A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO AGROECOLÓGICO ENTRE AGRICULTORES E PESQUISADORES DAS UNIVERSIDADES: UMA EXPERIÊNCIA EM ASSENTAMENTOS NO DISTRITO FEDERAL E ENTORNO Helana Célia de Abreu Freitas* Sabine Ruth Popov Cardoso** Nayara dos Santos Moreira*** Luciana Morais de Freitas**** Carolina Rizzi Starr***** Resumo Este artigo aborda os resultados do diagnóstico de uma pesquisa que analisa o conhecimento que está sendo gerado em três assentamentos localizados no Entorno do Distrito Federal, que vêm implementando práticas de produção agroecológicas. Esta pesquisa se enquadra dentro de uma pesquisa maior que visa desenvolver técnicas diretamente aplicadas à agricultura familiar, sendo construídos de forma coletiva com os agricultores, com todos os experimentos práticos sendo elaborados nas áreas dos assentamentos. As técnicas e todas as etapas de construção do pensamento científico, estão sendo desenvolvidas com os agricultores, facilitando a apropriação dessas novas tecnologias. A pesquisa está sendo implementada em três assentamentos: Eldorado dos Carajás em Unaí (MG), Terra Conquistada (GO) e Colônia (DF), os quais vêm desenvolvendo diversas práticas agrícolas de cunho agroecológico. Dentre as ações estão a pesquisa de forma participativa e método qualitativo por meio de entrevistas, questionários e relatos de experiência. Como resultado tem-se compreendido melhor o processo de apropriação dessas tecnologias pelo agricultor, a partir da compreensão das condições sociais dos assentamentos. O projeto de pesquisa está sendo financiado pelo CNPQ. * Doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB). ** Graduanda em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB). ***Graduanda em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília (UnB) ****Mestre em Agronomia pela Universidade de Brasília (UnB) *****Mestre em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília (UnB) Introdução Este artigo apresenta os primeiros resultados de uma pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), a qual tem por objetivo desenvolver e construir tecnologias aplicadas a sistemas de produção ecológicos, visando à redução de custo e melhoria da aplicabilidade para a agricultura familiar e a ampliação da produção, bem como a busca de culturas que possam ter os seus valores agregados pelo beneficiamento mínimo dentro das próprias comunidades de reforma agrária da região do Distrito Federal e Entorno1. Os acampamentos, pré-assentamentos e assentamentos localizados na região vêm buscando desenvolver ações que visam à produção de alimentos tanto para o auto-sustento, bem como para as comunidades urbanas próximas. Porém, essa produção ainda encontra sérias dificuldades devido à baixa capacitação técnica dos assentados, a falta de recursos para ampliar a produção, a organização incipiente das comunidades assentadas, a escassa disponibilidade de tecnologias apropriadas para a agricultura familiar, a dificuldade de se construir um conhecimento sobre o assunto e promover a apropriação de novas tecnologias pelos agricultores. Há ainda a falta de mecanismos e conhecimento para o escoamento da produção excedente. Diante deste quadro, a pesquisa envolve três assentamentos: Colônia I, Terra Conquistada e Eldorado dos Carajás. As três comunidades, embora tenham características diferentes de organização, produção, tempo de formação e várias outras, como veremos mais a frente, apresentam em comum a busca por uma produção em base agroecológica. Além dos agricultores dos três assentamentos, a pesquisa reune professores e alunos de diferentes áreas da Universidade de Brasília, como ecologia, agronomia, geografia, pedagogia e engenharia florestal , o que confere um caráter multidisciplinar ao trabalho. Há também o envolvimento de membros dos movimentos sociais rurais presentes nos assentamentos. A pesquisa apresenta duas vertentes: uma técnica e outra de cunho sociológico. Neste artigo estaremos apresentando uma caracterização dos assentamentos da pesquisa, bem como as questões que envolvem a produção 1 A Microrregião do Entorno do Distrito Federal é uma microrregião do estado brasileiro de Goiás, pertencente à Mesorregião do Leste Goiano. Em 2006, a população da Microrregião foi estimada em pouco mais de um milhão de habitantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Compreende vinte municípios em uma área total de trinta e oito mil km². agroecológica nesses diferentes espaços, já que cada um apresenta peculiaridades e conflitos que interferem no processo de transição para uma agricultura de cunho agroecológico. Em nosso trabalho, na primeira parte do artigo, veremos o papel da comunidade local no desenvolvimento da agricultura sustentável, a partir da análise de Jules Pretty. Estaremos também analisando a construção do conceito de agroecologia e as dificuldades em delimitá-lo, bem como o debate em torno do conceito. Na segunda parte, analisaremos as principais características dos assentamentos da pesquisa e como estão se organizando na busca de alternativas mais sustentáveis de produção. 1 – A Construção do Conceito de Agroecologia e a Participação da Comunidade O conceito de agricultura sustentável é socialmente construído, porém Pretty (1995) aponta três elementos em comum nas experiências de sucesso em direção a uma agricultura sustentável: tecnologias para conservação de recursos; suporte de instituições externas e envolvimento de instituições e grupos locais.temente de Pretty(1995), utilizamos o conceito de agricultura agroecológica em vez de agricultura sustentável, por ser um termo que vem se firmando no Brasil, ao se referir a um novo modelo de desenvolvimento sustentável para o campo. Temos claro, porém, a dificuldade em se definir o conceito de agroecologia2, por se tratar também de um termo construído socialmente (FREITAS, 2007). Podemos então afirmar que a agroecologia é uma construção sócio-ambiental, pois envolve elementos sociais e naturais em sua definição, podendo ser considerada uma co-construção, descrita por Irwin (2001)3. Ainda a análise da agroecologia como uma construção sócio-ambiental levanos a entendê-la como tendo diversas definições e não um conceito único, bem 2 - “O termo agroecologia pode significar muitas coisas, grosso modo, a agroecologia com freqüência incorpora idéias sobre um enfoque da agricultura mais ligado ao meio ambiente e mais sensível socialmente, centrada não somente na produção mas também na sustentabilidade ecológica do sistema de produção. Esse poderia chamar-se de uso ‘normativo’ ou ‘prescritivo’ do termo agroecologia, porque implica um número de características sobre a sociedade e a produção que vão muito além dos limites da propriedade rural. Num sentido mais restrito, agroecologia se refere ao estudo de fenômenos indubitavelmente ecológicos dentro do campo do cultivo, tais como: predador/presa, ou concorrência entre área cultivada/ área natural (Altieri, 1999, p.17)”. 3 - Para Irwin (2001), em vez de mantermos a idéia de que o natural e o social são entidades separadas, elas devem ser vistas como ativamente geradas em co-construções. A noção de co-construção leva-nos a reavaliar o uso de argumentos “naturalistas” e realistas dentro dos debates ambientais. definido com claros contornos (FREITAS, 2007). Estas características permitem compreender os diversos conflitos que são gerados em torno da questão da produção agroecológica. Conforme veremos na caracterização dos assentamentos na próxima seção. Para Pretty (1995), todas as experiências exitosas em direção à agricultura sustentável apresentam os três elementos citados no início da seção em comum. Elas fazem uso de tecnologia de conservação de recursos. Além disso, em todas as experiências apresentam a ação de grupos e comunidades em nível local e o suporte de instituições externas governamentais e/ou não governamentais. Segundo o autor, o que tem havido, de fato, são ilhas de sucesso, uma vez que o quarto elemento necessário ao fortalecimento da agricultura sustentável encontra-se inexistente nessas experiências, porque uma política ambiental favorável ainda não foi construída. A maioria dos sistemas políticos ainda encoraja ativamente os agricultores a se tornarem dependentes de “inputs” e de tecnologias externas. E esses sistemas políticos são a principal barreira em direção a uma agricultura mais sustentável. Para Pretty (1995), a transição para uma agricultura mais sustentável não pode ocorrer sem a participação e a ação coletiva da comunidade rural por dois motivos. Primeiro, os custos externos da degradação de recursos são freqüentemente transferidos de um agricultor para outro; em segundo, a tentativa de um agricultor sozinho conservar os escassos recursos pode ser ameaçada se ele está situado no local de propriedades que degradam os recursos. Portanto, o desenvolvimento para uma agricultura mais sustentável depende não apenas da motivação individual dos agricultores, mas da ação do grupo como um todo ( PRETTY, 1995). As organizações locais ocupam um papel fundamental nesse contexto, pois elas permitem que haja relações mais próximas entre os agricultores no seu cotidiano. Muitas vezes, as instituições nacionais e internacionais tendem a substituir as ações locais, sufocando a iniciativas e instituições existentes. Em conseqüência desse fato, muitos grupos locais e instituições têm desaparecido, o que tem levado a um crescimento da degradação e a um decréscimo na capacidade das comunidades locais de arcar com as mudanças ambientais e econômicas. No entanto, quando os grupos locais já estão bem organizados ou são encorajados a formar novos grupos e o seu conhecimento é solicitado e incorporado durante o planejamento e implementação do projeto, há maiores chances de continuação das atividades, mesmo após o final do projeto ( PRETTY e CHAMBERS, 1994; PRETTY, 1995). O processo de estabelecimento e suporte de grupos locais não é fácil, não podendo ser apressado e nem forçado. É necessária a presença de catalisadores ou facilitadores e o foco deve estar em construir a capacidade dos grupos locais de desenvolver novas formas de aprendizagem e de liderança. Esses grupos têm levado benefícios econômicos à comunidade e a uma melhoria na conservação dos recursos naturais. Têm também desenvolvido novos papéis e novas responsabilidades e unemse a outros grupos para obter maiores impactos. Além disso, outros benefícios importantes podem ser observados como a redescoberta da coesão social e solidariedade (PRETTY, 1995). Além da organização dos agricultores, o fortalecimento de uma agricultura mais sustentável depende da forma como as instituições externas estão organizadas e como elas estão trabalhando com outras instituições e os agricultores. A complexidade envolvida no alcance de uma agricultura sustentável significa que as organizações devem adotar novas formas de trabalho. Isso implica maior multidisciplinaridade, uma participação mais estruturada das comunidades rurais na pesquisa, extensão e desenvolvimento de atividades, a evolução do processo de aprendizagem nas organizações e o desenvolvimento de um novo profissional para a agricultura (CHAMBERS, 1994; PRETTY, 1995; GUIVANT, 2002). Um desafio colocado às instituições externas governamentais ou não é institucionalizar métodos e mecanismos que promovam a aprendizagem e gestão adaptada ao desenvolvimento sustentável. Essa aprendizagem não deve ser confundida com “ensinar”. Ensinar implica a transferência de conhecimento de alguns que sabem para outros que não sabem. A mudança de ensino para aprendizagem requer alterações de atitude, o que leva a profundas mudanças em instituições de desenvolvimento rural. O foco passa a ser menos o que se aprende e mais como se aprende e com quem se aprende, o que implica novos papéis para o desenvolvimento profissional, levando a um profissionalismo com novos conceitos, valores, métodos e comportamentos. 2 – Os Assentamentos Colônia, Eldorado dos Carajás e Terra Conquistada Apresentaremos algumas características dos três assentamentos que indicam a busca por uma produção mais sustentável. Porém, esta fase da pesquisa ainda está sendo concluída e outros dados ainda serão revelados. Podemos perceber, no entanto, a importância das comunidades e suas organizações nesse processo, bem como a relação estabelecida com a universidade e outros parceiros nesse processo. 2.1 – Assentamento Colônia I O assentamento Colônia I está localizado no município de Padre Bernardo, no Estado de Goiás. A cidade mais próxima é Brazlândia, no Distrito Federal, grande polo de produção de hortaliças e frutas, com destaque para a produção de morangos, a maior do Centro-Oeste. O município de Padre Bernardo passou a ser ocupado a partir do estabelecimento de fazendas de gado às margens do rio Maranhão no século XIX. Foi fundado o arraial do Barro Alto dos Angicos em 1951 com as constantes visitas religiosas de romeiros vindos em peregrinação anual do município de Luziânia. Passou a ter o nome Padre Bernardo em homenagem ao vigário que visitava as fazendas realizando cerimônias de batizados e casamentos. Passou à categoria de município em 1963, através da Lei Estadual nº 4797. A sede do município fica situada a 120km de Brasília e 280 km de Goiânia e faz parte do entorno imediato do Distrito Federal. Os municípios limítrofes são Mimoso de Goiás, Brazlândia (DF), Águas Lindas de Goiás, Planaltina (DF), Cocalzinho de Goiás e Vila Propício. A economia baseia-se principalmente na pecuária. Com escassez de oportunidades de trabalho na região, parte da população se desloca diariamente para Brasília para ocupar possíveis vagas de emprego, muitas vezes informais ou com baixa especialização. Segundo o IBGE,em uma área de 3.138 km², o município conta com uma população de 24.655 habitantes (estimativa de 2009). A história do PA Assentamento Colônia I tem origem em 1991, com a ocupação de terras próximas à área atual, por famílias que buscavam um lugar para produzir, o que não podiam vivendo em terras que não eram suas ou tentando uma vaga de emprego mal remunerado na cidade. Após várias ações de despejo nas diferentes áreas ocupadas, em 1994 passaram a ocupar a área onde hoje está o Assentamento Colônia I. Em 1996, ano de sua criação, houve o parcelamento dos lotes, com tamanhos que variam entre 16,5 e 24 ha, em uma área de 560,5 ha, onde 159 ha é área de preservação permanente e 3,4 ha reservados ao uso coletivo. Para iniciar a produção as famílias contaram inicialmente com o financiamento do Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária (PROCERA) à Associação dos Produtores do Projeto Colônia I, fundado no mesmo ano da criação do assentamento . No entanto, os resultados não foram satisfatórios, com baixa produção e endividamento das famílias. Dentre outros fatores, os agricultores afirmaram que a falta de água para a produção foi o fator chave para o insucesso nas colheitas. Após essa experiência, houve outras tentativas, também pouco satisfatórias de produção agrícola e criação de animais. A falta de organização comunitária e pertencimento a uma coletividade formaram conflitos diversos, de produção, comercialização e participação nas decisões. Isso começou a mudar quando integrantes do assentamento participaram no ano de 2000, na Universidade de Brasília, através da coordenação do Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária (GTRA)4 e da EMBRAPA Cerrados, do Curso de Extensão e Especialização em Educação do Campo. Ao fim do curso, os problemas no assentamento foram apontados, assim como possíveis soluções para a organização comunitária e a produção. Foi o primeiro contato com produção orgânica e agricultura ecológica. Posteriormente, em 2002, com o trabalho contínuo do GTRA de apoio à organização comunitária no assentamento e capacitação dos agricultores, a comunidade teve seu primeiro projeto aprovado, através do Edital Prêmio Petrobrás. As ações previstas eram a implantação de horta orgânica e viveiro florestal comunitário. Doze famílias passaram a discutir as ações do projeto. As ações chegaram ao fim proposto em 2003, através de mutirões para a implantação da horta e a construção dos viveiros com mudas nativas do cerrado para recuperação de áreas degradadas, incluindo áreas de preservação permanente (APP), além de mudas para formação de pomares para alimentação das famílias. Com essas ações iniciais e perspectiva de novos projetos, as famílias fundaram, em fevereiro de 2003, o Grupo Vida e Preservação (GVP), com objetivos de promover o desenvolvimento local sustentável, por meio da capacitação dos agricultores para garantir e viabilizar a produção de hortaliças, o processamento e escoamento dos produtos para os pontos de venda e a atividade do viveiro florestal. Com diversos apoios, a comercialização passou a ser feita na Universidade de Brasília, na quadra 505 norte do Plano Piloto e no Ministério do Meio Ambiente. A estruturação do grupo foi muito importante para novas conquistas em sua produção e fixação das famílias no assentamento. No final de 2003 o grupo pôde iniciar a construção do galpão para processamento das hortaliças através de um edital do projeto Conservação e Manejo da Biodiversidade do Bioma Cerrado (CMBBC), da Embrapa Cerrados. Puderam também financiar um veículo para o escoamento da produção. 4 O GTRA foi criado em junho de 1996 e está ligado ao Decanato de Extensão da Universidade de Brasília. Possui na equipe técnica profissionais das áreas de Agronomia, Pedagogia, Sociologia, Engenharia Florestal e Direito que pensam alternativas e desenvolvem projetos, buscando viabilizar um novo modelo de desenvolvimento rural sustentável. A partir dessa organização outros editais foram aprovados e ocorreram novas parcerias, além de otimizar a autonomia do grupo. Foram oferecidos cursos, como o Curso de Técnico em Agropecuária, culinária utilizando ingredientes do cerrado, ações em permacultura Com isso, o GTRA passou de gerenciador de recursos a parceiro. Com a mobilização das mulheres, foi fundado o Grupo Sabor do Cerrado, organizado para a ia I. A ausência de água em algumas parcelas é um problema que está fazendo algumas famílias diminuir a produção ou até mesmo deixar de produzir e interferindo na organização comunitária. Em entrevista realizada em agosto de 2010, a agricultora Elza fala que não está produzindo, pois além de não estar chovendo desde junho, sua cisterna está com baixo nível de água, insuficiente para manter a horta, e não possui recursos para aprofundar o poço. Outras questões fazem com que hoje haja ainda a presença de conflitos para a produção e a comercialização, das doze famílias que iniciaram a produção orgânica, apenas quatro seguem produzindo dessa forma e vendendo através do GVP. Essas quatro famílias conseguem obter sustento através da agricultura orgânica e seguem aprimorando seu conhecimento e suas ações através das parcerias realizadas. As outras 20 famílias residentes no assentamento não seguem essa forma de produção. A maior parte produz de forma convencional à estabelecida na Revolução Verde com grande utilização de insumos químico-sintéticos, pesticidas e em um processo de monocultura, especialmente produção de tomates, pimentão e hortaliças diversas. Algumas não produzem e seu sustento vem de trabalho fora do assentamento. 2.2 - Terra Conquistada O município de Água Fria - GO, localizado no norte do entorno do DF, teve origem na década de 1940 com a ocupação de posseiros vindos de terras próximas. Inicialmente considerado um povoado pertencente a Planaltina de Goiás teve sua emancipação conquistada em 1989, passando à categoria de município do Estado de Goiás. Com a população de 5.318 habitantes (estimativa 2009 – IBGE) e 2.029,41km² de ir de 2008, o GTRA executou, em parceria com a Via Campesina e apoio do Ministério do Desenvolvimento Social – MDS, o Projeto Tecendo Redes Agroecológicas em Áreas Urbanas e Periurbanas do Distrito Federal e Entorno. Entre outras ações, foram realizadas oficinas técnicas e distribuição de mudas em nove assentamentos, entre eles o Terra Conquistada, O Colônia I e o Eldorado do Carajás, objetos da presente pesquisa. Nesse município está localizado o Assentamento Terra Conquistada, fundado no dia 07 de novembro de 1997. Esse assentamento teve origem em 1995, com a ocupação por cerca de setenta famílias de trabalhadores rurais sem-terra da área de uma fazenda chamada Fazenda Santo Antônio das Brancas ou Fazenda Nossa Senhora do Carmo. Em pouco tempo as famílias tiveram que sair da área, pois o dono da fazenda havia conseguido a reintegração de posse da propriedade. Esperando posição do INCRA, as famílias ocuparam outra área próxima à rodovia GO – 118 e posteriormente voltaram a ocupar a Fazenda a convite do dono que visava receber do INCRA valores referentes à propriedade e suas benfeitorias após desapropriação. Passados dois anos e meio de luta, em 1998 teve início a regularização da área e divisão das parcelas para as 57 famílias que resistiram às dificuldades no acampamento. Dez famílias optaram por formar uma agrovila, suas parcelas são próximas com objetivo de facilitar a produção comunitária. A UnB, por intermédio do Programa de Educação Tutorial (PET)5, esteve presente desde o início da ocupação, prestando auxílio didádico-pedagógico a professores da escola do assentamento, apoio às condições de permanência como alimentos e roupas e prestando assistência técnica na produção agrícola e pecuária. Esse trabalho durou 3 anos. A partir de 2008, o GTRA executou, em parceria com a Via Campesina e apoio do Ministério do Desenvolvimento Social – MDS, o Projeto Tecendo Redes Agroecológicas em Áreas Urbanas e Periurbanas do Distrito Federal e Entorno. Entre outras ações, foram realizadas oficinas técnicas e distribuição de mudas em nove assentamentos, entre eles o Terra Conquistada, O Colônia I e o Eldorado do Carajás, objetos da presente pesquisa. A organização das famílias levou ao registro formal da Associação dos Produtores Rurais Sete de Novembro, presidida atualmente por Maria Almeida Dornelas. A associação visa garantir a produção das famílias, através distribuição de insumos doados, melhor preço na compra e busca resgatar o trabalho comunitário presente no acampamento e fragmentado após o processo de assentamento e produção individual no lotes. Outra Associação não-formal denominada Guerreiras da Terra é formada por mulheres e está à espera de equipamentos para que produzam rapadura e farinha 5 O Programa de Educação Tutorial (PET) foi criado para apoiar atividades acadêmicas que integram ensino, pesquisa e extensão. Formado por grupos tutoriais de aprendizagem, o PET propicia aos alunos participantes, sob a orientação de um tutor, a realização de atividades extracurriculares que complementem a formação acadêmica do estudante e atendam às necessidades do próprio curso de graduação. O estudante e o professor tutor recebem apoio financeiro de acordo com a Política Nacional de Iniciação Científica. de mandioca para vender ou trocar com vizinhos. Das 57 famílias, cerca de 10 não produzem em suas parcelas, geralmente devido a dificuldades com abastecimento de água ou porque a maior parte dos membros da família trabalha em propriedades próximas ao assentamento ou mantém emprego na cidade. A maior parte da produção do assentamento não é suficiente ou perene, ainda não traz condições à autonomia das famílias, o programa de concessão de crédito já obtido mostrou-se ineficiente e contribuiu para o endividamento dos agricultores. O bom funcionamento da associação ou dos outros grupos informais carece de organização e trabalho conjunto. Há prática da monocultura de tomate realizada em duas parcelas, onde as famílias possuem maior rendimento econômico, mas não maior poder organizativo. Mesmo com a formação dessas entidades, o trabalho no Assentamento Terra Conquistada é individualizado, com exceção de algumas famílias que anualmente plantam feijão e milho e dividem a produção entre elas, ou o dinheiro resultante da venda desses alimentos. As hortas, plantadas para subsistência nas parcelas individuais e na escola são orgânicas. Já o plantio de outros alimentos como grãos, mandioca, arroz, são feitos de convencional, com uso de insumos químicos-sintéticos, pesticidas e herbicidas. Em entrevista realizada, a agricultora Mirassilvia afirma já ter feito curso de agrofloresta e realiza em sua parcela plantio com essa técnica, para subsistência. Ela afirma o resgate de elementos dessa forma de produção, feita por seus pais durante a infância. 2.3 - Eldorado dos Carajás A história de Unaí tem origem em meados do século XVIII, na ocupação de áreas na época pertencentes ao município de Paracatu, no estado de Minas Gerias, por bandeirantes vindos de São Paulo. A aglomeração de famílias ocorreu às margens do rio Iuna. O local foi cedido pelo governo de Paracatu para constituir-se como município, quando houve a criação de Unaí, em 1943. O nome foi uma inversão feita no nome do rio. Constituída como cidade, mas ainda pouco povoada, o aumento de moradores passou se intensificar na década de 1950, com a construção da represa Três Marias e a oferta de terras férteis na região. A migração ocorreu a partir de vários estados do país. De acordo com as últimas pesquisas do IBGE (estimativa 2009), há no município 78.125 habitantes . As duas principais atividades desenvolvidas e que sustentam a economia no município são a agricultura em grande escala e a pecuária. O Assentamento Eldorado dos Carajás está inserido no município de Unaí, porém distante da área urbana, próximo à área urbana do distrito de Garapuava, onde a maioria das crianças do assentamento estudam. Possui áreas de cerrado preservado e propício ao extrativismo sustentável. É um assentamento novo, criado em 2007. Vivem nele 36 famílias, muitas delas com histórico de lutas ainda no acampamento. Uma forte característica presente na maioria das famílias é a relação de coletividade existente desde a época do acampamento, mas hoje um pouco enfraquecida. Há o sentimento comunitário, de decisões políticas e relações produtivas. É forte nesse assentamento a influência e os trabalhos realizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com lideranças locais, e estaduais presentes nas famílias. Muitas famílias relatam o trabalho na área coletiva do assentamento, além de sua produção familiar. No coletivo de mulheres, há discussões políticas, assim como trabalhos no plantio e no artesanato. As famílias conseguem sustento através da produção agrícola e processamento de alguns produtos para consumo e venda, como farinha de mandioca e polvilho. Há também criação de aves, suínos e, em menor número, gados de leite e corte. Como ainda estão utilizando o primeiro Crédito Fomento, oferecido pelo INCRA, iniciam sua atividade produtiva e a maioria ainda vive em casa de lona e palha. Já possuem árvores frutíferas em desenvolvimento, formando quintais, horta para consumo e comercialização de feijão, mandioca, milho, e, em alguns lotes frutas que ultrapassam a quantidade de consumo, como banana e maracujá. O abastecimento de água para as famílias é feito através de minas d'água, fontes de nascentes existentes no assentamento, poços ou cacimba. Todo o esgoto é despejado em fossas negras e a maior parte do lixo, queimada. Apesar de promessas do Incra, até agora o assentamento ainda não recebeu energia elétrica, o que gera uma grande dificuldade principalmente na questão da água, apesar de ser uma área rica nesse recurso, a distância entre as fontes de água e as casas e áreas produtivas tem impossibilitado uma expansão na produção e melhoria na qualidade de vida dos assentados. Há o início de uma experiência com apiários para produção de mel, ainda em fase de implantação. Em decisão coletiva a partir de discussões e contando com a presença do MST foi decidido que toda a produção do assentamento seria de cunho ecológico. No entanto, em entrevista realizada com 26 famílias durante a pesquisa, grande parte declarou produzir em sistema de transição agroecológica. Utilizam esterco de gado e galinha, preparam composteira, e muitas vezes usam adubação verde na produção. Participam de atividades coletivas, mutirões e percebem a importância da coletividade para o desenvolvimento de sua produção. Apenas uma família afirmou utilizar somente o processo agroecológico em sua produção. No entanto, muitos reclamam que está ocorrendo um processo de dispersão de ações conjuntas, em que muitas famílias estão preocupadas com a produção em seus lotes individuais e não contribuem na produção e discussões coletivas. Segundo os agricultores essa dispersão não ocorria no período de acampamento. Considerações Finais Pela caracterização dos assentamentos acima, podemos concluir que os assentamentos Colônia I, Terra Conquistada e Eldorado dos Carajás vêm buscando alternativas mais sustentáveis de produção e comercialização, a partir do fortalecimento de organizações comunitárias. No entanto, são vários os conflitos entre os produtores havendo em dois dos três assentamentos, Colônia I e Terra Conquistada, produtores que permanecem produzindo na linha convencional. Outro fato observado e que também dificulta o fortalecimento de uma agricultura sustentável é a fragilidade das organizações comunitárias. Em todos os assentamentos, as associações criadas apresentam dificuldades em suas ações devido a conflitos entre os agricultores, diferentes níveis de engajamento dos agricultores em movimentos sociais, entre outras questões culturais, econômicas e ambientais. Além desses problemas, a ausência de políticas públicas eficientes nos assentamentos e cumprimento da Lei de ATER6. As questões apontadas acima, segundo Pretty (1996), são fatores que dificultam a busca por uma agricultura em bases mais sustentáveis, já que a conservação dos recursos e a participação comunitária são fatores fundamentais. Por outro lado, a presença da Universidade de Brasília nos três assentamentos e, em diferentes momentos, no Colônia I e Terra Conquistada vêm 6 Lei nº 12.188 (DOU, 12/01/2010), institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária - PNATER e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural da Agricultura Familiar e Reforma Agrária - PRONATER, altera a Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, e dá outras providências. sendo um fator de fortalecimento dos assentamentos, embora essa presença seja ainda reduzida. Através do PET e do GTRA, a UnB buscou realizar um trabalho em parceria com os agricultores, tendo como princípio a construção de soluções sustentáveis, integrando conhecimentos de diferentes áreas e dos agricultores. Por fim percebemos que os aspectos analisados evidenciam que nos assentamentos da pesquisa há uma busca por uma agricultura em base mais sustentável. E, apesar dos conflitos, são assentamentos que vêm apresentando relativo sucesso nesse processo e vêm demonstrando um forte interesse na construção da pesquisa em andamento, já que esta está desenvolvendo soluções alternativas a problemas de produção e comercialização na perspectiva agroecológica. BIBLIOGRAFIA ALTIERI, M.A. Agroecologia: bases científicas para una agricultura sustentable. Editorial Nordan Comunidad, Montevideo, 1999. CHAMBERS, Robert and PRETTY, Jules N. Towards a learning paradigm: new profissionalism and institutions for agriculture. In Scoones, I. And Thompson, J. 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