Saber e Uso de Plantas Medicinais em Marudá e na APA AlgodoalMaiandeua
Mauricia Melo Monteiro
Médica, Professora MSc da UEPA1
[email protected]
Márcia Joana Souza Monteiro
Administradora, Mestranda do PPGEDAM/NUMA/UFPA2
[email protected]
Wagner Luiz Ramos Barbosa
Farmacêutico, Professor PhD do NUMA/UFPA3
[email protected]
Resumo
O uso de plantas medicinais como alternativa natural para tratar os processos de adoecimentos é
um conhecimento milenar e mundial, repassado entre as sucessivas gerações pela cultura da
conversa. No Brasil os povos indígenas, à época do descobrimento do Brasil, utilizavam as
plantas medicinais para curar seus processos de adoecimento assim como o colonizador
português também utilizava esta alternativa terapêutica. A utilização deste recurso natural
continua atual e resguarda a identidade cultural das comunidades. Marudá e a APA AlgodoalMaiandeua são locais praieiros do litoral nordeste do Pará, separadas pelo rio Marapanim, que
tiveram como seus primeiros habitantes os índios Tupinambás. Nas duas localidades, além da
similaridade ancestral, foi possível identificar o uso da flora própria de áreas de restinga, comum
em ambas as praias, sob a forma de infusões, unguentos e lambedores para debelar os malefícios
à saúde mais incidentes na população local. As observações e entrevistas revelaram que em
Marudá a experiência do conhecimento terapêutico com o uso de plantas medicinais é centrado,
predominantemente, entre as mulheres pescadoras e erveiras, enquanto que na APA AlgodoalMaiandeua, apesar do predomínio feminino, muitos homens, em especial os com idade mais
avançada, conhecem e utilizam de forma sustentável estes remédios artesanais.
1
Universidade do Estado do Pará - UEPA.
Programa de Pós Graduação em Gestão dos Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia, Núcleo de Meio Ambiente da
Universidade Federal do Pará – PPGEDAM/NUMA/UFPA.
3
Núcleo de Meio Ambiente da Universidade Federal do Pará – NUMA/UFPA.
2
Introdução
O uso dos vegetais pelo homem, remonta à Antiguidade, ocorrendo primeiramente para suprir
necessidades alimentares, entretanto, após observação mais consistente no comportamento dos
outros animais, o humano percebeu as propriedades medicinais de determinadas plantas,
passando a tratar com as ervas medicinais seus processos de adoecimento. Levantamentos
históricos demonstram a presença constante das plantas medicinais, entre os diversos povos, no
processo de cura das doenças. Este saber popular perdura até os dias atuais, resguardadas as
diferentes significações culturais (FIGUEIREDO, 2009).
O Brasil é considerado o país que possui a maior biodiversidade genética vegetal e a floresta
Amazônica guarda em si um número significativo de espécies da flora, possuidoras de
propriedades medicinais (FERNANDES, 1998). O uso das plantas medicinais faz parte da cultura
popular das várias comunidades amazônidas, onde esse recurso da natureza é utilizado na
elaboração de remédios caseiros, retratando um estilo de vida, um conhecimento, como refere
Amoroso (1996), que envolve o mundo vegetal e o homem numa interação que sempre esteve
presente, provendo a manutenção e a resolução de agravos à saúde, tanto nas comunidades
tradicionais como nas populares, como por exemplo, indígenas, ribeirinhos, extrativistas e
pescadores da área litorânea.
O repasse deste saber popular, no decorrer do tempo, entre as diversas gerações, por meio da
vivência e oralidade é uma prática chamada por alguns estudiosos de, cultura das conversas
(MORAES, 2007; OLIVEIRA, 2007), prática esta que é destacada por estes autores como uma
característica de comunicação do homem amazônida. Por meio do repasse e manutenção destes
conhecimentos a utilização de plantas medicinais chega ao Sistema Único de Saúde - SUS, como
resgate do interesse do cidadão por insumos de origem natural, manifestando a participação do
governo por meio da promulgação da Política de Práticas Integrativas e Complementares – PNPIC
e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos – PNPMF (BRASIL, 2006).
É
instigante refletir sobre a convergência destas políticas que têm entre seus objetivos, promover as
práticas tradicionais de uso de plantas medicinais, largamente disseminadas nas comunidades
populares brasileiras (BRASIL, op. cit.).
A construção da legalidade institucional e o reconhecimento da eficácia diagnóstico/terapêutica
das práticas integrativas em saúde possuem uma base social relevante. A institucionalização das
políticas públicas com base nesses saberes é certamente resultante de uma anterioridade
histórico-sanitária que perpassa pela eficácia clínica e sociocultural consubstanciada na tradição,
conforme cita Pimentel (2010). A Medicina complementar, se apresenta como resposta aos limites
e lacunas paradigmáticos observados nos diagnóstico-terapêuticos e políticos da biomedicina
contemporânea. O estímulo ao uso das práticas integrativas potencialmente amplia o pluralismo
médico, na medida em que elas são transportadas para o circuito dos serviços públicos, com
reconhecida legitimidade sanitária.
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS evoca uma “política de
inclusão terapêutica”, aberta a outros saberes e racionalidades, o que favorece a
complementaridade em detrimento da exclusão e amplia a variedade de opções para os cuidados
em saúde com base no pluralismo terapêutico existente entre as diversas etnias que compõem o
povo brasileiro – e todos, em potencial, usuários do SUS – no interior do qual convivem diferentes
modalidades de medicina e crenças.
A população de municípios ribeirinhos e costeiros, no caso da Amazônia, utiliza plantas medicinais
para manter a saúde e curar as doenças. Alguns autores e estudiosos da temática têm levantado
o questionamento de que não é só a tradição o fator responsável por essa cultura, mas, também,
que em função de dificuldades financeiras para adquirir medicamentos alopáticos (sintéticos), o
uso de plantas medicinais se faz, não por ser uma alternativa e sim por ser “a” alternativa (MAIA,
2010; SOUZA, 2011). A concordância parcial com o observado pelos autores supracitados, em
suas dissertações em locais pertencentes à região metropolitana de Belém/Pará, é embasada na
observação das autoras por mais de vinte anos no cotidiano das comunidades de Marudá e da
APA Algodoal-Maiandeua, o que respalda a afirmação de que, muitas vezes, mesmo de posse da
medicação alopática, a opção terapêutica desses atores sociais se faz em favor do remédio
caseiro.
Creditar a escolha do uso do remédio elaborado com planta medicinal à iniquidade do fator
econômico-financeiro é reducionismo (PIMENTEL, 2010), que ignora a escolha individual
construída com base na anterioridade milenar do conhecimento, na vivência norteada pela fé na
porção terapêutica e no prescritor. Na pesquisa realizada foi observado que, tanto em Marudá
como na APA Algodoal-Maiandeua, os componentes fé, espiritualidade e crença foram
enfatizados nas falas e ações dos especialistas tradicionais em plantas medicinais, como
destacado a seguir:
“[...] meus pais e avós se curavam dessas doenças com chás e
ungüentos, eu também vou ficar boa com eles. Eu via minha avó
preparar com todo o cuidado o remédio, fazer mil perguntas e orientar
direitinho como usar; já o doutor mal me olhou e foi logo dizendo pra
eu apanhar os comprimidos na farmácia. Peguei mas não tomei.
Tenho fé não!!” (I. PESCADORA, 2010).
De forma institucionalizada, a perspectiva da introdução do uso de plantas medicinais como opção
terapêutica alternativa, na Atenção Primária à Saúde/Sistema Único de Saúde (SUS) de Marudá e
da APA Algodoal-Maiandeua, mostrou-se apropriado campo de pesquisa nestas comunidades, as
quais são vilas praieiras localizadas no litoral nordeste do Pará. Desta forma, este estudo
considera de grande valia o conhecimento e reconhecimento das espécies vegetais e as
propriedades curativas da flora encontrada na região. Outros aspectos importantes destacados
neste estudo dizem respeito à forma de manuseio e que partes das plantas são utilizadas, assim
como, a semelhança entre o saber e o uso da temática entre estes dois locais, separados pelo rio
Marapanim, que tiveram como primeiros habitantes os índios Tupinambás (FURTADO, 1987).
Desta forma, o intuito maior deste trabalho foi contribuir para a revitalização do uso e valorização
do conhecimento sobre plantas medicinais em Marudá e na APA Algodoal-Maiandeua, com viés
para a autonomia de gênero das mulheres pescadoras-erveiras de Marudá, sistematizando as
informações relativas ao uso e conhecimento de plantas medicinais nas duas localidades e
enfatizando a semelhança ou não das características culturais acerca destes conhecimentos e
práticas. Sugerir a inclusão oficial das plantas medicinais na atenção à saúde das duas
localidades e atentar para o resguardo da preservação do saber, destacando a sustentabilidade,
sem abrir mão das especificidades sociais e culturais locais, foram os objetivos específicos deste
estudo.
Caracterização das áreas estudadas
Distrito pesqueiro de Marudá
Marudá está localizada no litoral do Município de Marapanim. Seu limite ao norte é com a Baía de
Marapanim em direção ao Oceano Atlântico; a leste com a foz do Rio Marapanim; a oeste com o
Igarapé Marudá e ao sul com o Igarapé Samaúma e partes dos terrenos dos povoados de
Bacuriteua, Cafezal e Recreio. Os primeiros habitantes de Marudá foram os índios Tupinambás e
nas primeiras décadas do século passado, esse distrito praieiro recepcionou pescadores
migrantes da zona rural de Marapanim e de outras regiões do estado do Pará, em especial da
região bragantina, atraídos pela pouca densidade demográfica do local e pelas boas perspectivas
pesqueiras (FURTADO, op. cit.).
O advento da construção de estradas e a de venda de loteamentos de terras no local motivou o
crescimento populacional e alavancou o turismo sazonal na região, porém a expansão geográfica
do local se deu de forma desordenada, conforme cita Potiguar Júnior (2000). Hoje, o acesso
usual à Marudá é via terrestre, entretanto, nas décadas de 1930 e 1940 a rota marítima era a mais
frequente, aportando vários pescadores de diversas áreas. A via marítima continua sendo o mais
presente nas idas e vindas dos pescadores na atividade pesqueira na região.
O ofício de pescador artesanal é o mais usual entre os homens da comunidade. Ainda hoje,
apesar da precarização que vem sofrendo a atividade pesqueira artesanal na última década, a
principal fonte econômica é a pesca de subsistência. Os nativos de Marudá, idênticos aos de
outras localidades da Zona do Salgado mostram-se estruturados como uma organização social
que depende de forma decisiva dos recursos marinhos (FURTADO, 1987, COELHO-FERREIRA,
2002). Como não são possuidores dos modernos apetrechos tecnológicos empregados na
atividade pesqueira, são chamados de pescadores artesanais, (MALDONADO, 1986), mas os
naturais de Marudá preferem ser tratados apenas por pescadores.
Os pescadores nativos têm observado que “os peixes estão indo embora de Marudá” e fazendo o
diagnóstico, apontam o uso inadequado de técnicas de pesca, como a de curral, e o barulho
constante do barco pô-pô-pô -embarcação marítima de pequeno porte que transporta turistas para
a ilha de Algodoal, situada em frente à Marudá- como os elementos causadores da crescente
diminuição da captura de peixes na região.
Na organização familiar a mulher marudaense além do ofício de pescadora - na maioria das vezes
como cooperadora do marido/companheiro - desenvolve ações complementares da renda familiar
como a produção de remédios caseiros a partir do conhecimento adquirido com seus ancestrais.
Sem deixar de serem pescadoras, as mulheres se reuniram em um grupo e se tornaram
especialistas tradicionais, denominação conferida aos que cultivam saberes culturais que fazem
parte da tradição de uma determinada comunidade, no caso específico, a especialidade delas é
concentrada no manejo, conhecimento e produção de remédios com plantas medicinais
(OMS,1978).
Em mais de quinze anos de produção o grupo continua sendo exclusivamente feminino e possui
além do laboratório onde há uma organização no processo de produção dos remédios, com um
local adequado dentro dos padrões da Vigilância Sanitária, um horto medicinal para cultivo de
algumas das plantas medicinais que utiliza na produção dos seus remédios. Uma pequena loja,
mantida pelas pescadoras-erveiras comercializa as garrafadas, tinturas, xaropes e pomadas, para
um público fiel que é formado por nativos, veranistas e visitantes ocasionais de Marudá.
As formulações dos remédios produzidos artesanalmente tem origem na sabedoria popular das
mulheres que recuperaram em suas memórias, o conhecimento tradicional deixado por seus
antepassados. As receitas foram testadas por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi e
pelo Laboratório de Etnofarmácia, vinculado ao Núcleo de Meio Ambiente da Universidade
Federal do Pará (LAEF/NUMA/UFPA) e as erveiras também participaram de processos formativos
com lideranças da Pastoral da Saúde.
APA Algodoal-Maiandeua
A Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua foi criada por meio da Lei Estadual nº 5.621,
de 27 de novembro de 1990 e segundo a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) é constituída por duas ilhas denominadas Algodoal e Maiandeua, subordinadas
administrativamente ao Município de Maracanã e a Secretária Estadual de Meio Ambiente –
SEMA/PA. Porém, as comunidades residentes na área consideram que seja apenas uma ilha,
denominada Maiandeua, sendo a principal vila chamada de Algodoal. O motivo pelo qual são
consideradas duas ilhas fundamenta-se, no entanto, por uma separação da área física ocasionada
pelo “Furo Velho”, um furo intermitente assim denominado (LOBATO, 1999).
A área em epígrafe situa-se no litoral nordeste do Estado do Pará, na microrregião do Salgado
entre as coordenadas geográficas aproximadas de 00º 34’ 45’’ a 00º 37’ 30” de Latitude Sul e 47º
32’ 05’’ a 47º 34’ 12” de Longitude (W.Gr.); limita-se com o oceano Atlântico ao Norte, com o furo
do Mocooca ao Sul, com o rio Maracanã a Leste e com o rio Marapanim a Oeste (SANTOS,
1996). Abrange uma área de 2.378 ha, sendo 385 ha da ilha de Algodoal, contendo a vila de
Algodoal, a praia da Princesa e uma área com mangues, restingas e dunas; e 1.993 ha da ilha de
Maiandeua, onde se localizam os vilarejos de Fortalezinha, Mocoóca e Camboinha e as
localidades de Camaleão, Passagem e Pedra Chorona, assim como, praias e uma vasta área de
mangue, além de áreas de terra firme com vegetação alterada (LOBATO, 1999).
A APA Algodoal-Maiandeua é reconhecida pelas riquezas cênicas da biodiversidade que a
caracteriza. Mãe da Terra é a tradução para o idioma português e/ou significado do seu nome de
origem indígena Tupi. Nem tanto reconhecida, mas igualmente surpreendente e ainda muito
marcada pelo imaginário regulador das relações entre o homem e o mundo natural é a riqueza e a
singularidade de sua diversidade cultural. Reúne uma população em processo ativo de articulação
e organização social, ambiente natural extraordinário e patrimônio cultural fortemente influenciado
pelas relações com a natureza, que viabilizam a convivência saudável entre as comunidades
humanas e naturais ali existentes (MONTEIRO, 2007).
As comunidades caboclas que concedem identidade à Maiandeua mantêm, em parte,
remanescentes de traços culturais originados de uma miscigenação entre índios, colonizadores
europeus e negros africanos. Possuem características próprias, dentre as quais se destacam,
basicamente, a associação entre o extrativismo, a pesca e a agricultura; as relações sociais
baseadas no senso de confiança; e a reciprocidade da vida cotidiana.
A proximidade com o centro urbano de Belém e a crescente visitação por turistas na região, nas
últimas décadas, fez com que alguns costumes externos fossem inseridos na cultura da
população local, principalmente na vila de Algodoal que, sob esta influência, deixou de ser
essencialmente de pescadores artesanais. Todavia, a forma pela qual os homens participam de
qualquer meio ambiente, depende não apenas da estrutura e composição do ecossistema. A este
respeito Shapiro (1982) ressalta que depende, também, da bagagem cultural dos que entram nele,
daquilo que eles e seus descendentes recebem e, em seguida, por difusão ou por invenção
própria frente às exigências externas impostas à população local que passa a perceber
necessidades, cuja satisfação tem de procurar externamente.
A pesca artesanal desenha uma das fortes características da identidade e cultura local. Mais que
uma atividade de subsistência e principal fonte de proteínas na alimentação da população, esta
atividade faz parte da vivência das comunidades maiandeuenses e construiu, ao longo do tempo,
sociedades grupais que durante muitas gerações tiram do mar o alimento de forma sustentável.
Todavia, os avanços da tecnologia, de fibras sintéticas como o nylon e a evolução das
embarcações que praticam a pesca de arrasto, representaram o declínio na produção artesanal
de pescado na ilha de Maiandeua. Atualmente, a cultura da pesca tradicional sobrevive com
dificuldade, sendo realizada com mais frequência a pescaria de curral, a qual subsidia a fonte
proteica da maioria da população da área, com variadas espécies de pescado.
Cultivada e transmitida há várias gerações, outra característica marcante das comunidades da
APA Algodoal-Maiandeua é que, unanimemente, mantêm os etnoconhecimentos e uso de plantas
medicinais. Além do reconhecimento do vegetal, indicação de uso, preparação e administração
dos remédios elaborados a partir das plantas, guardam também o conhecimento étnico que diz
respeito à identificação de quais plantas devem ser usadas para um específico tratamento, o qual
é igualmente identificado por meio de determinados sinais/sintomas de adoecimento.
É importante ressaltar que, apesar de grande parte da população da ilha possuir tais
conhecimentos, há uma “especialização” relativa a eles que apenas poucas pessoas detêm, em
toda a área que constitui Maiandeua. Estes especialistas prestam ampla contribuição para as
comunidades, pois, mesmo que morem em comunidades diferentes da pessoa que necessita de
tratamento, eles são consultados por um parente ou alguém da comunidade que repassa as
recomendações.
Neste sentido,
observou-se que parteiras, puxadeiras,
curandeiros
e
benzedores/rezadores são especialidades da tradição que, ainda hoje, se faz presente nos
costumes e práticas das comunidades da ilha de Maiandeua.
Procedimentos metodológicos
Com base nos ensinamentos de Haguette (2005), a temática foi pesquisada com a utilização do
método qualitativo, sendo utilizado, nos diversos momentos da consecução do trabalho,
entrevistas
semiestruturadas,
rodas
de
conversa
e
observação
participante,
que
se
desenvolveram no decurso de dois anos. Desta forma, buscou-se uma maior aproximação com a
realidade das comunidades estudadas, pois, como afirma Haguette (op. cit.), na busca de
conhecimento sobre o homem e sua vida se deve adotar uma metodologia informada por uma
teoria sobre a própria natureza deste homem, capaz de contribuir na formulação das categorias
subjetivas da teoria sociológica como justiça, confiança, liberdade, comunidade e propósito,
aspectos estes essenciais para a natureza da sociedade.
Para o estudo sobre o conhecimento e uso das plantas medicinais, junto às comunidades da ilha
de Maiandeua e Marudá, não coube aplicar esquemas importados dos procedimentos científicos,
já que o respeito pela natureza do objeto pesquisado é requisito fundamental em uma ciência
empírica. Para tanto, o método da observação participante mostrou-se especialmente adequado
ao estudo realizado, já que implicou na participação do observador/pesquisador, efetivamente,
como o próprio termo indica. Nesta direção, Haguete (op. cit.) assinala que para que se descubra
o sentido que as coisas têm para a ação humana, a observação participante é a mais apropriada
para fazê-lo.
É pertinente sublinhar que a observação participante não se concretizou meramente pela
participação, mas pelo compartilhar sistemático e consciente nas atividades tradicionais das
populações da APA Algodoal-Maiandeua e Marudá e nos seus interesses e afetos. Um
compartilhar com os processos subjetivos que se desenvolvem na vida diária dos moradores e
das comunidades e não, apenas, com as atividades externas.
Um compartilhar em caminhadas pelas trilhas de acesso aos vilarejos, um compartilhar nas
viagens de uma comunidade à outra, somando conhecimentos nas mais diversas interações.
Assim, esta técnica se apresentou como a melhor forma de captar o sentido encoberto da ação
humana e, como observa Haguette (2005, p. 74), “[...] envolve também o pressuposto de que a
sociedade é construída a partir do processo interativo de indivíduos e grupos que agem em função
dos sentidos que o mundo circundante representa para eles”. Portanto, a observação participante
foi a técnica que se fundamentou e se justificou, especialmente, para o que se pretendeu neste
trabalho.
A nuance farmacêutica e os saberes e práticas relativos ao uso de plantas medicinais, aspecto
cultural fortemente enraizado nas comunidades estudadas, patenteou relacionar o presente
estudo com a etnografia, “utilizando-se do levantamento etnofarmacêutico”. Tomando André
(2003) como suporte, afirma-se que os dados coletados na pesquisa etnográfica estão afeitos a
valores, hábitos, crenças, práticas e comportamentos de grupos sociais com limites bem definidos,
estruturados, comunitários, representativos e atentos ao seu contexto e às suas inter-relações.
Logo, corrobora-se com o significado que, etimologicamente, designa etnografia: descrição
cultural, termo este que foi desenvolvido pelos antropólogos sociais e se conceitua como o estudo
da cultura das comunidades.
Neste sentido, o cerne da pesquisa etnográfica é dar conta do que está ocorrendo e como está
evoluindo a comunidade estudada, concedendo representatividade às pesquisas que partem do
“conhecimento ethno” (ANDRÉ, 1984). Portanto, a partir desta conceituação e dos trabalhos
produzidos no LAEF compactua-se com Monteiro (2011) ao considerar que o levantamento
etnofarmacêutico seja exemplo prático de pesquisa etnográfica. Igualmente, percebe-se o
germinar de uma tecnologia social na Amazônia, uma metodologia de cunho ethno e
farmacêutico, a “etnofarmácia”, a qual é uma construção interdisciplinar, evidenciada nas
produções de Barbosa (1998 e 2009) e nos projetos de pesquisas de mestrado vivenciados por
Maia (2010), Sousa (2011) e Monteiro (op. cit.).
Pesquisas bibliográficas também foram efetuadas, com o intuito de levantar as espécies
medicinais já catalogadas em pesquisas anteriores. Procurou-se, também, identificar as já
catalogadas na Ilha de Maiandeua e, com os dados capturados por meio da observação
participante e entrevistas, verificou-se a existência das mesmas e de outras que por algum motivo
não tinham sido catalogadas ainda. Em seguida, realizou-se a sistematização das espécies mais
utilizadas que, para este momento, se apresentam as dez mais citadas nas duas localidades.
Um todo dinâmico do saber e fazer nas práticas de cura
Em todo o planeta, os diversos grupos humanos sociais organizam seus espaços de vivência
através de maneiras próprias de representar, interpretar e agir na natureza. Observou-se que a
população das duas localidades estudadas preserva, ainda fortemente, os conhecimentos acerca
dos usos de plantas medicinais. Contudo, ao buscar satisfazer suas necessidades, a primeira
atitude diz respeito à produção de meios que possibilitem satisfazê-las para depois definir a forma
de vida, baseados no mundo de ideias que construíram, diferenciando um grupo social do outro
(MARX; ENGELS, 1984). Desse modo, em cada lugar surgem configurações espaciais, ou seja,
estruturas espaciais que são produzidas socialmente de acordo com o estilo de vida de cada
grupo.
Considerando o aspecto sociocultural foi observado, no presente estudo, semelhanças
significativas na forma de colheita das diversas partes das plantas no que concerne a crenças e
tradições da cultura local (horário, posição do sol, período do ano, estado gravídico e menstrual da
mulher erveira/coletadora), assim como, o modo de preparo dos remédios caseiros (chás,
decocos, lambedores, unguentos, emplastos, gargarejos, tinturas) e as indicações terapêuticas de
uso nas localidades estudadas. Esta similitude constatada é reforçada pelos trabalhos de CoelhoFerreira (2002) e Roma (2001).
Apesar de similaridades geográficas, físicas e até mesmo culturais, percebeu-se e constatou-se
que há diversidades entre as duas localidades que vão além da jurisprudência territorial, já que
são subordinadas administrativamente por diferentes poderes municipais. O conhecimento e uso
de plantas medicinais nas duas localidades levam a acreditar, em um primeiro momento, que são
iguais pelo fato das espécies usadas serem, basicamente, as mesmas. Contudo, em uma
observação mais aprofundada, três pontos de diferenciação ficam evidentes: na APA AlgodoalMaiandeua há uma variedade muito maior de espécies da flora que são utilizadas nos processos
de adoecimento e cura, pela população local; em Marudá a prática relativa ao conhecimento e uso
de plantas medicinais está concentrada essencialmente em um grupo de mulheres, nomeado de
Erva-vida; e apenas duas espécies coincidem dentre as dez mais citadas nas duas localidades.
Neste sentido, cada local possui características específicas que desenham sua feição, fazendo
emergir paisagens diversificadas cuja aparência é resultante do jogo de forças externa e interna
da sociedade que o habita, uma vez que é ela quem determina a construção da identidade do
lugar (RODRIGUES, 2003). Castells (1999) enfatiza o exposto quando menciona que é pela
constatação por alguns autores restinga (AMARAL et al., 2009; BASTOS, 1996; BASTOS;
ROSÁRIO; LOBATO, 1995; BASTOS, 1988), que a consideram como uma das áreas oceânicas
protegidas com maior ocorrência e diversidade de espécies da flora características de restinga.
Desta forma, fazendo um comparativo entre as duas localidades focadas para este trabalho, APA
Algodoal-Maiandeua e Distrito Pesqueiro de Marudá, fica evidente que a diversidade biológica e
cultural se manifesta, notoriamente, em áreas contíguas.
Na seleção das dez espécies medicinais com maior ocorrência de uso foram elaboradas as
relações das duas localidades (tabelas 1 e 2), por meio das quais se constatou que apenas duas
destas espécies se assemelham, não somente por estarem entre as mais utilizadas nas duas
localidades, mas também, nas partes das plantas utilizadas e quanto à finalidade de uso. A partir
desta constatação uma nova relação foi elaborada (quadro 1) para que, visualmente, se observe
as diferenças e similaridades encontradas.
Tabela 1 - As dez plantas medicinais mais citadas na APA Algodoal-Maiandeua
Planta medicinal
Nome científico
Nº de citações
Jucá
Caesalpinia ferrea M.
84
Verônica
Dalbergia monetária L.
75
Manjericão
Ocimum basilicum L.
69
Mastruz
Chenopodium ambrosioides L.
68
Sucuuba
Himatanthus sucuuba Woodson
64
Erva cidreira
Melissa officinales L.
52
Hortelã da folha grande
Menta sp.
50
Boldo
Vemonia condensata Backer
47
Barbatimão
Stryphnodendron barbatiman Mart.
44
Anador
Justicia pectoralis
39
Tabela 2 – As dez plantas medicinais mais citadas em Marudá
Planta medicinal
Algodão
Nome científico
Gossypium hirsutum L.
Nº de citações
14
Jucá
Caesalpinia ferrea M.
12
Pariri
Arrabidaea chica Verlot
12
Gengibre
Zingiber officinale Rosc.
10
Pirarucu
Kalanchoe pinnata (Lam.)
09
Quebra Pedra
Phyllanthus niruri
09
Boldinho
Plectranthus barbatus
07
Andiroba
Carapa guianense Aubi.
07
Hortelã da folha grande
Menta sp.
07
Babosa
Aloe arborecens Mill; A. vera
06
QUADRO 1 - CLASSIFICAÇÃO DAS PLANTAS MEDICINAIS MAIS CITADAS NAS DUAS
LOCALIDADES ESTUDADAS
Local
M
A
R
U
D
Á
M
A
I
A
N
D
E
U
A
Planta
Parte usada
Modo de uso
Indicação popular
Algodão
Folhas
Chá, sumo
Jucá
Folhas/baga
Chá/maceração
Infecção respiratória/dor no
ouvido
Infecção/anemia
Pariri
Folhas
Chá
Anemia/cólicas menstruais
Gengibre
Raiz
Sumo
Náuseas/infecção respiratória
Pirarucu
Folhas
Chá, sumo
Gastrite/anti-inflamatório
Quebra
pedra
Boldinho
(Chile)
Andiroba
Raiz
Chá
Pedra nos rins
Folhas
Chá
Dor no estomago/fígado
Óleo
Uso externo
Inchaços externos
Hortelã
(folha
grande)
Goiabeira
Folhas
Chá
Diarreia/verminose
Grelo
Chá
Diarreia
Jucá
Folhas/baga
Chá/maceração
Infecção/anemia
Verônica
Casca/entrecasca
Chá
Manjericão
Folhas/galhos
Mastruz
Folhas
Chá/macerado para
banho
Sumo/suco/maceração
Sucuuba
Casca/leite
Chá/tomar o leite
Erva cidreira
Folhas/galhos
Chá
Hortelã (folha
grande)
Boldo (folha
grande)
Barbatimão
Folhas
Chá
Anemia/cicatrização/inflamação
no útero/corrimento
Tosse/gripe/inflamação/dor no
dente/dor de cabeça
Inflamação/baque/tosse/verme/
corrimento vaginal/pulmão/dor
no peito
Dor no peito/asseio
vaginal/cicatrização/inflamação
Calmante/tosse/gripe/dor de
cabeça/cólica
Diarreia/verminose
Folhas
Chá
Fígado/estômago/acidez
Casca/entrecasca
Chá/banho de assento
Anador
Folhas
Chá
Inflamação/controlar a
menstruação/diarreia
Dores (cabeça, ouvido, corpo)
Observa-se que a Menta sp. e Caesalpinia ferrea M. são espécies de uso comum nas localidades
em epígrafe, considerando as dez mais citadas. Ainda assim, há uma utilização mais ampla do
jucá (Caesalpinia ferrea M.) pela população da ilha de Maiandeua, já que se constatou por meio
das entrevistas que esta é a espécie de maior utilização. Em Marudá, esta mesma espécie
apresenta-se como a segunda mais utilizada pelo grupo Erva-vida. Quanto a espécie hortelã da
folha grande (Menta sp.) existe uma distância ainda maior percebida no patamar de utilização das
duas localidades, para a qual o uso é muito mais frequente pelos moradores da APA AlgodoalMaiandeua, que a citaram como a sétima espécie da flora medicinal mais utilizada, enquanto no
Distrito Pesqueiro de Marudá esta droga vegetal aparece como a nona opção entre as dez.
A questão de gênero transformando pescadoras em erveiras
Em Marudá, como na maioria das comunidades de pescadores, na questão referente à divisão de
trabalho, a figura masculina assume o papel de mantenedor da família, conforme estudo em
comunidades pesqueiras realizado por Simonian (2006), que refere que todas as atividades
ligadas à pesca na parte aquática e algumas realizadas “em terra”, como eventuais consertos das
redes de pescar são também praticados pelas mulheres, mas, não são computados e valorizados.
Autores como Muraro (1995), referem quer ainda hoje prevalece nos grupos sociais familiares
uma postura organizacional baseada no patriarcado. Nas comunidades de menor contingente
populacional, as mulheres, mesmo que exerçam atividades laborais idênticas ou de maior
destaque que a dos homens, ainda são vistas como meras coadjuvantes no grupamento social
família (SIMONIAN, 2005).
Essa reflexão encontra ressonância no observado por Maneschy (1995) sobre a atividade
feminina na região bragantina, a qual compõe, também, a área pesqueira do nordeste do Pará,
onde ficou enfatizado serem as tarefas conhecidas como “cuidados do lar” como as
preferencialmente citadas, a despeito de ajudarem seus maridos no ofício da pesca.
A situação vivenciada pelas mulheres marudaenses, pescadoras em sua grande maioria,
invisíveis e não reconhecidas neste ofício por seus companheiros, sofreu um processo de
mutação que se relaciona diretamente com a escassez progressiva da captura do pescado,
observada há quase duas décadas na comunidade pesqueira de Marudá. A evidente e crescente
dificuldade para o homem cumprir com a “obrigação” de trazer o alimento para o lar -a maioria era
filho de pescador, aprendera o ofício acompanhando o pai desde criança e poucos sabiam fazer
algo além de pescar- redundou em oportunidade para que a mulher passasse a exercer outras
atividades, mesmo que fora do lar, objetivando angariar recursos para alimentar a si e a prole.
Essa alteração nos papéis da organização familiar tradicional dos pescadores, até então
hegemônica, conforme refere Alencar (1997), foi passível de ser observado no distrito pesqueiro
de Marudá, com a mulher pescadora local apresentando um novo comportamento, refletido no
processo de transformação do trabalho, no caso específico da formação do grupo feminino Erva
Vida, a partir do acréscimo da função de erveira, considerando que detinham este saber
tradicional sobre o poder curativo das plantas medicinais, adquirido com seus ancestrais por meio
da oralidade, da vivência e da cultura de conversas (MORAES, 2007).
O uso do saber popular sobre plantas medicinais como remédio, de forma fragmentária e voltada
exclusivamente para os familiares e vizinhos do entorno de suas casas, acabou alterando a rotina
dessas pescadoras-erveiras e provendo mobilidade social motivada pelas contingências sociais e
econômicas dessas mulheres. Trabalhando em grupo, as componentes do Erva Vida foram
paulatinamente se transmudando de pescadoras em erveiras, mudança que acenaram desde o
início com quebras de paradigmas familiares e com perspectivas de ocupação e renda. Em
Marudá o conhecimento e trabalho com plantas medicinais é feito exclusivamente pelo gênero
feminino.
Na APA Algodoal-Maiandeua foi observado um comportamento diferenciado com relação ao saber
e uso das plantas medicinais como remédio. Primeiramente, não foi percebida a formação de uma
associação ou grupamento de especialistas neste saber, apesar do significativo número de
conhecedores e prescritores de remédios elaborados com plantas medicinais. Outro fato a se
destacar é que esta cultura, na APA, é difundida indistintamente entre os gêneros, sendo
encontrado tanto homens como mulheres detentores do saber e que o propagam entre os
comunitários.
A diversidade constatada entre os dois locais estudados, no que concerne a postura dos gêneros
na condução do uso e propagação de um saber cultural, aponta para a validade do trabalho em
grupo como elemento motriz para propiciar vantagens coletivas. Por conseguinte, a diversificação
do conhecimento entre os gêneros fortifica a atividade laboral e multiplica o contingente de
conhecedores deste saber.
Considerações finais
Compartilhar com o dia-a-dia dos comunitários, nas duas localidades, significou fazer parte de
rodas de conversas (TEIXEIRA, 2008) com senhoras e senhores que preparam seus remédios
para tratar dos problemas de saúde que os comunitários enfrentam com o avançar da idade,
principalmente. Senhoras e senhores de diferentes faixas etárias, especialmente aquelas pessoas
de sessenta, oitenta, noventa anos de idade ou mais que, em suas lúcidas declarações, se
ressentem pelo fato das pessoas mais jovens das comunidades não darem a importância devida
ao cultivo e preservação, não apenas das espécies medicinais, mas, também, dos conhecimentos
e práticas acerca do preparo destas plantas para remediar seus males.
O dia a dia da pesquisa, dos contatos e da vivência ensejou validar a importância que o
conhecimento ancestral sobre plantas medicinais propiciou às mulheres erveiras de Marudá,
outrora pescadoras sem visibilidade. De mulheres cerceadas em seus direitos e anseios, emergiu
guerreiras dispostas a se sentirem parte, terem voz, realizarem e serem reconhecidas. Autonomia
foi a consequência natural e hoje o objeto de preocupação em Marudá, assim como na APA
social, ambiental, cultural, espiritual, ético e político, ou seja, o desenvolvimento em escala
humana. Neste contexto, o conhecimento local e tradicional de uma dada comunidade aparece
como condição essencial, uma vez que materializa certas articulações essenciais entre memória,
identidade e participação coletiva (MONTEIRO; NÓBREGA, 2008). Em se tratando de sociedades
tradicionais, os conhecimentos, ou seja, a história e memória podem conduzir ao pertencimento e
ao desenvolvimento social, político e humano de comunidades relegadas ao descaso por parte
das políticas públicas nacionais, regionais ou locais.
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