ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA
Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo– Julho/2012
POR UMA POÉTICA DE AUDIODESCRIÇÃO: (RE)CRIAR, MEDIAR E COMUNICAR
IMAGENS DE DANÇA PARA ESPECTADORES CEGOS
Ana Clara Santos Oliveira (UFBA)
Ana Clara Santos Oliveira, Possui Graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade
Estadual de Santa Cruz UESC (2009), especialização em Saúde Mental pela UESC (2011) e é
mestranda em Dança no Programa de Pós-Graduação em Dança da UFBA (2011) e Bolsista CAPES.
Integrante do Grupo de Extensão Acessibilidade em Trânsito Poético e Grupo de Pesquisa Poética da
Diferença, coordenado pela Profa. Dra. Fátima Campos Daltro de Castro na Escola de Dança UFBA.
Membro do Grupo de Pesquisa TRAMAD (Tradução, Mídia e Audiodescrição) coordenado pela Profa.
Dra. Eliana Paes Cardoso Franco. Bailarina. Professora e coreógrafa de danças árabes. E-mail:
[email protected] e [email protected]
Resumo
Este artigo pretende propor uma Poética de Audiodescrição, comoum modo de
tradução no sentido de poder (re)criar, mediar e comunicar imagens de espetáculos de
dança alicerçado nos processos tradutórios de Haroldo de Campos, Christine Greiner &
Helena Katz, Lakoff & Johnson e, nos pensamentos sobre imagem do neurocientista
Antônio Damásio, ressaltando desse modo a perspectiva de percepção do filósofo Alva
Nöe para compreender finalmente, a ideia de que essa Poética possibilita percepções
dos espectadores cegos a partir do que se seleciona para a construção do roteiro
descritivo. Para tanto, a Poética de Audiodescrição entendida aqui, se faz
experienciada no fazer artístico metaforizando o que se passa nas cenas a fim de que
as informações-chave transmitidas visualmente não passem despercebidas e possam
ser acessadas, o que resulta e instaura em novas possibilidades de pensar em dança.
Palavras-chave: Poética de Audiodescrição, Tradução, Imagem de Dança, Percepção.
FORANAUDIO DESCRIPTIONOF THEPOETIC: (RE)CREATE, MEDIATE AND
COMMUNICATEIMAGES OFDANCE FORBLINDVIEWERS
Abstract
This article intends to propose a Poetics of audio description as a translation mode in
the sense of (re)creating, mediating and communicating images of dance spectacles
based on the translation processes proposed by Haroldo de Campos, Christine Greiner
&Katz, Lakoff & Johnson, and the image concept by neuroscientist Antônio Damásio,
thus emphasizing the perception perspective of the philosopher Alva Nöet o finally
understand he idea that such Poetics enables the blind audience to build its perception
through what is selected in order to make the script for the description. In this regard,
the Poetics of audio description here understood is experienced within the artistic
practice, metaphorising the action of each scene to ensure that the key visual
information can be accessed, which results in a new way of understanding dance.
Keywords: Poetics of Audiodescription, Translation, Dance Image, Perception.
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Introdução
Este lugar é uma maravilha. Mas como é que faz pra sair da ilha? Pela
ponte, pela ponte. A ponte não é de concreto, não é de ferro. Não é de
cimento. A ponte é até onde vai o meu pensamento. A ponte não é para
ir nem pra voltar. A ponte é somente pra atravessar. Caminhar sobre as
águas desse momento. A ponte nem tem que sair do lugar. Aponte pra
onde quiser. (LENINE, 1997, A Ponte).
Ao propor uma Poética de Audiodescrição como um modo de tradução no
sentido de poder (re)criar, mediar e comunicar imagens de dança, deparei-me com a
canção “A Ponte” de Lenine, a qual me levou a pensar sobre a ideia da ponte, um lugar
do entre. Navegando ainda na canção, para sair da ilha, da zona de conforto, para não
cair no aprisionamento, é preciso compreender um local que não seja impermeável às
questões do mundo, faz-se necessário se mover e criar conexões, as pontes.
Adentrando mais, recordo de um vídeo da Christine Greiner 1 onde relata sobre a
mediação como possibilidade de criar pontes, deslocar abrindo o espaço comunicativo,
o “No Entre Lugar” que nos faz deslocar mesmo quando estamos parados. Permita-se
entender aqui a leitura da canção com este olhar, compreendendo a audiodescrição
como uma mediação, ocupando o entre lugar para que a comunicação aconteça.
Partindo desses pressupostos, nasce o artigo a partir dos estudos em
desenvolvimento da minha Pesquisa em Audiodescrição de Dança, onde percebi a
necessidade de abordar uma Poética de Audiodescrição com entendimentos que
provocam a noção de imparcialidade, da não interpretação embutida ainda nesse
campo. Para proferir sobre este aspecto, é interessante destacar que na
audiodescrição existem normas como americana, inglesa, espanhola e alemã que
surgiram na tentativa de estabelecer requisitos básicos para elaboração de roteiros,
sendo um ponto em comum a não interpretação, contudo quando percebemos algo já
estamos realizando o processo interpretativo, de tradução.
Dentro da abordagem do poeta, tradutor, ensaísta e semioticista Haroldo de
Campos, cujo pensamento desenvolvido foi “traduzir” como sendo “transcriar”, fica
evidente que ao traduzir recriamos porque somos seres de linguagem.
1
Vídeo Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=6GpYNNDm3_o>. Acesso em 22 jan. 2012.
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Campos 2 (1970 apud VIEIRA, 2006), “admitida a tese da impossibilidade em princípio
da tradução de textos criativos […] para nós, tradução de textos criativos será sempre
recriação, ou criação paralela, autônoma porém recíproca”.
Corroborando mais com o artigo, as formas pelas quais realizo uma
audiodescrição (o que medio, seleciono, escolho está intimamente relacionado com
minha percepção, experiência, ou seja, está carregado de mim), dependem das
maneiras de como percebo as movimentações ao redor, do lugar onde estou e do meu
exercício de deslocamentos para criar roteiros e comunicar.
A noção de imparcialidade e da não interpretação fica inviável, não cabe nesse
sentido, pois quando audiodescrevo estou ao mesmo passo sendo a bailarina, a
intérprete e a tradutora, apesar da função de tradução estar mais em evidência neste
papel, assim, é de grande relevância alguns esclarecimentos quanto a isso: não se
deve interpretar as cenas, no sentido de analisar para a pessoa cega, cabe a ela a
análise dos fatos, o audiodescritor deve realizar o processo de tradução sem explicar
e/ou atribuir comentários impondo suas reflexões. Interpretações de expressões óbvias
e explícitas, como por exemplo, “o dançarino chora” diferentemente de falar “o
dançarino chora porque...”, este é o nível de interpretação os quais as normas
estabelecem como um erro.
Este artigo tem como objetivo através de um entendimento e reflexão, propor
essa Poética de Audiodescrição, comoum modo de tradução no sentido de poder
(re)criar, mediar e comunicar imagens de espetáculos de dança alicerçado sob os
processos tradutórios de Haroldo de Campos, Christine Greiner &Helena Katz, Lakoff &
Johnson e, dos pensamentos de imagem do neurocientista Antônio Damásio,
ressaltando dessa maneira, a perspectiva de percepção do filósofo Alva Nöe para
compreender finalmente, a ideia de que essa Poética possibilita percepções dos
espectadores cegos a partir do que se seleciona para a construção do roteiro
descritivo.
Ainda, a Poética de Audiodescrição entendida aqui, se faz experienciada no
fazer artístico metaforizando o que se passa nas cenas a fim de que as informações-
2
CAMPOS, H.de. Da tradução como criação e como crítica. Metalinguagem. Petrópolis: Vozes, 1970. p.
21-38.
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chave transmitidas visualmente não passem despercebidas e possam ser acessadas.
É sábido que Lakoff & Johnson, com o livro Metáforas da Vida Cotidiana, relatam que
as metáforas fazem parte da linguagem cotidiana, são processos tradutórios mediados
pelo aparelho sensório-motor, possuem valor cognitivo e estão relacionadas ao nosso
processo de conceptualização do mundo, não sendo apenas um recurso poético ou
linguístico, mas também uma estratégia cognitiva de relacionarmos com o ambiente.
Segundo os autores “a metáfora é, pois, uma operação cognitiva fundamental que
consiste em compreender e experienciar uma coisa em termos de outra”.(LAKOFF;
JOHNSON, 2002, p. 48).
Além disso, o artigo propõe refletir sobre uma poética que se vale das Ciências
Cognitivas e Semiótica compartilhando informações que contribuam na área da dança
e ampliando a questão da audiodescrição como nova possibilidade de pensar em
dança.
Falando do “Entre Lugar”: Audiodescrição: contexto e possibilidades
Audiodescrever
é
uma
atividade
linguística,
modalidade
de
tradução
intersemiótica onde a linguagem visual (imagem) é transformada em linguagem verbal
(texto), ampliando as possibilidades de acesso da pessoa cega à cultura e a outros
produtos. Sob essa perspectiva,
No meio da audiovisual, a audiodescrição (AD) objetiva, através da
descrição acústica de imagens, o acesso de pessoas cegas a produtos
educativos e culturais que se valem em grande parte da narrativa visual
[...]. Ela pode ser pré-gravada, realizada ao vivo (peças de teatro,
performance, espetáculo de dança) ou simultaneamente (notícias de
uma hora, programas ao vivo, etc.) (FRANCO, 2010, p. 1).
Na verdade, a prática de descrever o mundo visual para pessoas cegas sempre
ocorreu através de familiares e outros, é imemorial. Contudo, enquanto atividade, a AD
assim chamada nasceu 3 em meados da década de 70 nos Estados Unidos, a partir das
ideias desenvolvidas por Gregory Frazier em sua tese “Master of Arts” da Universidade
de São Francisco – EUA, onde pela primeira vez o termo “audiodescrição” foi utilizado.
3
Dados retirados da apostila do curso Formação em Audiodescrição: Roteiro e Produção em 2011, da
Fundação Dorina Nowill para Cegos, curso este o qual participei coordenado por Viviane Sarraf.
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Margaret Rockwell e Cody Pfanstiehl foram responsáveis pela AD de Major Barbara,
peça exibida no Arena Stage Theater em Washington DC em 1981, a qual a AD
obteve seu maior reconhecimento. A partir desse grande trabalho, cinema, teatro,
emissoras de TV, exposições em museus, desfiles de moda, entre outros produtos,
foram sendo audiodescritos.
Neste contexto, leis de acessibilidade a produtos artístico-culturais foram
criadas, inclusive com a organização de movimento de pessoas com deficiência visual
com o intuito de promover toda uma ação política enredada no processo. No Brasil,
isso ainda não se configurou tanto, estamos do mesmo modo que outros países
caminhando para o maior reconhecimento e fortalecimento da AD como tradução e
como possibilidades de linguagens.
Desde a promulgação da lei 10.098 (BRASIL, 2000), regulamentada
pelo Decreto 5.296 (BRASIL, 2004), alterado pelo Decreto 5.645
(BRASIL, 2005) e pelo Decreto 5.762 (BRASIL, 2006b), o recurso da
audiodescrição tornou-se um direito garantido pela legislação brasileira.
Após consulta e audiência públicas e a oficialização da Norma
Complementar nº1 (BRASIL, 2006a), as emissoras de TV foram
obrigadas a oferecer, num prazo máximo de dois anos, duas horas
diárias de sua programação com audiodescrição. A quantidade de horas
diárias deveria aumentar gradativamente para que, num prazo máximo
de dez anos, ou seja, 2016, toda a programação estivesse acessível
(SILVA, 2009, p. 23).
No caso da dança, apesar da lei, poucos espetáculos no Brasil já passaram por
tal modalidade de tradução até o momento, sendo com iniciativa pioneira o espetáculo
do Grupo X de Improvisação em Dança “Os Três Audíveis” realizado em 2008 pelo
Grupo de
pesquisa TRAMAD4 (Tradução,
Mídia
e
Audiodescrição) com o
projetoTRAMADAN (Tradução, Mídia, Audiodescrição e Dança), projeto este executado
também no mesmo ano.
Concomitantemente a outras importantíssimas ações no país, em 2011,
aconteceu o “2º Encontro O Que é Isto? de Dança promovido pelo Grupo X, onde
ocorreram quatro possibilidades de trabalhos audiodescritos por mim em cabine de
tradução simultânea, foram eles: "Pequetitas Coisas entre Nós Mesmos" do Grupo X
4
O TRAMAD é um grupo de pesquisa da Universidade Federal da Bahia sob coordenação da Profa.
Dra. Eliana Franco, o qual sou membro desde 2011. O TRAMADAN foi um projeto que se estendeu em
2008 desenvolvido pelas Profas. Dras. Eliana Franco e Fátima Daltro.
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de Improvisação em Dança; “Intento” 3257,5 da performer Estela Lapponi;
“As
Borboletas do Núcleo Vagapara” e, “Judite quer chorar, mas não consegue”, do
coreógrafo/dançarino Edu O.
É interessante mencionar que diversos aspectos ainda necessitam ser focados
para a continuidade da AD, sobretudo, na dança. A formação de platéia e sua
visibilidade, modos de audiodescrever com o sentido poético, o cumprimento da lei e a
acessibilidade continuada nos teatros e, em outros espaços culturais. Acredito que o
momento é propício para pensar neste coletivo, em uma autonomia co-(labor)ativas
gerada pelas trocas com o ambiente como focaliza Nogueira (2008) em sua tese.
Para falar desse “Entre Lugar” venho utilizando uma Poética da Audiodescrição,
maneiras de produzir arte lembrando-me de quando estou em cena, trazendo esse
fazer artístico para construção de roteiros, o que resulta no entendimento de que o
audiodescritor não é alguém distante, não está fora do processo encenado. Uma
escrita falada experienciada no fazer artístico, pensando nas expressões dos
dançarinos, no figurino, na luz, nos sons e em tudo que interessa na cena. Um trabalho
em que as imagens de dança não sejam descritas de modo mecânico e, que se
valorize a partir da poiesis, metaforizando.
Esse “Entre Lugar” vai além da transformação de imagens visuais em palavras,
pois venho percebendo cada vez mais, que é preciso imaginar para perceber como
devo impostar a voz e onde dar inflexões na locução para que o texto esteja vivo e
represente as emoções do que ocorre no ato.
Entendimentos e Reflexões sobre: (Re)criar, mediar e comunicar imagens de
dança
Tomando como base os processos tradutórios de Haroldo de Campos, Christine
Greiner & Helena Katz e, Lakoff & Johnson, e se questionado sobre o significado do
termo “tradução”, o público em sua grande maioria não terá as compreensões que tais
autores desenvolveram e, possivelmente responderiam que traduzir significa passar um
texto, escrito ou falado, de um idioma para outro, pensamento este, instaurado no
cotidiano. No entanto, traduzir significa muito além que apenas converter dessa
maneira.
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No artigo “O claro enigma da tradução”, a pesquisadora/autora Helena Katz
inicia ressaltando que o nome dado pelos romanos ao agente intermediário entre
partes em controvérsia judicial era interpres. Ao longo do tempo essa nomenclatura
passou a ser empregada para o tradutor como: “aquele que transporta o significado de
sua forma original para outra” (KATZ apud HOGHE; WEISS, 1989).
Para Campos (2001) tradução é transcriação, traduzir de modo criativo com a
função poética, é traduzir o percurso da própria função poética numa espécie de
transcodificação. O transcriador recodifica a informação, inventa paralelamente dentro
do impulso criador original. É neste âmbito que necessitamos fazer alusão a uma
Poética de Audiodescrição, tendo a compreensão de que audiodescrever é realizar
uma transcriação, (re)criar, mediar e comunicar. E, somente traduzimos porque é da
nossa natureza fazê-la, mesmo quando não usamos a oralidade, tal fato já está
acontecendo no corpo, não é uma ação possível apenas na verbalização.
Sobre tal aspecto, Lakoff & Johnson (2002) trata a metáfora como um modo de
pensar, conceituar e agir, referindo-se ao pensamento em grande parte como
estruturado metaforicamente, pois conceitualizamos o ambiente cotidianamente por
meio delas que são emergentes de nossa experiência. Greiner (2005) explica como a
comunicação se baseia sobre o mesmo sistema conceitual que utilizamos pensando e
agindo, e como a linguagem nos fornece importantes evidências. Ainda,
Os conceitos que governam nosso pensamento não são meras
questões de intelecto. Eles governam também a nossa atividade
cotidiana até nos detalhes mais triviais. Eles estruturam o que
percebemos, a maneira como nos comportamos no mundo e o modo
como nos relacionamos com outras pessoas. Tal sistema conceptual
desempenha, portanto, um papel central na definição de nossa
realidade cotidiana. Se estivermos certos, ao sugerir que esse sistema
conceptual é em grande parte metafórico, então o modo como
pensamos o que experienciamos e o que fazemos todos os dias são
uma questão de metáfora. (LAKOFF & JONHSON, 2002. apud
SPANGHERO, 2003, p. 281)
Traduzimos por procedimentos metafóricos internalizados, que não estão
apartados do meio, contudo não damos conta de perceber que estamos processando
todas as informações de cognição. Por isso, o termo “cognição” ou “cognitivo” é
utilizado inclusive para as operações localizadas no inconsciente que é a dimensão
cognitiva a qual não temos acesso, porém atuante em nossas operações.
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Finalmente, é por meio da compreensão e das reflexões acima que a ideia da
Poética da Audiodescrição de Dança é esboçada aqui, um modo de tradução que abre
o espaço comunicativo e amplia a acessibilidade da pessoa cega aos espetáculos.
As Imagens de Dança que nos levam a sentir e perceber
Iniciar um processo de construção de roteiro para a audiodescrição é acima de
tudo “sentir e perceber”, ambos conhecimentos construídos no corpo. Existe uma
enorme confusão no que tange esses dois termos distintos, mas que estão articulados
no corpo. Partindo dos estudos em Cinesiologia, o sentir é ativar o receptor sensorial,
sendo o perceber o processamento, a interpretação da sensação no córtex, mas o
processo deve ser encarado como um sistema complexo.
É nesse sistema tão complexo que a atividade de audiodescrever em dança é
permeada, pois o audiodescritor deve ter a sensibilidade, acompanhar a criação do
espetáculo e/ou registros do mesmo com a finalidade fazer conexões respeitando
também
a
própria
obra.
Um
misto
de
doçuras,
prazeres,
aproximações,
distanciamentos, crises, emoções, sentimentos e percepções estarão acompanhando o
processo de tradução das imagens de dança.
Na proposta da Poética de Audiodescrição abordada neste artigo, o
entendimento de imagens é oriundo dos pensamentos do neurocientista Antônio
Damásio. A noção de que tais imagens me conduzem enquanto audiodescritora a
“sentir e perceber” faz parte da compreensão de que as percepções dos espectadores
cegos acontecem a partir dessa minha ação de mediação que envolve inclusive, o meu
sentir e o meu perceber. É claro que se outra pessoa executar um roteiro de um
mesmo espetáculo, as informações-chave serão transmitidas, pois traduzir aqui é
também uma técnica, mas os modos de fazê-lo serão outros, pois somos pessoas
diferentes e com vivências que podem não coincidir.
Para entender melhor as imagens que nos levam a sentir e perceber, temos que
inferir o pensamento de que criamos imagens que se auto-organizam na ação de
percepção, em acordos constantes. Exprimimos como imagens as que Damásio (2000)
denomina de imagens sonora, tátil, visceral, visual que podem ser produzidas na troca
com o ambiente. Ouso elucidar que na dança, tanto o dançarino, o audiodescritor e
como o espectador, constroem imagens a todo o momento que são provenientes das
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emoções e dos sentimentos das cenas. Em relação a isso, para o autor as emoções
são conjunto de imagens que sinalizam os estados corporais, papel da orientação
cognitiva e, sentimentos são as representações mentais da experiência das alterações
do corpo, ligados às regiões somatosensoriais (percepção, pensamentos e outros).
Como produzimos imagens a todo instante, o corpo está modificando
incessantemente com as conexões e trocas com meio, um processo adaptativo do
corpo para sobreviver. Segundo Machado (2007, p. 16) “as imagens do corpo residem
em atualizações constantes pelo acesso imediato de trocas on-line, são ações de
percepção do corpo a cada momento”. Na audiodescrição de dança, a relação tradutorespectador e vice-versa, assim como as imagens que cada um deles constrói sempre,
entram em negociações com as que já estão atualizando, por conseguinte faz-se
necessário realizar estratégias adaptativas para que a comunicação tenha fluxo e a
atividade permaneça fortificando o campo.
O “sentir e perceber” também mostra a apreensão do espectador cego não por
sua deficiência, mas como corpo que enxerga com outros sentidos, o que relaciona
com a concepção do indivíduo co-criador das informações que recebe, ao mesmo
passo que transforma e dissemina, e não alguém receptor que apenas é sujeito que
recebe algo produzido fora dele. De acordo com Katz (2003, p. 39), “o espectador,
portanto, é esse sujeito construtor daquilo que percebe uma espécie de coautor em
tempo integral da realidade”. Faz-se necessário relatar que a autora não especifica
sobre qual espectador está discorrendo, todavia é preciso saber que a pessoa cega se
relaciona por imagens com o ambiente sendo capaz por meio de outros viéis a ter sua
percepção diante do espetáculo de dança, um caminho possível, se nos permitirmos a
essa via acessível.
O que ele irá precisar para ser cocriador serão os meios de tornar as
informações acessíveis, isto o torna um espectador não mais afastado, e sim implicado
em tudo que percebe. Almejo exprimir que esse corpo constrói imagens que levam-o a
sentir e perceber como um corpo “visão” o qual observa, transforma e é transformado a
partir da audiodescrição. Recorda-se da “Teoria do Corpomídia” abordagem tributária
da Semiótica de Piercecriada, das Teorias Evolucionistas Neodarwinista e, da
abordagem filosófica e tradutória de Lakoff & Johnson, criada e intitulada por Katz e
Greiner (2005) propondo o corpo como mídia de si mesmo.
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O próprio corpo resulta de contínuas negociações de informações com
o ambiente e carrega esse seu modo de existir para outras instâncias
de seu funcionamento. Ou seja, a ação criativa de um corpo no mundo
reproduz os procedimentos que o engendraram como uma porta de
vaivém, responsável por promover e romper contatos. [...] Os processos
de troca de informação entre corpo e ambiente atuam, por exemplo, na
aquisição de vocabulário e no estabelecimento de redes de conexão.
(KATZ & GREINER, 2001 p. 72-73)
Igualmente, pode-se afirmar que a ação de sentir e perceber é intrinsicamente
ativa, não está fora de nós, é o que fazemos, e não está dissociado do meio.
O processo de conhecimento se inicia pela percepção sensório-motora
do corpo nas direções espaço-temporais que se estabelecem: seus
proprioceptores localizados nas juntas reconhecem onde você está no
espaço e o que você está fazendo lá; a ação de busca, caracterizada
pelos movimentos das mãos e do olhar ao experimentar as torneiras, a
checagem com o olhar, geram a estrutura inferencial com conexões
metafóricas; ao detectar a temperatura, busca ajustá-la a seu gosto –
uma experiência subjetiva conquistada por seu corpo por meio dos
marcadores somáticos... O ambiente e o corpo tramam juntos as
experiências do mundo no corpo com base em seu órgão especializado,
o cérebro. Enfim, alguma decisão diante do que está ocorrendo será
tomada em tempo real. O processo de tomada de decisão é um
procedimento fundamental em todos os processos cognitivos.
(QUEIROZ, 2009, p. 51).
Em trabalhos de Alva Noë (2005), diz que percepção não é algo que acontece
para nós ou em nós. É algo que fazemos. Continua a escrever “penso numa pessoa
cega tateando seu caminho ao longo de um espaço desorganizado, percebendo pelo
toque, não de uma vez, através de um tempo, pela habilidade de tatear e mover”. Tal
perspectiva de percepção desse filósofo da mente nos arrebata e nos faz entender
também a situação da formação de público para a audiodescrição de espetáculos de
dança. A questão da falta de familiaridade com a atividade de mediação e com
trabalhos de dança contemporânea, por exemplo, são fatos marcantes que dizem
respeito a percepção que precisa ser exposta repetidas vezes para ganhar
familiaridade, daí voltamos ao assunto de sair da ilha, criar pontes e ocupar o “entre
lugar”, pontos que ao final saliento serem não somente de audiodescritores.
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Considerações Finais
Propor uma Poética de Audiodescrição, comoum modo de tradução no sentido
de poder (re)criar, mediar e comunicar imagens de espetáculos de dança levando em
consideração os pensamentos sobre imagem e, ressaltando a perspectiva de
percepção é compartilhar informações que contribuam na área da dança as quais
ampliam a modalidade de tradução – audiodescrição como nova possibilidade de
pensar em dança.
Entender que essa Poética possibilita percepções dos espectadores cegos a
partir do que se seleciona para a construção do roteiro descritivo é compreender que o
audiodescritor não é sujeito imparcial e que tem a possibilidade de transcriação. E
nesse trânsito de oportunidades, o espectador cego é entendido como cocriador das
informações que recebe e transforma na vida. Em suma, acredito também que todas
essas ideias necessitam ser mais exploradas e disseminadas nos âmbitos mais
diversificados possíveis tanto para provocar os espaços em que a obrigatoriedade
ainda não ocorre quanto para colaborar com as pesquisas em dança, instaurando
novos pensamentos na contemporaneidade.
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Por uma poética da audiodescrição “mediação”: (re