A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO AGROECOLÓGICO
ENTRE
AGRICULTORES
E
PESQUISADORES
DAS
UNIVERSIDADES: UMA EXPERIÊNCIA EM ASSENTAMENTOS
NO DISTRITO FEDERAL E ENTORNO
Helana Célia de Abreu Freitas*
Sabine Ruth Popov Cardoso**
Nayara dos Santos Moreira***
Luciana Morais de Freitas****
Carolina Rizzi Starr*****
Resumo
Este artigo aborda os resultados do diagnóstico de uma pesquisa que analisa o
conhecimento que está sendo gerado em três assentamentos localizados no Entorno
do Distrito Federal, que vêm implementando práticas de produção agroecológicas.
Esta pesquisa se enquadra dentro de uma pesquisa maior que visa desenvolver
técnicas diretamente aplicadas à agricultura familiar, sendo construídos de forma
coletiva com os agricultores, com todos os experimentos práticos sendo elaborados
nas áreas dos assentamentos. As técnicas e todas as etapas de construção do
pensamento científico, estão sendo desenvolvidas com os agricultores, facilitando a
apropriação dessas novas tecnologias. A pesquisa está sendo implementada em três
assentamentos: Eldorado dos Carajás em Unaí (MG), Terra Conquistada (GO) e
Colônia (DF), os quais vêm desenvolvendo diversas práticas agrícolas de cunho
agroecológico. Dentre as ações estão a pesquisa de forma participativa e método
qualitativo por meio de entrevistas, questionários e relatos de experiência. Como
resultado tem-se compreendido melhor o processo de apropriação dessas tecnologias
pelo agricultor, a partir da compreensão das condições sociais dos assentamentos. O
projeto de pesquisa está sendo financiado pelo CNPQ.
* Doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora da Faculdade de Educação da
Universidade de Brasília (UnB).
** Graduanda em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB).
***Graduanda em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília (UnB)
****Mestre em Agronomia pela Universidade de Brasília (UnB)
*****Mestre em Ciências Florestais pela Universidade de Brasília (UnB)
Introdução
Este artigo apresenta os primeiros resultados de uma pesquisa financiada pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), a qual tem
por objetivo desenvolver e construir tecnologias aplicadas a sistemas de produção
ecológicos, visando à redução de custo e melhoria da aplicabilidade para a agricultura
familiar e a ampliação da produção, bem como a busca de culturas que possam ter os
seus valores agregados pelo beneficiamento mínimo dentro das próprias comunidades
de reforma agrária da região do Distrito Federal e Entorno1.
Os acampamentos, pré-assentamentos e assentamentos localizados na região
vêm buscando desenvolver ações que visam à produção de alimentos tanto para o
auto-sustento, bem como para as comunidades urbanas próximas. Porém, essa
produção ainda encontra sérias dificuldades devido à baixa capacitação técnica dos
assentados, a falta de recursos para ampliar a produção, a organização incipiente das
comunidades assentadas, a escassa disponibilidade de tecnologias apropriadas para
a agricultura familiar, a dificuldade de se construir um conhecimento sobre o assunto e
promover a apropriação de novas tecnologias pelos agricultores. Há ainda a falta de
mecanismos e conhecimento para o escoamento da produção excedente.
Diante deste quadro, a pesquisa envolve três assentamentos: Colônia I, Terra
Conquistada e Eldorado dos Carajás. As três comunidades, embora tenham
características diferentes de organização, produção, tempo de formação e várias
outras, como veremos mais a frente, apresentam em comum a busca por uma
produção em base agroecológica.
Além dos agricultores dos três assentamentos, a pesquisa reune professores e
alunos de diferentes áreas da Universidade de Brasília, como ecologia, agronomia,
geografia, pedagogia e engenharia florestal , o que confere um caráter multidisciplinar
ao trabalho. Há também o envolvimento de membros dos movimentos sociais rurais
presentes nos assentamentos.
A pesquisa apresenta duas vertentes: uma técnica e outra de cunho
sociológico.
Neste
artigo
estaremos
apresentando
uma
caracterização
dos
assentamentos da pesquisa, bem como as questões que envolvem a produção
1
A Microrregião do Entorno do Distrito Federal é uma microrregião do estado brasileiro de Goiás, pertencente à
Mesorregião do Leste Goiano. Em 2006, a população da Microrregião foi estimada em pouco mais de um milhão de
habitantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Compreende vinte municípios em uma área total de trinta
e oito mil km².
agroecológica nesses diferentes espaços, já que cada um apresenta peculiaridades e
conflitos que interferem no processo de transição para uma agricultura de cunho
agroecológico.
Em nosso trabalho, na primeira parte do artigo, veremos o papel da
comunidade local no desenvolvimento da agricultura sustentável, a partir da análise de
Jules Pretty. Estaremos também analisando a construção do conceito de agroecologia
e as dificuldades em delimitá-lo, bem como o debate em torno do conceito.
Na segunda parte, analisaremos as principais características dos assentamentos da
pesquisa e como estão se organizando na busca de alternativas mais sustentáveis de
produção.
1 – A Construção do Conceito de Agroecologia e a Participação
da Comunidade
O conceito de agricultura sustentável é socialmente construído, porém Pretty
(1995) aponta três elementos em comum nas experiências de sucesso em direção a
uma agricultura sustentável: tecnologias para conservação de recursos; suporte de
instituições externas e envolvimento de instituições e grupos locais.temente de
Pretty(1995), utilizamos o conceito de agricultura agroecológica em vez de agricultura
sustentável, por ser um termo que vem se firmando no Brasil, ao se referir a um novo
modelo de desenvolvimento sustentável para o campo. Temos claro, porém, a
dificuldade em se definir o conceito de agroecologia2, por se tratar também de um
termo construído socialmente (FREITAS, 2007).
Podemos então afirmar que a agroecologia é uma construção sócio-ambiental,
pois envolve elementos sociais e naturais em sua definição, podendo ser considerada
uma co-construção, descrita por Irwin (2001)3.
Ainda a análise da agroecologia como uma construção sócio-ambiental levanos a entendê-la como tendo diversas definições e não um conceito único, bem
2
- “O termo agroecologia pode significar muitas coisas, grosso modo, a agroecologia com freqüência incorpora idéias
sobre um enfoque da agricultura mais ligado ao meio ambiente e mais sensível socialmente, centrada não somente na
produção mas também na sustentabilidade ecológica do sistema de produção. Esse poderia chamar-se de uso
‘normativo’ ou ‘prescritivo’ do termo agroecologia, porque implica um número de características sobre a sociedade e a
produção que vão muito além dos limites da propriedade rural. Num sentido mais restrito, agroecologia se refere ao
estudo de fenômenos indubitavelmente ecológicos dentro do campo do cultivo, tais como: predador/presa, ou
concorrência entre área cultivada/ área natural (Altieri, 1999, p.17)”.
3
- Para Irwin (2001), em vez de mantermos a idéia de que o natural e o social são entidades separadas, elas devem
ser vistas como ativamente geradas em co-construções. A noção de co-construção leva-nos a reavaliar o uso de
argumentos “naturalistas” e realistas dentro dos debates ambientais.
definido com claros contornos (FREITAS, 2007). Estas características permitem
compreender os diversos conflitos que são gerados em torno da questão da produção
agroecológica. Conforme veremos na caracterização dos assentamentos na próxima
seção.
Para Pretty (1995), todas as experiências exitosas em direção à agricultura
sustentável apresentam os três elementos citados no início da seção em comum. Elas
fazem uso de tecnologia de conservação de recursos. Além disso, em todas as
experiências apresentam a ação de grupos e comunidades em nível local e o suporte
de instituições externas governamentais e/ou não governamentais.
Segundo o autor, o que tem havido, de fato, são ilhas de sucesso, uma vez que
o quarto elemento necessário ao fortalecimento da agricultura sustentável encontra-se
inexistente nessas experiências, porque uma política ambiental favorável ainda não foi
construída. A maioria dos sistemas políticos ainda encoraja ativamente os agricultores
a se tornarem dependentes de “inputs” e de tecnologias externas. E esses sistemas
políticos são a principal barreira em direção a uma agricultura mais sustentável.
Para Pretty (1995), a transição para uma agricultura mais sustentável não pode
ocorrer sem a participação e a ação coletiva da comunidade rural por dois motivos.
Primeiro, os custos externos da degradação de recursos são freqüentemente
transferidos de um agricultor para outro; em segundo, a tentativa de um agricultor
sozinho conservar os escassos recursos pode ser ameaçada se ele está situado no
local de propriedades que degradam os recursos.
Portanto, o desenvolvimento para uma agricultura mais sustentável depende
não apenas da motivação individual dos agricultores, mas da ação do grupo como um
todo ( PRETTY, 1995). As organizações locais ocupam um papel fundamental nesse
contexto, pois elas permitem que haja relações mais próximas entre os agricultores no
seu cotidiano.
Muitas vezes, as instituições nacionais e internacionais tendem a substituir as
ações locais, sufocando a iniciativas e instituições existentes. Em conseqüência desse
fato, muitos grupos locais e instituições têm desaparecido, o que tem levado a um
crescimento da degradação e a um decréscimo na capacidade das comunidades
locais de arcar com as mudanças ambientais e econômicas. No entanto, quando os
grupos locais já estão bem organizados ou são encorajados a formar novos grupos e o
seu conhecimento é solicitado e incorporado durante o planejamento e implementação
do projeto, há maiores chances de continuação das atividades, mesmo após o final do
projeto ( PRETTY e CHAMBERS, 1994; PRETTY, 1995).
O processo de estabelecimento e suporte de grupos locais não é fácil, não
podendo ser apressado e nem forçado. É necessária a presença de catalisadores ou
facilitadores e o foco deve estar em construir a capacidade dos grupos locais de
desenvolver novas formas de aprendizagem e de liderança. Esses grupos têm levado
benefícios econômicos à comunidade e a uma melhoria na conservação dos recursos
naturais. Têm também desenvolvido novos papéis e novas responsabilidades e unemse a outros grupos para obter maiores impactos. Além disso, outros benefícios
importantes podem ser observados como a redescoberta da coesão social e
solidariedade (PRETTY, 1995).
Além da organização dos agricultores, o fortalecimento de uma agricultura mais
sustentável depende da forma como as instituições externas estão organizadas e
como elas estão trabalhando com outras instituições e os agricultores. A complexidade
envolvida no alcance de uma agricultura sustentável significa que as organizações
devem adotar novas formas de trabalho. Isso implica maior multidisciplinaridade, uma
participação mais estruturada das comunidades rurais na pesquisa, extensão e
desenvolvimento de atividades, a evolução do processo de aprendizagem nas
organizações e o desenvolvimento de um novo profissional para a agricultura
(CHAMBERS, 1994; PRETTY, 1995; GUIVANT, 2002).
Um desafio colocado às instituições externas governamentais ou não é
institucionalizar métodos e mecanismos que promovam a aprendizagem e gestão
adaptada ao desenvolvimento sustentável. Essa aprendizagem não deve ser
confundida com “ensinar”. Ensinar implica a transferência de conhecimento de alguns
que sabem para outros que não sabem. A mudança de ensino para aprendizagem
requer alterações de atitude, o que leva a profundas mudanças em instituições de
desenvolvimento rural. O foco passa a ser menos o que se aprende e mais como se
aprende e com quem se aprende, o que implica novos papéis para o desenvolvimento
profissional, levando a um profissionalismo com novos conceitos, valores, métodos e
comportamentos.
2 – Os Assentamentos Colônia, Eldorado dos Carajás e Terra
Conquistada
Apresentaremos algumas características dos três assentamentos que indicam
a busca por uma produção mais sustentável. Porém, esta fase da pesquisa ainda está
sendo concluída e outros dados ainda serão revelados. Podemos perceber, no
entanto, a importância das comunidades e suas organizações nesse processo, bem
como a relação estabelecida com a universidade e outros parceiros nesse processo.
2.1 – Assentamento Colônia I
O assentamento Colônia I está localizado no município de Padre Bernardo, no
Estado de Goiás. A cidade mais próxima é Brazlândia, no Distrito Federal, grande polo
de produção de hortaliças e frutas, com destaque para a produção de morangos, a
maior do Centro-Oeste.
O município de Padre Bernardo passou a ser ocupado a partir do estabelecimento de
fazendas de gado às margens do rio Maranhão no século XIX. Foi fundado o arraial
do Barro Alto dos Angicos em 1951 com as constantes visitas religiosas de romeiros
vindos em peregrinação anual do município de Luziânia. Passou a ter o nome Padre
Bernardo em homenagem ao vigário que visitava as fazendas realizando cerimônias
de batizados e casamentos. Passou à categoria de município em 1963, através da Lei
Estadual nº 4797. A sede do município fica situada a 120km de Brasília e 280 km de
Goiânia e faz parte do entorno imediato do Distrito Federal.
Os municípios limítrofes são Mimoso de Goiás, Brazlândia (DF), Águas
Lindas de Goiás, Planaltina (DF), Cocalzinho de Goiás e Vila Propício. A economia
baseia-se principalmente na pecuária. Com escassez de oportunidades de trabalho na
região, parte da população se desloca diariamente para Brasília para ocupar possíveis
vagas de emprego, muitas vezes informais ou com baixa especialização. Segundo o
IBGE,em uma área de 3.138 km², o município conta com uma população de 24.655
habitantes (estimativa de 2009).
A história do PA Assentamento Colônia I tem origem em 1991, com a
ocupação de terras próximas à área atual, por famílias que buscavam um lugar para
produzir, o que não podiam vivendo em terras que não eram suas ou tentando uma
vaga de emprego mal remunerado na cidade. Após várias ações de despejo nas
diferentes áreas ocupadas, em 1994 passaram a ocupar a área onde hoje está o
Assentamento Colônia I. Em 1996, ano de sua criação, houve o parcelamento dos
lotes, com tamanhos que variam entre 16,5 e 24 ha, em uma área de 560,5 ha, onde
159 ha é área de preservação permanente e 3,4 ha reservados ao uso coletivo.
Para iniciar a produção as famílias contaram inicialmente com o
financiamento do Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária (PROCERA)
à Associação dos Produtores do Projeto Colônia I, fundado no mesmo ano da criação
do assentamento . No entanto, os resultados não foram satisfatórios, com baixa
produção e endividamento das famílias. Dentre outros fatores, os agricultores
afirmaram que a falta de água para a produção foi o fator chave para o insucesso nas
colheitas.
Após essa experiência, houve outras tentativas, também pouco satisfatórias
de produção agrícola e criação de animais. A falta de organização comunitária e
pertencimento a uma coletividade formaram conflitos diversos, de produção,
comercialização e participação nas decisões. Isso começou a mudar quando
integrantes do assentamento participaram no ano de 2000, na Universidade de
Brasília, através da coordenação do Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária
(GTRA)4 e da EMBRAPA Cerrados, do Curso de Extensão e Especialização em
Educação do Campo. Ao fim do curso, os problemas no assentamento foram
apontados, assim como possíveis soluções para a organização comunitária e a
produção. Foi o primeiro contato com produção orgânica e agricultura ecológica.
Posteriormente, em 2002, com o trabalho contínuo do GTRA de apoio à
organização comunitária no assentamento e capacitação dos agricultores,
a
comunidade teve seu primeiro projeto aprovado, através do Edital Prêmio Petrobrás.
As ações previstas eram a implantação de horta orgânica e viveiro florestal
comunitário. Doze famílias passaram a discutir as ações do projeto.
As ações
chegaram ao fim proposto em 2003, através de mutirões para a implantação da horta
e a construção dos viveiros com mudas nativas do cerrado para recuperação de áreas
degradadas, incluindo áreas de preservação permanente (APP), além de mudas para
formação de pomares para alimentação das famílias.
Com essas ações iniciais e perspectiva de novos projetos, as famílias
fundaram, em fevereiro de 2003, o Grupo Vida e Preservação (GVP), com objetivos de
promover o desenvolvimento local sustentável, por meio da capacitação dos
agricultores para garantir e viabilizar a produção de hortaliças, o processamento e
escoamento dos produtos para os pontos de venda e a atividade do viveiro florestal.
Com diversos apoios, a comercialização passou a ser feita na Universidade de
Brasília, na quadra 505 norte do Plano Piloto e no Ministério do Meio Ambiente.
A estruturação do grupo foi muito importante para novas conquistas em sua
produção e fixação das famílias no assentamento. No final de 2003 o grupo pôde
iniciar a construção do galpão para processamento das hortaliças através de um edital
do projeto Conservação e Manejo da Biodiversidade do Bioma Cerrado (CMBBC), da
Embrapa Cerrados. Puderam também financiar um veículo para o escoamento da
produção.
4
O GTRA foi criado em junho de 1996 e está ligado ao Decanato de Extensão da Universidade de Brasília. Possui na
equipe técnica profissionais das áreas de Agronomia, Pedagogia, Sociologia, Engenharia Florestal e Direito que
pensam alternativas e desenvolvem projetos, buscando viabilizar um novo modelo de desenvolvimento rural
sustentável.
A partir dessa organização outros editais foram aprovados e ocorreram
novas parcerias, além de otimizar a autonomia do grupo. Foram oferecidos cursos,
como o Curso de Técnico em Agropecuária, culinária utilizando ingredientes do
cerrado, ações em permacultura
Com isso, o GTRA passou de gerenciador de
recursos a parceiro. Com a mobilização das mulheres, foi fundado o Grupo Sabor do
Cerrado, organizado para a ia I. A ausência de água em algumas parcelas é um
problema que está fazendo algumas famílias diminuir a produção ou até mesmo deixar
de produzir e interferindo na organização comunitária.
Em entrevista realizada em agosto de 2010, a agricultora Elza fala que não
está produzindo, pois além de não estar chovendo desde junho, sua cisterna está com
baixo nível de água, insuficiente para manter a horta, e não possui recursos para
aprofundar o poço.
Outras questões fazem com que hoje haja ainda a presença de conflitos
para a produção e a comercialização, das doze famílias que iniciaram a produção
orgânica, apenas quatro seguem produzindo dessa forma e vendendo através do
GVP. Essas quatro famílias conseguem obter sustento através da agricultura orgânica
e seguem aprimorando seu conhecimento e suas ações através das parcerias
realizadas.
As outras 20 famílias residentes no assentamento não seguem essa forma
de produção. A maior parte produz de forma convencional à estabelecida na
Revolução Verde com grande utilização de insumos químico-sintéticos, pesticidas e
em um processo de monocultura, especialmente produção de tomates, pimentão e
hortaliças diversas. Algumas não produzem e seu sustento vem de trabalho fora do
assentamento.
2.2 - Terra Conquistada
O município de Água Fria - GO, localizado no norte do entorno do DF, teve
origem na década de 1940 com a ocupação de posseiros vindos de terras próximas.
Inicialmente considerado um povoado pertencente a Planaltina de Goiás teve sua
emancipação conquistada em 1989, passando à categoria de município do Estado de
Goiás. Com a população de 5.318 habitantes (estimativa 2009 – IBGE) e 2.029,41km²
de ir de 2008, o GTRA executou, em parceria com a Via Campesina e apoio do
Ministério
do
Desenvolvimento
Social
–
MDS,
o
Projeto
Tecendo
Redes
Agroecológicas em Áreas Urbanas e Periurbanas do Distrito Federal e Entorno. Entre
outras ações, foram realizadas oficinas técnicas e distribuição de mudas em nove
assentamentos, entre eles o Terra Conquistada, O Colônia I e o Eldorado do Carajás,
objetos da presente pesquisa.
Nesse município está localizado o Assentamento Terra Conquistada,
fundado no dia 07 de novembro de 1997. Esse assentamento teve origem em 1995,
com a ocupação por cerca de setenta famílias de trabalhadores rurais sem-terra da
área de uma fazenda chamada Fazenda Santo Antônio das Brancas ou Fazenda
Nossa Senhora do Carmo. Em pouco tempo as famílias tiveram que sair da área, pois
o dono da fazenda havia conseguido a reintegração de posse da propriedade.
Esperando posição do INCRA, as famílias ocuparam outra área próxima à rodovia GO
– 118 e posteriormente voltaram a ocupar a Fazenda a convite do dono que visava
receber do INCRA valores referentes à propriedade e suas benfeitorias após
desapropriação.
Passados dois anos e meio de luta, em 1998 teve início a regularização da
área e divisão das parcelas para as 57 famílias que resistiram às dificuldades no
acampamento. Dez famílias optaram por formar uma agrovila, suas parcelas são
próximas com objetivo de facilitar a produção comunitária.
A UnB, por intermédio do Programa de Educação Tutorial (PET)5, esteve
presente desde o início da ocupação, prestando auxílio didádico-pedagógico a
professores da escola do assentamento, apoio às condições de permanência como
alimentos e roupas e prestando assistência técnica na produção agrícola e pecuária.
Esse trabalho durou 3 anos.
A partir de 2008, o GTRA executou, em parceria com a Via Campesina e
apoio do Ministério do Desenvolvimento Social – MDS, o Projeto Tecendo Redes
Agroecológicas em Áreas Urbanas e Periurbanas do Distrito Federal e Entorno. Entre
outras ações, foram realizadas oficinas técnicas e distribuição de mudas em nove
assentamentos, entre eles o Terra Conquistada, O Colônia I e o Eldorado do Carajás,
objetos da presente pesquisa.
A organização das famílias levou ao registro formal da Associação dos
Produtores Rurais Sete de Novembro, presidida atualmente por Maria Almeida
Dornelas. A associação visa garantir a produção das famílias, através distribuição de
insumos doados, melhor preço na compra e busca resgatar o trabalho comunitário
presente no acampamento e fragmentado após o processo de assentamento e
produção individual no lotes.
Outra Associação não-formal denominada Guerreiras da Terra é formada
por mulheres e está à espera de equipamentos para que produzam rapadura e farinha
5
O Programa de Educação Tutorial (PET) foi criado para apoiar atividades acadêmicas que integram ensino, pesquisa
e extensão. Formado por grupos tutoriais de aprendizagem, o PET propicia aos alunos participantes, sob a orientação
de um tutor, a realização de atividades extracurriculares que complementem a formação acadêmica do estudante e
atendam às necessidades do próprio curso de graduação. O estudante e o professor tutor recebem apoio financeiro de
acordo com a Política Nacional de Iniciação Científica.
de mandioca para vender ou trocar com vizinhos. Das 57 famílias, cerca de 10 não
produzem em suas parcelas, geralmente devido a dificuldades com abastecimento de
água ou porque a maior parte dos membros da família trabalha em propriedades
próximas ao assentamento ou mantém emprego na cidade.
A maior parte da produção do assentamento não é suficiente ou perene,
ainda não traz condições à autonomia das famílias, o programa de concessão de
crédito já obtido
mostrou-se ineficiente e contribuiu para o endividamento dos
agricultores. O bom funcionamento da associação ou dos outros grupos informais
carece de organização e trabalho conjunto. Há prática da monocultura de tomate
realizada em duas parcelas, onde as famílias possuem maior rendimento econômico,
mas não maior poder organizativo.
Mesmo com a formação dessas entidades, o trabalho no Assentamento
Terra Conquistada é individualizado, com exceção de algumas famílias que
anualmente plantam feijão e milho e dividem a produção entre elas, ou o dinheiro
resultante da venda desses alimentos. As hortas, plantadas para subsistência nas
parcelas individuais e na escola são orgânicas.
Já o plantio de outros alimentos como grãos, mandioca, arroz, são feitos
de convencional, com uso de insumos químicos-sintéticos, pesticidas e herbicidas.
Em entrevista realizada, a agricultora Mirassilvia afirma já ter feito curso de
agrofloresta e realiza em sua parcela plantio com essa técnica, para subsistência. Ela
afirma o resgate de elementos dessa forma de produção, feita por seus pais durante a
infância.
2.3 - Eldorado dos Carajás
A história de Unaí tem origem em meados do século XVIII, na ocupação de
áreas na época pertencentes ao município de Paracatu, no estado de Minas Gerias,
por bandeirantes vindos de São Paulo. A aglomeração de famílias ocorreu às margens
do rio Iuna. O local foi cedido pelo governo de Paracatu para constituir-se como
município, quando houve a criação de Unaí, em 1943. O nome foi uma inversão feita
no nome do rio. Constituída como cidade, mas ainda pouco povoada, o aumento de
moradores passou se intensificar na década de 1950, com a construção da represa
Três Marias e a oferta de terras férteis na região.
A migração ocorreu a partir de vários estados do país. De acordo com as
últimas pesquisas do IBGE (estimativa 2009), há no município 78.125 habitantes . As
duas principais atividades desenvolvidas e que sustentam a economia no município
são a agricultura em grande escala e a pecuária.
O Assentamento Eldorado dos Carajás está inserido no município de Unaí,
porém distante da área urbana, próximo à área urbana do distrito de Garapuava, onde
a maioria das crianças do assentamento estudam.
Possui áreas de cerrado
preservado e propício ao extrativismo sustentável. É um assentamento novo, criado
em 2007. Vivem nele 36 famílias, muitas delas com histórico de lutas ainda no
acampamento.
Uma forte característica presente na maioria das famílias é a relação de
coletividade existente desde a época do acampamento, mas hoje um pouco
enfraquecida. Há o sentimento comunitário, de decisões políticas e relações
produtivas. É forte nesse assentamento a influência e os trabalhos realizados pelo
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com lideranças locais, e
estaduais presentes nas famílias.
Muitas famílias relatam o trabalho na área coletiva do assentamento, além
de sua produção familiar. No coletivo de mulheres, há discussões políticas, assim
como trabalhos no plantio e no artesanato. As famílias conseguem sustento através da
produção agrícola e processamento de alguns produtos para consumo e venda, como
farinha de mandioca e polvilho. Há também criação de aves, suínos e, em menor
número, gados de leite e corte.
Como ainda estão utilizando o primeiro Crédito Fomento, oferecido pelo
INCRA, iniciam sua atividade produtiva e a maioria ainda vive em casa de lona e
palha. Já possuem árvores frutíferas em desenvolvimento, formando quintais, horta
para consumo e comercialização de feijão, mandioca, milho, e, em alguns lotes frutas
que ultrapassam a quantidade de consumo, como banana e maracujá.
O abastecimento de água para as famílias é feito através de minas d'água,
fontes de nascentes existentes no assentamento, poços ou cacimba. Todo o esgoto é
despejado em fossas negras e a maior parte do lixo, queimada.
Apesar de promessas do Incra, até agora o assentamento ainda não
recebeu energia elétrica, o que gera uma grande dificuldade principalmente na
questão da água, apesar de ser uma área rica nesse recurso, a distância entre as
fontes de água e as casas e áreas produtivas tem impossibilitado uma expansão na
produção e melhoria na qualidade de vida dos assentados.
Há o início de uma experiência com apiários para produção de mel, ainda
em fase de implantação.
Em decisão coletiva a partir de discussões e contando com a presença do
MST foi decidido que toda a produção do assentamento seria de cunho ecológico. No
entanto, em entrevista realizada com 26 famílias durante a pesquisa, grande parte
declarou produzir em sistema de transição agroecológica.
Utilizam esterco de gado e galinha, preparam composteira, e muitas vezes usam
adubação verde na produção. Participam de atividades coletivas, mutirões e percebem
a importância da coletividade para o desenvolvimento de sua produção. Apenas uma
família afirmou utilizar somente o processo agroecológico em sua produção.
No entanto, muitos reclamam que está ocorrendo um processo de
dispersão de ações conjuntas, em que muitas famílias estão preocupadas com a
produção em seus lotes individuais e não contribuem na produção e discussões
coletivas. Segundo os agricultores essa dispersão não ocorria no período de
acampamento.
Considerações Finais
Pela caracterização dos assentamentos acima, podemos concluir que os
assentamentos Colônia I, Terra Conquistada e Eldorado dos Carajás vêm buscando
alternativas mais sustentáveis de produção e comercialização, a partir do
fortalecimento de organizações comunitárias. No entanto, são vários os conflitos entre
os produtores havendo em dois dos três assentamentos, Colônia I e Terra
Conquistada, produtores que permanecem produzindo na linha convencional.
Outro fato observado e que também dificulta o fortalecimento de uma
agricultura sustentável é a fragilidade das organizações comunitárias. Em todos os
assentamentos, as associações criadas apresentam dificuldades em suas ações
devido a conflitos entre os agricultores, diferentes níveis de engajamento dos
agricultores em movimentos sociais, entre outras questões culturais, econômicas e
ambientais. Além desses problemas, a ausência de políticas públicas eficientes nos
assentamentos e cumprimento da Lei de ATER6.
As questões apontadas acima, segundo Pretty (1996), são fatores que
dificultam a busca por uma agricultura em bases mais sustentáveis, já que a
conservação dos recursos e a participação comunitária são fatores fundamentais.
Por outro lado, a presença da Universidade de Brasília nos três
assentamentos e, em diferentes momentos, no Colônia I e Terra Conquistada vêm
6
Lei nº 12.188 (DOU, 12/01/2010), institui a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura
Familiar e Reforma Agrária - PNATER e o Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural da Agricultura
Familiar e Reforma Agrária - PRONATER, altera a Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, e dá outras providências.
sendo um fator de fortalecimento dos assentamentos, embora essa presença seja
ainda reduzida. Através do PET e do GTRA, a UnB buscou realizar um trabalho em
parceria com os agricultores, tendo como princípio a construção de soluções
sustentáveis, integrando conhecimentos de diferentes áreas e dos agricultores.
Por fim percebemos que os aspectos analisados evidenciam que nos
assentamentos da pesquisa há uma busca por uma agricultura em base mais
sustentável. E, apesar dos conflitos, são assentamentos que vêm apresentando
relativo sucesso nesse processo e vêm demonstrando um forte interesse na
construção da pesquisa em andamento, já que esta está desenvolvendo soluções
alternativas a problemas de produção e comercialização na perspectiva agroecológica.
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A construção do Conhecimento Agroecológico entre