Universidade de Brasília Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais Departamento de Relações Internacionais RUPTURA E LEGADO: O COLAPSO DA CORDIALIDADE OFICIAL E A CONSTRUÇÃO DA PARCERIA ENTRE O BRASIL E A ARGENTINA (1967-1979) Matias Spektor Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Relações Internacionais. Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Lessa. Brasília 2002 Agradecimentos Muitas pessoas contribuíram com este trabalho. Renato Mariani foi um apoio certeiro ao longo de todo o esforço de pesquisa. Luciano Milhomem e Maria Luiza Monteiro aportaram inúmeras sugestões de forma e estilo. Paulo Chiarelli, que contribuiu de todas as formas possíveis, franqueou-me o acesso a sua dissertação de conclusão de curso, da qual extraí boa parte das fontes apresentadas na seção referente à Guerra de Malvinas. Rachel Azevedo leu e criticou os esboços, assim como Jhoney Barcarolo o fez com a versão final. Agradeço a Margarete Rosa Tavares e Bárbara Russo, que me guiaram pelo Arquivo Azeredo da Silveira da Fundação Getúlio Vargas com a competência característica de tudo o que lá se faz. Francisco Ornellas, do Estado de São Paulo, foi providencial ao facilitar-me o contato com mais de trinta anos de matérias jornalísticas referentes a Ernesto Geisel. A Professora Maria Helena de Castro Santos ajudou-me a definir a metodologia de trabalho, além de participar da banca avaliadora do projeto de pesquisa. O Professor Amado Luiz Cervo cedeume gentilmente os originais de sua última obra quando a mesma ainda se encontrava no prelo. Agradeço especialmente a meu orientador, Professor Antônio Carlos Lessa, cujo papel na minha formação intelectual e pessoal é muito maior do que ele possa imaginar. SUMÁRIO Introdução 1 Capítulo I - O desafio argentino: a evolução da cordialidade oficial. 1.1. Fundamentos intelectuais 1.2. O papel do pan-americanismo 1.3. Primeiros passos da cordialidade oficial 1.4. O divórcio dos projetos internacionais 1.5. A dimensão hemisférica da cordialidade oficial 1.6. A inflexão no modelo: a diplomacia da obstrução 1.7. A retomada da orientação cordial: os caminhos de Uruguaiana 1.8. O ocaso da cordialidade oficial 1.9. Conclusões 11 12 15 17 18 22 25 28 30 32 Capítulo II – Os limites da cordialidade oficial 2.1. O poder das águas 2.2. O abandono da tradição 2.2.1.Os irreconciliáveis mundos de Pio Corrêa e Silveira 2.2.2. A iniciação de Silveira 2.3. A nova face do desafio argentino: a política externa de Lanusse 2.3.1. Os métodos de Silveira e Gibson Barboza 2.4. A promessa do concerto 2.5. Conclusões 35 36 39 41 46 49 53 59 60 Capítulo III - O estadista, o chanceler e o embaixador 3.1. Geisel estadista 3.1.1. A chancelaria de Silveira 3.1.2. A promessa frustrada 3.2. A política externa do Processo de Reorganização Nacional 3.2.1. A embaixada de Camilión 3.3. Personalidade e imprensa 3.4. Conclusões 63 64 68 74 79 82 85 87 Capítulo IV - O colapso da cordialidade oficial 4.1. Sentando Silveira à mesa: sucessos e fracassos de Oscar Camilión 4.2. As táticas de Silveira 4.3. O fracasso dos canais diplomáticos 4.4. O encerramento das negociações 4.5. Os Estados Unidos, última fronteira da cordialidade oficial 4.5.1. Argentina, Brasil e Henry Kissinger 4.5.2. A agenda de Jimmy Carter 4.5.3. O papel catalisador de Cyrus Vance 4.6. Conclusões 89 90 93 96 98 103 104 107 111 113 Capítulo V - O legado: a parceria estratégica com a Argentina 5.1. A gestação do legado 5.1.1. A cooperação nuclear 5.1.2. As Ilhas Malvinas 5.1.3. A inovação de Figueiredo 5.2. A consolidação do legado 5.2.3. O projeto de integração diante do liberalismo 5.3. O debate contemporâneo 5.4. Conclusões 115 115 117 118 120 122 125 128 131 Conclusão 133 Cronologia - As relações entre Argentina e Brasil: da cordialidade oficial ao projeto de integração 139 Bibliografia 154 Siglas AAS AHMRE ALCA Arquivo Azeredo da Silveira (Fundação Getúlio Vargas) Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriorse (Brasília) Área de Livre Comércio das Américas AyE Empresa de Água y Energía (Argentina) CIC Comitê Intergovernamental Coordenador da Bacia do Prata CPDOC FGV FMI FUNAG GATT MERCOSUL MRE Centro de Pesquisa e Documentação Histórica Contemporânea do Brasil Fundação Getúlio Vargas Fundo Monetário Internacional Fundação Alexandre de Gusmão General Agreement on Tariffs and Trade Mercado Comum do Sul Ministério das Relações Exteriores (Brasil) NAFTA North America Free Trade Agreement OEA Organização dos Estados Americanos OMC Organização Mundial do Comércio ONU Organização das Nações Unidas OPA Operação Pan-Americana OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo PEI Política externa independente PIB Produto Interno Bruto PND Plano Nacional de Desenvolvimento OTAN Organização do Tratado Atlântico Norte SELA Sistema Econômico Latino-Americano SNI TCA TIAR TNP Serviço Nacional de Informações Tratado de Cooperação Amazônica Tratado Interamericano de Assistência Recíproca Tratado da Não-Proliferação Nuclear UNCTAD Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura Resumo Este trabalho busca identificar os fatores que concorrem para explicar a mudança no eixo entre a Argentina e o Brasil, no começo da década de 1980, quando as duas diplomacias convergiram em um projeto de integração inovador. O argumento apresentado defende que a aproximação entre os dois países foi o legado, inesperado, do relacionamento bilateral ao longo da gestão do Presidente Geisel (1974-1979). Abstract This work aims at identifying which factors lay behind the sudden change in ArgentineBrazilian relations in the early 1980s, when their foreign policies converged into an innovative integration project. The argument put forward is that convergence between the two countries was the unintended legacy of their bilateral interaction during President Geisel’s administration (1974-1979). Introdução Em 15 de março de 1979, dia da posse do presidente João Baptista Figueiredo, um encontro de alto nível entre as diplomacias argentina e brasileira selou a decisão de solucionar o contencioso pela utilização dos recursos hídricos da Bacia do Prata. Menos de seis meses depois, as chancelarias acordavam a normalização de suas relações, turvadas havia mais de um decênio. Inesperadamente, um projeto inovador ganhava vida no Cone Sul, ao redefinir o cenário regional em seus aspectos estratégico-militar, econômico e político. Tratava-se de um paradoxo: no momento mesmo em que a estratégia do nacional-desenvolvimentismo brasileiro começava a perder o fôlego devido à crise financeira da década de 1980, a diplomacia ultrapassava seu último desafio na região – a normalização das relações com a Argentina em uma amizade calcada na concertação política e, em seguida, na integração comercial. Quais são os antecedentes desse fenômeno? Como foi possível que surgisse um projeto integracionista fundacional nas relações internacionais do Cone Sul apenas finda a negociação da hidrelétrica de Itaipu, um dos momentos mais turbulentos do relacionamento bilateral no século XX? Quais foram os motivos que levaram a diplomacia brasileira a promover semelhante empresa? As respostas tentativas a essas indagações sugeriam a existência de elementos relevantes para a elucidação do tema que eram prévios à gestão de Figueiredo (1979-1985). Portanto, considerou-se adequado modificar o foco do problema inicial, questionando, alternativamente, de que forma e mediante quais mecanismos os contextos prático e intelectual da política externa brasileira terminaram por outorgar à Argentina um lugar central no projeto internacional do país. A solução inicial a essa indagação foi a de que, no curso do governo de Ernesto Geisel (1974-1979), o lugar tradicional da Argentina no cálculo estratégico brasileiro havia sido posto em xeque a ponto de levar seu sucessor, Figueiredo, a iniciar, já no mesmo dia de sua posse, um amplo programa de redefinição do eixo bilateral. Tal compreensão partiu de uma avaliação crítica da vasta literatura contemporânea sobre as relações argentino-brasileiras. A produção especializada sobre o vínculo bilateral do início da década de 1980 inclui estudos específicos sobre a negociação do regime 1 fluvial1, a diferenciação industrial e militar entre ambas as nações 2, a consolidação da preeminência brasileira na região3, a construção de medidas de confiança mútua no campo nuclear4 etc. Entre as obras gerais, quatro autores merecem destaque especial no contexto deste trabalho. Isso se deve ao fato de observarem o fenômeno da construção do projeto de integração entre Argentina e Brasil no decênio de 1980 do ponto de vista da evolução da política externa brasileira. São eles Moniz Bandeira5, Amado L. Cervo6, Stanley Hilton7 e Rubens Ricúpero8. Parece ser consenso entre eles que a história do eixo bilateral é marcada por momentos de cooperação e competição alternados. Nesse esquema, os pontos de depressão do relacionamento seriam representados no tempo por períodos da gestão do Barão do Rio Branco (chanceler brasileiro entre 1902 e 1912), os governos de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), Getúlio Vargas (1951-1954), Emílio Garrastazu Médici (19691974) e Ernesto Geisel (1974-1979), enquanto os picos cooperativos seriam encontrados nos governos do primeiro período Vargas (1930-1934, 1934-1937 e 1937-1945), Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (1961), Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), João Baptista Figueiredo (1979-1985) e José Sarney (1985-1990)9. Parte da literatura especializada sobre o tema sugere que as modificações de fundo das economias nacionais da Argentina e do Brasil após a II Guerra Mundial geraram o milagre da “desindustrialização” no primeiro país e o do desenvolvimento no segundo, fenômeno que teria sido responsável pela gradual quebra do equilíbrio de forças no Prata 1 LANÚS, J. A. De Chapultepec al Beagle: política exterior argentina, 1945-1980. 2. ed. Buenos Aires: Emecé, 2000 e LIMA, M. R. S. de. The political economy of Brazilian foreign policy: nuclear policy, trade and Itaipu. 1986. Tese (Doutorado) – Vanderbilt University. 2 MELLO, L.I. Brasil, Argentina e a balança de poder regional: equilíbrio, preponderância ou hegemonia? (1969-1986). 1991. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo e COSTA, G. Brazil's foreign policy towards her neighbours during the Geisel years. 1986. Tese (Doutorado) – University of London. 3 BANDEIRA, L.A.M. O eixo Argentina-Brasil: o processo de integração da América Latina. Brasília: Universidade de Brasília, 1987. Do mesmo autor, Estado nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações Argentina-Brasil (1930-1992). 2 ed. Brasília: Ensaio e Universidade de Brasília, 1995; CERVO, A. L. Relações internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas. Brasília: FUNAG e IBRI, 2001; e CERVO, A. L.; RAPPOPORT, M. (Orgs.). História do Cone Sul. Rio de Janeiro e Brasília: Revan e Universidade de Brasília, 1998. 4 CARASALES, J.C. De rivales a socios: el proceso de cooperación nuclear entre Argentina y Brasil. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1997. 5 BANDEIRA, As relações regionais no Cone Sul: iniciativas de integração. In: CERVO; RAPOPORT. Op. Cit., p. 289-333. 6 CERVO, A. L. Relações internacionais... e, do mesmo autor, A política exterior da Argentina, 1945-2000. In: GUIMARÃES, S. P. (Org.). Argentina: visões brasileiras. Brasília: IPRI e CAPES, 2001. p. 11-81. 7 HILTON, S. Brasil e Argentina: a história de um encontro. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 23, n. 89-92, p. 101-118, 1980. Esse artigo foi também publicado nos números 97-100 e 119-120, da mesma revista, em 1982 e 1987, respectivamente. Do mesmo autor, The Argentine factor in XX century Brazilian foreign policy strategy. Political Science Quarterly, v. 100, n. 1, Spring, p. 27-51, 1985. 8 RICÚPERO, R. O Brasil, a América Latina e os Estados Unidos desde 1930: 60 anos de uma relação triangular. In: ALBUQUERQUE, J. A. G. (Org.). Sessenta anos de política externa brasileira (1930-1990): crescimento, modernização e política externa. São Paulo: Vox, 1996. p. 37-60. vol. 1. 9 BANDEIRA, Estado nacional... p. 287-290. 2 em favor do Brasil10. Esse argumento é particularmente significativo, uma vez que outorga a fatores estruturais (por exemplo, as bases produtivas de cada país) a capacidade de imprimir mudanças substanciais a vínculos políticos, como é o caso do eixo diplomático argentino-brasileiro. Para Moniz Bandeira, a reversão do equilíbrio regional de poder em favor do Brasil desde a década de 1960 e a utilização da industrialização brasileira como instrumento geopolítico teriam prenunciado o projeto de integração regional da década de oitenta, aguardando apenas pelo fim da rivalidade política em torno de visões geopolíticas, ilustradas na questão da hidrelétrica de Itaipu11. A cooperação bilateral a partir de então teria resultado, em última instância, da superação dos “egoísmos nacionais” após a atuação brasileira durante o conflito argentino-britânico de 1982 e dos fortes interesses comerciais em torno ao eixo São Paulo – Buenos Aires12. Cervo, por sua vez, explica a implementação do projeto de integração mediante a mudança provocada por fatores sistêmicos no cenário sul-americano do decênio de 1980. Embora concorde com Moniz Bandeira que o período assistiu à superação de “ambições nacionais desmesuradas” e à demanda por unidade regional em um cenário de turbulência econômica, afirma que dito projeto foi possível graças ao fim de uma tendência histórica no sistema sul-americano: o desentendimento entre o Brasil e seus vizinhos sobre o papel dos Estados Unidos nas Américas e a decorrente resistência dos hispano-americanos a associar-se às políticas propugnadas pelo Itamaraty13. Na argumentação de Cervo, o projeto integracionista também teve lugar naquele momento devido à estrutura do processo decisório em política externa: para o autor, desde a década de oitenta os interesses comerciais privados tiveram canais de acesso privilegiado à definição da agenda e do conteúdo das negociações pela criação de espaços comuns na América do Sul, alimentando assim o ímpeto integracionista14. Embora Hilton reconheça que o fim do relacionamento privilegiado entre o Brasil e os Estados Unidos, durante o governo Geisel, tenha sido central para a aceitação portenha da diplomacia integracionista de Figueiredo, sustenta que a diplomacia brasileira manteve inalterado o seu marco de referência para a Argentina. Ele entende que o projeto argentino- 10 MELLO. Op. Cit. e COSTA. Op. Cit. BANDEIRA. O eixo..., p. 81 Ibid., p. 83; BANDEIRA. Estado nacional..., p. 290; e BANDEIRA. As relações regionais..., p.323 e 329. 13 CERVO. Relações internacionais..., p. 257-260. 14 Id. 11 12 3 brasileiro de integração resultou da evolução, ininterrupta ao longo do século XX, da cordialidade oficial, o principal guia de ação do Itamaraty para as relações no Prata 15. Já para Ricúpero, a aproximação entre as duas nações foi produto da diluição de concepções geopolíticas típicas da Guerra Fria16. Dessa forma, o embate pela preeminência no Prata, elemento típico de uma visão política definida pelos limites da geografia, teria cedido lugar às possibilidades da cooperação externa em um mundo onde a afluência ganha valor no cálculo estratégico dos países. Alternativamente, este trabalho sugere que o projeto de integração regional iniciado na década de 1980 foi o resultado não-intencional da conjuntura crítica que acometeu a política externa brasileira para a Argentina entre 1974 e 1979, qual fosse a sistemática ruptura dos princípios e concepções que informaram a atuação diplomática do país para o seu vizinho ao sul desde princípios do século XX. Argumenta-se que, entre 1974 e 1979, Geisel e seu chanceler, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, puseram em xeque o lugar da Argentina no cálculo estratégico da política exterior brasileira, questionando a validez do marco conceitual do Itamaraty para orientar as relações com Buenos Aires – a cordialidade oficial. A ruptura com o paradigma, aqui denominada conjuntura crítica, foi sistemática: (i) todas as dimensões do mesmo foram negadas, (ii) ocorreu homogeneamente ao longo de todo o mandato presidencial de Geisel e, (iii) uma vez finda a administração, o Brasil encontrou-se sem marco de referência no qual racionalizar o vínculo com o vizinho, tarefa à qual se dedicaram os governos subseqüentes mediante a gestação de um projeto de integração regional. O argumento é apresentado em blocos temporais, nos quais se sucedem a cordialidade oficial, a conjuntura crítica e seu legado, o projeto de integração. A primeira dessas categorias foi o guia de ação que informou, prioritariamente, a diplomacia brasileira para a Argentina desde a gestão do Barão do Rio Branco (1902-1912) até a posse de Geisel (1974). Ao longo do século XX, a cordialidade oficial constituiu-se em um arranjo diplomático que visou à redução de tensões no relacionamento com a Argentina. Suas características centrais foram as seguintes: uma postura tolerante em relação ao intenso perfil do discurso diplomático de Buenos Aires em assuntos regionais, hemisféricos e globais; a busca sistemática de potenciais faixas de cooperação com o vizinho no intuito de diluir os desentendimentos que porventura dominassem a agenda bilateral; a inclusão da Argentina nas iniciativas internacionais do Itamaraty; e a promoção de bons ofícios entre Buenos Aires e 15 16 HILTON. The Argentine factor..., p. 49. RICÚPERO. O Brasil..., p. 50-53. 4 Washington quando o sensível relacionamento entre essas duas capitais prenunciasse a radicalização de um confronto tradicional nas relações argentino-estadunidenses17. Embora não tenha vingado homogeneamente ao longo do tempo, esse modo de administração das relações com a Argentina foi a principal tendência da política brasileira para o vizinho no período. O exemplo mais ilustrativo dos limites dessa regularidade foi a diplomacia da obstrução18, decênio durante o qual o Itamaraty abandonou a cordialidade oficial e adotou uma rota obstrutora do relacionamento bilateral, numa inflexão que não chegou a constituir, entretanto, uma ruptura de fato. Com efeito, a análise das fontes primárias evidencia que, entre 1974 e 1979, a política externa brasileira foi intolerante ao perfil denuncista da diplomacia argentina, respondendo frontalmente a suas acusações; não buscou faixas de coincidência para diluir o clima de contencioso em torno à questão dos rios internacionais e, embora o comércio bilateral desse um significativo salto durante o período, sujeitou todas as áreas da relação bilateral à dinâmica da negociação do regime fluvial da Bacia do Prata; excluiu a Argentina das iniciativas multilaterais de Brasília, isolando Buenos Aires por meio de um renovado sistema de projetos regionais; e, finalmente, não utilizou o canal privilegiado de comunicação com a Washington de Henry Kissinger19 para reduzir os atritos entre a Argentina e os Estados Unidos, nem buscou associar-se à Junta da Casa Rosada para dialogar com Jimmy Carter20. De forma geral, a atuação diplomática de Geisel e Silveira abandonou a tradicional postura preventiva que guiara a política externa brasileira para a Argentina. Para eles, o discurso diplomático portenho alardeava um potencial que não tinha correspondência com as capacidades objetivas daquele país na cena internacional21. É plausível supor que essa visão estivesse presente no ideário de Geisel antes mesmo de alcançar a Presidência da República. Inclusive, há motivos para crer que a escolha de Silveira para a chancelaria esteja relacionada à convergência do mandatário com as idéias defendidas pelo embaixador a partir da embaixada brasileira em Buenos Aires entre 1969 e 1974, momento em que o 17 HILTON. Brasil-Argentina... (1980), p. 103. A diplomacia da obstrução é um conceito desenvolvido por Amado L. Cervo no intuito de intepretar a postura paralisadora das chancelarias argentina e brasileira entre 1946 e 1954. CERVO. Relações internacionais... 19 Henry Kissinger foi Assessor para a Segurança Nacional do presidente norte-americano Richard Nixon entre 1969 e 1972. Em seguida, foi alçado ao posto de Secretário de Estado, no qual permaneceu durante todo o governo de Gerald Ford (1973-1977). 20 Presidente norte-americano entre 1977 e 1981. 21 SILVEIRA, A. F. A. da. Azeredo da Silveira (depoimento, 1979/1980/1982). Rio de Janeiro, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, 2000. 22 cassetes sonoros (20h 55min) [doravante Depoimento]. Depoimento, cassete n. 11, lado A, 01 jun. 1979. 18 5 debate pela utilização dos trechos internacionais da Bacia do Prata ganhou contornos de discordância frontal22. A resposta argentina aos desafios impostos pela diplomacia de Silveira tardou a ganhar consistência. Entre 1974 e 1976, Buenos Aires insistiu na tática da denúncia internacional do Brasil na América do Sul e nos foros multilaterais do sistema das Nações Unidas. Sem sucesso, a Junta Militar enviou o jornalista e diplomata Oscar Camilión para ocupar a chefia da embaixada argentina em Brasília. Teve início, então, um embate pessoal entre o ministro e o embaixador cujos efeitos dariam um tom dramático ao conflito. Nesse contexto, Silveira aproveitava o tempo em seu favor, uma vez que o projeto da obra de Itaipu já estava avançado, e a Argentina só conseguiria barrar tecnicamente a construção se erguesse uma represa de grandes dimensões águas abaixo23. Por sua vez, Camilión utilizava a imprensa brasileira a seu favor, conhecedor que era dos efeitos diplomáticos da opinião pública por haver dirigido o jornal argentino El Clarín durante dez anos. Assim, o primeiro postergava o momento da negociação para fazer de Itaipu um fato consumado e, portanto, incólume em relação a qualquer entendimento diplomático entre o Brasil e seus vizinhos. O segundo aproveitava os primeiros sinais de liberalização política para instrumentalizar a imprensa, denunciando a negligência do Executivo brasileiro à postura conciliadora do governo argentino. Essa interação elevou o nível do desentendimento a proporções inusitadas, mobilizando as políticas regionais e de foros multilaterais de Argentina e Brasil em uma disputa cujo fim foi incerto até o momento do acordo final. O campo de ação de Silveira era a distância entre as desmedidas aspirações internacionais argentinas e as suas reais possibilidades no exterior. Brasília tinha, em sua opinião, os recursos necessários para entrar em aberto desacordo com Buenos Aires caso fosse necessário. Já para Camilión, a opção viável era provocar clivagens significativas no seio da sociedade brasileira no intuito de corroer a legitimidade das ações do Itamaraty que o governo argentino considerasse deletérias a seus interesses. Imediatamente após a resolução formal do contencioso, o Itamaraty de Ramiro Saraiva Guerreiro (1979-1985) encaminhava os negócios bilaterais a um novo equilíbrio mediante o esboço de um novo projeto internacional para o Brasil, momento em que a 22 Depoimento, cassete n. 6, lado B, 18 maio 1979. A capacidade produtiva de uma hidrelétrica é função direta, dentre outros, da curva de queda d’água que consegue gerar. A queda, por sua vez, depende da altura que as águas atingem imediatamente após a hidrelétrica, uma vez que, quanto mais altas forem as últimas, menor será a primeira. Portanto, se por um lado uma hidrelétrica tem a capacidade de modificar o volume d’água disponível mediante a operação controlada de sua represa, por outro, uma obra semelhante que esteja localizada “águas abaixo” tem capacidade de afetar significativamente a queda da represa original. 23 6 Argentina ocupou um lugar primordial, senão o mais relevante, na política externa brasileira. Nascia, finalmente, uma nova racionalidade no marco conceitual da política externa brasileira e, com ela, um inusitado ordenamento regional a caracterizar a política internacional da América do Sul na década de 1990. Paradoxalmente, Geisel e Silveira haviam fracassado em sua vitória: conseguiram instrumentalizar todos os seus relacionamentos na América do Sul por meio de um arrojado modelo de cooperação econômica, técnica e financeira, diluindo a presença argentina do horizonte regional brasileiro, mas foram incapazes de sugerir um modelo de atuação externa que prescindisse daquele país. A diplomacia argentina, por sua vez, havia triunfado em seu fracasso: em meio a seu isolamento diplomático e falência econômica, conseguira afirmar o princípio de que nenhum entendimento internacional na América do Sul poderia ser legítimo, e conseqüentemente estável, se não contasse com seu aval. Abordar o tema dessa forma permite matizar as conclusões que a literatura especializada apresenta sobre o tema. Primeiramente, reconhece-se que o eixo ArgentinaBrasil evoluiu mediante a procura de interesses nacionais desencontrados, o que em momento algum impossibilitou alto nível de entendimento ou cooperação entre as partes envolvidas. Em segundo lugar, mostra-se que a alternância de convergência e afastamento entre dois países é uma característica geral dos relacionamentos de alta intensidade e, portanto, não constitui uma marca distintiva do eixo argentino-brasileiro. Finalmente, o argumento proposto evidencia que a mudança política na vida de um relacionamento bilateral também pode ser provocada por forças que extrapolam as estruturas econômicas. Mais especificamente, as lideranças também ocupam papéis significativos na redefinição de tendências historicamente consagradas. Em suma, a tese aqui defendida é a de que, no contexto prático do embate pela utilização dos recursos hídricos da Bacia do Prata, a diplomacia de Geisel desestruturou o ideário tradicional da política brasileira para a Argentina. Por sua vez, a dramaticidade desse fenômeno terminou por criar o ambiente necessário para a redefinição do lugar daquele país no marco das relações internacionais do Brasil, objetivo articulado por Figueiredo e defendido com maior ou menor sucesso por todos os governos desde então. O modelo proposto para conduzir esta análise – a conjuntura crítica24 - é oriundo da história comparada e tem por meta oferecer critérios para avaliar processos de mudança. A 24 A categoria foi desenvolvida por COLLIER, D.; COLLIER, R. Shaping the political arena: critical junctures, the labor movement, and regime dynamics in Latin America. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1991. Trata-se de estudo comparado entre oito países latino-americanos, que visa a definir qual o impacto da incorporação das classes urbanas à vida pública dessas sociedades. Conclui-se que, ao longo dos respectivos períodos de incorporação, houve mudanças significativas nos sistemas 7 sua lógica articula-se de modo a sugerir que só é possível identificar rupturas significativas ao longo do tempo se as mesmas inauguram um período substancialmente distinto. Uma conjuntura crítica é um momento limitado durante o qual mudanças geram um legado específico. Os critérios para identificar rupturas são três: (a) a existência de uma delimitação temporal da hipotética ruptura, ou seja, a identificação clara do período em que uma mudança começa e termina; (b) a ocorrência identificável de uma tendência ou regularidade prévia à ruptura observada, que é a base sobre a qual a mudança opera; e (c) a ocorrência de legados oriundos da suposta ruptura, ou seja, fenômenos que têm lugar imediatamente após a conclusão da mudança observada e instauram padrões inovadores. Caso contrário, o processo de transformação fica descaracterizado e pode-se falar apenas em “inflexão” ou mudança limitada, mas não em ruptura com o passado. O presente trabalho adapta o modelo às hipotéticas mudanças implementadas pela diplomacia brasileira em relação à Argentina durante os anos Geisel. Trata-se de uma aproximação do modelo proposto porque contém elementos estranhos à formulação original. Se, por um lado, a comparação realizada neste trabalho contrapõe diferentes momentos da política externa de um mesmo país no intuito de encontrar critérios para definir a mudança no marco conceitual da atuação diplomática, por outro, não pretende sustentar que a mudança em questão tenha contaminado as bases sociais e políticas de Argentina ou Brasil. Além disso, neste trabalho os agentes da mudança são lideranças políticas e não processos estruturais. De tal sorte, sustenta-se que o governo Geisel constituiu uma dinâmica análoga à de uma conjuntura crítica no campo da política brasileira para a Argentina. Isto é, tratou-se de uma transição crucial cujo legado foi a redefinição não planejada do lugar do vizinho no marco conceitual da política externa do país. Paralelamente ao modelo proposto, utilizou-se a categoria de homem de Estado25 para interpretar a dinâmica que animou os atores centrais daquele embate: os presidentes Geisel e Figueiredo e os diplomatas Silveira e Camilión. Avalia-se a ação internacional dessas personalidades à luz de sua interação com pressões domésticas, forças externas e produtivo e político, assim como relações sociais. Dessa forma, os autores argumentam que a inclusão dessa nova classe constituiu uma conjuntura crítica na história desses países, uma vez que fez toda a diferença na evolução posterior dos mesmos. 25 RENOUVIN, P.; DUROSELLE, J.-B. Introdução à História das Relações Internacionais. São Paulo: Difel, 1967. p. 407-434. 8 com seus pares, no entendimento de que o ideário dessas lideranças impregna sua ação, suas escolhas e, conseqüentemente, as relações entre os Estados26. É importante notar que a noção de ruptura, assim como as categorias da cordialidade oficial, da diplomacia da obstrução e do projeto de integração, tem por objetivo viabilizar a análise de inúmeros dados. De certa forma, são simplificações de tipo ideal cujo objetivo é ilustrar realidades complexas27. Embora este trabalho busque seguir sistematicamente o quadro de orientação do modelo da conjuntura crítica na esperança de produzir uma análise coerente sobre a hipotética mudança que Geisel e Silveira imprimiram às concepções da política brasileira para a Argentina, utilizam-se os conceitos teóricos apenas na medida em que auxiliam na interpretação das fontes primárias selecionadas. Portanto, estabelece-se como critério que as evidências apresentadas pelas fontes são privilegiadas em detrimento do modelo teórico-metodológico proposto caso haja incoerências entre os dois. O estabelecimento desse limite heurístico visa a oferecer um mecanismo de controle sistemático para o erro; ou seja, quando houver dúvidas sobre a interpretação de determinado fenômeno, opta-se pelas fontes e não pela lógica causal proposta pelo modelo teórico-metodológico. Isso equivale a dizer que se optou por uma proposta de explicação parcial do fenômeno de integração da década de 1980. Isto é, o marco teóricometodológico do trabalho foi estruturado de forma a sustentar que a ruptura promovida pelo governo Geisel fez com que certos resultados tivessem sido mais prováveis naquelas circunstâncias, mas não inevitáveis. O trabalho está organizado em blocos. Inicialmente, conceitualiza a cordialidade oficial por meio da análise de sua gênese e evolução desde finais do século XIX até os anos sessentas do século XX. Dessa forma, oferece-se uma síntese dos princípios utilizados pela diplomacia brasileira para fazer frente aos desafios impostos pela Argentina. Na seqüência, enfocam-se os mecanismos que levaram ao gradual abandono da cordialidade oficial, especialmente o processo de geração de consenso doméstico para proceder a tal movimento diplomático. Também passa-se em revista a incipiente reação argentina aos inesperados movimentos do Brasil. Em seguida, focaliza-se o processo negociador entre Azeredo da Silveira e Oscar Camilión entre 1976 e 1979, assim como o impacto que sobre ele tiveram a redefinição da política externa norte-americana para a América Latina, a participação da imprensa brasileira na dinâmica da negociação e os respectivos processos políticos domésticos. Há, ainda, considerações sobre o 26 Ibid., p. 480. O tipo ideal é uma técnica desenvolvida por Max Weber, que consiste em utilizar elementos e características gerais de um determinado fenômeno no intuito de analisar casos específicos e variações do mesmo. 27 9 relacionamento entre Geisel e seu chanceler e sobre a política externa do regime militar argentino. Essa interação é analisada, mais adiante, sob a perspectiva do impacto da política externa norte-americana sobre o relacionamento argentino-brasileiro durante as administrações de Gerald Ford (1973–1977) e Jimmy Carter (1977–1981). Finalmente, recupera-se a resolução da questão fluvial nos primeiros meses do governo Figueiredo, assim como a evolução do lugar da Argentina no quadro conceitual da diplomacia brasileira nos primeiros anos da década de oitenta, marcados pela crise da dívida externa latino-americana, pelo conflito sobre as Ilhas Malvinas, pela cooperação nuclear entre Buenos Aires e Brasília e pela aceleração dos processos de democratização nos dois países. Além disso, apresenta-se uma síntese do projeto de integração e dos mecanismos de produção e reprodução que, ao longo da década de 1990, o alimentaram. O trabalho é encerrado com idéias referentes ao debate contemporâneo sobre o lugar da Argentina no cálculo estratégico brasileiro à luz da sua evolução histórica. No intuito de ilustrar o argumento em uma escala temporal, ao fim do texto oferece-se uma cronologia do relacionamento bilateral entre Argentina e Brasil durante o século XX. Essa síntese está estruturada em torno dos conceitos propostos ao longo da dissertação, quais sejam a cordialidade oficial, a diplomacia da obstrução, a conjuntura crítica e o projeto da integração. 10 Capítulo I O desafio argentino: a evolução da cordialidade oficial É plausível sustentar que Stanley Hilton tenha realizado o primeiro esforço sistemático de análise da política brasileira para a Argentina na perspectiva de longa duração. Embora curtos28, seus trabalhos sobre o assunto contemplam alguns dos temas mais candentes que o estudioso encontra ao buscar compreender as orientações práticas e intelectuais que definem uma vertente específica das relações internacionais de um país. Esta seção tem por objetivo recuperar a essência do argumento de Hilton e balizálo à luz de desenvolvimentos mais recentes nos campos da história e da politologia. Além disso, aspira a posicionar as tendências e rupturas da atuação do Brasil para a Argentina no marco da evolução das relações exteriores do país durante o século XX. Ao longo da história do relacionamento entre Argentina e Brasil, a atuação externa do outro provou ser capaz de sensibilizar os respectivos sistemas políticos e opiniões públicas nacionais, gerar reações entre parlamentares e empresários, além de pôr em evidência as discordâncias geralmente opacas que dividem internamente toda chancelaria29. A explicação mais contundente para esse fenômeno tende a ser o lugar fundamental – ou mesmo fundacional – que ambos os países têm em relação um ao outro. Não somente as suas fronteiras foram definidas em ritmo de oposição desde os tempos coloniais, como também as oportunidades e constrangimentos da presença regional de cada um deles foram moldados significativamente pelos limites que a presença um do outro impôs30. Argumenta-se neste trabalho que a resposta diplomática do Brasil para esse fenômeno não foi homogênea ao longo dos últimos cem anos e que as suas diversas fases podem ser claramente identificadas. Esta seção em particular evidencia que a primeira tendência definida pelo aparelho de Estado para a Argentina – a cordialidade oficial – vingou com poucas alterações desde o fim da Guerra do Paraguai (1870) até meados da década de sessenta do século XX. 28 HILTON. Brasil e Argentina... e, do mesmo autor, The Argentine factor... Somente o relacionamento brasileiro-estadunidense teria sido historicamente capaz de afetar a sociedade brasileira com a mesma intensidade que o vínculo com a Argentina. Sobre esse tema, ver RICÚPERO. O Brasil... 30 Esse argumento é apresentado em BANDEIRA. O eixo... e em Estado Nacional...; em CERVO. Relações internacionais...; e em CERVO; RAPOPORT. Op. Cit. 29 11 Essa tendência representa o conjunto de princípios e concepções31 que informou a diplomacia brasileira para Buenos Aires com o objetivo primordial de evitar que a dinâmica entre os dois principais poderes da América do Sul levasse a uma rota de colisão. Esse apanhado de orientações pode ser resumido por (a) uma postura tolerante em relação ao elevado perfil da diplomacia argentina em assuntos regionais, hemisféricos e globais, (b) a sistemática busca de faixas de cooperação com aquele país no intuito de diluir potenciais desentendimentos, (c) a inclusão da Argentina nas iniciativas internacionais do Brasil, e (d) a promoção de bons ofícios entre Buenos Aires e Washington sempre que o sensível relacionamento entre as duas capitais apontasse para o confronto32. 1.1. Fundamentos intelectuais Por terem sido uma extensão da dinâmica internacional européia desde seus primeiros anos de independência,o agrupamento de incipientes Estados nacionais, na América do Sul do século XIX, replicava as condições do sistema estatal europeu33. A qualidade sistêmica desse arranjo pode ser auferida pelo fato de que os projetos internacionais de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai encontravam, já naquele momento, limites concretos na atuação de seus pares, gerando as redes de alianças e contra-alianças que caracterizam os sistemas internacionais. Nesse ambiente, o Brasil utilizou o esforço de guerra como instrumento recorrente na defesa dos interesses nacionais definidos pela corte do Rio de Janeiro. O cálculo estratégico brasileiro era principalmente moldado em função das posições defendidas por Buenos Aires, principal poder capaz de fazer-lhe oposição e turvar o seu horizonte externo. Exemplos disso são os esforços de guerra empreendidos pelo Brasil na criação do Estado do Uruguai (1828)34 e na 31 Princípios são regras, leis e proposições cujas verdades não são questionadas. Concepções são as maneiras utilizadas para formular idéias, projetos ou planos. PRINCÍPIO e CONCEPÇÃO. In: Novo Dicionário Aurélio. 3. ed. Nova Fronteira: 1998. p.1639 e 519, respectivamente. 32 HILTON. Brasil-Argentina... (1980), p. 103. 33 Ver CONDURU, G. F. O subsistema americano, Rio Branco e o ABC. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 42, n.2, 1998. p. 59-82. 34 Em 1821, D. João anexou a Província Cisplatina, incorporando-a em seguida ao Império brasileiro. Três anos mais tarde, contudo, uma declaração de independência uruguaia inaugurou um período de instabilidade regional que levou Buenos Aires a incorporar a Cisplatina. O imperador D. Pedro, por sua vez, reagiu com uma guerra e um bloqueio naval contra a capital portenha. O resultado das negociações entre as diplomacias de Buenos Aires e Rio de Janeiro, sob mediação inglesa, foi a criação do Estado uruguaio e a garantia da liberdade de navegação no Prata, em 1828. CERVO, A. L.; BUENO, C. A política externa brasileira (1822-1985). São Paulo: Ática, 1986. p. 36-37. 12 eliminação de Rosas (1852)35 e nas movimentações que desembocaram na Guerra do Paraguai (1865-1870)36. Foi durante esse último conflito armado que a estrutura regional de poder até então conhecida atravessou as mudanças que consolidariam, pela primeira vez, a preeminência de Buenos Aires no Prata37. O fim da Guerra do Paraguai definia um novo quadro regional em que a Argentina sobressaía pelo inédito crescimento financeiro do capital privado, o rearmamento de suas forças e a articulação de seus interesses na América do Sul mediante uma vasta rede de relacionamentos bilaterais fluidos38. A renovada pujança argentina não tardou a se manifestar. A diplomacia de Buenos Aires conseguira demover Santiago de continuar a romper o status quo territorial39, atividade em que se engajou sistematicamente entre 1879 e 1883, quando anexou as províncias peruanas de Tarapacá, Tacna e Arica, além do trecho costeiro boliviano de Atacama no episódio que seria conhecido como Guerra do Pacífico. O mecanismo utilizado pela Argentina para conter o Chile parece estar na fundação mesma da diplomacia daquele país, uma vez que se manteve presente em todos os momentos da sua política externa até a década de 1980: a denúncia internacional de alto perfil. O bom relacionamento de Buenos Aires com as outras capitais hispano-americanas, estruturado na forma de discurso libertário e redentor, permitiu à Argentina levar os países da região a criar resistências ao Chile. A evolução de um discurso salvacionista, pelo qual Buenos Aires posicionava-se ao lado das nações mais fracas do subcontinente, viria a constituir elemento perturbador para 35 Em meados do século XIX, a diplomacia brasileira no Prata enfrentava o desafio imposto pelo caudilho argentino Juan Manuel de Rosas, que punha em questão a independência do Uruguai de 1828, a do Paraguai, a liberdade de navegação no Prata, as fronteiras sulinas do Brasil e, ainda, era percebido por certas vozes do parlamento imperial como um homem à procura da restituição a Buenos Aires das fronteiras originais do Vice-Reinado do Prata (englobando Bolívia, Paraguai e Uruguai). A resposta brasileira ocorreu mediante uma complexa associação de táticas para eliminar Rosas: alianças com os países do Pacífico e da Bacia do Prata (inclusive as províncias de Corrientes e Entre Rios), a diplomacia familiar de D. Pedro para assegurar a neutralidade inglesa no assunto, a força das finanças do Barão de Mauá e as armas. Isso, somado às inamizades que Rosas cultivara nas províncias argentinas, terminou por levá-lo ao exílio em 1852. CERVO; BUENO, História..., p. 98-104. 36 No início da década de 1860, o Paraguai ressentia-se de haver perdido, paulatinamente, a capacidade de mobilização do sistema subregional. A sua estratégia, porém, continuava a mesma de outrora, que consistia na promoção de um equilíbrio de forças que preservasse os pequenos (Paraguai e Uruguai) da intervenção dos grandes (Argentina e Brasil). Na prática, isso significava a eventual criação de um Estado que reunisse Uruguai, Paraguai, Corrientes, Entre Rios e, quiçá, as missões rio-grandenses. A instabilidade que se seguiu resultou na intervenção brasileira no Uruguai que, por sua vez, levou o Paraguai a invadir territórios argentinos e brasileiros. Nessas circunstâncias, o Império financiou com recursos de seu Tesouro e de empréstimos ingleses a longa Guerra do Paraguai ou da Tríplice Aliança (1865–1870), auxiliando inclusive o argentino Mitre com empréstimos de vulto. CERVO; BUENO. História..., p.107-112 e BANDEIRA, L. A. M. As relações..., p. 292. 37 BANDEIRA. Ibid., p. 292-295. 38 PARADISO, J. Debates y trayectoria de la política exterior argentina. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1993. p. 17-61. 39 BURR, Robert N. By reason or force: Chile and the Balancing of Power in South America, 1830-1905. Berkeley: University of California Press, 1967. p. 204-206. 13 as relações internacionais do Brasil. Em uma época de consolidação territorial, a agenda diplomática brasileira era delicada e suscetível às denúncias de expansionismo geradas pelo vizinho. A nova estrutura regional de poder começava a forçar o Brasil a adotar uma postura defensiva, já que reagir mediante resposta frontal a Buenos Aires apenas contribuiria para endossar as acusações argentinas perante a platéia de nações fronteiriças. As preocupações impostas à diplomacia brasileira pelo novo perfil da diplomacia Argentina ganharam o debate público no Rio de Janeiro, onde as questões do Prata eram tratadas no ambiente de fertilidade intelectual da época40. O homem responsável por advogar o re-direcionamento da política externa brasileira nesse contexto foi José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco41. O Visconde advogava que, em assuntos regionais, o Brasil devia mostrar-se “moderado, benévolo e generoso”, sob pena de suscitar desconfianças, entre os países lindeiros, excessivamente custosas. A proposta visava a diluir a percepção generalizada, especialmente entre os países menores, de que o Brasil era um elemento potencialmente hostil ao status quo territorial. Essa percepção, associada ao estranhamento que o país causava devido ao lusitanismo e à filiação monárquica em um teatro de repúblicas hispânicas, deveria ser evitada mediante a construção de interesses comuns facilitados pelo comércio, as finanças e o amansamento do discurso diplomático. O alvo de suas recomendações era a política para a Argentina. Em seu pensamento, o fato de a instabilidade e a competição predatória caracterizarem o cenário político argentino impunha ao Brasil a responsabilidade de manter uma orientação compreensiva e generosa capaz de evitar as asperezas inerentes ao relacionamento entre as duas forças da América do Sul42. No fim do século XIX, a diplomacia do Brasil percebia não somente que a ação brasileira era responsável pelas apreensões dos vizinhos, mas também que a busca não criteriosa da influência nos assuntos regionais era potencialmente prejudicial aos interesses do Rio de Janeiro, facilitando que Buenos Aires aglutinasse o apoio das outras capitais. No pensamento do Visconde, o relacionamento cordial com a Argentina era um dos instrumentos do pragmatismo, necessário a um país com escassos recursos e vastas fronteiras. 40 Para uma síntese de como o Prata constituiu um “laboratório da inteligência nacional”, ver CERVO, Amado L. Intervenção e neutralidade: doutrinas brasileiras para o Prata nos meados do século XIX. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 26, n.101-104, p. 101-114, 1983. 41 Ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1855-1857, 1858-1859 e 1868-1871. De 1871 a 1875, comandou o “Gabinete Rio Branco” (presidente do Conselho de Ministros). Ver HIRST, M. A diplomacia brasileira. Disponível em <http://www.mre.gov.br/acs/diplomacia/portg/arquivo/crob001.htm>. 42 CERVO. Intervenção..., p. 116. 14 Já nesse momento, estavam dadas as condições intelectuais para a gestação de duas vertentes da cordialidade oficial: a postura tolerante em relação ao elevado perfil da diplomacia argentina e a busca sistemática por faixas de cooperação comercial e política. Esperava-se diluir, mediante esses mecanismos, o potencial perturbador que a Argentina exercia sobre a política externa brasileira no contexto da nova estrutura da América do Sul. 1.2. O papel do pan-americanismo Estabelecida em finais do século XIX, a cordialidade oficial foi testemunha do surgimento da nova potência hemisférica, os Estados Unidos, fenômeno que viria a condicionar a vida internacional da América do Sul a partir de então. Os preceitos do Visconde do Rio Branco foram, assim, adaptados para lidar com uma das interações mais perturbadoras das relações internacionais da região nos últimos cem anos: as posições divergentes de Argentina e Brasil face aos Estados Unidos. Ainda na década de 1880, Buenos Aires e Washington emitiam sinais de que seu relacionamento seria traumático para o conjunto da América Latina. Tratava-se da bandeira antiianque içada pela Argentina durante a I Conferência Pan-Americana (Washington, 1889) no intuito de formar uma plataforma de resistência à expansão territorial dos Estados Unidos rumo ao Pacífico e à gestação da sua hegemonia no Caribe43. Ao opor a Doutrina Drago44 ao Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe45, a delegação argentina conseguiu elevar-se à qualidade de interlocutora de primeira linha em assuntos hemisféricos46. Na resistência aos Estados Unidos, a Argentina encontrou uma causa internacional 43 CONDURU. Op.Cit., p. 63. Em 1902, a Venezuela, que havia cessado o pagamento de sua dívida pública, enfrentou o bloqueio de suas costas, a apreensão de sua frota marítima e o bombardeio de um de seus portos por Inglaterra, Alemanha e Itália, com o consentimento expresso dos Estados Unidos. A Argentina, por meio de seu chanceler Luís María Drago, condenou a postura da Casa Branca por entender que o emprego da força para a cobrança de dívidas era ilegítimo. Na América do Sul, a condenação veemente da Argentina não mobilizou o Rio de Janeiro, que preferiu um “silêncio oficial”. Para interpretações sobre este tema ver CERVO; BUENO. História..., p. 173-176 e PARADISO. Op. Cit., p. 50. 45 A Doutrina Monroe é o fundamento da diplomacia dos Estados Unidos oriundo da mensagem do presidente James Monroe ao Congresso em dezembro de 1823, advogando três pontos: a) não se permitiria nenhum novo intento de colonização européia no Novo Mundo; b) os Estados Unidos se absteriam dos assuntos referentes à Europa e, em contrapartida, c) a Europa não interviria nos governos do hemisfério ocidental. O corolário que dela emana resultou de uma série de declarações do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) entre 1901 e 1902, quando o mesmo afirmava que os Estados Unidos desempenhariam função de polícia na América Latina no intuito de garantir que essas nações cumprissem suas obrigações internacionais. MONROE DOCTRINE. In: ENCYCLOPEDIA Brittannica (Micropedia). 15. ed. Chicago: University of Chicago, 1978. vol. VI. p. 1007 e THEODORE ROOSEVELT. In: ENCYCLOPEDIA Brittannica (Macropedia). 15. ed. Chicago: University of Chicago, 1978. vol. XV. p. 1143. 46 Respondendo ao lema de “América para os Americanos”, Saenz Peña (Presidente entre 1910 e 1914) propunha a “América para a Humanidade”, calcada na idéia de que “nenhum estado americano tem direto a falar em nome de um hemisfério”. BANDEIRA. O eixo..., p. 19. 44 15 suficientemente dramática para garantir-lhe audiência permanente junto às repúblicas americanas de maneira mais ou menos homogênea até a década de 1960. A atitude argentina impôs riscos renovados ao Brasil, uma vez que o discurso não intervencionista de cunho moralista poderia ser facilmente articulado contra o Brasil, na denúncia das incipientes relações privilegiadas entre a capital brasileira e a norteamericana. A Argentina não hesitaria em denunciar os perigos de existir na vizinhança um território continental cujas fronteiras ainda se expandiam com a conivência do Departamento de Estado norte-americano. O denuncismo argentino não apenas suscitava desconfianças na vizinhança, como também pintava qualquer iniciativa regional do Brasil com as tintas da ilegitimidade. Dessa forma, todo formato que adotasse o ordenamento regional somente seria legítimo se a Argentina, principal protetor do status quo, estivesse presente. Portanto, para o Rio de Janeiro, a manutenção de laços fluidos com Washington era um instrumento a mais para resistir ao isolamento na vizinhança imediata47. A força do vínculo brasileiro-estadunidense deu seus primeiros sinais de vida quando o Rio de Janeiro defendeu a Doutrina Monroe perante uma platéia de hispano-americanos reticentes, assim como apoiou os Estados Unidos durante a guerra que esses travaram com a Espanha48. Esses gestos foram correspondidos por Washington durante a revolta da Armada do Rio de Janeiro (1893)49 e o arbítrio da questão de Palmas50. Sobre essa lógica operou a cordialidade oficial. Ao tirar proveito da discórdia argentino-estadunidense, o Brasil concebeu sua diplomacia como catalisadora do diálogo entre dois países centrais de seu horizonte externo. De tal sorte, a promoção dos bons ofícios fez do Itamaraty elemento necessário para a concertação política em nível hemisférico51. 47 BURNS, E. Bradford. The unwritten alliance: Rio Branco and Brazilian-American relations. New York: Columbia University Press, 1966. p. 62 e 81. 48 A Guerra Hispano-Americana teve lugar em 1898. Suas causas incluem a pressão doméstica nos Estados Unidos por uma política expansionista capaz de gerar novos mercados e territórios e a campanha interna para aumentar o envolvimento do país no estrangeiro. Ao sair perdedora da Guerra, a Espanha cedeu aos Estados Unidos os territórios de Cuba, Porto Rico, Filipinas e Guam. 49 Oficiais da Marinha promoveram a Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, em setembro de 1893. O fizeram ao declarar-se contra o governo do Marechal Floriano Peixoto (1891-1894), e constituiu um teste de força à República recém instaurada (1889). A revolta foi eliminada pelas forças legalistas, com o apoio dos Estados Unidos, em março de 1894. 50 Em 1895, o Presidente Cleaveland abritrou a questão territorial de Palmas/Misiones entre Argentina e Brasil em favor do último, aceitando a linha argumentativa de Rio Branco, chefe da delegação do Rio de Janeiro, que a fundamentava sobre: documentos históricos elucidativos da integração daquela região ao Brasil desde o século XVII; o princípio do uti possidetis da época da Independência, não questionado pela Argentina até 1881; e a importância geográfica da região para a integridade territorial brasileira. 51 BURNS. Op. Cit. p. 175. 16 1.3. Primeiros passos da cordialidade oficial A Argentina e os argentinos ocuparam um lugar significativo na visão de mundo do Barão do Rio Branco, chanceler brasileiro entre 1902 e 1912 e filho do Visconde do Rio Branco. A ele coube, nos primeiros anos do Brasil republicano, implementar a orientação vislumbrada pelo pai. Herdeiro da tradição diplomática imperial e espectador da geopolítica européia de finais do século XIX, o Barão compreendeu que os desafios impostos pela Argentina estavam no cerne de qualquer projeto coerente de liderança regional do Brasil. O Barão ascendeu à chefia do Itamaraty depois de colher uma vitória decisiva na consolidação da estrutura física do país52, a resolução do contencioso com a Argentina pelo território de Palmas (1895), que terminou sendo incorporado ao território brasileiro. Desde o princípio de sua gestão, as relações com aquele país foram turvadas por agendas concorrentes de compra de armamentos e treinamento de missões militares européias, elementos desestabilizadores da paz na região53. As divergências também se tornaram evidentes no campo do direito internacional. Segundo a Argentina, era necessário que a sociedade internacional encontrasse instrumentos capazes de frear a política de poder das grandes potências. O argumento de Buenos Aires, apresentado na II Conferência de Paz de Haia (1907) e conhecido como Doutrina Drago, sustentava que o não-pagamento de dívidas não poderia servir como justificativa para a intervenção armada em territórios soberanos. Diferentemente, o Barão entendia que a intervenção era um instrumento legítimo quando as instabilidades dos pequenos ameaçassem a manutenção do status quo. O Barão procurou definir as bases do eixo Rio de Janeiro – Buenos Aires sobre um condomínio de poder que permitisse gerenciar uma estrutura estável de paz na América do Sul. Ou seja, os desentendimentos não afastaram Rio Branco de sua fixação pela estabilidade dos sistemas internacionais, que no caso sul-americano poderia ser realizado mediante um “concerto dos grandes”. Dessa maneira, propôs um pacto defensivo entre Argentina, Brasil e Chile em 1904. O governo argentino rechaçou a idéia, argumentando que uma iniciativa dessa natureza turvaria o relacionamento portenho com Lima54. 52 Em anos subseqüentes, Rio Branco resolveu contenciosos territoriais com a França (1900), a Bolívia (1903), a Inglaterra (1904), a Colômbia (1907) e o Peru (1909). 53 Cf. GARCIA, E. V. Entre a América e a Europa: a política externa brasileira na década de 1920. 2001. Tese (Doutorado) – Universidade de Brasília. 54 Sobre esse assunto ver CERVO; BUENO. História..., p. 178. 17 Apesar do fracasso55, Rio Branco manteve essa agenda ativa e, dez anos depois, em 1914, os três países assinaram um tratado de cordial inteligência política e arbitragem. É plausível supor que, para ele, esse fosse um instrumento de garantia contra o perfil muitas vezes errático e denuncista da diplomacia do vizinho. Ao reconhecer interesses paralelos permanentes entre as duas nações e ao incorporar Buenos Aires e sua tradicional rival, Santiago, em um arranjo único, ficavam diluídos os possíveis efeitos deletérios da política exterior de argentina sobre a política regional do Rio de Janeiro. O resultado da política do Barão para a Argentina provou ser duradouro e esteve no centro mesmo da redefinição ocorrida na década de 1970: suas bases foram o princípio da liberdade de navegação no Prata56 e o reconhecimento tácito das relações preferenciais entre Argentina e Paraguai 57, por um lado, e Brasil e Uruguai, por outro. 1.4. O divórcio dos projetos internacionais e a consolidação da cordialidade oficial A cordialidade oficial no período do entreguerras (1919-1939) ganhou renovada importância devido às turbulências que marcaram o cenário bilateral durante o segundo decênio do século XX. O perfil da mesma foi então adequado à nova perspectiva norteamericana em relação à intervenção e à densidade que a agenda econômica ganhou na concepção da diplomacia varguista. Durante os primeiros anos da década de 1920, a decisão brasileira de equipar a sua Marinha de Guerra fortaleceu as desconfianças e municiou a crítica argentina. Perante esse desafio, o Itamaraty recuou, optando por uma postura apaziguadora em relação ao vizinho do sul58. Mais uma vez, a preservação do bom entendimento bilateral propugnada pelo Rio de Janeiro tinha conotações de prevenção. Esses eventos tiveram lugar enquanto a Argentina, ao inserir-se no contexto da luta entre as potências mundiais da época, ganhava relevância estratégica em assuntos globais: a partir dos anos vintes, a Argentina passou a viver uma relação triangular com os Estados Unidos e o Reino Unido. Embora mantivesse tradicionais laços econômicos, financeiros e comerciais com Londres, já era o primeiro mercado consumidor de produtos norteamericanos na América do Sul. Dessa forma, o déficit da balança comercial que Londres mantinha com Buenos Aires constituía fonte de financiamento do déficit comercial que a 55 DORATIOTO, F. M. A política platina do Barão do Rio Branco. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 43, n. 2, p. 130-149, 2000. p. 144. 56 BANDEIRA. As relações regionais... p. 216-217. 57 DORATIOTO. A política platina..., p. 133. 58 GARCIA. Op. Cit., p. 478 18 capital argentina mantinha com Washington, dinâmica que vingou até iniciada a II Guerra Mundial (1939-1945)59. Isso era problemático para o Brasil, uma vez que sua principal fonte de constrangimento na região, a Argentina, ganhava relevância sem igual nas Américas. Mais do que isso, o novo afã antiintervencionista norte-americano impunha uma agenda segundo a qual o Itamaraty deveria redefinir o significado do pan-americanismo em suas relações internacionais e, conseqüentemente, o perfil de sua inserção na América Latina. Nesse contexto, a modelo tradicional da diplomacia brasileira manteve as suas prerrogativas. Entretanto, o Brasil viu seu espaço de manobras crescer com a evolução do discurso norte-americano ao longo do período, intervencionista na Conferência de Havana (1928) e defensor da política de boa vizinhança de Roosevelt na Conferência Americana de Buenos Aires (1936). Essa revisão da política externa norte-americana certamente facilitou a coexistência, nas relações exteriores brasileiras, da amizade entre Rio de Janeiro e Washington com a sempre imperiosa necessidade de evitar o isolamento do Itamaraty junto às chancelarias latino-americanas. Mais especificamente, a diluição da percepção latinoamericana sobre as simpatias do Rio de Janeiro para o intervencionismo foi essencial para enfrentar o poder do discurso libertário da Argentina na região. A tendência brasileira ao ganho de espaços de manobra nos assuntos regionais fortaleceu-se na década de 1930, quando adveio a diplomacia do desenvolvimento na América Latina60, qual fosse a instrumentalização dos vínculos internacionais em prol do incipiente esforço de desenvolvimento industrial. Nesse ambiente, Argentina e Brasil fizeram escolhas internacionais essencialmente díspares, que terminariam por conduzi-los a resultados substancialmente distintos ao fim do conflito mundial encerrado em 1945. Enquanto o Estado Novo enterrava a era das oligarquias no Brasil, o golpe militar na Argentina outorgava o poder aos interesses agropastoris. Naquele país, a vertente externa levou ao abandono da identidade latino-americana conforme desenhada nos primeiros anos do século XX, assim como ao retorno de relações preferenciais com a Europa na falida tentativa de emular os sucessos que o projeto nacional havia experimentado durante a Belle Epoque61. No Brasil, a quebra do ordenamento constitucional de 1930 resultou na nacionalização da política brasileira, isto é, fortaleceu atores nacionais (por oposição a 59 CERVO; RAPOPORT. Op. Cit., p. 254-255. Para uma análise exaustiva sobre o tema, ver ESCUDÉ, Carlos. The Argentine eclipse: the international factor in Argentina's post World War II decline. 1981. Tese (Doutorado) – University of Yale. 60 CERVO. Relações internacionais..., p. 102-103. 61 Ver PUIG, J. C. Política internacional argentina. In: PERINA, R. M. e RUSSEL, R. (Orgs.). Argentina en el mundo, 1973-1987. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1988. p. 11-45. 19 federados), criou uma agenda única para o setor público e mecanismos para a formulação e a implementação centralizada de políticas públicas62. O projeto de poder de Getúlio Vargas63 refletiu-se na política externa brasileira ao incrementar nela o conteúdo econômico em níveis até então desconhecidos. Vargas procedeu a reformar o comércio exterior brasileiro, aderindo aos dois regimes comerciais que dividiam o mundo entre anglo-saxões e europeus: seletivamente, o Brasil utilizou simultaneamente o liberalismo e o comércio compensado. Dessa forma, o Itamaraty buscava auferir os ganhos do livre comércio propugnado pelos Estados Unidos ao mesmo tempo em que aderia a um denso programa de intercâmbio guiado pelo Estado com a Alemanha e a Itália64. A adoção de escolhas tão distintas entre os dois poderes sul-americanos não os livrou de uma agenda bilateral de alta tensão. Os temas em pauta não eram novos: o equilíbrio de poder no Prata, a gestação de um ordenamento regional legítimo e a resolução dos contenciosos comerciais. A resposta brasileira para esses desafios foi o fortalecimento da cordialidade oficial: quando o equilíbrio de poder foi sujeito à Guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai (1932-1935), Argentina e Brasil mantiveram o nível de entendimento apesar das desconfianças do Rio de Janeiro em relação às verdadeiras intenções do Presidente Justo65. A série de visitas presidenciais devida a esse assunto evidencia que a percepção corrente era a de que a reconstrução da paz dependia da legitimidade que os dois grandes emprestassem ao acordo final. A legitimidade da ordem regional, desafiada sistematicamente desde a primeira década do século XX pelas incessantes erupções do armamentismo, chegava a um fim mediante o consenso dos grandes e a anuência dos pequenos. Argentina, Brasil, Chile, México, Paraguai e Uruguai assinavam o Tratado Antibélico de Não-Agressão e de Conciliação (Rio de Janeiro, 1933), também conhecido como Pacto Saavedra-Lamas. A sombra da corrida armamentista no Cone Sul era progressivamente dissipada sob a noção de que o encontro de marcos de referência comuns em assuntos regionais diminuiria as incertezas inerentes à vida internacional66. O entendimento bilateral de altíssimo nível, ilustrado pela viagem de Vargas ao Prata em 1935, restringia o potencial desentendimento que os vínculos diferenciados da 62 CARVALHO, J. M. de. Vargas e os militares. In: PANDOLFI, D. (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999. p. 341-345. 63 Presidente brasileiro durante o governo provisório de 1930-1934, presidente eleito entre 1934-1937, presidente de fato de 1937 a 1945, e presidente eleito entre 1951 e 1954. 64 CERVO. Relações internacionais..., p. 40-41 65 DORATIOTO. As políticas..., p. 446-458 66 O presidente Justo visitou o Rio de Janeiro em 1933 para assinar o Pacto Saavedra-Lamas. Vargas, por sua vez, foi a Buenos Aires em 1935 por ocasião da Conferência de Paz do Chaco. Ver FRAGA, R. Los Acuerdos Vargas-Justo, 1933-1935. In: FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO. A visão do outro: seminário Brasil–Argentina. Brasília: FUNAG, 2000. p. 401-422. 20 Argentina e do Brasil no resto do mundo poderiam provocar na segurança da América do Sul. Ou seja, a cordialidade oficial era instrumentalizada para garantir a estabilidade da paz apesar da competição pela renovação militar em que os dois países se engajavam desde a década de 1910. Já sob o novo tom da diplomacia varguista, o relacionamento bilateral entre Argentina e Brasil estava embebido de uma inovadora significação, uma vez que o segundo tornara-se um dos maiores clientes comerciais da primeira67. Ressurgia a proposta brasileira de uma união aduaneira aberta à adesão dos vizinhos, agenda que as diplomacias formalizariam mediante tratado comercial em 1941. Dessa forma, o Brasil respondia ao perfil declaradamente europeísta da política comercial argentina mediante a oferta de um programa comum de comércio que impossibilitasse a tendência à política de desvalorizações competitivas (beggar thy neighbour), tão comum na Europa. Vingava, na política do Itamaraty para a Argentina, a percepção segundo a qual o caminho das hostilidades, mesmo restrito ao campo comercial, seria prejudicial aos interesses brasileiros e, para tanto, era dever brasileiro precaver-se mediante fórmulas de consenso com o vizinho. O entreguerras constitui, portanto, um período no qual a busca insistente por faixas de coincidência guiou a política do Itamaraty para Buenos Aires. Em um clima de desconfianças bilaterais e de redefinição dos perfis produtivos e diplomáticos – conjuntura na qual a busca de solidariedades é pouco provável – a concertação política de alto nível constituiu-se como rota possível e efetivamente procurada pela diplomacia brasileira em sua vertente austral. Em síntese, à época em que os projetos internacionais dos dois países se estranhavam, e ganhava forma a diplomacia brasileira para o desenvolvimento, a cordialidade oficial foi o elemento estabilizador das turbulências inerentes às relações entre Argentina e Brasil. 67 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 26. 21 1.5. A dimensão hemisférica da cordialidade oficial Durante a II Guerra Mundial, a cordialidade oficial foi contaminada pelo fenômeno do nacional–populismo. Dos dois lados do Prata, o carisma dos mandatários foi testado pela força das paixões mobilizadoras que marcam todo o período. A despeito da conformação de dois estilos definitivamente distintos de lidar com o fenômeno durante o período, a diplomacia brasileira não abandonou sua abordagem para a Argentina. Ao contrário, reforçou-a mediante o poder de alavancagem que conseguira estruturar durante o confronto mundial de 1939-1945. Isso teve lugar em função das opções que cada país fez durante a II Guerra Mundial. A diplomacia brasileira, por exemplo, somou-se decididamente ao esforço de guerra sob a tutela dos Estados Unidos. Embora seu perfil econômico lhe permitisse ensaiar a negociação concreta das preferências comerciais entre o Eixo e os Aliados, atuou ao lado do Ocidente liberal. Ainda durante o conflito, o Brasil recebeu os primeiros frutos da cooperação em forma de insumos concretos ao seu desenvolvimento, embora seja consenso na literatura que o apoio americano ficou aquém das expectativas alimentadas pelas elites nacionais68. Do ponto de vista ideológico, Vargas definiu uma rota de estreita cooperação com os Estados Unidos no quadro do pan-americanismo, que vingaria até o fim da II Guerra Mundial69. O pan-americanismo não mais constituía uma visão de mundo sobre a política norte-americana de poder nas Américas, e sim a defesa dos valores que, em definitivo, cindiram o mundo dos Aliados e do Eixo durante o conflito mundial. Nesse quadro, as resistências latino-americanas a um Brasil pró-Washington cederam se comparadas àquelas presentes durante os primeiros anos do século XX. Já a Argentina ensaiou um caminho oposto. Alimentando-se dos ressentimentos de caráter antiamericanista gestados desde finais do século XIX, Buenos Aires resistiu a aderir ao esforço de guerra, a proibir a propaganda fascista em seu território e a cortar laços comerciais com o Eixo70. O embate entre aquela capital e Washington excedia os interesses pontuais de cada país. Tratava-se de uma disputa pelo comando moral da política internacional nas Américas. Findo o conflito, os Estados Unidos esforçaram-se por excluir 68 HIRST, M. A política externa do segundo governo Vargas. In: ALBUQUERQUE. Op. Cit., p. 211-230. v. 1. p. 213. 69 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 35. 70 LANÚS. Op. Cit., p. 18-25. 22 a Argentina da redefinição do sistema interamericano71. Quando Washington propôs a criação de um organismo regional para administrar os assuntos hemisféricos, a Argentina não hesitou em acionar os tradicionais interesses espanhóis em assuntos hispanoamericanos para obstar esse movimento, além de mobilizar a África do Sul em questões referentes ao quadrante austral do Atlântico72, frustrando assim os objetivos norteamericanos. Além disso, os Estados Unidos viram-se constrangidos diante dos fortes interesses comerciais que o Reino Unido tinha na Argentina. Da capital britânica, Churchill manteve sistemática correspondência com Roosevelt sobre o assunto, tentando dissuadi-lo de impedir a consecução dos interesses privados britânicos e a busca de suprimentos alimentares essenciais para o país devastado73. Uma fonte de preocupação para o Rio de Janeiro nesse contexto era a tática utilizada por Juan Domingo Perón74 para angariar apoios na região. A diplomacia argentina propusera ao Chile um eixo de complementação econômica alternativo ao panamericanismo (1943). As possibilidades da Argentina faziam-se notar, também, no Uruguai e no Paraguai, onde Buenos Aires monopolizava o comércio, os transportes e a influência política75. Essas apreensões levaram o chanceler brasileiro, Oswaldo Aranha, a oferecer, sem sucesso, os ofícios do Itamaraty para promover o entendimento entre a Argentina e os Estados Unidos76. Essa dimensão do comportamento brasileiro ganhou impulso durante a Conferência de Chapultepec (1945), na qual foi negociado o novo modelo de cooperação hemisférica e da qual o Departamento de Estado conseguira excluir Buenos Aires. Segundo a literatura brasileira77, a diplomacia do Itamaraty trabalhou para garantir que a Argentina pudesse aderir à Carta da conferência, evento que criou as condições para que pudesse mais tarde participar das Nações Unidas. Segundo essa produção, o presidente Eurico Gaspar 71 Entre 1942 e 1949, as sanções americanas contra Buenos Aires incluíram: a probição de exportar matérias primas ou de material que pudesse ser utilizado para fins militares à Argentina; a proibição de transportar produtos norte-americanos em barcos argentinos; o bloqueio dos depósitos em ouro do Banco de la Nación e da Província de Buenos Aires nos Estados Unidos; a proibição de importar, nos EUA, produtos de origem argentina que não fossem imprescindíveis ao esforço de guerra; a proibição de que naves de bandeira americana tocassem portos argentinos; o cancelamento da compra de carnes enlatadas de procedência argentina; e o esforço para que os recursos do Plano Marshall de reconstrução européia não fossem utilizados na compra de alimentos oriundos da Argentina, ver LANÚS. Op. Cit., p. 27. 72 CERVO. Relações internacionais..., p. 81-83. 73 Ver ESCUDÉ. Op. Cit. 74 Presidente argentino entre 1946-1951, 1951-1955 e 1973-1976. 75 CERVO. Relações internacionais..., p. 65-66. 76 Evidências disso encontram-se nos telegramas e ofícios de Washington e das capitais sul-americanas à Chancelaria brasileira de setembro de 1943, Arquivo Histórico do Itamaraty (Rio de Janeiro), lata 1626, maço 34993, Apud. CERVO. Relações internacionais..., p. 48-51. 77 MOURA, Gerson. A segurança coletiva continental: o sistema interamericano, o TIAR e a Guerra Fria. In: ALBUQUERQUE. Op. Cit., p. 161-172. v. 1. p. 163. 23 Dutra (1946-1951) teria se negado a dar vida a um novo ordenamento sem a participação do vizinho78. Parte da literatura argentina, todavia, argumenta que o Brasil foi, efetivamente, uma força obstrutora das possibilidades internacionais argentinas no imediato pós-guerra79. Outra parte afirma que toda a América Latina isolou a Argentina em seu neutralismo, até que vieram em seu resgate nos instantes finais da Guerra80. Fato é que a readmissão da Argentina à família americana após Chapultepec permitiu-lhe participar da Conferência do Rio de Janeiro (1947) em condições privilegiadas. Mais uma vez paladina do antiamericanismo, a sua diplomacia negociou pragmaticamente a sua adesão ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) – e, portanto, a aceitação da hegemonia americana no mundo ocidental81 – em troca do desbloqueio dos recursos argentinos nos Estados Unidos. Para tanto, aguçou os interesses privados da potência hemisférica ao assegurar que utilizaria os recursos liberados para a compra de equipamentos de origem americana82. A barganha argentina acuara o Itamaraty. A correspondência diplomática da época evidencia o temor brasileiro do estilo diplomático argentino, dando vida às percepções que viriam a guiar o comportamento brasileiro para a Argentina durante quase uma década83. Em suma, o conflito internacional que abalou o mundo entre 1939 e 1945, impôs um desafio e uma oportunidade peculiares à política continental do Brasil. Por um lado, deixou-o na desconfortável e delicada situação de posicionar-se a favor dos Estados Unidos sem melindrar o relacionamento com a Argentina sob pena de tornar-se vítima do discurso peronista de caráter redentor. Por outro, possibilitou ao Rio de Janeiro colocar-se sobre o embate de seus dois eixos diplomáticos fundamentais, Argentina e Estados Unidos. Abriu, assim, espaço para que o Rio de Janeiro ensaiasse os bons ofícios que impediriam a gestação de um ordenamento regional, o qual, sem a participação do vizinho, seria ilegítimo e perigoso, uma vez que o pressionaria adotar um curso internacional revolucionário. 78 HILTON. The argentine factor..., p. 38. LANÚS. Op. Cit., p. 22-23. 80 PUIG. Politica internacional..., p. 27. 81 MOURA. A segurança..., p. 168. 82 CERVO. Relações internacionais..., p. 90-91. 83 Ibid., p. 87-88. 79 24 1.6. A inflexão no modelo: a diplomacia da obstrução Durante a década que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial, o guia de atuação para Buenos Aires perdeu a legitimidade nas práticas do Itamaraty e cedeu às percepções que, simultaneamente, temiam e evitavam associar o Brasil à Argentina de Perón. Esse período da história do eixo bilateral foi batizado por Cervo de diplomacia da obstrução84. Após a Conferência de São Francisco (1945), a Argentina normalizou as suas relações com o mundo85. A popularidade de Perón alimentava o seu estilo espetaculoso de fazer política externa: grandes declarações, a mobilização popular de cunho anticomunista e a articulação de um sistema de relacionamentos bilaterais voltados para a expansão da presença argentina na América do Sul. Assim recompunha-se o relacionamento com os Estados Unidos sem o tom antiianque visceral que outrora justificava a vinculação européia de Buenos Aires86. Entre 1947 e 1948, o Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, havia estabelecido densas agendas com Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Venezuela, países em que a diplomacia brasileira acreditava haver ações desestabilizadoras de Perón. Efetivamente, as legações argentinas nas capitais sul-americanas incluíam, à época, um corpo de adidos diplomáticos para as áreas militar, policial, naval e sindical.87. A atualização da política externa peronista previa, porém, o estabelecimento de relações com Cuba, Coréia do Norte, Vietnã do Norte e Alemanha Oriental, em uma afronta aberta à liderança norte-americana em assuntos hemisféricos. Fenômeno esse que foi certamente intensificado em 1951, quando Perón anunciou o domínio completo do ciclo nuclear. Nessa conjuntura, as imprensas de Argentina e Brasil eram inundadas pelos rumores de que ambos os países tinham intenções e planos secretos hostis e agressivos em relação um ao outro. À época, a Argentina ainda constituía o principal cenário de conflitos hipotéticos para o Brasil: o Rio Grande do Sul albergava três das sete Divisões de Infantaria brasileiras e três de Cavalaria, enquanto na Amazônia havia apenas um batalhão e uns poucos destacamentos88. As percepções antiargentinas no Brasil foram fortalecidas quando o chanceler Raul Fernandes enviou o deputado Arnon de Mello a Buenos Aires para estudar o peronismo. Concluiu o político que a Argentina estava preparando uma guerra 84 Ibid. p. 211-228. LANÚS. Op. Cit., p. 26-33. PUIG. Politica internacional..., p. 28-30. 87 CERVO. Relações internacionais, p. 160-161. 88 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 83. 85 86 25 contra o Brasil, o grande obstáculo a sua expansão89. Já desde princípios do governo Dutra (1946-1951), o Itamaraty rechaçava a idéia da integração regional promovida pela diplomacia peronista. Em 1947, durante encontro presidencial em Uruguaiana (Rio Grande do Sul), a diplomacia brasileira evidenciava as suas resistências e notava-se a ausência de uma política propositiva, ou mesmo reativa, aos desafios impostos pela política externa do país austral. No Brasil, o aparato de propaganda peronista era visto como um limite à racionalidade das ações da Casa Rosada na América do Sul, uma vez que as decisões lá tomadas eram interpretadas como produto do imediatismo e do amadorismo do presidente argentino90. Essa resistência do Itamaraty a vincular-se à diplomacia peronista, associada a um processo de tomada de decisão bastante cindido entre os escalões do Estado brasileiro, caracteriza a diplomacia da obstrução. O conceito é fruto da série de eventos por meio dos quais o Itamaraty resistiu às propostas integracionistas de Perón, evitou a proximidade com o projeto internacional argentino e adotou uma atitude passiva em relação aos vínculos bilaterais que Buenos Aires estabelecia rapidamente na região. Entre 1945 e 1951, Perón fez quatro propostas de associação com o Brasil e o Chile em uma reedição do Pacto ABC, dessa vez com conteúdos comerciais, de complementação econômica e de integração física. Nas quatro ocasiões, a reação brasileira foi a não-resposta91, o que terminaria por irritar Perón profundamente e concorrer para a crise institucional que se abateu sobre o Brasil nos últimos meses da vida de Vargas (1954)92. As tensões provocadas pela postura da diplomacia profissional do Brasil em relação à condução dos negócios com a Argentina envolviam uma prática decisória pouco usual nas tradições da Casa diplomática brasileira. A diplomacia da obstrução, cujos defensores mais fervorosos ocupavam o primeiro escalão da chancelaria – Neves da Fontoura (1946 e 1951-53), Raul Fernandes (1946-51 e 1954-55) e Vicente Ráo (1953-54) – não era ponto pacífico em todos os setores do Itamaraty, nem foi operada em sincronia com a Presidência da República ao longo do período93. Por exemplo, apesar de mostrar-se apática ao discurso diplomático portenho, de relegar a segundo plano a busca de eixos de coincidência e de convergência de projetos internacionais, a diplomacia da obstrução deixou intacta a vertente facilitadora das relações 89 MELLO, A. de. Situação Político-Militar da Argentina e suas relações com o Brasil. Mimeo, 22 de dezembro de 1948. Apud. HILTON. The Argentine factor..., p. 33. 90 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 84-88. 91 LANÚS. Op. Cit., p. 313. 92 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 93. 93 CERVO. Relações internacionais..., p. 178-179. 26 entre o Palácio San Martín e o Departamento de Estado norte-americano. De fato, a agenda peronista durante o encontro de Uruguaiana era estruturada em torno do apoio brasileiro à reinserção da Argentina na comunidade pan-americana. Para esse fim, Perón contava com o auxílio de Dutra, que efetivamente ajudou na dissuasão do governo norteamericano. Essas incoerências na política para a Argentina ficam claras nas orientações contraditórias do governo brasileiro, as quais definem o padrão de relacionamento com a Argentina de Perón. Por um lado, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, indicado diretamente pelo presidente Vargas, era desautorizado em correspondências emitidas de sua própria embaixada, motivo pelo qual as informações e percepções do chefe da legação perante o governo peronista não eram interpretadas pelo Itamaraty como insumos válidos para a tomada de decisão94. Além disso, sabe-se que a péssima imagem de Perón e do peronismo, em um país que já experimentava as grandes mobilizações populares da primeira experiência democrática e urbana, impedia Vargas de atuar ativamente em relação ao vizinho. Note-se que, em seu último mandato (1951-1954), Vargas encontrava-se constrangido pelos dois produtos resultantes do projeto de poder do Estado Novo: as Forças Armadas e o sistema partidário. Esse fenômeno não poupou a política externa, uma vez que essas duas instituições também contavam com representantes que atuavam na diplomacia, notadamente Góis Monteiro95 e Neves da Fontoura – opositores frontais à inteligência de alto nível entre Vargas e o governo argentino. A documentação primária disponível oferece indícios de que, no intuito de esquivar as resistências ao seu diálogo com Perón, Vargas utilizou agentes pessoais que serviram de elo. Aparentemente, nem sequer o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Batista Lusardo, que criara laços de intimidade com Perón, sabia desse canal informal de comunicação96. Contudo, as tentativas de Vargas foram malogradas e, em vez de criar confiança, decepcionaram Perón, que denunciou com estardalhaço as contradições brasileiras97. Dessa maneira, a diplomacia da obstrução caracterizou-se pelo duplo comando da política externa brasileira para a Argentina, opondo o Itamaraty ao Catete em uma dinâmica que consagrou os interesses do primeiro entre 1946 e 1955. A chancelaria havia paralisado a interação com Buenos Aires em uma postura que, em perspectiva histórica, evidencia os delicados equilíbrios de um sistema político instável. 94 Ibid., p. 156-157. HIRST. Op. Cit., p. 223-224. Orlando Leite Ribeiro a Vicente Rao, ofício, Buenos Aires, 8 abril de 1954, AHMRE, caixa 01. Apud. CERVO. Relações internacionais..., p. 197. 97 Para trechos do discurso de Perón ver cronologia anexa. 95 96 27 Note-se que a política peronista de aproximação com os Estados Unidos não somente ocorreu em função de uma nova compreensão dos argentinos do papel do sistema financeiro internacional sobre o projeto de desenvolvimento nacional98, mas também como reação ao Acordo Militar Argentino-Brasileiro de 1952; à negativa brasileira – comandada por Góis Monteiro desde o Estado Maior das Forças Armadas -- de assinar instrumento similar com a Argentina; e à falta de resposta por parte do Itamaraty sobre as intenções integracionistas de Buenos Aires99. De certa forma, a diplomacia da obstrução estreitou o espaço para a atuação concertadora do Brasil, uma vez que contribuiu para o entendimento bilateral complexo, mas não confrontacionista, que marcou as relações argentino-estadunidenses desde o governo de Arturo Frondizi até a invasão argentina às Ilhas Malvinas (1982). 1.7. A retomada da orientação cordial: os caminhos de Uruguaiana. Entre 1956 e 1966, a cordialidade oficial foi recuperada pela diplomacia brasileira. O seu retorno foi marcado pela dramática evolução das políticas exteriores de ambos os países face ao perigo do comunismo na América Latina e à alternativa que Juscelino Kubitschek (1956-1960) e Frondizi (1958-1962) ofereceram, sem sucesso, aos Estados Unidos. Nesse contexto, a tradicional postura em relação à Argentina foi instrumentalizada pelo Itamaraty para diluir o alinhamento automático do Brasil aos Estados Unidos que, durante a gestão de Dutra, tinha evidenciado seus limites. Na década de 1950, as novas idéias sobre desenvolvimento econômico concebidas por alguns setores das Nações Unidas, alimentaram uma reação de Argentina (1959) e Brasil (1956) aos constrangimentos da economia internacional do pós-guerra calcada no programa de ação que seria conhecido como desenvolvimentismo100. Nesse modelo de referência, o crescimento econômico é interpretado como uma função do investimento direto intensivo em setores prioritários, criando dessa maneira uma demanda natural por fontes de financiamento externo. No Brasil de Kubitscheck, essa agenda foi efetivamente implementada mediante a aliança de industriais nacionais e tecnocratas de Estado apoiados pelos trabalhadores urbanos, intelectuais e até mesmo algumas parcelas da elite rural, outorgando conotações nacionalistas ao movimento associado diretamente à imagem presidencial. Na Argentina de Frondizi, onde o desarrollismo também ocupava o centro da 98 PARADISO. Op. Cit., p. 123-135. BANDEIRA. Estado nacional..., p. 90. 100 SIKKINK, K. Ideas and institutions: developmentalism in Brazil and Argentina. Ithaca: Cornell University Press, 1991. p. 12. 99 28 agenda pessoal do presidente, os atores políticos centrais não foram capazes de gerar consenso em torno ao programa econômico. Para Kubitschek e Frondizi, o desenvolvimento econômico das nações mais atrasadas era uma pré-condição para preservar valores políticos como a democracia, a liberdade e a autonomia nacional, isto é, o investimento privado norte-americano deveria ser canalizado para as nações latinoamericanas sob a sombra da expansão comunista na região. Curiosamente, nem sequer os principais beneficiários do modelo – os industriais – associaram-se ao projeto frondizista. Dessa forma, o programa argentino foi vinculado ao antinacionalismo e provocou o desgaste institucional da Presidência, que levaria à deposição do mandatário em 1962. Mediante duas iniciativas internacionais de envergadura inédita no Cone Sul, Argentina e Brasil utilizaram o marco referencial do desenvolvimentismo para conformar um pólo ideológico e econômico ao sul do Continente. A primeira – Operação PanAmericana (OPA, 1959) – lançava a proposta de dar um caráter eminentemente econômico à política internacional das Américas como solução aos desafios impostos pela União Soviética, sugestão que seria implementada por meio de uma agenda de concertação política continental ampla e geral101. Consagrava os princípios do multilateralismo entre os subdesenvolvidos, trazendo à agenda os potenciais benefícios da cooperação políticoeconômica na região. Apesar do fracasso em fundar um novo ordenamento regional, a OPA precedeu a concepção argentino-brasileira de que o Cone Sul poderia ser, efetivamente, um pólo atrativo da atenção internacional por oposição ao Caribe, que graças ao novo regime castrista tornara-se o ponto de gravidade dos assuntos interamericanos. Essa pauta seria lançada a público por uma segunda iniciativa, processo que passou à história das relações bilaterais como o espírito de Uruguaiana (1961)102. Três eram os objetivos principais de Uruguaiana: o estabelecimento de uma sistemática de consulta política de alto nível; a coordenação das posições de ambos os países em foros internacionais; e a troca de informações sensíveis aos respectivos projetos nacionais de desenvolvimento. As idéias que originaram a pauta dos encontros foram desenhadas, originalmente, por uma equipe de jovens diplomatas argentinos ligados diretamente ao novo mandatário. 101 CERVO, Amado L. (Org.). O desafio internacional. Brasília: Universidade de Brasília, 1994. p. 40. Espírito de Uruguaiana foi o nome dado ao conjunto de acordos assinados por Jânio Quadros e Arturo Frondizi, discriminados a seguir: Convênio de Amizade e Consulta; Declaração Presidencial Conjunta; Declaração Econômica; e Declaração sobre Intercâmbio Cultural, celebrados na cidade fronteiriça de Uruguaiana (Rio Grande do Sul) entre 20 e 22 de abril de 1961. A esses documentos, somam-se a Declaração Conjunta, o Tratado de Extradição e a Convenção sobre Assistência Judiciária Gratuita que o chanceler San Tiago Dantas assinou com seu par argentino, Miguel Cárcano, em novembro do mesmo ano, em Buenos Aires. 102 29 A impossibilidade de avançar semelhante agenda ficou patente quando o Congresso argentino negou-se a validar os instrumentos de Uruguaiana e, uma semana depois, Frondizi foi afastado da Casa Rosada (1962). Era o fim do discurso mobilizador aplicado às diplomacias dos dois países sul-americanos. O espírito de Uruguaiana passou a ser sinônimo do fracasso frondizista, e seus princípios foram rechaçados pela diplomacia argentina entre 1962 e 1976103, quando um de seus criadores, Oscar Camilión, foi convocado pela Junta Militar para, aparentemente, revivê-lo e aplicá-lo à negociação bilateral pela utilização dos recursos hídricos do Prata. Findo o governo constitucional por força de um golpe militar de José Maria Guido (1962-1963), a embaixada brasileira em Buenos Aires sugeria ao Itamaraty: “Nada esperar deste governo, mas de modo algum hostilizá-lo, porquanto a manutenção de, pelo menos, relações diplomáticas boas entre Brasil e Argentina, constitui imperativo estratégico elementar não só para os dois países em particular, como para o resto da América Latina, em conjunto”104. 1.8. O ocaso da cordialidade oficial Do fracasso de Uruguaiana até o fim da década, a cordialidade oficial minguou no quadro conceitual da diplomacia brasileira. Embora haja diversos elementos que apontem na direção de uma tendência aproximadora das duas diplomacias em tempos de governos militares pró-ocidentalistas105, também há sinais que evidenciam o crescimento de resistências a aplicar os mecanismos daquele conjunto de princípios e concepções às relações com a Argentina. Esses sinais denotam o avanço de processos estruturais e eventos conjunturais que, com o tempo, passavam a suscitar questões sobre a real necessidade do Itamaraty manter uma rota preventiva em suas relações com a Argentina. Parece haver indícios de que semelhante agenda começava a ser vista como um fardo excessivamente pesado para o Brasil. Em primeiro lugar, vale mencionar o avanço do programa diplomático de multilateralização da política externa brasileira que os governos militares implantaram 103 Silveira a Geisel, informação para o Senhor Presidente da República, Brasília, 25 de junho de 1976, n. 228, Arquivo Azeredo da Silveira (doravante AAS), 1976. CPDOC/FGV. 104 Legação do Brasil a San Tiago Dantas, ofício, Buenos Aires, 16 de junho de 1962, AHMRE, caixa 04. Apud. CERVO, Relações internacionais..., p. 108. 105 Por exemplo, a cooperação com os Estados Unidos em assuntos de segurança regional; os entendimentos para combater conjuntamente o comunismo; a defesa das 200 milhas para o mar territorial; a proposta de criação de uma união aduaneira no Cone Sul; os projetos de obras internacionais conjuntas na Bacia do Prata etc. Ver VIZENTINI, P. A política externa do regime militar brasileiro. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1998. p.52-53. 30 sistematicamente desde 1967106. Desde aquele ano, a vertente externa do desenvolvimento – que já vinha sendo ensaiada desde Vargas – transformou-se em efetivo instrumento do expansionismo econômico brasileiro107. Após décadas de ensaio, as relações do Brasil com a região poderiam ser finalmente instrumentalizadas em favor do desenvolvimento industrial do país108. A concretização desses objetivos na região certamente minaria o estilo cauteloso e preventivo que caracterizou a cordialidade oficial ao longo da história, pois sua manutenção significaria que qualquer reclamo argentino bastaria para retardar a política brasileira de expansão comercial, tamanha a susceptibilidade do aparelho de Estado brasileiro às movimentações na região. A integração física tornava-se uma força permanente na política externa brasileira109, motivo pelo qual a América Latina teria que deixar de ser problema estratégico e passar a ser instrumento de fortalecimento da economia do país. Outro fenômeno gerador do esgotamento do modelo da cordialidade oficial foi o crescente pendor do equilíbrio de poder em favor do Brasil. Observando a evolução da política internacional sul-americana, durante a década de 1960, sob perspectivas geopolíticas, diplomáticas ou econômicas, conclui-se que a preeminência no Prata havia sido efetivamente rompida favoravelmente a Brasília110. O terceiro sinal que aponta para o encerramento das condições de existência da cordialidade oficial é a redefinição dos vínculos de Argentina e Brasil com os Estados Unidos. Quando a questão cubana assumiu dimensões globais, o Presidente argentino Guido respondeu ao pedido de solidariedade de John Kennedy mediante o envio de destróieres e uma esquadra de aviões para o esforço de bloqueio à ilha. Evidenciando o crescente desconforto brasileiro com a política de convergência historicamente alimentada pelo Itamaraty em relação ao Departamento de Estado, Goulart negou-se a colaborar com forças nacionais para essa empreitada. Violando a tendência histórica, é a Argentina dos anos sessentas o país em busca de status de aliado chave dos Estados Unidos na região111. A promoção de bons ofícios entre Buenos Aires e Washington, uma das vertentes que animava a atuação brasileira desde a chancelaria do Barão de Rio Branco, perdia relevância. A tendência argentina ao alinhamento automático contrastava com a crescente 106 A tese sobre a multilateralização da política externa brasileira durante o regime militar (1964-1985) é defendida por VIZENTINI, Id. COSTA. Op. Cit. p. 27. 108 Ainda nos primeiros anos do governo Castelo Branco, o Itamaraty propôs complementação industrial e colaboração no desenvolvimento da Bacia do Amazonas a Colômbia, Equador e Peru, ensaiando a procura da liderança mediante a exploração de elementos de aproximação que marcariam a política brasileira para seus vizinhos sul-americanos na década de 1970. 109 CERVO. Relações internacionais... p. 211-235 e 241-243. 110 Cf. MELLO, Op.Cit.; COSTA, Op. Cit.; BANDEIRA, As relações regionais... 111 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 191. 107 31 distância que Brasília procurava em relação ao seu próprio passado. Não havia mais espaço para que o Brasil temesse os efeitos da denúncia do intervencionismo, expansionismo ou pró-ianquismo inerentes às “relações especiais” com os Estados Unidos. Finalmente, os sinais conjunturais que apontam a década de 1960 como o ocaso da tradicional vertente diplomática para o vizinho ao sul e, mais especificamente, o ano de 1966, concentram-se em torno da questão do aproveitamento hídrico do Prata. Em 1966, o Itamaraty assinou a Ata de Iguaçu com o Paraguai e, dessa forma, frustrou o argumento jurídico defendido pela Argentina segundo o qual toda obra hidráulica realizada em um rio internacional deveria ser submetida à consulta prévia do país a jusante. Seguindo essa idéia, conclui-se que o Brasil via-se diante de condições concretas para avançar a sua agenda regional, mesmo que isso envolvesse enfrentar a Argentina. Esse era um embate passível de ser efetivamente vencido pelo Itamaraty. Note-se que a última vez em que a diplomacia brasileira tinha enfrentado essa configuração de forças havia sido à época do Império112. Em suma, a cordialidade oficial, que outrora fôra o conjunto de mecanismos de salvaguarda que o Brasil desenhou para lidar com os desafios impostos pela Argentina, tornava-se um fardo para a agenda diplomática do país na década de 1960. 1.9. Conclusões Este capítulo apresentou uma síntese da evolução da cordialidade oficial na história do eixo argentino-brasileiro. Depreende-se dos argumentos expostos que esse conjunto de princípios e concepções que informaram a posição brasileira para a Argentina ganhou raízes e sofisticação ao longo dos anos, constituindo uma tendência na condução brasileira dos negócios bilaterais. Essa tendência parece ter-se inserido no quadro do acumulado histórico que, segundo Cervo, marca as relações internacionais do Brasil, a saber: o caráter não-confrontacionista da política, a juridicidade e o realismo na condução dos assuntos externos113. Como foi visto, essa postura visava diluir aquilo que a diplomacia brasileira compreendia como a capacidade argentina de turvar o horizonte internacional brasileiro. Para o Itamaraty, a Argentina não hesitaria em gerar uma histeria antibrasileira na América do Sul se percebesse as suas posições regionais ameaçadas pelo Rio de Janeiro e, mais tarde, Brasília. Para tanto, a Argentina contava com a legitimidade de um discurso denuncista que tinha público cativo – as repúblicas hispano-americanas – e uma rede de relacionamentos 112 113 BANDEIRA. As relações regionais..., p.324 CERVO. O desafio..., p. 28. 32 bilaterais que Buenos Aires poderia mobilizar em resposta às ações do Brasil no subcontinente. A cordialidade oficial é fundacional no Brasil: refere-se às possibilidades mesmas da presença brasileira na região. Se, durante o Império, as técnicas utilizadas calcavam-se na medição de forças, em ultimatos e em dinâmicos esquemas de alianças bilaterais, o Brasil republicano ensaiou administrar o desafio argentino no melhor espírito concertador. O acompanhamento histórico da mesma revela que essa forma de lidar com os desafios impostos pela Argentina foi adaptada pelo Itamaraty de forma flexível ao longo do tempo. Seja no esforço de definição dos mapas nacionais, na articulação dos interesses do desenvolvimento, na busca de benefícios da Grande Guerra, na definição do sistema interamericano ou na sua participação na Guerra Fria. A exceção à regularidade foi a diplomacia da obstrução (1946-1955), período no qual o governo brasileiro malogrou em relação às intenções integracionistas do peronismo e promoveu a não-resposta como guia para o gerenciamento do vínculo com a Argentina. Durante dez anos, a postura brasileira não foi nem pró-ativa nem reativa, ficando apenas estática perante a supreendente mobilização externa promovida pelo peronismo na América do Sul. A diplomacia da obstrução foi, portanto, uma inflexão na história da política brasileira para a Argentina. Seu alcance e escopo não permitiram qualificar o período como de ruptura, uma vez que as regularidades prévias a ela voltaram a permear os princípios de ação defendidos pelo Itamaraty em relação ao Palácio San Martín a partir de meados da década de 1950. Com o advento do desenvolvimentismo nas pautas domésticas de Argentina e Brasil, a cordialidade oficial retornou à cena diplomática brasileira. Dessa vez, a diplomacia brasileira encontrou eco do outro lado do Prata, assistindo à gestação de um projeto no qual o eixo bilateral ocupava a primeira linha. Porém, o associativismo das duas diplomacias não resistiu ao colapso dos respectivos ordenamentos constitucionais domésticos, relegando o espírito de Uruguaiana a segundo plano na agenda bilateral. Já durante o decênio de 1960, as pré-condições básicas da tradicional orientação foram dissipadas do horizonte internacional brasileiro. Por um lado, a Argentina já não tinha capacidade política ou econômica para mobilizar o conjunto de nações sul-americanas a qualquer momento. Sua capacidade de denúncia também havia sido manchada pela adesão automática aos desígnios norte-americanos. Por outro lado, o Brasil já contava com estrutura industrial que lhe permitia induzir interesses comerciais poderosos na região capazes de diluir a histórica desconfiança dos 33 hispano-americanos em relação a seus propósitos na América do Sul. Além disso, o progressivo abandono do alinhamento a Washington e a crescente multilateralização de seus objetivos e possibilidades no mundo o livravam do papel, rechaçado há tempos pelos vizinhos, de mero delegado do Departamento de Estado. A alta densidade econômica da política externa brasileira esboçada desde a década de 1930114 chegava aos anos sessentas com propostas concretas de integração física na América do Sul. O desenvolvimento brasileiro – seja nos moldes liberais de Dutra ou de caráter nacionalista com Vargas –, que não havia encontrado entraves na cordialidade oficial ao longo do tempo, encontrava-os agora no projeto nacional-desenvolvimentista da tecnocracia que comandou o aparelho de Estado a partir de 1964. A sintética contextualização aqui apresentada revela que, em se tratando das relações com a Argentina, a postura preventiva do Brasil tem fundamentação pragmática. Isto é, o discurso e as ações cordiais nada tiveram de altruístas. Ao contrário, foram instrumentos a serviço do realismo brasileiro. Por isso, quando sua implementação perdeu a flexibilidade que as táticas diplomáticas exigem, a cordialidade oficial foi desativada. No próximo capítulo, relata-se como o gradualismo do fim da cordialidade oficial foi substituído por uma brusca aceleração que estremeceu as bases do relacionamento bilateral de forma sustentada ao longo dos anos setentas do século XX. Também se oferece uma indicação dos possíveis porquês. 114 DANESE, S. F. Diplomacia Presidencial. São Paulo: Topbooks, 1999. p. 317-20. 34 Capítulo II Os limites da cordialidade oficial Entre 1966 e 1973, as relações argentino-brasileiras assistiram a um grau de deterioração raramente visto em sua história. Devido à definição do regime contemporâneo para a utilização do caudal hídrico da Bacia do Prata, o vínculo bilateral foi vítima de um confrontacionismo que se espalhou por ambas as sociedades e terminou turvando os projetos conjuntos de complementação econômica e cooperação técnica que o espírito de Uruguaiana ambicionara. Ao longo do período, ganhou força uma vertente inédita na diplomacia brasileira contemporânea: a diluição da cordialidade oficial como opção perene nos negócios com o governo argentino. O seu frontal rechaço ocorreria no qüinqüênio subseqüente (1974-1979). Essa significativa guinada certamente foi viável graças ao novo perfil da atuação brasileira no Cone Sul desde a década de 1960. Esse período marca, no Brasil, o proveito dos laços diplomáticos com os países vizinhos em prol do esforço nacionaldesenvolvimentista. A inusitada racionalidade que revestia os vínculos bilaterais e multilaterais com os países da América do Sul negava, ao menos em tese, a atitude preventiva em assuntos regionais adotada pelo Brasil da primeira metade do século. A nova interpretação das possibilidades internacionais do país na América do Sul, iniciada sob a gestão de Juscelino Kubitschek115, foi intensificada pelos governos militares e impulsionada por um favorável ambiente creditício internacional. A preferência por relacionamentos impregnados de conteúdo econômico e técnico deu consistência, pela primeira vez, a uma intenção integradora já ensaiada por outros países com porte semelhante e, notadamente, pela Argentina de Perón no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Portanto, é possível que a opção do Brasil tenha sido produto de um exercício de emulação do vizinho ao sul. De fato, tentativas de cunho similar na década de 1950 haviam permitido a Buenos Aires experimentar uma espécie de presença econômica e política singular na região. Quase vinte anos depois da jornada de Perón, Médici lançava-se em direção a Bolívia, Paraguai, Uruguai, Venezuela e, inclusive, 115 DANESE. Op. Cit., p. 320. 35 Argentina116. Essa incipiente mudança provocou reações significativas em Buenos Aires, nas capitais dos pequenos países do Prata e no próprio Brasil. A seguir, busca-se responder a três indagações principais no contexto do relacionamento bilateral entre 1966 e 1973: Quais os indícios que evidenciam o colapso da cordialidade oficial? De que maneira as reações a esse processo ganharam voz? Quais fatores possivelmente concorreram para que tal fenômeno tivesse lugar? 2.1. O poder das águas O teatro dos eventos que marcou o relacionamento bilateral durante boa parte da década de 1960 e os dez anos seguintes foi caricatural: o centro mesmo da Bacia do Prata, trecho no qual o rio Paraná, “Pai de todas as águas”, banha simultaneamente solo brasileiro e paraguaio, a não mais de vinte quilômetros da fronteira argentina. A construção de capacidade hidrelétrica suficiente para alimentar o parque industrial brasileiro era uma prioridade do nacional-desenvolvimentismo que despertou grandes expectativas em diversos órgãos do aparelho de Estado (por exemplo, a Eletrobrás, as Forças Armadas, o Estado do Paraná e o Itamaraty). Assim como outras grandes obras públicas planejadas no período – a Transamazônica, a Ponte Rio–Niterói, o Pólo Petroquímico de Camaçari, as Usinas Nucleares em Angra dos Reis etc. –, a construção de uma represa de proporções inéditas na história da engenharia civil simbolizava o ethos do desenvolvimento de corte nacionalista que, graças à fluidez do crédito internacional, permitiu ao governo realizar gastos de envergadura. A iniciativa brasileira de levar adiante o ambicioso projeto hidrelétrico transformou os termos do diálogo internacional na região e fez com que Brasília e Buenos Aires se lançassem à atualização da estrutura do poder do Cone Sul. No centro dessa dinâmica encontrava-se Assunção. Sem os recursos necessários para realizar obras no leito do rio, o Paraguai dependia de sua sorte geográfica para acoplarse à programação hidrelétrica do Brasil. Dessa maneira, o Presidente Alfredo Stroessner117 fôra hábil em negociar um modelo de cooperação mediante o qual os dois países investiriam recursos em condições de desigualdade, mas teriam idêntico acesso aos 116 Para ver a proposta de um novo conceito de vizinhança, ver BRASIL. Relatório 1972. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 1974. p. 10. 117 O militar Alfredo Stroessner ganhou notoriedade em seu país durante a Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia (1932-1935). Em 1954, aos 42 anos de idade, perpetrou um golpe de Estado que o manteve no poder até 1989, quando foi derrubado por setores da corporação militar. Desde 1993 vive exilado em Brasília. 36 benefícios da produção elétrica da empresa binacional. Em troca de território para a inundação, o Paraguai receberia empréstimos maciços do Brasil em excelentes condições118. A movimentação brasileiro-paraguaia incentivou Buenos Aires a buscar fórmulas jurídicas capazes de conter a expansão da presença brasileira para uma região tradicionalmente dependente de capitais argentinos, assim como evitar a construção da maior represa jamais vista às portas do território nacional. Essa reação foi intensificada por dois fatores igualmente significativos para a sociedade argentina. Em primeiro lugar, o amplo desconhecimento dos riscos de operar alterações nas águas que banhavam os portos mais importantes do país. Em segundo, os anseios sobre as conseqüências que Itaipu poderia acarretar para o programa hidrelétrico argentino no mesmo rio nas alturas das planejadas represas de Corpus e Yaciretá. Diante do desafio de avançar seus interesses em condições tão díspares, Argentina e Brasil começaram a elaborar as doutrinas que deviam dar base a um regime de aproveitamento fluvial ajustado a suas necessidades. O Paraguai não tinha poder de fogo para alterar doutrinas ou sugerir alternativas, mas sim para ditar o ritmo das obras. Nesse quadro, a Argentina buscava garantir regras rígidas que não punissem sua condição de australidade e de país a jusante na quase totalidade das águas (há exceções menores na fronteira montanhosa com o Chile)119. Já o Brasil ambicionava adotar um corpo jurídico abrangente o bastante para abarcar a sua condição de montante na Bacia do Prata e de jusante na do Amazonas120, sem ter com isso que condicionar o seu cronograma de obras à aprovação de Buenos Aires. Tratava-se de um assunto do direito internacional francamente em construção. As normativas jurídicas sobre o tema ainda podiam facilmente ser postas em xeque, o que criava um incentivo claro para que cada país se esforçasse em desenvolver um conjunto de regras que orientaria a sua vida internacional durante os anos seguintes. O direito prometia 118 CERVO. Relações internacionais…, p. 213-214. A Argentina defendia acertos multilaterais rígidos para garantir que: a) não fossem causados prejuízos ao Estado a jusante com as obras de engenharia sobre rios internacionais; b) os Estados interessados fossem previamente consultados sobre os projetos de engenharia sobre rios internacionais; c) “Estado interessado” fosse considerado toda unidade soberana que pudesse ser afetada pela execução de trabalhos em rios internacionais. LANÚS. Op. Cit., 297-317. 120 Em 1965, o Parecer do Consultor Jurídico do Itamaraty esboçava uma orientação geral sobre o tema. Recomendava ao governo brasileiro que: a) o regime regulador das águas internacionais deveria limitarse a definir princípios gerais sobre os quais as partes pudessem negociar entendimentos específicos; b) tais princípios deveriam incluir o de “não-imposição de prejuízos” aos demais ribeirinhos; c) os ribeirinhos interessados deveriam ser notificados (por oposição a previamente consultados) da realização de obras sobre o leito dos rios internacionais; d) o status de rio internacional valeria apenas para o rio, e não para seus afluentes; e) o conceito de “Estado ribeirinho” deveria ser diferente de “Estado interessado”, cabendo apenas ao primeiro tipo o princípio da soberania compartida. Cf. Parecer do Consultor Jurídico do Ministério das Relações Exteriores, Brasília, 6 de janeiro de 1965, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 119 37 ser, em meados da década de 1960, a arma e o escudo que Argentina e Brasil mobilizariam para definir a sua postura no cenário regional. De forma geral e teórica, é plausível supor que as preferências de Argentina e Brasil, depois do acordo brasileiro-paraguaio de Iguaçu (ou Ata das Cataratas, 1966), que definiu as bases para a construção da hidrelétrica de Itaipu, fossem ordenadas da seguinte maneira. O Brasil poderia explorar com a Argentina uma fórmula conciliadora que garantisse legitimidade internacional ao projeto. Alternativamente, avançaria seu programa hidrelétrico mesmo contra a resistência dos argentinos, incorrendo no risco tradicionalmente temido no Itamaraty de gerar um ordenamento regional hostil aos desígnios de Brasília. Isso significava também assumir os custos potenciais de que a represa fosse inviabilizada devido à oposição dos argentinos121. A possibilidade de abandonar o projeto não parece ter sido sequer considerada na etapa do planejamento da represa. A Argentina, por sua vez, podia alcançar um entendimento que lhe garantisse respaldo jurídico para diminuir o alto perfil que o tema adotava junto a sua opinião pública, assim como podia acionar todos os mecanismos a seu alcance para paralisar o cronograma brasileiro caso a primeira alternativa fosse frustrada. Também existia a possibilidade de acelerar o projeto de Corpus que, por situar-se águas abaixo, teria a possibilidade de embargar tecnicamente o funcionamento de Itaipu mediante a geração de um remanso de grandes proporções. Finalmente, existia a possibilidade de se apostar em uma empreitada militar para impedir a execução da obra. Geralmente, porém, os países não contam com uma definição de preferências claras. É comum que a mensuração de forças entre duas nações, assim como a definição das alianças entre Estados, seja produto das tentativas exploratórias que as diplomacias fazem em determinado período histórico. Não foi diferente com a Argentina e o Brasil. É justamente devido à forma pela qual o Brasil ensaiou seus primeiros passos no Prata que esse período ganha destaque na história das relações bilaterais com a Argentina. Frustrando a tendência histórica, a primeira atitude do Itamaraty foi a de não buscar fórmulas conciliatórias com Buenos Aires. Até iniciado o governo Geisel, em 1977, a diplomacia brasileira não reconheceu que os temas referentes à construção de Itaipu dissessem respeito à Argentina. Mesmo perante o volume das reclamações argentinas, Brasília entendeu que não deveria mitigar as apreensões do vizinho por meio da exploração de outras áreas de interesse comum. 121 Anos mais tarde, o chanceler argentino Luís María de Pablo Pardo teria afirmado a seu colega Gibson Barboza que, embora a solução ideal para a Argentina fosse a não-construção de Itaipu, a solução emergencial seria a de impedir os brasileiros de operá-la. Depoimento, cassete n. 13, lado B, 5 jun. 1979. 38 Em outras palavras, o Brasil não adotou o rumo previsto, que seria a invocação dos preceitos da cordialidade oficial, para evitar que as reações argentinas à diplomacia brasileira melindrassem os interesses do Itamaraty na região. Diferentemente, a Argentina, sim, reagiu como se esperava: o Palácio San Martín denunciou com virulência a prática não cooperativa brasileira em todos os foros multilaterais e capitais sul-americanas, acionou suas tradicionais amizades na região e armou-se de instrumentos jurídicos para isolar o Brasil e falsificar-lhe as teses. Assim, minguava a racionalidade da cordialidade oficial a conduzir as relações com a Argentina. Os primeiros passos dessa evolução são o que se conta a seguir. 2.2. O abandono da tradição Em resposta ao que passou a ser conhecido como “diplomacia brasileira das cachoeiras” – que nada mais era do que a celebração de entendimentos para dar vida a projetos hidrelétricos com Paraguai e Uruguai –, Buenos Aires convidava os países da região a criar um foro multilateral para tratar do desenvolvimento “conjunto” da Bacia do Prata122. No convite, um aviso: as águas internacionais da Bacia deviam ser utilizadas com o acordo de todas as partes integrantes porque a geografia do lugar emprestava à mesma um “caráter regional’, o que significava que a Argentina estaria pronta para acionar todos os mecanismos jurídicos capazes de impossibilitar o uso uni ou bilateral dos trechos internacionais da bacia. Negligenciando o anúncio argentino, dias depois, os governos do Brasil e do Paraguai assinavam a Ata das Cataratas, definindo que a energia obtida do aproveitamento hídrico do trecho contíguo do Paraná deveria ser dividida em partes iguais pelas duas nações. Isso equivalia a declarar que o cronograma de Itaipu não seria atrasado devido ao anseio argentino de criar um regime internacional para a bacia, mesmo que isso mitigasse a legitimidade da empreitada. Quase um ano mais tarde, os chanceleres dos cinco países que compõem bacia reuniam-se em Buenos Aires para dar forma aos entendimentos que terminariam por gerar um tratado internacional sobre o tema. A conferência iniciou-se à luz de duas teses argentinas que tinham por objetivo macular o entendimento brasileiro-paraguaio: a Bacia 122 Carta do chanceler argentino Zavala Ortiz a seus colegas de Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, 2 de junho 1966. Apud. LANÚS. Op. Cit., p. 297. Segundo Juracy Magalhães, o Brasil aceitou a proposta do encontro porque Bolívia, Paraguai e Uruguai já o haviam feito. Ver, MAGALHÃES, J. Minhas memórias provisórias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. p. 207. 39 do Prata era uma unidade hidrológica e, como tal, as ações sobre seus leitos deveriam ser tratadas por todos os países interessados. Além disso, retomava a Argentina um conceito jurídico vago, mas amplamente aceito em foros internacionais, segundo o qual a construção de obras civis sobre rios internacionais seriam precedidas por uma consulta do Estado empreendedor às partes interessadas, consubstanciando o princípio da consulta prévia. A delegação portenha reclamava ser a consulta prévia a prática defendida pelos países da região desde o decênio de 1930, quando o próprio Brasil tomara a dianteira no assunto123. Mais do que isso, lembravam os argentinos que, em 1932, o Brasil e a Grã– Bretanha trocaram notas assegurando que trabalhos sobre as áreas ribeirinhas entre solo brasileiro e a Guiana Inglesa seriam empreendidas com o “consentimento mútuo de ambos” os Estados. O mesmo havia ocorrido, em 1933, no Estatuto Jurídico da Fronteira, assinado por Brasil e Uruguai, dispondo que não se realizariam obras que modificassem o regime e a qualidade das águas de um rio fronteiriço sem o “prévio acordo” do outro Estado124. A força dos argumentos argentinos era ainda mais significativa quando exposta à luz da prática brasileira contemporânea. Em 1960, ao subscrever declaração conjunta referente à construção da represa de Salto Grande sobre o rio Uruguai, Argentina, Brasil e Uruguai comprometiam-se a consultar os demais ribeirinhos caso as obras alterassem o regime do rio, “de acordo com a doutrina e a prática internacional”, a pedido do Brasil125. Além disso, a consulta prévia era reconhecida pelo Tratado de Versailles126 e pelo Acordo Multilateral sobre o rio Níger127 . 123 Ainda em 1932, a Comissão Permanente de Direito Internacional Público do Rio de Janeiro (foro composto por proeminentes internacionalistas brasileiros tais como Clóvis Benvilacqua, Epitácio Pessoa, Eduardo Espínola e Prudente de Moraes) sustentava que, se um rio fosse fronteiriço, nenhum Estado poderia alterar seu curso sem consultar e obter o consentimento dos outros Estados afetados. Um ano mais tarde, esse princípio deu forma à Declaração de Montevidéu sobre a Utilização Industrial e Agrícola dos Rios Internacionais, que o Brasil não somente assinou como patrocinou. Ver CANO, G. J. Argentina, Brazil and the de La Plata River Basin: a summary review of their legal relationship. Natural Resources Journal,1976. p. 863-881. Segundo Maria Regina de Soares Lima, o Brasil teria assinado essa Declaração porque não existiam ainda condições técnicas de realizar construções significativas sobre o leito dos rios internacionais que cortam o Brasil, além de que naquela conjuntura particular o Brasil era mais fraco do que a Argentina. Ver LIMA, M. R. S. de, The political economy of Brazilian foreign policy: nuclear policy, trade and Itaipu. 1986. Tese (Doutorado) – Vanderbilt University. p. 361. 124 LANÚS. Op. Cit., p. 299-300. 125 COSTA, L. A. P.; RUDA, J.M. Derecho Internacional Público. Buenos Aires: TEA, 1979. Apud. LANÚS. Op. Cit., p. 316. 126 Assinado em 28 de junho de 1919, estabelecia que a perturbação da navegação nos trechos internacionais por parte de obras sobre os rios Oder, Elba, Niemen e Danúbio poderiam levar a Corte Pernamente de Justiça Internacional a suspender os trabalhos. LANÚS. Op. Cit., p. 315. 127 Subscrito em 1963 entre Camarões, Chade, Daomé (Benin desde 1976), Guiné, Costa do Marfim, Mali, Níger, Nigéria e Alto Volta (Burkina Faso desde 1984), afirma que os países se comprometem a cooperar “no estudo e execução de qualquer projeto que possa ter efeito apreciável sobre qualquer aspecto do curso do rio Níger, seus tributários, suas condições de navegação, exploração agrícola e industrial, condições sanitárias das águas e as características biológicas de sua fauna e flora [minha tradução]”. Apud. LANÚS. Op. Cit., p. 315. 40 Essa I Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata teve dois resultados importantes para a evolução das relações bilaterais entre Argentina e Brasil. Primeiramente, evidenciou que o Itamaraty recusava-se a adotar a prática da consulta prévia que a própria diplomacia brasileira defendia desde princípios do século. Para uma chancelaria tradicionalista e altamente ciosa dos instrumentos aos quais adere, esse tipo de acusação constituía um constrangimento de proporções significativas. Por outro lado, a Reunião concluiu que o processo do Prata ficaria a cargo de um Comitê Intergovernamental Coordenador (CIC), ente do qual participariam os embaixadores dos países da bacia em Buenos Aires. O mesmo seria responsável por todos os aspectos da utilização da mesma, a ser acordados na forma de um tratado internacional. A diplomacia brasileira encontrava-se diante do desafio de ter que construir justificativas plausíveis para reverter uma decisão tomada por seus predecessores em relação às águas internacionais da bacia. Além disso, seria forçado a explicar por que o maior país da região adotava o princípio da consulta prévia em um setor da bacia (o rio Uruguai) e a negligenciava em outro (o rio Paraná), em franca oposição ao segundo maior país da região, que alegava ser vítima potencial das alterações na qualidade e quantidade das águas no rio mais relevante para o escoamento de sua produção industrial. 2.2.1. Os irreconciliáveis mundos de Pio Corrêa e Silveira Em 1968, devido à estrutura do CIC, o embaixador brasileiro perante o governo argentino ganhava singular projeção na definição da estratégia e das táticas utilizadas no contexto da Bacia do Prata. Além de seu tradicional papel de consulta e implementação, o responsável também ficaria encarregado da condução de ofícios que não apenas envolviam agentes do governo argentino, mas também dos representantes de Bolívia, Paraguai e Uruguai na capital argentina. Na estrutura interna do processo decisório brasileiro, esse posto fortalecia-se vis-àvis sua tradicional contraparte na chancelaria – a chefia do Departamento das Américas. Além disso, e por tratar-se de tema candente e irresoluto nos anais do direito internacional, o embaixador em Buenos Aires encontrava clima privilegiado para fazer-se ouvir pelo quadro de embaixadores do segundo escalão do Ministério, assim como pelo Consultor Jurídico. Confluíam nele os principais elementos da decisão referente à política para a Argentina. Era, portanto, justamente em tempos de inédita turbulência no relacionamento bilateral que o representante do governo brasileiro naquela capital podia ter preeminência 41 na construção de uma postura coerente do ponto de vista jurídico e politicamente palatável para lidar com os desafios impostos pelo vizinho. À época, o homem que conduzia as relações bilaterais não concordava com o rumo que a política externa de seu país estava tomando no tema dos rios. O embaixador Pio Corrêa tinha uma postura clara e definitiva em relação à condução brasileira dos negócios com Buenos Aires. Seu testamento político – última correspondência enviada ao Itamaraty antes de deixar a diplomacia e entrar para a atividade privada, em 1969 – é, ao mesmo tempo, uma carta de orientação para o governo brasileiro e uma adesão aos preceitos da cordialidade oficial que ganham tons de manifesto quando se leva em conta que a mesma foi escrita em um momento de especial tensão entre os dois países. No pensamento de Pio Corrêa, as relações com a Argentina deveriam ser imediatamente restabelecidas em um patamar de “bases (...) cordiais no sentido de uma unificação de pontos-de-vista”128. As concepções do embaixador sobre o vínculo bilateral são certeiras: havia somente uma política sensata para guiar o relacionamento com a Argentina, qual fosse a da complementação industrial mútua mediante a articulação e o planejamento comum das respectivas políticas de desenvolvimento econômico. A tática que o Itamaraty deveria abraçar era a atuação nas “linhas de menor resistência”, buscando faixas de confluência. A postura brasileira demandaria, segundo ele, “tacto e (...) paciência”129. A carta levanta a suspeita de que, naquele momento, a própria chancelaria brasileira estivesse dividida entre aqueles que advogavam pela cordialidade oficial e os que a rechaçavam. É nesse contexto que deve ser compreendido o vaticínio de Pio Corrêa em 1969: “Seria um erro fatal recusar êsse desafio, e pretender o Brasil acantonar-se em uma política de isolamento e de omissão ou, pior ainda, de obstrução ante a questão da Bacia do Prata”130. Aparentemente, naquela conjuntura, a negação da tradicional postura para a Argentina trazia a lembrança da paralisia do relacionamento à época de Raul Fernandes, como se negar a cordialidade oficial fosse um inelutável caminho para a diplomacia da obstrução. Fato é que, até então, a diplomacia brasileira não conhecia alternativas para a resolução de seus assuntos com a Argentina. Somente na década de 1970, a política externa abraçaria uma orientação que, ao mesmo tempo em que negava a cordialidade oficial, não somente isolava a Argentina na América do Sul, como abria espaços para a decisiva intensificação do relacionamento brasileiro com seus vizinhos platinos e andinos. 128 Pio Corrêa ao MRE, telegrama confidencial, Brasília, 24 de janeiro de 1969, n.349, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV. 129 Ibid. 130 Ibid. 42 O responsável por explorar essa alternativa foi o sucessor de Pio Corrêa, Antônio Francisco Azeredo da Silveira131. As condições nas quais ele foi indicado para ocupar a embaixada brasileira naquele país são pouco claras. Segundo seu antecessor, a indicação foi o resultado dos constrangimentos institucionais criados pelo regime militar132. Realizar avaliação sobre esse assunto é particularmente difícil, tendo em vista que foram encontradas informações conflitantes ao longo deste estudo. Se, por um lado, encontrou-se sistematicamente que Silveira não era bem visto pelos setores “duros” das Forças Armadas133, por outro, o embaixador foi um dos diplomatas que participou do comitê de funcionários de carreira responsáveis pela identificação de colegas vinculados ao comunismo imediatamente após o golpe militar de 1964134. Ao chegar a Buenos Aires como embaixador em 1969, Silveira já tinha uma idéia formada da Argentina, de sua política externa e dos desafios que a mesma impunha ao Brasil. Ele servira naquela capital nos agitados anos de 1949 e 1950 como secretário do embaixador Milton de Almeida – responsável por retirar a adjetivação negativa da correspondência diplomática, e diluindo assim as pressões obstrucionistas da política brasileira para a Argentina135. À época, seu trabalho consistia na redação do relatório político da embaixada, especialmente dos temas referentes aos arranjos institucionais 131 Silveira (1917-1990) ingressou na carreira diplomática aos 26 anos de idade e a deixou aos 68. Serviu como terceiro e segundo secretário nas embaixadas de Havana (1945-1949) e Buenos Aires (1949-1950), foi primeiro secretário em Madrid (1954-1956) e Roma (1957-1958) e Cônsul em Florença (1956-1957). Ocupou diversos cargos na administração do Itamaraty, dos quais destaca-se a chefia do Departamento de Administração (1959-1961 e 1963-1966). Entre 1966 e 1968 chefiou a delegação brasileira em Genebra. Foi embaixador em Buenos Aires (1969-1974), em Washington (1979-1982) e em Lisboa (19821985). Entre 1974 e 1979 foi ministro de Estado das Relações Exteriores. 132 Afirma Pio Corrêa que, em 1968, o chanceler Magalhães Pinto convidou Silveira – então embaixador brasileiro perante os organismos internacionais sediados em Genebra – para ocupar o segundo posto de comando do Itamaraty, a Secretaria Geral. Esse convite teria gerado forte reação opositora em setores militares que, à época, contavam com recursos suficientes para barrar a decisão de um chanceler civil. Ao ver a sua autoridade maculada publicamente, e aproveitando a vaga da representação em Buenos Aires, Magalhães Pinto teria oferecido o posto em Buenos Aires a Silveira como saída honrosa para si mesmo e para o funcionário. CORRÊA, P. O mundo em que vivi. São Paulo: Expressão e Cultura. v. 2. 1995. p. 1059. Silveira afirma haver rechaçado a oferta de Magalhães Pinto para a Secretaria Geral devido ao fato de ser o chanceler um homem pouco confiável e estar vinculado à cassação de 26 diplomatas brasileiros – número muito maior do que aquele feito pela Revolução de 1964, havia afastado apenas quatro pessoas do quadro do Itamaraty. Depoimento, cassete n. 2, lado A. Não fica claro, portanto, o motivo que o levou a Buenos Aires. 133 Ver adiante convite do Presidente eleito Geisel a Silveira para compor o ministério. Além disso, vale notar que o representante das facções mais duras das Forças Armadas, o ministro Sylvio Frota (Exército, 1974-1977), em seu fervoroso discurso de demissão, acusou nominalmente a diplomacia brasileira de acionar, mediante suas ações, a “escalada socialista que pretende dominar o País”. Revista Veja, 19 de outubro de 1977. p.22. 134 Segundo Silveira, ele próprio teria participado das discussões internas sobre o afastamento dos diplomatas em questão. A documentação referente a esses debates teria sido redigida pelo diplomata Mozart Valente – chefe de gabinete de Leitão da Cunha –, sendo depois incinerada. Depoimento, cassete n. 17, lado A, 7 de jun. 1979. 135 CERVO. Relações internacionais…, p. 162-170. 43 implantados por Perón e ao círculo de personalidades que rodeavam o mandatário argentino136. O jovem Silveira tinha sido surpreendido pelo estilo bombástico do líder justicialista, que não hesitava em acusar o estilo vacilante do Brasil na questão da integração das duas nações137. Silveira lá chegou com um quadro referencial que incluía fortes conotações normativas. O primeiro elemento de seu modo de pensar era a verificação de que havia uma tensão no seio da sociedade argentina que impossibilitava o Estado de sintetizar um vetor consistente de política externa. A impossibilidade de definir uma diretriz internacional coerente era tão frustrante quanto grande a dificuldade que os diplomatas estrangeiros tinham para identificar interlocutores válidos em Buenos Aires. A segunda verificação era o conflito interno que aquele país vivia por não ter sido capaz de absorver as raças e povos que compunham a nação. Silveira havia assistido à explosão do racismo e do antisemitismo na Buenos Aires dos anos cinqüentas, onde a proibição constitucional da imigração não européia, a formação de guetos judeus e a recepção de ex-comandantes do III Reich formavam um caldo de irreconciabilidade que, ainda nos dias de hoje, ocupa lugar notório na agenda pública do país. Para ele, essa característica minava as bases de qualquer projeto argentino verdadeiramente nacional138. Isso constituía um contraponto crucial entre Argentina e Brasil. No pensamento nacionalista de Silveira, a maior força do Brasil era a sua base mestiça. Acreditava ele que era essa síntese racial que permitia ao país ter um projeto de desenvolvimento autônomo e alcançar um status diferenciado no concerto das nações139. Diferentemente, na Argentina faltavam as condições para a definição do que fosse interesse nacional, fenômeno que teria origem na incapacidade argentina de sintetizar as diversas correntes populacionais que compunham o país140. 136 Depoimento, cassete n. 22, lado A, 14 mar. 1982. Depoimento, cassete n. 13, lado A, 5 jun. 1979. Depoimento, cassete n. 1, lado A, 10 maio 1979. 139 Depoimento, cassete n. 12, lado B, 1 jun. 1979. 140 A questão do racismo argentino parece ter sido um tema importante a informar a política brasileira da época de Silveira. Exemplo disso é a informação repassada pela embaixada brasileira em Buenos Aires ao Itamaraty, segundo a qual “nos foros multilaterais [a Argentina] não deixa de somar seu voto às resoluções condenatórias à política do apartheid, mas no plano bilateral segue mantendo normais relações, particularmente com a África do Sul, influenciadas em grande parte pelo temor da presença soviética no Atlântico Sul e pela influência soviética em alguns países da fachada atlântica do continente africano, bem como por considerável coincidência de preconceitos raciais entre argentinos e sul-africanos [meu itálico]”, Cláudio Garcia de Souza ao MRE, informe confidencial, Buenos Aires, 25 de setembro de 1978, n. 1090, AHMRE, caixa 159. Esse tipo de postura, na Argentina, certamente era alimentada pela percepção da singularidade do país no cenário latino-americano. Não se pode deixar de notar que a mesma parece ser uma vertente perene da diplomacia daquele país a despeito de seu anacronismo e do fato de ser contraproducente aos interesses vitais de Buenos Aires na América Latina. Nas palavras do ex-chanceler Guido Di Tella: “A partir de 1989, de forma estrepitosa e altamente visível, voltamos a proclamar o nosso pertencimento ao Ocidente, apresentando-nos, com orgulho, como o que somos: um país basicamente europeu com algumas poucas peculiaridades, mas europeu ao fim [minha tradução]”. DI 137 138 44 Para Silveira, os argentinos acreditavam ser menos meridionais do que realmente eram, percepção fortalecida por seus vizinhos que se haviam deixado impressionar pelo “fausto precoce” que aquele país experimentara no contexto latino-americano141. Depois de conhecer a breve prosperidade que a participação não formal do império britânico lhe trouxe, a Argentina teria começado a sofrer as dores do declínio em todos os campos da vida do país: a economia, a indústria, o comércio, as artes, a diversão e a boêmia. Para Silveira, essa inversão de expectativas que a Argentina do pós-Segunda Guerra Mundial sofria tornava-a um país perigoso142, porque abria caminhos para uma política externa revolucionária, isto é, modificadora do status quo regional. Dessa forma, a questão do racismo e a inversão de expectativas na Argentina certamente estavam no cerne das reservas que Silveira tinha em relação ao país vizinho. É factível supor que o diplomata impregnasse com essa idéia, anos mais tarde, o pensamento do Presidente Geisel, segundo o qual “à semelhança do que se passa entre seres humanos, o conhecimento objetivo entre nações, de sua personalidade e de seu gênio [meu itálico], constitui o substrato de afinidades eletivas sobre o qual se formam e amadurecem, no plano internacional, interesses comunitários autênticos e prolongados”143. Não havia muito espaço, portanto, para afinidades eletivas entre a Argentina e um país que não somente havia incorporado as raças que o compunham, como também experimentava uma espiral ascendente de desenvolvimento econômico e social. O ceticismo de Silveira em relação às possibilidades reais do vínculo Buenos Aires–Brasília outorgava a sua visão um sentido trágico. O Brasil nunca poderia desenhar um projeto internacional em associação com a Argentina porque a política externa daquele povo era presa fácil do ímpeto das inúmeras facções que o dividiam, impossibilitando a determinação de orientações internacionais sólidas. O embate pela definição dos rios era a arena sobre a qual o desafio imposto pela Argentina seria testado e mensurado face às possibilidades internacionais do Brasil. No pensamento de Silveira, a negociação por Itaipu assumiu relevância definitiva no quadro das relações bilaterais: para os argentinos, era a oportunidade de redimir politicamente os descompassos de seu desenvolvimento. Para os brasileiros, a de dar vazão política ao novo perfil industrial do país. TELLA, G. El renovado papel de la Argentina em el mundo. Revista de Occidente, n. 168. Madrid, noviembre, 1996. p. 40-41. 141 Depoimento, cassete n. 11, lado B, 1 jun. 1979. 142 Ibid. 143 Discurso proferido pelo Presidente Geisel em visita à Bolívia. In: Estado de S. Paulo, 25 maio 1974. 45 Entre Pio Corrêa e Silveira, a atuação brasileira para a Argentina evoluiu radicalmente. Se, para o primeiro, a complementação econômica era o salvo-conduto para o desenvolvimento de ambas as sociedades, para o segundo uma aliança entre ambos não funcionaria jamais, ou pelo menos até que o sentimento argentino de frustração em relação ao Brasil fosse plenamente absorvido144. Essas duas visões de mundo eram excludentes. Ao assumir a embaixada em Buenos Aires, Silveira não demorou a adequar o vínculo bilateral a seu estilo e suas convicções. As primeiras reações fizeram-se sentir ainda em janeiro de 1970, quando decidiu reverter a passividade brasileira em relação à utilização que o governo argentino fazia da imprensa no assunto dos rios internacionais, assim como às acusações juridicistas de Buenos Aires. 2.2.2. A iniciação de Silveira Silveira substituiu Pio Corrêa em fevereiro de 1969, dois meses antes da assinatura do Tratado da Bacia do Prata. Ele tinha severas restrições a esse instrumento por entender que o mesmo congelava os dois grandes (Argentina e Brasil) em detrimento dos três mais fracos (Bolívia, Paraguai e Uruguai). Para Silveira, o Brasil não devia adotar a tradicional postura argentina em assuntos regionais, qual fosse a de reconhecer juridicamente em documentos oficiais a diferença de potencial econômico e político das partes145. Segundo o embaixador, a política regional do Brasil somente deveria adotar instrumentos em que os benefícios fossem igualmente distribuídos entre as partes, mesmo que os insumos de cada Estado fossem diferentes. O Brasil, argumentava Silveira, tinha demasiados vizinhos: precisava precaver-se e mostrar, mediante todos os instrumentos disponíveis, que nunca apostaria em uma rota hegemônica na América do Sul. Sustentava essa orientação porque acreditava que a voracidade do consumo doméstico brasileiro era suficientemente poderosa para moldar um ordenamento regional satisfatório e acorde com as necessidades da diplomacia do nacional-desenvolvimentismo146. A nomeação de Silveira coincidiu com a indicação de um novo representante argentino para o CIC, o embaixador Guillermo Cano. Cano era um dos maiores especialistas em direito dos rios internacionais, e sua tarefa consistia na incorporação da 144 Depoimento, cassete n. 19, lado B, 30 jan. 1980. Por exemplo, a negociação argentino-paraguaia sobre Yaciretá arrastou-se desde 1911 até a década de 1970 porque Buenos Aires se negava a dar a Assunção mais de 5% dos benefícios do uso conjunto do trecho médio do rio Paraná. O mesmo ocorria no empreendimento argentino-uruguaio sobre Salto Grande, que começou a ser construído com base em um tratado em que a Argentina dava apenas 1/16 da energia ao Uruguai, embora o recurso natural fosse comum. Depoimento, cassete n. 7, lado B, 24 maio 1979. 146 Ibid. 145 46 tese da consulta prévia compulsória ao corpo do tratado em elaboração. A interação entre ambos é digna de menção por denotar que formas tomou o relacionamento à véspera da criação de uma instância formal para o aproveitamento internacional da Bacia do Prata . Em seu discurso de posse, Cano defendeu fortemente essa tese perante os representantes de todos os países, indicando que a Argentina estava disposta a atrasar o calendário do tratado caso fosse necessário. No mesmo dia, Cano teria repassado a íntegra do discurso ao periódico El Clarín, que o divulgou com alarde. Esse gesto violava a prática do CIC, uma vez que os encontros dos embaixadores eram reservados. Em seguida, e com a anuência do Itamaraty, Silveira reagiu mediante repúdio escrito à prática de dar publicidade a assunto tão delicado, afirmando que não estaria o Brasil disposto a tolerar esse tipo de comportamento durante as negociações147. A reação de Silveira não havia terminado, contudo. Certamente interessado em reverter definitivamente a postura defensiva do Brasil no tema, Silveira procedeu a prática pouco usual na diplomacia brasileira. Redigiu documento no qual se listavam os motivos pelos quais a Declaração de Montevidéu – fardo que Buenos Aires utilizava para denunciar o oportunismo brasileiro nos assuntos do Prata – era instrumental ao Brasil em 1933 e não o era em 1969148. Apontava dois erros fundamentais no instrumento que o país endossara então. O primeiro era não reconhecer que há dois tipos de rio internacional: os contíguos (nos quais a soberania é compartilhada pelos ribeirinhos) e os sucessivos (nos quais a soberania não é compartilhada, e sim sucessiva)149. No caso do trecho brasileiro-paraguaio do rio Paraná, tratava-se de um rio internacional contínuo, garantindo a Assunção e Brasília direitos e responsabilidades. Diferentemente, a entrada das águas do rio na Argentina ocorria de forma sucessiva: Buenos Aires não exercia soberania sobre o rio na região das Sete Quedas, onde seria erguida Itaipu. Seguindo esse argumento, Silveira sustentava que a Argentina não tinha embasamento jurídico para reclamar por não ser consultada pelos países a montante, caso esses quisessem realizar trabalhos de engenharia civil sobre o leito do Paraná. O segundo erro cometido em 1933, segundo Silveira, havia sido a adoção de um método dedutivo em direito internacional, onde as normas são definidas aprioristicamente e sem correlação direta com problemas específicos, isto é, o arcabouço legal aparece definido anteriormente à interação dos atores envolvidos. Silveira era árduo defensor do sistema indutivo. Nele, os temas definidos de antemão consistem apenas em orientações 147 Silveira ao MRE, telegrama confidencial, Buenos Aires, 21 de março de 1970, n. 49, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 148 Idem, ofício-parecer, Buenos Aires, 10 de maio de 1971, n. 394, AHMRE, caixa 17. 149 Ibid. 47 gerais e de princípio. A regulação dos mesmos depende das gestões que duas ou mais partes interessadas façam para resolver assuntos pontuais e chegar a soluções operativas. Dessa forma, sustentava o embaixador, as normas atendem às necessidades específicas das partes, evitando a superposição de acordos e a ingerência de instâncias supranacionais e foros multilaterais nos assuntos referentes à Bacia do Prata150. O inesperado mea culpa da diplomacia brasileira tinha endereço certo: livrava o Brasil de seu próprio passado e permitia-lhe avançar com o projeto da represa. Em outras palavras, a proposta de Silveira era que a diplomacia brasileira defendesse no CIC as recomendações que o Consultor Jurídico do Itamaraty fizera em 1965. Seguramente o embaixador entendia que o Brasil precisava livrar-se da hesitação em avançar seus interesses devido à oposição portenha.Virando a mesa de negociações em seu favor, a delegação brasileira no CIC propôs a adoção de um princípio geral e irrestrito para toda a bacia, qual fosse o de que os ribeirinhos superiores não deviam causar danos sensíveis aos Estados a jusante. Qualquer adendo a essa orientação de caráter referencial poderia ser negociado entre partes interessadas em entendimentos pontuais e de caráter técnico. Embora não haja explicações claras do porquê, é fato que, poucos meses depois, Cano deixou a representação da Argentina no CIC, a qual foi assumida pelo embaixador Júlio Barbieris. Aparentemente, a pressão brasileira surtiu algum efeito, porque o representante argentino deixou de falar em consulta prévia compulsória e passou a referir-se ao princípio da notificação prévia151, retirando a obrigatoriedade e o potencial paralisante da formulação anterior. Chegava-se a um texto consensual e, portanto, suficientemente vago para acomodar as posições conflituosas dos dois grandes152. Contudo, o Tratado da Bacia do Prata (Brasília, 1969) ainda deixava amplas lacunas em aberto, não tendo desatado o nó da discórdia. A consulta prévia ainda era uma prioridade da diplomacia do Palácio San Martín, que nos anos subseqüentes a propôs com sucesso ao Comitê de Recursos Naturais das Nações Unidas (Nova Iorque, 1971). Em outros foros, como a Conferência de Meio Ambiente (Estocolmo, 1972), o tema teve de ser retirado da agenda devido ao impasse criado entre as duas delegações. 150 Ibid. Este princípio sustenta que a construção de obras sobre o leito de rios internacionais de soberania sucessiva deve ser precedida por notificação do país empreendedor às “partes interessadas”. 152 O Tratado da Bacia do Prata estabelecia uma conferência de ministros anual, encontros semanais dos embaixadores dos signatários em Buenos Aires no âmbito do CIC, a criação de comissões nacionais consultivas para a bacia e a criação de um secretariado para o CIC, que seria composto por comissões e grupos de especialistas ad hoc. Apud. CANO, Op. Cit. 151 48 Durante a negociação da versão final do tratado, a orientação de Silveira encontrou críticas dos dois lados do Prata. Por um lado, o diretor de El Clarín e artífice do espírito de Uruguaiana, Oscar Camilión. Por outro, o ministro brasileiro do planejamento, Roberto Campos, também diplomata de carreira. O argentino sustentava que a única alternativa para Argentina e Brasil no contexto da Guerra Fria era um coordenado processo de integração econômica e cooperação militar153. Campos somava-se a essa vertente quando visitou Buenos Aires para propor uma união aduaneira entre os dois países que ficaria aberta à adesão de outras nações154. Enquanto isso, o programa hidrelétrico brasileiro mantinha-se em dia e estruturavase para dar início à criação do ente brasileiro-paraguaio que se encarregaria da posta em marcha da obra de Itaipu durante aproximadamente dez anos. 2.3. A nova face do desafio argentino: a política externa de Lanusse Entre 1971 e 1973, a presidência Argentina coube ao general Lanusse. O novo mandatário havia ascendido ao poder mediante um golpe militar, mas alimentava ambições de conduzir a sua transição de forma a poder eleger-se para o cargo pelo voto popular155. Nesse contexto, sucessos no front externo garantiriam a construção da imagem de presidenciável que membros da corporação castrense procuraram em diversos períodos da história latino-americana. Em um primeiro momento, a diplomacia de Lanusse em relação aos rios internacionais abraçou a rigidez das propostas de Cano. O estilo do mandatário argentino chegou a mesmo a constrangir o Presidente Médici durante jantar oferecido no Itamaraty156. Nesse período, o chanceler argentino Luiz Maria de Pablo Pardo utilizou a imprensa para denunciar a postura arrogante do Brasil e terminou por renovar o sistema de vínculos bilaterais daquele país na América do Sul. O relacionamento do ministro de Pablo Pardo com Silveira foi difícil e acelerou o processo de deterioração das relações entre ambos os países. Contudo, o efeito colateral da presidência Lanusse foi levar o chanceler Gibson Barboza a concentrar 153 CAMILIÓN, O. As relações entre Brasil e Argentina no mundo atual. Revista Brasileira de Política Internacional, n. 45/46, p. 26-43, março/junho 1969. 154 BANDEIRA. Estado nacional..., p. 235. 155 BELSUNCE, C. A. G.; FLORIA, C. A. História de los argentinos. Buenos Aires: Larousse, 1992. p. 931938. 156 Lanusse teria acrescentado em seu discurso, e de improviso, um parágrafo de ataque ao Brasil na questão da consulta prévia. BARBOZA, M. G. Na diplomacia, o traço todo da vida. Rio de Janeiro: Record. 1992. p. 115. 49 a formulação da política externa para a Argentina em seu gabinete, utilizando simultaneamente a sua embaixada em Buenos Aires e a sua representação junto às Nações Unidas em Nova Iorque para buscar soluções viáveis. A preeminência de Silveira via-se relativa e momentaneamente ofuscada no quadro da concepção estratégica do Itamaraty. A primeira medida substantiva do chanceler de Pablo Pardo em relação ao Brasil era uma proposta de Declaração Conjunta que ele e Gibson Barboza assinariam durante a IV Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata (Assunção, 1971). A sugestão inicialmente feita pelo governo argentino era, para Silveira, absolutamente inaceitável157. Ele preparouse, dessa forma, para rebater ponto a ponto158. Mostrando a falibilidade dos argumentos portenhos e evidenciando que a questão em foco ainda era matéria jurídica em construção159, ele insistia em que a melhor opção a ser adotada no Prata era a de poucos princípios gerais (por exemplo, a não-ingerência de instâncias multilaterais em obras bi ou trinacionais da bacia, ou o de não causar prejuízos sensíveis aos ribeirinhos) sobre os quais seriam realizados entendimentos pontuais160. A simplicidade e a generalidade das normas internacionais vigentes na bacia não eram apenas instrumentos para minimizar os desgastes potenciais que a Argentina imporia no Brasil quando da construção de Itaipu. Para Silveira, somente um marco referencial 157 Em sua estrutura, o documento sugeria: (a) beneficiar foros multilaterais para dirimir as questões referentes ao uso das águas internacionais no Prata; (b) negligenciar o tema do volume de água do acordo a ser assinado entre Argentina e Brasil sobre o rio Paraná, uma vez que o mesmo já havia sido superado pela literatura especializada; (c) racionalizar o uso da água mediante a “correlação entre inúmeras variáveis econômicas e sociais em jogo e as necessidades peculiares à estrutura de desenvolvimento de cada país”; (d) reconhecer que o direito internacional dos rios era matéria juridicamente consagrada; (e) focalizar o acordo entre os dois países nas obras a ser realizadas, e não nos potenciais danos; (f) validar o princípio segundo o qual a consulta é responsabilidade internacional do Estado a montante, e não um direito do Estado a jusante. Silveira ao MRE, ofício-parecer, Buenos Aires, 10 de maio de 1971, n. 394, AHMRE, caixa 17. 158 Primeiramente, o embaixador defendia uma postura de intransigência em relação a todo tipo de ingerência estrangeira em obras e projetos nacionais, inclusive a de foros multilaterais como a Reunião de Chanceleres do Prata ou agências internacionais de financiamento. Por isso, acreditava que na área sensível de Itaipu, os recursos financeiros deveriam ser exclusivamente nacionais. Em relação ao volume de água, acreditava Silveira que era esse o único critério válido para definir a ocorrência ou não de prejuízos sensíveis para os Estados ribeirinhos. O embaixador condenava a utilização de fatores sócioeconômicos como critério para a definição de prejuízos sensíveis, uma vez que, ao tratar-se de dados incontroláveis, todo acerto internacional poderia prestar-se à “chicanice jurídica e à demagogia internacional”. Ibid. 159 A determinação de Silveira em invalidar os argumentos argentinos fica patente quando ele se remete aos cursos proferidos por reconhecidos internacionalistas na Academia de Direito Internacional de Haia, notadamente Juraj Andrassy (“Les relations internationales de voisinage”, in Recueil des Cours, Hague Academy of International Law, 1951, II e G. Sauser-Hall, “L’utilisation industrielle des fleuves internationales”, in Recueil des Cours, Hague Academy of International Law, 1953, t. II. Essas fontes, pode-se conjecturar, eram os meios que o embaixador havia encontrado para mostrar que o tema dos rios internacionais ainda não era assunto consagrado nos anais do direito internacional e que, portanto, as reclamações argentinas estavam despojadas, a priori, de valor jurídico. 160 “(...) em vez de se discutir um arcabouço jurídico global, baseado em certas premissas teóricas, alheias à realidade, procurar-se-ia, diante de problemas concretos, a regulamentação jurídica que lhes fôsse aplicável”. Silveira ao MRE, ofício-parecer, Buenos Aires, 10 de maio de 1971, n. 394, AHMRE, caixa 17. 50 amplo poderia garantir ao Brasil ter a mesma posição na bacia do Prata (onde é país a montante) e na do Amazonas (onde é nação a jusante)161. O país tinha muitos vizinhos e precisava atuar pragmaticamente – não podia adotar dois pesos e duas medidas. No ideário do embaixador, a essência do pragmatismo brasileiro no Prata consistia, naquele momento histórico peculiar, em sustentar uma única doutrina de proveito das águas internacionais162. A Declaração final do encontro evidenciava que o Brasil atingira seu objetivo, qual fosse o de neutralizar as pressões pela tese da consulta prévia e pela consagração de princípios multilaterais para o uso de bens naturais comuns. Além disso, esse comunicado afirmava que, no caso do rio Paraná, as águas poderiam ser aproveitadas a montante sempre e quando não causassem “prejuízos sensíveis a outro Estado da Bacia”163. Não foi essa, contudo, a versão que circulou na imprensa portenha. O chanceler de Pablo Pardo havia divulgado a Declaração nos meios de comunicação argentinos sem mencionar o adjetivo “sensíveis”. Segundo Silveira, o ministro argentino conseguia dessa forma os louros de haver demovido o Itamaraty de sua postura intransigente depois de cinco anos de negociações164. A questão dos rios internacionais é um claro exemplo do papel da imprensa na configuração dos jogos diplomáticos. Seja criando constrangimentos a negociadores nacionais ou estrangeiros, o jornalismo tinha a capacidade de afetar as equações políticas. Tanto mais, certamente, em ambientes domésticos de censura e permeabilidade entre o aparelho de Estado e a grande imprensa. Ao longo desta pesquisa encontrou-se que, para o período em questão, há uma verdadeira enxurrada de artigos negativos em relação ao Brasil e a seu “imperialismo” econômico e geopolítico em jornais portenhos de orientações tão diversas quanto o Buenos Aires Herald e La Opinión, jornais do interior (“El Território”), periódicos peronistas (El descamisado, Las Bases, Mayoría) e revistas de circulação nacional (Semana Latinoamericana e Notícias). No Brasil, a ampla cobertura jornalística sobre o assunto ocorreria anos mais tarde, durante o governo do general Geisel. 161 Ibid. Depoimento, cassete n. 3, lado A, 15 maio 1979, e cassete n. 7, lado B, 24 maio 1979. 163 Declaração de Assunção sobre o Aproveitamento dos Rios Internacionais (3 de junho de 1971). 164 Silveira ao MRE, ofício secreto, Buenos Aires, 23 de junho de 1971, n. 518, AHMRE, caixa 17. Segundo a chancelaria brasileira, naquele momento de Pablo Pardo precisava de um grande sucesso para manter a pasta. MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto urgentíssimo, Brasília, 10 de agosto de 1971, n. 599, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 162 51 A Reunião de chanceleres foi seguida de um encontro do grupo de peritos vinculado ao CIC, também em Brasília. Na reunião, as partes deveriam determinar tecnicamente riscos e oportunidades da construção de represas no rio Paraná. Esse encontro foi particularmente importante porque, na falta de consensos mínimos, as negociações foram paralisadas, o que levou Lanusse a dar renovado vigor a sua política bilateral na América do Sul – fenômeno de significativas conseqüências para a política externa brasileira165. A diplomacia argentina passava a concentrar suas energias em negociar declarações que angariassem o apoio dos países sul-americanos à tese da consulta prévia compulsória. Fez isso de forma ostentosa, dando alta densidade política aos encontros e obtendo solidariedades em troca de concessões comerciais significativas. Com Montevidéu, a diplomacia argentina selou o apoio a suas teses mediante o encerramento dos déficits comerciais na balança de pagamentos uruguaia, criando concessões tarifárias unilaterais (9 de julho de 1971). Apelando para uma prática pouco comum em documentos dessa natureza, a declaração final trazia um agradecimento do governo uruguaio ao argentino166. Mais grave para o Brasil era o documento celebrado entre Argentina e Bolívia, que não somente definia o apoio de La Paz às teses portenhas, mas também garantia a Buenos Aires voz em assuntos amazônicos (12 de julho de 1971)167. A aposta de Lanusse era de fato ousada e surpreendente. No intuito de conseguir uma saída razoável em sua fronteira norte, aceitou outorgar ao Chile (único país em relação ao qual a Argentina é montante em alguns trechos) a palavra final sobre um dos temas mais pungentes da sua agenda bilateral dos dois países até a década de 1990: a administração das águas de fronteira no complexo geográfico da cordilheira dos Andes. Buenos Aires cedia a Santiago a prerrogativa de definir o regime para o uso das 14 bacias andinas comuns aos dois países em troca de apoio à consulta prévia compulsória168. 165 Segundo Silveira, os peritos argentinos submeteram uma proposta de trabalho sabidamente inaceitável para o Brasil no intuito de forçar o Itamaraty a retirar-se da mesa de negociações e arcar com o ônus da paralisia do diálogo. MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto-urgentíssimo, Brasília, 10 de agosto de 1971, n. 599, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 166 La Prensa, 10 de julho de 1971. 167 Ver MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto, Brasília, 22 de julho de 1971, n. 535, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV; Silveira ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 22 de novembro de 1971, n. 2097, AAS, 1969.09.02. CPDOC/FGV. O texto menciona que é objetivo comum impulsionar a integração física de ambos países, que seriam “parte da zona andina da Bacia do Plata [minha tradução]”. 168 Silveira ao MRE, telegrama secreto, Buenos Aires, 14 de julho de 1971, n.1133, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 52 2.3.1. Os métodos de Silveira e Gibson Barboza Silveira reagiu à nova estratégia de Lanusse em correspondência encaminhada ao Itamaraty, onde propunha dois passos. Primeiro, preparar-se para a eventualidade de que o Paraguai cedesse aos interesses argentinos; em outras palavras, pensar na possibilidade de realizar um aproveitamento exclusivamente nacional das águas do Paraná na altura de Ilha Grande, onde o rio é exclusivamente brasileiro. Em segundo lugar, caso a Argentina apresentasse os documentos bilaterais no CIC com o fito de oficializá-los, o Brasil deveria denunciar a atitude argentina de melindrar as negociações multilaterais no âmbito do Tratado da Bacia do Prata mediante a consagração de posições de princípio (tais como a consulta prévia) sob a forma de instrumentos jurídicos bilaterais, e até mesmo retirar-se da mesa de negociações169. Gibson Barboza discordava. Acreditava que esse curso de ação era excessivamente arriscado porque, caso os outros países não apoiassem o reclamo brasileiro, o Itamaraty seria obrigado a deixar efetivamente o CIC para manter sua palavra. Isso seria contraproducente em vista dos interesses do país, uma vez que, em seu entendimento, o processo do Prata ocorreria com ou sem a participação brasileira170. E era melhor participar da construção do novo constrangimento do que se auto-excluir e transformar-se em mero espectador. Dessa forma, o chanceler brasileiro solicitava a seu embaixador que manifestasse formalmente junto às chancelarias de La Paz, Montevidéu e Buenos Aires que as recentes declarações conjuntas patrocinadas pela Argentina feriam espírito e letra do Tratado da Bacia do Prata. Era mister alegar que atos bilaterais não deveriam regular também sobre uma matéria tratada em âmbito multilateral171. Deixando clara a sua discrepância com a orientação de Brasília, Silveira apressou-se a indicar que os últimos acontecimentos demonstravam que Buenos Aires não estava disposta a negociar nenhum acordo efetivo e utilizaria todos os métodos a seu alcance para imputar ao Brasil a responsabilidade pela paralisia das negociações. Para ele, o Itamaraty não deveria compartimentalizar o relacionamento bilateral em diversas áreas (o que, na visão de Pio Corrêa, possibilitaria reduzir a importância das áreas de fricção direta e ressaltar as faixas coincidentes entre os dois países), mas, ao contrário, condicionar todo o relacionamento bilateral à mudança de postura da Argentina. 169 MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto, Brasília, 22 de Julho de 1971, n. 535, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 170 Ibid. 171 Ibid. 53 Afirma: “Parece-me (...) que, daqui por diante, qualquer aspecto de nossa política bilateral com a Argentina – desde o intercâmbio comercial até o recurso água, por exemplo – deve ser considerado não apenas em seus aspectos específicos, mas à luz das atuais diretrizes gerais do governo argentino (...) sem pactuar com a presente orientação [do mesmo] ou fazer-lhe concessões (...)”172. O abandono de um dos mais significativos princípios da cordialidade oficial era bandeira empunhada pela embaixada brasileira em Buenos Aires. Gibson Barboza, que havia discordado dos métodos, concordava com a orientação geral proposta pelo embaixador. Solicitou a Silveira o envio de uma carta a de Pablo Pardo na qual diria que os atos bilaterais celebrados entre a Argentina e os governos de Bolívia e Uruguai negavam o processo do Tratado da Bacia do Prata173. A missiva foi impactante. Pondo em foco a inconsistência da política regional argentina, forçava o Palácio San Martín a explicar a todos os países os porquês dessa atitude. Repentinamente, o cargo do chanceler de Pablo Pardo pendia por um fio174. Foi por isso que o chanceler argentino reagiu imediatamente e pediu a Silveira a instantânea retirada da nota e manifestou seu interesse em que Gibson Barboza visitasse Buenos Aires à brevidade175. Silveira encontrava-se em uma posição delicada. Se, por um lado, a eventual demissão do ministro argentino o deixaria em posição constrangedora para continuar a representar seu país em Buenos Aires e perante o CIC, por outro, acreditava que os potenciais substitutos do chanceler não eram melhores interlocutores. Em telegrama privado a seu chefe, afirmava que se, porventura, o encontro entre os dois chanceleres não 172 Silveira ao MRE, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 26 de julho de 1971, n. 1237, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 173 Silveira ao Ministro Luis María de Pablo Pardo, Buenos Aires, 28 de julho de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 174 O constrangimento gerado pela carta brasileira foi tal, que o chanceler uruguaio chegou a justificar-se dizendo ter assinado a declaração com a Argentina sem haver estudado o texto em questão com profundidade. MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto, Brasília, 6 de agosto de 1971, n.589, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Durante a pesquisa das fontes, não foi encontrado nenhum documento que evidenciasse qual foi a reação da chancelaria boliviana à correspondência brasileira. 175 Silveira ao MRE, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 5 de agosto de 1971, n. 1322, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. A indiganação de Silveira com os argentinos levou-o a afirmar que chamar de Pablo Pardo de maquiavélico seria “ofender o próprio maquiavel, dada a infantilidade das táticas [do ministro argentino]”, Silveira a Gibson Barboza, telegrama particular, Buenos Aires, 5 de agosto, de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Parece ser que a interação de Silveira com de Pablo Pardo foi educativa para o primeiro, tendo em vista que anos mais tarde, em seus primeiros meses como ministro de Estado, afirmaria que: “Não nos fascinam as manipulações maquiavélicas, que exploram a desunião para forçar a cunha de interesses nacionais espúrios”. BRASIL. Resenha de Política Exterior do Brasil. Brasília: MRE. n. 1, 1974. p. 30. 54 se realizasse, de Pablo Pardo efetivamente cairia. E nesse contexto sugeriu a Gibson Barboza a realização da visita àquela capital176. A respeito da retirada da nota, Silveira propôs a seu superior que o Brasil fosse extremamente cuidadoso. Se tocasse o tema no CIC, a delegação brasileira estaria forçando os governos de La Paz e Montevidéu a se manifestar e, esses, certamente o fariam em defesa de Buenos Aires. Assim, sugeriu que no próximo encontro apenas dissesse a seus colegas que Brasília havia decidido adiar o tratamento do assunto177. Gibson Barboza concordou com Silveira, acrescentando que o adiamento da apresentação da nota devia ser entendido por seu colega argentino como uma concessão brasileira. O chefe do Palácio San Martín devia um gesto ao Brasil. No mais, o ministro brasileiro negou-se a visitar Buenos Aires, concordando apenas em manter de pé um convite já feito ao argentino para visitar Brasília178. O chanceler argentino apressou-se em tentar justificar a série de entendimentos realizados por Lanusse no Prata e, nesse afã, cometeu um erro de cálculo que terminou criando uma corrida em direção ao deterioro definitivo das relações entre ele, seu colega brasileiro e o embaixador em Buenos Aires. Mediante um emissário, de Pablo Pardo informou a Silveira que os entendimentos bilaterais com Bolívia e Uruguai nada mais eram do que uma tentativa de “ajudar” o Itamaraty a criar as condições domésticas para negociar um acordo final com a Argentina sobre a questão dos rios. Explicava ele: em encontro reservado que tivera com Gibson Barboza em Assunção, o ministro brasileiro teria dito a ele pessoalmente que não havia, no Brasil, condições efetivas para negociar uma definição sobre o tema porque a opinião pública brasileira não estava preparada para tanto, motivo pelo qual a busca do consenso com a Argentina não seria factível naquela conjuntura. Assim, o Palácio San Martín calculara que, ao celebrar instrumentos sobre o tema das águas internacionais com as outras capitais da região, estaria criando condições para que o público brasileiro desse carta branca ao governo de Brasília para avançar o tão ansiado acordo com Buenos Aires 179. A esdrúxula justificativa argentina não poderia ter impacto pior. Ao imputar a responsabilidade dos atos internacionais argentinos – de claro cunho contraproducente no contexto do Tratado da Bacia do Prata – ao chanceler brasileiro, de Pablo Pardo havia 176 Silveira a Gibson Barboza, telegrama particular secreto, Buenos Aires, 03 de agosto de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 177 Idem, telegrama particular secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 6 de agosto de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 178 MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto urgentíssimo, Brasília, 10 de agosto de 1971, n. 599, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 179 Silveira ao MRE, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 5 de agosto de 1971, n. 1322, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 55 posto em risco o posto do seu colega brasileiro e gerado nele um forte sentimento de indignação e ressentimento. O próprio Palácio San Martín havia criado as condições para que o chefe do Itamaraty adotasse o curso defendido por Silveira: a intolerância em relação aos métodos da diplomacia argentina e a defesa intransigente das posições de máxima de Brasília durante as negociações. O chanceler brasileiro estava pronto para abandonar a cordialidade oficial como guia de ação para lidar com os constrangimentos provenientes de Buenos Aires180. Silveira vencera, no front doméstico, a batalha para modificar a forma de lidar com a Argentina. Em mensagem particular a Gibson Barboza, manifestava a sua emoção ao chegar ao ponto mais alto de sua carreira podendo demover o Itamaraty das tradicionais concepções que informavam a sua política para Buenos Aires181. Meses depois, de Pablo Pardo deixava o Palácio San Martín e era substituído pelo embaixador Mc Loughlin182. Porém, menos de meio ano mais tarde, a diplomacia regional da Argentina continuava a constranger o Brasil, dessa vez mediante declarações conjuntas com o Paraguai183 e o Equador184. A política externa de Lanusse operava sempre sob um esquema básico de grande atrativo: abria-se uma linha de crédito para projetos de integração física, oferecia-se cooperação técnica no campo científico e agrícola para os vizinhos menos desenvolvidos, lançavam-se as bases para estudos sobre aproveitamento conjunto dos rios, declarava-se conjuntamente o rechaço a todo tipo de hegemonia, reconhecia-se que as 180 Gibson Barboza a Silveira, telegrama particular secreto urgentíssimo, Brasília, 10 de agosto de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. “Não posso deixar de dizer a você que seu telegrama particular, de hoje, fez com que os meus olhos se enchessem de lágrimas. Minha vida tem sido entremeada de momentos felizes e de sofrimentos quase insuportáveis, cujo maior equilíbrio encontrei sempre num inquebrantável amor pelo nosso país e na confiança em seu destino. Mas foi preciso que você, com seus enormes méritos e a sua qualidade humana, fosse ministro das relações exteriores, para que eu, dentro das inúmeras imperfeições que me são próprias, me sentisse plenamente recompensado pelo pouco que me é dado fazer pelo Brasil e pela casa, aos quais tanto devo, como devo aos meus colaboradores neste fascinante e árduo posto. Obrigado, meu chefe e meu amigo”. Silveira a Gibson Barboza, telegrama particular secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 10 de agosto de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 182 Não foram encontradas informações que permitam imputar a troca de chanceleres na Argentina aos episódios aqui relatados. 183 Às vésperas de 1972 (27-29 dezembro de 1971), Lanusse e Stroessner acordaram a concessão de linhas de crédito argentinas e a assistência técnica argentina em diversas áreas: afirmaram que os países deviam dispor de seus recursos naturais não somente de acordo com seus interesses, mas também “de acordo com o direito internacional”; afirmaram que países do sistema interamericano deviam cooperar levando em conta o “caráter multilateral do ordenamento regional”; lançaram um programa de estudos hidrelétricos sobre o trecho argentino-paraguaio do Paraná (Yaciretá e Apipé); lançaram projeto – sem precedentes – de cooperação de ambos os países com a Bolívia para utilizar um sistema de barragens para a regulação das águas do rio Pilcomayo; e celebraram a “cooperação e assistência das Forças Armadas argentinas com as Forças Armadas paraguaias”. Silveira ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 30 de dezembro de 1971, n. 2324, AAS, 69.09.02. CPDOC/FGV. 184 Ao fim da declaração dos dois mandatários, o Equador manifesta seu desejo de que o governo da Argentina se vincule mais estreitamente ao Pacto Andino. Silveira ao MRE, telegrama urgente, Buenos Aires, 28 de janeiro de 1972, n. 148, AAS, 69.09.02. CPDOC/FGV. 181 56 relações internacionais na América do Sul deveriam ser conduzidas em foros multilaterais devido à “estrutura física do subcontinente” e, finalmente, destacavam-se os laços cooperativos entre as Forças Armadas argentinas e suas correspondentes nos outros países. Ou seja, a tônica era a oferta de recursos a fundo perdido em troca de declarações de alto valor político. A dinâmica atualização dos vínculos bilaterais argentinos não era a única estratégia de Lanusse para frustrar o programa hidrelétrico brasileiro. Quando da visita do Presidente Médici aos Estados Unidos, e da manifestação de Nixon sobre o papel de liderança do Brasil na América Latina, o mandatário argentino denunciou os vícios gerados pela divisão do continente em duas classes de países185. Além disso, Buenos Aires não hesitou em acusar o Brasil de irresponsabilidade ambiental na região amazônica. A melhor saída para esse problema seria a adoção do princípio da “consulta” para a utilização racional e eqüitativa das águas a fim de evitar danos e desequilíbrios ambientais186. Apesar de sua guinada intelectual em direção a Silveira, é plausível supor que Gibson Barboza tivesse ânsia por chegar a um entendimento técnico com a Argentina e, dessa forma, eliminar a questão da consulta prévia do diálogo com a vizinhança. Os custos de negar a cordialidade oficial talvez fossem muito altos para o chanceler. Em princípios de setembro daquele mesmo ano, Barboza deu carta branca para que seu embaixador perante as Nações Unidas, Sérgio Frazão, e o ministro Expedito de Freitas Rezende, negociassem entendimento final com suas contrapartes argentinas em Nova Iorque. As conversas foram paralisadas até a chegada dos chanceleres argentino e brasileiro à cidade, onde teria lugar a XXVII Assembléia Geral das Nações Unidas. Durante jantar das duas delegações, Frazão teria proposto uma rodada de negociações da qual apenas participariam os chanceleres e seus representantes perante a ONU187. Horas depois, chegavam a um acordo188, trocando cartas sobre o tema e co-patrocinando a Resolução 2995 da Assembléia Geral das Nações 185 Lanusse dizia: “As soluções não se encontram diferenciando-se os países do continente segundo o nível de desenvolvimento, e sim no tratamento de igual para igual, sem paternalismos, lideranças ou hegemonias, e a Argentina está convencida de não haver no continente país auto-suficiente, mas que, pelo contrário, todos, sem exceção, necessitam um do outro e se complementam [minha tradução]”, El cronista comercial, 28 de dezembro de 1971. 186 Visita de Lanusse ao Equador em janeiro de 1972. Silveira ao MRE, telegrama urgente, Buenos Aires, 28 de janeiro de 1972, n. 148, AAS, 69.09.02. CPDOC/FGV. 187 LANÚS. Op. Cit., p. 302. 188 O Acordo subscrito em 29 de setembro de 1972 afirmava que “a) na exploração, aproveitamento e desenvolvimento de seus recursos naturais, os Estados não devem causar efeitos prejudiciais sensíveis a regiões situadas fora de sua jurisdição nacional; b) [ambos os países] reconhecem que a cooperação entre os Estados na área ambiental (...) será adequadamente atingida mediante o conhecimento oficial e público dos dados técnicos relativos aos trabalhos a ser empreendidos pelos Estados dentro de sua jurisdição nacional com o propósito de evitar prejuízos sensíveis que possam ter lugar no meio humano da área vizinha; c) reconhecem que os dados técnicos mencionados (...) serão apresentados e recebidos com o melhor espírito de cooperação e boa vizinhança, sem que isso possa ser interpretado como facultando qualquer Estado a atrasar ou impedir os programas e projetos de exploração, aproveitamento e desenvolvimento dos recursos naturais [minha tradução]”. Apud. LANÚS. Op. Cit., p. 302. 57 Unidas, aprovada por unanimidade189. Esse conjunto de medidas foi batizado de “Acordo de Nova Iorque”, entendimento que – devido a sua ambigüidade – permitia a ambas as partes manter suas posições originais sem com isso inviabilizar o espaço de negociação190. Contudo, a generalidade do “Acordo” impossibilitaria sua eficácia. Seu teste de fogo foi quando o governo brasileiro definiu a data para o enchimento da represa de Ilha Solteira, e Silveira informou ao Palácio San Martín que o Itamaraty encaminharia uma comunicação oficial ao embaixador argentino em Brasília. Isso causou grave desconforto na Casa Rosada, uma vez que a mesma esperava que a embaixada brasileira em Buenos Aires encaminhasse o comunicado à chancelaria argentina191. Os protestos formais da representação argentina no CIC192 foram frontalmente respondidos por Silveira. Em primeiro lugar, a obra em Ilha Solteira não teria nenhuma conseqüência sobre o território argentino. Além disso, o governo brasileiro já havia publicado uma nota sobre o tema em O Estado de S. Paulo uma semana antes, informando sobre o enchimento da represa193. Além disso, o governo também havia publicado o tema no Diário Oficial que, em gesto de cortesia e boa vontade, havia sido enviado pelo Secretário Geral do Itamaraty ao embaixador argentino no Brasil194. A partir daí, ficava claro que o entendimento de Nova Iorque não previra de que maneira os Estados determinados os “prejuízos” eventuais das definiriam como seriam obras sobre o leito dos rios internacionais. Um mês e meio depois, Brasil e Paraguai criavam a empresa binacional de Itaipu (maio de 1973) e, até o fim do ano, Argentina e Paraguai assinavam o Tratado de Yaciretá (dezembro). Em meio a esses novos condicionantes, que agora impunham a necessidade de negociar tecnicamente a construção das duas obras no rio Paraná, a volta do peronismo à Argentina abria espaços inéditos para o diálogo bilateral. Era a calmaria que precede as grandes turbulências. 189 Sobre a negociação, ver BARBOZA. Op. Cit., p. 118-124. Essa interpretação é apresentada por Luiz Felipe de Seixas Corrêa no comentário introdutório do discurso proferido por Gibson Barboza na XVII Assembléia Geral das Nações Unidas. Ver FUNAG. A Palavra do Brasil nas Nações Unidas (1945-1995). Brasília: FUNAG, 1995, p. 273. 191 LANÚS. Op. Cit., p. 303. 192 Além de afirmar que a prática brasileira violava o “Acordo de Nova Iorque”, a chancelaria argentina publicava nota afirmando que em 29 de outubro de 1968, em 21 de janeiro de 1969, em 29 de abril de 1969 e em 29 de outubro de 1969, o governo argentino havia pedido ao brasileiro, por escrito, o direito de ser informado e consultado sobre os trabalhos hidráulicos em Ilha Solteira. La Nación, 21 de março de 1973. 193 Esse procedimento, pelo qual um país publica em seus próprios periódicos certas informações hidrológicas sem a notificação formal a terceiros, é conhecido como “Prática de Jupiá”. 194 LANÚS. Op. Cit., p. 317. 190 58 2.4. A promessa do concerto O fracasso do projeto eleitoral de Lanusse resultou na posse de Campora – representante de Perón, que se encontrava exilado em Madri – em 25 de maio de 1973. A cordialidade com que Campora tratou Silveira desde o início da sua gestão195 permitiu um alto nível de entendimento em duas áreas sensíveis: a cooperação argentino-brasileira sobre o rio Uruguai e a denúncia argentina dos “Acordos de Nova Iorque”, que ocorreu a pedido do governo argentino com total apoio do embaixador brasileiro em Buenos Aires. Em relação à primeira, em março de 1972, a Eletrobrás e a Água y Energía (AyE) da Argentina assinaram convênio para estudar a viabilidade de construir represas hidrelétricas nas regiões de São Pedro, Garabí e Roncador, sobre o rio Uruguai. Sabia-se que a coordenação de esforços permitiria garantir a navegabilidade desde o estuário do Prata até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Iniciavam-se, então, as conversações para um avanço concreto na área. Essa iniciativa prenunciava o clima de cooperação de ambos os países na questão hidrelétrica. A segunda área de entendimento era a denúncia do “Acordo de Nova Iorque”. A leitura atenta da carta apresentada pelo chanceler Puig a Silveira, na ocasião, assim como as observações do embaixador brasileiro sobre o novo mandatário argentino, leva à conclusão de que o rechaço de tal instrumento não foi causado pela intenção argentina de hostilizar o Brasil ou mesmo de alardear o não-cumprimento brasileiro do entendimento acordado. Ao contrário, o texto é extremamente cordial196, deixando claro que o alcance e a interpretação das normas estabelecidas ficavam comprometidos por uma redação que permitia e estimulava divergências. A carta reconhece que o “Acordo” foi fonte de desentendimentos sistemáticos em vez de promover a cooperação197. Apesar da fluidez do diálogo entre Silveira e o governo de Campora, a dialética entre as forças sociais argentinas e as posturas diplomáticas brasileiras impediram a consecução de um acordo definitivo sobre a questão. Ao tempo em que Brasil e Paraguai assinavam o Tratado de Itaipu (maio de 1973), as ruas de Buenos Aires eram adornadas por 195 Silveira ao MRE, telegrama confidencial urgentíssimo, Buenos Aires, 17 de maio de 1973, n. 1266, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV, no qual Silveira relata a Brasília o clima de extrema cordialidade de Cámpora para com ele desde os seus dias de Presidente eleito. 196 Comentando o documento a Gibson Barboza, Silveira diria que o tom do mesmo é “correto, no que muito difere dos que foram dirigidos no governo argentino anterior”, além de não acusar nem fazer referência direta à tese da consulta prévia. Silveira a Gibson Barboza, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 10 de julho de 1973, n. 1983, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 197 Juan Carlos Puig a Silveira, Buenos Aires, 10 de julho de 1973, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. 59 cartazes que clamavam contra o projeto, e todos os setores da sociedade argentina haviam sido contaminados pelo sentimento de indignação198. Silveira não foi poupado pela ebulição social que cindia uma Argentina entre grupos clandestinos terroristas. Em 16 de abril de 1973, o Itamaraty recebia informação idônea de que havia planos de “elementos ultra-esquerdistas argentinos” para seqüestrar Silveira e sua esposa, durante o qual seria exigida uma declaração de suspensão dos trabalhos da hidrelétrica de Ilha Solteira199. A agitação interna na Argentina, que minava as bases de Campora, abria o caminho para o regresso de Perón. O problema das hidrelétricas teria que esperar o regresso do velho líder justicialista, de quem se esperava o poder de reduzir o ritmo da deterioração do vínculo bilateral. 2.5. Conclusões Esta seção buscou sintetizar a evolução do relacionamento argentino-brasileiro entre a assinatura da Ata de Iguaçu (1966) e a do Tratado de Itaipu (1973). Argumentou-se que o primeiro ato brasileiro-paraguaio consubstanciou uma clivagem na política externa brasileira para a Argentina, uma vez que a celebração do acordo – que tratava de um tema crucial às preocupações regionais de Buenos Aires – teve lugar apesar das sistemáticas e insistentes reclamações formais do Palácio San Martín. Embora houvesse elementos importantes do processo decisório diplomático do Brasil (nomeadamente o embaixador Pio Corrêa) afeitos às práticas da cordialidade oficial, o curso dos acontecimentos revela que não foi essa a tendência que vingou. A partir de Iguaçu, a diplomacia brasileira emitiu sinais de que estava disposta a modificar a maneira tradicional de lidar com a Argentina. Essas manifestações incluíam: (a) a indicação de Silveira, um embaixador cético em relação ao vínculo argentino-brasileiro; (b) a radicalização do estilo brasileiro de condução diplomática, que contrapunha a reserva dos gabinetes à publicidade das negociações e uma inesperada dose de realismo político ao avanço da juridicidade; (c) a intolerância em relação à estratégia regional de Lanusse; e (d) a impaciência em relação à atuação do chanceler de Pablo Pardo. As posturas do Brasil, entre 1966 e 1973, fundam uma nova abordagem diplomática para a América do Sul e, ao fazê-lo, redimensionam o lugar da Argentina em seu cálculo 198 Silveira ao MRE, telegrama secreto exclusivo urgentíssimo, Buenos Aires, 16 de abril de 1973, n. 988, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV. 199 MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto exclusivo urgentíssimo, Brasília, 16 de abril de 1973, n. 334, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV. 60 estratégico. Foram identificados quatro fatores que claramente concorreram para que o fenômeno da diluição da cordialidade oficial tivesse lugar naquele período específico da história. Primeiramente, vale notar que o embaixador brasileiro em Buenos Aires ganhou centralidade na definição da atuação diplomática para a Argentina quando da criação do CIC em 1968. O fato de o cargo ter sido ocupado por Silveira certamente favoreceu o curso dos acontecimentos de forma determinante. O fortalecimento das posições dele nas disputas internas do Itamaraty andavam pari passu com sua percepção de que o Brasil já contava com condições reais para reverter a postura preventiva que comandara historicamente a diplomacia do Rio de Janeiro e de Brasília. Em segundo lugar, a fragilidade do processo decisório argentino em política externa tendeu a ressaltar a relevância que os acertos e erros de seu chanceler tinham sobre o cálculo estratégico do país. Como foi evidenciado, as táticas do ministro de Pablo Pardo contribuíram para a adesão de Gibson Barboza ao ideário de Silveira sobre como deveria o Brasil tratar com as idiossincrasias da diplomacia argentina. A interação entre o chanceler argentino e os dois diplomatas brasileiros gerou situações constrangedoras que funcionaram claramente em detrimento do diálogo bilateral. Em terceiro, o fracasso dos “Acordos de Nova Iorque”, abordagem alternativa à de Silveira, terminaria por fortalecer o embaixador na estrutura interna do Itamaraty. Note-se que o próprio ministro brasileiro tinha comandado o processo de Nova Iorque em parceria com alguns dos nomes mais importantes do quadro da chancelaria. Ele o fizera, sustentouse, em resposta às críticas da imprensa e de setores relevantes do sistema político brasileiro, muito reticentes a adotar posturas frontais em relação a Buenos Aires. Em quarto lugar, o significado de Itaipu para o aparelho de Estado brasileiro eliminou do mapa diplomático a possibilidade de abandonar o projeto ou mesmo reduzirlhe o ritmo acelerado. A animosidade argentina contra essa iniciativa talvez tivesse a mesma intensidade, criando um incentivo natural para que todo chanceler tivesse que adotar uma rota também frontal em relação às atitudes de Brasília, conforme foi apresentado. Do choque de dois contextos sócio-econômicos tão díspares – forças profundas em franca dissonância – nascia um fenômeno raro na vida de dois vizinhos: a consagração dos objetivos máximos de um trazia à tona a inoperância da diplomacia do outro. Em um ambiente como esse, é raro alcançar um acordo duradouro, isto é, um entendimento que seja instrumental para ambas as partes. 61 Entre 1966 e 1973, a diplomacia brasileira para a Argentina abandonou dois dos elementos de seu tradicional marco de referência: a tolerância em relação ao discurso diplomático argentino e a busca sistemática por faixas de cooperação e entendimento como mecanismo para evitar os confrontos abertos. A erosão da cordialidade oficial do cálculo internacional do Brasil terminaria por ser implementada pelo governo brasileiro entre 1974 e 1979. 62 Capítulo III O estadista, o chanceler e o embaixador Às vésperas de sua posse, Ernesto Geisel fazia uma avaliação crítica do estado das relações internacionais do Brasil. Para ele, o país tinha condições de arquivar as duas experiências históricas que tradicionalmente impuseram limites estreitos à capacidade brasileira de manobra no exterior: o laço de dependência política dos Estados Unidos e a postura preventiva nos negócios com a Argentina. Se o primeiro eixo constrangia a atuação diplomática do país nos quatro cantos do globo, o segundo moldava suas possibilidades na América do Sul. Ele entendia que os padrões de relacionamento então vigentes com esses dois países eram opções discordes com os avanços do projeto de desenvolvimento brasileiro e com as oportunidades que a vida internacional apresentava a uma potência regional de porte médio, que era como ele percebia o Brasil. Nos primeiros meses de 1974, Geisel planejou a reversão desse quadro. Por isso, escolheu para ocupar o Itamaraty um diplomata de carreira com quem rapidamente estabeleceu relações singulares. Antônio Francisco Azeredo da Silveira seria o responsável por dar coerência ao projeto internacional do presidente, assim como articulá-lo internamente e resguardá-lo do peso da tradição, que inúmeras vozes ressuscitaram – na imprensa, na caserna e na própria chancelaria – até o fim da gestão em 1979. Também ocupou-se de justificar, perante o aparelho de Estado e a sociedade, a necessidade da mudança. O ímpeto reformista do Presidente, assim como o processo decisório que ele pôde desenvolver, centrado na figura do chanceler, teve efeitos tangíveis sobre a política para a Argentina. Apesar de as manifestações do presidente Juan Domingo Perón em prol de um entendimento definitivo sobre a questão dos rios, a difícil interação das duas diplomacias alargou-se para além do período peronista (1973-1976) e caracterizou a conjuntura sobre a qual a Junta Militar, inicialmente chefiada por Jorge Rafael Videla (1976-1979), estruturou uma nova tática para lidar com o Brasil. Se, no primeiro momento, as reações argentinas à política de Geisel eram tão pouco coordenadas quanto turbulento era seu processo político doméstico, no segundo a Casa Rosada renovou seu instrumental no intuito de conter o projeto de Itaipu. Poucas personalidades argentinas eram mais prováveis para levar a cabo a tarefa do que Oscar 63 Camilión, que em 1976 apresentou as credenciais de embaixador a Geisel e lançou-se à reversão da tendência do fato consumado nas obras de engenharia planejadas sobre o rio Paraná. Estavam redefinidos os termos do embate. 3.1. Geisel estadista Geisel assumiu a Presidência da República em condições excepcionais. Herdeiro do grupo castrense200, que tomara o poder em 1964 com a convicção de que a intervenção militar no poder público devia ser limitada, ele chegou ao Palácio do Planalto graças a uma aliança entre “duros” e “brandos” para encaminhar a liberalização política do país201. Essa característica fez do Presidente o árbitro entre as facções que advogavam pela manutenção das características autoritárias do regime e as que buscavam avançar o ritmo da liberalização202. Segundo Camargo e Góes, a prerrogativa de moderação do cenário político assegurou ao chefe de Estado poderes quase imperiais, característica que foi intensificada pelo perfil e história pessoal de Geisel. Diferentemente do militar típico, a maior parte de sua vida pública foi dedicada à burocracia estatal fora da caserna203. 200 Geisel integrou, junto a seus irmãos e a Golbery do Couto e Silva, o grupo militar que se opôs ao Presidente João Goulart em 1964 e tinha como líder o então chefe do Estado Maior do Exército, Humberto de Alencar Castelo Branco. Após o golpe militar, Geisel foi nomeado chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, passando automaticamente a chefiar também a Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Quando da saída de Castelo Branco do poder, em 1967, Geisel foi indicado para o Superior Tribunal Militar. 201 Por liberalização entende-se o período em que os dirigentes de determinado regime autoritário (ou parte deles) anunciam sua intenção de ampliar significativamente os direitos individuais e grupais dos cidadãos. Ver O’DONNELL, G.; SCHMITTER, P. Transições do Regime Autoritário: primeiras conclusões. São Paulo: Vértice, 1987, p. 23. 202 Esse tipo de acordo, tão incomum na história dos regimes militares, tinha por objetivo evitar que os custos da presença militar no aparelho de Estado terminassem por varrer o que uma corporação castrense tem de mais valioso – a sua unidade. Ver CAMARGO, A.; GÓES, W. de. O drama da sucessão e a crise do regime. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 100 e GÓES, W. de. O Brasil do General Geisel: estudo do processo de tomada de decisão no regime militar burocrático. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 41. 203 Geisel nasceu em Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul), em 1907. Aos 24 anos, foi nomeado para diretor-geral do Departamento de Segurança Pública e secretário-geral do governo do Rio Grande do Norte na interventoria de Aluísio Moura. No mesmo ano, alcançou o Conselho Consultivo do Estado da Paraíba na interventoria de Antenor Navarro. Um ano mais tarde, em 1932, foi indicado secretário da Fazenda, Agricultura e Obras Públicas da Paraíba. Entre 1935 e 1946 ocupou diversos cargos na carreira militar e estudou na Escola de Armas e na Escola do Estado-Maior, além de fazer estágio em escolas militares nos Estados Unidos. Em 1947, foi como adido militar para a embaixada do Brasil em Montevidéu. Retornou ao país dois anos mais tarde, voltando a ocupar postos na carreira militar. Em 1955, foi nomeado subchefe do Gabinete Militar da Presidência da República no governo João Café Filho. Nesse mesmo ano, assumiu a superintendência da refinaria Presidente Bernardes em Cubatão (São Paulo) até 1957, quando virou membro do Conselho Nacional do Petróleo como representante do Ministério de Guerra. Em 1961, ocupou a chefia do Gabinete Militar da Presidência da República durante as duas semanas da gestão Ranieri Mazzilli. Em 1964, foi reconduzido a essa mesma função pelo Presidente Castelo Branco. Pouco antes da posse de Costa e Silva (1967), afastou-se do grupo vinculado ao novo mandatário encontrando espaço no Superior Tribunal Militar. Já em 1969, o Presidente Médici o convidou para comandar a Petrobrás, onde ficou até sua indicação como candidato presidencial, em junho de 1973. Assumiu a Presidência da República em 1974, aos 67 anos de idade. Em 1980, após deixar o Palácio do Planalto, passou à presidência da Nordeste Química S.A., tornando-se mais tarde 64 Nele, havia obsessão pelos detalhes de cada iniciativa governamental. Por isso, executou pessoalmente as duas grandes obras a que se dedicou durante o governo: o refluxo da comunidade de informações como tática governamental de distensão política204 e a aceleração do programa de desenvolvimento industrial induzido, apesar do ambiente de recessão econômica internacional que marcou a década de 1970205. Dessa forma, o presidente procedeu à releitura do binômio segurança/desenvolvimento que inspirara o golpe militar de 1964 para privilegiar definitivamente o segundo termo sobre o primeiro206. Filho de alemão radicado no Rio Grande do Sul, Geisel exemplifica o processo de enraizamento nacional que, em apenas uma geração, assegurou aos jovens da colônia a possibilidade de tornarem-se atores da mudança no cenário político nacional. Jovem cadete em meio ao clima generalizado de conluio em que se encontravam as Forças Armadas nos anos vintes, Geisel fez parte da geração que marcou a passagem de uma sociedade oligárquica para uma de massas mediante a revolução de 1930207. Aderiu incondicionalmente ao caráter reformista desse movimento, chegando a participar dos confrontos armados que se travaram em São Paulo e no Rio de Janeiro, e à administração pública do Estado Novo, projeto varguista de modernização centralizadora208. O conteúdo desse reformismo era dado pelo programa de desenvolvimento industrial acelerado que Vargas pôs em andamento das décadas de 1930 e 1940. Após a II Guerra Mundial, a geração de Geisel chegava aos principais postos de comando presidente do Conselho de Administração da Companhia Petroquímica do Nordeste. Falheceu no Rio de Janeiro, vítima de câncer, em 1996, aos 89 anos. D’ARAÚJO, M. C. de; CASTRO, C. (Org.). Ernesto Geisel. 5.ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997. p.465-474. 204 Esse era efetivamente um sistema de poder paralelo ao Estado brasileiro. Em meados da década de 1970, o mesmo contava com vultosos orçamentos, isenção de regras de disciplina e controles administrativos, agendas confidenciais, métodos autônomos de identificação e punição de elementos suspeitos, presença formal e informal em todos os ministérios, secretarias, Estados federados, municípios de grande porte e meios de comunicação do país. Embora Geisel tenha conseguido avançar significativamente na eliminação da censura e da prática generalizada da tortura e das prisões políticas, o esfacelamento da comunidade de informações tal como desenvolvida durante o regime militar (19641985) não foi executado até meados da década de 1980. Ver STEPAN, A. Rethinking Military Politics: Brazil and the Southern Cone. Princeton University Press, 1988, p. 24. 205 Diante do choque petrolífero de 1973, que pôs em estado de alerta todas as economias do mundo industrializado e em desenvolvimento, o governo brasileiro optou por aumentar o gasto público no programa de industrialização nacional na crença de que o país atravessava uma fase crucial do capitalismo industrial. O projeto econômico, batizado de II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), procedeu a definir áreas de desenvolvimento tecnológico e industrial sensíveis e a financiá-las sistematicamente com créditos públicos. CARNEIRO, D. D. Crise e Esperança: 1974-1980. In: ABREU, M. P. de. A Ordem do Progresso: cem anos de política econômica republicana (1889-1989). Rio de Janeiro: Campus, 1992. p. 295-322. 206 PINHEIRO, L. Foreign policy decision-making under the Geisel government: the President, the military and the foreign ministry. 1994. Tese (Doutorado) – London School of Economics p. 70-71. 207 ESTADO NOVO. In: FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Dicionário Histórico-Bibliográfico Brasileiro. Disponível em <http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb>. Acesso em 10 jan. 2002. 208 Em 1930, Geisel aderiu ao movimento revolucionário contra o governo de Washington Luís, chegando aos cargos de diretor geral do Departamento de Segurança Pública e secretário-geral do governo do Rio Grande do Norte. Em 1931, reprimiu a reação contrária ao interventor de Vargas em Pernambuco. Participou contra levantes similares no vale do Paraíba (1932) e na Escola de Aviação Militar do Rio de Janeiro (1935). D’ARAÚJO; CASTRO, Op. Cit., p.466-467. 65 responsáveis pela implementação da política de industrialização do país. A ele coube a direção de uma refinaria estatal (1955), uma cadeira no Conselho Nacional do Petróleo e, mais tarde, a presidência da Petrobrás (1969-1973). Essa experiência solidificou nele uma visão de mundo na qual a produção industrial autônoma tinha natureza redentora do atraso histórico em matéria econômica e social209. Sua formação profissional foi marcada por um tipo de vocação para a responsabilidade ascética que caracteriza a forma pela qual formaliza seu pensamento e suas opiniões. Para ele, a solidão não era uma escolha, e sim a condição inescapável do ser humano, que responde sozinho pela conseqüência de seus atos. Encontra-se, seja na literatura a seu respeito ou em seu próprio depoimento, a suspeita fundada de que cada uma de suas ações era levada a cabo com a certeza de que a História não lhe pouparia julgamento210. Em Geisel, as tonalidades do protestantismo podem ser ilustradas pela rigidez de seus horários, pela distância que impunha voluntariamente mesmo aos mais próximos, por sua preferência pelo estilo de vida na caserna ao das altas rodas sociais, pelo aparente descaso por qualquer prazer que não a leitura e a música de Mozart e, principalmente, por fazer do trabalho a única paixão arrebatadora211. O corolário dessa visão foi uma prática decisória essencialmente solitária e voluntarista ao longo de toda a sua gestão212. Embora sua consulta a ministros fosse freqüente, era ele quem decidia os conteúdos e as formas de operacionalizar as escolhas, mesmo que isso resultasse na intimidação de seus assessores diretos213. Centralizou as decisões em seu gabinete, onde resolvia dos problemas mais simples aos mais complexos. Tomava suas decisões lentamente em meio a meticulosa reflexão e ao repasse de inúmeras opções em um ambiente de solitária deliberação, geralmente à noite, durante o estudo de relatórios nos 209 Ibid., p.235-254 Evidência disso é o curioso fato de, aos 89 anos, Geisel ter procedido a duas revisões detalhadas e exaustivas dos originais de seu próprio depoimento à Fundação Getúlio Vargas entre os anos de 1993 e 1996. Ibid., p. 8 e 10. 211 Ibid., p. 55 e GÓES, O Brasil…, p. 47. 212 Essa verificação, que permeia toda a literatura referente a Geisel, está claramente posta por Walder de Góes: “(...) o quadro sistêmico, que dá organicidade ao processo decisório (...) não dispensa a constatação de que toda essa realidade orgânica está permeada pela personalidade do Presidente Geisel. Seu comportamento exerce, sobre os processos formais e sobre os modos informais de exercício do poder, impacto que, sendo determinante da reação dos mecanismos, é, entretanto, bem assimilado por eles. Não importa que isso conduza à eficiência ou à ineficiência, importa apenas constatar o fato, isto é, a projeção da visão de mundo de Geisel sobre a estrutura dirigente como um todo”. GÓES, O Brasil… p. 41. 213 Seus assessores próximos têm uma interpretação alternativa para essas características: eles sugerem que a solidão de Geisel era, na realidade, resultado da trágica morte de seu filho ainda adolescente em 1957. Ver Cf. FALCÃO, A. Geisel, do Tentente ao Presidente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995 e Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979. 210 66 quais rabiscava anotações que serviriam como instruções para os responsáveis de cada pasta214. Geisel não era um especialista em assuntos internacionais, mas contava com alguma familiaridade com a área. Além de sua experiência como adido militar na embaixada brasileira no Uruguai (1947-1950), presidiu a Petrobrás (1969-1973), tornando-se defensor do estreitamento das relações com o mundo árabe. Ainda na estatal, criou a Braspetro, braço internacional da empresa, que desenvolveu negócios com Angola, Argélia, Colômbia, Iraque e Líbia. Durante seu governo, o chefe de Estado conduziu pessoalmente a dinâmica política, e sua personalidade marcou definitivamente a postura nos assuntos externos. As características que o definiam animaram o projeto internacional, principalmente o patriotismo de cunho reformista e a noção onipresente da responsabilidade individual sobre os resultados da ação do homem público. Pensava, porém, que os Estados Unidos estavam ingressando em uma nova etapa de hegemonia após os ressentimentos causados pela participação do país na Guerra do Vietnã (1956-1975), de acordo com o ideário de Silveira. A prática da détente215, perpetuada pelo Presidente Ford ao escolher Henry Kissinger para o Departamento de Estado, abria oportunidades que o Brasil não poderia negligenciar. Não era a primeira vez que um país em desenvolvimento realizava essa leitura: o mesmo foi tentado mediante as mais diversas estratégias, e com maior ou menor sucesso, pelos países da Europa Ocidental (especialmente a França e a Alemanha), a China, as potências regionais afro-asiáticas, o México, a Venezuela e a Argentina. A criatividade do projeto externo nasceria durante a operacionalização dessa ampla e ainda vaga intenção presidencial. Os primeiros discursos oficiais sinalizavam claramente que haveria uma redefinição de prioridades no perfil internacional do país, sem, contudo, oferecer detalhes concretos216. Coube ao presidente cunhar e anunciar o título – costume comum à época – da nova orientação externa brasileira. 214 GÓES, W. Op. Cit., p. 20 e 24. Prática em que Estados Unidos e União Soviética se engajaram entre as décadas de 1960 e 1970, quando perceberam as vantagens de concertar sua atuação diplomática nos vários assuntos da agenda mundial e diluir a carga ideológica do conflito Leste-Oeste que marcara as relações internacionais desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Para uma recuperação do conceito de détente, ver SARAIVA, J. F. S. (Org.). Relações internacionais contemporâneas: da construção do mundo liberal à globalização. Brasília: Paralelo 15, 1997. p. 257-260 e 279-282. 216 O discurso de Geisel na primeira reunião de gabinete, em 19 de março de 1974, já traz esses elementos. O mesmo ocorreu com Silveira em seu discurso de posse, no qual prenunciou os novos tempos ao afirmar que “o Brasil não se contém apenas no inventário de suas dimensões presentes, mas antes se completa na perspectiva fecunda da superação do que é hoje (…) Por isso, [o Itamaraty] tem feito e continuará a fazer ajustamentos sistemáticos na sua capacidade de atuar”. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de Política Exterior. Brasília: MRE. n. 1, mar/abr/maio/jun 1974, p. 9 e 1920. Nessa mesma ocasião Silveira afirmou a seus colegas que “a melhor tradição do Itamaraty é saber renovar-se”. À luz do Depoimento, é praticamente impossível saber se essa construção tinha por objetivo 215 67 Tratava-se do Pragmatismo Responsável217. Sinteticamente, é possível sugerir que esse paradigma consistiu na exploração de oportunidades que emanavam da flexibilização do confronto Leste-Oeste. Na prática, isso significava: as vantagens de negociar com uma Europa fortalecida e crescentemente autônoma em relação aos desígnios norte-americanos; a possibilidade factível de negociar acordos com regimes marxistas, o apoio às independências africanas e à causa palestina; e a busca da cooperação horizontal com outras potências regionais, principalmente no campo energético e científico-tecnológico. A orientação externa do governo Geisel não constitui propriamente uma ruptura com os princípios defendidos no passado. Antes, representou o desenvolvimento do paradigma externo acumulado com mais ou menos intensidade desde Vargas, qual seja a instrumentalização da diplomacia em busca de insumos para o projeto nacionaldesenvolvimentista218. O estadista viu-se prostrado diante da necessidade de justificar suas apostas externas perante as estruturas domésticas e os parceiros tradicionais no estrangeiro. Esse era o tamanho do desafio de Silveira, seu chanceler. 3.1.1. A chancelaria de Silveira É plausível supor que, durante a escolha do ministério, Geisel procurasse um chanceler com características essencialmente operativas, que pudesse pôr em prática seu anseio decisivo, embora ainda difuso, de aprimorar o lugar do Brasil nas relações internacionais. Silveira, aos 57 anos de idade, era um candidato pouco provável à primeira vista. Ao longo de sua carreira, não conseguira apadrinhamentos significativos219, tampouco era uma figura publicamente conhecida cujo prestígio lhe facilitasse a operacionalização da ousada agenda do Presidente. Os militares resistiam ao seu nome desde 1969, conforme visto anteriormente. Contudo, foram justamente essas as características que o fortaleceram contemporizar a postura do ministro com eventuais críticas dos setores mais conservadores da Casa ou se foi uma ironia do ministro endereçada a esses grupos. Provavelmente tratou-se de uma conjunção das duas alternativas. 217 Segundo Silveira, o texto por ele preparado para leitura do mandatário durante a primeira reunião de gabinete, em 19 de março de 1974, trazia a noção de “pragmatismo responsável”, mas não definia a expressão – tarefa que ficou por conta de Geisel. Inclusive, para o diplomata teria sido melhor se a expressão a qualificar a política externa brasileira houvesse ressaltado o lado ecumênico do projeto, e não o pragmático. Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979. 218 Passim. CERVO, O desafio... e VIZENTINI, A política externa... 219 Exceção seja feita para o ex-presidente Costa e Silva, que teria defendido o nome de Silveira durante a chancelaria de Juracy Magalhães. Costa e Silva e Silveira haviam feito amizade quando serviram, juntos, na embaixada em Buenos Aires nos anos quarentas. Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979. 68 perante a opinião do Presidente. A postura heterodoxa que adotara na negociação com Buenos Aires e a decisão presidencial de utilizar a política externa como vitrine da descompressão doméstica apesar do desconforto da “linha dura” faziam dele o homem que Geisel procurava220. O Presidente sabia que sua escolha não passaria imune às críticas dos ministérios militares e do próprio Itamaraty. Mas estava disposto a arcar com esse custo porque havia encontrado uma espécie de sintonia intelectual com Silveira quando das suas leituras das correspondências assinadas pelos principais embaixadores do quadro da chancelaria221. Efetivamente, as críticas não demoraram a aparecer. O Exército e a Marinha foram abertamente avessos a sua nomeação222. No ministério, o anúncio fez o embaixador Roberto Campos, principal desafeto da vida profissional de Silveira, reagir verbalmente. O fato de Campos ter angariado visibilidade no cenário político brasileiro como ministro do planejamento e ter sido ministeriável para o Itamaraty durante toda a década de setenta acentuou o ressentimento mútuo – os ataques pessoais entre ambos estão patentes nas memórias de um223 e no depoimento do outro224. Mesmo nos dias de hoje, a gestão Silveira é criticada dentro da própria Casa diplomática225. Porém, em um contexto em que um sistema político é articulado diretamente pelo Presidente, os seus assistentes diretos ganham inusitada capacidade de influência sobre os rumos da ação. Quando o mandatário tem interesse em imprimir força pessoal à política externa, seu chanceler encontra-se em uma posição singular na história de uma chancelaria relativamente autônoma em relação ao vaivém da política. Assim, Silveira não enfrentou competição, para assuntos internacionais, com nenhum outro ministro ou assessor direto 220 Depoimento, cassete n. 11, lado B, 1 jun. 1979. Ver também CAMPOS, R. Lanterna na popa. Rio de Janeiro: Topbooks. 1994. p. 925. 221 Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979. 222 Depoimento, cassete n. 2, lado B, 10 maio 1979. 223 De forma geral, pode-se dizer que Campos criticava Silveira por melindrar as relações com os dois eixos fundamentais da política externa brasileira (Argentina e Estados Unidos) e por pensar-se acima de sua estatura política (o que não deixa de ser irônico, dada a baixa estatura física do chanceler). CAMPOS. Lanterna... . p. 925 e 1013 e CAMPOS, R. Prefácio. In: BANDEIRA, M. Relações Brasil-EUA no contexto da globalização: a rivalidade emergente. 2. ed. vol. 2. São Paulo: SENAC,1999. p. 11-17. 224 Silveira via em Campos a síntese do atraso intelectual que defendera o alinhamento automático à potência hegemônica como saída diplomática para o Brasil contemporâneo. Além disso, rechaçava os métodos que Campos utilizara, em vão, para alcançar a chefia do Itamaraty. Note-se que o fato de Campos ter sido embaixador em Londres durante a gestão Silveira gerou inúmeros atritos entre os dois. Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979 e cassete n. 17, lado A, 7 jun. 1979. 225 Referindo-se à gestão Geisel, Seixas Corrêa afirma que “nesse período, devido à persistência de visões nacionalistas distorcidas no meio militar e a certas idiossincrasias pessoais da cúpula do Itamaraty, a controvérsia com a Argentina chegaria ao seu ponto mais crítico [meu itálico]”. Além disso, “atribui-se ao então Chanceler Antônio Francisco Azeredo da Silveira uma visão tradicional do relacionamento BrasilArgentina, mais predicada no espírito de rivalidade herdado do passado do que nas potencialidades da cooperação. A superação deste tipo de visão, que encontrava paralelos nos meios diplomáticos e acadêmicos argentinos, foi fundamental para a implantação que se verificou a seguir de modelos associativos de relações”. CORRÊA, L. F. de S. A política externa de José Sarney. In: GUILHON, Op. Cit., v. 1. p. 363 e 384. 69 do Presidente226. Exceção deve ser feita aos ministros da Fazenda e das Minas e Energia, que tinham ascendência sobre Silveira em questões econômicas e de petróleo. No último caso, a pasta era ocupada por Shigeaki Ueki, assessor de Geisel desde os anos em que o general comandara a Petrobrás, e ele também tinha palavra sobre os tecnicismos referentes a Itaipu227. Não é possível emitir opinião clara sobre o grau de consciência que Geisel e Silveira tinham das mudanças que se propunham a realizar na política externa brasileira no momento de assumir o governo. Silveira não escrevia suas idéias sobre o tema e recusou-se a fazê-lo quando assim lhe foi solicitado pelo Presidente eleito. Não havia um texto de referência ou marco geral para a ação, nem concepções detalhadas sobre qual postura adotar nas diversas frentes228. Em um ambiente internacional flexível, essa característica tendia a fazer de Silveira uma fonte essencial de escolhas no ministério, uma vez que as posturas a adotar eram decididas caso a caso sob a direta supervisão do ministro. Isso era reforçado pelo fato de que, embora Geisel se interessasse por assuntos internacionais, pois a diplomacia foi a pasta mais beneficiada com sua atenção, não há como atribuir-lhe pensamento organizado sobre o tema. As decisões eram definidas por ambos em conversas pessoais e mediante um intenso sistema de consulta sistemática229. O método de intercâmbio entre Geisel e Silveira é peculiar. O principal vínculo de comunicação entre ambos – as Informações ao Presidente da República – era produzido pelo chanceler para uso exclusivo do Presidente. Ele percorria essa documentação cuidadosamente, anotando observações e dúvidas ou emitindo opiniões à mão, prática que relembra a presidência de Vargas230. 226 Diferentemente do que reza a doxa, Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil e principal consiglieri de Geisel, não se aventurou a lidar com a agenda internacional do país, concentrando suas energias no processo de liberalização política. Sua única participação no processo de política externa entre 1974 e 1979 teria sido na última reunião de Gabinete, quando tratou-se sobre o tema de Itaipu, uma vez que seria ele o responsável por conduzir o assunto durante o processo de transição para o novo governo. Depoimento, cassete n. 6, lado A, 18 maio 1979. 227 A ojeriza de Silveira em relação ao ministro Ueki permeia todo o Depoimento, com destaque para os cassetes n. 14, lado B e 15, lado B, ambos de 7 jun. 1979. 228 Depoimento, cassete n. 1, lado B, 1 maio 1979. Ver também discurso de Silveira por ocasião do Dia do Diplomata em 1974. “A diplomacia nem sempre se presta à formulação de programas rígidos. Não se pode, assim, fazer um elenco de metas ou propor calendários para alcançá-las”. BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Resenha de política exterior do Brasil. Brasília: MRE. n.1., março, abril, maio e junho de 1974. p. 30. 229 Além da riqueza das informações escritas que Silveira encaminhava a Geisel, sabe-se que tanto o Gabinete do chanceler quanto a sua casa contavam com uma linha telefônica exclusiva da qual apenas o Presidente tinha o número e que não fazia parte da rede de telefones do Palácio do Itamaraty. Depoimento, cassete n. 1, lado B, 1 maio 1979. Note-se também que o número de horas de despacho dedicadas por Geisel a Silveira supera amplamente as do segundo colocado no ministério, o ministro da Justiça, Armando Falcão. Geisel despachou aproximadamente 230 horas com Silveira ao longo de seu mandato, contra 186 com Falcão. Ver FALCÃO, A. Op. Cit. p. 251. 230 DANESE. Op. Cit. p.354-355. 70 É possível identificar funções-chave para a peça. As Informações eram educativas em forma e conteúdo, esclarecendo os antecedentes dos problemas e apontando possíveis opções ao mandatário. Os arquivos pessoais de Silveira, depositados na Fundação Getúlio Vargas, mostram uma verdadeira coleção de memorandos informativos ao Presidente. Dessa forma, Silveira informava o pensamento internacional de Geisel e temperava-lhe as opiniões. Sendo responsável pela implementação de uma agenda diplomática inovadora, é plausível acreditar que Silveira tenha lançado mão de detalhados e inúmeros relatórios ao Presidente sobre estratégia e cálculo tático porque os mesmos serviriam para preservar o próprio chanceler naquele ambiente altamente competitivo. A precaução de Silveira chegou a levá-lo a detalhar até mesmo eventuais entendimentos telefônicos tidos com o Presidente, fazendo das Informações um relato completo a respeito dos motivos e da gênese de cada decisão. Por outro lado, as Informações eram um instrumento para consagrar a vontade do chanceler sobre os assuntos externos. Os ministros de Geisel sabiam que seu chefe tinha apreço por reflexões escritas, assim como sabiam que uma boa justificativa tinha altas chances de ser aceita pelo Planalto sem modificações substanciais231. Dessa maneira, o paradigma geiseliano de relações externas não foi preconcebido em detalhes pelo presidente e seu chanceler, mas desenvolveu-se paulatinamente à medida em que os desafios e as oportunidades conjunturais se apresentavam232. O fato de Geisel haver restringido a implementação da política externa ao gabinete de Silveira, sem reuniões gerais ou mesmo consultas informais a outros diplomatas, era certamente um dos principais instrumentos de poder do chanceler. Nesse contexto, o papel do Conselho de Segurança Nacional233 era de ritualização de decisões tomadas previamente pelo chefe de Estado234. A importância desse mecanismo era a de dar forma às decisões presidenciais, prover explicações causais para as mesmas e legitimá-las face ao grande número de agências do aparelho de Estado. As decisões ganhavam uma camada protetora que as impermeabilizava diante das críticas da “linha dura” e de setores do Itamaraty, preservando a imagem pessoal de Geisel contra eventuais ataques da imprensa. 231 232 GÓES. Op.Cit., p. 30. Para uma contextualização crítica dessa política, ver MELO, O. de A. O reconhecimento de Angola pelo Brasil em 1975. Comunicação & Política. Rio de Janeiro, n.s., v. VII, n.2. p.75-133. 233 O Conselho era um plenário onde tinham assento todos os ministros de Estado, o Vice-Presidente da República, o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas e os chefes do Estado-Maior do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Dispunha de uma Secretaria Geral (ocupada pelo ministro da Casa Militar), que realizava estudos, planejamento e coordenação no campo da segurança nacional, com poder de requisitar serviços de quaisquer órgãos da administração pública. No tempo de Geisel, contava com aproximadamente 130 funcionários, dos quais apenas 26 eram especialistas em suas áreas de atuação. GÓES. O Brasil… p. 33 e 38. Para uma análise detalhada do papel do Conselho de Segurança Nacional, em política externa, à época de Geisel, ver PINHEIRO. Op. Cit. 234 GÓES. O Brasil…, p. 29. 71 O respaldo certeiro do Planalto permitiu a Silveira não apenas implementar a agenda que os dois ambicionavam, gozando de certa autonomia face ao resto das agências governamentais, mas também assegurou ao ministro o salvo-conduto para encaminhar a reestruturação interna de sua própria corporação. Silveira era cético a respeito da capacidade criativa dos diplomatas brasileiros235. A sua crítica era de cunho weberiano e nada tinha de inusitada: as agências burocráticas tendem a tornar-se meras reprodutoras de procedimentos formais, gerando incentivos naturais para soluções de compromisso em que todos apóiam determinada decisão por menos satisfatória que seja e ninguém se responsabiliza diretamente por suas conseqüências. Operacionalmente, essa vertente está consubstanciada no mecanismo dos sucessivos “vistos” departamentais tão comuns nas chancelarias modernas e extensamente utilizado no Itamaraty. O outro lado da moeda, nesse caso, é que essa diluição da responsabilidade dos setores é um dos elementos sobre os quais se assentam as bases do espírito de corpo que faz da chancelaria uma agência singular no seio do Estado brasileiro. Isso não significa que Silveira fosse um advogado do risco como elemento perene da diplomacia. Ao contrário, pensava que, se por um lado, os diplomatas tendiam a arriscar-se menos do que os outsiders, por outro também cometiam menos erros em seus cálculos236, o que compensava de certa forma a lentidão e a falta de espaço para a criatividade individual em um processo decisório estruturado sobre consensos consecutivos. Contudo, o ministro estava seguro de que pouquíssimos membros da carreira estavam capacitados para pensar efetivamente as relações internacionais do Brasil. Em sua opinião, as limitações da maioria do pessoal da Casa haviam levado o Brasil a perder oportunidades e insistir em posições obsoletas237. Era essa falta de ousadia que lhe perturbava, e contra ela trabalhou por meio de quatro mecanismos identificados ao longo deste estudo. Há indícios de que alguns deles foram concebidos antes mesmo da posse, enquanto outros foram sendo implementados à medida que sua gestão avançava. Em primeiro lugar, procurou associar-se a personalidades reconhecidamente inovadoras da própria Casa, ganhando com isso fôlego para enfrentar a legião de “especialistas” que denunciariam o excesso de riscos aos quais a diplomacia incorreria. Embora não pertencesse a nenhuma vertente intelectual particular dentro do 235 236 237 Itamaraty, ou mesmo a um grupo específico, Silveira associou-se a Depoimento, cassetes n. 3, lado B, 15 maio 1979, e 18, lado A, 29 jan. 1980. Depoimento, cassete n.3, lado B, 15 maio 1979. Depoimento, cassete n. 1, lado B, 15 maio 1979. 72 Araújo Castro238 e Ítalo Zappa239, duas vozes destoantes da doxa corporativa no início da década de 1970, que advogavam pela renovação do perfil da ação do Itamaraty em direção a maiores graus de autonomia face a Washington. Em segundo lugar, transformou seu Gabinete no centro de comando de todo o ministério, tomando decisões sem necessariamente atravessar todas as etapas de consulta tradicionais de uma chancelaria complexa e relativizando a importância da Secretaria Geral na definição de vetores resultantes. Suspeita-se também de que o chanceler tendia a ignorar a participação dos vários departamentos responsáveis por determinado tema, trabalhando com um ou outro sem se preocupar com assegurar a coordenação entre eles240. É possível que essa tática tenha sido utilizada para aumentar a dependência de todos os setores em relação às decisões do próprio ministro, para assegurar que os trâmites burocráticos não atrapalhassem o ritmo de implementação da agenda, ou ainda para evitar que a visão de Silveira sobre casos específicos fosse contaminada. A atuação do chanceler teria sido, portanto, análoga à de uma guerra de guerrilha, na qual os comandos autônomos não contam com comunicação entre si e apenas respondem ao bunker central, que se responsabiliza por definir prioridades e corrigir rumos. Em terceiro lugar, o chanceler fez uma clara opção por rejuvenescer os postoschave da Casa. Além de promover os mais moços para diversas chefias no ministério e cadeiras de confiança no Gabinete, procurou expandir essa orientação para os comandos de embaixadas em vários países241. Curiosamente, essa última iniciativa foi o principal ponto de discordância entre o ministro e o Presidente, uma vez que Geisel suspeitava de 238 João Augusto de Araújo Castro foi ministro interino das Relações Exteriores em 1963, embaixador em Atenas (1964-1966), embaixador em Lima (1966-1967), chefe da Missão junto às Nações Unidas (19681971) e embaixador em Washington (1971-1975). Destacou-se por ser crítico ao princípio do alinhamento automático aos Estados Unidos na década de 1960 e por desenvolver a tese do “congelamento do poder mundial”, segundo a qual o programa soviético-estadunidense de controle internacional de armamentos era deletério às nações de porte médio por estender indefinidamente uma situação de desigualdade entre as nações. Durante o golpe militar de 1964, foi acusado de praticar ações comunistas e, com a mediação de Silveira, foi enviado para a embaixada em Atenas. Depoimento, cassete n.5, lado A, 18 maio 1979. Sobre ele, ver AMADO, R. Araújo Castro. Brasília: Universidade de Brasília, 1982. 239 Ítalo Zappa foi chefe do Departamento da África, Ásia e Oceania do Itamaraty durante a primeira metade da gestão Silveira e, em seguida, embaixador em Maputo (1977-1981). Esteve no centro da estratégia de redefinição da política africana do Brasil, consubstanciada nos apoios oferecidos às independências africanas em Angola e Guiné-Bissau (1974) e o reconhecimento da independência de Moçambique (1975) a despeito da orientação marxista desses movimentos. Ver PINHEIRO. Op.Cit. p. 275. Ver, dele, ZAPPA, I. Nova ordem mundial: aspectos políticos. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 18, n. 69/72, p. 83-88, 1975. 240 OVÍDIO. Op. Cit. 241 Durante o qüinqüênio em que comandou o Itamaraty, Silveira renovou dois terços dos postos. Em 1979, ao finalizar a sua gestão, havia ministros que tinham entre 28 e 45 anos e embaixadores de 50 anos, fenômeno inusitado na vida da corporação. Depoimento, cassete n. 3, lado B, 15 maio 1979. 73 que o envio de embaixadores jovens para postos de alta importância poderia gerar desconforto, especialmente em Buenos Aires e Washington242. Mas a renovação de postos atingiu em cheio seu gabinete e as estruturas que dependiam diretamente do contato cotidiano com o chanceler. Para ele, as novas gerações eram mais flexíveis para moldar-se a seu ritmo de trabalho e ao seu grau de demanda, além de estarem mais dispostas do que outras para pensar além do tradicional quadro de conceitos do Itamaraty. Esses jovens eram responsáveis não somente por selecionar e responder a correspondência, cuidar da agenda e funcionar como memória institucional do Gabinete, mas também por fazer estudos encomendados diretamente por Silveira, os quais serviriam de base intelectual para a definição de riscos e oportunidades243. O ministro promoveu ainda um quarto mecanismo a fim de impedir a estagnação da capacidade inovadora da chancelaria. Tratava-se de um sistema piloto de intercâmbio de reflexões entre as embaixadas e o ministro, relegando a um segundo plano as tradicionais correspondências de caráter meramente informativo. O mesmo funcionaria em forma de correspondências secretas e devia ser “não rotineiro, moderno e criador (...) que possa gerar elementos para o planejamento global de médio prazo da política externa” e retirar o “enciclopedismo infelizmente comum na execução das tarefas de informação por parte das Missões Diplomáticas”244. Sabe-se que esse sistema foi efetivamente implantado para a embaixada em Buenos Aires e outras duas que não foram identificadas na análise documental. 3.1.2. A promessa frustrada Nos últimos meses de 1973, o panorama hispano-americano estava tingido de cores trágicas. O despreparo dos sistemas políticos da região para lidar com clivagens ideológicas radicais vinha crescentemente à tona e prometia, desde o golpe de Estado perpetrado por Pinochet em agosto daquele ano, contagiar toda a região245. Na Argentina, a ascensão de um já sexagenário Perón à Casa Rosada apenas dramatizava o ambiente de guerrilha urbana que daria origem à triste história de um dos mais implacáveis regimes militares do continente. A morte do general deteriorou a situação 242 Depoimento, cassete n. 2, lado B, 10 maio 1979. Ver também PRESIDENTE influi nas promoções. O Estado de S. Paulo, 11 maio 1977, s/p. 243 Depoimento, cassete n. 2, lado A, 10 maio 1979. 244 MRE à legação em Buenos Aires, ofício secreto, Brasília, 20 de dezembro de 1976, n. 1702, AHMRE, caixa 42. 245 A seqüência dos golpes de Estado latino-americanos na década de 1970 foi a seguinte: Chile (1973), Peru (1968 e 1975), Argentina (1976), Uruguai (1976). 74 e, em julho de 1975, o semanário inglês The Economist afirmava que a Argentina havia substituído o Chile como centro das operações terroristas na América Latina246. No Brasil, Geisel era elevado ao Planalto no momento em que os focos de resistência armada de esquerda tinham sido recém-dominados pelas Forças Armadas de Médici. Embora a noção da liberalização fosse clara para todos os atores políticos, sua implementação estava longe de ser consensual. A tarefa do Presidente consistia em eliminar gradualmente as estruturas paralelas de poder que mais de uma década de regime autoritário havia gerado, sem que isso provocasse recuos na abertura nem promovesse uma passagem brusca ao poder civil, sob pena de deflagrar uma descontrolada “caça às bruxas”. A questão dos rios ocupou o novo governo desde o primeiro dia, como pode ser visto pela cerimônia de posse de Geisel. Lá estavam presentes Hugo Banzer, da Bolívia; Augusto Pinochet, do Chile247; e Juan Maria Bordaberry, do Uruguai248. A presença de Perón, que havia sido cogitada, não vingou, sugerindo que ambas as chancelarias tinham uma pendência, qual fosse a questão de Itaipu, naquele momento não reconhecida pelo governo brasileiro como tal249. Nem Geisel nem Silveira nutriam simpatia pelo Tratado de Itaipu. Acreditavam que, do ponto de vista técnico, teria sido melhor realizar um projeto exclusivamente nacional à altura de Ilha Grande do que associar-se ao Paraguai para semelhante tarefa250. Da perspectiva externa, pensavam que Médici havia se limitado à assinatura de um documento de grandes intenções ao qual faltavam orientações operacionais para a construção do maior empreendimento hidrelétrico do mundo (por exemplo, o tratado deixava para a posterioridade a definição de importantes regulamentações técnicas como a cota do regente da barragem, fulcro sobre o qual as diplomacias se debateram até 1979) 251. 246 The Economist, July 26 1975. p. 51. Há indícios de que Pinochet teria realizado esforços para ser convidado à festa, que foi sua primeira viagem internacional oficial. Geisel e Silveira teriam evitado encontros com o presidente chileno ao longo de todo a gestão, uma vez que isso associava o mandatário brasileiro ao brutal golpe de Estado perpetrado pelo colega em 1973. CHIARELLI, Marilena. Entrevista concedida ao autor. Brasília: 15 de agosto de 2001. (Marilena Chiarelli foi a jornalista responsável, da Rede Globo, pela cobertura da política externa durante o governo Geisel). 248 Os entendimentos diplomáticos de caráter econômico já existiam com Bolívia e Uruguai. A ocasião serviu para que Geisel propusesse pesada agenda econômico-comercial, ver Merquior a Embaixador Pereira de Araújo, memorando confidencial, Brasília, 2 de abril de 1974, AHMRE, caixa C-01. 249 Esse boato foi difundido nas imprensas argentina e brasileira, ver La Opinión, Buenos Aires, 28 de fevereiro de 1974, e O Estado de S. Paulo, 17 e 23 de março de 1974. 250 A escolha por Itaipu parece ter sido produto de clivagens internas. Técnicos da Eletrobrás teriam se recusado a iniciar a construção de Ilha Grande porque isso os forçaria a estabelecer parceria com os técnicos da Companhia Elétrica do Estado de São Paulo. Depoimento, cassete n. 15, lado B, 7 jun. 1979. 251 Ibid. 247 75 Perón chegava ao poder com uma estratégia concreta para resistir ao avanço de Itaipu: apresentou oficialmente o projeto da hidrelétrica de Corpus Christi252, fazendo o mesmo com as de Yaciretá253 e Salto Grande254, e solicitou a cooperação técnica da União Soviética para definir oportunidades de aproveitamento do Paraná Médio255. Em junho de 1974, Silveira e Perón encontraram-se na Casa Rosada para definir uma possível reunião bilateral em nível de mandatários onde se anunciaria a utilização conjunta do rio Uruguai256 e a resolução de tecnicismos sobre a compatibilização de Corpus e Itaipu, uma vez que as obras, ao operar sobre o mesmo rio, em trechos relativamente próximos, seriam interdependentes.. Ainda em Buenos Aires, o chanceler declarou que Perón havia propiciado “um clima extremamente favorável e construtivo”257. Contudo, a complexa trama na qual as equipes diplomáticas se envolveram terminaram por inviabilizar o encontro presidencial e a resolução do assunto fluvial258. Silveira não confiava no estilo ambíguo de Perón259, nem em seu chanceler. O ministro Vignes era um velho amigo do presidente argentino que não hesitou em aplicar as fórmulas pomposas do antigo peronismo à política externa argentina dos anos setentas260. Os métodos do peronismo de outrora também estavam presentes em sua atuação: Silveira afirma que, durante encontro mantido entre Vignes, chanceler argentino; Kissinger, secretário de Estado norte-americano; e ele próprio, na embaixada argentina em Washington (1974), o chanceler argentino chegou a colocar uma pequena dose de veneno em seu café, o que efetivamente retirou Silveira de cena para uma lavagem estomacal na 252 Este projeto argentino-paraguaio sobre o Paraná, que nunca chegou a ser concluído, teria condições de produzir 15 bilhões de kWh (5 vezes menos energia produzida do que Itaipu, que equivale a 70 bilhões de kWh). 253 Projeto argentino-paraguaio sobre o Paraná, iniciado em finais de 1973 e finalizado na década de 1990, produz 18 bilhões de kWh. 254 Projeto argentino-uruguaio sobre o rio Uruguai, tem por objetivo possibilitar que embarcações fluviais possam ultrapassar, através de eclusa, o obstáculo representado pelas corredeiras do rio Uruguai situadas naquela região. Sua produção energética média anual é de 6 bilhões de kWh. 255 PUIG. Op. Cit., p. 37. 256 A cooperação argentino-brasileira sobre o rio Uruguai consiste no desenvolvimento de projetos de engenharia em São Pedro, Garabí e Roncador. O objetivo dos mesmos é assegurar a união dos trechos navegáveis desde o estuário do Prata até a Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul (Brasil). Além disso, o conjunto de centrais é capaz de produzir uma média anual de energia da ordem de 19,5 bilhões de kWh. 257 O Estado de S. Paulo, 13 de junho de 1974. 258 Segundo Mario Gibson Barboza, Geisel teria afirmado, antes de assumir a Presidência, que os argentinos estavam lhe dando “mais trabalho e preocupação” do que imaginara, e que não estaria ele disposto a ceder. BARBOZA. Op. Cit., p. 124. 259 Em duas ocasiões, ainda como embaixador em Buenos Aires, Silveira dedicou-se a relatar em detalhe a personalidade de Perón por escrito. Silveira a Gibson Barboza, telegrama secreto urgente, Buenos Aires, 8 de agosto de 1973, n. 2338, AAS, 1972 a 1973. CPDOC/FGV; Silveira a Gibson Barboza, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 4 de setembro de 1973, n. 2655, AAS, 1972 a 1973. CPDOC/FGV. 260 Por exemplo, apressou-se a declarar publicamente que os sucessos do projeto andino de integração (Pacto Andino) deviam ser considerados como um êxito argentino. Ainda, ao restabelecer vínculos diplomáticos e comerciais com Cuba, não deixou de alardear que essa atitude reverteria todo o quadro político latino-americano e, no limite, asseguraria a incorporação da ilha à família americana. Las Bases, Buenos Aires, 6 nov. 1974. AHMRE, pasta 34.09.74. 76 manhã do dia seguinte. Esse método, conta Silveira, era uma tática comumente utilizada por Perón para desmobilizar as multitudinárias passeatas de protesto no centro de Buenos Aires261. As táticas de Vignes também incluíam o blefe e a utilização não criteriosa de informação262, o que, além de atrasar o encaminhamento da questão, levou Silveira a retrairse. Um mês depois morria Perón e, com ele, a possibilidade de avançar significativamente em direção a uma situação cooperativa minimamente concreta263. Vignes manteve o cargo durante os primeiros meses do governo de Isabelita Perón, cujo maior legado para o relacionamento bilateral foi o abandono da estratégia de aplicação do multilateralismo à questão dos rios e a aposta, alternativa, na consecução de entendimentos bilaterais ou trilaterais com seus vizinhos. A mudança na orientação argentina ocorreu por ocasião da Aprovação da Carta dos Direitos e Deveres Econômicos dos Estados da ONU, em que a tese argentina da consulta prévia saiu vitoriosa sem com isso angariar o apoio de nenhum país da Bacia do Prata264 devido às pressões brasileiras. Ainda outro fator concorreu para demover os argentinos da sua tradicional atitude para o tema. Em dezembro de 1975, o governo de Buenos Aires enviou para a Europa uma missão composta, entre outros, pelo então representante argentino no CIC e seus predecessores, Boatti Osório e Julio Barberis, no intuito de estudar casos similares de compatibilização de represas entre França e Itália, Suíça e Itália, e Suíça e França. A conclusão era a de que os europeus utilizavam geralmente o critério determinado pela 261 Silveira afirma ter se preocupado, à época, com a possibilidade desse evento ser divulgado pela imprensa, motivo pelo qual guardou silêncio sobre o tema até o seu depoimento à Fundação Getúlio Vargas. Em tom irônico afirma dizer isso “sem o menor ressentimento, porque não me deram nada que fosse para me matar”. Depoimento, cassete n. 5, lado A, 18 maio 1979. 262 Em seguida ao encontro de Silveira com Perón, o chanceler brasileiro almoçou com Vignes, que iniciou a conversa dizendo que era possível chegar a um acordo político em breve, uma vez que os estudos técnicos tripartites (Argentina, Brasil e Paraguai) já haviam definido duas posições negociadoras claras (100m de cota em Corpus para a delegação brasileira – cota média histórica do rio, e a de 120m, defendida pelos argentinos). Azeredo interrompeu seu interlocutor desmentindo-o: os técnicos argentinos haviam definido 112m e não 120m como cota desejável para Buenos Aires. Além disso, a cota de 100m era a média histórica do rio, e não a posição do Brasil, que ainda não havia sido definida. Encerrando bruscamente a conversa, Azeredo ainda sugeriu que quando a Argentina quisesse fazer uma proposta concreta enviasse um negociador com suficiente autoridade para tomar decisões que pudesse, inclusive, encontrar-se com o Presidente Geisel. Vignes respondeu dizendo que ele mesmo iria a Brasília e que, antes disso, procuraria indicar o nível da “cota política” aceitável para a Argentina. Contudo, não foi esse o relato que Vignes fez ao embaixador brasileiro em Buenos Aires, João Batista Pinheiro. Disse-lhe, contrariamente, que a conversa com Silveira havia sido produtiva e que ambas as diplomacias buscariam chegar a uma “cota de conciliação”, jargão diplomático dúbio que sugere que o Brasil negociaria uma altura para a cota de regente com a Argentina. MRE à legação em Buenos Aires, telegrama secreto exclusivo, Brasília, 20 de junho de 1974, n. 543, AAS, 1974. CPDOC/FGV. 263 CERVO. A política exterior da Argentina… p. 20 264 Pinheiro ao MRE, telegrama confidencial, Buenos Aires, 16 dezembro de 1974, n. 3360, AHMRE, maço 234. É fundamental notar que não é essa a avaliação argentina. Lanús afirma que, em junho de 1974, a Comissão Interministerial Argentina havia definido que 115m para Corpus era a cota mínima negociável e que Silveira teria oferecido 112,5. Tanto Boatti Ossório, representante argentino no CIC, como Vignes estariam de acordo com a proposta brasileira, mas Ossório teria dito a seu chanceler que “se aceitarmos 112, nos penduram”. LANÚS. Op. Cit. p. 309. 77 “altura média histórica do rio” no ponto onde a represa a jusante se localizava. No caso de Corpus, isso correspondia a 104m ou 105m acima do nível do mar, e não 112m, 115m ou 120m como pretendiam os próprios técnicos argentinos265. Essa evolução dos acontecimentos rendeu proveitos domésticos a Silveira, cuja diplomacia foi parabenizada na mídia e saudada como a melhor alternativa para o alcance de uma solução satisfatória à questão das águas internacionais266. Nesse contexto, um dos indicadores de sucesso interno do ministro era a presença de críticas sistemáticas da imprensa brasileira à tática argentina de melindrar o potencial entendimento técnico bilateral mediante uma postura acusatória267. Nesse momento, contudo, as negociações cessaram. A embaixada brasileira em Buenos Aires reportava que uma mudança definitiva na condução política argentina era iminente e que, portanto, valia a pena avançar o projeto de obras de Itaipu ao tempo em que se esperava a definição político-partidária do país vizinho268. O fato de a alta rotatividade dentro do próprio Palácio San Martín dificultar o consenso com o Itamaraty está plasmado nas mudanças ministeriais entre agosto de 1975 e março de 1976, quando houve na Argentina três chanceleres distintos, Robledo, Castex e Quijano. A análise da documentação primária revela que, em 1975, o chanceler brasileiro ainda acreditava no potencial cooperativo entre os dois países nos campos do comércio bilateral, do Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT), do Sistema Econômico LatinoAmericano (SELA), da Assembléia Geral das Nações Unidas e das políticas nuclear e demográfica269. 265 LANÚS. Op. Cit. p. 320 O PRINCIPIO bilateral na Bacia do Prata. O Estado de S. Paulo, 12 de março de 1975. s/p. 267 Em maio de 1975, relatório das embaixadas argentinas em Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, México, Paraguai, Peru, Uruguai, Cuba, Estados Unidos e Itália, acerca da imagem argentina nos meios de comunicação de massa nesses países, sustentava ser a Argentina alvo das acusações da imprensa brasileira. Legação em Buenos Aires ao MRE, telegrama confidencial, 19 de maio de 1975, n. 461, AHMRE, maço 234. 268 Essa avaliação está presente de forma consistente em toda a correspondência enviada por aquela embaixada a Brasília ao longo de 1975. 269 Afirma o chanceler brasileiro que “a Argentina é e será sempre o principal parceiro comercial do Brasil no Prata, embora não necessariamente nosso maior parceiro econômico. Mesmo na atual conjuntura, foi possível, até o ano passado, expandir nosso comércio muito além do ritmo de crescimento julgado viável há apenas seis anos atrás (sic.). A médio e longo prazo (sic) a tendência é para o crescimento absoluto e relativo desse comércio, o que terá importantes reflexos para o estreitamento da cooperação noutros planos”, Conferência do Chanceler Silveira no Centro de Documentação sobre a América Latina da Universidade de São Paulo, 14 de agosto de 1975. Ver também Silveira a Geisel, informação secreta para o Senhor Presidente da República, 3 de fevereiro de 1976, Brasília, AHMRE, caixa 42. 266 78 3.2. A política externa do Processo de Reorganização Nacional Em março de 1976, as Forças Armadas argentinas depuseram Isabel Perón e deram início a um programa de intervenção militar por elas batizado de Processo de Reorganização Nacional. Assim como no Brasil, o regime argentino procurou reestruturar o Estado, a economia e a sociedade. Naquele momento, as forças de segurança já haviam iniciado sua guerra informal contra grupos paramilitares de esquerda e direita em todo o país. A condução militar escolheu incentivar a multiplicação desses grupos que operavam como células autônomas similares às utilizadas em uma guerra de guerrilha: brigadas flexíveis, de rápida movimentação, sem procedimentos gerais nem hierarquias definidas, laços estreitos com o capital privado e os poderes em nível local etc270. Diferentemente da situação da comunidade de informações no Brasil, os serviços argentinos de inteligência não se integraram em um sistema nacional único. Stepan sugere os seguintes motivos para tal fenômeno: os militares argentinos desconfiavam da capacidade profissional da comunidade de inteligência, cada Força ficou responsável por um terço dos cargos governamentais, e o Exército e a Marinha competiam intensamente por espaço político271. Esse último ponto é particularmente importante para compreender a política externa do regime militar: os conflitos intestinos opunham células das forças de segurança em uma verdadeira guerra que resultou em número significativo de baixas272. O fenômeno atingiu diretamente a diplomacia argentina. No dia mesmo do golpe, o Palácio San Martín foi fisicamente ocupado por tropas da Marinha, e poucos diplomatas puderam aceder a seus postos de trabalho, sendo que as principais chefias e departamentos foram confiados a militares daquela Força. A Junta publicou comunicado deixando todo o pessoal do Serviço Exterior “em comissão”, isto é, quem não fosse confirmado no prazo de 60 dias deixaria de pertencer ao quadro de funcionários. As listas confirmatórias foram sendo divulgadas lentamente, o que causou demissões voluntárias e forçadas (aproximadamente 40 embaixadores cessaram suas atividades imediatamente) 273 e o natural enfraquecimento dos funcionários de carreira na estrutura interna do ministério. 270 ARMONY, A. C. La Argentina, los Estados Unidos y la cruzada anticomunista en América Central (1977-1984). Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 1999. p. 23-70. 271 STEPAN. Op. Cit. p. 24. 272 ACUÑA, C.; SMULOVITZ, C. Militares en la transición argentina: del gobierno a la subordinación constitucional. In: ACUÑA et al. Juicios, castigos y memoria: derechos humanos y justicia en la política argentina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1995. p. 35. 273 Legação em Buenos Aires ao MRE, informação confidencial, Buenos Aires, 23 de março de 1978, n. 946, AAS, 1978. CPDOC/FGV. 79 O fato de a Marinha, representada pelo Almirante Massera, ser a principal força opositora ao presidente Jorge Rafael Videla dentro da Junta, e o de não ter havido expurgos tão intensos em outros ministérios, leva à suposição de que a política externa era vista como um instrumento de poder significativo para o avanço dos interesses conflitantes entre as três Forças. Assim, a diplomacia presidencial de Videla foi temperada (se não substancialmente, ao menos formalmente274) pela de Massera e a de ambos, pela dos serviços de segurança. Dessa maneira, a política externa argentina resultava de diretrizes de uma Junta Militar tripartite na qual o consenso era elemento raro, e as definições estavam sujeitas ao ritmo de uma diplomacia militar paralela e secreta, que não respondia ao comando do Ministério de Relações Exteriores nem compartilhava os métodos de ação ou visão de mundo dos diplomatas. A resultante internacional do regime militar argentino inaugurou padrões inéditos na vida do país. Pela primeira vez, a política econômica abandonava a industrialização como instrumento de inserção na economia internacional (entre 1976 e 1983, a produção industrial argentina caiu 20%), e o governo que assumira o comando para abrir o mercado nacional ao comércio exterior terminou por fechá-lo ainda mais275. Pela primeira vez na história, o país chegou por duas vezes à iminência de guerra contra o Chile e perdeu uma guerra convencional contra um poder da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Também pela primeira vez a diplomacia argentina foi articulada de forma a construir um projeto de presença regional calcado na tese das “fronteiras ideológicas”, segundo a qual o papel da política externa era combater o comunismo nas Américas. Dessa forma, Videla repetia o modelo de relações externas de Castelo Branco276, e o adensava. Paradoxalmente, e evidenciando mais uma das profundas contradições que marcaram o período, a estratégia do regime não impediu Buenos Aires de apoiar Cuba e Líbia em foros regionais e globais, estreitar relações com a Alemanha Oriental, Coréia do Norte e Vietnã do Norte, ou mesmo aumentar a participação da União Soviética para 30% em sua balança comercial277. 274 Note-se que as interpretações da embaixada brasileira em Buenos Aires são consistentes ao longo do tempo e encontram-se em toda a documentação: a vocação internacional de Massera era pífia e voltada exclusivamente para o consumo da imprensa doméstica, motivo pelo qual não devia ser compreendido como ameaça à autoridade externa do mandatário. 275 ACUÑA, C. La nueva matriz política argentina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1995. p. 13 276 CERVO. Relações internacionais… p. 245-247. 277 PUIG. Op. Cit., p. 39. 80 Também foi a primeira vez em que a agenda externa foi moldada sobre as premissas tradicionais do nacionalismo territorial argentino278, qual seja a de que as fronteiras do país foram vilipendiadas pela Coroa espanhola, pelos vizinhos e por poderes extracontinentais desde tempos imemoráveis. Dessa forma, o desafio internacional argentino era percebido em 1978 em sete frentes de “preservação da soberania”: as ilhotas do Canal de Beagle, reclamadas também pelo Chile; a definição da quantidade das águas do Alto Paraná, tomada pelo Brasil como tema de exclusiva soberania brasileira; a bandeira das Ilhas Malvinas, em posse do Reino Unido desde o século XVIII; a projeção continental sobre a Antártida, linhas postas em xeque por Chile, Uruguai e Reino Unido; fronteiras andinas, trechos montanhosos reclamados pelo Chile; e o traçado do mar continental argentino, questionado por Brasil, Chile, Uruguai e Reino Unido279. Quando a ditadura militar chegou ao fim, em 1983, a Argentina, que durante grande parte do século XX ocupara um lugar privilegiado na estrutura regional de poder, chegava à democracia em um isolamento raramente experimentado. Dias antes do golpe, o The Buenos Aires Herald publicava editorial denunciando que a diplomacia portenha havia-se deixado ultrapassar pela Venezuela, que agora ocupava a tríade latino-americana com Brasil e México. Diferentemente dos três grandes, a Argentina não tinha nada a oferecer para seus tradicionais parceiros, nem mesmo para seus vizinhos280. Era justamente essa a percepção da diplomacia brasileira sobre seu vizinho austral. A Argentina estava acuada, e sua postura defensiva era o melhor indicador dessa realidade281. 282 Europa Os esforços envidados pela Junta para recuperar a imagem do país na foram anulados e revertidos quando agentes das forças de segurança da Argentina raptaram e assassinaram duas freiras francesas, as quais eram suspeitas de conduzir atividades de proteção a guerrilheiros e disseminação de propaganda 278 Para Carlos Escude, o “nacionalismo territorial argentino” é uma característica cultural daquele país, assentada sobre a percepção de que, durante a história da formação nacional, houve perda real de território para outros países. Ver ESCUDÉ, C. El Nacionalismo Territorial Argentino. In: PERINA; RUSSEL, Op. Cit., p. 241. 279 Siete Días, 19 a 25 de janeiro de 1978. 280 NEILSON, J. Editorial. The Buenos Aires Herald. Buenos Aires, 11 mar. 1976. 281 Legação em Buenos Aires ao MRE, informação confidencial, 25 de setembro de 1978, n. 1090, AHMRE, caixa 159. 282 Um dos objetivos primordiais a política externa do regime de 1976 era o estreitamento dos laços com a Europa Ocidental. Em março de 1977, a Chancelaria argentina realizou encontro em Paris onde se juntaram embaixadores acreditados na Europa e nos organismos internacionais com sede nessa capital. Instalou-se ali um escritório de informação destinado a coordenar o programa de promoção da imagem do país no continente europeu. 81 esquerdista283. O mesmo ocorreu no caso da disputa com o Chile pela soberania das ilhotas do Canal de Beagle, quando a Marinha argentina mobilizou seus helicópteros para efetuar um ataque frustrado por condições meteorológicas, e setores do Exército chegaram a penetrar em território chileno sem o consentimento nem o conhecimento do presidente Videla284. As medidas tomadas pela Junta em relação ao Brasil talvez sejam das poucas em que Buenos Aires tenha conseguido efetivamente assegurar seus interesses internacionais mínimos. Apesar de haver levado os projetos peronistas de Yaciretá e de aproveitamento do Paraná Médio com a União Soviética a um indefinido compasso de espera285, Videla deu forma à opção já traçada por Isabel Perón de privilegiar as soluções bilaterais sobre as multilaterais quando se tratasse de questões referentes ao Brasil286. A noção de que o relacionamento com o Brasil era um problema urgente ficou patente na primeira entrevista coletiva do chanceler César Augusto Guzzetti em maio de 1976. Ao passar em revista os temas da agenda externa do regime militar, o chanceler optou por um emblemático silêncio em relação a Brasília287. 3.2.1. A embaixada de Camilión Em 12 de maio de 1976, o presidente Videla promoveu um gesto inédito nos anais da diplomacia portenha: ofereceu um almoço aos ex-chanceleres no intuito de encontrar uma fórmula viável para o desentendimento com o Brasil. Assistiram ao evento Hipólito Paz (chanceler do primeiro Perón), Zavala Ortiz (ministro de Ilia), de Pablo Prado (ministro de Lanusse) e Camilión (que representava Miguel Angel Cárcano, segundo chanceler de Frondizi). A ausência que marcaria o encontro era a do Almirante Guzetti, titular da pasta de exteriores do próprio Videla. No dia seguinte, o Palácio San Martín pedia 283 O seqüestro das freiras precipitou a campanha européia pelos direitos humanos na Argentina: um prelado francês foi enviado pela Conferência Episcopal Francesa a Buenos Aires; generais franceses da reserva enviaram carta de protesto a Videla e iniciaram um movimento para impedir a seleção argentina de participar no Campeonato Mundial de Futebol de 1978; o Arcebispo de Paris recusou-se a autorizar missa em homenagem ao bicentenário do nascimento do General San Martín que se realizaria em igreja de Paris e para a qual a Embaixada da Argentina já havia expedido os convites, o que se somou à rejeição do Prefeito de Paris a participar. Legação em Buenos Aires ao MRE, informe confidencial, 2 de março de 1978, n. 191, AHMRE, caixa 159. 284 Ver os depoimentos e documentos apresentados na edição do vigésimo aniversário dos eventos do Beagle pelo periódico argentino El Clarín, 20 dez. 1998, disponível em <http://www.clarin.com.ar>. Ver também o semanário inglês The Economist, 13 January 1979. p. 54. 285 PIUG. Op. Cit, p. 41. 286 Legação em Buenos Aires ao MRE, informe confidencial, 6 de março de 1978, n. 201, AHMRE, caixa 159. 287 Legação em Buenos Aires ao MRE, telegrama confidencial urgente, 19 de maio de 1976, n. 1731, AHMRE, maço 245. 82 o agrément para a designação de Camilión para a condução das negociações a partir da embaixada argentina em Brasília288. Camilión chegou a Brasília, aos 46 anos, com um projeto ambicioso289. Do ponto de vista das posições domésticas, deveria mostrar à opinião pública de seu país que era possível negociar com o Brasil retirando a carga negativa que a imprensa portenha imputava a tudo o que estivesse relacionado com a política externa brasileira, assim como apaziguar os ânimos que alimentavam certos setores militares290. Em relação ao Itamaraty, o principal objetivo de Camilión era convencer o governo brasileiro de que o aproveitamento do rio Paraná era um assunto que devia ser negociado com a Argentina sob pena da iniciativa não contar com legitimidade internacional. Para ele, o Brasil devia interessar-se pela rápida resolução do tema para que ambos os países pudessem lançar um programa de concerto político capaz de encaminhar a sempre protelada complementação econômica291. É por isso que apresentava os dois países como sócios naturais de um inescapável processo de entendimento mútuo na expectativa de que isso criasse em Brasília o clima favorável para sugerir a cooperação sistemática no planejamento e execução das represas de Itaipu e Corpus. A agenda do embaixador argentino não deixa de assemelhar-se, do ponto de vista lógico, àquela advogada por ele mesmo havia quinze anos, no contexto dos acordos de Uruguaiana292. A proposta incluía a noção de que Buenos Aires e Brasília deveriam estabelecer sistema de coordenação de posições nos foros internacionais, trocar 288 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, 14 de maio de 1976, n. 163, AAS. CPDOC/FGV. Oscar Hector Camilión nasceu em Buenos Aires, em 1930. Foi professor da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, onde ocupou o cargo de Secretário Geral e iniciou a carreira política (1955). Ensinou política internacional no Instituto Argentino de Cultura Hispânica (1967-1971) e no Curso Superior de Defesa Nacional da Escola Nacional de Guerra (1973). Aos 28 anos era chefe da Divisão de Pessoal da chancelaria argentina (1958), cargo que acumulou mais tarde como Chefe de Gabinete do Ministro (1959). No auge do governo de Arturo Frondizi, foi Subsecretário de Relações Exteriores e Ministro na embaixada argentina no Rio de Janeiro (1959-1962). Entre 1965 e 1972 foi Chefe de Redação de El Clarín. Entre 1976 e 1979 foi embaixador argentino junto ao governo do Brasil. Em 1981 foi alçado ao cargo de ministro das relações exteriores do governo Viola (1981). Ao longo da década de 1980 foi enviado especial do Secretário Geral das Nações Unidas para o Chipre. Deixou esse cargo para ocupar o Ministério de Defesa na gestão Menem. 290 Ao chegar à embaixada em Brasília, Camilión ouviu do adido militar argentino que, caso não houvesse um avanço significativo nas negociações, “seria necessário bombardear Itaipu”. CAMILIÓN. Memórias... p. 205-208. 291 Na ocasião em que apresentou suas credenciais a Geisel, Camilión teria dito ao presidente: “Acho que temos um problema e devemos resolvê-lo [minha tradução]”. Geisel retrucou negando a existência de qualquer problema. Ibid. p. 196. 292 Espírito de Uruguaiana foi o nome dado ao conjunto de acordos assinados por Jânio Quadros e Arturo Frondizi, discriminados a seguir: Convênio de Amizade e Consulta; Declaração Presidencial Conjunta; Declaração Econômica; e Declaração sobre Intercâmbio Cultural, celebrados na cidade fronteiriça de Uruguaiana (Rio Grande do Sul) entre 20 e 22 de Abril de 1961. A esses documentos, somam-se a Declaração Conjunta, o Tratado de Extradição e a Convenção sobre Assistência Judiciária Gratuita que o chanceler San Tiago Dantas assinou com seu par argentino, Miguel Cárcano, em novembro do mesmo ano. Cf. Capítulo 1. 289 83 informações sensíveis e promover a sistemática prática da consulta bilateral para assuntos de interesse mútuo293. Silveira desconfiava que, ao retomar os princípios de Urugaiana, Camilión estivesse à procura de uma justificativa teórica para a tese da “consulta prévia”. O chanceler brasileiro deve ter entendido que o perigo da gestão de Camilión residia justamente em promover uma associação entre a “consulta diplomática” – mecanismo bastante usual entre Estados – e a “consulta prévia compulsória”, cujo caráter é suspensivo. O embaixador conhecia bem o Brasil294, não somente em razão de suas descobertas pessoais, mas sobretudo do extraordinário ambiente de criatividade e de efervescência intelectual que vivera como funcionário da embaixada argentina no Rio de Janeiro no final da década de 1950. Ele percebia que, naquela conjuntura, a imprensa era “verdadeira alternativa de poder” ao Executivo de Geisel que se negava a negociar com Buenos Aires. No dia em que entregou suas credenciais ao presidente, Camilión convocou toda a imprensa de Brasília para uma entrevista coletiva em sua residência particular. Aproveitou a ocasião para demarcar um novo território. Colocou-se à frente do tempo político das negociações ao afirmar que a Argentina não mais buscava frear Itaipu, pois a represa já era um fato irreversível. O que a Argentina realmente buscava era dar vazão à cooperação com o Brasil295. Os termos do debate chegavam a um patamar no qual a diplomacia de Buenos Aires aparecia ao público com boa vontade negociadora e sem os caprichos da denúncia em foros multilaterais, marcando a diferença entre a nova diplomacia do Processo de Reorganização Nacional e a de Perón. Mais do que tudo, aquele encontro serviu para apresentar sua casa à imprensa que, em uma Brasília ainda pouco povoada, passou a freqüentá-la regularmente em jantares, saraus e sessões embaladas pelos tangos cantados pelo próprio embaixador ao piano. Era acessível, claro, elegante, engenhoso e eloqüente296. Sua experiência como ex-chefe de redação do periódico argentino El Clarín durante sete anos, assim como seu carisma, garantiram a ele fácil e cotidiano acesso aos principais meios de comunicação297, elementos que compunham a sua estratégia de sedução. Sua personalidade midiática garantiu-lhe 293 Sobre a autonomia de Camilión, vale notar que ele afirma nunca ter recebido nenhuma diretriz da Junta ou do chanceler argentino. Atribui isso ao fato de que o governo de Buenos Aires sabia que à medida que o relacionamento argentino-chileno se deteriorava, era necessário manter uma postura positiva com o Brasil, CAMILIÓN, Memórias… p. 193. Adiante, mostra-se que efetivamente Camilión gozava de menos autonomia do que as suas Memórias sugerem. 294 No ano em que chegou ao Brasil como embaixador, Camilión havia publicado 39 artigos ou editoriais sobre o Brasil na imprensa argentina. Diário de Brasília, 15 de julho de 1976. Ao descrever o novo embaixador argentino para Geisel, Silveira afirmou que Camilión “é hoje dos argentinos que mais conhecem o Brasil”. Silveira a Geisel, informação para o Sr. Presidente da República, Brasília, 14 de maio de 1976, n. 163, AAS. CPDOC/FGV. 295 Ver edições de O Estado de S. Paulo e de Folha de São Paulo do dia 15 de julho de 1976. 296 Silveira a Geisel, informação para o Senhor Presidente da República, 14 de maio de 1976, n. 163, AAS. CPDOC/FGV. 297 CHIARELLI. Entrevista... 84 rapidamente notoriedade pública na cidade recém-habitada e sem alternativas de diversão, atraindo artistas, personalidades, políticos e, principalmente, jornalistas. Um exemplo da empatia do embaixador com o público brasileiro foi o seu programa radiofônico na Rádio Nacional, que consistia na audição e comentário de uma grande ópera, além da interação com os ouvintes, que queriam informações sobre personagens épicas, compositores e curiosidades do mundo da música. 3.3. Personalidades e imprensa Esse estilo contrapunha-se frontalmente aos modos simples do chanceler Silveira, que era sólido, prático, direto e convencido de que a melhor negociação é a que se conduz discretamente para evitar as excessivas e perigosas emoções que a opinião pública geralmente impõe298. Esse diferencial tinha bases intelectuais. Para o chanceler, o segredo e a reserva eram a essência da atividade diplomática299. Sua percepção traduzia-se em certo desconforto diante da imprensa, pois as dinâmicas negociadoras eram justamente calcadas naqueles dados que não eram notícia300. O fato de que ele haja dedicado parte significativa de seu depoimento à Fundação Getúlio Vargas, assim como a introdução de seu último discurso no cargo de ministro, às relações com a imprensa sugere que a mesma ocupe um lugar significativo na forma pela qual Silveira compreendia os constrangimentos que o cercavam. O amálgama entre vaidade e inteligência tinha feito de Camilión uma personalidade badalada no establishment diplomático e político do Brasil. Ao longo de sua carreira, Silveira não conseguiu, de modo algum, recriar tal fenômeno em torno da sua própria personalidade. Era um homem calado, que não gostava da vida em sociedade que tanto caracteriza o cotidiano da diplomacia301. Silveira não gostava de Camilión, e o argentino sabia disso. Não somente havia expressado seu desapontamento ante essa indicação ao então embaixador argentino Jorge Casal, como o placet demorou semanas para ser outorgado302. Para Silveira, o novo embaixador supervalorizava seus conhecimentos sobre o Brasil, suas sugestões políticas eram muitas vezes simplistas e acreditava piamente que a 298 Silveira era crítico da prática de dar publicidade a negociações diplomáticas.“Na diplomacia é justamente a não-notícia que importa. A efetividade tem que ser alcançada sem a notoriedade excessiva das atividades do embaixador, porque ele não tem julgamento próprio. Ele cumpre instruções (...)”, Depoimento, cassete n. 3, lado B, 15 maio 1979. As opiniões aqui apresentadas sobre o estilo de Silveira foram elaboradas a partir de seu Depoimento e seus discursos oficiais. 299 SILVEIRA, A. F. A. da. O Brasil e a nova ordem internacional. Revista Brasileira de Política Internacional, ano 18, n. 69/72, 1975. p.8. 300 Depoimento, cassete n. 12, lado B, 1 jun. 1979, 1 jun. 1979. 301 Sobre a personalidade de Silveira ver Depoimento, cassete n. 1, lado A, 10 maio 1979. 302 CAMILIÓN. Memórias... p. 194. 85 Argentina estava em melhores condições “psíquicas e sociais” do que o Brasil para gerar um modelo eficaz de desenvolvimento econômico e social303. As críticas do chanceler à atuação do embaixador permeiam os memorandos enviados ao Presidente Geisel, o que revela a importância das percepções pessoais no processo decisório304. O estranhamento que Silveira manifestava em relação aos meios de comunicação dos novos tempos também está presente em Geisel. O mandatário assumiu o governo decidido a suspender gradativamente a censura nos meios de comunicação, fenômeno que gerou verdadeira caçada por notícias sobre o processo de abertura. O anseio dos jornalistas por manchetes era geralmente frustrado pelo estilo seco de um presidente que evitava conceder entrevistas. Entretanto, Geisel percebeu rapidamente que deveria falar à imprensa sob pena de perder terreno para uma oposição que já começava a galgar posições de poder nas eleições para as câmaras representativas. A solução que achou para o problema deve ter aumentado ainda mais as pressões sobre Silveira: Geisel apenas daria depoimentos durante suas viagens internacionais. Dessa forma, mantinha a mística em torno da figura do Chefe de Estado e evitava ter que lidar com o impacto de suas declarações na caserna e na sociedade civil305. Repentinamente, as viagens do Presidente ao exterior passaram a incluir enviados especiais dos principais jornais e televisões do país306. Embora o interesse dos mesmos não fosse prioritariamente por assuntos da agenda internacional, o clima das viagens e as inovações do governo na pauta externa criaram uma situação na qual a diplomacia era a política governamental mais debatida e, conseqüentemente, mais questionada307. Assim, a partir de 1975, encontra-se um número expressivo de artigos de jornal, editoriais e comentários sobre a política externa de Geisel e Silveira. Sob a influência de semelhantes fenômenos, Silveira procurou adaptar a diplomacia aos novos padrões de relacionamento com a opinião pública. Articulou a sua assessoria de comunicação sob a chefia do então ministro, e mais tarde chanceler, Luiz Felipe Lampreia. A documentação primária revela que se preocupou também, de forma sistemática, em 303 Um dos argumentos de Camilión, no início dos anos 1970, que em pouco tempo provou ser irônico devido ao brutal golpe militar de 1976 que fez dele embaixador no Brasil, era o de que a Argentina estava naturalmente fadada a vencer a negociação pelos rios internacionais uma vez que se tratava de um embate entre uma democracia e um regime autoritário. 304 Menções explícitas e implícitas sobre a personalidade do embaixador argentino podem ser encontradas em Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 14 de maio de 1976, n. 163, AAS. CPDOC/FGV; Silveira a Geisel, informação secreta para o Senhor Presidente da República, Brasília, sem data, 1976, n. 164, AAS. CPDOC/FGV; e Silveira a Geisel, informação confidencial para o Senhor Presidente da República, Brasília, 25 junho 1976, n. 228, AAS. CPDOC/FGV. 305 CHIARELLI. Entrevista... 306 Especialmente o Jornal do Brasil (Walder de Góes), a Gazeta Mercantil (Míriam Leitão), o Estado de S. Paulo (Carlos Conde), a Folha de S. Paulo (Clóvis Rossi), O Globo (Célia Sardemberg) e a Rede Globo (Marilena Chiarelli). 307 CHIARELLI. Entrevista... 86 acertar as suas declarações públicas previamente com os parceiros da negociação e dedicou atenção pessoal à elaboração de press releases sobre as negociações de Itaipu. Tampouco hesitou em utilizar os meios de comunicação para desnudar as táticas utilizadas pela diplomacia argentina, prática da qual certa vez teve que ser demovido diretamente por Geisel308. Assim, as características pessoais de Silveira e Camilión foram testadas por um contexto singular, em que a publicidade das negociações diplomáticas atingiam um nível raramente experimentado na história da política externa brasileira. 3.4. Conclusões A dimensão externa do projeto geiseliano de liberalização política foi anunciada no primeiro dia de governo. Sua premissa básica era a de que a carga ideológica da Guerra Fria deveria ceder espaço a uma abordagem progressista, leia-se: desvinculada das amarras conceituais típicas que marcaram o relacionamento com os Estados Unidos, a Argentina e Portugal. O novo governo avaliava que, diferentemente da fracassada experiência da Política Externa Independente na década de 1960, a diplomacia de então estava em condições de empreender tal revisão309. Prevendo as resistências que a sua diplomacia viria a enfrentar, Geisel incumbiu Silveira de lançar-se à explicação exaustiva dos motivos e propósitos da atuação internacional do novo governo. Essa tarefa ganhou conotações dramáticas uma vez que a postura do mandatário de apenas conceder entrevistas em viagens internacionais fez da política externa alvo primeiro da atenção pública e da crítica de jornais, que começavam a experimentar algum grau de liberdade de cobertura e opinião. O exercício empreendido pelo chanceler era norteado por sua filosofia política, segundo a qual o bem que uma chancelaria pode fazer a seu país é essencialmente intelectual, iluminando opções concretas para o futuro. Para Silveira, reavaliar a política internacional brasileira significava fazê-la instrumento do projeto presidencial: apontaria caminhos alternativos para a crise econômica que começava a abater-se sobre um país 308 Tratava-se de um documento de militares reformados argentinos no qual sustentava-se que, até a Argentina decidir se construiria a hidrelétrica de Corpus ou não, a diplomacia devia sempre fingir estar negociando com o Brasil, sem nada concluir. Ao ter acesso à peça, Silveira quis mostrá-la à imprensa, mas foi demovido – contra sua insistência – por Geisel, já que se tratava de um documento redigido por militares. Depoimento, cassete n. 12, lado B, 1 jun. 1979. 309 Para um esforço de comparação sistemático entre a política externa independente, ensaiada nos primeiros anos da década de 1960, com o pragmatismo responsável de Geisel, ver FONSECA Jr., G. Mundos diversos, argumentos afins: notas sobre aspectos doutrinários da política externa independente e do pragmatismo responsável. In: GUILHON. Op. Cit., v. 1. p.299-336. 87 entusiasmado pelo crescimento do Produto Interno Bruto durante os anos Médici e, principalmente, prepararia o terreno para estruturar a fase final do projeto de desenvolvimento autônomo que militares e tecnocratas vinham desenhando desde Vargas e Kubitschek. O projeto externo foi pensado e operacionalizado por Geisel e Silveira mediante mecanismos que resultaram na concentração de prerrogativas decisórias no Palácio do Planalto e no gabinete do ministro, em um intenso sistema de consultas mútuas formais e informais, e na relativização dos procedimentos burocráticos do Conselho de Segurança Nacional e do Itamaraty. Em relação à questão do aproveitamento dos rios internacionais, o governo brasileiro apostou em uma solução técnica em nível presidencial que descartava a tese da “consulta prévia compulsória”. Contudo, as contradições do processo político argentino e a morte do presidente Perón deixaram o relacionamento bilateral à deriva até o golpe militar que instaurou o Processo de Reorganização Nacional (1976). Buscando uma saída honrosa para a Argentina, a Junta Militar enviou Oscar Camilión para a sua embaixada em Brasília. Apesar da antipatia que por ele sentia Silveira – ou talvez por sua causa – o novo embaixador optou pela retomada dos grandes ideais de cooperação de Uruguaiana em uma interpretação que incluía a utilização da imprensa como instrumento de pressão sobre o chanceler e o Presidente brasileiros. O desentendimento entre o chanceler brasileiro e o embaixador argentino passava pela incompatibilidade de suas personalidades e visão política. Seus ideários eram excludentes e o desencontro de seus métodos, caldo para o conflito. Foi o embate entre ambos que levou à deterioração das relações entre Argentina e Brasil em velocidade e dimensão tão vertiginosas que, por força do impacto, terminaram constituindo uma ruptura na história do vínculo bilateral. 88 Capítulo IV O colapso da cordialidade oficial Entre 1976 e 1979, os avanços e contramarchas do embate argentino-brasileiro pela utilização do rio Paraná resultaram em um criativo acordo de compromisso assinado nos primeiros meses do governo Figueiredo. A intensidade do confronto não poupou seus dois principais negociadores, Silveira e Camilión, que foram alvo de severas críticas na imprensa dos dois países. A interação de ambos nesse período, argumenta-se, teve o impacto específico de eliminar as dimensões regionais e hemisféricas da cordialidade oficial, quais fossem a inclusão da Argentina nas iniciativas brasileiras e a promoção do diálogo argentino-estadunidense. A evolução aqui recuperada ocorreu em um ambiente de franca inovação. Pela primeira vez, um dos vizinhos impelia a chancelaria do outro a sentar-se à mesa de negociações mediante um amplo esforço de cooptação dos meios de comunicação. Também pela primeira vez, a impossibilidade do diálogo diplomático tentava ser mitigada pela campanha paralela e sigilosa das Forças Armadas. Nesse contexto, o Brasil lançou uma aposta regional sem precedentes, ao propor a celebração de um ambicioso pacto político na América do Sul sem a anuência ou a participação da Argentina – o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA). Como será visto adiante, a formulação do mesmo ocorreu na chancelaria brasileira atendendo à lógica, dentre outras, de que era chegada a hora de consagrar a doutrina brasileira para os rios internacionais em toda a América do Sul e afiançar os laços de amizade com as fronteiras setentrionais do país no intuito de fortalecer as posições de Brasília vis-à-vis Buenos Aires. Diferentemente da época da cordialidade oficial, quando a Argentina era sistematicamente incluída nos projetos internacionais do Itamaraty, a grande iniciativa do governo Geisel na América do Sul foi estruturada sob o princípio da contenção política da Argentina na região. No eixo dos relacionamentos assimétricos, o Secretário Henry Kissinger compartilhava o ceticismo de Silveira em relação à política externa argentina. Se, por um lado, o estadista norte-americano não visitou o país austral deliberadamente, por outro, o chanceler brasileiro descartou a possibilidade da promoção do diálogo entre o Departamento de Estado e o Palácio San Martín. Já com o Presidente Jimmy Carter (1977- 89 1981), cujo pensamento internacionalista opunha-se frontalmente ao de Kissinger, as crescentemente deterioradas relações brasileiro-estadunidenses não abriram sequer espaço para uma eventual aproximação entre Buenos Aires e Washington que fosse promovida pelo Itamaraty. Se, à época da cordialidade oficial, a “aliança não escrita” entre o Brasil e os Estados Unidos servia como alavanca do vínculo brasileiro-argentino, durante a conjuntura crítica esse padrão era amplamente descartado. 4.1. Sentando Silveira à mesa: sucessos e fracassos de Oscar Camilión A pedido de Videla, durante o verão de 1977, uma comissão interministerial ocupou-se de definir o exato interesse argentino na questão de Itaipu, uma vez que até então os negociadores do Palácio San Martín somente contavam com difusas manifestações de intenções sobre a cota de regente em sua eventual obra hidrelétrica de Corpus. O informe final estabelecia parâmetros técnicos e políticos: a cota apropriada para Corpus deveria ser de aproximadamente 120 metros (com um limite mínimo de negociação de 115 e máximo de 125)310; a condução das negociações deveria ser tripartite (entre Argentina, Brasil e Paraguai); o entendimento final seria de alto nível, isto é, um acordo que buscasse “compatibilizar” tecnicamente as construções de Corpus e Itaipu, evitando que o avanço das obras brasileiro-paraguaias afetasse os potenciais interesses argentinos no rio Paraná. Videla aceitou o documento e indicou Camilión para chefiar as negociações junto ao governo brasileiro. O embaixador estava ciente de que Silveira negaria uma negociação entre os três países, mesmo porque, naquele momento, o Brasil nem sequer reconhecia que Itaipu era passível de um acordo internacional que excedesse os limites de Brasília e Assunção. Para reverter o quadro, lançou uma campanha na imprensa brasileira centrada nos argumentos de que o concerto a três era o caminho da superação dos constrangimentos que a questão hídrica gerava em toda a região e, para isso, um encontro pessoal entre Videla e Geisel seria a melhor forma de selar a amizade entre os dois países ao deslanchar as negociações técnicas que poriam fim ao contencioso311. A reação negativa de Silveira foi imediata: a unificação de critérios sobre bases “estáveis e eqüitativas para o aproveitamento [meu itálico]” do Paraná, como queriam os argentinos, colidia com a doutrina brasileira. Além disso, a realização de um encontro 310 O informe é apresentado por LANÚS. Op. Cit., p. 309. A proposta argentina não deixa de revelar certa inconsistência: embora estabelecesse 115 metros como patamar mínimo para a negociação, fazia questão de assinalar que , em hipótese alguma, a delegação negociadora poderia aceitar menos de 105 metros. 311 CAMILIÓN. Memórias…, p. 198 e 203. 90 tripartite para discutir detalhes técnicos de Itaipu equivaleria à aceitação tácita do princípio da “consulta prévia”312, o que era inaceitável. Geisel parece haver concordado com essa avaliação, pois foi a tônica dada por Silveira em seu depoimento, em sessão secreta, à Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal313. Contudo, a política publicista de Camilión chegou a provocar o próprio Geisel, que em discurso no Clube Naval ao corpo diplomático sediado em Brasília, em 10 de maio de 1977, afirmava: “Não sou dos que acreditam que a diplomacia tradicional tenha sido superada pela eficiência dos modernos meios de comunicação. Ao contrário, creio que a própria eficiência desses meios pode iludir-nos, levando-nos a confundir publicidade com negociações314”. O elemento que deflagrou drasticamente os tempos da negociação foi uma declaração do embaixador argentino sobre suas percepções em relação ao programa nuclear brasileiro, afirmando que o mesmo se tratava de iniciativa pacífica e que não somente não constituía nenhuma ameaça para a Argentina como abria uma possibilidade ímpar para pensar, em ambos os países, a coordenação das políticas nucleares de Argentina e Brasil em prol do desenvolvimento do Cone Sul315. No Brasil, o depoimento suscitou reações radicais em nível governamental, quase chegando a valer ao embaixador a declaração de persona non grata316. Até mesmo Buenos Aires quase demitiu seu embaixador, pois os militares argentinos pretendiam que a Argentina fosse o país latino-americano a ter o monopólio nuclear da região e, segundo Camilión, não viam com bons olhos a associação ao Brasil nesse campo. Mas não foi assim com a opinião pública. A imprensa brasileira recebeu o depoimento positivamente, por entender que o apoio argentino ao projeto nuclear brasileiro era uma credencial a mais para fazer frente ao “imperialismo ianque”. O próprio 312 Silveira a Geisel, informação ao Senhor Presidente da República, Brasília, 5 de abril de 1977, sem número, AAS. CPDOC/FGV. 313 O depoimento ocorreu em 17 de maio de 1977. Em um movimento que foi interpretado pela imprensa como uma gafe de Silveira, o chanceler afirmou que o Paraguai havia abandonado a política pendular com seus dois grandes vizinhos para “mover-se na mesma linha do Brasil”. Seja para compensar esse equívoco ou devido à dimensão que o tema ganhava na mídia nacional, Silveira assistiu à recepção, contrariando todas as expectativas, oferecida por Camilión por ocasião do Dia da Pátria Argentina, em 25 de maio de 1977. Ver Carta política, Buenos Aires, 16 junio 1977 e GUALCO, J. N. Por que Brasil se sienta a negociar. Política Internacional, Buenos Aires, octubre 1977, p. 34-36. 314 Em um ato curioso, senão constrangedor, o núncio apostólico, que representava as delegações presentes, respondeu ao Presidente fazendo defesa do caso argentino. “[Hoje] a teoria dos Estados estanques fatalmente cede o posto à do intercâmbio universal. A individualidade deu lugar à coletividade (…) em virtude disso, os acontecimentos de um país, favoravelmente ou não, causam reflexos sobre os outros, a ponto de tanger o conjunto total do mundo”. In: GEISEL: alarde não ajuda diplomacia. Estado de S. Paulo, 11 maio 1977. 315 CAMILIÓN. Memórias..., p. 202. 316 Ibid. p. 203. 91 embaixador Nogueira Batista, que presidia a Nucleobrás, estava convencido da necessidade de cooperação com a Argentina para fazer frente à pressão norte-americana317. Dessa forma, o apoio a Camilión e seus argumentos ganhou editoriais e notas no Jornal do Brasil e em o Estado de São Paulo318. Silveira retrucou as declarações de Camilión ao afirmar que os argentinos atrapalhavam as negociações por eles próprios avançadas. O chanceler logo descartou qualquer possibilidade de encontro entre Geisel e Videla antes que os “desentendimentos” fossem superados319. Camilión havia conseguido seu objetivo principal: o ministro das relações exteriores finalmente reconhecia a existência de problemas no relacionamento bilateral. A partir desse momento, o diálogo adquiria uma nova dimensão. Em finais de agosto de 1977, e contra sua própria vontade, Silveira autorizou seu embaixador em Buenos Aires a marcar uma reunião tripartite para setembro daquele mesmo ano em Assunção. Contudo, a vitória de Camilión no Brasil foi temperada por seu fracasso inicial junto à opinião pública argentina e a setores de seu próprio governo. A imprensa local acusava-o de ceder com facilidade aos “pequenos gestos de Silveira”, sua estratégia era denunciada “concessória”, e seus poderes, “excessivos”320. Assim como nos tempos de Frondizi e Quadros nos anos sessentas, quando tivera alguma responsabilidade pelo espírito de Uruguaiana, o Camilión dos setentas enfrentou setores da opinião pública argentina abertamente hostis à idéia de concertar posições com o Itamaraty321. Outro constrangimento que o embaixador enfrentava era a inconsistência do processo decisório argentino em política externa. Exemplo disso é a reação da diplomacia 317 Id. Jornal do Brasil (5 e 18 jul. 1977), O Estado de S. Paulo (22 jun., 13 jul., 6 e 13 ago. de 1977). Apud. COURA, Fernanda F. O espelho das águas: a imprensa brasileira e a controvérsia do Brasil com a Argentina acerca de Itaipu (Jornal do Brasil e o Estado de São Paulo, 1969-1979). 2001. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Brasília. 319 Ver EL Canciller del Brasil hizo incisivas declaraciones sobre las relaciones con Argentina. La Razón, 23 junio 1977; NO se preve todavia en Brasil la reunión de Videla con Geisel. El cronista comercial, 24 junio 1977; NIEGAN en Brasil una próxima entrevista. La Opinión, 24 junio 1977; LAS relaciones de la Argentina con Brasil. La Nación, 24 junio 1977. Todas encontram-se em Cláudio Garcia de Souza ao MRE, telegrama urgente, Buenos Aires, 24 jun. 1977, n. 637, AHMRE, caixa 159. 320 Dizia o influente Última Clave: “O camilionismo desacreditou com simplicidade inexplicável a tese que recomendava uma maior contundência em nossas relações com o Brasil e com os países que operavam como satélites do grande sol de Brasília (...) o camilionismo fracassou peremptoriamente em sua tentativa de docificar as relações bilaterais. Sua alquimia, que consiste em transformar vinagre em mel [resultou em] desprezos públicos e patentes aos esforços de alto nível por juntar Geisel com Videla e fortes pressões sobre Mendez e Stroessner para que abandonassem definitivamente a idéia de apostar parte de seu capital político em Buenos Aires [minha tradução]”. Um editorial da revista Cabildo chegava a afirmar que Camilión tinha sido irresponsável ao sugerir uma cota de reagente de 104 metros, ao apoiar a doutrina brasileira de fazer de Itaipu um fato consumado e fazer de Stroessner, mandatário de uma nação menor, o mediador entre Buenos Aires e Brasília. NUESTRA politica exterior. Última Clave, Buenos Aires, 18 junio 1977, p. 5-8; COINCIDENCIAS y disensos internacionales. Última Clave, Buenos Aires, 27 junio 1977, p. 5-7; e ANTE un grave peligro. Revista Cabildo, abril 1978, p. 5-6. 321 Conforme apresentado no Capítulo II, Frondizi foi acusado de “entreguista” por certos setores argentinos que sugeriam ser os convênios de Uruguaiana um instrumento do Itamaraty para forçar Buenos Aires a uma postura “mais neutralista” face à revolução cubana. 318 92 argentina às declarações de Silveira sobre sua intenção de rejeitar toda proposta de negociação tripartite. De Brasília, e buscando espaços para o diálogo com o chanceler brasileiro, Camilión fez a contraproposta de uma reunião bilateral de altíssimo nível, exploratória e de caráter reservado, na qual seriam tratados apenas assuntos técnicos, deixando de lado quaisquer considerações de natureza jurídica ou de princípio. Dois dias depois, o Palácio San Martín contradizia a orientação de sua embaixada no Brasil, uma vez que o chefe do setor latino-americano apresentava ao embaixador brasileiro em Buenos Aires um documento em tom intimidador, que insistia na realização de uma reunião tripartite sob pena de turvar entendimentos prévios dos dois países sobre a Bacia do Prata322. Isso traz à baila um tema central para compreender a dinâmica do jogo entre Silveira e Camilión, qual seja o grau de autonomia e independência que esse último gozava em relação a seu governo. Camilión afirma que, em momento algum da sua missão de cinco anos em Brasília, a Junta indicou-lhe como atuar323. Mas o chanceler desconfiava dessa avaliação. Para ele, Camilión estava preso aos vaivéns de Buenos Aires e sua flexibilidade era muito limitada: em seu depoimento à Fundação Getúlio Vargas, chegou a comentar seu assombro e perplexidade quando o ministro Pastor ofereceu-lhe a cabeça de Camilión em correspondência oficial324. De qualquer forma, o embaixador argentino no Brasil gozou das vantagens de um processo decisório diplomático que valorizava a ação individual por oposição à postura corporativa característica da diplomacia brasileira. Isso resultou em uma estranha situação: não se tratou do tema mais candente do relacionamento bilateral em nível de chancelarias ou presidências, mas sim entre uma representação diplomática e o país onde estava acreditada. Os custos dessa modalidade operativa foram as contradições entre os sinais emitidos por Buenos Aires e os da sua delegação em Brasília. 4.2. As táticas de Silveira Apesar do clima de desentendimento, a rodada de negociações instalou-se em Brasília. Finalmente triunfara a tese argentina de uma negociação pontual de caráter técnico entre os três países cujo único objetivo seria definir a viabilidade técnica das obras, e não 322 COMUNICADO de Camilión a Itamaraty (17 maio 1977). Última Clave, 26 agosto 1977. CAMILIÓN. Memórias... p. 193. Embora Silveira afirme haver encaminhado essa correspondência à seção de arquivos do Ministério das Relações Exteriores (Depoimento, cassete n. 4, lado A, 15 maio 1979 e n. 13, lado B, 5 jun. 1979), a mesma não foi encontrada ao longo desta pesquisa. 323 324 93 questões de princípio. Em setembro de 1977, durante a Assembléia Geral das Nações Unidas e antes do encontro das três delegações em Assunção, Silveira, o argentino Pastor e o chanceler Nogués, do Paraguai, tentaram – sem sucesso – chegar a um novo consenso sobre a altura da cota de reagente em Corpus325. Silveira reforçou a oferta de 105 metros sem possibilidade de negociação, ao passo que incluía, contra a sua vontade, um novo elemento perturbador do diálogo bilateral: não mais haveria dezoito máquinas na represa e, sim, vinte. A demanda técnica havia sido feita pelo Ministério das Minas e Energia que, contra o parecer de Silveira, sustentava ser esse o número necessário de máquinas para garantir a operação simultânea, a qualquer momento, de dezoito delas. Os argentinos resistiram imediatamente às duas máquinas de reserva e, sob o argumento de que as mesmas violavam proposições já negociadas, paralisou-se o diálogo mais uma vez326. Diante do corte dos fluxos de comunicação entre os dois grandes, o Paraguai avistou uma possibilidade histórica de, explorando essa divergência, barganhar seu apoio a um ou outro em melhores condições. Assim, em princípios de agosto de 1977, e sem avisar a sua contraparte brasileira, o governo paraguaio afirmou publicamente que ainda não decidira o tipo de ciclagem a ser utilizado para as máquinas de Itaipu. As ciclagens estão no centro do modelo de desenvolvimento das redes elétricas de um país, e tendo em vista que as do Brasil e da Argentina são de 60 e 50 ciclos respectivamente, essa declaração deixava entrever que Assunção estava à espera da melhor oferta. Para o Brasil, essa situação implicava altos custos, já que somente era possível proceder com as complexas licitações internacionais para a montagem das redes de condução caso houvesse uma definição prévia da ciclagem. Assim, a diplomacia brasileira encontrava-se diante de uma situação de congelamento das obras por causa das incertezas oriundas de Assunção e de confronto aberto com a Argentina. Silveira optou por intensificar o relacionamento com o país mediterrâneo por meio de gestos como a devolução dos troféus da Guerra do Paraguai a Stroessner, tática que já havia sido posta em prática por Perón no auge do entendimento entre Buenos Aires e Assunção (1953). Aparentemente, o general paraguaio compreendeu que mais tinha a ganhar se conseguisse o apoio ostensivo de Geisel do que se aderisse a movimentos pendulares327. 325 LANÚS. Op. Cit., p. 310. Depoimento, cassete n. 13, lado B, 5 jun. 1979. Em março de 1977, dias antes de receber Videla em visita oficial, Stroessner disse ao embaixador brasileiro em Assunção que estava preocupado com as pressões que Buenos Aires fazia contra Itaipu, e que temia que um potencial acordo entre Argentina e Brasil fosse negativo para o Paraguai. Dava a 326 327 94 Em relação à Argentina, Silveira escolheu fortalecer seus argumentos jurídicos na questão dos rios mediante a melhoria dos laços políticos e econômicos com aqueles países nos quais o Brasil tem uma posição a jusante. Fez isso ao conceber e implementar o TCA, que é, em essência, um movimento de negação da cordialidade oficial com a Argentina328. A novidade introduzida pelo TCA era a dimensão política do gesto brasileiro de convidar todos os países setentrionais da América do Sul a assinar, em Brasília, um instrumento de convergência regional em uma região em que todos os países – com exceção do Brasil – tinham questões limítrofes pendentes ou haviam sofrido efetivas perdas territoriais para seus vizinhos329. Em quinze meses, Silveira havia conseguido transpor as objeções de Venezuela, Guiana, Suriname, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. A estratégia sul-americana de Silveira incluiu ainda acordos com Bolívia e Uruguai, cuja tônica era trocar vantagens políticas por incentivos econômicos 330 . É de então que datam a declaração brasileira de apoio às demandas bolivianas por uma saída para o mar e a assinatura de Tratado da Lagoa Mirim com o Uruguai, importante sinalização da postura conciliadora do Brasil no tratamento de bens públicos internacionais como a água331. Do outro lado do Prata, o Palácio San Martín também estava engajado na expansão de seus vínculos em uma aposta de alto risco: em seus encontros com os mandatários do Chile, da Bolívia e do Paraguai, Videla realizava concessões econômicas que, na avaliação do embaixador brasileiro em Buenos Aires, o governo argentino sabia não poder honrar devido à crise econômica na qual se encontrava332. Particularmente importante, nesse contexto, era o acordo argentino-uruguaio de 1973 sobre o Rio da Prata333, ao qual Silveira mostrou todas suas restrições apenas surgiu a primeira oportunidade334. entender que gostaria muito de que o Brasil fizesse pronunciamento de amizade ao Paraguai, como forma de fortalecer Stroessner na negociação com Videla. Legação em Assunção ao MRE, telegrama secreto, 3 de março de 1977, n. 1725, AHMRE, caixa 278. Segundo Silveira, o Brasil também jogava com a certeza de que os paraguaios nunca se associariam a Buenos Aires devido ao histórico tratamento discriminatório e prepotente que receberam dos argentinos. Depoimento, cassete n. 15, lado B, 7 jun. 1979. 328 Silveira a Geisel, informação secreta ao Senhor Presidente da República, Brasília, 4 de março de 1976, n. 99, AAS. CPDOC/FGV. 329 Ver exposição feita na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados pelo ministro Rubens Ricúpero, Chefe da Divisão da América Meridional-II do Ministério das Relações Exteriores, 9 de maio de 1979. In: Relações Internacionais, n. 5, vol. 3, junho, 1980. 330 BANDEIRA, O eixo… 331 Em relação à Bolívia, vale notar a ratificação do Acordo de Cooperação e Complementação Industrial (22 de maio de 1974). Com o Uruguai, o Tratado da Lagoa Mirim (20 de maio de 1974), o Tratado de Amizade, Cooperação e Comércio (Tratado de Rivera, 12 de junho de 1975), o Acordo sobre Trigo (7 de março de 1975) e a viagem oficial de Geisel àquele país em 24 de janeiro de 1978. BRASIL. Resenhas de Política Exterior do Brasil. Brasília: MRE. n. 1, 3, 4, 5 e 16 (1974, 1975 e 1978). 332 Legação em Buenos Aires ao MRE, telegrama confidencial, 16 de novembro de 1976, n. 3750, AHMRE, maço 245. 333 O mesmo questiona, implicitamente, a validade do Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação de 1856, assim como a convenção fluvial de 1857 – instrumentos que garantiam a livre navegação no Rio da Prata e afluentes – sob o argumento de que, à época, Buenos Aires ainda não estava integrada à Confederação Argentina quando esta os celebrou com o Império Brasileiro. 334 Nota de Silveira a Montes publicada em O Estado de S. Paulo, 5 de agosto de 1977. 95 4.3. O fracasso dos canais diplomáticos Em dezembro de 1977, a Argentina e o Brasil sentaram-se à mesa de negociações durante a VIII Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata. Os meios de comunicação argentinos não cessaram de acusar Silveira de emperrar o processo negociador. A eles somavam-se as tradicionais críticas dos jornalistas brasileiros335. A curiosa saída que as sociedades encontraram para dar uma chance à negociação teve base castrense. Essa paradoxal inversão de funções, na qual os militares funcionam como instrumento de apaziguamento entre duas diplomacias em franco embate, foi a semente de um entendimento bilateral em nível de Forças Armadas que, pouco tempo depois, resultou nos primeiros passos do projeto de integração . Há indícios de que tanto o SNI quanto o Centro de Informações e Segurança do Exército enviaram expedições à Argentina em 1977 para preparar relatórios sobre a questão dos rios internacionais336. Ainda em abril de 1976, o ministro da Marinha do Brasil, almirante Geraldo Azevedo Henning, visitou a Argentina. A estada do ministro foi encoberta por um clima de reserva tal que nenhum órgão de imprensa divulgou os propósitos ou resultados da missão, embora haja suspeitas de que o tema em pauta fosse a questão das águas337. Em julho de 1977, o comandante da Força Aérea Argentina e membro da Junta Militar, brigadeiro general Orlando Ramón Agosti, encontrava seu colega, brigadeiro Délio Jardim de Mattos, em Foz do Iguaçu. Dias depois, visitava Buenos Aires o chefe do Estado Maior da Marinha, almirante Gualter Menezes de Magalhães. Na ocasião, Massera afirmava: “Devemos estar prontos para corrigir desvios, advertir erros e evitar astúcias supérfluas que nos afastem dos objetivos transcendentes que unem o Brasil e a Argentina338 [minha tradução]”. Os encontros parecem ter surtido efeitos concretos nas chancelarias porque, dias depois, em 18 de julho de 1977, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Cláudio Garcia de Souza, levava uma nota de Silveira ao chanceler Montes na qual eram passados em revista os principais problemas do relacionamento bilateral, e o Brasil propunha continuar as negociações em torno de Corpus e Itaipu. Porém, Silveira condicionava o retorno das 335 “(...) a irritabilidade e agressividade do chanceler [Silveira] surpreendeu os meios diplomáticos do Cone Sul, apagando o estilo que o Itamaraty tinha desde o Barão do Rio Branco [minha tradução]”. LA DIPLOMACIA de Silveira. Política Internacional, Buenos Aires, octubre 1977. 336 GÓES. O Brasil…, p. 54 e CONDE, C. Militares assumem a ação diplomática. O Estado de S. Paulo, 10 jul. 1977. 337 LA VISITA de um Almirante y la “cruzada” del Brasil. Revista Confirmado, maio 1976. 338 Política Internacional, ago/sep, 1977. 96 negociações à estrita observância do Tratado de Livre Navegação assinado entre Argentina e Brasil em 1857339. Por sua vez, Camilión viajava imediatamente a Buenos Aires para discutir aquela nota com Montes. No momento de sua chegada ao Aeroporto de Ezeiza, afirmou: “As relações entre as Forças Armadas dos dois países não são apenas excelentes, mas também muito fluidas [tradução e itálico meus]. Um mês depois, o almirante Massera – também membro da Junta Militar – encontrou seu colega brasileiro, Henning, no Rio de Janeiro, para uma sessão de conversas sigilosas, supostamente dedicadas ao tema dos rios. No outro dia pela manhã, voltou a Buenos Aires, retornando ao Rio de Janeiro à tarde340, o que indica ativa negociação e consultas em alto escalão. É plausível supor que o advento da diplomacia militar paralela tenha sido articulado pelos argentinos na expectativa de estabelecer relações minimamente normais com o Brasil, tendo em vista seus preparativos para a guerra contra o Chile341. O belicismo argentinochileno impactava de duas maneiras a compreensão do governo brasileiro sobre os desafios que a Argentina impunha. Em primeiro lugar, gerava a impressão em Silveira de que a Argentina assistia a um irreversível processo de diminuição política no continente, cujo principal indício era o fato de o chanceler Montes passar os primeiros meses de 1978 à procura de apoios de Bolívia, Peru, Equador e Colômbia para o Canal de Beagle em troca de experiência técnica em assuntos nucleares, uma vez que a situação econômica do país não lhe permitia oferecer qualquer outro tipo de incentivo342. Em segundo lugar, a diplomacia brasileira desconfiava da efetividade de assinar um acordo internacional sobre a questão de Itaipu. Após a negativa portenha de aceitar o laudo arbitral britânico, realizado a pedido de Buenos Aires, sobre o canal de Beagle, nenhum instrumento jurídico seria suficiente para garantir a observância argentina dos princípios do direito internacional343. Para o Itamaraty, a política internacional da Argentina estava presa às instabilidades da conjuntura política doméstica. Silveira foi certeiro em sua resposta ao receber a visita de um enviado especial de Augusto Pinochet, que buscava o apoio brasileiro para sensibilizar o Secretário de Estado norte-americano Cyrus Vance para a questão do conflito iminente. O chanceler comprometeu-se a levar o assunto a Vance, mas, segundo ele, Santiago deveria 339 FOULKES. Haroldo. Buenos Aires-Brasília: eje torcido, rueda loca. Revista Panorama, agosto 1977. p. 14-16. 340 LA “diplomacia militar”. Revista Somos, 29 julio 1977, p. 21. 341 Ver El Clarín, 20 de dezembro de 1998. 342 Silveira a Geisel, informação secreta para o Senhor Presidente da República, Brasília, 27 de abril de 1978, n. 94, AAS. CPDOC/FGV. 343 Sobre a questão de Beagle no pensamento de Silveira, ver Depoimento, cassete n. 13, lado B, 5 jun. 1979. 97 buscar ganhar tempo, uma vez que a eminente passagem do Almirante Massera para a reserva tenderia a diluir rapidamente o clima de rivalidade territorial entre a Argentina e o Chile344. A previsão de Silveira foi correta: após a saída do almirante da cena política, todas as atenções do pensamento militar argentino deixaram o Chile de lado. Voltaram-se, contudo, para as Ilhas Malvinas. 4.4. O encerramento das negociações Em abril de 1978, os desentendimentos entre as duas diplomacias atingiam uma nova fase de deterioração. Camilión propunha ao governo brasileiro um encontro reservado entre as delegações de Argentina e Brasil anterior à reunião tripartite seguinte, que teria lugar em Assunção. O objetivo desse encontro era discutir a “regularização do rio Paraná”. Para ele, certos assuntos poderiam ser mais bem esclarecidos em contatos bilaterais prévios aos grandes encontros trilaterais345. Essa movimentação despertou em Silveira a suspeita de que a Argentina vinha mantendo encontros sigilosos com o Paraguai. Portanto, sugeriu a Geisel recusar qualquer tipo de conversa técnica relacionada aos rios que não fosse presenciada pelas três partes, caso contrário o Brasil poderia cair na armadilha de diluir a responsabilidade do Paraguai em uma eventual resolução final para o contencioso346. Para o encontro de Assunção, a postura brasileira já havia sido definida por Silveira e aceita por Geisel e pelos argentinos: uma vez atingido o entendimento técnico sobre a cota de Corpus e o ritmo de operação de Itaipu, todas as demais questões correlatas deveriam ser tidas, pelas três partes, como satisfatoriamente resolvidas347. Nesse momento, 344 Embora o governo chileno não estivesse disposto a negociar o laudo arbitral da Coroa Britânica, que traçava a soberania do canal e das ilhas ao sul, considerava a possibilidade de negociar a projeção do mar territorial desses territórios sobre o Atlântico, aparente fonte de preocupações em Buenos Aires. Segundo o enviado chileno, as forças argentinas venceriam o embate pela ocupação das ilhas, e a situação evoluiria para um conflito generalizado com núcleo na região de Mendoza, à altura do centro do Chile. Em semelhante situação, o Chile recorreria ao TIAR, que demoraria quatro ou cinco dias para ser efetivada, mas a essa altura o território chileno poderia ser cortado em mais de uma parte. Por esses motivos, solicitava ao governo brasileiro manifestar preocupação ante a possibilidade de conflito aos dois países e sensibilizar os Estados Unidos, que estariam indiferentes à situação. Segundo o enviado chileno, preocupava em Santiago o fato de Carter não haver incluído Beagle na lista de crises do continente em seu discurso. Também preocupava o fato de as gestões chilenas no Departamento de Estado não permearem os escalões superiores, não chegando ao Secretário de Estado Vance e muito menos ao Presidente Carter. Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 8 de setembro de 1978, n. 240, AAS. CPDOC/FGV. 345 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 6 de abril de 1978, n. 78, AAS. CPDOC/FGV. 346 Departamento das Américas ao Secretário Geral, memorandum secreto, Brasília, 3 de abril de 1978, AAS. 1978. CPDOC/FGV. 347 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Presidente da República, Brasília, 6 de abril de 1978, n. 78, AAS. CPDOC/FGV. E Departamento das Américas ao Secretário Geral, memorandum secreto, Brasília, 3 de abril de 1978, AAS, 1978. CPDOC/FGV. 98 entretanto, a política externa argentina via-se presa das inconsistências que tanto a assolaram em relação aos rios meses antes. Após o encontro que parecia selar o acordo para a negociação, Buenos Aires enviou um aide memoire a Brasília no qual afirmava que a solução para o assunto fluvial seria um acordo que viria a “regular o tratamento e as soluções de todos os problemas vinculados aos interesses dos países ribeirinhos do rio Paraná [meu itálico]” (22 de maio de 1978). Silveira respondeu afirmando que esse documento violava o espírito em que o Brasil aceitara a sugestão argentina de entabular conversações a respeito do tema, assim como a filosofia das reuniões tripartites que se realizaram. Camilión reconheceu o erro de sua chancelaria e alinhou-se ao entendimento brasileiro, assegurando que entraria em contato com seu governo para esclarecer o tema. Apesar das declarações oficiais do embaixador em benefício da postura brasileira, o Palácio San Martín lançou à imprensa portenha um comunicado no qual o encontro de Assunção era tratado como o momento para definir um “acordo sobre o Rio Paraná [meu itálico]”. Dias depois (29 de maio de 1978), Camilión apresentava a Silveira um esboço do documento a ser assinado em Assunção, que, ao introduzir o conceito de “ótimo aproveitamento do rio Paraná”, e qualificar Itaipu como “obra de interesse plurinacional”, confirmava sua base principista e enrijecia a liberdade de operação de Itaipu ao vincular o seu número de turbinas à cota de reagente em Corpus (deixando em aberto o regime de operação em Itaipu até a construção da obra argentino-paraguaia), além de chegar a reivindicar garantias de vazões mensais mínimas na represa brasileiro-paraguaia. Não paravam aí as demandas argentinas: estendiam-se os conceitos sobre livre navegação aos afluentes do rio Paraná (excedendo, portanto, os trechos exclusivamente internacionais do rio) e mencionava o tema da qualidade das águas348. Em outras palavras, em 1978, a Argentina reabria questões já superadas pelo Tratado da Bacia do Prata de 1969, tais como o tema do aproveitamento ótimo, o regime de navegação dos rios e a construção de obras em afluentes dos trechos internacionais da Bacia. Além de atentar contra o que já se sabia ser interesse brasileiro, a proposta argentina punha em xeque, mediante seu diálogo com o Brasil e o Paraguai, um assunto da exclusiva competência do CIC e que, portanto, deveria obrigatoriamente incluir a Bolívia e o Uruguai. Diante desse cenário, e acreditando que Camilión estava preso a um sistema decisório no qual pouco podia interferir, Silveira sugeria a ele apresentar um projeto 348 Silveira a Geisel, informação secreta-exclusiva para o Senhor Presidente da Republica, Brasília, 29 de maio de 1978, n. 129, AAS. CPDOC/FGV. 99 alternativo ou encerrar as negociações definitivamente. Qualquer que fosse a escolha argentina, o chanceler deixava claro que o Brasil não comprometeria seu cronograma de obras em Itaipu349. É plausível supor que a postura negociadora de Silveira tivesse por objetivo forçar os argentinos a rever suas posições e não constituía uma ameaça que Brasília poderia cumprir facilmente, uma vez que os custos do crédito internacional para uma obra internacional, que potencialmente levaria dos países a uma rota de colisão, seriam excessivamente altos para o Brasil350. A retomada do diálogo não ocorreu até meses mais tarde, quando Camilión propôs ao Itamaraty realizar um encontro em nível de chanceleres. Fiel a seu estilo personalista, o embaixador havia garantido ao Itamaraty que, caso o Brasil aceitasse a proposta, ele se comprometeria a assegurar o êxito das negociações. Para tanto, propunha um encontro sigiloso prévio de delegações técnicas para esboçar o documento final, que poderia ser assinado na forma de “acordo, troca de notas ou mesmo declaração351”. O governo brasileiro aceitou a proposta argentina, e um grupo de trabalho tripartite se reuniu no Rio de Janeiro conforme sugerido por Camilión (12 e 13 setembro de 1978). A versão tentativa do documento a ser assinado não mencionava o número de turbinas em Itaipu e consagrava a fórmula “em torno a 105 metros” para a cota de regente em Corpus. Silveira comprometia-se com Camilión a instalar 20 máquinas, mas manter apenas 18 em funcionamento, promessa que não poderia ser violada pelo Brasil devido a uma questão técnica: os desenhos da obra seriam feitos para 18 máquinas em funcionamento simultâneo, condicionando dessa maneira os parâmetros de comportamento do caudal a jusante, isto é, a quantidade de água que passaria pela represa352. Nunca o entendimento havia estado tão próximo. Em conversa telefônica no dia 24 de outubro de 1978, os dois chanceleres dispunham-se a aceitar 105 metros com “18 turbinas em operação” 353. Faltava apenas definir a forma jurídica que o documento final teria. Durante a X Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata (Punta del Este, dezembro de 1978), Silveira sugeriu à contraparte argentina a “trilateralização” das notas reversais 349 Ibid. Isto está sugerido na revista argentina Somos, segundo a qual diplomatas brasileiros teriam afirmado ser fundamental chegar a um acordo na maior brevidade possível no intuito de não comprometer o financiamento externo da obra. BRASIL dice no: sabe que si. Revista Somos, Buenos Aires, 9 junio 1978. p. 40-41. 351 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 15 de agosto de 1978, n. 219, AAS. CPDOC/FGV. 352 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 18 de outubro de 1978, n. 274, AAS. CPDOC/FGV. 353 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 15 de agosto de 1978, n. 219, AAS. CPDOC/FGV. 350 100 trocadas com o Paraguai, como forma de fugir à fórmula de um acordo e consagrar um entendimento eminentemente técnico. A delegação argentina não aceitou a proposta354 e, alternativamente, enviou ao Brasil um emissário com amplos poderes com a intenção de renegociar parâmetros previamente definidos. Em 18 janeiro de 1979, chegava a Brasília o Almirante Colombo com a sugestão de uma nova reunião tripartite para tratar dos seguintes temas: (1) embora a cota de regente em Corpus fosse definida em 105 metros, o texto deveria garantir mais 5 metros de flexibilidade que seriam utilizados em função das alterações de vazão do rio. Para Silveira, a solução proposta era inaceitável porque esse tipo de arranjo terminaria por constituir um ponto de fricção e de desconfiança permanente entre os dois países cada vez que a cota “extra” fosse utilizada355; (2) o texto deveria afirmar que as 2 máquinas de reserva nunca seriam postas em funcionamento simultaneamente com as outras 18, o que o ministro aceitou de bom grado356. A Argentina aceitaria as vinte máquinas em operação se a cota em Corpus fosse, nominalmente, de 110 metros, sendo que Buenos Aires se comprometeria com encher apenas 105 metros. Silveira rechaçou a proposta imediatamente357. Mas a grande restrição de Silveira era em relação a um novo encontro tripartite. Ele acreditava que o texto até então acertado era suficientemente bom, consagrando inclusive a fórmula, de inspiração argentina, de “18 turbinas em operação”. Segundo o chanceler, Pastor buscava modificar o documento em função de pressões internas, uma vez que a diplomacia argentina finalmente entendia que o custo de não cumprir a palavra empenhada (como no caso do laudo arbitral britânico sobre Beagle) era elevado em demasia e, portanto, somente um acordo que pudesse ser realmente respeitado deveria ser assinado com o Brasil e o Paraguai358. Contudo, o contexto das negociações abriu espaço para uma interpretação alternativa. Não seria surpreendente que os argentinos propusessem outra negociação tripartite no intuito de aumentar o peso político do entendimento, livrando-se dessa forma da proposta brasileira, saída técnica que implicava custos domésticos elevados à Casa Rosada depois de tantos anos de presença do tema na mídia nacional. Essa análise parte do 354 AS DUAS turbinas da discórdia. Isto É, 31 out. 1978. p. 13-14 e ITAMARATY fracassa outra vez em Itaipu. Isto É, 28 de fevereiro de 1979. p. 10-11. Vale notar que a justificativa de Silveira é diferente daquela esboçada por ele mesmo na documentação prévia, segundo a qual qualquer cota acima dos 108 metros provocaria inundações em território brasileiro que o governo não estava disposto a aceitar. 356 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 23 de janeiro de 1979, n. 009, AAS. CPDOC/FGV. 357 Depoimento, cassete n. 14, lado A, 5 jun. 1979. 358 Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva para o Senhor Presidente da República, Brasília, 23 de janeiro de 1979, n. 009, AAS. CPDOC/FGV. 355 101 pressuposto de que a Argentina já havia perdido todas as posições na negociação substancial (Itaipu era uma realidade, a cota do reagente em Corpus era aquela proposta pelo Brasil, o número de máquinas em Itaipu atendia às necessidades técnicas de Brasília, a liberdade de navegação nos rios internacionais da Bacia ficava definitivamente garantida pelo acordo multilateral de 1969, e a responsabilidade internacional do Estado pela qualidade da água na Bacia era suprimida por um regime multilateral de preservação das soberanias nacionais – o Tratado da Bacia). Para os argentinos, o espaço de barganha resumia-se ao formato do entendimento. Um acordo internacional tripartite seria visto em Buenos Aires como um sucesso argentino e um fracasso brasileiro, uma vez que eram esses os termos da discórdia à época em que o Brasil recusava-se a discutir o tema com o Palácio San Martín. Mas Silveira não estava disposto a ceder nesse quesito mesmo que não houvesse mais motivos técnicos para atrasar a assinatura definitiva do acerto, e muito menos a dois meses do fim do governo de Geisel. Essa hipótese é corroborada pelo fato de que, em meio ao seu encontro com o Almirante Colombo, Silveira telefonou para o Presidente à procura de seu beneplácito para encerrar as negociações com a Argentina. Efetivamente, o mandatário respondeu-lhe que considerava ser a resolução do assunto uma tarefa de seu sucessor, já que as contradições da diplomacia argentina impossibilitavam um entendimento em curto prazo359. Em 30 de janeiro de 1979, a diplomacia argentina jogava mais uma vez com as conjunturas políticas de Brasília. Apesar de saber que o governo de Geisel resumira as negociações, Buenos Aires aumentou o dissonância com o Itamaraty ao sugerir publicamente uma nova rodada de negociações. Essa atitude, pela qual a Argentina aproveitava o fim do mandato de Geisel para dar a entender à opinião pública que a falta de avanços devia-se à postura arrogante do governo brasileiro, irritou Silveira profundamente. Seus gestos de frieza em relação à delegação argentina, durante o último encontro tripartite de sua gestão (Assunção, Janeiro de 1979), fizeram-no passar para a história com a pecha de “carnavalesco”, “perigoso”, “pouco sério”, “inconsciente” e “pueril” em editoriais de Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo do dia 1o de fevereiro de 1979. Em sua despedida do Itamaraty, Silveira não deixou de manifestar o sentimento de injustiça que lhe acometia ao ver-se retratado pela imprensa nacional360. O seu instinto de autopreservação levou-o, inclusive, a preparar um discurso propositadamente complexo 359 Ibid. Discurso de Silveira por ocasião da solenidade de transmissão do cargo de Ministro de Estado ao Embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro, 15 de março de 1979. In: BRASIL. Resenha de Política Exterior do Brasil. Brasília: MRE. n. 20. 1979. p. 39-44. 360 102 para finalmente sair da Casa que chefiara, durante um lustro, sem o constrangimento da crítica361. Dias depois, o governo do General Figueiredo assumia e com ele mudava-se o rumo das relações com a Argentina362. Em 10 de outubro de 1979, um acordo tripartite era finalmente alcançado com a forma desejada por Buenos Aires e o conteúdo propugnado por Brasília, dando início à fase de recomposição do eixo bilateral363. 4.5. Os Estados Unidos, última fronteira da cordialidade oficial Conforme apontado anteriormente, além de incluir a tolerância em relação ao discurso argentino, a busca de faixas de coincidência com Buenos Aires e a inclusão dessa capital nas iniciativas internacionais do Brasil, a cordialidade oficial da política brasileira para a Argentina consistia na promoção de bons ofícios para dar fluidez às difíceis relações entre o vizinho ao sul e os Estados Unidos. A negação do princípio segundo o qual a promoção do diálogo argentinoestadunidense facilitava a atuação do Brasil na América do Sul ocorreu sistematicamente ao longo do governo Geisel. Em um primeiro momento, quando ainda gozava de alguma capacidade de diálogo propositivo com o Departamento de Estado, Silveira não fez nenhum esforço para chamar a atenção de Kissinger para a situação argentina. O secretário norte-americano, assim como seu colega brasileiro, tinha uma visão negativa do país austral e diminuiu-lhe a importância ao longo de toda sua carreira nos governos de Nixon e Ford364. Mais tarde, findo o governo Ford, quando as relações brasileiro-estadunidenses atingiam seu ponto mais dramático, a promoção de bons ofícios entre seus dois eixos principais deixou mesmo de ser uma possibilidade para o Itamaraty. A minguante qualidade do relacionamento entre Brasília e Washington, durante os anos Carter (19771980), impediu que a primeira buscasse facilitar o diálogo entre o Norte e o Sul do 361 Depoimento, cassete n. 2, lado A, 15 maio 1979. Essa orientação já está esboçada de forma muito discreta no discurso de posse do ministro Saraiva Guerreiro em 15 de março de 1979. BRASIL. Resenha de Política Exterior do Brasil. Brasília: MRE. n. 21. 1979. p. 8. 363 O texto do acordo encontra-se em BRASIL. Resenha de Política Exterior do Brasil. Brasília: MRE. n. 23. 1979. p. 139-141. Para uma análise que interpreta o acordo como um compromisso que reflete as posições históricas de ambas as partes, ver LIMA, M. R. S. de. Op. Cit. p. 404. 364 Para Kissinger, a Argentina fazia parte do grupo de países – junto à Venezuela e ao Peru – que sempre buscavam oportunidades para constranger os Estados Unidos. Diferentemente, Brasil e Colômbia exploravam as oportunidades de cooperação com Washington. Ele ainda afirma somente haver conhecido a Argentina e seu povo depois da democratização de 1983. Até então, a falta de atenção que prestara ao país austral era devida ao clima de guerra civil que lá se vivia, ao fato de o país ser um dos mais “dramáticos” do mundo e de os argentinos acreditarem ser menos latinos do que realmente são. KISSINGER, H. Anos de Renovação. Rio de Janeiro: UniverCidade e Topbooks, 2001. p. 774 e 736. 362 103 Hemisfério e que a segunda aproveitasse a intermediação brasileira na realização de seus interesses na região. 4.5.1. Argentina, Brasil e Henry Kissinger O mundo da Guerra Fria apresentava sinais claros de mudança em 1973. Diante da comoção pública norte-americana pelo desastre do Vietnã, Kissinger provocou um choque inédito na condução da política externa dos Estados Unidos: declarou vitória no campo de batalha asiático e bateu em retirada. Essa operação, que poderia efetivamente fragilizar os interesses norte-americanos em nível global, ocorreu pari passu ao desenvolvimento, em Washington, de uma nova proposta de arranjo para a estabilidade internacional. Assim, os acordos de cessar-fogo de Paris (1973), selavam um mundo no qual a contenção do comunismo soviético perdia seu caráter ideológico e confrontacionista para transformar-se em uma técnica de administração cooperativa de conflitos. Na base desse esquema, Kissinger vislumbrava um arrojado programa de alianças com potências regionais capazes de ser instrumentais aos interesses de Washington em todo o globo. O Secretário de Estado, que como Assessor de Segurança Nacional de Nixon assistira ao rotundo fracasso de seus projetos pessoais de multilateralização de relações com a Europa Ocidental (Ano da Europa365) e as Américas (Novo Diálogo366), era cada vez mais cético em relação aos grandes foros multilaterais367. Era nesse contexto que o Brasil entendia ocupar um lugar de destaque. O interesse de Geisel por expandir sua capacidade política e econômica na cena internacional poderia fazer dele um candidato a ocupar posição de responsabilidade em uma nova estrutura multilateral e descentralizada de relações internacionais. Esse novo modelo substituía o 365 Em abril de 1973, Kissinger discursou publicamente sobre os desafios da aliança atlântica entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental, chamando para redefinição dos termos do debate no intuito de fortalecer a posição de Washington no esforço de détente. Contudo, a reação da França e da Alemanha, que chegavam finalmente ao momento de poder utilizar suas diplomacias do pós-Segunda Guerra Mundial para influenciar a dinâmica entre as duas superpotências, levou ao fracasso do projeto kissingeriano. KISSINGER, H. Years of Upheaval. London: Phoenix Press. 2000. p. 128-194. 366 Assim como com a Europa, Kissinger tentou sem sucesso promover o diálogo com as nações hemisférias em nível multilateral. Dois dias depois de prestar juramento como Secretário de Estado, em discurso perante a Assembléia Geral da ONU (24 setembro 1973), ele lançou a proposta do “Novo Diálogo”. A iniciativa fracassou devido às discordâncias entre os próprios países da região sobre o papel dos Estados Unidos naquela conjuntura e ao fato de alguns deles tentarem utilizar essa oportunidade para pressionar Washington a respeito de Havana. A retirada da proposta foi imediata e está sintetizada em um relatório do Departamento de Estado que afirmaria: “O fato político dominante é que os Estados Unidos ainda são o único país do hemisfério capaz de evocar a unidade regional – contra si próprio”. KISSINGER. Anos…, p. 727-756. 367 KISSINGER. Anos…, p. 753. Assim, para a Europa, o Kissinger de Ford passou a apostar na estratégia de provocar consensos mediante o debate sobre a energia – e a conseqüente contraposição de interesses europeus a asiáticos – em encontros econômicos anuais de primeiro nível. Nas Américas, verteu suas energias para o diálogo bilateral, esquema no qual o Brasil seria um parceiro privilegiado. KISSINGER. Anos…, p. 759 e 761. 104 esquema declinante do pós-guerra, que assentara a estabilidade em uma clivagem LesteOeste368. A agenda internacional migrava rapidamente do embate calcado em ideologias antagônicas e irreconciliáveis para a formação de uma ordem econômica capaz de ressaltar faixas de coincidência entre o Norte industrializado e o Sul subdesenvolvido. A denúncia do Egito dos seus tratados com a União Soviética, o restabelecimento de relações diplomáticas entre Índia e China, assim como o tratado de paz e amizade entre essa última e o Japão, conformavam o espírito da época: havia novas oportunidades internacionais para aqueles que soubessem aproveitar a flexibilização da rígida ordem bipolar. O espaço para a criatividade externa, fenômeno típico de uma época de rápidas mudanças, ganhava fôlego extra naqueles países que experimentavam veloz crescimento econômico e industrial. Era uma época de “milagres” na qual a luta pela reestruturação do sistema internacional era emancipatória. A atuação do Brasil em parceria com os Estados Unidos dependia da recuperação de um diálogo bilateral que se encontrava, já em meados da década de 1970, em vias de franca deterioração. A participação daquele país no perfil da economia brasileira e interesses bilaterais cada vez mais desencontrados contribuíam para a criação de uma agenda. Geisel centrou sua resposta a esse constrangimento na redefinição do vínculo com Washington, dando ênfase a um processo de gradual autonomia decisória iniciado no decênio de 1950369. Assim, a mutação do relacionamento brasileiro-estadunidense foi estruturada em torno da busca de eixos alternativos de relacionamento políticos e econômicos, diversificando as parcerias do país, notadamente os poderes da Europa Ocidental370. As visitas de alto perfil que Geisel realizou a Alemanha, França, Inglaterra e Japão foram conduzidas nesse contexto. Além disso, o perfil das votações brasileiras na Assembléia Geral das Nações Unidas tendeu a migrar para posições condenadas pelos Estados Unidos, com destaque para assuntos referentes ao delicado balanço de interesses no Oriente Médio. A participação revigorada do Brasil nos países africanos de língua portuguesa – especialmente por ocasião das independências de conotação socialista em Angola, Guiné 368 Ver opiniões de Geisel a esse respeito em D’ARAÚJO; CASTRO. Op. Cit., p. 336-338. Para as de Silveira, Depoimento, cassetes n. 1, lado B, 10 maio 1979, e n. 3, lados A e B, 15 maio 1979. 369 LESSA, A. C. A vertente perturbadora da política externa durante o governo Geisel: um estudo das relações Brasil-EUA. Revista de Informação Legislativa. Brasília. 35 (137). 1998. p. 70. 370 LESSA, A. C. Brasil, Estados Unidos e Europa Ocidental no contexto do nacional-desenvolvimentismo: estratégias de diversificação de parcerias (1974-1979). 1994. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Brasília. p. 35. 105 Bissau e Moçambique – chegou mesmo a ir de encontro com a orientação do Departamento de Estado371. O governo Geisel apostava contra o cerne da estratégia internacional do golpe de 1964, qual fosse o alinhamento automático aos Estados Unidos e a atuação como potência delegada de Washington nos trópicos. A modificação qualitativa do diálogo com esse país era a forma que o Brasil encontrava para dialogar com um hegemon que mostrava claros traços de fraqueza e mostrar aos outros países do mundo que o Brasil tinha condições econômicas e políticas de ocupar um lugar privilegiado no concerto das nações. No começo de 1976, Kissinger visitava o Brasil na tentativa de reforçar o diálogo, para o que lançou mão de um memorando de entendimento que tinha por objetivo ser o instrumento central da resolução consensual de divergências políticas e econômicas entre os dois países, além de gerar um grau de intimidade entre os dois chanceleres sem precedentes na história do Brasil ou das relações entre Estados Unidos e América Latina372. Em sua declaração perante congressistas norte-americanos, para justificar a assinatura de um instrumento dessa natureza com o Brasil, ele afirmava: “O Brasil está emergindo como uma grande potência, com interesses e responsabilidades internacionais mais amplos. Não somos nós quem conferimos essa qualidade ao Brasil e sim sua própria realidade”. Em carta a Geisel, o presidente norte-americano Gerald Ford reforçava o argumento de seu ministro ao assegurar que: “O Brasil e os EUA têm compartilhado, de há muito, pontos de vista e objetivos comuns no mundo, e nossos interesses não foram nunca tão próximos quanto o são hoje”373. Com o Brasil, o chefe da diplomacia americana pretendia estabelecer um relacionamento especial que servisse de modelo para os outros países da região, o que era possível, segundo ele, porque a diplomacia brasileira acreditava que estava atravessando uma evolução internacional significativa e agora poderia ter, efetivamente, interesses globais de monta. Nesse contexto, o Secretário de Estado entendia que Silveira diferia substancialmente dos colegas latino-americanos, que se sentiam obrigados a alternar as concordâncias ocasionais com os EUA com desafiadores gestos que denotassem certa impermeabilidade às tentativas americanas de exercer a hegemonia374. O Brasil não deixou de aproveitar essa conjuntura para oferecer apoio concreto ao Departamento de Estado na resolução de contenciosos e promoção do diálogo com Bolívia, Paraguai e Uruguai. O fato de não o fazer com a Argentina evidencia que Brasília 371 Depoimento, cassete n. 8, lado B, 24 maio 1979. RICÚPERO. Op. Cit. p. 50. 373 FORD e Geisel garantem amizade. O Estado de S. Paulo, 15 de agosto de 1974. 374 KISSINGER. Anos…, p. 763, 765 e 766. 372 106 havia decidido desvincular-se de sua prática tradicional no momento histórico em que a mesma poderia ter surtido maiores efeitos375. A reação dos argentinos à evolução das relações brasileiro-estadunidenses foi certeira. O chanceler argentino manifestou sua indignação pela preferência norte-americana no Cone Sul, e chegou a sugerir ao Secretário Adjunto Rogers que Buenos Aires se acalmaria se o Secretário de Estado promovesse instrumento similar com eles, o que nunca aconteceu – assim como a sempre protelada visita de Kissinger àquela capital. Além disso, Vignes, que seria anfitrião de um encontro hemisférico na capital portenha em março de 1975, afirmou que convidaria Cuba a participar, movimento que terminou por inviabilizar a reunião376. Porém, o memorando de entendimento entre Brasil e Estados Unidos está longe de haver instaurado uma nova era nas relações bilaterais. Gerou desconforto entre os demais países da região377 e seus resultados foram limitados, enterrando definitivamente o arco de relações privilegiadas que vinculou as duas nações desde princípios de século378. 4.5.2. A agenda de Jimmy Carter A discórdia entre o Brasil e os Estados Unidos cresceu dramaticamente com a posse de Carter. O principal tema a turvar as relações foi a decisão brasileira de encontrar na Alemanha Ocidental o parceiro habilitado a dotar o país com as usinas de Angra dos Reis e com o ciclo completo de tecnologia nuclear, cooperação técnica negada uma vez pela americana Westinghouse. Para Washington, o acordo teuto-brasileiro afetava sua estratégia global porque dotava tecnicamente um país que, além de periférico, não era signatário do Tratado de Não-Proliferação e resistia-se abertamente a sê-lo. Além disso, resultaria na entrada de mais um vendedor em um mercado altamente cartelizado, perturbando as previsões comerciais norte-americanas para o setor379. Em meados da década de 1970, a seara dos direitos humanos e da eliminação do perigo de proliferação nuclear apresentava-se como a grande oportunidade de o partido democrata norte-americano voltar ao poder em uma sociedade cansada do denso clima que pairou sobre a Casa Branca de Nixon. Uma nova política exterior renovaria a confiança no governo após as crises desencadeadas por Vietnã, Watergate e a série de abusos cometidos 375 Ibid., p. 767-768. Ibid., p. 752. 377 Especialmente na Argentina e na Venezuela. Ver os jornais argentinos La Opinión e La Nación, Buenos Aires, 5 mar. 1976. 378 LESSA. Brasil, Estados Unidos…, p. 57. 379 LESSA. A vertente…, p. 77. 376 107 pela comunidade de informação dos Estados Unidos – que incluía desde complôs internacionais contra governos estrangeiros até a vigilância ilegal de cidadãos americanos. Durante sua campanha para a Presidência, Carter acusara Ford de ter sido incapaz de fazer o Brasil desistir do acordo com Bonn, e anunciava que, se eleito, trabalharia contra a proliferação de armas atômicas, começando por um apelo a todas as nações no sentido de que adotassem uma moratória para a venda de usinas de enriquecimento ou reprocessamento de urânio. De fato, apenas assumiu o governo, Carter enviou o secretário de Estado Vance e o número dois da diplomacia americana, Warren Christopher, a Bonn e a Brasília para evitar que o acordo que daria início à construção das usinas nucleares brasileiras fosse efetivamente implementado380. A nova agenda do Departamento de Estado também incidia sobre o Brasil na questão dos direitos humanos. Desde a Revolução dos Cravos em Portugal, que instaurou uma onda de democracia em todo o mundo em 1973, o liberalismo era aplicado às relações externas daquele país: um novo corpo de leis vedava a ajuda econômica ou militar a países que violassem sistematicamente os direitos humanos. Seria esse o principal eixo de desencontro dos Estados Unidos com toda a América Latina. No quadro dessa nova política, a América Latina ganhava papel exclusivo. A região serviria como “tubo de ensaio” para testar a promessa de Carter de implementar um diálogo “sincero” Norte–Sul, cujo ponto central foram as negociações para um tratado sobre o Canal do Panamá, o compromisso com os direitos humanos no Cone Sul e no Caribe e a intenção de melhorar as relações com Cuba381. Em meio às tensões provocadas pela postura norte-americana face ao Acordo, o Conselheiro para Assuntos Políticos da embaixada americana em Brasília encaminhou ao Itamaraty uma cópia do relatório sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, que tinha por fim orientar as decisões do Congresso americano sobre a ajuda militar ao país no montante de 50 milhões de dólares para o biênio 1977-78. Geisel reagiu intempestivamente denunciando o acordo militar brasileiro-estadunidense de 1952, que tinha pouco significado material382 e estabelecia cláusulas anacrônicas (como a de que os mapas do governo brasileiro seriam submetidos à embaixada americana). A decisão presidencial contou com o maciço apoio da imprensa e dos formadores de opinião, gerando uma situação curiosa: pela 380 O que necessariamente atingiria os acordos Alemanha-Brasil e França-Paquistão. BANDEIRA. Relações Brasil-EUA..., p. 131. 381 ARMONY. La Argentina, los Estados Unidos...p.73. 382 KRAMER, P. As relações militares Brasil–Estados Unidos. Política e Estratégia, v.4, n. 1, 1986, p. 47. 108 primeira vez na história do regime, Forças Armadas e oposição convergiam em um tema candente da agenda pública383. As relações de Carter com a Argentina não foram menos traumáticas. As posições que os dois países mantinham eram abertamente conflituosas em assuntos como política nuclear, direitos humanos e, especialmente, na política argentina de manutenção de estreitos laços comerciais com a União Soviética384. Porém, a leitura que a Casa Rosada fazia do mundo era substancialmente distinta da do Palácio do Planalto. Em Buenos Aires, a proclamação da República Islâmica do Irã, a invasão das tropas soviéticas no Afeganistão, a vitória sandinista na Nicarágua e a multiplicação dos preços dos barris de óleo eram entendidos como um recrudescimento das relações internacionais. Para a diplomacia argentina, cabia defender e ressaltar o caráter ocidental da atuação diplomática, embora isso não impedisse ao governo somar-se ao coro dos não alinhados. O pomo da discórdia entre Argentina e os Estados Unidos era a questão dos direitos humanos. A intensidade das pressões puseram-na no banco dos réus de forma tão radical que seu isolamento somente seria revertido após a dramática passagem para a democracia em 1983. Em julho de 1977, catorze meses após o golpe de Estado que instaurara o governo da Junta Militar em Buenos Aires, o Congresso americano aprovava a proibição de venda de armas para aquele país com base na denúncia da violação sistemática dos direitos humanos por parte do Estado argentino385. Na visita que fez à capital portenha em 1978, o Secretário de Estado Vance levou consigo uma lista de sete mil “desaparecidos”, que foi entregue em mãos ao presidente Videla. No encontro, Vance informara ao general que uma visita da Comissão InterAmericana para Direitos Humanos seria muito bem vista em Washington. A negativa argentina em receber a Comissão resultou em um novo veto norte-americano, dessa vez contra o empréstimo do Eximbank às autoridades portenhas. A primeira cartada de Videla para reverter essa tendência mostrou-se contraproducente. Em troca da liberação dos créditos do Eximbank, o governo argentino convidou a Comissão Interamericana a visitar o país, sob o argumento de que “não havia 383 A única resistência militar à denúncia do Acordo veio da Marinha, que se beneficiava economicamente do entendimento na questão da compra de barcos. D’ARAÚJO; CASTRO. Op. Cit., p. 350. 384 PUIG. Op. Cit., p. 39. 385 Para Rogelio García Lupo, a política de direitos humanos de Carter beneficiou sobremaneira o tráfico de armas na Argentina. Segundo o autor, desde aquele momento a única preocupação dos traficantes foi garantir que as violações aos direitos humanos continuassem sendo tão freqüentes que a legislação norte-americana fosse revogada. LUPO, R. G. Diplomacia secreta y rendición incondicional. Buenos Aires: Nueva Información. 1983. p. 184. 109 nada a temer”. Porém, a visita revelou uma situação muito mais drástica do que aquela geralmente aceita no próprio país386. O embargo de armamentos, a suspensão dos créditos e a denúncia da violação dos direitos humanos nos foros multilaterais fizeram com que o presidente Videla lançasse mão de outra ação diplomática, em prol da neutralização dos mecanismos das Nações Unidas de proteção internacional dos direitos humanos, e novamente fracassasse. Desta vez, a delegação argentina perante as Nações Unidas, em associação aberta com a delegação soviética387, apostava contra a maquinaria onusiana de direitos humanos e tentava inviabilizá-la. Essa última era defendida pela diplomacia de Carter com firmeza, o que terminou por fortalecer e consolidar a vertente dos direitos humanos na estrutura do direito internacional contemporâneo388. É importante ressaltar que a posição norte-americana estava longe de ser clara. A complexidade das relações entre o governo norte-americano e a Junta é bem ilustrada pelo episódio da renúncia da subsecretária de Estado para direitos humanos, Patricia Derian. Derian teria tomado conhecimento de que os militares e agências de inteligência norteamericanas elogiavam as Forças Armadas argentinas por seu sucesso na luta contra a insurgência de esquerda. “Por meio destas agências – declarou a subsecretária –, o governo dos Estados Unidos envia uma perigosa mensagem dupla. Se insistir nisso, toda a nossa política de direitos humanos será subvertida389”. Anos depois, a política exterior de Ronald Reagan (1981-1989) valorizaria a atuação da comunidade argentina de informações em outros países da região, alimentando a percepção de que o papel internacional da Argentina era preservar o continente de possíveis “cubanizações”. Ao mesmo tempo, congelava a vertente de direitos humanos do cálculo estratégico norte-americano para a região, incentivando a linha dura argentina. Esse refluxo era nitidamente antitético à crescente denúncia internacional da violação dos direitos humanos e à publicidade garantida pelas Madres de Plaza de Mayo nos principais foros internacionais. O problema ficaria estanque até o colapso do regime, após o conflito das Malvinas. Nessa nova conjuntura, o presidente Roberto Eduardo Viola (1981) e o chanceler Camilión visitariam os Estados Unidos e estabeleceriam laços 386 A reação do governo argentino revela as inconstâncias da atuação diplomática daquele país. O chanceler W. Pastor disse em entrevista a El Clarín (26 de Março, 1980): “Não aceitaremos jamais que venha nenhuma outra comissão investigar nada, porque não há nada para investigar por aquí [minha tradução]”. Apud. RUSSELL Op. Cit., p. 108. 387 Paradoxalmente, no auge da ditadura argentina de direita, a União Soviética era o mais importante destino das exportações argentinas (37,5% em 1981). RAPOPORT, Mario. La posición internacional de la Argentina y las relaciones argentino-soviéticas. PERINA; RUSSEL. Op. Cit.,171-208. 388 Sobre o tema, ver GUEST, I. Behind the Disappearances: Argentina’s Dirty War Against Human Rights and the United Nations. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1990. 389 Apud. ARMONY. Op. Cit., p. 85. 110 próximos por meio da participação argentina nos golpes de Estado anticomunistas que tiveram lugar em Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Honduras e Bolívia390. Essa configuração de forças foi reforçada, ainda, por outro elemento central da política internacional da década de 1980. Antes mesmo da ascensão de Reagan à Casa Branca, em janeiro de 1981, uma série de fatores emprestou flexibilidade à política do Departamento de Estado para a Argentina. As crises do Irã, de Angola, as revoluções marxistas de Nicarágua e Granada, a cúpula dos Países Não Alinhados em Havana e a movimentação soviética no Afeganistão demandaram a atenção do gabinete democrata. Some-se a crítica sistemática que alguns especialistas em política exterior faziam à administração Carter391. Já nos primeiros meses de governo, Reagan deveria fazer frente à humilhação provocada pelo aiatolá Khomeini, à postura arrogante de Castro, à superação comercial do Japão e à vantagem dos soviéticos em armamentos. Dessa forma, é possível compreender que, às vésperas da invasão às Ilhas Malvinas em 1982, alguns militares argentinos de primeiro escalão acreditavam que contariam com o apoio de setores fundamentais do establishment norte-americano, que nem sempre se submetiam às orientações emitidas a partir da Casa Branca. Assim como ocorrera durante a gestão de Kissinger, o anúncio da viagem de Carter ao Brasil e à Venezuela gerou certa frustração na Argentina392. Isso certamente era intensificado pelo fato de Videla estar orientado para o diálogo enquanto Geisel respondia aos sinais de Washington com pouco entusiasmo. Foi justamente no acirramento do desconforto argentino-brasileiro da década de 1970 que Carter assentou seus esforços para reverter as políticas nucleares de ambos os países. 4.5.3. O papel catalisador de Cyrus Vance A partir do dia 30 de novembro de 1977, o diálogo entre Brasília e Washington ganhava um novo componente e os incipientes passos da coordenação argentino-brasileira no campo nuclear, um definitivo alento. Em visita oficial ao Brasil, o secretário Cyrus Vance encontrara Geisel e Silveira no Palácio do Planalto para tentar, sem apresentar oferta alternativa, demovê-los da idéia de prosseguir com o programa de autonomia nuclear em parceria com a Alemanha. Finda a 390 Cf. Ibid. Kissinger criticara Carter por não avançar a questão dos direitos humanos em países comunistas e sim fazê-lo frente a aliados tradicionais dos Estados Unidos no continente americano. Ver The Economist, 1 April 1978. p. 63. 392 Legação em Buenos Aires ao MRE, informação confidencial, 8 de fevereiro de 1978, n. 116, AHMRE, caixa 159. 391 111 reunião, na qual não houve avanços, Vance e Silveira se retiraram para continuar o intercâmbio em nível técnico no Itamaraty. Horas mais tarde, Geisel telefonaria para seu chanceler com uma notícia surpreendente: o secretário de Estado havia esquecido, sobre a mesa, documentos oficiais norte-americanos. A hipótese de que o diplomata tivesse errado propositadamente foi descartada por Silveira ao receber cópia da documentação: tratava-se do guia detalhado de negociações que o Departamento de Estado preparara para seu secretário o qual, tecendo considerações sobre política interna brasileira, sintetizava a estratégia de direitos humanos de Carter para o Brasil e orientava a negociação sobre a questão nuclear393. O elemento mais importante do documento era a forma pela qual os Estados Unidos concebiam a rivalidade argentino-brasileira. A lógica apresentada era a seguinte: naquele momento, Washington estava em condições de levar a Argentina a ratificar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e a aceitar salvaguardas em seu programa nuclear em troca da provisão de assistência técnica. Os argentinos não somente cooperariam com os Estados Unidos como também estariam dispostos a adiar a construção de sua usina de reprocessamento nuclear se o Brasil o fizesse. No documento de Vance, a lógica política pregava que a aproximação argentinoestadunidense geraria nervosismo no Brasil, pois significaria o reconhecimento e o beneplácito do hegemon ao status nuclear da Argentina. Assim, a diplomacia americana esperava (1) poder somar-se ao acordo teuto-brasileiro para, tornando-o tripartite, definir salvaguardas consistentes com seus interesses ou, alternativamente, (2) celebrar um acordo tripartite entre Argentina, Brasil e Estados Unidos para o desenvolvimento da energia nuclear sob um esquema de segurança regional. Na interpretação de Silveira, essa documentação era crucial por apresentar dois lados obscuros da política externa norteamericana. Primeiramente, apresentava uma contradição essencial: caso a Argentina aderisse ao TNP, a ajuda técnica norte-americana iria por água abaixo porque o mesmo exclui toda possibilidade de reprocessamento livre da vigilância internacional. Em segundo lugar, essa questão é apresentada no documento como se fosse motivo de inquietação para o Brasil, quando na realidade, se a Argentina procedesse dessa maneira, estaria pondo em xeque a política do próprio Carter, para quem era crucial inviabilizar a disseminação da capacidade nuclear no mundo em desenvolvimento. O documento era, segundo Silveira, claramente irresponsável, porque fomentava problemas regionais ao procurar desestabilizar o relacionamento entre dois países latino393 Depoimento, cassete n. 10, lado B, 29 maio 1979. 112 americanos. Mandando um claro sinal a Vance, Silveira solicitou ao serviço de cerimonial que entregasse o original do documento, em envelope da Presidência da República, no quarto de hotel do Secretário de Estado394. Não somente o secretário se furtaria de tocar no tema no futuro, como a partir de então todos os pedidos de Silveira seriam prontamente atendidos pelo Departamento de Estado395. A postura de Vance deixou claro para a diplomacia brasileira uma conclusão que viria a estar no cerne do projeto de integração regional: a pressão norte-americana em torno da matéria nuclear propiciava políticas comuns entre Brasil e Argentina396. Naturalmente, o governo de Geisel resistiu a avançar nesse campo. A coordenação nuclear no Cone Sul, contudo, foi um dos principais motores das políticas externas de Figueiredo, Sarney e Collor. 4.6. Conclusões Mediante a mobilização da imprensa brasileira, a diplomacia argentina conseguiu fazer de Itaipu matéria passível de negociação. O entendimento trilateral pela utilização do rio Paraná foi protelado sistematicamente, ao longo do governo Geisel, devido às inconsistências da política externa de Buenos Aires e à intransigência da brasileira. A solução final, que somente chegou sob a gestão de Figueiredo, consagrou um compromisso no qual o Brasil atingira seus interesses em um formato proposto pela Argentina. Ou seja, a dinâmica em que Silveira e Camilión se engajaram resultou em uma fórmula que consagrava ganhadores e perdedores, mas preservava as formas de um compromisso. Nesse ínterim, a concepção da sociedade brasileira sobre a atuação de sua chancelaria evoluiu curiosamente: em poucos anos, o que era visto como “justo” tratamento da soberania nacional passou a ser percebido como uma injustiça imposta pela política do mais forte ao vizinho austral. A medida das possibilidades brasileiras na negociação, contudo, foi dada pela capacidade do país de articular apoios regionais, consolidar um paradigma jurídico único para as bacias do Amazonas e do Prata e pela a decisão presidencial de avançar os trabalhos de engenharia mesmo que não contassem com a legitimidade internacional que somente a Argentina poderia lhe outorgar. A diplomacia geiseliana para a questão dos rios nada tem, portanto, de obstrucionista. Diferentemente de 394 Depoimento, cassete n. 10, lado B, 29 maio 1979 e Silveira a Geisel, informação secreta exclusiva ao Senhor Presidente da República, Brasília, 30 de novembro de 1977, n. 287, AAS. CPDOC/FGV. 395 É fundamental apontar que ao longo deste estudo não foram encontrados indícios de que a diplomacia brasileira tenha mencionado, formal ou informalmente, o “episódio Vance” a suas contrapartes portenhas. 396 GÓES. O Brasil…,p. 157. Porém, Brasil e Argentina não se associaram na resistência ao regime internacional de proteção da pessoa humana durante seus respectivos regimes militares. 113 Raul Fernandes, Silveira utilizou o “compasso de espera397” como um meio para testar as forças da nação face à Argentina, e não como um fim em si. Por outro lado, a política cambiante de Washington para a América Latina – assim como as inusitadas respostas dos países da região aos desígnios da potência hemisférica – abriu espaços que Geisel e Silveira aproveitaram para intensificar a reversão de uma tendência central do tradicional relacionamento brasileiro-argentino, qual fosse a aproximação da Argentina aos Estados Unidos. Se por um lado a gestão de Kissinger reforçou a linha de atuação de Geisel em relação à Argentina, por outro a de Vance fez saltar aos olhos o potencial do entendimento sul-americano. Coube, no entanto, a Figueiredo encerrar o período de desgaste e retomar o diálogo com Buenos Aires em bases radicalmente distintas mediante uma aposta de alto perfil que, ao aproveitar a conjuntura internacional em benefício próprio, ofereceu ao Brasil um projeto de presença regional do qual a Argentina era a peça-chave. 397 CERVO. Relações internacionais…, p. 134 114 Capítulo V O legado: a parceria estratégica com a Argentina A instalação do governo Figueiredo criou as condições para a reforma geral da política brasileira em relação à Argentina: era necessário definir um lugar para o vizinho mais importante nas prioridades diplomáticas do país depois do fiasco que constituíra a demorada negociação dos rios internacionais. A restauração do relacionamento bilateral em um novo ponto de equilíbrio aceitável a ambas as nações demandou um programa intenso de cooperação que se estendeu ao longo de toda a década de 1980. É nesse período que a diplomacia brasileira abriu o caminho para a cooperação bilateral em matéria militar, nuclear e comercial, mecanismos que prepararam as bases para um ambicioso projeto cooperativo. Mostra-se que a resposta brasileira aos desafios no quadrante sul não deixou de ser formulada no contexto da busca, iniciada na década de 1960, de maior grau de autonomia política vis-à-vis o hegemon norte-americano. Se a radicalização do desentendimento com Washington foi alimentada por Geisel no intuito de galgar posições negociadoras com aquela capital, a administração da agenda ao Norte, com Figueiredo, e com Sarney em seguida, passou efetivamente pela gestação de um pólo de entendimento político em alto nível com a Argentina. Contudo, a natureza e o escopo da parceria estratégica com o vizinho são substancialmente diferentes daquelas presentes durante os anos da cordialidade oficial. Com efeito, trata-se de um novo paradigma de relacionamento com Buenos Aires, originado diretamente da conjuntura crítica que marcou o cálculo estratégico brasileiro para aquele país desde o governo de Médici. A partir do novo padrão inaugurado por Figueiredo, em 1979, estavam dadas as bases materiais para a aproximação eminentemente comercial que vingou na primeira metade do decênio de 1990. Chegava-se então ao ápice de um projeto de integração que em poucos anos seria testado pelas forças da economia internacional, das escolhas domésticas e das incertezas de ambas as diplomacias. 5.1. A gestação do legado 115 Sete meses depois de assumir a presidência, Figueiredo assinava o acordo tripartite que selava o confronto dos dois países pelo aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná. O instrumento associava definitivamente Itaipu a Corpus398 e, embora consagrasse as preferências técnicas do Brasil, tinha a forma reclamada pela Argentina. Esse fenômeno não é de pouca importância, tendo em vista que a aparente vitória portenha terminou por alçar Camilión à chancelaria, entre 1981 e 1982, fazendo dele um ator importante no projeto de integração. O sucessor de Silveira no Itamaraty foi Ramiro Saraiva Guerreiro, que ocupara a secretaria-geral do ministério durante a gestão de Geisel. Apesar de haver indícios de desavenças entre os dois diplomatas, Guerreiro foi escolhido porque seguiria a orientação inaugurada por Silveira, segundo o novo mandatário teria afirmado399. Todavia, a política externa do novo governo procedeu a realizar ajustes relevantes, sempre executados de forma a preservar a imagem de Silveira, apesar das memórias de Guerreiro insinuarem inúmeras divergências com o pensamento de seu antecessor400. O respeito a Silveira está evidenciado na curiosa indicação para a chefia da embaixada em Washington, capital na qual era conhecido como a “língua mais ousada da América Latina”401. A intensidade outorgada pelo novo mandatário brasileiro à aproximação com o vizinho constituiu o primeiro mecanismo a dar origem ao projeto de integração. O perfil personalista das viagens presidenciais402 inaugurava uma era há tempos reclamada pela imprensa brasileira e necessária para marcar uma ruptura clara com o passado recente, gestando assim uma atitude pró-ativa em todos os níveis do eixo Brasília–Buenos Aires. Devido ao fato de que visitas em nível de chefe de Estado raramente são ocasiões de negociação, e sim gestos que confirmam ou reafirmam linhas gerais de ação diplomática, as visitas de Figueiredo revelam o comprometimento brasileiro com uma nova postura. Essa orientação deu vida ao segundo mecanismo, qual fosse a manutenção de relações íntimas em que pesasse a discórdia ideológica dos dois regimes militares em temas 398 A matriz que vincula cotas de regente à produção energética é apresentada em LANÚS. Op. Cit., p. 321. Depoimento, cassete n. 17, lado A, 7 jun. 1979. 400 GUERREIRO, Ramiro S. Lembranças de um empregado do Itamaraty. São Paulo: Siciliano, 1992. p. 93-95. Para uma interpretação sobre as continuidades existentes nas atuações de Gibson Barboza, Silveira e Guerreiro, a primeira geração de funcionários da Casa a ocupar o cargo de ministro sucessivamente, ver CERVO; BUENO. A política externa…, p. 81. 401 TCHERKASKI, O. Azeredo da Silveira, gran detractor de Carter, será embajador de Brasil en Estados Unidos. La Opinión, Buenos Aires, 30 abr. 1979, s.p. Segundo esse artigo, fontes diplomáticas norteamericanas teriam afirmado que, caso Silveira mantivesse a acidez, as relações brasileiro-estadunidenses deixariam de ser resolvidas na embaixada brasileira em Washington e passariam para a embaixada dos Estados Unidos em Brasília. 402 A mobilização dos dois governos ao tempo das viagens de Figueiredo à Argentina, assim como as demonstrações de admiração da população argentina nas ruas e nos eventos públicos, relembra os picos de entendimento bilateral dos únicos dois mandatários brasileiros a visitar oficialmente o país vizinho ao longo do século XX: Campos Sales (1902) e Getúlio Vargas (1935). GUERREIRO. Op. Cit., p. 97 e 98. 399 116 sensíveis como o golpe de Estado na Bolívia, em 1980, e a política norte-americana para a América Central. No entanto, a quantidade dos instrumentos assinados naquelas ocasiões, assim como o compromisso político e pessoal do presidente com os argentinos, não atravessou o período sem testes significativos. As pressões norte-americanas no tema da proliferação nuclear e a malfadada invasão argentina às Malvinas puseram o Brasil face a constrangimentos definidores de sua atuação externa. Os resultados concretos desse processo, quais fossem a gestação de um sistema de medidas de confiança mútua e o apoio aos apelos de Buenos Aires durante o conflito argentino-britânico, resultaram no desenvolvimento de um clima de entendimento que daria vida aos protocolos bilaterais de 1986, os quais inauguraram uma inovadora parceria. Ao desafiar a incipiente política de Figueiredo de aproximação à Argentina, esses eventos terminaram por fortalecê-la. 5.1.1. A cooperação nuclear As fontes da coordenação de políticas de não-proliferação entre os dois países datam dos anos sessentas, quando a doutrina de segurança na América Latina propugnava a nacionalização dos meios de defesa e o domínio de tecnologias sensíveis para esse fim403. Mesmo durante a conjuntura crítica do relacionamento bilateral, a possibilidade da cooperação argentino-brasileira no campo nuclear esteve presente nas sociedades e nos governos404. A recusa brasileira a proceder com as propostas argentinas teria sido uma opção política de Geisel e Silveira em um período no qual era fundamental resolver o desentendimento sobre a questão dos rios internacionais antes de dar um passo adiante em outras áreas sensíveis405. Os programas nucleares de ambos os países haviam sido estruturados desde meados do século XX para gerar independência tecnológica. No caso brasileiro, a opção pela Alemanha Ocidental se dera depois do fracasso de um esboço de 403 CERVO. Relações internacionais…, p. 227-229. Na Argentina, formadores de opinião importantes advogavam pela aproximação ao Brasil no campo nuclear e defendiam abertamente o acordo nuclear teuto-brasileiro. Ver GRONDONA, M. La Opinión, 18 de diciembre de 1974; SÁBATO, J. Visión, 30 de julio 1975; La Nación, 2 de agosto 1976. O próprio Silveira recomendava a Geisel maior intercâmbio técnico de informações e experiências nucleares entre Argentina e Brasil, dado que as posições de ambos nos principais foros eram semelhantes. Para Silveira, os dois países deveriam explorar o tema politicamente para rebater as denúncias feitas em círculos internacionais de que eles competiam na construção de uma bomba nuclear. Sugere a Geisel iniciar diálogo discreto com o governo argentino para ver possibildiades de entendimento ou acordo. Silveira a Geisel, informação secreta para o Senhor Presidente da República, Brasília, 18 de julho de 1974, n. 169, AAS, 1976. CPDOC/FGV. Note-se que a embaixada brasileira em Buenos Aires reportava semelhanças potencialmente benéficas para um futuro entendimento entre os dois programas. Legação em Buenos Aires ao MRE, telegrama confidencial, n. 165, 22 de fevereiro de 1978, AHMRE, caixa 159. 405 Segundo a imprensa, havia indícios de que os argentinos tentaram celebrar um acordo já em 1977 contra a vontade do Itamaraty. Ver GUEZ, O. Correo de la Semana, Buenos Aires, 19 Setiembre 1977. 404 117 entendimento com a norte-americana Westinghouse. No argentino, a cooperação com aquele mesmo país europeu fôra buscada anos mais tarde, em 1975, como forma de esquivar o programa nacional das salvaguardas impostas pelo governo canadense, primeiro prestador de cooperação e tecnologia nuclear ao país406. Em 1980, os projetos internacionais dos Estados argentino e brasileiro convergiram em um pequeno, mas simbolicamente importante, acordo de cooperação na área de combustíveis nucleares. O mesmo incluía uma cláusula que estabelecia a coordenação sistemática de suas políticas nucleares em todos os foros internacionais. Tratava-se do início de uma união cujo objetivo era o de defender-se de um inimigo comum: o regime de não-proliferação de armamentos nucleares defendido pelos Estados Unidos407. A agenda de Reagan para a América Latina, na época, priorizava áreas de atrito (por exemplo, direitos humanos, comércio, transferência de tecnologias), ao passo em que mostrava hostilidade à autonomia das potências médias, em uma reversão da aposta externa de Nixon, para quem o fortalecimento de lideranças regionais vinculadas a Washington era o melhor antídoto contra a expansão comunista. Nas palavras de Hilton, o fim da relação especial brasileiro-estadunidense removeu as resistências a uma diplomacia integracionista em relação à Argentina408. Em 1980, portanto, a política nuclear de Washington teve um papel de catalisador de cooperação entre Argentina e Brasil. Nos anos seguintes, os dois grandes do Cone Sul intensificaram essa experiência, a ponto de criar um comitê conjunto de diálogo permanente em assuntos nucleares (1985), a sistemática e recíproca visita de chefes de Estado a instalações nucleares um do outro, a notificação bilateral prévia de anúncios nucleares significativos e a instauração da prática de trocas técnicas entre as respectivas comissões nucleares nacionais. 5.1.2. As Ilhas Malvinas 406 Entre 1973 e 1975, o governo canadense aumentou as salvaguardas impostas à tecnologia exportada para a Argentina. Em uma negociação que revela certa inconsistência na política externa canadense, o governo de Ottawa percebeu o risco implícito no programa nuclear argentino (a Argentina reexportava tecnologia nuclear para Equador e Peru, e mantinha seus laços nesse âmbito com Líbia e Índia) e optou por pagar os custos financeiros do não-cumprimento do contrato original. Em 1976, um escândalo revelou que o governo canadense teria pago 5 milhões de dólares norte-americanos a autoridades argentinas para facilitar a assinatura do acordo em 1973. Legação em Buenos Aires ao MRE, informe, 8 de fevereiro de 1978, n. 116, AHMRE, caixa 159. 407 Cf. CARASALES, J.C. De rivales a socios: el proceso de cooperación nuclear entre Argentina y Brasil. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano, 1997. 408 HILTON. The Argentine factor..., p. 49. 118 Em relação à participação brasileira durante o conflito argentino-britânico pela soberania das Ilhas Malvinas, ainda faltam estudos completos, embora muitos já indiquem certas tendências. A diplomacia e as Forças Armadas brasileiras atuaram de forma a explicitar sua simpatia a Buenos Aires ao mesmo tempo em que buscaram eliminar sistematicamente a exposição da política externa brasileira a críticas domésticas e internacionais. A primeira medida do Itamaraty foi construir um discurso suficientemente elaborado que permitisse manifestar apoio à reivindicação portenha sem com isso quebrar o silêncio sobre a opção da Junta pelas armas. Assim, a correspondência com Buenos Aires tinha uma relevante carga sentimental409. O presidente Figueiredo e seu chanceler não hesitaram em forjar uma justificativa plausível para a solidariedade que sentiam ser necessária para a Argentina naquele momento. Fizeram isso ao afirmar que, desde 1833, ano da ocupação britânica das ilhas, a corte do Rio de Janeiro manifestara seu apoio ao vizinho. Essa operação, talvez apressada410, foi mais tarde desmentida pelo historiador José Honório Rodrigues, ao evidenciar que a documentação do século XIX apenas propunha coadjuvação e bons ofícios entre Londres e Buenos Aires no intuito de resguardar o Brasil de ter que tomar partido411. Além disso, o Itamaraty apresentou prontamente um projeto de pacificação imediata ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. Descartando a possibilidade de utilizar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) para preservar a Argentina em foros multilaterais, Guerreiro insinuava ao Secretário-Geral das Nações Unidas que a participação direta daquele órgão, inclusive mediante capacetes azuis, era a saída imediata mais adequada, em seguida à qual o diálogo seria retomado em Nova Iorque412. O apoio diplomático brasileiro a Buenos Aires também teve características comerciais. Além de ocupar-se de representar os interesses argentinos em Londres, o Itamaraty utilizou portos brasileiros para mitigar o impacto das represálias comerciais européias e norte-americanas aos produtos platinos. 409 Para uma análise do discurso brasileiro no período, ver PINHEIRO, L. A omissão pragmática: a diplomacia brasileira na Guerra das Malvinas. Política e Estratégia. volume IV. s/n. outuro-dezembro. 1986. p. 591. Ver também BRASIL. Senado Federal. O Brasil e o conflito anglo-argentino: exposição do Ministro Ramiro Saraiva Guerreiro. Brasília: MRE, Senado Federal, 5 mai. 1982. p. 29. 410 Saraiva Guerreiro reconhece ter apresentado esse argumento na manhã do dia 3 de abril de 1982, quando foi acordado com a notícia da invasão das ilhas e com a de que um grupo de jornalistas já estavam presentes à espera de uma declaração. GUERREIRO. Op. Cit., p. 102. 411 RODRIGUES, J. H. O Itamarati interpreta erroneamente documento de 1833. Digesto Econômico. vol. 39. n. 293. p. 93-101. junho 1982. p. 101. 412 O Tratado condenava explicitamente as “nações agressoras”. Ver MILITAR brasileiro acha difícil acionar o TIAR. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7 abr. 1982; TIAR não é solução para Itamarati. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 abr. 1982. 119 Há indícios de que a atuação da diplomacia foi coerente com a das Forças Armadas413. A Aeronáutica não deixou de vender equipamentos a Buenos Aires, e a Marinha não cessou os exercícios conjuntos com o vizinho414, embora a falta de documentação primária disponível hoje em dia impossibilite análises exatas sobre aqueles eventos. Enfim, assim como na questão nuclear, pressões extra-regionais (a retaliação britânica à invasão Argentina e o subseqüente apoio norte-americano àquelas operações) concorreram para catalisar a cooperação argentino-brasileira. Na questão Malvinas, a diplomacia brasileira negou-se a fazer da Argentina um pária no sistema internacional depois de haver rompido o equilíbrio de forças em seu favor. Reconhecia-se, assim, a importância do vizinho para a estabilidade da América do Sul, em um movimento análogo ao de Metternich face à França de Talleyrand no século XIX, quando Paris foi incluída nos entendimentos oriundos das Guerras Napoleônicas (18001815), apesar de haver sido derrotada, em nome da legitimidade do novo ordenamento internacional. 5.1.3. A inovação de Figueiredo A escolha de Figueiredo por uma aproximação da Argentina está longe de ser uma aposta isolada. Ao contrário, insere-se em um contexto de “latino-americanização” da política externa415, que terminou por outorgar ao Brasil certa capacidade de diálogo regional imprescindível para o que terminaria sendo sua atuação nas décadas de 1980 e 1990. Ao estreitar os laços com o vizinho ao longo do decênio de 1980, a política externa brasileira estava se engajando em uma operação que era o corolário da aquisição crescente de autonomia face aos Estados Unidos. Iniciada na gestão Costa e Silva de forma sistemática, e concretizada por Geisel na mundialização dos vínculos comerciais e na estruturação de um sistema de intercâmbio político com o mundo desenvolvido, essa autonomia possibilitou a diluição das dependências comerciais do país. 413 “Os militares brasileiros apoiam a estratégia diplomática defendida pelo Itamaraty a partir da gestão do chanceler Saraiva Guerreiro, quando o Brasil se reaproximou de Buenos Aires após uma série de atritos havidos a respeito da construção de Itaipu”. CRISE não afeta relações navais Brasil-Argentina. O Globo, Rio de Janeiro, 3 abr. 1982. 414 BRASIL. Senado Federal. O Brasil e o conflito anglo-argentino…., p. 22-23. Segundo Moniz Bandeira, a Força Aérea Brasileira teria cedido aviões EMB 111 à Argentina para patrulhamento do litoral e acompanhamento da esquadra britânica, fornecendo inclusive tripulação. BANDEIRA. Estado nacional…, p. 266. 415 BARROS, A. de S.C. A formulação e implementação da política externa brasileira: o Itamaraty e os novos atores. In: MUÑOZ, H. e TULCHIN, J. (org.). A América Latina e a política mundial. São Paulo: Convívio, 1986, p. 40. Note-se que Figueiredo chegou a encontrar todos os presidentes da América do Sul. 120 Efetivamente, o governo Figueiredo teve início em um ambiente de relações brasileiro-estadunidenses ainda dramático. A resolução de Itaipu, e a regularização das relações com a Argentina, fizeram dos Estados Unidos o principal obstáculo à independência econômica e tecnológica do Brasil416. A radicalização do Departamento de Estado no conflito centro-americano, as pressões de Washington para participar do desenho de um sistema de segurança no Atlântico Sul e o contencioso com o Brasil pela questão da propriedade intelectual conformaram o quadro da rivalidade417. O projeto de integração era a alternativa concreta para a voraz reação norteamericana aos planos autônomos de desenvolvimento energético, os escassos resultados palpáveis da opção européia418 e a construção de um sistema de comércio no Cone Sul instrumental aos interesses brasileiros. A parceria com a Argentina começava a configurarse como uma contingência praticamente inevitável, caso o Brasil pretendesse manter a sua ascendência política no campo das relações internacionais. Portanto, a convergência da política externa brasileira com a argentina, ao princípio dos anos oitentas, é substancialmente diferente daquela ocorrida, por exemplo, em 1961, no marco dos acordos de Uruguaiana. Primeiramente, o nascimento do projeto de integração ocorreu calcado em ações concretas com importantes resultados para a política externa dos dois países, ultrapassando o nível prospectivo dos acordos de Frondizi e Quadros. Em segundo lugar, o projeto de integração foi articulado em um contexto prático bastante mais flexível do que a Guerra Fria que contagiara as relações interamericanas desde a derrocada do regime de Fulgêncio Batista em Cuba (1959). Isso permitiu emprestar uma racionalidade ao projeto conjunto que excedia o nível recomendatório e avançava definitivamente na conformação, no hemisfério, de um novo espaço político para o Cone Sul. Em terceiro e último lugar, a dependência comercial de Argentina e Brasil em relação aos Estados Unidos estava muito mais diluída em 1980 do que em 1960, quando as experiências de políticas externas relativamente autônomas fracassaram nos dois países. Por exemplo, durante todo o decênio de 1980, o Brasil enfrentou pressões norte-americanas intensas em todos os setores desenvolvidos a partir do crescimento econômico que o país experimentara no pós-guerra: serviços, propriedade intelectual, investimentos, lei da informática, regime de controle de importações e medidas antidumping em produtos siderúrgicos. Ao ter carteiras mais diversificadas, Brasil e Argentina ganhavam autonomia 416 BANDEIRA. Relações Brasil-EUA…, p. 142. Essa tese é defendida por VIZENTINI. Op. Cit.,p.283-286. 418 LESSA, A. C. A diplomacia universalista do Brasil: a construção do sistema contemporâneo de relações bilaterais. Revista Brasileira de Política Internacional. a. 41, número especial 40 anos, 1998, p. 35. 417 121 face ao hegemon e lhes era permitido adotar um perfil de coordenação que outrora tivera de ser descartado em função de poderosas turbulências domésticas. Com Figueiredo, não se tratava de tolerar o discurso argentino, de buscar áreas pouco conflitivas para a aproximação de ambas as chancelarias, de incluir a Argentina em grandes projetos de Brasília e muito menos de promover bons ofícios entre o Palácio San Martín e o Departamento de Estado norte-americano. A questão não era precaver-se dos avanços diplomáticos argentinos e sim outorgar àquele país, paulatinamente, um lugar preponderante na estratégia internacional do Brasil. 5.2. A consolidação do legado Em 1983, horas antes da posse de Raúl Alfonsín, o embaixador brasileiro em Buenos Aires foi o único representante estrangeiro a ser recebido pelo Presidente eleito419. A densidade do relacionamento bilateral foi reforçada pelo mandatário argentino até a posse de José Sarney, em 1985, quando o ritmo da integração e a sua abrangência foram capazes de construir um projeto ambicioso e estruturado de atuação conjunta no mundo pós-Guerra Fria. O governo de José Sarney inaugurou, pela primeira vez na política externa brasileira, um relacionamento especial, nesse caso com a Argentina, para catalisar a consecução dos interesses nacionais na região420. O marco de referência que, no decênio de 1970, advogava relações especiais com o mundo desenvolvido como instrumento de redenção do país na cena internacional cedeu passo à formulação de uma parceria simétrica com a Argentina, refletida nos protocolos bilaterais de 1986 (Ata para a Integração Argentino-Brasileira) e no Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento de 1988. Nascia o princípio segundo o qual Argentina e Brasil deveriam integrar certas unidades produtivas com a finalidade de promover tecnologias sensíveis em setores estratégicos para o desenvolvimento econômico. Mais do que isso, a aproximação entre as duas novas democracias do Cone Sul constituía uma verdadeira corrida em busca de credenciais democráticas que permitissem a ambos os países encerrar o seu isolamento em importantes praças diplomáticas e foros multilaterais devido às vergonhosas situações internas dos direitos humanos421. Os dois governos apressaram-se a aceder ao regime interamericano de proteção aos direitos 419 GUERREIRO. Op. Cit., p. 114. VAZ, A. C. Parcerias estratégicas no contexto da polítia exterior brasileira: implicações para o Mercosul. Revista Brasileira de Política Internacional. a. 42, n. 2, 1999. p. 61. 421 CORRÊA. Op. Cit., p. 383. 420 122 humanos, assim como aos pactos e convenções de consenso sob a égide das Nações Unidas. Entretanto, nota-se que a rápida evolução da convergência argentino-brasileira, na segunda metade da década, esteve certamente vinculada ao devastador panorama da crise das dívidas externas latino-americanas e à política externa do presidente Reagan. Essa última calcou-se no desmantelamento do multilateralismo, conforme se vê na negativa de Reagan de assinar a Convenção da ONU sobre Direito do Mar e a retirada de Washington e Londres da UNESCO, organismo no qual perdiam sistematicamente as votações para o grupo do Terceiro Mundo. Dessa forma, o resultado da orientação norte-americana era a migração da agenda global para temas nos quais as nações em desenvolvimento, e especialmente Argentina e Brasil, encontravam-se fracamente na defensiva, como direitos humanos, narcotráfico, não-proliferação de armas nucleares, meio-ambiente, imigração, terrorismo e democracia422. Em 1985, à procura de alternativas factíveis ao poder norte-americano, o Brasil integrou o Grupo de Apoio a Contadora423, manifestando insatisfação pela forma como Washington lidava com a crise das dívidas externas latino-americanas. O Grupo, a primeira iniciativa autônoma de ação diplomática capaz de debater questões regionais sem participação ou tutela dos Estados Unidos, teve resultados imediatos limitados. O Brasil opôs-se a formar um sindicato de devedores ou qualquer arranjo que limitasse a capacidade de Brasília de renegociar bilateralmente sua dívida. Anos mais tarde, gozando da estabilidade econômica da década de 1990, a diplomacia brasileira instrumentalizou a atuação do Grupo para sua busca por prestígio no campo do diálogo internacional. Não deixa de ser paradoxal o fato de a sofisticação do projeto diplomático brasileiro ter andado lado a lado com a crise econômica que assolou toda a região no decênio de 1980424. Se Figueiredo conseguiu universalizar a utilização da diplomacia presidencial, visitando todos os principais eixos diplomáticos do país425, a estagnação econômica iniciada em 1981 pôs em xeque o alcance da atuação e o cálculo estratégico do Brasil. Coube a Sarney perceber que a influência possível do país passaria a depender de fatores vinculados a atitudes positivas em matéria de direitos humanos, paz, democracia e 422 Ibid., p. 370. O Grupo de Contadora é formado por Colômbia, México, Panamá e Venezuela. Transformou-se no Grupo do Rio ao incorporar os membros do Grupo de Apoio a Contadora (Argentina, Brasil, Peru e Uruguai). 424 CERVO. O desafio…, p. 49. 425 DANESE. Op. Cit., p. 369. 423 123 não-proliferação nuclear426, elementos para os quais a associação com a Argentina, inclusive a das estruturas produtivas, era fundamental. Foi a parceria estratégica com a Argentina a plataforma sobre a qual o Itamaraty de Sarney definiu suas relações no plano regional e adentrou um contexto internacional marcado pela superação do confronto Leste-Oeste. A racionalidade desse movimento não deixa de estar contida na percepção de que, para a diplomacia brasileira, a capacidade de persuasão, por oposição ao dinheiro e à força das armas, é o principal recurso de projeção internacional do país427. Assim, a redefinição do lugar do vizinho austral na política externa teve lugar nos umbrais do fim da estratégia de desenvolvimento do país do pós-Segunda Guerra Mundial. O sonho da potência média autônoma esvaecia-se ao passo em que os meios concretos do desenvolvimento escasseavam, e a virtuosa conjunção de fatores, que promoveu a industrialização veloz, desapareceu. Dessa forma, procedia a diplomacia brasileira a estabelecer uma relação privilegiada no contexto do universalismo alcançado ao longo das últimas décadas. A qualificação do relacionamento com a Argentina ocorreu, portanto, no marco das parcerias estratégicas, qual seja (a) a perseguição dos elementos cruciais que o aparelho de Estado define como desenvolvimento econômico (mercados, tecnologias, fontes de energia), (b) a promoção da concertação internacional nos fóruns multilaterais, (c) a articulação de uma alternativa factível às tradicionais “relações especiais” com os Estados Unidos, (d) o aumento significativo dos fluxos econômicos, e (e) a consecução de presença internacional própria428. Conclui-se, então, que o projeto de integração com a Argentina não retoma os princípios da cordialidade oficial, isto é, a tolerância com o discurso do outro, a busca de faixas de convergência para esquivar a discórdia frontal, a inclusão do outro nas iniciativas da chancelaria e a promoção dos bons ofícios com Washington. O projeto de integração trata-se, efetivamente, de uma estratégia alternativa para lidar com o desafio que a Argentina representa para a diplomacia brasileira. Apesar do novo modelo de vínculo bilateral, o aparelho de Estado não conseguiu edificar um paradigma de desenvolvimento acorde com a conjuntura internacional então 426 FONSECA Jr. A legitimidade e outras questões internacionais: poder e ética entre as nações. São Paulo: Paz e Terra, 1998. p. 374. Ibid. p. 359. 428 Esses são os critérios contra os quais se mensura, segundo Lessa, a formação de uma parceria estratégica, que são: “Relações políticas e econômicas prioritárias reciprocamente remuneradoras, constituídas a partir de um patrimônio de relações bilaterais universalmente configurado. A construção de parcerias estratégicas é fruto da compatibilização da vocação histórica do Brasil para a universalidade com a necessidade de aproximações seletivas, o que abre a possibilidade para movimentos de adaptação aos nichos de oportunidade e aos constrangimentos internacionais que se apresentam conjunturalmente”. LESSA. A diplomacia universalista…, p. 30. 427 124 vigente, legando a grande reforma institucional e econômica ao próximo mandatário, Fernando Collor de Mello429. Do outro lado do Prata, o prematuro governo de Carlos Saúl Menem (1989) era responsável por resolver a espiral inflacionária e as resistências à transição democrática que Alfonsín não conseguira administrar, assim como desenhar uma reforma estrutural para o país. 5.2.3. O projeto de integração diante do liberalismo As agendas de Collor de Mello e Menem irmanaram-se em certo ethos modernizador. Contudo, as aberturas comerciais, os programas de privatização de agências estatais e o relacionamento com os investimentos externos geraram modelos bastante distintos de interação com a economia global. O fato de o primeiro ter governado por apenas dois anos e o segundo, por uma década inteira, é significativo, uma vez que as orientações da política externa argentina conviveram com várias fases da modernização do Brasil430. Collor de Mello assumiu a presidência com três objetivos precisos no campo externo: modernizar a pauta diplomática, retirar a carga negativa do vínculo com os Estados Unidos e livrar o país de sua marca terceiro-mundista431. Fez isso mediante abertura comercial não negociada e demonstrações unilaterais de boa vontade para com a potência hegemônica. Ao mesmo tempo, abandonou a postura defensiva do país no GATT432, permitindo a redução do contencioso comercial com os EUA e a aceleração do projeto de integração regional com a Argentina433. O significado da autonomia nacional passou a ser concebido pelo aparelho de Estado como a participação nos regimes multilaterais de liberalização e, nessa transição, o projeto de integração com a Argentina foi interpretado como instrumento de preservação e modulação dos novos constrangimentos. Naquele momento, Argentina, Chile e México já 429 MOREIRA, M. M. O Brasil e o novo contexto econômico internacional. In: ALBUQUERQUE. Op.Cit., vol. 2. p. 27. Collor de Mello (1989-1992), Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1994-1998 e 1999-2002). 431 HIRST, M.; PINHEIRO, L. A política exterior do Brasil em dois tempos. Revista Brasileira de Política Internacional. a. 38, n. 1, 1995. 432 Essa crise está evidenciada na evolução lenta, mas certeira, do discurso brasileiro na questão NorteSul, consubstanciado na UNCTAD, para o sistema GATT/OMC. O consenso em torno ao projeto de inserção autônoma na economia mundial, que contou com apoio popular na década de 1970, é rompido em 1990, indo de encontro aos interesses do empresariado nacional. 433 ABREU, M. de P.; FRITSCH, W. Aspectos estratégicos da política comercial brasileira. In: ALBUQUERQUE. Op. Cit., vol. 2. p. 52. 430 125 viviam processos de franca liberalização econômica no espírito do Consenso de Washington434. A parceria brasileira com a Argentina passou a representar um exemplo ao empresariado nacional, uma vez que a abertura econômica e a exposição à concorrência ocorreram inicialmente e com bastante intensidade no âmbito do Mercosul, instaurado pelo Tratado de Assunção em 1991435. Assim, o componente comercial substituiu a filosofia original do projeto de integração, da qual constava um projeto comum de desenvolvimento436. De forma caricatural, no início da década de 1990, a Argentina de Menem optou por aproximar-se definitivamente dos desígnios de Washington. Participou das operações militares no Golfo Pérsico, Haiti e Iugoslávia, votou com os Estados Unidos nos foros multilaterais, abandonou o projeto de autonomia militar na área de mísseis de curta distância, visitou a Casa Branca inúmeras vezes e abriu espaços para fazer do embaixador em Buenos Aires, Terence Todman, uma das personalidades mais importantes da cena portenha. A pretensa intimidade do mandatário argentino com os círculos de poder em Washington levaram o chanceler Di Tella a qualificar as relações entre os dois países de “carnais”. A premissa por trás desse movimento era o rechaço ao tradicional antiamericanismo que havia feito escola na diplomacia do país desde a Conferência PanAmericana de 1889, o qual era percebido como motivo primeiro do isolamento em que a Argentina afundou gradativamente desde o fim da II Guerra Mundial437. Já o móvel conjuntural parece ter sido a necessidade de angariar apoios no Fundo Monetário Internacional e no Tesouro norte-americano ao projeto de equivalência legal do peso argentino ao dólar. Dentre os resultados dessa política, pode-se ressaltar o modelo de segurança formulado por Menem e implementado por seu ministro da Defesa, Oscar Camilión438. Os 434 O termo “Consenso de Washington” foi definido por WILLIAMSON, J. What Washington means by policy reform. In: WILLIAMSON, J. (ed.). Latin American Adjustment: How Much Has Happened? Washington: Institute for International Economics, s/d. Nesse texto, constavam as direções adotadas pela reforma econômica, especialmente em países da América Latina, sugerindo que as mesmas deveriam ser baseadas no consenso considerável a que Banco Mundial, FMI e outras instituições em Washington haviam chegado ultimamente, incluindo disciplina fiscal, uso de recursos públicos para promover crescimento e redistribuição de renda, privatização de agências estatais, liberalização das taxas de juros, do câmbio, do comércio e do investimento externo direto, o fim das barreiras à livre competição, reforma impositiva que visasse baixar as taxas marginas e alargasse a base de taxação, a defesa dos direitos de propriedade. O termo foi rapidamente adotado por comentadores e jornalistas, transformando-o em sinônimo de “neoliberalismo”. Ver MAKISON, D. The development debate: beyond the Washington Consensus. International Social Science Journal. n.166, Blackwell and UNESCO, December 2000. 435 VAZ. Parcerias estratégicas…, p. 66. 436 CERVO. A política exterior…, p. 47. 437 Essa visão é defendida por Carlos Escudé, acadêmico e assessor pessoal do chanceler Guido Di Tella ao longo do primeiro mandato de Menem. 438 CERVO. A política externa… p. 63. 126 argentinos, decididos a dar um golpe derradeiro em sua própria corporação militar, depois dos levantes militares que assolaram o governo Alfonsín e os primeiros meses de Menem, viram com bons olhos a política defendida pelo então Secretário de Defesa Dick Cheney, qual fosse a da concentração das forças de segurança da América Latina no combate ao narcotráfico, isto é, reduzindo-as a força de polícia439. A partir de então, as Forças Armadas argentinas adotaram o modelo de unidades pequenas e profissionalizadas, treinadas para combater o narcotráfico e auxiliar os esforços das Nações Unidas em teatros de guerra não necessariamente relevantes para as relações internacionais do país. Naturalmente, o perfil da aproximação argentina dos desígnios dos Estados Unidos colocou desafios cruciais à política externa brasileira, já em ritmo de transição face a um cenário internacional que se configurava instável, formalizado na expressão das “polaridades indefinidas”440. O primeiro desafio imposto pelo vizinho era sua resistência à imagem, projetada por Brasília, de que o Mercosul credenciava o Brasil a aceder aos foros de decisão internacional, especialmente ao politburo das Nações Unidas. Ao dispor-se a assumir as responsabilidades inerentes a um membro do Conselho de Segurança da ONU, caso a reforma do mesmo fosse aprovada pela Assembléia Geral, a diplomacia brasileira viu-se forçada a recuar perante o público rechaço de Menem à idéia441. O segundo desafio colocado pela Argentina à política externa brasileira era, paradoxalmente, oriundo de Washington, e não de Buenos Aires. Tratava-se do projeto de liberalização comercial em nível continental advogado pela Casa Branca e atrativo à grande maioria das nações americanas. O mesmo previa negociações em bases consideradas excessivamente prejudiciais aos interesses brasileiros, tendo em vista o porte industrial e econômico do país. As simpatias argentinas aos desígnios norte-americanos pareciam deixar o Brasil na difícil posição de ser o principal advogado dos projetos de integração alternativos, o que parece haver induzido o Itamaraty a fortalecer o Mercosul, dotando-o de laços externos capazes de evidenciar a densidade política da iniciativa conjunta. Assim, a partir da presidência de Itamar Franco, o modelo do Mercosul ganhou força mediante (a) sua transformação em União Aduaneira; (b) a proposta de criação da uma Área de Livre Comércio da América do Sul, (c) uma iniciativa similar com os países andinos, (d) laços com a África de expressão portuguesa, (e) acordos de livre comércio com Bolívia e Chile, (f) entendimentos com a África do Sul. Além disso, a diplomacia de Fernando Henrique 439 BANDEIRA. Relações Brasil-EUA…, p. 172. LAFER, C.; FONSECA Jr., G. Questões para a diplomacia no contexto das polaridades indefinidas. In: FONSECA Jr., G.; CASTRO, S.H. N. (Orgs.). Temas de Política Externa Brasileira. São Paulo: Paz e Terra/Ipri. vol. 1. p. 49-77. 441 SARAIVA, M. Brasil e Argentina: uma década de política externa. Cena Internacional. Ano 2. n.1. Brasília: Rel-UnB/Funag, jun. 2000. p. 10. 440 127 Cardoso buscou estruturar plataforma de resistência aos avanços da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) calcada em um modelo integracionista hemisférico que nasceria da gradual associação entre experiências regionais como o Nafta, o Pacto Andino, a Comunidade Caribenha e o Mercosul442, e (g) a busca da União Européia como opção política e comercial ao avanço norte-americano. Valorizou-se o relacionamento entre blocos mediante instrumento jurídico em 1995 e durante o encontro de Cúpula MercosulUnião Européia de 1999443. A essência da dinâmica bilateral da segunda metade da década de 1990 foi o alerta permanente no qual o Itamaraty se encontrou face a um Palácio San Martín que gradativamente deixava clara para o Estado argentino a relevância das relações com o vizinho ao norte. Dessa forma, seu horizonte externo em nada se limitava aos benefícios oferecidos por Brasília. O Mercosul era, para a Argentina, um instrumento conjuntural, tático, de expansão comercial, que poderia apontar para a formação da Alca444. No fim do decênio de 1990, as evoluções econômicas de Argentina e Brasil nas correntes liberais contemporâneas resultaram em mais um golpe sobre um já cambaleante projeto integracionista. O fracasso do liberalismo aplicado à Argentina, fonte de convulsões sociais e políticas sem precedentes, que ocorre paralelamente ao fim dos dois mandatos de Cardoso, sugere que a capacidade de sobreviver às lideranças é apenas um dos muitos testes de resistência aos quais o projeto de integração será confrontado nos primeiros anos do século XXI. 5.3. O debate contemporâneo No contexto de esquemas cooperativos, dois ou mais países podem eventualmente aspirar a objetivos semelhantes. Contudo, para fins iguais não há, geral e necessariamente, interesses originalmente idênticos. A diferença de aspirações e interesses entre as nações reside na essência das relações internacionais, como bem mostra a evolução da Comunidade Européia. A política internacional é possível justamente nos interstícios da discórdia, ali onde interesses diversos encontram, mediante negociação, objetivos afins. Por 442 BANDEIRA. Relações Brasil-EUA…, p. 190. A intransigência norte-americana chegou a ser criticada por Henry Kissinger, que vinte anos atrás defendera a tese de que a capacidade de mobilização da diplomacia do Brasil deveria ser instrumental aos interesses norte-americanos, motivo pelo qual o Mercosul deveria ser tratado por Washington da mesma forma que a União Européia. The New York Post, 29 de abril de 1997. 443 Sobre o tema, ver SAVINI, M. As negociações comerciais entre Mercosul e União Européia. Revista Brasileira de Política Internacional. 44 (2). p.109-125. 2001. 444 BERNAL-MEZA, R.; QUINTANAR, S. Argentina: entre o Mercosul e a Alca. Revista Brasileira de Política Internacional. a. 44, n. 2. 2001. p.153. 128 exemplo, desde a década de 1970, o Brasil tem interesses globais. Isso não se deve exclusivamente à internacionalização das relações econômicas, mas também ao desenvolvimento de uma atuação diplomática que buscou alargar o campo de movimentação brasileiro face aos constrangimentos internacionais. Diferentemente, a Argentina não chegou a emular as políticas industrial e externa do vizinho. Esse diferencial de interesses concretos entre os dois parceiros precisa, portanto, ser sistematicamente identificado pelas diplomacias na formulação de seu projeto conjunto, sob pena de torná-lo inócuo. Isso leva a pensar nos mecanismos intrínsecos em todo relacionamento bilateral: quando dois ou mais países se engajam na construção de consensos, é elemento inerente a essa dinâmica a posta em prática de sistemas mínimos de recompensas e penalidades, que podem ser mais ou menos reconhecidas e estruturadas pelos participantes desde o início da negociação. Significa que a concertação entre países envolve uma escala de incentivos positivos e negativos a qual permite aos integrantes do grupo definir preferências e estratégias. Contar com um sistema de recompensas e punições não implica necessariamente estabelecer regras formais de veto ou imposição de custos. Significa apenas ter uma definição estratégica clara sobre quais as decisões que podem ser tomadas no âmbito de um marco conceitual comum, referência mediante a qual todos os parceiros compreenderem as ações dos outros e as próprias. Trata-se, em outras palavras, de responder às difíceis perguntas que assolam todo vínculo dessa natureza: qual é o grau de unidade que se espera do comportamento externo de cada um, quais os níveis de desentendimento que são toleráveis por ambas as partes, e qual o espaço que os dois têm para atuar independentemente? A Europa, por exemplo, levou meio século para desenhar um arcabouço institucional sem que com isso o avanço decisivo da integração regional tivesse sido congelado por falta de propósitos ou orientações das nações líderes. Note-se, nesse contexto, a contradição muitas vezes patente entre os discursos oficiais, para os quais o Mercosul é a principal estratégia de confronto aos desafios internacionais contemporâneos, e a ansiedade e limitações que as diplomacias revelam ter quando se trata de resolver problemas concretos e naturais de um processo complexo de integração445. Essa tendência à pouca claridade sobre os objetivos da parceria é intensificada 445 Para uma crítica do Mercosul ver BERNAL-MEZA, R. Sistema mundial y Mercosur: globalización, regionalismo y políticas exteriores comparadas. Buenos Aires: GEL/Universidad Nacional del Centro de la Província de Buenos Aires. 2000. 129 pelo fato de que os mecanismos hoje existentes para lidar com o relacionamento bilateral, harmonizando desentendimentos ou implementando políticas comuns, não estão definidos. Embora haja espaços formais para o debate dos grandes temas do relacionamento entre os dois países, assim como das agendas regional e internacional, os fóruns permanentes tendem a limitar-se a tecnicismos e à reprodução de procedimentos que comprometem a força de qualquer iniciativa conjunta. Exemplo disso é o fato de ambas as nações terem avançado significativamente na criação de mecanismos de consulta sobre defesa e segurança, além da implementação de exercícios militares conjuntos, sem que isso tenha se revertido na definição dos marcos de uma política de segurança comum ou mesmo na convergência das diplomacias em relação a temas candentes como os efeitos internacionais do movimento guerrilheiro colombiano446. O fato de a Argentina ver seu sistema liberal colapsar em uma crise econômica, social e política de amplas proporções é, nesse contexto, uma rara oportunidade que o Brasil tem para reverter a tendência à comercialização de um projeto tão relevante como esse e provocar um “choque de politização” necessário para a renovação de uma amizade estagnada. É possível aproveitar a conjuntura para declarar, perante os dilemas contemporâneos, aqueles princípios que orientaram o projeto de integração originalmente. Os meios para implementar tal ambição excedem a ajuda comercial ou emergencial pontual. Vão desde a prestação de cooperação técnica e financeira mediante autarquias estatais até o incentivo à integração das malhas produtivas, passando pela associação dos nichos mais competitivos dos respectivos setores financeiros. Incluem-se também as possibilidades de coordenação macroeconômica e jurídica, etc. Nesse sentido, é bastante significativo notar a percepção positiva que as elites dos países membros do Mercosul apresentam em relação à liderança de Brasília nas relações internacionais contemporâneas. Reconhece-se que o Brasil tem supremacia inconteste na América do Sul, articulada de forma a catalisar benefícios econômicos e políticos para todos os membros do Mercosul, além de servir a esses países como anteparo aos malefícios comerciais causados por instâncias multilaterais globais. A boa recepção que a política brasileira tem está relacionada ao fato de o país aderir às instituições e regras internacionalmente acordadas, sem por isso constituir uma ameaça à estabilidade da região447. 446 SARAIVA, M. G.; ALMEIDA, F. R. de F. A integração Brasil-Argentina no final dos anos 90. Revista Brasileira de Política Internacional, a. 42, n. 2, p. 18-39, 1999. p. 29-30. 447 Ver OLIVEIRA, A. J. de; ONUKI, J. Liderança hegemônica e integração regional: o Brasil na visão das elites do Cone Sul. Cena Internacional. a. 2. n.2. Brasília: Rel-UnB/Funag. 2000, baseada na pesquisa Percepções das elites do Cone Sul sobre o Mercosul e a Política Externa Brasileira (Nupri-USP, 1997). 130 O agregado histórico revela que a política brasileira para a Argentina tem sido pouco eficaz, quaisquer que sejam suas posições conjunturais desde meados da década de 1990, em relacionar suas convicções a uma análise coerente sobre o lugar que aquele país ocupa nas relações internacionais do Brasil. Esse fenômeno é agravado significativamente pelo fato de os objetivos do Tratado de Assunção (a livre movimentação de bens, serviços, capital e mão-de-obra) serem afetados pelo projeto norte-americano de integração das Américas448, que promete avançar decisivamente nas primeiras décadas do século XXI. A estruturação da diplomacia para a Argentina no marco de um esquema de liderança regional, com a decisão clara de desenhar os instrumentos (não necessariamente institucionais) que uma operação dessa envergadura implica, teria a capacidade de assegurar os objetivos de uma diplomacia pró-ativa, quais sejam os de colocar um país ou uma região à frente de seu tempo. Uma aposta desse gênero traria o benefício de mostrar ao mundo que as utopias, quando não se confundem com idealismos, também moldam a vida das nações. 5.4. Conclusões O perfil da atuação norte-americana na América do Sul, assim como as contingências que marcaram a década de oitenta, teve uma função catalisadora das políticas externas de Argentina e Brasil. Isso ocorreu devido ao interesse pessoal do Presidente Figueiredo na promoção de mecanismos de aproximação com o vizinho ao Sul, que, no intuito de reverter a ausência de um marco referencial para a Argentina, ampliou inesperadamente as possibilidades da cooperação. A isso seguiu-se a empatia pessoal de seu sucessor com o mandatário da nova democracia argentina que, juntos, lançaram um ambicioso projeto político. Em quase duas décadas de vida, o projeto de integração regional, do qual o Mercosul é apenas um aspecto, atualizou as agendas externas de Argentina e Brasil tão eficientemente que ambos os países o utilizam como credencial internacional mais importante. Essa parceria contribuiu significativamente para: democratizar e pacificar o subcontinente, multiplicar os fluxos de comércio bilateral e fazer da América do Sul um ator minimamente notado nas relações internacionais contemporâneas. Apesar disso, ela enfrenta um intenso teste de sobrevivência nos primeiros anos do século XX. 448 VAZ, A. C. Mercosul aos dez anos: crise do crescimento ou perda de identidade? Revista Brasileira de Política Internacional. a. 44, n. 1, 2001. 131 Dependerá em grande parte da liderança brasileira mostrar propósitos claros nessa empreitada conjunta, esforço para o qual deverá definir claramente qual é o lugar que o vínculo com Buenos Aires ocupa no marco de sua política exterior e, em seguida, estabelecer os mecanismos que permitam conduzir os negócios com aquela capital de forma coerente com os objetivos de médio e longo prazos. Para os interesses do Brasil na agenda internacional contemporânea, o relacionamento com a Argentina é demasiadamente importante para ser deixado à deriva. O desafio é, em definitivo, avaliar se o projeto de integração é a melhor opção para servir de guia na sempre complexa tarefa de relacionar-se com o vizinho. 132 Conclusão Em princípios do século XX, o Barão do Rio Branco tomou para si a tarefa de estruturar uma orientação preventiva em relação à Argentina. Oito decênios mais tarde, a diplomacia brasileira redefinia o vínculo bilateral à luz de uma fórmula de concerto inusitada. O responsável por criar as condições para que essa mudança ocorresse foi Ernesto Geisel, pois durante seu governo os princípios e conceitos tradicionalmente utilizados para lidar com o desafio argentino colapsaram. Este trabalho procurou recuperar e sistematizar os mecanismos e dinâmicas que constituíram esse processo em uma perspectiva de longa duração. Concluiu-se que Geisel e seu chanceler Silveira dedicaram-se a desmontar as bases da cordialidade oficial que orientou, mais ou menos homogeneamente, a execução da política externa em relação ao vizinho desde os primeiros anos do século XX. Em parte, fizeram-no deliberadamente, seguindo suas opiniões pessoais sobre a Argentina e seus governos, à hora de lidar com os sinais que de lá provinham. Contudo, também atuaram movidos pela necessidade de reagir ao complexo embate pela utilização do potencial elétrico da Bacia do Prata. A análise da documentação primária sobre o período revela que o governo brasileiro abandonou a tolerância a eventuais denúncias argentinas nos principais foros internacionais. Ainda rechaçando a tradição, Geisel buscou vincular todos os assuntos da agenda com Buenos Aires à resolução da questão hídrica, postura que teve de ser temperada por Silveira no intuito de não comprometer o rápido crescimento do intercâmbio comercial que então se experimentava. Do ponto de vista regional, a diplomacia brasileira promoveu iniciativas bilaterais e multilaterais com o claro propósito de reverter o princípio histórico de que o país devia refrear sua busca por oportunidades na América do Sul devido às suscetibilidades e eventuais reações que isso desencadearia na capital argentina. Em relação à interação bilateral no cenário hemisférico, o governo de Geisel não buscou utilizar o bom fluxo de diálogo político com o secretário de Estado Henry Kissinger para remover a Argentina de suas posições jurídicas na Bacia do Prata. Contudo, quando da posse do presidente Jimmy Carter, o próprio diálogo entre Brasília e Washington chegava a níveis de deterioração tão significativos que quaisquer resquícios da “aliança especial” entre os dois maiores países do continente estavam definitivamente enterrados. 133 A Argentina reagiu à política do Brasil conforme sua prática tradicional, que envolvia a denúncia em nível multilateral e a busca de solidariedades nos países hispanoamericanos, os quais, lindeiros com o Brasil, encontravam em Buenos Aires oportunidades de negócios e de diálogo fluido. O fato de Brasília oferecer alternativas mais atrativas do ponto de vista econômico e um marco como o Tratado de Cooperação Amazônica para um diálogo político em alto nível devem ter pesado no cálculo argentino, uma vez que as táticas do Palácio San Martín foram modificadas significativamente pela Junta Militar que ocupou a Casa Rosada em 1976. A nova orientação era dada por Oscar Camilión da embaixada em Brasília, que concentrou a resposta argentina ao desafio de Itaipu. Seu objetivo primeiro, qual fosse o reconhecimento do Itamaraty de que o tema dos rios devia ser negociado com seu governo, foi colmado mediante a desestabilização midiática de Silveira e, por associação, de Geisel. A atuação do embaixador argentino resultou em uma situação em que não era mais possível ao Brasil trabalhar independentemente sobre o rio Paraná sem com isso despertar críticas ácidas sobre a pretensa “injustiça” de sua condução diplomática. Apesar de ter os recursos para confrontar a Argentina, ao Brasil faltava a legitimidade mínima sem a qual nenhum projeto internacional se mantém vigente. A partir desse momento, os estilos pessoais do chanceler brasileiro e do embaixador argentino entrelaçaram-se para trazer à tona métodos divergentes de fazer política externa. Enquanto o primeiro privilegiava os entendimentos reservados no intuito de preservar os negociadores das paixões populares, o segundo fazia delas seu principal instrumento de pressão. Ao mesmo tempo, enquanto Silveira contava com uma máquina burocrática capaz de dar coerência às diretrizes estratégicas definidas pelo Presidente, Camilión era presa fácil da politização do serviço exterior argentino. As animosidades entre ambos resultaram na paralisia do diálogo e na ativação de uma diplomacia militar paralela e secreta que também falhou em encontrar uma solução definitiva para o contencioso. A análise dessa evolução revelou que, durante o governo Geisel, a questão das águas do rio Paraná não foi apenas o pomo de uma discórdia que maculava as relações bilaterais desde a década de 1960, mas o terreno sobre o qual as forças de ambas as diplomacias viriam a ser testadas e o eixo bilateral, redefinido. O compromisso que levaria a um acordo final somente foi alcançado durante a gestão de Figueiredo e seu chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro, em outubro de 1979. A característica mais marcante do instrumento jurídico foi ter podido reconhecer todas as demandas técnicas brasileiras ao passo em que cedia à Argentina seu antigo apelo de caráter 134 formal: tratava-se de um acordo internacional tripartite, e não apenas da troca de notas informativas. Essa solução não deixa de ser sintoma do diferencial de forças entre ambos os países. A Argentina havia ficado à mercê de facções em conflito muito débeis para estabelecer um comando político único, mas suficientemente poderosas para minar qualquer tentativa de normalização da vida pública. Nesse contexto, ela atravessou duas ameaças concretas de conflito armado com o Chile; consagrou-se como pária, ao inspirar o contemporâneo sistema de proteção dos diretos humanos no seio das Nações Unidas; e enterrou definitivamente suas alternativas externas ao declarar, e perder estrepitosamente, uma guerra contra o Reino Unido em 1982. Os vínculos econômicos com Bolívia e Paraguai haviam sucumbido ao programa de desmantelamento da indústria promovido pelo golpe de 1976, o relacionamento com os Estados Unidos não superara décadas de mal-estar, e as exportações para a Comunidade Européia estavam cortadas como resultado de Malvinas. Portanto, a diplomacia argentina não contava mais com um discurso capaz de alavancar apoios na região, e o país amargou um isolamento similar ao da II Guerra Mundial, quando se negou a declarar estado de beligerância ao Eixo. Encerrada a negociação sobre Itaipu, a diplomacia brasileira estava em condições de reavaliar inovadoramente o lugar do vizinho em seu marco conceitual. Assim, buscou-se uma agenda capaz de refletir os interesses paralelos que ambas as nações tinham naquela conjuntura e outorgou-se fôlego ao programa de convergência em assuntos de defesa e política internacional. Se, ao longo do século XX, a política externa brasileira foi guiada pela necessidade imperiosa de evitar que o vizinho – único poder sul-americano capaz de ombrear o Brasil em oportunidades e responsabilidades no cenário regional e internacional – lhe turvasse os horizontes, depois de Itaipu a prevenção como método brasileiro de administração havia caducado. Não havia mais motivos de angústia para a atuação diplomática brasileira na América do Sul, mas a Argentina, por seu vulto, ainda demandava algum tipo de postura. A integração regional foi a resposta. É fundamental apontar que esta argumentação de nenhuma forma sugere que o Brasil tenha manipulado a Argentina quando da construção do projeto de integração regional. O estudo das relações internacionais há muito mostrou que o nascimento de políticas comuns apenas tem lugar quando as partes interessadas servem a seus próprios anseios. O trabalho encontrou que a mudança de estratégia de um país não apenas é causada por fatores estruturais, mas também pode ser precipitada por homens que questionam a 135 tradição e sugerem caminhos alternativos. Porém evidenciou que a vontade individual nunca atua em estado puro nas relações internacionais. Assim, os resultados da diplomacia geiseliana não foram previstos pelo Presidente, por seu chanceler ou pelo embaixador argentino no Brasil. A resposta integracionista de seus sucessores certamente surpreendeu Geisel e Silveira. Nenhum dos dois acreditava ser possível dar vida a um projeto conjunto com a Argentina devido ao fato de que um país onde as expectativas sociais haviam sido frustradas e revertidas jamais poderia associar-se de maneira estável e duradoura a outro país mais desenvolvido. A associação entre os dois países foi fortalecida pela questão nuclear que os Estados Unidos impunham e pelos episódios relativos à Guerra das Malvinas. Foi, ainda, intensificada pelos processos de redemocratização e a necessidade mútua de redimir, no estrangeiro, as marcas dos respectivos regimes de força. A estabilização da política regional e a consolidação da democracia como princípio inviolável na América do Sul deram alento ao projeto conjunto. Entretanto, Argentina e Brasil atravessaram períodos de turbulência e indefinição ao longo da década de 1990, apesar do esforço de ambos haver outorgado personalidade internacional própria ao resultado mais palpável da nova amizade, o Mercosul. Nos primeiros anos do novo século, a aparente ausência de propósitos claramente definidos no eixo bilateral leva os espectadores a desconfiar da capacidade que essa parceria tem de sobreviver. É por isso que o cenário contemporâneo traz à tona uma indagação semelhante àquela que levou Geisel, e seu chanceler, a descartar a possibilidade de um projeto internacional conjunto no Cone Sul: é razoável conformar os anseios internacionais do Brasil aos limites que a concertação com a Argentina impõe? Diferentemente da época de Geisel, quando a política do Brasil para a Argentina foi remodelada no intuito de assegurar ao país, na América do Sul, os frutos do crescimento econômico e das oportunidades de articulação política, a resposta a essa pergunta nos umbrais do século XXI refere-se às novas roupagens que vestem velhos constrangimentos e desígnios brasileiros na região. Na perspectiva histórica recente, isto é, depois de pouco mais de duas décadas de parceria, parece ser que o Brasil voltou a deparar-se com aquilo que constitui a essência de seu relacionamento com a Argentina: a manutenção de uma estável estrutura sul-americana de paz. Essa agenda não é nova, pois remonta à segunda metade do século XIX. Contudo, desde as progressivas democratizações iniciadas nos primeiros anos da década de 1980, o significado da paz abaixo da linha do Equador adquiriu dimensões tais como a eliminação 136 da hipótese de uma corrida armamentista, a contenção do narcotráfico, o compromisso mútuo com a utilização pacífica da energia nuclear, o respeito ao princípio da nãointervenção, a observância dos direitos humanos, a resolução negociada de pendências territoriais e a adesão rigorosa aos preceitos da democracia. Na definição e implementação dessas prioridades, que nada mais são do que os desafios objetivos que os países da região enfrentam nos primeiros anos do novo século, a parceria de Buenos Aires e Brasília provou seu potencial. O eixo bilateral foi benéfico à estabilidade sul-americana, evidenciando que, se a diplomacia requer constante manipulação e sensibilidade para mudanças à primeira vista marginais, o Palácio San Martín e o Itamaraty souberam sugerir alternativas concretas e palatáveis a toda a comunidade regional. Nenhum dos dois países é dominante, nem conta com os recursos para demonstrar seu poder quando as contingências políticas impõem a necessidade de uma manifestação. O que a evolução do projeto integracionista evidencia é, justamente, que a força de cada um dos dois países no teatro sul-americano reside, em grande medida, na capacidade de articulação e entendimento mútuo. Embora o Brasil tenha podido sofisticar sua atuação internacional de forma singular no cenário latino-americano, não conta com recursos psicológicos ou materiais para ser o único centro de iniciativa e responsabilidade da América do Sul. Uma alternativa ao eixo bilateral sobre o Prata seria uma associação efetiva entre Brasília e Washington com o propósito de garantir a paz no ordenamento regional, mas não parece haver disponibilidade no centro de poder norte-americano, nem mesmo no Itamaraty, para uma operação dessa envergadura. Contudo, se por um lado a Argentina é a única opção de parceria factível da política regional do Brasil, por outro o diferencial de recursos que ambos os países apresentam é hoje, assim como à época de Geisel, uma fonte perene de atritos. O difícil balanço entre esses dois fenômenos certamente está no cerne da política externa brasileira contemporânea e apenas a sua fina equalização poderá abrir caminhos para uma atuação diplomática que seja coerente com os desafios que o futuro promete. Nessa vertente, vale notar que a história é abundante em relacionamentos estratégicos eficazes e íntimos entre nações que operam desde perspectivas diferentes. O tema crucial, que se repete ao longo da história, é impedir que as dissensões diluam o sentido de “missão” que sustenta as amizades internacionais duradouras. A capacidade de encontrar uma resposta satisfatória sobre o propósito do eixo argentino-brasileiro certamente elucidará se é essa uma associação contingente e passageira ou uma amizade 137 necessária. Ao esquivar-se desse desafio, os efeitos colaterais que ambas as diplomacias podem causar uma à outra, e à América do Sul, trazem a marca de um mau agouro. Quando o lastro da estabilidade sul-americana está em jogo, somente a convicção política dos grandes é capaz de moldar os eventos. Adiantar-se ao tempo e imprimir-lhe um rumo é a alternativa viável à quimera do espectador passivo, que protela a decisão na esperança vã de que seja menos custosa. É a opção daqueles que preferem manusear os fatos, e assim moldá-los, a resignar-se à espera de um legado que emane, certeiro, de uma ruptura quase sempre brusca. 138 Cronologia As relações entre Argentina e Brasil: da cordialidade oficial ao projeto de integração A história do eixo argentino-brasileiro apresenta inúmeros desafios ao analista e ao estudante das relações internacionais. Um dos mais significativos talvez seja a compreensão da miríade de encontros e desencontros, avanços e recuos, que caracterizam esse intenso relacionamento. Este trabalho oferece uma interpretação, calcada em linhas de longa duração, dos eventos mais marcantes do vínculo bilateral. A fim de ilustrar a argumentação apresentada, oferece-se esta sintética cronologia. As fontes utilizadas para a elaboração da mesma incluem as cronologias, artigos, livros, teses e documentação primária listados na seção bibliográfica. A cronologia é apresentada em cinco partes: a cordialidade oficial (meados do século XIX até 1946), a diplomacia da obstrução (1946-1955), o retorno da cordialidade oficial (19561966), o fim da cordialidade oficial (1967-1979), o projeto de integração (1979 aos nossos dias). Cordialidade Oficial Entende-se por cordialidade oficial o conjunto de concepções e princípios que guiaram a política brasileira para a Argentina ao longo de, aproximadamente, cem anos. Esse modo de atuação tinha caráter preventivo. Foi construído com base em um estilo discursivo cordial; na busca sistemática por faixas de coincidência e cooperação capazes de diluir as desconfianças e a perene presença do estranhamento um do outro; a inclusão do vizinho nas iniciativas internacionais do Brasil; e, finalmente, na aproximação pragmática entre a Argentina e os Estados Unidos no intuito de evitar o isolamento da primeira nas Américas. Segunda metade século XIX José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, lança as bases intelectuais da cordialidade oficial. Havendo ocupado o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros em diversas ocasiões (1855-1857, 1858-1859 e 1868-1871), advogava que o Brasil devia mostrar-se “moderado, benévolo e generoso”, sob pena de suscitar desconfianças excessivas na vizinhança. Para ele, o caminho da cordialidade era o meio de precaver-se dos efeitos internacionais da instabilidade característica do cenário político argentino. 1889 Durante a I Conferência Internacional Americana, em Washington, a Argentina formaliza a resistência aos desígnios da nascente potência norte-americana em assuntos hemisféricos. O Brasil busca aproximar as delegações desses dois países em torno a um consenso mínimo sobre a natureza e alcance das relações continentais. 1890 Aproveitando o espírito de confraternização republicana, Quintino Bocaiúva sugere a rápida resolução do litígio pela região de Palmas/Misiones entre Argentina e Brasil por meio da imediata cessão de metade do território em questão a Buenos Aires. A solução, consagrada no Tratado de Montevidéu, foi mais tarde rechaçada pelo congresso brasileiro. 139 1895 Arbitragem do Presidente Cleveland dos Estados Unidos, sobre Palmas/Misiones, dá ganho de causa ao Brasil. O assunto confronta os patronos das diplomacias brasileira e argentina: o Barão de Rio Branco e Estanislao Zeballos. 1899 A viagem de Julio Roca ao Brasil, primeira visita oficial de um chefe de Estado estrangeiro ao país, ocorre ao mesmo tempo em que Buenos Aires ultrapassa o Rio de Janeiro como o principal de produtos ingleses na América do Sul. O Brasil desfrutava dessa posição desde 1808. 1900 Campos Sales visita a Argentina na primeira viagem oficial de um presidente brasileiro ao estrangeiro. 1902 Potências européias intervêm na Venezuela para exigir pagamento de dívidas com credores externos. O então chanceler argentino, Luis Maria Drago, denuncia a “diplomacia das canhoneiras” por meio da doutrina que leva o seu nome. O Brasil, seguindo os Estados Unidos, não endossa o apelo argentino. Toma forma a aliança “não escrita” entre o Rio de Janeiro e Washington. 1904 O Barão do Rio Branco propõe um pacto defensivo entre Argentina, Brasil e Chile que, ao promover o concerto entre os grandes países da região, emanaria estabilidade. O governo de Buenos Aires rejeita a iniciativa, temendo que a mesma turvasse suas outras amizades na América do Sul, notadamente o Peru. 1909 Rio Branco apresenta a minuta de um Tratado de Cordial Inteligência Política e Arbitramento, a ser assinado por Argentina, Brasil e Chile. As negociações não avançam devido à persistência da rivalidade regional. 1914 Argentina, Brasil e Chile oferecem sua mediação ao conflito entre o México e os EUA pela intervenção armada norte-americana no porto de Vera Cruz. Buenos Aires e o Rio de Janeiro assinam um tratado de “cordial inteligência política e arbitragem” nos moldes daquele sugerido por Rio Branco dez anos antes. 1915 Assina-se o Pacto do ABC: Tratado para Facilitar a Solução Pacífica de Controvérsias Internacionais. Apesar de exigir menos responsabilidades do que o projeto de 1909, o mesmo não foi ratificado pelo Congresso brasileiro, que acreditava na força do pan-americanismo por oposição a acordos sub-regionais capazes de provocar inquietação nos demais países do continente. 1916 Os EUA tornam-se o maior parceiro comercial do Brasil. Década de 1920 Ao longo do período, o Brasil abdica de seu programa de compra armamentos devido a pressões argentinas. O fenômeno teve lugar ao mesmo tempo em que a Argentina ganhava relevância estratégica no contexto da amizade anglo-americana, devido à triangulação comercial que fazia entre o Reino Unido e os Estados Unidos. 1923 O chanceler chileno propõe a realização de uma conferência dos países do ABC sobre redução dos armamentos, mas Argentina manifesta-se contrária a tratar do tema como esse sem incluir os demais países do continente. 140 1932 Eclode a Guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia, que terminou por estremecer o relacionamento argentino-brasileiro em um primeiro momento e fortalecer o eixo entre Buenos Aires e Rio de Janeiro como lastro da estabilidade sul-americana em 1935. 1933 Durante visita ao Brasil, o Presidente Justo assina, no Rio de Janeiro, o Tratado Antibélico de NãoAgressão e de Conciliação entre Argentina, Brasil, Chile (com ressalvas), México, Paraguai e Uruguai, também conhecido como Pacto Saavedra Lamas. Era a busca de uma estrutura estável e legítima de paz diante das incessantes erupções do armamentismo em toda a região. O Brasil patrocina e assina a Declaração de Montevidéu sobre a Utilização Industrial e Agrícola dos Rios Internacionais. Fez isso com base no parecer da Comissão Permanente de Direito Internacional Público do Rio de Janeiro (foro composto por internacionalistas proeminentes, tais como Clóvis Benvilacqua, Epitácio Pessoa, Eduardo Espínola e Prudente de Moraes). O instrumento assinado sustentava que, se um rio fosse fronteiriço, nenhum Estado poderia alterar seu curso sem antes consultar e obter o consentimento dos outros Estados afetados. 1935 Viagem de Vargas à Argentina, onde assina o Protocolo de Paz relativo à Guerra do Chaco. Na equação do equilíbrio, a diplomacia brasileira apoiou a Bolívia e a Argentina, o Paraguai. No contexto da disputa pela influência sobre Assunção, o então deputado Neves da Fontoura sugeriu a devolução dos troféus nacionais paraguaios seqüestrados por tropas brsaileiras durante a Guerra (1865-1870), gesto mais tarde realizado por Perón (na década de 1950) e por Geisel (na década de 1970). No decênio de 1950, Neves da Fontoura seria responsável por levar o relacionamento com a Argentina à paralisia. 1938 Oswaldo Aranha é nomeado ministro de Exteriores. Empenha-se, pessoalmente, na política da cordialidade com a Argentina. 1941 Brasil e Estados Unidos assinam um acordo para fornecimento recíproco de materiais militares e informações sobre defesa. Até o final da guerra (1945), o Brasil havia recebido aproximadamente de US$ 360 milhões em equipamento militar, 73% do total enviado à América Latina. Tratado sobre Livre Intercâmbio entre Argentina e Brasil: “o propósito de conseguir estabelecer em forma progressiva um regime de intercâmbio livre, que permita chegar a uma união aduaneira (…), aberta à adesão dos países limítrofes, o que não seria obstáculo a qualquer amplo programa de reconstrução econômica que, sob a base da redução ou eliminação de direitos e outras preferências comerciais, viesse a desenvolver o comércio internacional, baseado no princípio multilateral e incondicional da nação mais favorecida”. Era a tática preventiva que o Brasil escolhera para evitar que o eixo bilateral emulasse as políticas européias de beggar thy neighbour, segundo as quais os vizinhos engajam-se em um jogo de desvalorizações competitivas. 1942 Após III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores Americanos, no Rio de Janeiro, o Brasil rompe as relações diplomáticas com o Eixo. Meses mais tarde, o Catete declara guerra à Alemanha e à Itália. A Argentina, que se recusa a entrar em estado de beligerância com Berlim, entra em conflito diplomático ostensivo com os Estados Unidos até 1949. As sanções impostas pelos norte-americanas contra Buenos Aires incluem: proibição de exportações de matérias primas para a Argentina; de material que pudesse ser usado com fins militares; proibição de transporte de produtos norte-americanos em barcos argentinos, bloqueio de depósitos em ouro do Banco da Nación e da Província de Buenos Aires nos EUA; proibição de exportações argentinas para os EUA que não servissem exclusivamente ao esforço de guerra; proibição de que naves de bandeira americana tocassem portos argentinos; cancelamento da compra de carnes enlatadas de procedência argentina; esforços para que os recursos do Plano Marshall não fossem utilizados na compra de alimentos oriundos da Argentina. Instalada a Comissão Mista de Defesa Brasil-EUA, em Washington, com a finalidade de coordenar a cooperação militar bilateral. Em seguida, visita o país a Missão Morris Cooke, que faz recomendações para o desenvolvimento da indústria e da infra-estrutura brasileira. Assinado o Protocolo de Paz entre Peru e Equador, tendo Argentina, Brasil, Chile e EUA como garantes da paz. 141 1943 Relações argentino-estadunidenses sofrem nova deterioração depois do golpe de Estado perpetrado na Argentina. Oswaldo Aranha assegura que a aliança do Brasil com os Estados Unidos não implica desacordo entre o Brasil e a Argentina. Buenos Aires oferece a Santiago um programa de complementação econômica alternativo ao pan-americanismo. A essa altura, a presença argentina era preponderante no comércio, transportes e influência política no Paraguai e no Uruguai. 1944 Os Estados Unidos pressionam os países latino-americanos e europeus a retirar seus embaixadores de Buenos Aires caso a capital portenha não apresente evidências de que não alberga grupos nazi-fascistas nem apóia a Alemanha. Além disso, Washington somente reconheceria o governo de Farrell se a Argentina adotasse “medidas eficazes” que demonstrassem que o país não estava ligado aos interesses dos países do Eixo. Argentina reage, propondo reunião de Ministros de Relações Exteriores de América para considerar a situação criada pelo Departamento de Estado. O México convoca representantes do Uruguai, Brasil e Cuba para coordenar a operação de reintegro da Argentina ao sistema interamericano. Roosevelt reage dizendo que somente aceitaria participar de um encontro hemisférico caso o tema da Argentina fosse tratado no fim da agenda, e que a representação daquele país somente teria assento nessa sessão. Segundo a literatura especializada argentina, Brasil, Cuba e Perú aprovaram a postura de Washington; enquanto Colombia, Equador, Uruguai e Venezuela a condenaram. Finalmente, vingou a posição americana. O Brasil participa da Conferência de Bretton Woods, que cria o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A Conferência define o novo arranjo financeiro internacional sob a hegemonia do dólar americano. A Conferência de Dumbarton Oaks (Washington), entre China, EUA, Grã-Bretanha e União Soviética, discute os termos do ordenamento internacional do pós-guerra. Brasil e Grã-Bretanha tentam diluir a agressividade do discurso norte-americano em relação à Argentina. 1945 A pedido de Perón, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Baptista Lusardo, tenta, sem sucesso, concertar agenda e data para possível encontro presidencial, em Uruguaiana (Rio Grande do Sul).O mandatário argentino queria conversar com o Presidente Dutra sobre trânsito de fronteira, comércio bilateral, aproveitamento hidrelétrico conjunto das quedas de Iguaçu e a convergência de posições a ser tomadas na próxima Conferência Interamericana, a realizar-se no México. Realiza-se a Conferência Interamericana sobre problemas da guerra e da paz em Chapultepec (México). Para reverter o isolamento argentino na região, o governo portenho declara guerra ao Eixo cinco dias mais tarde. Segundo a literatura brasileira, o Itamaraty envidou esforços para assegurar a presença do governo argentino no encontro. Diferentemente, a historiografia argentina sustenta que o Brasil foi uma força obstrutora das possibilidades internacionais de Buenos Aires no imediato pós-guerra. Durante a Conferência de São Francisco é aprovada a Carta das Nações Unidas. Na ocasião, durante um encontro confidencial entre o Secretário de Estado norte-americano e os chanceleres de União Soviética, Grã Bretanha, França, Brasil, Chile e México, os Estados Unidos tentam negar a entrada da Argentina para a nova Organização. Os latino-americanos ali presentes conseguem reverter a pressão norte-americana. Lentamente, a Argentina começa a normalizar suas relações com o mundo. A partir daquele momento, e até a Revolução Libertadora de 1955, o governo argentino mantém o país afastado do novo sistema financeiro internacional (FMI, Banco Mundial e GATT). A política comercial praticada por Buenos Aires era exclusivamente bilateral. Entre 1946 e 1947, Perón assinou acordos com Brasil, Chile, Dinamarca, França, Índia, Paraguai, Reino Unido, a União Sul-Africana e o Uruguai. 1946 Pouco antes de transmitir o cargo a Perón, o Presidente Farrel confidencia ao chefe da missão brasileira em Buenos Aires que “a compreensão feliz existente entre brasileiros e argentinos é a melhor garantia de paz e tranqüilidade regional”. 142 A diplomacia da obstrução (1946-1955) Ao longo de quase uma década, a cordialidade oficial perdeu legitimidade na chancelaria brasileira, que cedeu às percepções segundo as quais era perigoso associar-se à Argentina de Perón. Encabeçando esse movimento estavam os chanceleres Neves da Fontoura, Raul Fernandes e Vicente Ráo, que muitas vezes procederam em desacordo com as orientações emanadas pelo Palácio do Catete. As resistências do Itamaraty teriam levado Vargas a utilizar enviados especiais em missões secretas para dialogar com a Casa Branca. 1946 Raul Fernandes assume a chefia do Itamaraty (194601951 e 1954-1955). 1947 Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no continente dá origem ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). O governo argentino estabelece densas agendas de cunho econômico e comercial com Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Venezuela. A diplomacia brasileira teme eventuais ações desestabilizadoras de Perón naqueles países, uma vez que suas embaixadas contavam com um amplo esquema de adidos militares, policiais, navais e sindicais. Eurico Gaspar Dutra e Juan Domingo Perón encontram-se em Uruguaiana. A Argentina estava decidida a associar-se ao Brasil como forma de superar os custos impostos pelo isolamento ao longo de todo o período da II Guerra Mundial. Houve entendimentos sobre o aproveitamento hidrelétrico conjunto de Salto Grande, a pacificação do conflito territorial entre Equador e Peru e a mediação da luta civil paraguaia. Também acordou-se que o Rio de Janeiro tentaria convencer Washington da importância da incorporar Buenos Aires ao sistema panamericano. Contudo, o Brasil revelou-se indisposto a dar vazão à proposta peronista de reviver o entendimento de ambos os países com o Chile numa associação sul-americana. Ao longo de seis anos (1945-1951), Perón faria quatro propostas concretas de associação com o Brasil e o Chile, sem conseguir obter respostas do Itamaraty. 1948 No contexto da IX Conferência Internacional Americana (Bogotá), momento do nascimento da Organização dos Estados Americanos, Perón busca levantar questões territoriais como Malvinas e Antártica, ao que se opõem Uruguai, Brasil e Estados Unidos. A pedido do chanceler brasileiro Raul Fernandes, o deputado Arnon de Mello visita a Argentina para estudar o peronismo. A reação do político foi negativa: segundo ele, Buenos Aires estava preparando um ataque ao Brasil, que seria o único grande obstáculo a sua expansão. 1949 Assume a embaixada em Buenos Aires o embaixador General Milton de F. Almeida, cujo principal objetivo era aliviar as tensões do relacionamento bilateral. A cordial recepção de Perón permitiu a Almeida diluir a intensidade do alerta em que o Itamaraty se encontrava a respeito de um eventual expansionismo argentino. Para o embaixador, a cooperação bilateral promovida pela Argentina nos campos do comércio, obras públicas e investimentos era benévola. Em função disso, Dutra retoma, momentaneamente, a ação cooperativa com a Argentina. O embaixador Almeida convida o jovem secretário Antônio Francisco Azeredo da Silveira a trabalhar na capital portenha. Aos 32 anos de idade, Silveira começava a formar uma idéia sobre a Argentina, seu sistema político e os impactos internos de seu processo de construção nacional. 1950 Perón recompõe o vínculo com os Estados Unidos ao apoiar o esforço de guerra com a Coréia, aprovar o TIAR e emitir sinais de combate ao comunismo. O chefe de Estado argentino aproveita a nova face da diplomacia brasileira para, novamente, sugerir a criação de um entendimento entre Argentina, Brasil e Chile. 143 1951 Ao deparar com uma fria reação no Rio de Janeiro, e aproveitando a sucessão presidencial no Brasil, Perón decide abandonar a censura que impusera às críticas da imprensa argentina ao vizinho. Vargas vence o pleito e reconduz Neves da Fontoura ao Itamaraty. Com ele, voltava à cena a idéia de que o entendimento com a Argentina era prejudicial às relações com os Estados Unidos. Apesar disso, Batista Lusardo a ocupar a embaixada em Buenos Aires. Há suspeitas de que, nesse período, Vargas utilizasse agentes especiais para comunicar-se com Perón, sem que disso soubessem seu chanceler ou seu embaixador na capital argentina. 1952 Após missão do general Góes Monteiro a Washington, é concluído um Tratado de Assistência Militar entre o Brasil e os Estados Unidos. 1953 O chanceler Neves da Fontoura rechaça frontalmente as propostas integracionistas da Argentina, inviabilizando um possível entendimento argentino-chileno. Perón confessa sua decepção pela hesitação de Vargas face às propostas argentinas e acusa o Itamaraty de obstruir a formação de um bloco sul-americano em discurso para a Escola Nacional de Guerra da Argentina. O discurso, que era supostamente sigiloso, foi tornado público, no Brasil, pela oposição. Neves da Fontoura pede demissão e acusa Vargas de trair os interesses da nação e da solidariedade continental. As palavras do dirigente argentino são: “O Itamaraty vem sonhando, desde a época de seu Imperador até os nossos dias, com uma política que tem se prolongado ao longo do tempo e permeado todos os homens que ocuparam esse difícil cargo[a Presidência da República] no Brasil; essa política deve ser vencida com o tempo e com um bom proceder de nossa parte (…) Todo o sistema do Itamaraty deve ser desmontado e devem desaparecer esses resquícios imperiais que constituem, mais do que nenhuma outra razão, o principal obstáculo para que o Brasil embarque em uma verdadeira união com a Argentina. Nós não temos nenhum problema com isso, pois não é nosso o sonho da hegemonia, e estamos prontos a dizer-lhes: são vocês maiores, mais bonitos e melhores do que nós”. Em viagem a Assunção, Perón devolve os troféus de guerra ao Paraguai. É nomeado cidadão paraguaio e general do exército daquele país. Ernesto Geisel faria o mesmo, do lado brasileiro, um quarto de século mais tarde. 1954 A proposta peronista de um novo pacto ABC fracassa pelas pressões sofridas por Vargas, que é acusado de pretender estabelecer no Brasil uma “República sindicalista”. Vargas se suicida e assume Café Filho, cujo chanceler é Raul Fernandes (26 agosto). 1955 A Revolução Libertadora derruba Perón, que deixa o país pelo exílio na Espanha de Franco. 144 Os caminhos de Uruguaiana: o retorno da cordialidade oficial Entre 1956 e 1966, a cordialidade oficial foi recuperada ao acervo diplomático do Brasil. Seu retorno esteve marcado pela dramática evolução das políticas exteriores de ambos países face ao perigo do comunismo na América Latina e às turbulências domésticas geradas em decorrência disso. As personalidades que lideraram esse processo foram Juscelino Kubitschek (1956-1961) e Arturo Frondizi (1958-1962), seguidos por Jânio Quadros (1961). A série de movimentos bilaterais deu origem ao breve espírito de Uruguaiana, subitamente eliminado pela quebra dos respectivos ordenamentos constitucionais. 1956 Juscelino Kubitschek (JK) é eleito presidente no Brasil. Macedo Soares ocupa a chancelaria. 1958 JK envia carta ao Presidente Eisenhower, sugerindo que os Estados Unidos patrocinem um programa de ajuda ao desenvolvimento econômico e combate à pobreza na América Latina, como forma de fortalecer a democracia no hemisfério (a iniciativa passaria para a história como a Operação Pan-Americana). O gesto conta com o apoio do recém eleito Arturo Frondizi, da Argentina, que buscou, sem sucesso, emular a dinâmica do desenvolvimentismo brasileiro. 1961 Jânio Quadros assume a Presidência da República convencido da relevância do bom entendimento entre Argentina e Brasil. Os dois países assinam o Convênio de Amizade e Consulta, a Declaração Conjunta, a Declaração Econômica e a Declaração sobre Intercâmbio Cultural de Uruguaiana (Rio Grande do Sul) no intuito de criar um pólo de atração nas Américas que fosse alternativo à América Central, entre 20 e 22 de abril. O chanceler brasileiro é Afonso Arinos de Mello Franco. As diplomacias dos dois países prosseguem com o movimento engendrado em Uruguaiana ao assinar a Declaração Conjunta, o Tratado de Extradição e a Convenção sobre Assistência Judiciária Gratuita meses mais tarde. Estava finalmente composto o marco jurídico do espírito de Uruguaiana, síntese da aproximação bilateral no pós-Segunda Guerra Mundial. Jânio Quadros deixa a Presidência da República, que passaria a ser ocupada por João Goulart. O novo chanceler é San Tiago Dantas, que dinamiza o diálogo com a Argentina em proporções inusitadas, tratando inclusive do tema mais candente da agenda hemisférica: Cuba. Tem lugar, em Punta del Este (Uruguai), a Conferência de ministros das Finanças do Hemisfério Ocidental. O Presidente John Kennedy aproveita a ocasião para lançar a Aliança para o Progresso, sua versão da OPA.O chefe da delegação brasileira, Roberto Campos, teria dito a seu colega argentino, Oscar Camilión: “O senhor é o chefe da delegação brasileira”. 1962 Cai Frondizi devido a um golpe militar. Dentre os argumentos apresentados pela corporação castrense para destituir o mandatário, destaca-se a associação do mesmo ao “neutralismo” da política externa brasileira. 1963 Araújo Castro passa a chefiar o Itamaraty. Em 19 de setembro profere o discurso que resume a postura independente (dos desígnios norte-americanos) da diplomacia brasileira à época: o rechaço das teorias definidoras do poder mundial, o incentivo à descolonização e a busca do desenvolvimento econômico. 1964 Golpe militar depõe João Goulart e instaura um regime de força sob o comando de Humberto de Alencar Castelo Branco. O novo ministro de Exteriores, Vasco Leitão da Cunha, reverte as tendências independentistas do período anterior. Um ano mais tarde, o Brasil apoiaria com recursos humanos e financeiros a intervenção norte-americana em República Dominicana. 1965 Parecer do Consultor Jurídico do Itamaraty recomenda uma doutrina para a utilização dos rios internacionais que, limitando-se a princípios gerais, defina: a) a “não-imposição de prejuízos” aos Estados interessados e b) a notificação, a esses estados, de eventuais obras em trechos internacionais (por oposição à consulta prévia). 145 O fim da cordialidade oficial Entre 1966 e 1973, as relações argentino-brasileiras assistiram a um grau de deterioração raramente visto em sua história. A definição do regime internacional da Bacia do Prata levou a um caminho de confrontacionismo inédito, cuja principal conseqüência foi diluir a cordialidade oficial como melhor opção nos negócios relativos ao governo de Buenos Aires. Entre 1974 e 1979, durante o governo de Ernesto Geisel, a tradicional política brasileira para a Argentina seria profundamente rechaçada – tratava-se de uma conjuntura crítica a eliminar a tendência histórica. 1966 Brasil e Paraguai decidem avançar a exploração conjunta do rio Paraná. O governo argentino reage convidando Brasil, Bolívia, Paraguai e Urugauai a formar um regime regulador da utilização dos recursos naturais compartilhados da Bacia do Prata. A carta em que formaliza o convite, de 2 de junho, afirma que é crucial outorgar ao aproveitamento dos recursos “o mesmo caráter regional que a natureza impõe”. A despeito da sinalização argentina, Brasil e Paraguai assinam a Ata das Cataratas (ou Ata de Iguaçu), relativa às pretensões territoriais recíprocas no Salto das Sete Quedas e ao aproveitamento comum dos recursos hidroelétricos do Paraná. Esse fato prenuncia a deterioração do eixo bilateral, que 11 anos mais tarde atingiria seu maior ponto de depressão no século XX. O general Onganía assume a Casa Rosada mediante um golpe batizado de Revolução Argentina. 1967 Ocorre a I Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata. A argentina reivindica participação no projeto hidrelétrico das Sete Quedas argumentando que os trabalhos lá realizados poderiam afetar o regime e a qualidade das águas do rio Paraná, que banha os principais portos argentinos. Fortalece seu argumento ao notar que o Brasil já invocara o princípio da consulta prévia aos estados interessados em 1933, ao patrocinar e assinar a Declaração de Montevidéu. Se por um lado a demanda argentina é frustada, por outro a delegação daquele país consegue aprovar a criação de um Comitê Intergovernamental Coordenador da Bacia (CIC), composto pelos embaixadores dos países-membro em Buenos Aires. Ao longo dos quatro anos precedentes, o fluxo de manufaturados argentinos exportados para o Brasil passara de US$7 para 10 milhões, enquanto a rota inversa crescera de US$ 1 para 32 milhões. 1969 Ao deixar o seu posto em Buenos Aires, o embaixador brasileiro Pio Corrêa encaminha uma carta ao Itamaraty em que detalha sua percepção sobre o desafio argentino. A tese que apresenta está fundada na necessidade de entendimento prévio entre Brasil e Argentina para o êxito de qualquer processo de integração regional. Sugere a criação de um sistema de consulta permanente e de concertação política entre as duas diplomacias. Para ele, os regimes militares implantados em 1964 (Brasil) e 1966 (Argentina) convergiam quanto a convicções ideológicas e teorias sócio-econômicas que facilitariam o entendimento (por exemplo, repudiavam a Terceira Posição peronista, o neutralismo do Movimento dos Não Alinhados e, no embate Leste-Oeste, optavam decididamente pelo Ocidente liberal). “Para o Brasil e para a Argentina existe a necessidade imperiosa de uma complementação industrial mútua: somente assim poderão os dois países chegar a economias de escala, condição indispensável para atingir a um desenvolvimento econômico de caráter genuinamente industrial e pós-industrial Não há outro caminho para chegar a isso, senão a articulação dos dois mercados em um mercado comum subregional, mediante o planejamento em conjunto da política industrial dos dois países, de modo a assegurar às respectivas indústrias, na fase sobretudo de amortização do investimento inicial, base de mercado que proporcione condições econômicas de operação,competitivas com as similares de outros países”. Em seu lugar, assume a embaixada Antônio Francisco Azeredo da Silveira, quem iniciaria o processo de reversão da cordialidade oficial como guia de ação brasileiro para lidar com o desafio argentino. Segundo o novo representante, as profundas clivagens da história argentina e a incapacidade daquele povo em sintetizar interesses verdadeiramente nacionais, faziam do vizinho um risco para o qual toda atenção era pouca. Os países da Bacia assinam o Tratado da Bacia do Prata, em Brasília. O Tratado apenas estabelecia a forma do regime multilateral a reger a cooperação no contexto regional, sem com isso delimitar especificidades sobre a construção de obras sobre o leito de trechos internacionais. Gibson Barboza é o novo chanceler brasileiro, na recém inaugurada gestão do Presidente Médici (19691974). Durante o período, a diplomacia brasileira iniciou uma jornada em direção a Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Venezuela, em busca de insumos para o desenvolvimento. 146 1970 Assume a secretaria de estado de recursos hídricos da Argentina, o engenheiro Guillermo Cano. Estruturava-se, a partir de então, o argumento daquele país, segundo o qual era fundamental desenvolver um estatuto jurídico destinado a disciplinar o uso dos recursos hídricos da Bacia do Prata. Mirando o projeto brasileiro-paraguaio de Itaipu, Cano defendia a incorporação da tese da consulta prévia compulsória aos ribeirinhos inferiores em rios internacionais sucessivos. Já Silveira sustentava uma tese diferente, baseada em dois princípios: o respeito à soberania do ribeirinho superior em decisões concernentes ao aproveitamento dos rios e o compromisso, o estado a montante, de não causar danos sensíveis a terceiros. Onganía é derrubado por um golpe militar e Cano deixa a representação argentina no CIC. Diante da juridicidade dos argumentos argentinos sobre as incoerências da postura brasileira no tempo (o Brasil apoiara a consulta prévia compulsória em 1833) e no espaço (o país tinha duas posturas para os rios internacionais, uma no Prata e outra no Amazonas), Silveira escolheu por um choque de realismo: reconheceu o erro cometido em 1833 e o justificou a nova postura à luz das circunstâncias históricas. 1971 O embaixador Silveira elabora longo parecer sobre a questão hídrica no intuito de formular uma nova doutrina brasileira para o tema e consagrá-la regionalmente. Na essência do argumento, a diferenciação entre rios contíguos (cujo aproveitamento deveria ser bilateral) e rios sucessivos (em que cada Estado tinha direito sobre o trecho sob sua jurisdição). A soberania por ele proposta não era absoluta, mas limitava-se ao assegurar que suas ações não causariam prejuízos sensíveis e permanentes aos outros Estados. Dessa forma, o Brasil ganhava força por contar com um entendimento único para as duas grandes bacias internacionais que lhe cortam o território, a do Prata (onde é país a montante) e a do Amazonas (onde é país a jusante). A disputa com a Argentina pela questão dos rios chega às Nações Unidas, cindindo as delegações latinoamericanas e paralisando os debates no quesito “meio ambiente”. Durante viagem oficial aos Estados Unidos, o Presidente Médici ouve de seu colega norte-americano Richard Nixon que o futuro da América Latina está irreversivelmente associado ao do Brasil. Essas palavras têm efeito deletérios dos interesses de Brasília na região, pois levantam a suspeita de que “amizade especial” entre os dois países voltava à carga em uma conjuntura de aberto antiianquismo. O general Lanusse ocupa a Casa Rosada e aposta, com seu chanceler, José Maria de Pablo Pardo, na denúncia de alto perfil contra o Brasil. Faz isso mediante pomposos encontros com todos os países da América do Sul, onde buscava manifestações de solidariedade. A tônica dessas visitas é apoio financeiro em troca de declarações de simpatia à tese da consulta prévia. No caso uruguaio, o governo de Montevidéu chega a “agradecer” a Argentina em documento oficial. No grupo de peritos do CIC, a delegação argentina submete uma proposta sabidamente inaceitável para o Brasil, fazendo o Itamaraty arcar com o ônus da paralisia do diálogo. Segundo Silveira, isso era devido à necessidade do chanceler de Pablo Pardo conseguir um grande sucesso internacional para manter a pasta no intenso clima de competição que marcava o cenário doméstico de então. A Argentina apresenta ao CIC documentos assinados bilateralmente com a Bolívia e o Uruguai sobre a questão dos rios, com o fito de oficializa-los. Diante da indignação brasileira, um representante do governo uruguaio afirma que seu país assinara o documento com a Argentina às pressas, sem ter tempo para estuda-lo em detalhe. Silveira propõe que o Brasil se retire da mesa de negociações, uma vez que os acordos bilaterais celebrados por Buenos Aires feriam espírito e letra do Tratado da Bacia do Prata. O chanceler Gibson Barboza, contudo, sugere não denunciar a postura incoerente da Argentina e apresentar isso como uma “concessão” brasileira a Buenos Aires. Silveira sugere, em telegrama secreto ao Itamaraty, que “daqui por diante, qualquer aspecto de nossa política bilateral com a Argentina – desde o intercâmbio comercial até o recurso água, por exemplo – deve ser considerado não apenas em seus aspectos específicos, mas á luz das atuais diretrizes gerais do governo argentino (...) sem pactuar com a presente orientação [do mesmo] ou fazer-lhe concessões”. Era o rechaço da embaixada em Buenos Aires à cordialidade oficial. Durante encontro com Silveira, o chanceler de Pablo Pardo afirma, curiosamente, ter celebrado os instrumentos bilaterais sobre o tema da consulta prévia no intuito de ajudar o Itamaraty a convencer a população brasileira da importância desse princípio jurídico. Segundo ele, Gibson Barboza teria lhe confidenciado que era esse o motivo pelo qual o governo brasileiro não podia aderir a semelhante orientação. Na lógica do diplomata argentino, a série de encontros de Lanusse abriria espaços para uma reversão da opinião pública brasileira. Essas afirmações enfureceram Gibson Barboza, que decidiu abandonar a tolerância em relação às incoerências da diplomacia argentina. Finalmente, os reclamos de Silveira eram correspondidos por Brasília. 147 1972 Lanusse realiza encontros similares aos de 1971, desta vez com Paraguai e Equador: uma linha de crédito era aberta, lançavam-se bases para estudos sobre aproveitamento conjunto de rios internacionais, rechaçavam-se as hegemonias, reconhecia-se que as relações internacionais da América do Sul deviam ser conduzidas em foros multilaterais devido à “estrutura física” do subcontinente e, finalmente, destacavam-se os laços cooperativos entre as Forças Armadas argentinas e suas correspondentes. Tem lugar a Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente, marcando o início do contencioso argentino-brasileiro sobre a questão dos rios em foros internacionais. Enquanto isso, o chanceler brasileiro Mario Gibson Barboza autoriza seu embaixador nas Nações Unidas a iniciar a busca de um entendimento em Nova Iorque. Poucos dias mais tarde, os dois países trocavam cartas sobre o tema dos rios internacionais e patrocinavam a Resolução 2994 da Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU), aprovada por unanimidade. Essas medidas ficaram conhecidas como o “Acordo de Nova Iorque”. A generalidade do mesmo, que se limita a estabelecer o princípio da troca de informações técnicas sobre obras realizadas no leito de rios internacionais, assegurou a sua rápida assinatura. Também assegurou-lhe vida curta. O teste de fogo do “Acordo” foi o enchimento da represa de Ilha Solteira: quando decidiu iniciar os trabalhos de enchimento, o governo brasileiro enviou cópia da notícia, publicada no Diário Oficial, ao embaixador argentino em Brasília. O Palácio San Martín reagiu imediatamente, solicitando a Silveira que o mesmo informasse oficialmente o governo argentino em Buenos Aires. O diplomata brasileiro negou-se a faze-lo, para o que contou com o apoio de seu chanceler. O “Acordo de Nova Iorque” passou a ser amplamente criticado na sociedade argentina. 1973 Brasil e Paraguai criam a empresa binacional de Itaipu. Mário Campora assume o comando da Casa Rosada. Nas celebrações referentes a sua posse, revela a Silveira a sua intenção de pôr fim à questão dos rios internacionais o mais rapidamente possível. Aceleram-se os projetos de cooperação argentino-brasileira sobre o rio Uruguai mediante estudos de viabilidade da construção de hidrelétricas em São Pedro, Garabí e Roncador. Com o apoio do governo brasileiro, Buenos Aires “denuncia” a troca de cartas e a Resolução da ONU que haviam dado origem ao “Acordo de Nova Iorque”. Perón retorna à Argentina de seu exílio na Espanha e elege-se presidente. Vignes é seu chanceler. Perón e Stroessner assinam o tratado que dá início ao planejamento da obra Yaciretá-Apipé, sobre o trecho argentino-paraguaio do rio Paraná. Golpe de Estado no Chile abre o caminho para o contágio da região, pois golpes similares ocorreram no Peru (1975), Argentina (1976) e Uruguai (1976). 1974 Ernesto Geisel assume a Presidência da República na presença de Hugo Banzer (Bolívia), Augusto Pinochet (Chile) e Juan Maria Bordaberry (Uruguai). Na primeira reunião com seu Gabinete, afirma que procederá a significativas modificações no perfil externo do país, batizando a sua diplomacia de Pragmatismo Responsável. Em seu discurso de posse no Itamaraty, Silveira afirma que “a melhor tradição [da Casa] é saber renovar-se”. Encontro entre Geisel e Banzer confirma apoio brasileiro a uma saída boliviana para o mar, oferecendo para tanto facilidades no porto de Santos (São Paulo). Nessa ocasião, Silveira desmente que o Brasil busque competir com a Argentina pelo apoio boliviano. Geisel aproveita seu discurso oficial para afirmar que: “À semelhança do que se passa entre seres humanos, o conhecimento objetivo entre nações, de sua personalidade e de seu gênio, constitui o substrato de afinidades eletivas sobre o qual se formam e amadurecem, no plano internacional, interesses comunitários autênticos e prolongados”. Após encontro de 30 minutos com Perón, por ocasião da VI Conferência de Chanceleres da Bacia do Prata, Silveira confirma à imprensa que haverá em encontro do mandatário argentino com Geisel, no “médio prazo”, para acertar o aproveitamento conjunto do rio Uruguai e para compatibilizar tecnicamente os projetos de Corpus e Itaipu. Após o encontro, contudo, o chanceler Vignes blefa e distorce as informações que passa a Silveira e ao embaixador brasileiro em Buenos Aires, João Batista Pinheiro. No centro do embate, a cota de regente que devia ser assegurada a uma potencial hidrelétrica argentino-paraguaia no rio Paraná, Corpus Christi. 148 Em carta endereçada a Geisel, o presidente norte-americano Gerald Ford afirma que: “O Brasil e os EUA têm compartilhado, de há muito, pontos de vista e objetivos comuns no mundo, e nossos interesses não foram nunca tão próximos quanto o são hoje”. Morre Perón e assume a sua esposa, Maria Isabel de Perón. Eclode, na Argentina, a guerra entre forças paramilitares de extrema direta, as Forças Armadas, as polícias e as guerrilhas urbanas. O Brasil assina acordos de cooperação e complementação industrial com Bolívia e Uruguai, em troca ao apoio na questão dos rios. Mais tarde apoiaria uma saída marítima para La Paz. Silveira e o Secretário de Estado Henry Kissinger passam a manter contato sistemático até o fim do governo de Gerald Ford, em 1977 (os encontros entre os dois chanceleres ocorreram aproximadamente a cada quatro meses). 1975 O comércio bilateral entre Brasil e Argentina chega a US$ 600 milhões. Vítima da instabilidade doméstica, a diplomacia argentina é comandada por três chefes diferentes em menos de um ano. As negociações com o Brasil ficam paralisadas. A Argentina assina, em Montevidéu, um acordo bilateral que põe em xeque o Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação de 1865 e questiona a Convenção Fluvial de 1857, instrumentos que asseguram a livre navegação no Rio da Prata e seus afluentes. O argumento argentino para tal movimento foi o de que à época da celebração desses entendimentos com o Império brasileiro, Buenos Aires não estava plenamente integrada à Confederação Argentina, ente responsável por sua assinatura. 1976 Golpe de Estado na Argentina leva a Junta Militar ao Poder. A Marinha ocupa o Palácio San Martin. A agenda da diplomacia argentina define a questão territorial como prioridade de sua atuação: recuperar as ilhotas do Canal de Beagle em posse do Chile; fazer o Brasil reconhecer que as águas do rio Paraná afetam diretamente a Argentina; recuperar as Ilhas Malvinas, em posse do Reino Unido; definir a soberania Argentina sobre o trecho argentino-chileno da Cordilheira dos Andes; e definir a projeção marítima do país. Oscar Camilión, outrora articulador do espírito de Uruguaiana, é indicado para ocupar a embaixada em Brasília, e seu placet demora mais do que o normal para ser outorgado. Ao chegar à embaixada, ouve de um adido militar que, caso não haja sucesso diplomático na questão de Itaipu, a Argentina não teria outra opção que a destruição física de Itaipu. Ao apresentar as credenciais ao Palácio do Planalto, o embaixador ouve de Geisel que não há nenhum tema pendente na agenda bilateral, em uma clara sinalização de que Brasília não estaria disposta a discutir com a Argentina um tema da exclusiva alçada brasileiro-paraguaia. Finda a reunião com Geisel, Camilión oferece uma coletiva à imprensa em sua residência, evento que marca o início de um relacionamento fluído e sistemático entre a embaixada argentina e os meios de comunicação brasileiros. Mais tarde, Silveira reagia mediante a reestruturação da assessoria de comunicação do Itamaraty, sob a chefia do então ministro Luis Felipe Lampreia. Silveira propõe a Geisel a realização de um Tratado de Cooperação Amazônica, iniciativa pela qual a doutrina brasileira para os rios internacionais ficaria consolidada, assim como a amizade com os países de sua fronteira setentrional (Venezuela, Guiana, Suriname, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia). Trata-se o primeiro movimento regional brasileiro em nível multilateral sem a presença, ou mesmo anuência, do governo argentino. Em visita ao Brasil, o Secretário de Estado Henry Kissinger assina com Silveira um memorando de entendimento que tem por objetivo reconhecer o valor potencial da parceria entre os dois países e diluir o negativismo do relacionamento bilateral. O chanceler brasileiro oferece apoio a seu colega norte-americano na promoção do diálogo com Bolívia, Paraguai e Uruguai. A Argentina manifesta sua indignação diante da política desestabilizadora de Washington, que ao reconhecer lideranças estaria abrindo caminho para o desentendimento na América do Sul. Em correspondência secreta a Geisel, Silveira sugere intercâmbio técnico com a Argentina na área da energia nuclear e, para isso, o início de um “diálogo discreto” com o vizinho. Seria essa uma forma de rebater as críticas internacionais aos programas de desenvolvimento nuclear no Cone Sul. 1977 A política de sedução, ensaiada por Camilión desde seu primeiro dia como embaixador no Brasil, consegue virar a opinião pública brasileira em seu favor. Geisel e Silveira manifestam sua indignação com a publicidade outorgada às negociações e aos entendimentos de caráter sigiloso em torno de Itaipu. 149 Ao ser entrevistado pela revista Veja, o embaixador argentino afirma que: a) a Argentina aceita a construção de Itaipu como um dado irreversível; b) Buenos Aires e Brasília deviam assinar imediatamente um entendimento sobre o tema para deslanchar o sempre protelado projeto de cooperação econômica; c) a cooperação nuclear entre os dois países era a melhor solução para resistir ao avanço da política de congelamento do poder mundial propugnada pelo Presidente norte-americano Jimmy Carter. Esse último ponto quase lhe valeu a declaração de persona non grata e, na Argentina, a crítica da imprensa (por ser excessivamente condescendente com Silveira). Diferentemente, a imprensa brasileira e o Presidente da Nucleobrás, também diplomata, congratulam os gestos do embaixador. Stroessner pede apoio ao embaixador brasileiro em Assunção para resistir às pressões do governo argentino na questão dos rios. Geisel viaja ao Paraguai devolve os troféus de guerra, movimento similar ao do primeiro governo de Perón. A paralisia do diálogo diplomático leva as Forças Armadas de Brasil e Argentina a buscar um entendimento para a questão dos rios. Trata-se de uma diplomacia militar paralela e secreta que, senão conseguiu avançar significativamente no encontro de uma solução, sim fez com que os palácios do Itamaraty e San Martín voltassem a sentar-se à mesa de negociações. Silveira aceita negociar, mas exige do governo argentino a estrita observância do Tratado de Livre Navegação assinado em 1857 e questionado pelo entendimento argentinouruguaio de 1973. Jimmy Carter assume o comando da Casa Branca e lança uma campanha intensa contra o Acordo Nuclear entre Brasil e Alemanha (1975). Durante sua campanha eleitoral havia criticado frontalmente a política de Kissinger para a América Latina. Ao ver-se pressionado pela questão dos direitos humanos, Geisel denuncia o Acordo Militar brasileiro-estadunidense de 1952 com amplo apoio das Forças Armadas e da oposição. A política de Carter aplicada à Argentina é ainda mais dramática, tendo em vista a brutalidade do regime militar lá instalado. Buenos Aires passa a servir como caso exemplar da urgência de um regime contemporâneo de proteção internacional dos direitos humanos desenvolvido sob a égide da ONU. Geisel nega-se a receber Videla ou a esboçar qualquer ação conjunta no campo dos direitos humanos. O novo Secretário de Estado, Cyrus Vance, visita o Brasil no contexto do esforço norte-americano de reversão do acordo teuto-brasileiro (ou, alternativamente, de inclusão dos Estados Unidos na equação bilateral). Durante encontro com Geisel, esquece sobre a mesa um documento que detalhava a posição do Departamento de Estado para a questão nuclear: no intuito de pressionar o governo brasileiro, Vance deveria insinuar que os Estados Unidos estariam dispostos a outorgar à Argentina o papel de poder nuclear delegado na região. A irresponsabilidade do documento, que advoga pela desestabilização da América Latina como instrumento de pressão, deixa Silveira em posição de força para dialogar com Vance. 1978 As delegações de Brasil e Argentina chegam a um acordo sobre a cota de regente em Corpus (105m), consagrando a posição do Brasil. A discordância persiste, todavia, no formato do entendimento: Camilión queria um acordo internacional, mas Silveira insistia em um entendimento técnico mediante a “trilateralização” de uma carta técnica brasileiro-paraguaia. Entretanto, ao esboçar um documento final, o embaixador argentino retoma teses já superados pelo Tratado da Bacia do Prata (1969), tais como “ótimo aproveitamento do rio Paraná”, qualificando Itaipu como “obra de interesse plurinacional”. As delegações sentam-se novamente à mesa para uma rodada de entendimentos. O Almirante Massera, membro da Junta Militar da Casa Rosada, prepara-se para invadir território chileno e recuperar as ilhotas do Canal de Beagle, cuja soberania havia sido outorgada ao Chile por um laudo arbitral da Coroa Britânica (solicitado pela própria Argentina). Preparando-se para a defesa, Augusto Pinichoet envia um emissário ao Brasil, que pede a Silveira bons ofícios para sensibilizar Washington dos perigos de uma escalada violenta entre Santiago e Buenos Aires. Silveira aceita intermediar o contato, mas afirma que o Chile devia esperar a passagem de Massera para a reserva, pois isso esvaziaria o conflito potencial. Três meses depois, a Marinha e setores do Exército argentino tentavam, sem sucesso e sem o conhecimento do Presidente Videla, cortar o Chile ao meio e tomar as ilhotas à força. O exercício é um fiasco devido a um temporal e ao recuo de Pinochet, que não teria revidado a breve intrusão argentina em território chileno. Massera deixa o governo em seguida. Esse fenômeno reforça, para Silveira, a idéia de que um acordo internacional com a Argentina sobre a questão do rio Paraná não era garantia de estabilidade. Em outubro, os chanceleres de Argentina e Brasil chegavam, por telefone, a um entendimento final para a questão dos rios. Porém, durante o encontro previsto para redigir o documento, que ainda não tinha forma, a delegação Argentina recuou e sugeriu que Silveira recebesse, no Itamaraty, um emissário da Casa Rosada. O Almirante Colombo chega a Brasília com a proposta de modificar a cota de regente em Corpus. Nesse momento, Silveira telefona para Geisel e sugere-lhe encerrar negociações com a Argentina definitivamente. O Presidente 150 aceita a proposta, afirmando que, devido às circunstâncias impostas pela errante diplomacia argentina, não cabia a seu governo chegar à conclusão do problema. Janeiro/fevereiro 1979 Em sua última reunião de Chanceleres da Bacia do Prata, em Assunção, Silveira é chamado de “carnavalesco”, “perigoso”, “pouco sério”, inconsciente”e “pueril” pela imprensa brasileira. O legado: o projeto de integração A instalação do governo Figueiredo criou as condições para uma reforma geral da política brasileira para a Argentina, pois era necessário definir um lugar para o vizinho mais importante depois da depressão experimentada pelo vínculo bilateral durante o governo Geisel. A nova abordagem está calcada na construção da parceria estratégica mais importante projeto internacional brasileiro no século XXI. 1979 João Baptista Figueiredo é empossado na Presidência da República. Nesse mesmo dia, o futuro chanceler Saraiva Guerreiro comprometia-se com a representação argentina a pôr um ponto final ao conflito dos rios. É assinado o Acordo Tripartite entre Argentina, Brasil e Paraguai sobre o aproveitamento hidrelétrico das usinas de Itaipu e Corpus. O texto consagra as posições defendidas pelo Brasil, mas no formato proposto pela Argentina (isto é, um acordo internacional por oposição a uma troca de notas técnicas). 1980 Figueiredo vai à Argentina na primeira visita oficial de um mandatário brasileiro desde 1935. O presidente argentino Videla devolve o gesto, visitando o Brasil e afirma, junto ao colega brasileiro, as possibilidades da integração econômica entre os dois países. 1981 Figueiredo encontra seu par argentino, Viola, em Paso de Los Libres. Um mês mais tarde o Brasil assina um acordo de cooperação nuclear com o Peru. 1982 Argentina e Brasil formalizam acordo para construir uma ponte sobre o rio Iguaçu. Argentina inicia e perde uma guerra convencional contra a Grã-Bretanha pela posse das Ilhas Malvinas. O governo brasileiro apóia os reclamos jurídicos de Buenos Aires, propõe uma fórmula de pacificação ao Secretário Geral das Nações Unidas, solidariza-se com o vizinho nas principais praças diplomáticas da América Latina, apoia com recursos humanos e materiais a empreitada e, finda a guerra, representa os interesses argentinos em Londres até a normalização das relações anglo-britânicas, em 1990. 1983 Chega ao fim o regime militar argentino, vigente desde 1976. Assume a chefia do Estado Raúl Alfonsín, entusiasta do projeto de integração. O embaixador brasileiro em Buenos Aires foi o único representante a ser recebido pelo Presidente eleito no dia da posse: o vínculo bilateral seria intensificado radicalmente. 1984 Entendimento por troca de Notas entre Argentina e Brasil para o estabelecimento de mecanismos de consulta político-econômica. Quatro meses mais tarde é inaugurado o Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires. 1985 Fim do regime militar no Brasil. Em março, José Sarney assume a Presidência da República. Brasil compõe o Grupo de Apoio a Contadora, junto com Argentina, Peru e Uruguai. Sarney e Alfronsín firmam a Declaração de Iguaçu sobre a cooperação pacífica no campo da energia nuclear. 151 1986 Em visita a Buenos Aires, Sarney e Alfonsín assinam a Ata de Integração Brasileiro-Argentina, estabelecendo o Programa de Integração e Cooperação Econômica entre os dois países. Em dezembro, Alfonsín visita Brasília, onde os dois mandatários assinam a Ata de Amizade com o Uruguai. É criado, no Rio de Janeiro, o Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política (Grupo de Rio), por Argentina, Brasil, México, Colômbia, Peru, Panamá, Venezuela e Uruguai. 1987 Os dois países iniciam reuniões entre suas Forças Armadas. Em visita à Argentina, Sarney e Alfonsín assinam a Declaração Conjunta brasileiro-argentina sobre Política Nuclear. Os chefes de Estado de Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, México, Panamá, Peru, Equador, Uruguai e Venezuela adotam um “Acordo para a paz, o desenvolvimento e a democracia” (Acapulco). 1988 A I Reunião dos Países do Atlântico Sul ocorre no Rio de Janeiro. Em seguida, Sarney visita Buenos Aires, onde é assinado o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento entre os dois países, projetando um mercado comum para 1998. 1989 Carlos Saul Menem alcança a Presidência da Argentina. 1990 Fernando Collor de Mello é empossado no Brasil. Em visita à Argentina, assina com Menem a Ata de Buenos Aires pela qual os dos se comprometem a conformar um mercado comum até o fim de 1994, quatro anos antes do previsto. A América do Sul é declarada Zona de Paz. 1991 O Acordo para o Uso Pacífico da Energia Nuclear é firmado entre as duas nações. Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai firmam o Tratado de Assunção, que constitui o Mercosul. Em apenas quatro anos, o fluxo de comércio intra-bloco seria multiplicado por quatro. Argentina, Brasil e Chile assinam a Declaração Conjunta sobre Proibição Completa das Armas Químicas e Biológicas. Argentina e Brasil assinam o Acordo Quadripartite de Salvaguardas, criando a Agência Brasil-Argentina de Controle de Material Nuclear. 1992 É celebrado um acordo entre o Mercosul e a União Européia. Fernando Collor de Mello é afastado da Presidência, que é assumida por Itamar Franco. Seu chanceler é Fernando Henrique Cardoso. É inaugurada a sede da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares. 1994 Entra em vigor o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), reunindo os Estados Unidos, o Canadá e o México. Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai assinam o Protocolo de Ouro Preto, dotando o Mercosul de personalidade internacional e confirmando o caráter intergovernamental da iniciativa. 1995 Fernando Henrique Cardoso é empossado na Presidência da República, nomeando para Exteriores o embaixador Luiz Felipe Lampreia. Entra em vigor a União Aduaneira no âmbito do Mercosul com a adoção de uma tarifa externa comum. É firmada no Itamaraty a Declaração de Paz entre Peru e Equador. Fernando Henrique Cardoso assiste à segunda posse de Carlos Saul Menem em Buenos Aires. Após declarar que não comprará ou negociará transações com mísseis de longo alcance, o Brasil adere ao regime de Controle de Tecnologia de Mísseis. 152 É firmado em Madrid o Acordo Quadro de Cooperação Inter-regional entre o Mercosul e a União Européia. 1996 O Chile associa-se formalmente ao Mercosul. Menem defende a doutrina norte-americana segundo a qual as forças armadas sul-americanas devem concentrar seus esforços no combate ao narcotráfico, modificando substancialmente o perfil de seu arsenal e suas estratégias de combate. 1997 Em discurso no Conselho Argentino de Relações Internacionais, o chanceler Lampreia se refere ao relacionamento Brasil-Argentina como “aquele que podemos qualificar como estratégico no universo de nossa política externa, conquanto está intimamente relacionado e é mesmo um determinante de nosso projeto nacional”. Durante visita do chefe de Estado francês, Jacques Chirac, ao Brasil, o Presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que “o relacionamento com a Argentina constitui a pedra angular de nossa política externa”. Divergências entre os Estados Unidos e o Brasil sobre o ritmo da liberalização comercial no hemisfério marcam a Reunião de Vice-Ministros de Comércio no Recife. Os presidentes de Argentina e Brasil reúnem-se no Rio de Janeiro, onde são firmados acordos de cooperação entre as Forças Armadas e projetos de integração energética. O Brasil firma o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, assim como a Argentina o fizera poucos anos antes. Em entrevista ao jornal brasileiro O Estado de S. Paulo, Menem veta publicamente a virtual candidatura do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Presidente norte-americano Bill Clinton visita o país na seqüência dos desentendimentos entre Brasília e Washington sobre o ritmo e escopo da integração hemisférica. 1998 O governo russo anuncia a suspensão do pagamento de sua dívida externa. A instabilidade gerada nos mercados internacionais levanta uma onda de desconfiança em relação aos países emergentes e derrubam as bolsas de valores de São Paulo, Buenos Aires e Caracas. Fernando Henrique Cardoso é reeleito. O governo da Colômbia solicita a autorização de Brasília para utilizar a base militar de Iauretê, na Amazônia, apara abastecer helicópteros e aviões antiguerrilha. Antes de obter uma resposta, contudo, a pista de pouso de Quebraí, no Brasil, é utilizada. O Itamaraty protesta formalmente contra a violação do território nacional. 1999 Menem apóia publicamente a proposta norte-americana de envio de tropas à Colômbia, no intuito de reverter os ganhos de posição da guerrilha. Ele solicita e consegue o status de aliado extra-OTAN para a Argentina. Tem início uma crise econômica, social e política sem proporções na história argentina. 153 Bibliografia Livros ABREU, M. de P.; FRITSCH, W. Aspectos estratégicos da política comercial brasileira. In: ALBUQUERQUE, J. A. G. (Org.). Sessenta anos de política externa brasileira,1930-1990: crescimento, modernização e política externa. São Paulo: Editora Vox, 1996. 2. v. p. 47-64. ACUÑA, C. La nueva matriz política argentina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1995. ACUÑA, C.; SMULOVITZ, C. Militares en la transición argentina: del gobierno a la subordinación constitucional. In: ACUÑA et al. Juicios, castigos y memoria: derechos humanos y justicia en la política argentina. Buenos Aires: Nueva Visión, 1995. s/p. ALBUQUERQUE, J. A. G. (Org.). Sessenta anos de política externa brasileira,1930-1990: crescimento, modernização e política externa. . São Paulo: Editora Vox, 1996. 2v. AMADO, R. Araújo Castro. 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Silveira ao MRE, telegrama confidencial, Buenos Aires, 21 de março de 1970, n. 49, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 30 de dezembro de 1971, n. 2324, AAS, 69.09.02. CPDOC/FGV. 165 Silveira ao MRE, ofício-parecer, Buenos Aires, 10 de maio de 1971, n. 394, AHMRE, caixa 17. Silveira ao MRE, ofício secreto, Buenos Aires, 23 de junho de 1971, n. 518, AHMRE, caixa 17 Silveira ao MRE, telegrama secreto, Buenos Aires, 14 de julho de 1971, n.1133, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama, Buenos Aires, 22 de novembro de 1971, n. 2097, AAS, 1969.09.02. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 26 de julho de 1971, n. 1237, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Silveira ao Ministro Luis María de Pablo Pardo, Buenos Aires, 28 de julho de 1971, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama secreto urgentíssimo, Buenos Aires, 5 de agosto de 1971, n. 1322, AAS, 1969.01.15. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama urgente, Buenos Aires, 28 de janeiro de 1972, n. 148, AAS, 69.09.02. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama confidencial urgentíssimo, Buenos Aires, 17 de maio de 1973, n. 1266, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV. Silveira ao MRE, telegrama secreto exclusivo urgentíssimo, Buenos Aires, 16 de abril de 1973, n. 988, AAS, 1972 a 73. CPDOC/FGV. 166