Texto de apoio ao Curso de Especialização Atividade Física Adaptada e Saúde Prof. Dr. Luzimar Teixeira Desenvolvimento motor do deficiente auditivo A deficiência auditiva aparece, por vezes, associada a outras deficiências, como a Síndrome de Down, por exemplo. O indivíduo, neste caso, pode apresentar problemas motores, o que leva alguns a pensarem que a surdez tem relação direta com o desenvolvimento motor. Mas a perda auditiva, por si só, não apresenta nenhuma relação direta com o desenvolvimento motor do indivíduo portador da deficiência. Grande parte dessa população especial apresenta as “ferramentas” necessárias para um ótimo desenvolvimento motor. O que acontece muitas vezes é que ou por falta de estímulo, ou por dificuldades da família em lidar com o assunto, ou pelo tratamento tardio, entre outros fatores, o desenvolvimento motor desse sujeito não acontece dentro dos padrões considerados “normais”. Podemos perceber então que a perda auditiva traz uma série de conseqüências indiretas ao desenvolvimento motor do D.A. (deficiente auditivo). Essas conseqüências podem ser mais ou menos graves de acordo com cada caso. As perdas auditivas podem ser classificadas quanto ao momento em que esta ocorreu, aos graus de perda auditiva e à localização no aparelho auditivo. Portanto, cada caso traz características e conseqüências específicas, já que além destas classificações teóricas, diversos fatores contribuem (como os acima já citados: família, intervenção, estímulo) para o desenvolvimento motor do D.A. Um sujeito que adquire a surdez aos dez anos, terá menos dificuldades do que um sujeito que já nasceu surdo, por exemplo. Aquele, aos dez anos, já adquiriu, muito provavelmente, diversos elementos da comunicação oral. Para chegar a tal ponto foi necessária também uma evolução cognitiva, pois para construir uma frase temos que organizar as palavras de modo que estas façam sentido; situar as ações no tempo e no 1 espaço; construir significados. Isso ajudará o D.A. que adquire a surdez aos dez anos a compreender melhor algumas situações, interpretar outras, enquanto o sujeito que já nasce surdo tem uma enorme dificuldade em capturar os sentidos do mundo da comunicação oral. A pessoa que já nasce surda, se não tiver um forte apoio familiar, se não for “trabalhada” precocemente, pode apresentar sinais de retardo. Não porque seja, mas porque foi privada de diversas experiências que formam nosso repertório; inclusive motor. A pessoa que já nasce surda, desde cedo é privada de um dos mais importantes elementos de relação com o ambiente, de interação e comunicação: a audição. Como explicitamos, a criança surda apresenta todos os elementos necessários para um desenvolvimento motor dentro dos padrões considerados normais. Embora possa haver uma latência maior em alguns dos estágios (do desenvolvimento motor), prejudicando funções, a criança surda passa pelos mesmos estágios de desenvolvimento que uma criança ouvinte. Percebemos então que uma criança que já nasce surda apresentará grandes desvantagens em relação a uma criança que adquire a surdez aos dez anos, do mesmo jeito que um sujeito que tenha perda total da audição terá mais dificuldades que um sujeito que tenha uma perda leve da audição. Cada caso deve ser tratado de acordo com suas especificidades e necessidades. 2 – Algumas conseqüências indiretas da surdez Como vimos, a surdez pode apresentar uma série de relações indiretas com o desenvolvimento motor do D.A. de acordo com a especificidade de cada caso. Listamos a seguir algumas dessas conseqüências: - A respiração na criança surda é menos ampla, não tão bem utilizada como a da criança que fala, que grita e que canta normalmente. A fala, o canto, entre outros, ajudam a desenvolver a musculatura responsável pela mecânica ventilatória. Alguns deficientes desenvolvem com a ajuda de profissionais o 2 oralismo (comunicação oral), mas mesmo estes não exercitam muito a referida musculatura. Os surdos preferem muitas vezes a comunicação através da linguagem de sinais. - A sua marcha poderá também ser perturbada – arrasta os pés porque não é orientada pelas sensações de contato, suficientes para garantir o equilíbrio, mas insuficientes para regular o seu andar. Podemos não perceber, mas a audição nos fornece pequenas dicas essenciais em nosso cotidiano. O D.A. sente o pé tocando o chão, o que é suficiente para garantir o equilíbrio, mas não para sozinho regular a marcha. - O D.A. pode apresentar dificuldades de movimentação. Por diversos fatores. A falta de estímulo, experiência é um deles. Alguns deficientes apresentam problemas de equilíbrio, conseqüência da surdez neurossensorial, o que dificulta a relação e interação com o meio ambiente. Outros apresentam rigidez em alguns membros pelos mesmos fatores (falta de estímulo, de experiência, insegurança). - Imaturidade Social Alguns deficientes tendem, pela dificuldade que sentem, a se isolar. Acabam não participando de certas atividades, brincadeiras e jogos com outras crianças. Podemos perceber que o deficiente auditivo apresenta uma percepção diferenciada do próprio corpo. Muitos não conhecem seus limites. Outros não reconhecem significados que o corpo traz. Outros não relacionam as respostas do corpo a certos estímulos. Uma série de fatores que afetarão o desenvolvimento motor do D.A. Sabendo disso, e das possíveis conseqüências da surdez para o desenvolvimento motor, como devemos trabalhar com um deficiente auditivo? 3 3 – Caminhos para um trabalho com deficientes auditivos A partir do que vimos, podemos chegar à conclusão, quando pensamos em um programa para deficientes auditivos, que os objetivos são os mesmos do que quando trabalhamos com pessoas não portadoras de tal deficiência. O que irá variar são os meios através dos quais alcançaremos o objetivo. É preciso ter em mente alguns pontos importantes. Primeiro, é necessário que o profissional esteja preparado para tal tarefa. É preciso compreender as necessidades específicas de cada ser, conhecer o seu histórico, suas dificuldades, para que sejam feitas as adaptações necessárias dentro do programa. Outro ponto muito importante é a comunicação. Como passar as informações para o D.A.? Como entendê-lo? Como receber o feedback? “Na comunicação, a visão tem para as pessoas surdas a mesma importância que a audição tem para as pessoas ouvintes. Se a comunicação for imprópria, haverá conseqüências para o desenvolvimento intelectual, da linguagem, das atitudes emocionais e relações sociais, pois na falta da audição, a visão e o tato acabam suprindo e organizando algumas informações tais como volume, tempo, espaço e percepções”. Vemos aí a importância da visão no processo de comunicação do D.A. e algumas possíveis conseqüências de uma comunicação imprópria. Mais adiante trataremos mais especificamente deste assunto. Outro ponto interessante é a inclusão. Hoje muito se fala sobre a inclusão. Esta, inclusive, é um direito do cidadão. O profissional de educação física (e de outras áreas também) deve estar preparado para lidar com este fator. Muitas vezes não é fácil ajudar o sujeito a construir uma identidade perante a sociedade. Listamos a seguir algumas opções interessantes de atividades para serem desenvolvidas com o D.A. Cada atividade tem uma razão e uma finalidade. Escolhemos algumas atividades que consideramos mais abrangentes (que atinjam as necessidades de 4 grande parte dessa população especial), já que, relembrando, cada indivíduo tem necessidades específicas de acordo com o seu histórico. - Conhecimento do corpo “Comunicação através da linguagem corporal é ato de relação, é ato de vida.” “É através do movimento no contexto do tempo e espaço, que a pessoa pode adquirir a consciência do que acontece com seu próprio corpo.” Para muitos deficientes auditivos é importante trabalhar esta relação com o corpo, pois é este também uma ferramenta de comunicação, de conhecimento. Alguns deficientes desconhecem os limites, possibilidades e significados de seu corpo. Podem ser utilizadas atividades que estimulem a identificação e o controle de segmentos corporais, jogos educativos que estimulem a percepção das limitações e possibilidades, a consciência corporal, o ritmo e a coordenação, integração e sociabilidade. - Desenvolvimento da musculatura da mecânica ventilatória Considerando-se que a maioria dos deficientes auditivos, por não exercitarem a comunicação oral, não solicitam muito a referida musculatura. Brincadeiras de assoprar, encher, são interessantes para este trabalho. - Percepção espacial A audição é um instrumento importante na ação de percepção do ambiente, de interação. Atividades como corridas e marchas, com mudança de lugar e direção, exploração do meio ambiente, localização (acima, abaixo), alteração no ritmo e/ou intensidade das ações são interessantes. -Equilíbrio 5 Como já dito, alguns deficientes apresentam problemas de equilíbrio em conseqüência da surdez neurossensorial. Exercícios simples como caminhar, parar, recomeçar, são importantes. Uma variedade de exercícios sobre a trave podem também ser utilizados; com mudanças de sentido, pulos, entre outros. - Atividades que estimulem os sentidos Muito importante também trabalhar os sentidos com os quais o D.A. se relaciona com o ambiente. Pode-se trabalhar inclusive a percepção de sons, pois não ouvimos apenas pelo ouvido, ouvimos com o corpo. Proprioceptores presentes nos pés e em todo nosso corpo percebem informações que a emissão sonora (ondas sonoras) transmite. Jogos de contato, de precisão, atividades como cabra-cega podem ajudar também a desenvolver os sentidos. - Jogos desportivos Importantes para o desenvolvimento cognitivo e social. A presença de regras, o respeito às mesmas; a presença de outros indivíduos, a interação, são elementos importantes nessas atividades. Nem sempre o D.A. auditivo está preparado ou se sente à vontade para participar de tais atividades. Deve-se estimular sem forçar o aluno a participar se este não quiser. Outro ponto ressaltado para um bom trabalho junto ao D.A. é a eficiência da comunicação. “Na comunicação, a visão tem para as pessoas surdas a mesma importância que a audição tem para as pessoas ouvintes. Se a comunicação for imprópria, haverá conseqüências para o desenvolvimento intelectual, da linguagem, das atitudes emocionais e relações sociais, pois na falta da audição, a visão e o tato acabam suprindo e organizando algumas informações tais como volume, tempo, espaço e percepções.” Como passar, trocar informações, como receber o feedback, como se comunicar com o D.A. de modo eficiente? Alguns detalhes podem fazer a diferença. A seguir algumas dicas: 6 Seja claro e sucinto em suas explicações. Evite ficar indo e voltando, retomando o que já foi dito, interrompendo frases, seqüências lógicas do pensamento. Fale calmamente. Olhe diretamente quando falar com o surdo para que ele possa visualizar seus gestos, sua boca (muitos fazem leitura labial). Utilize dicas visuais como demonstrações, cartazes e outros. Como vimos, a visão tem grande importância na comunicação para o surdo. O mínimo conhecimento da linguagem dos sinais possibilitará melhor compreensão entre professor/alunos. Em atividades em grupo deve-se armar um esquema de segurança para o deficiente, que inclua a comunicação com os colegas do grupo. Sinais podem ser combinados quando por exemplo o D.A. não escutar o apito do juiz em um jogo de futebol. Por fim, ressaltamos a importância da inclusão. Processo este positivo não só para o deficiente, mas para aqueles que estão diretamente ligados. Muitos profissionais não estão preparados para lidar com este fator, não sabem como trabalhar com o deficiente, com a classe, não sabem preparar nem dirigir atividades em classes “mistas”. Incluir não é somente juntar o deficiente com seres “normais”. Uma série de atitudes e conhecimentos são necessárias para que a inclusão seja positiva. A inclusão deve partir não só do deficiente, mas daqueles que os cercam e, em um espectro maior, da sociedade. Vê-se que é um fator complexo que requer profissionais preparados. Recolhemos de livros e pesquisas algumas sugestões básicas: - É necessário um diálogo contínuo entre profissionais de diversas áreas que acompanham o desenvolvimento do aluno, do grupo. Pois vários aspectos apresentam-se frente ao educador, e este deve buscar essa troca de informações buscando sempre aperfeiçoar e adaptar o projeto às circunstâncias. Um profissional de Educação Física não conseguirá sozinho contemplar todos os aspectos relativos à inclusão, pois esta apresenta diversos fatores: emocionais, sociais, afetivos, motores...enfim, podemos perceber a importância de um trabalho globalizado para que se alcancem resultados positivos. 7 - Deve-se perceber as necessidades individuais de cada aluno, pois nem todo deficiente auditivo apresente as mesmas dificuldades. Deve-se conhecer o histórico de cada um; e não só o histórico relacionado à aspectos motores. Assim, o programa poderá ser elaborado de acordo com tais características. - A inclusão deve ser um processo de troca. Torna-se necessário então o trabalho com o grupo inteiro, a conscientização dos envolvidos, a constante troca entre alunos e entre professor e alunos. Este é um aspecto nem sempre fácil de ser trabalhado e o profissional deve estar consciente que este é um processo de troca. Dentre os pontos levantados neste trabalho ressaltamos três: cada deficiente apresenta características específicas e portanto, cada ser requer cuidados diferentes. Quanto mais cedo for a intervenção, o trabalho junto ao deficiente, melhor para o desenvolvimento deste. Os profissionais devem estar preparados para trabalhar com clientes especiais. 8