceu mais que a remuneração mensal dos desligados. Dentro desse contexto, o salário real médio dos admitidos no setor agropecuário foi o que mais aumentou - 69,4%. Ao se analisar o mesmo diferencial por tipo de movimentação de admitidos e desligados24, observa-se que os admitidos por primeiro emprego têm remuneração média real inferior a dos admitidos por reemprego. Isto é, os reempregados ganham, em média, 25% mais que os admitidos pela primeira vez.25 Portanto, o diferencial entre os desligados sem justa causa e os admitidos por primeiro emprego chega a 46,5%. 23 O INPC resulta dos Índices de Preços ao Consumidor (IPC) das famílias de rendimento mensal entre 1 (um) e 6 (seis) salários mínimos residentes nas regiões urbanas das 11 áreas e têm os preços coletados no mês civil. O cálculo do INPC do mês é feito através da média aritmética ponderada desses 11 índices. É utilizada como ponderação a população urbana residente de cada estado. Este valor expressa a variação mensal do custo de vida das famílias da população-objetivo (IBGE, 2006). 24 Foram escolhidos somente os casos mais representativos, quais sejam os admitidos por primeiro emprego, os admitidos por reemprego e os desligados sem justa causa. 25 Média anual de 2009, retirada após a razão entre o salário médio real anual dos admitidos por reemprego e o dos admitidos por primeiro emprego. 75 Gráfico 2.11 – Diferencial de Salário Real Médio de Admitidos e Desligados – 2004-2009 1.000 900 800 700 600 500 400 300 200 100 PRIMEIRO EMPREGO REEMPREGO Fonte: CAGED/MTE Base: 12_2009 Deflator: INPC DESLIGADOS SEM JUSTA CAUSA jul-09 jan-09 jul-08 jan-08 jul-07 jan-07 jul-06 jan-06 jul-05 jan-05 jul-04 jan-04 0 Salário Mínimo Real Mensal 76 2.6 A Rotatividade da Mão de Obra Dentro desse contexto, a taxa de rotatividade, isto é, a razão do mínimo entre as admissões e desligamentos no mês de referência e o número total de pessoas ocupadas assalariadas no mês imediatamente anterior, representa, teoricamente, a percentagem do número de trabalhadores substituídos por outros no total de trabalhadores.26 Sendo assim, quando, por exemplo, as admissões são superiores aos desligamentos, o nível de emprego aumenta, mas parte dessas admissões não é criação de empregos, é sim substituição dos desligados (CORSEIUL ET AL., 2002). Diversos autores argumentam, com base em pesquisas econométricas, que essa taxa é pró-cíclica em relação ao nível de atividade econômica. Isto é, quando o mercado de trabalho como um todo se aquece, o número de desligamentos voluntários aumenta, pois os trabalhadores procuram trocar de emprego em busca de uma maior remuneração. Este maior fluxo de trabalhadores, entrando e saindo das empresas, eleva a taxa de rotatividade. O gráfico 2.10, a seguir, mostra a evolução da taxa de rotatividade, com periodicidade mensal, entre 2004 e 2009. De acordo com o gráfico, percebe-se que a taxa de rotatividade do emprego formal celetista foi de 2,7%, em dezembro de 2008, enquanto que, em março de 2009, a mesma foi de 4,3%. 26 De acordo com Corseuil et al. (2002), esse tipo de definição contém algumas limitações. Uma delas surge de desconsiderar que as admissões e os desligamentos podem estar ocorrendo simultaneamente, mas em firmas diferentes. A segunda limitação está associada à finalização de tarefas, muito importante em certos setores, como a construção civil. Essas duas limitações podem resultar numa superestimação da rotatividade quando a taxa é calculada da forma descrita. 77 Gráfico 2.10 – Evolução da Taxa de Rotatividade Mensal – Brasil – Todos os Setores 2004-2009 4,5 4,0 Taxa de Rotatividade 3,5 3,0 2,5 2,0 1,5 jan/04 jul/04 jan/05 jul/05 jan/06 jul/06 jan/07 jul/07 jan/08 jul/08 jan/09 jul/09 Fonte: CAGED ESTABELECIMENTO/ MTE Cabe enfatizar que a literatura existente sobre a relação entre rotatividade e remuneração contém inúmeras divergências. Alguns autores defendem uma relação positiva entre rotatividade e salários, enquanto outros afirmam que a mudança de emprego afeta negativamente os ganhos oriundos do trabalho. Em outros termos, defensores da primeira tese argumentam que a mudança voluntária de emprego seria a forma mais rápida de avançar na carreira e elevar a posição na estrutura salarial. Corroborando a segunda tese, outros estudiosos apontam que os trabalhadores que mais se movem são os que menos investem em treinamentos no emprego e que empregos com maior duração estão associados a crescimentos salariais mais acentuados. O que parece ser consenso é que, em comparação a outros países, a taxa de rotatividade brasileira é alta. É fato também que existem custos, tanto para trabalhadores quanto para empresas, associados a ela. Conforme Gonzaga (1998), o treinamento provido 78 pela empresa no ambiente de trabalho constitui-se em um investimento de alto risco para a firma, e também para o trabalhador que está sendo treinado. O risco, segundo o autor, está associado à natureza incerta da capacidade de apropriação do retorno desse investimento: ―Os trabalhadores, por exemplo, podem pedir demissão (diante de uma melhoria das condições fora da empresa) e carregar o capital humano desenvolvido para outra firma. Já as firmas podem dispensar o trabalhador treinado (diante de uma piora das condições de rentabilidade de seu negócio), que pode encontrar dificuldades em vender as suas novas habilidades para outra empresa‖ (GONZAGA, 1998, p.126). Com base nesses argumentos, uma maior rotatividade seria um desincentivo a esse tipo de investimento. A retração do investimento em treinamento, por sua vez, geraria menores ganhos de produtividade e, portanto, baixa qualidade do emprego (GONZAGA, 1998). 79 2.7 A Qualidade do Emprego Formal De modo a caracterizar de forma qualitativa e sintética o processo de revitalização do mercado de trabalho formal brasileiro neste período, seria desejável a construção de uma medida de qualidade. Para tanto, a partir da utilização da RAIS/2004 e da RAIS/200827, constrói-se um índice de qualidade do emprego formal (IQEF) por setor e subsetor de atividade econômica. Em primeiro lugar, as variáveis escolhidas para a caracterização da qualidade do emprego formal foram as seguintes: 1 – Percentual dos empregos formais com no mínimo o ensino médio completo – chamada QUALIF; 2 – Remuneração média em Reais, a preços de dezembro de 2008 – chamada REM.MED; 3 – Percentual de empregados formais com mais de 12 meses no mesmo emprego – chamada TEMP. Outras variáveis poderiam ser utilizadas, porém a escolha destas três variáveis acima se deve, por um lado, a sua importância e, por outro, a sua disponibilidade na base de dados em questão. Em primeiro lugar, a qualificação dos trabalhadores é, reconhecidamente, um fator relevante para o posicionamento dos mesmos no mercado de trabalho, ou seja, uma maior escolaridade está associada à obtenção de um emprego de maior qualidade. Em segundo lugar, uma remuneração mais alta é também variável característica de um emprego de melhor qualidade. Optou-se, nesse ponto, por aplicar a 27 Última RAIS disponível no momento. 80 função log, de modo a suavizar os diferenciais de remuneração entre os setores de atividade econômica. Por fim, a variável TEMP, apesar de algumas controvérsias, pode ser correlacionada positivamente à qualidade do emprego. Dado que a qualidade do emprego está associada positivamente à produtividade da mão-de-obra e que esta, por sua vez, depende não apenas da alta qualificação geral da força de trabalho (via educação), mas também de treinamentos dentro do ambiente de trabalho, é possível afirmar que maior tempo no emprego implica, em geral, em maior possibilidade de aumento de produtividade (GONZAGA, 1998). A montagem do índice utiliza-se da mesma metodologia do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)28. Sendo assim, arbitrariamente, se atribui ao setor ou subsetor com melhor resultado para uma dada variável, na comparação dos dois anos estudados, o valor um. Já para aquele com pior desempenho, o valor do índice é tomado como zero. Isto pode ser feito, pois o crescimento do valor de todas as três variáveis significa uma melhora da qualidade do emprego formal. Os demais índices são encontrados por meio da interpolação linear. Deste modo, os índices parciais refletem a posição de cada setor ou subsetor em relação à variável analisada e variam no intervalo de 0 a 1. A cada um dos índices parciais, por sua vez, é atribuído peso igual na caracterização da qualidade do emprego formal do setor ou subsetor. Portanto, o IQEF é obtido através da média aritmética simples dos três índices anteriormente apurados (Tabelas 2.17 e 2.18).29 28 Este tipo de índice foi utilizado em Saboia (2001) e Saboia (2004). Portanto, o IQEF pode variar de 0 a 1. Quanto mais próximo do zero, menor a qualidade e quanto mais próximo do um, maior a qualidade do emprego formal. 29 81 Tabela 2.17 – Índice de Qualidade do Emprego Formal por Setor e Subsetor – 2004 QU ALIF R EM.MED T EMP T ota l 50,1 3,00 69,4 Ind QU ALIF ind R EM.MED Ind T EMP 0,471 0,349 0,587 0,469 IQEF Extrativa mineral 43,0 3,24 71,8 0,389 0,629 0,632 0,550 Indústria de Transformação 68,5 3,00 65,6 0,684 0,353 0,514 0,517 Ind. de prod. minerais não metálicos 25,3 2,89 67,6 0,184 0,224 0,552 0,320 Ind. metalúrgica 40,2 3,08 68,7 0,356 0,445 0,573 0,458 Ind. mecânica 51,9 3,16 68,6 0,492 0,529 0,570 0,530 Ind. do material elétrico e de com. 60,5 3,12 66,8 0,592 0,488 0,537 0,539 Ind. do material de transporte 56,1 3,29 72,9 0,541 0,678 0,652 0,624 Ind. da madeira e do mobiliário 20,4 2,77 61,1 0,127 0,084 0,428 0,213 Ind. do papel, papelão, etc. 52,1 3,10 72,2 0,494 0,464 0,641 0,533 Ind. da borracha e fumo 39,6 3,00 66,7 0,350 0,347 0,534 0,410 Ind. química 51,2 3,19 70,6 0,484 0,571 0,609 0,554 Ind. têxtil 28,6 2,76 64,7 0,222 0,072 0,495 0,263 Ind. de calçados 22,0 2,72 58,4 0,145 0,030 0,377 0,184 Ind. de produtos alimentícios, etc. 29,5 2,87 60,5 0,233 0,197 0,416 0,282 Serviços ind. de utilidade pública 50,0 3,30 84,9 0,470 0,689 0,883 0,680 Construção civil 21,7 2,89 44,5 0,142 0,219 0,110 0,157 Comércio 82,2 2,81 58,1 0,843 0,127 0,371 0,447 Comércio varejista 47,9 2,77 57,7 0,445 0,082 0,362 0,296 Comércio atacadista 48,9 2,97 60,6 0,457 0,316 0,418 0,397 78,2 3,01 66,6 0,797 0,365 0,534 0,565 Instituições de crédito, etc. 94,5 3,45 79,0 0,985 0,865 0,770 0,873 Com e administração de imóveis, etc. 50,1 2,97 58,2 0,471 0,313 0,372 0,385 Transportes e comunicações 42,4 3,03 67,5 0,382 0,386 0,549 0,439 Serv de alojamento, alimentação, etc. 38,6 2,82 64,8 0,338 0,141 0,497 0,326 Serviços médicos, odont. e vet. 69,3 2,96 78,2 0,693 0,305 0,754 0,584 Ensino Serviços 83,3 3,13 76,3 0,856 0,500 0,717 0,691 Adm. pública direta e autárquica 69,4 3,12 91,1 0,694 0,481 1,000 0,725 Agricultura, silvicultura, etc. 9,4 2,70 56,1 0,000 0,000 0,333 0,111 Fonte: RAIS 2004 82 Tabela 2.18 – Índice de Qualidade do Emprego Formal por Setor e Subsetor – 2008 QU ALIF R EM.MED T EMP T ota l 58,7 3,13 66,3 0,571 0,500 0,527 0,533 Extrativa mineral 61,5 3,57 72,8 0,604 1,000 0,651 0,752 Indústria de Transformação 48,7 3,13 65,2 0,455 0,492 0,506 0,484 Ind. de prod. minerais não metálicos 33,0 3,01 63,3 0,273 0,354 0,470 0,366 Ind. metalúrgica 52,9 3,19 66,5 0,504 0,568 0,531 0,534 Ind. mecânica 64,0 3,27 66,0 0,633 0,658 0,521 0,604 Ind. do material elétrico e de com. 70,0 3,22 67,4 0,702 0,605 0,549 0,619 Ind. do material de transporte 68,0 3,39 75,7 0,678 0,795 0,706 0,726 Ind. da madeira e do mobiliário 32,4 2,92 63,7 0,266 0,259 0,477 0,334 Ind. do papel, papelão, etc. 63,9 3,21 69,6 0,631 0,589 0,589 0,603 Ind. da borracha e fumo 53,5 3,13 67,6 0,510 0,494 0,552 0,519 Ind. química 62,9 3,29 69,1 0,620 0,686 0,581 0,629 Ind. têxtil 41,2 2,89 63,4 0,367 0,216 0,471 0,351 Ind. de calçados 32,7 2,83 59,3 0,270 0,147 0,393 0,270 Ind. de produtos alimentícios, etc. 37,7 3,00 60,7 0,328 0,347 0,421 0,365 Serviços ind. de utilidade pública 55,1 3,40 82,8 0,529 0,806 0,842 0,726 Construção civil 29,2 3,04 38,7 0,229 0,399 0,000 0,209 Comércio 60,1 2,94 56,0 0,587 0,282 0,330 0,400 Comércio varejista 60,0 2,90 55,5 0,586 0,234 0,321 0,380 Comércio atacadista 60,7 3,11 58,5 0,594 0,473 0,377 0,482 63,5 3,13 62,9 0,626 0,493 0,462 0,527 Instituições de crédito, etc. 95,8 3,52 73,4 1,000 0,945 0,662 0,869 Com e administração de imóveis, etc. 62,8 3,08 54,7 0,618 0,442 0,306 0,455 Transportes e comunicações 53,4 3,14 63,7 0,509 0,507 0,478 0,498 Serv de alojamento, alimentação, etc. 47,7 2,94 61,0 0,443 0,280 0,426 0,383 Serviços médicos, odont. e vet. 79,5 3,09 73,1 0,812 0,452 0,656 0,640 Ensino 86,6 3,26 74,3 0,894 0,645 0,680 0,740 Adm. pública direta e autárquica 73,4 3,28 88,6 0,741 0,664 0,952 0,786 Agricultura, silvicultura, etc. 14,4 2,87 56,7 0,058 0,197 0,343 0,199 Serviços Ind QU ALIF ind R EM.MED Ind T EMP IQEF Fonte: RAIS 2008 Com base nas duas tabelas anteriores, pode-se afirmar que a qualidade do emprego formal aumentou – de 0,469 para 0,533. A fim de observar um quadro mais sintético, os setores e subsetores foram agrupados em cinco grupos, segundo o valor de seus respectivos IQEFs. Sendo assim, os grupos foram delimitados da seguinte forma: 1º grupo: [0,8; 1,0[ 2º grupo: [0,6; 0,8[ 3º grupo: [0,4; 0,6[ 4º grupo: [0,2; 0,4[ 5º grupo: [0,0; 0,2[ 83 A tabela seguinte expõe a classificação dos setores (Tabela 2.19) e dos subsetores (Tabela 2.20) segundo esses grupos, em 2004 e 2008. Tabela 2.19 – Classificação dos IQEFs dos Setores – 2004 e 2008 2004 2008 Grupo 1 Grupo 2 Adm. pública direta e autárquica Adm. pública direta e autárquica Serviços ind. de utilidade pública Extrativa mineral Serviços ind. de utilidade pública Grupo 3 Serviços Serviços Extrativa mineral Indústria de Transformação Indústria de Transformação Comércio Comércio Grupo 4 Construção civil Grupo 5 Construção civil Agricultura, silvicultura, etc. Agricultura, silvicultura, etc. Fonte: Elaboração Própria A partir desta tabela, conclui-se que, de 2004 a 2008, diversos setores melhoraram sua posição. Os destaques foram a indústria extrativa mineral e a construção civil. A primeira passou do grupo 3 para o grupo 2, enquanto que a segunda passou do grupo 5 para o grupo 4, significando que – mesmo em patamares diferentes - os dois setores melhoraram a qualidade de seu emprego formal. Quanto aos subsetores - guardadas as devidas proporções - os que mais melhoraram a qualidade de seu emprego formal foram o setor de serviços médicos, a indústria química, a indústria do material elétrico, a indústria do papel e do papelão, o comércio atacadista, o setor de comercialização e administração de imóveis e a indústria de calçados. Também é possível afirmar que nenhum subsetor piorou em relação ao grupo em que pertencia em 2004. 84 Tabela 2.20 – Classificação dos IQEFs dos Subsetores – 2004 e 2008 2004 2008 Grupo 1 1 - Instituições de crédito, etc. 1 - Instituições de crédito, etc. Grupo 2 2 - Adm. pública dire ta e a utá rquica 2 - Adm. pública dire ta e a utá rquica 3 - Ensino 3 - Extra tiva mine ra l 4 - Se rviços ind. de utilida de pública 4 - Ensino 5 - Ind. do material de transporte 5 - Ind. do material de transporte 6 - Se rviços ind. de utilida de pública 7 - Serviços médicos, odont. e vet. 8 - Ind. Química 9 - Ind. do material elétrico e de com. 10 - Ind. Mecânica 11 - Ind. do papel, papelão, etc. Grupo 3 6 - Serviços médicos, odon. e vet. 12 - Ind. Metalúrgica 7 - Ind. Química 13 - Ind. da borracha e fumo 8 - Extra tiva mine ra l 14 - Transportes e comunicações 9 - Ind. do material elétrico e de com. 15 - Comércio atacadista 10 - Ind. do papel, papelão, etc. 16 - Com. e administração de imóveis, etc. 11 - Ind. Mecânica 12 - Ind. Metalúrgica 13 - Transportes e comunicações 14 - Ind. da borracha e fumo Grupo 4 15 - Comércio atacadista 17 - Serv. de alojamento, alimentação, etc. 16 - Com. e administração de imóveis, etc. 18 - Comércio varejista 17 - Serv. de alojamento, alimentação, etc. 19 - Ind. de prod. minerais não metálicos 18 - Ind. de prod. minerais não metálicos 20 - Ind. de produtos alimentícios, etc. 19 - Comércio varejista 21 - Ind. Têxtil 20 - Ind. de produtos alimentícios, etc. 22 - Ind. da madeira e do mobiliário 21 - Ind. Têxtil 23 - Ind. de calçados 22 - Ind. da madeira e do mobiliário 24 - Construçã o civil Grupo 5 23 - Ind. de calçados 25 - Agricultura , silvicultura , e tc. 24 - Construçã o civil 25 - Agricultura , silvicultura , e tc. Fonte: Elaboração Própria Obs. Foram retirados os setores Indústria de Transformação, Comércio e Serviços. Ademais, observa-se que nenhum dos setores ou subsetores que mais criaram empregos formais, em 2008, segundo o CAGED, estão localizados no grupo 1, ou seja, 85 tem boa qualidade de seus empregos formais. Pelo contrário, todos se encontram abaixo da média geral de qualidade do emprego formal.30 Para concluir, cumpre afirmar que os índices parciais referentes à qualificação e à remuneração melhoraram. Com isso, a qualidade do emprego formal, tal como definido aqui, aumentou, de 2004 para 2008, entretanto, a mesma continua em torno do valor central 0,5, dada a escala proposta. 30 Os setores que mais criaram empregos formais celetistas, em 2008, segundo o CAGED, foram o comércio e o setor de serviços. Já os subsetores foram os serviços de alojamento, etc., os serviços de comercialização e administração de imóveis e o comércio varejista. 86 2.8 Principais Conclusões Desde o segundo semestre de 2003, a economia brasileira apresenta um movimento de recuperação econômica que reverte a tendência de deterioração do mercado de trabalho dos anos 1990 (DEDECCA & ROSANDISKI, 2006). A recuperação do mercado formal de trabalho é visível quantitativamente. A seguir é apresentado um resumo em tópicos, com as principais conclusões obtidas, após o exame dos dados do CAGED/MTE para o período compreendido entre 2004 e 2009: Em termos geográficos, a geração de empregos formais não ocorreu de forma homogênea. A Região Sudeste continua sendo a maior criadora de postos de trabalho formais do País; No entanto, a Região Nordeste foi a única a ganhar participação relativa no período como um todo e, especialmente, em 2009; Em termos absolutos, as regiões não-metropolitanas continuam a gerar mais empregos formais que as metropolitanas, porém o diferencial em 2009 é bem menor do que era em 2004, ou seja, as regiões metropolitanas ampliaram sua participação; O comércio e os serviços são os setores de atividade que mais geraram empregos formais no período. Porém, a construção civil foi o setor que mais ganhou participação relativa; A tendência secular de convergência na criação de empregos formais entre homens e mulheres permanece, uma vez que as mulheres vêm ganhando participação relativa no mercado de trabalho e os homens vêm perdendo; 87 Em relação à escolaridade, os indivíduos com ensino médio completo são os com maior participação nos empregos formais criados, no período em questão; Em termos de faixa etária, mais de dois terços dos empregos formais criados no período estavam na faixa dos indivíduos de 18 a 24 anos; Só foram criados postos de trabalho formais, entre 2009, nas duas menores faixas de remuneração – até dois salários mínimos. Nas demais, houve destruição líquida de empregos; No período analisado, houve provavelmente a substituição de empregos de melhor remuneração por outros de pior remuneração; Há tendência de crescimento do salário médio real dos admitidos, porém o diferencial de salários entre admitidos e desligados permanece. Qualitativamente, através do Índice de Qualidade do Emprego Formal (IQEF), observa-se uma melhora de 2004 para 2008. Mesmo assim, cumpre enfatizar que a qualidade dos empregos formais criados, grosso modo, ainda pode melhorar muito. A crise atingiu a economia brasileira em um momento de recuperação do mercado de trabalho, com crescimento do emprego e da massa salarial, fatores que se tornaram estratégicos para a dinâmica do crescimento econômico dos últimos anos. O fortalecimento do mercado interno contribui, de forma decisiva, para a trajetória do crescimento recente, e poderá continuar sendo uma dimensão importante. Mesmo que o País esteja passando por uma fase positiva, ainda está distante de ter uma situação ideal, no que diz respeito ao mercado de trabalho. No Brasil, um grande contingente da população encontra-se ainda em condições de trabalho precário, as taxas de desemprego ainda são altas comparadas as de outros países, e a população em idade ativa é crescente, requerendo a criação de novos postos de trabalho. 88 A discussão abordada no capítulo seguinte diz respeito, portanto, a como está o mercado de trabalho brasileiro como um todo, ou seja, englobando trabalhadores formais e informais. Para tanto, será feita a construção de diferentes conceitos de informalidade. Além disso, analisar-se-ão as diferenças regionais e setoriais relacionadas à distribuição da população ocupada no País, permitindo a visão do que seria um mercado de trabalho menos desigual. 89 Capítulo 3 – O Retrato Atual do Mercado de Trabalho no Brasil 3.1 Considerações Iniciais Como descrito no capítulo anterior, o processo de aumento da formalização do mercado de trabalho brasileiro é evidente e não homogêneo. Este processo tem sua importância justificada pelo histórico de informalidade verificado nos anos 1990. Entretanto, a análise anterior focou atenção sobre os empregos formais, deixando de lado a caracterização da informalidade atual. Este esforço de caracterização das relações de trabalho informais é, portanto, o objetivo a ser alcançado neste capítulo. Esta última análise justifica-se, pois o processo recente de aumento da formalização e de redução da informalidade pode causar impactos positivos sobre toda a estrutura ocupacional nacional. A análise é feita com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE31. Nesta, a população ocupada pode ser classificada segundo as seguintes categorias por posição na ocupação, destacando-se a assinatura da carteira de trabalho e a contribuição previdenciária: a) Empregado com carteira assinada b) Empregado sem carteira assinada b1) Empregado sem carteira assinada contribuinte b2) Empregado sem carteira assinada não contribuinte c) Funcionário público/militar d) Trabalhador doméstico com carteira assinada e) Trabalhador doméstico sem carteira assinada e1) Trabalhador doméstico sem carteira assinada contribuinte e2) Trabalhador doméstico sem carteira assinada não contribuinte 31 É utilizada a última PNAD disponível, ou seja, a de 2008. 90 f) Trabalhador por conta própria f1) Trabalhador por conta própria contribuinte f2) Trabalhador por conta própria não contribuinte g) Empregador g1) Empregador contribuinte g2) Empregador não contribuinte h) Trabalhador na produção/construção para o próprio consumo i) Trabalhador não remunerado Sendo assim, uma classificação bem restrita do trabalho informal – chamada Informal 1 - inclui as categorias de posição na ocupação b2, e2, f2, g2, h e i privilegiando a não assinatura da carteira de trabalho e a não contribuição previdenciária. As escolhas justificar-se-iam, porque tais trabalhadores não possuem proteção da legislação trabalhista ou previdenciária e sua inserção no mercado de trabalho é bastante precária. Uma segunda classificação – denominada Informal 2 -, um pouco mais ampla, agrega à classificação anterior, os grupos b1, e1 destacando a não assinatura da carteira de trabalho dos trabalhadores assalariados, mesmo que, eventualmente, tais indivíduos contribuam para a Previdência Social. Uma terceira classificação – a Informal 3 - incorpora os trabalhadores por conta própria contribuintes - f1 - cuja forma de inserção no processo produtivo não se modifica por contribuírem para a Previdência. O trabalho autônomo pode ser reconhecido como uma forma de trabalho informal. Por fim, uma quarta classificação – a Informal 4 -, ainda mais ampla, inclui os trabalhadores domésticos com carteira assinada – d. O fato de tais trabalhadores terem sua 91 relação de trabalho formalizada através da assinatura da carteira de trabalho não muda a natureza de seu trabalho, caracterizado pela informalidade (SABOIA & SABOIA, 2004). Consequentemente, fazem parte do grupo dos trabalhadores formais, apenas os grupos a, c, g1, ou seja, os empregados com carteira assinada, os funcionários públicos/militares e os empregadores contribuintes. Figura 3.1 – Os Grupos de Informalidade Fonte: Elaboração Própria a partir de Saboia & Saboia (2004) 3.2 O Retrato do Mercado de Trabalho Brasileiro 92 Com base nestas classificações, é possível analisar o tamanho da (in)formalidade. Esta análise é feita para o País, para suas regiões e para suas Unidades da Federação. Complementando esta análise, constroem-se dois índices com a finalidade de se investigar as diferenças regionais relacionadas aos principais tipos de posição na ocupação. Discutem-se, também, os distintos níveis de remuneração existentes nas relações de trabalho informais. Ademais, características como gênero, cor, escolaridade e idade são observadas, com o objetivo final de apresentar um retrato mais detalhado do mercado de trabalho brasileiro. Por fim, considerações sobre a cobertura previdenciária e o grau de proteção dos trabalhadores são feitas com o intuito de ampliar a visão sobre o que deve ser um mercado de trabalho menos desigual. 3.2.1 Distribuição por Posição na Ocupação Em primeiro lugar, analisa-se a distribuição dos trabalhadores por posição na ocupação. Sendo assim, das 92,4 milhões de pessoas ocupadas no Brasil em 2008, os empregados com carteira assinada, categoria típica do setor formal da economia, atingem pouco mais da terça parte (34,5%). Os empregados sem carteira (17,2%) e os trabalhadores por conta própria (20,2%) são os dois outros grupos mais numerosos. As demais categorias – funcionários públicos/militares (7,0%), trabalhadores domésticos (7,1%), empregadores (4,5%), trabalhadores não remunerados (5,0%), trabalhadores na produção/construção para o próprio consumo (4,5%) – completam o conjunto de posições na ocupação contidas na PNAD (Gráfico 3.1). 93 Gráfico 3.1 – Distribuição Percentual da População Ocupada por Posição na Ocupação – Brasil – 2008 Trab. Doméstico sem carteira contribuinte 0,2 Trab. Doméstico com carteira 1,9 Empregador não contribuinte 2,0 Empregador contribuinte Empregado sem carteira contribuinte Trab. por Conta Própria contribuinte Trab. para consumo próprio 2,5 2,8 3,1 4,5 Trab. não remunerado 5,0 Trab. Doméstico sem carteira não contribuinte 5,0 Funcionário Público/ Militar Empregado sem carteira não contribuinte Trab. por Conta Própria não contribuinte 7,0 14,3 17,1 Empregado com carteira 34,5 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria O que se observa é que o percentual de trabalhadores por conta própria não contribuintes é grande, em relação aos que contribuem, ou seja, a contribuição previdenciária entre os trabalhadores autônomos é bastante reduzida, sendo que pouco mais de um de cada cinco trabalhadores por conta própria contribui. Além disso, os trabalhadores domésticos sem carteira não contribuintes, uma posição extremamente precária, apresentam-se em maior número, em comparação com os domésticos com carteira assinada. Pode-se afirmar, ainda, que apenas 16,6% dos empregados sem carteira assinada contribuem para a Previdência Social. Este percentual em relação aos trabalhadores domésticos é ainda menor – apenas 4,7%. Entre os empregadores, 44,4% não contribuem para a Previdência Social, sendo considerados, portanto, informais. 94 3.2.2 Aspectos Geográficos Quanto aos aspectos geográficos, as diferenças são muito relevantes. Em 2008, enquanto apenas 23% das pessoas ocupadas na região Norte são empregados com carteira assinada, na região Sudeste este percentual é de 43,6%. Os empregados sem carteira contribuintes e não contribuintes não passam de 13,7% na região Sul, enquanto atingem 21,1% no Nordeste. O trabalho na produção/construção para o consumo próprio absorve 8,8% da população ocupada na região Nordeste, e apenas 2,1% na região Sudeste. O funcionalismo público/militar varia entre 6,4% da população ocupada no Sul e 9,8% no Norte, superando a região Centro-Oeste (Tabela 3.1). Tabela 3.1 – Distribuição Percentual da População Ocupada por Posição na Ocupação e Contribuição para a Previdência – Brasil e Grandes Regiões – 2008 Brasil Total de Pessoas Ocupadas Norte Nordeste Sudeste Sul 92.394.585 6.863.095 24.549.260 39.397.385 14.675.303 Centro-Oeste 6.909.542 Empregado com carteira assinada 34,5 23,0 20,9 43,6 38,8 33,0 Empregado sem carteira assinada contribuinte 2,8 3,8 3,2 2,6 2,4 2,9 Empregado sem carteira assinada não contribuinte 14,3 16,8 17,9 12,7 11,3 15,0 Funcionário Público/ Militar 7,0 9,8 6,2 6,7 6,4 9,5 Trabalhador Doméstico com carteira assinada 1,9 0,8 0,9 2,6 2,1 2,3 Trabalhador Doméstico sem carteira contribuinte 0,2 0,0 0,1 0,4 0,3 0,2 Trabalhador Doméstico sem carteira não contribuinte 5,0 5,6 5,6 4,8 4,0 6,0 Trabalhador por Conta Própria contribuinte 3,1 1,5 1,4 3,9 5,0 2,4 Trabalhador por Conta Própria não contribuinte 17,1 23,0 23,4 13,4 13,7 16,8 Empregador contribuinte 2,5 1,1 1,1 3,1 3,9 2,7 Empregador não contribuinte 2,0 2,6 2,3 1,7 1,7 2,7 Trabalhador para consumo próprio 4,5 4,3 8,8 2,1 4,4 3,6 Trabalhador não remunerado 5,0 7,6 8,3 2,4 6,1 3,0 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria 95 Entre as Unidades da Federação, os percentuais de empregados com carteira assinada variam entre 12,2% da população ocupada no Piauí e 49,1% em São Paulo. Já o percentual dos empregados sem carteira assinada varia entre 11,6% da população ocupada em Santa Catarina e 24,9% no Amapá. O trabalho na produção/construção para o consumo próprio chega a 15,1% no Maranhão e não passa de 0,4% no Rio de Janeiro. O trabalho não remunerado, por sua vez, chega a 11,9% da população ocupada no Piauí, enquanto no Distrito Federal este percentual não supera 1% da população ocupada. Deste modo, é possível afirmar que o Piauí apresenta o maior percentual de informalidade – medida pela classificação Informal 1 – no conjunto da população ocupada. Nota-se, também, que a maioria dos estados com grau de informalidade abaixo da média nacional pertence às regiões Sul e Sudeste. Gráfico 3.2 – Percentual da População Ocupada no Informal 1 por Unidade da Federação – 2008 75,4 70,1 68,6 66,5 65,8 62,3 62,2 61,9 61,5 60,1 57,9 57,5 54,8 51,7 51,4 50,8 50,6 48,1 47,8 47,6 44,5 43,9 42,8 42,1 36,3 33,3 32,6 PI MA CE BA PA AL PE TO PB RN AC SE RO AM MT RR GO ES MS Brasil AP MG PR RS RJ SC SP 31,4 DF Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Obs. Informal 1 = ∑ (empregado sem carteira não contribuinte, trabalhador doméstico sem carteira não contribuinte, trabalhador por conta própria não contribuinte, empregador não contribuinte, trabalhador na produção/construção para o próprio consumo, trabalhador não remunerado). 96 As exceções são o Distrito Federal e o Amapá. O primeiro tem, reconhecidamente, uma população ocupada muito formalizada, formada por empregados com carteira assinada e funcionários públicos. Já o segundo obteve resultado surpreendente, pois o histórico é de grande informalidade em seu mercado de trabalho. Este resultado foi influenciado pela grande participação relativa dos funcionários públicos – cerca de 19% contra uma média nacional de 7%. 97 3.2.3 Diferenças Regionais e Setoriais na Distribuição da População Ocupada Utilizando-se ainda os dados da PNAD de 2008, cumpre ressaltar as diferenças regionais e setoriais na distribuição da população ocupada. Em primeiro lugar, observa-se que, em todas as regiões, o peso do setor de comércio é grande (Tabela 3.2). A indústria de transformação, no entanto, tem maior peso nas regiões Sul e Sudeste. Enquanto isso, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm maior presença do setor agrícola. Tabela 3.2 – Distribuição Regional e Setorial da População Ocupada (%) – 2008 SP Popula çã o Ocupa da Agrícola RJ 20.305.692 7.147.164 MG-ES 11.944.529 NO NE S CO 6.863.095 24.549.260 14.675.303 6.909.542 Bra sil 92.394.585 5,1 1,9 19,5 18,9 30,8 18,4 15,0 17,4 20,8 11,7 14,6 12,6 9,1 18,1 10,4 14,4 Construção 7,2 8,9 8,0 8,3 6,9 6,8 8,3 7,5 Outras atividades industriais 0,6 1,2 1,3 1,0 0,7 0,6 0,8 0,8 18,4 18,4 16,3 18,8 16,2 17,2 19,0 17,4 Alojamento e alimentação 4,0 5,6 3,9 4,4 3,5 3,1 4,1 3,9 Transp. e comum. 6,3 7,0 4,6 4,3 3,8 4,9 4,6 5,0 Administração Pública 3,6 5,6 4,9 7,0 4,9 4,4 6,9 4,9 Educ., saúde e serv. sociais 9,7 12,0 9,0 9,3 8,4 9,1 8,8 9,2 Serviços domésticos 7,6 8,8 7,5 6,5 6,6 6,4 8,4 7,2 Outros serviços sociais 4,9 7,1 4,3 3,8 3,8 3,7 5,0 4,4 Outras atividades 11,9 12,0 6,3 5,2 5,2 7,4 8,6 7,7 % Pop. Ocupa da T ota l 22,0 7,7 12,9 7,4 26,6 15,9 7,5 100,0 Indústria de Transformação Comércio e Reparação Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Obs. NO = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; CO = Centro-Oeste Após verificar a dispersão regional e setorial da população ocupada, torna-se possível a construção de um índice que demonstre as diferenças entre as estruturas produtivas de determinada região e a do espaço nacional. Tal índice chamado de Quociente de Especialização Regional (QE) mede o grau de semelhança entre a distribuição regional da população ocupada em um setor e a distribuição regional da população ocupada total.32 Este quociente terá a fórmula 1.1: QEsj = Xsj/Xj 32 Análise baseada em KON (1995). (1.1) 98 onde, Xsj é o percentual de pessoas ocupadas no setor s e na região j em relação à população ocupada total na região j; e Xj é o percentual de pessoas ocupadas na região j em relação à população ocupada total no País. Sendo assim, se QEsj for maior que a unidade, pode-se afirmar que a região j é especializada na atividade s. Do contrário, se QEsj for menor que a unidade, afirma-se que a região j não é especializada nessa atividade. Tabela 3.3 – Quociente de Especialização Regional (QEsj) - 2008 SP RJ MG-ES NO NE S CO Agrícola 0,23 0,25 1,51 2,54 1,16 1,16 2,01 Indústria de Transformação 0,95 1,51 1,13 1,69 0,34 1,14 1,39 Construção 0,33 1,15 0,62 1,11 0,26 0,43 1,11 Outras atividades industriais 0,03 0,15 0,10 0,13 0,03 0,04 0,10 Comércio e Reparação 0,84 2,37 1,26 2,54 0,61 1,08 2,54 Alojamento e alimentação 0,18 0,72 0,30 0,60 0,13 0,20 0,55 Transp. e comum. 0,29 0,90 0,35 0,58 0,14 0,31 0,62 Administração Pública 0,16 0,73 0,38 0,94 0,19 0,27 0,93 Educ., saúde e serv. sociais 0,44 1,55 0,69 1,25 0,32 0,57 1,18 Serviços domésticos 0,34 1,14 0,58 0,87 0,25 0,40 1,12 Outros serviços sociais 0,22 0,91 0,33 0,51 0,14 0,23 0,67 Outras atividades 0,54 1,55 0,49 0,70 0,19 0,47 1,16 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Obs. NO = Norte; NE = Nordeste; S = Sul; CO = Centro-Oeste Após o cálculo desta razão para as cinco regiões brasileiras, além de alguns estados específicos, observa-se que o estado do Rio de Janeiro, por exemplo, apresenta uma estrutura produtiva onde predominam atividades secundárias, como a indústria de transformação e a construção, e, com maior intensidade, as atividades do setor terciário. O estado de São Paulo, especificamente, que engloba 22% do total de ocupados do País, 99 apresenta uma estrutura produtiva onde predominam, além do comércio, as atividades da indústria de transformação. Além disso, a região Nordeste confirma-se como uma região com estrutura produtiva fortemente agrícola. Já as regiões Centro-Oeste e Norte, também estruturadas como regiões de atividade primária, possuem especialização em comércio. A região Sul, por sua vez, possui estrutura relativamente diversificada. Voltando-se agora para a investigação da diferenciação espacial da população ocupada, segundo o tipo de posição na ocupação, consegue-se observar as diferenças de cada região, em relação à estrutura ocupacional média do País. Com este objetivo, constrói-se o Quociente de Diferenciação (QDij), que mede a representatividade de certo tipo de posição na ocupação na região, comparada à representatividade da mesma no País. Este quociente terá a seguinte fórmula 1.2: QDij = [(Xij/Xj)* 100]/[(Xi/X)* 100] (1.2) onde, Xij é o total de pessoas ocupadas em cada região j e posição de ocupação i; Xj é o total de pessoas ocupadas em cada região j; Xi é o total de pessoas ocupadas em cada posição de ocupação i; e X é o total de pessoas ocupadas no País. A interpretação dada será a seguinte: - Se QDij < 1, então a posição na ocupação i é menos representativa na região j, se comparada à representatividade no espaço nacional; 100 - Se QDij > 1, então a posição na ocupação i é mais representativa na região j, se comparada à representatividade no espaço nacional. Os resultados estão na tabela 3.4. Confirma-se, com base nos mesmos, que é em São Paulo onde os empregados com carteira assinada são mais representativos, em comparação à media nacional. Nas regiões Norte e Nordeste, as posições relativamente mais representativas são também as consideradas mais precárias, como os trabalhadores para consumo próprio e os não remunerados. O estado do Rio de Janeiro e a região Sul como um todo se destacam pela representatividade dos trabalhadores por conta própria contribuintes. Na região Centro-Oeste, é confirmado, por sua vez, a maior representatividade relativa dos funcionários públicos e militares. Tabela 3.4 – Quociente de Diferenciação (QDij) - 2008 Posiçã o na Ocupa çã o SP RJ MG-ES NO NE S CO Empregado com carteira assinada 1,42 1,18 1,05 0,67 0,61 1,12 0,96 Empregado sem carteira assinada contribuinte 0,78 0,88 1,16 1,34 1,14 0,83 1,02 Empregado sem carteira assinada não contribuinte 0,82 0,88 1,00 1,17 1,25 0,79 1,05 Funcionário Público/ Militar 0,82 1,27 1,01 1,40 0,90 0,92 1,37 Trabalhador Doméstico com carteira assinada 1,38 1,57 1,18 0,42 0,49 1,10 1,17 Trabalhador Doméstico sem carteira contribuinte 1,39 2,70 1,36 0,18 0,34 1,01 0,62 Trabalhador Doméstico sem carteira não contribuinte 0,91 1,02 0,98 1,12 1,11 0,80 1,19 Trabalhador por Conta Própria contribuinte 1,22 1,70 1,05 0,47 0,46 1,58 0,78 Trabalhador por Conta Própria não contribuinte 0,72 0,92 0,83 1,34 1,37 0,80 0,99 Empregador contribuinte 1,37 0,99 1,14 0,45 0,42 1,56 1,10 Empregador não contribuinte 0,86 0,69 0,90 1,32 1,15 0,86 1,36 Trabalhador para consumo próprio 0,14 0,09 1,22 0,96 1,94 0,99 0,79 Trabalhador não remunerado 0,36 0,24 0,84 1,53 1,66 1,23 0,60 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria 101 3.2.4 Aspectos relacionados à Remuneração Os dados relativos aos níveis médios de remuneração dos trabalhadores segundo as várias posições na ocupação consideradas resumem, em grande medida, as diferenças existentes entre os trabalhadores com e sem carteira assinada. Conforme esperado, as maiores remunerações, em 2008, foram recebidas pelos empregadores contribuintes (R$ 3.647) seguidas pelos empregadores não-contribuintes (R$ 2.148). Os funcionários públicos e militares ocuparam a terceira posição (R$ 1.759). Os trabalhadores por conta própria contribuintes (R$ 1.642) receberam quase o triplo dos não-contribuintes (R$ 644). Já os empregados com carteira assinada (R$ 1.034) obtiveram níveis de remuneração praticamente idênticos aos empregados sem carteira contribuintes (R$ 1.038). As demais posições na ocupação conseguiram níveis de remuneração bem mais baixos – empregados domésticos com carteira (R$ 523), empregados sem carteira não contribuintes (R$ 518), empregados domésticos sem carteira contribuintes (R$ 480) e empregados domésticos sem carteira não contribuintes (R$ 292). Cabe destacar que o salário mínimo nominal em 2008 era de R$ 415 (Gráfico 3.3). 102 Gráfico 3.3 – Rendimento Médio da População Ocupada por Posição na Ocupação – Brasil - 2008 Doméstico sem carteira Não Contribuinte Doméstico sem carteira Contribuinte em Reais de 2008 292 480 Empregado sem carteira Não Contribuinte 518 Doméstico com carteira 523 Conta Própria Não Contribuinte 644 Empregado com carteira 1.034 Empregado sem carteira Contribuinte 1.038 Conta Própria Contribuinte Funcionário Público/ Militar Empregador Não Contribuinte Empregador Contribuinte 1.642 1.759 2.148 3.647 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria A regra geral é encontrar o menor nível de remuneração entre os trabalhadores que constituem os grupos de informalidade. Entretanto, nem todos os trabalhadores incorporados a este setor possuem níveis de remuneração baixos. Os empregadores não contribuintes, por exemplo, que foram incluídos no grupo Informal 1, possuem o segundo nível mais alto de remuneração. Já os empregados sem carteira assinada contribuintes, que foram incorporados ao Informal 2, possuem remuneração média mais alta que os empregados com carteira assinada. Saboia & Saboia (2004) argumentam que nem sempre o trabalho (in)formal pode ser associado ao trabalho (in)decente.33 Embora a regra geral seja encontrar condições de 33 O conceito de Trabalho Decente estabelecido pela OIT envolveria formas de ocupação assalariadas e por contaprópria convenientemente remuneradas e realizadas em condições de trabalho que respeitem os princípios da liberdade, equidade, seguridade e dignidade. Tais condições deveriam incorporar os seguintes aspectos: respeito aos princípios e direitos fundamentais no trabalho, proteção social básica e diálogo social (DUARTE, 2006). 103 trabalho piores nos grupos de informalidade, há exceções. Alguns trabalhadores usualmente incluídos nesses grupos, como os empregadores não contribuintes e os trabalhadores por conta própria contribuintes, possuem, em média, remunerações relativamente elevadas que dificilmente permitiriam identificá-los como pessoas submetidas ao trabalho indecente. 104 3.2.5 Características dos Grupos de Informalidade Voltando-se às estimativas para o tamanho da informalidade no Brasil, propriamente, observa-se que os grupos construídos variam entre 47,6% da população total ocupada - no caso do Informal 1 - e 56,0% - para o Informal 4. Pode-se, portanto, afirmar que um de cada dois trabalhadores brasileiros está na informalidade (Gráfico 3.4). Gráfico 3.4 – Percentual da População Ocupada nos Grupos Informal 1, Informal 2, Informal 3 e Informal 4 – Brasil – 2008 56,0 54,1 51,0 47,6 Informal 1 Informal 2 Informal 3 Informal 4 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Existem, contudo, diferenciais importantes entre os inúmeros setores de atividade econômica. A administração pública é, sabidamente, o setor com menor percentual de informalidade. De acordo com Saboia & Saboia (2004), teoricamente, a informalidade na administração pública não deveria existir se todos fossem funcionários públicos. Há, 105 entretanto, pessoas subcontratadas, que trabalham para a administração pública, classificadas nas diversas categorias incluídas nos grupos de informalidade. Por outro lado, o setor com maior percentual de trabalhadores informais é o setor agrícola. Neste, a grande maioria da população ocupada pode ser classificada como informal, ou seja, não possui carteira assinada e/ou não contribui para a Previdência Social. Gráfico 3.5 – Percentual da População Ocupada no Grupo Informal 1 por Setor – 2008 Administração Pública Educação, saúde e serv. sociais Serviços de transporte, armazen. e com. Serviços de alojam. e alimentação Outras atividades 1,3 7,4 9,9 12,3 13,2 Outros serviços colet., sociais e pessoais Ind. de Transformação Construção Serviços domésticos Comércio e Reparação Agrícola 16,1 26,3 27,7 28,7 46,4 84,0 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Quando analisadas as características pessoais da população ocupada, nota-se que é maior a participação de mulheres do que de homens nos grupos de informalidade. Enquanto 46,5% dos homens estão no informal 1, 49,1% das mulheres encontram-se em situação similar. No informal 4, os percentuais são 53,3% e 59,8%, respectivamente (Gráfico 3.6). 106 Este resultado é influenciado pelo percentual de trabalhadoras domésticas sem carteira não contribuintes na população ocupada feminina. Este segmento informal representa 11,7% da população ocupada feminina, enquanto que na população ocupada masculina, este percentual não passa de 0,4%. Ademais, entre os homens, o percentual dos empregados com carteira assinada chega a 38,4%, porém, entre as mulheres, este percentual é bem menor, 29,2%. Gráfico 3.6 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e por Gênero – 2008 59,8 47,6 49,1 51,0 53,5 54,1 55,7 56,0 53,0 53,3 Informal 3 Informal 4 49,1 46,5 Informal 1 Informal 2 Total Homens Mulheres Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Pode-se concluir, então, que as mulheres têm maior probabilidade de estar na informalidade que os homens. Mais do que isso, o rendimento mensal médio das mulheres é sempre menor que o dos homens, não importando a posição na ocupação. 107 Tabela 3.5 – Rendimento Médio por Posição na Ocupação e por Gênero – 2008 R e ndime nto Mé dio Me nsa l Posiçã o na Ocupa çã o H ome ns Mulhe re s M/ H (% ) Empregado com carteira Funcionário Público/ Militar 1.118 885 79,2 2.118 1.487 Empregado sem carteira contribuinte 70,2 1.221 857 70,2 Empregado sem carteira não contribuinte 535 481 89,9 Doméstico com carteira 640 511 79,7 Doméstico sem carteira contribuinte 531 477 89,9 389 286 73,6 1.787 1.295 72,5 Doméstico sem carteira não contribuinte Conta Própria contribuinte Conta Própria não contribuinte 730 478 65,4 Empregador contribuinte 3.933 2.944 74,8 Empregador não contribuinte 2.246 1.860 82,8 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Obs. Em Reais de 2008 Conforme esperado ainda, a incidência de pessoas pretas e pardas na informalidade tende a ser maior que a de brancos. Enquanto 40,7% dos brancos trabalham no informal 1, 47,7% dos pretos e 55,7% dos pardos encontram-se na mesma situação. No informal 4, os diferenciais tornam-se ainda mais elevados – 50,1%, 56,5% e 62,8%, respectivamente. 108 Gráfico 3.7 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e por Cor – 2008 58,9 56,5 48,4 51,1 50,1 60,9 62,8 55,7 53,2 47,7 44,1 40,7 Branca Preta Informal 1 Informal 2 Informal 3 Parda Informal 4 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Outro resultado esperado e confirmado pelos dados é a maior participação das pessoas de menor nível de escolaridade nos grupos de informalidade. Entre aqueles com menos de um ano de estudo, 79,5% estão no informal 1. Para os que completaram o ensino fundamental (8 anos de estudo), a participação cai para 50,4%. Quando consideradas as pessoas com 11 anos ou mais de estudo (universitários), apenas 28,7% estão no informal 1. Para o informal 4, os percentuais são, respectivamente, 84,8%, 58,9% e 36,9%. 109 Gráfico 3.8 – População Ocupada por Grupos de Informalidade e Anos de Estudo – 2008 17,2 15 anos ou mais 23,0 28,5 28,7 28,7 11 a 14 anos 32,9 35,9 36,9 50,4 53,6 56,5 58,9 8 a 10 anos 61,7 64,1 67,4 70,8 4 a 7 anos 73,3 75,3 78,0 80,5 1 a 3 anos 79,5 81,4 83,1 84,8 Menos de 1 ano Informal 1 Informal 2 Fonte: Microdados PNAD 2008/ IBGE - Tabulação Própria Informal 3 Informal 4 110 3.2.6 A Informalidade e a Previdência Social O comportamento do emprego formal é absolutamente decisivo para a evolução da arrecadação previdenciária (BALTAR & LEONE, 2008). Por outro lado, observa-se um crescimento das contribuições entre os empregados não formalizados. Segundo dados da PNAD, em 2008, 51,8% do total da população ocupada contribuíram para a Previdência Social. Em 2004, este percentual era de 43,9%. Dentro desse contexto, o número de empregados sem carteira e não remunerados que contribuem aumentou, entre 2004 e 2008. Pode-se afirmar, no entanto, que parcela ainda significativa de empregadores e trabalhadores por conta própria não contribuem. Dentre os empregadores, 44,4% não contribuíram em 2008, enquanto, dentre os trabalhadores autônomos, este percentual chegou a 84,4%. Porém, estes mesmos percentuais em 2004 foram de 42,7% e de 85,7%, respectivamente. Tabela 3.6 – Contribuição Previdenciária por Tipo de Posição na Ocupação – 2004/2008 2004 Posição na Ocupação 2008 % contribuinte % não contribuinte % contribuinte % não contribuinte Empregados sem carteira 11,4 83,4 3,2 88,6 96,8 16,6 Doméstico sem carteira 4,7 95,3 Conta própria 14,3 85,7 15,6 84,4 Empregador 57,3 42,7 55,6 44,4 Trabalhador na produção para o próprio consumo 0,5 99,5 1,1 98,9 Trabalhador na construção para o próprio uso 1,4 98,6 0,2 99,8 Não-remunerado 1,9 98,1 4,6 95,4 Fonte: Microdados da PNAD 2004 e 2008. Elaboração Própria. Obs. Foram excluídos do total de 2004 os trabalhadores sem declaração de carteira. Quanto à cobertura previdenciária, cabe ressaltar que o número total de protegidos teve aumento de 12,1% e o de desprotegidos teve crescimento de 0,4%. 111 Tabela 3.7 – População Ocupada de 16 a 59 anos de idade por Posição na Ocupação e Proteção Previdenciária – 2004/2007 V a r.% 2007-2004 2004 2005 2006 2007 T ota l de Ocupa dos * 75.331.426 77.608.942 79.541.146 81.162.187 7,7 T ota l de P rote gidos 47.135.689 49.211.817 50.943.652 52.841.834 12,1 25.111.184 26.494.323 27.751.938 29.512.974 17,5 Funcionários Públicos/ Militares 5.330.076 5.236.820 5.596.007 5.867.803 10,1 Empregados sem carteira 3.628.580 3.967.994 3.871.071 4.070.294 12,2 Domésticos com carteira 1.618.170 1.689.010 1.764.323 1.785.799 10,4 Empregados com carteira 292.580 320.043 330.749 367.068 25,5 Conta-própria 5.230.524 5.308.081 5.373.618 5.269.965 0,8 Empregador 1.930.653 2.049.798 2.285.010 1.925.075 -0,3 Domésticos sem carteira 3.993.922 4.145.748 3.970.936 4.042.856 1,2 T ota l de D e prote gidos 28.195.737 28.397.125 28.597.494 28.320.353 0,4 Empregados com carteira - - 449 - - Não remunerado ** - - - - - Empregados sem carteira 10.447.512 10.207.087 10.574.057 10.195.557 -2,4 Domésticos com carteira 2.572 - - - -1,0 Funcionários Públicos/ Militares Domésticos sem carteira 4.118.015 4.172.798 4.183.708 4.076.499 Conta-própria 10.478.319 10.683.872 10.570.296 10.934.752 4,4 Empregador 1.111.216 1.157.251 1.222.077 1.087.451 -2,1 Não remunerado ** 2.038.103 2.176.117 2.046.907 2.026.094 -0,6 Fonte: AEPS 2007; AEPS 2008/ MPS * Foram excluídos os empregados sem declaração de carteira, os domésticos sem declaração de carteira e os trabalhadores sem declaração. ** Somatório dos trabalhadores na produção para próprio consumo, trabalhadores na construção para próprio uso e trabalhadores não remunerados. Nesse sentido, o número de empregados com carteira protegidos obteve aumento de 17,5%, entre 2004 e 2007. Por outro lado, mesmo sem estarem formalizados, os trabalhadores domésticos sem carteira estavam mais protegidos em 2007 do que em 2004. Além disso, os trabalhadores por conta própria sem proteção aumentaram, quantitativamente, entre os anos pesquisados. Este resultado demonstra que neste tipo de ocupação ainda há poucos incentivos para a contribuição à Previdência. 112 3.3 Principais Conclusões É possível afirmar que o mercado de trabalho brasileiro é ainda marcado pela enorme informalidade. O trabalho formal, formado pelos empregados com carteira assinada, funcionários públicos/militares e empregadores contribuintes, constitui apenas 44% - de acordo com a classificação Informal 4 – do total da população ocupada. O trabalho informal, por outro lado, corresponde a 56% deste total e é marcado por enorme heterogeneidade. Após a análise, conclui-se que as mulheres, os negros e os indivíduos com poucos anos de estudo são os grupos com maior probabilidade de estarem na informalidade. Além disso, diferenças regionais e setoriais importantes dividem a população ocupada. Na região Sudeste, o percentual de empregados com carteira assinada é bem superior à média nacional. Enquanto isso, na região Nordeste, o cenário é o oposto. No Piauí, por exemplo, o grupamento Informal 1 corresponde a três quartos da população ocupada, enquanto que a média nacional é de cerca de metade desta população. Por outro lado, a cobertura previdenciária tem aumentado a despeito da posse da carteira de trabalho. Mesmo assim, em 2007, mais de um terço da população ocupada entre 15 e 64 anos ainda se encontrava desprotegida. Portanto, as considerações deste capítulo apontam para um mercado de trabalho que melhorou nos últimos anos, mas que ainda pode ser considerado muito desigual. 113 CONSIDERAÇÕES FINAIS O retrato sintético que se pode retirar sobre o mercado de trabalho brasileiro é que o mesmo continua marcado por grande número de relações de trabalho informais. Mais do que isso, os diferenciais de remuneração entre os gêneros permanece e a importância da educação para o pertencimento à formalidade continua evidente. Ademais, o País carece de políticas públicas que devolvam a igualdade entre brancos, pretos e pardos e a proteção previdenciária necessita ainda ser ampliada, de modo a garantir o bem-estar da população. O mercado de trabalho no País permanece também caracterizado por diferenças regionais e setoriais importantes. Nesse sentido, no estado de São Paulo, os empregados com carteira assinada possuem maior representatividade, em comparação à média nacional. O mesmo não ocorre nas regiões Norte e Nordeste. Nestas últimas, concentram-se as ocupações mais precárias, enquadradas nos diferentes grupos de informalidade propostos. O estado de São Paulo representa ainda quase um quarto da população ocupada no País, enquanto que as regiões Norte e Nordeste conjuntamente representam um terço. Sendo assim, o emprego formal continua concentrado em uma área pequena do território nacional, enquanto que a informalidade atinge uma parte considerável do mesmo. Isto não quer dizer que não haja informalidade em São Paulo ou que o emprego formal seja inexistente nas regiões mais ao norte do País. O crescimento na geração de empregos formais entre 2004 e 2009 é um dado, sem dúvida, a ser comemorado, mesmo que as variações relativas do mesmo refiram-se a um universo que representa apenas 40% das pessoas economicamente ativas. A expansão de 5,1% do emprego formal, ocorrida em média anual, entre 2004 e 2008, gerou empregos num volume um pouco maior que o aumento da PEA de 1,75% ao ano, na média desse 114 mesmo período. Por isso, a expansão do emprego formal ainda não foi capaz de transformar significativamente o conjunto da estrutura ocupacional brasileira. Considerando-se que a PEA ainda representa significativo ritmo de crescimento, a expansão do emprego formal precisa continuar, para que haja importantes mudanças nesta estrutura. Por outro lado, vale comemorar a capacidade que a economia brasileira apresentou quanto à recomposição do mercado formal de trabalho. Esta contraria a visão amplamente veiculada, nos anos 1990, de que o emprego formal estaria fadado à contínua redução. Além disso, essa expansão vai de encontro aos argumentos daqueles que, mesmo hoje, acusam a regulação pública das relações de trabalho como principal causadora do desemprego (DEDECCA & ROSANDISKI, 2007). Cabe ressaltar, contudo, que a tendência de melhora do mercado de trabalho, representada pelo intenso crescimento dos empregos formais entre 2004 e 2009, não reduz a necessidade de uma profunda transformação das condições de emprego no País, a começar pela continuidade da geração de novos postos de trabalho, pela manutenção do processo de recuperação do poder de compra do salário mínimo e pelo comprometimento social com uma agenda de políticas substanciais para a geração e preservação de ocupações com qualidade. Assim, o posicionamento defendido neste trabalho é o de que se deve cuidar das orientações de rumo da economia para a obtenção de elevada atividade, viabilizando uma maior geração de empregos formais correspondentes, compatíveis com as regras colocadas à compra e à venda de força de trabalho. Ademais, a geração de empregos deve estar centrada na qualidade e não somente na quantidade. 115 É mesmo fato que a manutenção do crescimento econômico torna-se fundamental. Esta tarefa depende, por sua vez, do vigor do investimento, por sua capacidade de ampliar a infra-estrutura e as possibilidades de produção competitiva para o mercado doméstico e a exportação, para manter o nível das reservas internacionais, necessário para garantir a autonomia da política macroeconômica e para cobrir as importações que tendem a crescer junto com o mercado doméstico (BALTAR & LEONE, 2008). A ação pública, relacionada à maior eficiência na fiscalização por parte do MTE e aos programas de qualificação da mão de obra que visam contribuir para o aumento da probabilidade de obtenção de um emprego de melhor qualidade, além da redução da vulnerabilidade e da pobreza, é também relevante. Prestar atenção para a qualidade dos empregos gerados é de suma relevância. A viabilização de maiores níveis de rendimento dependerá, nesse sentido, do restabelecimento de uma trajetória de aumento da produtividade, a partir da elevação da taxa de crescimento da economia (POCHMANN, 2007). Por último, a seletividade verificada no processo de criação de novas oportunidades – como, por exemplo, em relação ao nível de qualificação – requer políticas públicas urgentes que funcionem como indutores da geração de empregos formais para aqueles trabalhadores menos qualificados. 116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALTAR, P. & LEONE, E. T. Perspectivas do Emprego Formal em um Cenário de Crescimento da Economia. In: FAGNANI, E. [et al.]. Debates Contemporâneos, Economia Social e do Trabalho. Volume 4. São Paulo: LTr, 2008. BALTAR, P. [et al.]. Evolução do Mercado de Trabalho e Significado da Recuperação do Emprego Formal nos Anos Recentes. In: DEDECCA, C. S. & PRONI, M. W. (Orgs.) Políticas Públicas e Trabalho: textos para estudos dirigidos. São Paulo: Unicamp/IE, 2006. CACCIAMALI, M. C. Globalização e Processo de Informalidade. Mimeo. São Paulo, 1999. _________________. A Composição do Mercado Informal de Trabalho e o Papel do Mercado de Trabalho na Redução da Pobreza. 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Rio de Janeiro: IPEA [Texto para Discussão no1068], 2005. 121 ANEXO Considerações sobre as Bases de Dados Utilizadas Pesquisa Mensal de Emprego (PME/ IBGE) A Pesquisa Mensal de Emprego, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, abrange as regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Esta produz indicadores mensais sobre a força de trabalho que permitem avaliar as flutuações e a tendência, a médio e a longo prazos, do mercado de trabalho, nas suas áreas de abrangência, constituindo um indicativo ágil dos efeitos da conjuntura econômica sobre esse mercado, além de atender a outras necessidades importantes para o planejamento socioeconômico do País. Abrange informações referentes à condição de atividade, condição de ocupação, rendimento médio nominal e real, posição na ocupação, posse de carteira de trabalho assinada, entre outras, tendo como unidade de coleta os domicílios. A pesquisa foi iniciada em 1980, sendo submetida a uma revisão completa em 1982 e duas parciais, de vulto, em 1988 e 1993, por meio das quais foram realizados ajustamentos restritos somente ao plano de amostragem. Em 2001, passou por um amplo processo de revisão metodológica visando não só à captação mais abrangente das características de trabalho e das formas de inserção da mão-de-obra no mercado produtivo, como também à atualização da cobertura temática da pesquisa e sua adequação às mais recentes recomendações da Organização Internacional do Trabalho – OIT. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE 122 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/ IBGE) A PNAD tem como finalidade a produção de informações básicas para o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País. Esta é realizada anualmente, investigando, de forma permanente, os temas habitação, rendimento e trabalho, associados a aspectos demográfico e educacional e, com periodicidade variável, por meio de pesquisas suplementares, outros assuntos de caráter demográfico, social e econômico. Como o seu próprio nome indica, a PNAD é realizada por meio de uma amostra de domicílios e a sua abrangência geográfica, prevista desde o seu início para ser nacional, foi alcançada gradativamente. Iniciada em 1967 na área que hoje compreende o Estado do Rio de Janeiro, ao final da década de 1960 a PNAD já abrangia as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul e o Distrito Federal. Reiniciada em 1971 nas áreas que abrangem o atual Estado do Rio de Janeiro, o Estado de São Paulo e a Região Sul, em 1973 já cobria as Regiões Nordeste, Sudeste e Sul, o Distrito Federal e a área urbana da Região Norte e das demais Unidades da Federação da Região Centro-Oeste. Essa cobertura foi mantida até 1979. Em 1981, a abrangência geográfica da PNAD foi mais uma vez ampliada, passando a excluir somente a área rural da antiga Região Norte, que compreendia as seguintes Unidades da Federação: Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Essa abrangência geográfica foi mantida para as pesquisas da década de 1990 e para as de 2001, 2002 e 2003, ou seja, a PNAD continuou a cobrir todo o País, com exceção da área rural dessas seis Unidades da Federação. Em 2004, a PNAD foi implantada na área rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá e alcançou a cobertura completa do Território Nacional. A comparação dos resultados da PNAD desta década com os das anteriores deve levar em conta que a classificação das áreas urbana e rural é feita de acordo com a 123 legislação vigente por ocasião dos Censos Demográficos. Portanto, ainda que a legislação tenha alterado a classificação de determinadas áreas no período intercensitário, a definição estabelecida por ocasião do Censo Demográfico 1991 foi mantida para as pesquisas da PNAD realizadas de 1992 a 1999 e, também, a classificação vigente por ocasião do Censo Demográfico 2000 permanecerá para as pesquisas da PNAD desta década. Consequentemente, as estatísticas por situação urbana e rural não captam integralmente a sua evolução, sendo que as diferenças se intensificam à medida que os resultados obtidos se afastam do ano de realização do Censo Demográfico que serviu de marco para a classificação da situação do domicílio. As estatísticas da PNAD são divulgadas para o Brasil, Grandes Regiões, Unidades da Federação e nove Regiões Metropolitanas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre). Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED/MTE) O CAGED constitui importante fonte de informação do mercado de trabalho de âmbito nacional e de periodicidade mensal. Foi criado como instrumento de acompanhamento e de fiscalização do processo de admissão e de dispensa de trabalhadores regidos pela CLT, com o objetivo de assistir os desempregados e de apoiar medidas contra o desemprego. A partir de 1986, passou a ser utilizado como suporte ao pagamento do 124 seguro-desemprego e, mais recentemente, tornou-se, também, um relevante instrumento à reciclagem profissional e à recolocação do trabalhador no mercado de trabalho. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados - CAGED foi criado pela Lei 4.923 de 23/12/1965, quando se instituiu a obrigatoriedade das informações sobre admissões, desligamentos e transferências. Devido à crescente demanda por dados conjunturais do mercado de trabalho e a necessidade do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE de contar com estatísticas mais completas, mais consistentes e mais ágeis, foram implementadas expressivas alterações ao sistema CAGED. Como decorrência dos substanciais avanços, foi construído, a partir de 1983, o índice mensal de emprego, a taxa de rotatividade e a flutuação da mão-de-obra (admitidos / desligados). Os aperfeiçoamentos ocorridos no sistema CAGED e também na metodologia de tratamento dos dados tornaram esse registro administrativo uma das principais fontes de informações estatísticas sobre o mercado de trabalho conjuntural. O CAGED apresenta desagregações em termos geográficos, setoriais e ocupacionais, possibilitando a realização de estudos que indicam as tendências mais atuais. No aspecto conjuntural, é a única fonte de informação com tal nível de desagregação, sendo, portanto, imprescindível a elaboração de diagnósticos acerca das melhores alternativas de investimentos, para estimar o PIB trimestral e para formular previsões do emprego no País. A qualidade das informações captadas pelo CAGED vem apresentando significativa melhora, visto que praticamente 100 % dos estabelecimentos prestam declaração via Internet. Suas principais características são: * Natureza: Registro Administrativo. 125 * Periodicidade: mensal. As declarações de estabelecimentos com movimentação são prestadas até o dia 7 do mês subsequente. * Processamento: essas informações, após processadas, apresentam duas séries distintas: uma, com origem em jan/85 se prolongando até dez/97 e outra com início em jan/92, em nível mais agregado, e desagregado a partir de 1996. * Abrangência: todo o território nacional. * Desagregação geográfica: Brasil, Regiões Naturais, Mesorregiões, Microrregiões, Unidades Federativas e Municipais. * Cobertura: varia de acordo com a área geográfica. A média situa-se em torno de 85% do universo de empregados celetistas. * Principais variáveis investigadas: um conjunto de informações que possibilita o cálculo do índice de emprego, taxa de rotatividade e a flutuação de emprego, desagregados em nível geográfico, setorial e ocupacional. Permite igualmente a obtenção de dados sobre os atributos dos empregados admitidos e desligados: gênero, grau de escolaridade, faixa etária, salários e tempo de emprego. * Número de estabelecimentos declarantes: cerca de 600 mil por mês (fonte: base CAGED Estabelecimento - média dos meses 07/2007 a 07/2008). * Rendimentos: representam os salários de fluxo dos admitidos e desligados, e não da totalidade do estoque de trabalhadores. Correspondem aos salários que constam na Carteira de Trabalho. Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego - MTE 126 Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE) A RAIS é um Registro Administrativo, de periodicidade anual, criada com a finalidade de suprir as necessidades de controle, de estatísticas e de informações às entidades governamentais da área social. Constitui um instrumento imprescindível para o cumprimento das normas legais, como também é de fundamental importância para o acompanhamento e a caracterização do mercado de trabalho formal. A Relação Anual das Informações Sociais - RAIS foi instituída pelo Decreto nº 76.900, de 2 de Dezembro de 1975. Em 14 de dezembro de 2000 foi publicada a Portaria Nº 945, que dispõe sobre normas gerais de declaração da RAIS e recebimento apenas por meios eletrônicos. Originalmente a RAIS foi criada para conter informações destinadas ao controle de entrada da mão-de-obra estrangeira no Brasil e os registros relativos ao FGTS, para subsidiar o controle de arrecadação e concessão de benefícios pelo Ministério da Previdência Social e para servir de base de cálculo do PIS/PASEP. Atualmente, em observância ao dispositivo constitucional, viabiliza a concessão do pagamento do Abono Salarial e se constitui no único instrumento de governo para esse fim. A partir dos anos 90, particularmente após 1994, os dados da RAIS vêm registrando importantes avanços quantitativos e qualitativos, devido a campanhas esclarecedoras, recebimento das declarações via Internet (a partir de 1995) e ao aperfeiçoamento do processo de crítica dos dados. Suas características principais são: * Natureza do levantamento: Registro Administrativo. 127 * Periodicidade: anual. As declarações são prestadas geralmente no período de janeiro a março e referem-se ao ano anterior. * Abrangência geográfica: todo o território nacional. * Desagregação geográfica: Brasil, Regiões Naturais, Mesoregiões, Microregiões, Unidades Federativas e Municipais. * Cobertura: cerca de 97% do universo do mercado formal brasileiro. * Principais variáveis investigadas empregos em 31 de dezembro e admitidos e desligados segundo gênero, faixa etária, grau de escolaridade, tempo de serviço e rendimentos, desagregados em nível ocupacional, geográfico e setorial. Contém informações sobre número de empregos por tamanho de estabelecimento, massa salarial e nacionalidade do empregado. * Número de estabelecimentos declarantes: segundo os dados de 2006, entre os 6,7 milhões de estabelecimentos que declararam a RAIS, cerca de 3,9 milhões correspondem a RAIS Negativa, e 2,8 milhões, a RAIS com vínculos empregatícios. * Rendimentos: representa a remuneração média, em salário mínimo, no período vigente do ano-base, da força de trabalho empregada. Para efeito estatístico, não são consideradas as remunerações referentes ao 13º salário. Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego - MTE