V Congreso Europeo CEISAL de latinoamericanistas N° del symposio : MS/MIG - 2 Redes sociales: de lo local a lo transnacional Daniel Granada da Silva Ferreira Apellido: Daniel Nombre: Granada da Silva Ferreira Universidad y/o centro de investigación: Doctorant à l’Université de Paris X – Nanterre – Laboratoire d’Ethnologie et Sociologie Comparative. Centre de recherche sur les religions et les cultures afro-américaines, CERCAA. Palabras clave (de 3 a 8): – Redes – Capoeira – identidades – “raça” – nação – Brasil - transnacionalidade – França. Título de la ponencia: A Capoeira do Brasil até Paris: redes sociais, transformações e adaptações da prática da capoeira no Brasil e na França. Resumo: A análise da organisação social através do paradigma das “redes sociais”, entendida como sistema multiforme de comunicação formado por diferentes nódulos interconectados de forma fluida e multiforme e em constante mutação, em que cada ator social participa de diferentes redes nas quais todas as partes seriam interdependentes e sem um centro definido, ao invés de propor um corte radical com o passado, nos permite de retornar ao passado e de ver como as redes sempre foram centrais na sociedade humana. O artigo visa apresentar as mudanças na pratica da capoeira (uma arte marcial afro brasileira) com relação às idéias de “raça” e nação no Brasil, as diferentes formas de redes associativas desta pratica através do tempo, e os processos de adaptação e tradução desta pratica por associações que atuam na região Parisiense, suas ligações com o Brasil e os conflitos e contradições decorrentes do contato entre franceses e brasileiros. Pratica associada à herança cultural africana no Brasil, a capoeira esteve sujeita aos efeitos das politicas de repressão, cooptação, marginalização e mais recentemente “valorisação” dirigidas ao segmento da população classificada como “afro descendente”. Reprimida duramente no final do século XIX e prevista como crime no codigo penal, a capoeira volta à legalidade nos anos 1930 quando acontece a criação das primeiras escolas de capoeira, e a capoeira passa a ser vista como o “esporte nacional”. A partir dos anos 80 com o inicio da redemocratização do Brasil e o fortalecimento do “movimento negro” a capoeira se torna um símbolo da negritude e um instrumento de manifestação e protesto. Nos anos 70 e 80 o Brasil passa de um pais de imigração para um pais de emigração, muitos deste brasileiros que partem do pais em busca de melhores condições de vida e trabalho “levam em suas bagagens” a capoeira e começam a ensina-la no exterior. A França conta hoje com 400 academias de capoeira 100 destas na região parisiense. Através da pratica da capoeira algumas associações começam a promover uma série de atividades e eventos que as ligam a grupos no Brasil. Esta “trocas” proporcionadas por este sistema de redes transnacional entre França e Brasil gera certos conflitos com relação as diferentes interpretações de “codigos de conduta”, idéias de “raça” inspiradas no Brasil com as idéias do “igualitarismo republicano” francês. 2 A Capoeira do Brasil até Paris: redes sociais, transformações e adaptações da prática da capoeira no Brasil e na França. Introdução A análise da organisação social através do paradigma das “redes sociais”, entendida como sistema multiforme de comunicação formado por diferentes nódulos interconectados de forma fluida e multiforme e em constante mutação, em que cada ator social participa de diferentes redes nas quais todas as partes seriam interdependentes e sem um centro definido, ao invés de propor um corte radical com o passado, nos permite de retornar ao passado e de ver como as redes sempre foram centrais na sociedade humana (Sorj, 2003). Esta comunicação visa apresentar as mudanças na prática da capoeira (uma arte marcial afro brasileira) com relação às idéias de “raça” e nação no Brasil, as diferentes formas de redes associativas desta prática através do tempo, e os processos de adaptação e tradução desta prática por associações que atuam na região Parisiense. O que que chama-se "capoeira", é uma prática que se transforma e que se adapta aos diversos contextos sócios - políticos. Nesta comunicação procuro mostrar que esta prática muda de acordo com a época, e de acordo com o contexto e a região. Esta variação de significado pode acontecer mesmo em diferentes regiões do Brasil. No caso da capoeira de hoje, cada grupo vai organizar cosmologias próprias com um mito de origem, heróis ou mártires, e regras que vão conduzir o conjunto da prática do grupo, assim como os limites entre nós e os outros. Proponho sinalizar as formas de negociação utilizadas pelos agentes, chamados aqui "capoeiristas", indivíduos que consciente ou inconscientemente defendem e preservam a prática capoeira. No que diz respeito às práticas sociais institucionais cooptação, de repressão ou incentivo aos "capoeiristas" e a sua prática, a capoeira, assinalo que estes períodos históricamente analisados nos mostram formas de atuação, políticas de Estado e demandas sociais diversas que requerem estratégias de ação diferentes por parte dos indivíduos e grupos. Esta comunicação apresenta uma primeira parte de pesquisa bibliografica onde foi necessario conjugar as abordagens da antropologia e da história, pois as duas disciplinas oferecem instrumentos importantes para a explicação dos processos de construção das culturas "afroamericanas" (Capone, 2005), e uma segunda parte ethnográfica fruto de uma pesquisa de campo iniciada em 2002 no Brasil e a partir de novembro de 2004 na França. Esta pesquisa foi e esta sendo realizada através de observação participante, entrevista informais com capoeiristas da região parisiense, material de imprensa informal e pesquisa bibliográfica. 3 Como espero que fique claro nesta comunicação, minha preocupação é de oferecer um panora mostrando que a capoeira serve como um caso exemplar para se compreender as mudanças das formas de organização através do tempo e as estratégias de inserção utilizadas pelos individuos. Capoeira, “raça1” e nação no Brasil: A capoeira, conhecida como uma prática associada à "herança cultural afrobrasileira" aparece pela primeira vez em relatos de viajantes no século XIX. Nos documentos encontrados por historiadores, o primeiro data de 1789, ele se refere a um mulato chamado Adão, que é acusado de ser um capoeira2. Como produto de uma determinada parcela da população historicamente marginal na sociedade brasileira, "os afrodescendentes", a capoeira foi também, de maneira geral, sujeita às mesmas políticas de Estado que se dirigiam à população de ascendência Africana. Para compreender o processo histórico de formação capoeira até aos nossos dias, vamos utilizar um modelo analítico ligado à historia politica do Brasil, que divide em três períodos as relações "raciais" e a "cultura negra3" no país4. Os três períodos propostos são apresentados aqui de maneira bastante simplificada: o primeiro período começa com o tráfico escravo até à abolição da escravidão em 1888, o segundo com o início da "Era Vargas" a partir de 1930. O terceiro período é marcado pela redemocratisação do Brasil a partir dos anos 70, passando pelos anos 1980 até aos nossos dias com a política do governo Lula de reconhecimento do Brasil como uma sociedade multicultural. Estas datas, utilizadas para analisar a história das relações "raciais" no Brasil dos tempos modernos, servem também de referência para compreender as transformações às quais esteve e está sujeita a prática capoeira. Vou expôr em primeiro lugar as razões históricas do aparecimento da população « negra » no Brasil, a sua importância e a sua localização a fim de compreender, em seguida, o contexto de formação dos primeiros discursos nacionais em torno da idéia de mestiçagem. A 1 Raça é uma construção social e existe somente em razão de ideologias racistas, mesmo tendo pouco ou quase nenhum fundamento biológico, de qualquer forma raça ainda é importante porque as pessoas continuam a tratar e classificar os outros de acordo com idéias socialmente aceitas. No caso aqui estudado é particularmente interessante para perceber as mudanças sobre as idéias sobre a « raça » e as estratégias de adaptação da pratica da capoeira. 2 O documento foi encontrado pelo historiador Nireu Cavalcanti. Citado por Assunção, 2005 : pp 73. 3 “Cultura negra” é uma categoria nativa e ela não pode ser confundida como uma categoria analitica. 4 AGIER Michel, CARVALHO Maria Rosario G. De. (1994 :107-108) Assinalam sobre as mudanças nas idéias de relações « raciais » no Brasil que : « les périodes peuvent être résumées en trois étapes principales : La période post-abolition débouchant sur les mouvements des années 1930 ; les mouvement antiraciste des années 1970 ; la convergence des divers milieux et discours noirs et afro-brésiliens – religieux, culturels et politiques – des années 1980 - 1990». Para o proposito deste trabalho, é preciso voltar um pouco antes para compreender o contexto da escravidão e os momentos anteriores à abolição da escravatura e um pouco depois para compreender a internacionalisação da capoeira. 4 segunda parte tratará do aparecimento do discurso sobre "democracia racial" no Brasil e as suas implicações, enquanto a terceira parte mostrará a mudança deste ideal de « democracia racial » que dá lugar uma "etnicisação" da questão « racial » através do « Movimento negro ». A importancia na crença em uma origem comum (objetivamente fundada ou não) e um processo historico coletivo, que serve de fundamento aos sentimentos de pertencimento étnico, são muito próximos dos ideais nacionalistas e dos sentimentos de nacionalidade (Weber, [1956] 1995). O debate sobre as idéias de "raça" no Brasil é por conseguinte intimamente ligado às idéias de nação, como quero mostrá-lo. O debate aqui realizado, quer sublinhar de maneira clara e sintética os pontos mais importantes para as mudanças do modo de organisação da prática da capoeira e as diferentes formas de « redes sociais » que ela assume através do tempo. A capoeira no contexto da escravidão O Brasil recebeu bem mais escravos africanos que qualquer outra região da América. Entre 3,5 e 4 milhões de indivíduos foram deportados de diferentes regiões da África: século XVI, de Gâmbia e do Senegal ; no século XVII, do Congo e de Angola, século XVIII de Gana e do Benim. Cada ano, os mercadores de escravos portuguêses, inglêses, holandêses ou francêses fornecem mão de obra às plantações de açúcar. No Brasil, o tráfico de escravos impôs o modelo duradouro de uma sociedade escravagista. Como os escravos provêm de diferentes regiões da África, os mercadores procuram mistura-los, dividindo-os a fim de tornar-los mais vulneráveis e mais dócis. Apesar de tudo, revoltas ocorrem, escravos fogem e criam zonas de direito chamadas "Quilombos". O quilombo mais famoso será o de Palmares, na serra do atual estado de Alagoas que agrupou mais de 20.000 pessoas no século XVII. Zumbi, o seu chefe mais emblemático, tornou-se o símbolo da revolta dos escravos e mesmo o négritude brasileira; frequentemente é cantado nas rodas5 capoeira6. A capoeira nasceu neste contexto de escravidão. A idéia amplamente difundida nos grupos capoeira de hoje é que "ela foi utilizada por escravos africanos como uma arma contra a opressão colonial do português" e que a prática nasceu nos quilombos. Hoje, estas idéias são contestadas por historiadores pesquisadores que estudam a capoeira no século XIX. De acordo com Soares (1999) os documentos que se possui atualmente mostram-nos que a capoeira é uma prática de meio urbano. 5 Rodas de capoeira são os momentos em que os capoeiristas se reúnem para praticar capoeira, é diferente dos momentos de treino de capoeira. 6 CD Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, 1999. 5 O campo do debate intelectual sobre as origens capoeira divide-se entre o "afrocêntricos", geralmente procedentes da academia EUA. Entre eles encontram-se Farris Thompson e Gerard Kubik7, que apoiam a tese que a capoeira é uma prática dos Africanos no novo mundo e que tentam provar sua tese procurando índicios em rituais do continente africano; e os "Brasilocêntricos" que defendem uma origem exclusivamente brasileira da capoeira8. Tendo em conta o objetivo deste trabalho, é suficiente dizer que hipótese mais aceitável é a dos pesquisadores que dizem que a capoeira como tal nasceu no Brasil, mas que podemos encontrar as suas raízes em rituais de diferentes nações africanas (Assunção, 2005; Soares, 2004). Para esta comunicação é necessário assinalar os processos de negociação, criatividade e de "creolisação9 ", aos quais esta sujeita esta prática, ao invés de tentar encontrar vestígios que teriam sido"transplantados" da África para o Brasil (Mintz et Price, 2003). Durante todo o século XIX, a questão da escravidão permanece primordial e suscita posições diferentes por parte das elites da nova nação na qual os negros são amplamente mais numerosos que os brancos. Os capoeiristas encarcerados por distúrbios ligados à prática da capoeira segundo os registros policiais do Rio de Janeiro no século XIX (Bretas, 1991; Reis, 1995; Soares 1999, 2001), organizavam-se em grupos chamados "maltas" que se dividiam geograficamente por bairros na cidade; estes grupos tinham uma ação territorial. Além disso, utilisavam sinais distintivos nas vestimentas como o chapéu e o lenço, e utilizavam também os cantos especificos para provocar os outros grupos rivais (Soares, 1999). As duas pricipais maltas de capoeira eram os Nagoas e os Guaiamus. Os problemas causados pelos capoeiras na cidade acentuam-se cada vez mais e as autoridades tomam medidas de repressão mais severas para tentar controlar esta "doença social". Durante a primeira metade do século XIX, a capoeira e os conflitos em relação à sua prática, não eram necessariamente um fator de problema entre a polícia e os negros, mas um problema entre os próprios negros, fossem livres ou escravos. Soares vai concluir que 7 Para conhecer um episodio da passagem de Kubik pelo Brasil ver : FRY, Peter et VOGT, Carlos. Cafundó : A África no Brasil. São Paulo: Ed. Schwarcz,1996. 8 Para uma visão mais profunda deste debate ver : Assunçao, 2005. 9 A palavra « creolisação » é utilizada aqui como propõem Assunção, « Creolisation – in the wider meanning I am using here – entails le processus of both fusion et segmentation, as well as the relocation of particulars pratices in new contextes and more encompassing manifestation”. ( Assunção, 2005 : 32) 6 « a capoeira mais que um elemento de resistência escrava aos desmandos da ordem escravista, era uma peça importante no jogo de poder entre os próprios escravos, no qual libertos e livres entravam marginalmente. Jogo em que as maltas eram a unidade fundamental » (Soares, 2001: 85). No fim século XIX, época da abolição da escravidão no Brasil, as doutrinas evolucionistas estavam amplamente difundidas na Europa. Estas doutrinas classificavam os humanos em diferentes « raças », os « brancos » como mais a “raça” mais « evoluida » de um lado, e os negros e os indígenas como mais « primitivas » do outro. Com a idéia de "raças puras", a mestiçagem era considerada como deterioração (Schwarcz, 1995), e o Brasil considerado como um país de mestiçagem, a questão étnica se torna então, central para a construção da identidade nacional brasileira (Capone, 2003). As elites brasileiras da época, procuram adaptar as doutrinas evolucionistas européias e inserir o Brasil num projeto de país viável, este projeto poderia ser alcançado pela mistura da população local com as populações brancas de origem européia (Skidmore, 1989; Schwarcz, 1995; Seyferth, 1996). No século XIX ocorre a chegada maciça de novos imigrantes europeus: alemães (Rio Grande do Sul) e italianos (São Paulo). Mas estes novos recém-chegados mostram-se muito menos propensos à mistura de raças que colonisador português. Entre o século XIX e o início do século XX, é estimulada a imigração da população de origem latina porque acreditava-se que estas populações teriam muito mais facilidade a misturar-se e a integrar-se ao projeto nacional. A partir de 1890, três milhões de europeus vêm ao Brasil (Skidmore, 1989). O fluxo migratório mais intenso situase entre os anos 1880 e 1920. Nos anos de 1890, mais de um milhão e duzentos mil indivíduos da Europa, a maior parte vindo sobretudo da Itália, chegaram ao Brasil (Seyferth, 1996). Palavras como "assimilação" e "mistura" são palavras chave do discurso nacionalista da época num contexto de crítica às políticas de imigração aplicadas pelo Império10. Durante a segunda metade do século XIX, a capoeira torna-se um « problema social » para a cidade de Rio de Janeiro, até à abolição da escravatura, em maio de 1888 quando o parlamento aprova a abolição total e imediata da escravidão sem compensação (Lei Aurea). Na época de sua proclamation, esta lei atinge cerca de um milhão de pessoas e afeta fortemente as regiões de plantação. Este momento corresponde a um momento de forte atuação das « maltas » de capoeira que aterrorizavam a cidade de Rio de Janeiro. Neste ano 10 As criticas são relativas ao incentivo por parte do Império brasileiro da imigração de alemães que se instalaram no interior da região sul do Brasil e recusaram a integração com as populações locais, formando comunidades quase isoladas. 7 ocorre uma grande mobilização capoeiras na cidade de Rio de Janeiro, e a formação da Guarda Negra (formada por capoeiristas) é precedida por numerosos conflitos entre do Nagoas e Guaiamuns, as duas maltas mais importante da cidade. Dois anos após a abolição da escravidão a capoeira, que era vista como uma contravenção, torna-se um crime previsto no código penal da República de 11 de Outubro de 1890 (Soares, 1999). Nos anos que seguiram a promulgação desta lei, a capoeira desaparece praticamente das ruas de Rio de Janeiro. A forte repressão culminou com a pena de exílio forçado (desterro) para os capoeiristas que eram presos em flagrante delito na prática de movimentos de « agilidade corporal ». Durante a segunda metade do século XIX, o número de não negros, e estrangeiros presos na prática da capoeira é significativo. As relações entre as diferentes classes sociais vão evoluir muito lentamente e a parte superior da hierarquia social permanece ainda muito tempo exclusivamente branca. O Brasil foi o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, 23 anos após os Estados Unidos. Os anos 1930, a codificação de dois estilos capoeira e o "Brasil mestiço": A partir dos anos 1920 e 1930 pricipalmente devido produção à intelectual dos Estados Unidos com a obra de Frantz Boas (1858 - 1942), opera-se uma mudança do paradigma de "raça" para o de "cultura". No Brasil, com a publicação do livro Grande & Senzala de Gilberto Freyre, inspirador da idéia de "democracia racial" (ver Guimarães, 2002), o mito do Brasil como tendo sido formado por três "raças", o branco, o negro e o índio e a ideologia da mestiçagem ganham importância durante este período. O governo Vargas instaurou uma política populista de construção da identidade nacional, neste sentido houve importantes medidas de assimilação da população imigrante (Seyferth, 1997). Neste projeto de criação de de uma identidade nacional comum, foram reprimidas as expressões particularistas e consequentemente também as expressões "identitarias negras". A Frente Negra, um movimento de caráter assimilationista, foi criado nessa época e transformado em partido político em 1936. Foi proibido no ano seguinte pela ditadura de Vargas (Agier, 1995). A capoeira retorna nos anos 30 com um novo caráter. Agora é chamada luta regional bahiana e o seu mentor Manoel costas Reis Machado, Mestre 11 Bimba, é o responsável por sua criação em 1932. Ele introduz modificações na prática da capoeira, ele começa a ensinar 11 A palavra “mestre” é utilizada tradicionalmente na capoeira para referir-se ao capoeirista reconhecido como tal pela sociedade. Seu significado e origem deriva dos antigos “mestres de ofício” como o “mestre de obras”, o “mestre de marcenaria”, ou seja, pessoas com saber notório. Aqui optei por utilizar a mesma denominação que é utilizada nos grupos porque a palavra e a figura do “mestre de capoeira” carrega consigo um certo significado mítico, e talvez até messiânico. 8 em uma academia, uniformiza os alunos e pede um certificado de escolaridade ou uma carteira de trabalhado para as pessoas que quisessem se inscrever na sua escola. Ele também cria um método de ensino chamado "sequências de Bimba", entre outras modificações. Com estas modificações na prática capoeira, Bimba vai "limpar" esta prática, dar-lhe um caráter desportivo, e atingir outro público. Agora são os filhos da elite, os estudantes e trabalhadores que a praticam, e não mais os « marginais ». Alguns anos após Bimba, Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Pastinha abre o seu Centro desportivo Capoeira a Angola em 1942, dizendo que praticava a capoeira que existia antes da criação do estilo regional. Pastinha faz também modificações na prática capoeira, como a introdução de um uniforme nas cores preto e amarelo, as cores do seu clube de futebol, "Esporte Clube Ypiranga". Ele organisa em sua academia uma nova maneira de praticar a capoeira, realiza apresentações em shows folclóricos, e submete esta prática a um evidente processo de pacificação (Vassalo, 2002). Estes elementos introduzidos por Pastinha assinalam uma ruptura com a forma de capoeira que ele diz praservar. O paradigma de pureza na capoeira angola vai se construir então, graças à relação de Pastinha com intelectuais como Jorge Amado e Caribé ambos engajados num projeto de preservação e contrução da pureza das manifestações culturais afro brasileira (Vassalo, 2002). Podemos dizer que as duas escolas de Bimba e de Pastinha foram em grande parte responsáveis do renascimento da capoeira, de uma forma bem distinta daquela praticada no século XIX, forma que « grosso modo » continua a ser praticada nas escolas "capoeira regional" e "Angola" que existem atualmente, certamente com profundas modificações e adaptações aos novos contextos, atualmente os discursos da "tradição" e "pureza" nos grupos de capoeira vão se tornar um elemento chave na disputa de maior espaço no mercado cultural de « produtos éthnicos » e para obtenção de mais alunos. É durante o período dos anos 1930/40, com a política do governo Vargas que visa a criação de uma nova identidade nacional, que a capoeira se torna um símbolo da nação, a luta "brasileira por excelência" e que são feitos esforços de codificação dos dois estilos, hoje sempre misturados, recriados e em adaptação constante aos novos contextos e demandas locais. Este período é também de revalorização e de redescoberta dos "africanismos" no novo mundo (Assunção, 2005). Nos anos 1950 à 1970 a idéia do Brasil como sendo um "paraíso racial" vai permanacer. Nos anos 1950, o Brasil mantinha uma boa reputação internacional graças à sua "democracia racial". Este periodo é o momento em que vão se realizar os estudos de comunidades sobre as relações raciais no Brasil, de acordo com a tradição da Escola de Chicago (Guimarães, 1999), são os chamados ciclos de estudos da UNESCO (1953 - 1956). A 9 Instituição queria compreender o segredo da "democracia racial" brasileira. Estes estudos foram realizados por diversas instituições e pesquisadores. As pesquisas chegaram à resultados diferenciados: nos estudos que foram realizados na Bahia, Recife e no Norte do país, as conclusões dos estudos pioneiros de Freyre e de Pierson, segundo os quais o preconceito racial era fraco senão inexistente no Brasil, continuaram. Nos estudos realizados em São Paulo, Rio de Janeiro e no Sul do Brasil, a presença de tensões raciais crescentes foi bastante documentada. Os resultados das pesquisas realisadas no Brasil mostraram que existia racismo no Brasil e que este racismo era generalizado na sociedade brasileira. Estas pesquisas permitiram constatar, que o preconceito era forte na sociedade brasileira e que o brasileiro tinha "o preconceito de ter preconceitos" (Fernandes, 1972). Florestan Fernandes, da Universidade de São Paulo, foi nomeado principal pesquisador brasileiro do projeto UNESCO. As suas conclusões surpreenderam a UNESCO porque ele foi o primeiro a contestar fortemente as idéias de « democracia racial » segundo o pensamento de Gilberto Freyre. A constatação da existência do racismo foi silenciada durante o período da ditadura militar de 1964 a 1984, momento em que os militares tiveram êxito em suprimir pela força toda atividade política ou ideologica contrária ao governo ditatorial. O mito da "democracia racial" brasileira vai persistir até aos anos 90. No período dos anos 50 até aos anos 80, o capoeira retorna à Rio de Janeiro de Janeiro através do grupo Senzala e vários capoeiristas seguem o fluxo migratório das regiões pobres do Nordeste do Brasil para as regiões do Sul e Sudeste, muitos destes migrantes levam consigo a capoeira e o sonho de uma nova vida nas regiões ricas do país. Renascimento das reivindicações negras – os anos 1970 - 1990 A partir do fim dos anos 1970 e entre 1980 e 1990, o país assiste a um renascimento das « manifestações negras » que gradualmente vão se constituir ao longo dos anos como um movimento ator da cena política. Durante os anos 70, como diz-nos Stefania Capone, « la critique du syncrétisme au Brésil, comme ailleurs, prends la forme de la valorisation de la culture afro. « Afro » devient le symbole du Noir qui a pris conscience de ses origines et de la façon dont elles représentent une expression culturelle « alternative » vis – à – vis de la société dominante » (Capone, 1999 : 18). Este renascimento acontece ao mesmo tempo num contexto de degradação das condições de vida e de reconstrução democrática após o fim da ditadura que traz a esperança 10 de um reconhecimento das reivindicações das minorias através da abertura de novos espaços políticos. Em 1978, o Movimento Negro Unificado (MNU) é criado em São Paulo por organizações culturais e políticas que lutam contra a discriminação "racial". A denúncia do racismo se difunde na sociedade brasileira, ainda que ela se esconda por traz do mito 12 da "democracia racial", esta denúncia atribui cada vez mais uma causa "racial" às desigualdades sofridas pelas pessoas negras. A questão da conquista de direitos econômicos, sociais e de representação política começa a ser vinculada à uma reflexão sobre a eventual necessidade de implementação de « políticas identitarias ». Dez anos mais tarde o "racismo" é previsto como crime pela nova Constituição de 198813. O centenário da abolição da escravidão em 1988 e o tricentenario de Zumbi em 1993 marcam eclosão dos debates na imprensa sobre o "racismo à brasileira". A partir do mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso que começa em 1995 são propostas políticas de ação afirmativa. Um grupo de trabalho interministerial é criado a fim de "sugerir ações e políticas de valorização da população negra". No ano seguinte, é desenvolvido um programa de Direitos Humanos que porta um capítulo específico consagrado à "população negra". As propostas mais radicais deste programa referem-se ao desenvolvimento de "ações afirmativas para facilitar o acesso do negros aos cursos técnicos superiores e aos setores de alta tecnologia" e a intenção "de formular políticas de compensação para a promoção social e econômica da comunidade negra". O programa propõe igualmente o abandono da taxonomia tradicional de negros, mestiços e brancos em proveito de uma taxonomia bipolar (mulatos, mestiços e negros fazendo todos parte da população negra) (Maggie, Fry, 2002). Contudo, a partir de 1995 e até muito recentemente, estas tomadas de posição em prol de políticas "racialisantes" permanecem objeto de uma minoria composta por integrantes do Movimento Negro e certos intelectuais brancos. A sociedade civil, quanto a ela, mostra-se amplamente oposta à adoção de tais medidas, o que mostra efetivamente a predominância de ideais "colorblind" no Brasil (Maggie, Fry, 2002). É quando acontece em Durban na Africa do Sul a III Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância em 2001, que a doutrina de "democracia racial" é abandonada: reconhece-se oficialmente a legitimidade 12 Mito no sentido antropologico não se confunde com uma falsa ideologia; significa a expressão simbolica de um conjunto de ideais que organisam a vida social de uma certa comunidade. 13 Art. 5° XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei ; « Crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor : Lei 7716, de 5-1-1989, e Lei n. 9.459, de 13-5-1997. » Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. 31° Edição atualizada e ampliada – 2003. Editora Saraiva. São Paulo. 11 reparar os danos relativos à escravidão e são propostos "tratamentos preferenciais" para a "população afrodescendente" (Maggie, Fry, 2002). A instauração de quotas por critérios raciais em certos órgãos da administração pública, como o Ministério da Justiça e o Instituto da Reforma Agrária, bem como em certas universidades públicas (Guimarães, 2003), mostra a vontade do Estado de intervir junto dos negros a fim de restabelecer um equilíbrio de oportunidades reconhecendo a discriminação sistemática sofrida por este segmento da população desde o fim da escravidão na sociedade brasileira, visando retificar o desequilíbrio existente. Estas três últimas décadas, o desenvolvimento de uma "identidade negra" ocorreu principalmente graças às reivindicações de uma classe média negra que afirma a sua relação à "raça", desconstruindo assim a idéia de incompatibilidade entre ascensão social e negritude e abrindo novos espaços de expressão para esta negritude. Evidentemente, este contexto de reforço da negritude e reconhecimento do racismo por Instituições governamentais no Brasil reflete-se no "mundo capoeira". A capoeira regional, mais espectacular e mais agradável para os turistas, espalhou-se especialmente por Salvador na Bahia graças ao apoio financeiro do serviço de turismo de Bahia que organizava espetáculos folclóricos. Os grupos capoeira, tentando adaptar-se ao "gosto dos turistas" e aos pedidos do serviço de turismo, começaram a fazer apresentações cada vez mais acrobáticas e com novos ingredientes acrescentados à prática capoeira14 (Rego, 1968). A capoeira regional é praticada por toda a parte no Brasil durante os anos 70 e 80; em contrapartida, a capoeira angola tinha cada vez menos espaço, e estava prestes a desaparecer no início dos anos 80 (Assunção, 2005). É nos anos 70 e 80 que o Brasil, pela primeira vez na sua história, passa do estatuto de país de imigração ao de país de emigração. O número de Brasileiros em busca de melhores condições de vida e de trabalho no estrangeiro começa a ser cada vez mais notável. A capoeira acompanha alguns destes Brasileiros que se instalam em outros países. O capoeirista brasileiro torna-se um produto de exportação como a mulata dançarina de samba, o músico, e o jogador de futebol. No Brasil, o GCAP (Grupo de Capoeira Angola Pelourinho) é fundado nos anos 80 no Rio de Janeiro e dá um novo fôlego à prática da capoeira Angola, o seu líder, Mestre Moraes, nascido na ilha de Maré, lugar mítico da capoeira, começou a praticar capoeira na escola Mestre Pastinha aos oito anos de idade. Ele foi aluno do Mestres João Grande e João Pequeno e foi para o Rio de Janeiro nos anos 1970. 14 Estes novos ingredientes seriam por exemplo movimentos mais acrobaticos, e outras manifestações folcloricas como o maculele, o samba de roda e a puxada de rede. 12 Após ter ensinado a capoeira e formado vários mestres no Rio de Janeiro, ele parte para o Salvador em 1982, um ano após o falecimento de Mestre Pastinha. Moraes vai defender o discurso da "tradição" na capoeira e vai representar a ortodoxia nesta prática (Assunção, 2005). No contexto de revalorização da, négritude, o GCAP adquire um papel de vanguarda. Com um discurso fortemente "racialisado15", o grupo vai acrescentar à "bandeira da tradição" denúncias contra o "racismo" da sociedade brasileira. A década de 1990 no Brasil marca uma ruptura radical com os nacionalismos precedentes baseados na idéia de mestiçagem que negavam a existência de minorias. A amplificação dos debates a nível local e nacional reflete a diluição do mito da "democracia racial" que ocultava as desigualdades "raciais" e a percepção do "racismo". O contexto dos anos 1980-1990 vai ser propício ao rompimento desta idéia: a democratização do Estadonação vai ser o factor principal do fortalecimento da reivindicação da identidade negra porque ela é legitimada pelo reconhecimento das minorias por parte do Estado. Neste contexto denúncia do "racismo" ocorre atualmente uma mudança interessante porque agora parece que a capoeira regional que representava a novidade no contexto da mestiçagem e do branqueamento começa a assistir o crescimento da modalidade capoeira Angola. A modalidade de capoeira angola vai preencher os desejo de uma prática "socialmente comprometida" e vai fornecer uma identidade de caráter contestatório, esta identidade de "angoleiro" acentua os valores de uma "atitude de contestação" em relação à "sociedade" e ao "sistema". Apesar das desigualdades das relações de forças no processo de mundialização, o capoeira continua a sua expansão, adapta-se aos novos contextos e vai sendo reinterpretada a fim de melhor adaptar-se. A capoeira na França Na França, os capoeiristas começaram a instalar-se, durante o fim dos anos 70 e no início dos anos 80 vindos geralmente de cidade como Rio de Janeiro e São Paulo (Vassalo, 2002). Cada ano os grupos capoeira multiplicam-se, a prática ganha cada vez mais adeptos e 15 Utiliso aqui a idéia de racialimo segundo Anthony Appya (1997). O racialismo, segundo ele seria a idéia : “de que existem características hereditárias, possuídas por membros de nossa espécie, que nos permite dividi-los num pequeno conjunto de raças, de tal modo que todos os membros destas raças compartilham entre sí certos traços e tendências que eles não têm em comum com membros de nenhuma outra raça. Esses traços e tendências constituem, segundo a visão racialista, uma espécie de essência racial; (...) Em si o racialismo não é uma doutrina que tenha que ser perigosa, mesmo que se considere que a essência racial implique predisposições morais e intelectuais. Desde de que as qualidades morais positivas distribuam-se por todas as raças, cada uma delas pode ser respeitada, pode ter seu lugar “separado mas igual””. (Appiah, 1997:33). 13 reconhecimento. Em 2005 com as festividades do ano do Brasil na França inúmeras atividades foram realizadas incluindo a capoeira ao repertorio de apresentações. Atualmente o site Internet www.capoeira-france.com16 registra mais de 400 academias capoeira em atividade na França. Paris conta com 99 academias e mais de 50 outras em Île-de-France. No verão de 2006 a prefeitura municipal de Paris em parceria com a empresa Vittel propôs um conjunto de atividades desportivas gratuitas, entre outras a capoeira. A capoeira também esteve presente nas propagandas publicitarias de calçados da marca "Nike air" nas salas de cinema MK2 em Paris durante o mês de setembro de 2006, e ela ainda pode ser vista através das publicidades do desodorante « Ushuaia » veiculadas pelo canal de televisão M6 em fevereiro de 2007. No ano de 2006/2007 dois dicionários de língua Francesa deram a sua definição desta prática: « Capoeira – 1987 ; mot brésilien du tupi. Danse brésilienne inspirée de la lutte et des danses africaines traditionnelles, qui enchaîne en souplesse des figures acrobatiques et des mouvements de combat. » (Le Petit Robert, 2007 :345) « Capoeira – (du Guarani caa puera, île à l’herbe rase) art martial du Brésil, se pratique avec accompagnent musical. (A la fois lutte et danse, rituel et jeu, la capoeira fut pratiquée à l’origine par les esclaves pour dissimuler un entraînement au combat qui leur était interdit.) » (Le Petit Larousse Illustrée, 2007 : 202). Se no Brasil a capoeira passa a se afirmar nestas últimas duas décadas como fazendo parte de uma « cultura negra », na França os desafios de adaptação desta prática são diferentes. O "ideal do igualitarismo republicano", e a recusa do reconhecimento do “étnico” levam a um reforço do papel do Brasil na formação historica da capoeira difundida nos grupos francêses. Mesmo assim surgem alguns casos curiosos do contato entre as idéias da capoeira brasileira e as apropriações feitas pelos capoeiristas francêses. Um caso interessante é o da Associação Kolors que organizou manifestações durante os meses de abril e maio de 2005 em frente ao Hotel des Ventes em Paris contra a venda de documentos sobre a escravidão nas antigas colônias francesas. A associação Kolors realiza suas atividades de capoeira em Paris no 19eme arrondisement, o inicio de minha pesquisa de campo sobre esta associação foi novembro de 2004. Na associação Kolors não há brasileiros, o grupo é composto de francêses parisienses e outros vindos do interior do país ou de departamentos de « outre mer » para Paris. O líder 16 Pesquisa feita durante o mês de junho de 2006 no site www.capoeira-france.com 14 desta associação se chama Jocelyn Chaubo, um francês vindo da Martinica. Ele conta que chegou na França ainda bebê em 1972 com sua mãe. Diz que viveu sua infância e juventude na banlieue. Ele se auto identifica enquanto negro, utiliza o cabelo estilo rastafari, uma grande barba e utiliza vestimentas afro. Ele exerce uma coordenação carismatica com seus alunos. Ele diz que hoje em dia é a capoeira que « me donne à manger ». A adoção deste estilo não é por acaso, os simbolos de « autenticidade » são cautelosamente selecionados e escolhidos pelos novos « agentes identitarios ». Segundo Mike Featherstone : « Os novos heróis da cultura de consumo, em vez de adotarem um estilo de vida de maneira irrefletida, perante a tradição ou o hábito, transformam o estilo num projeto de vida e manifestam a sua individualidade e senso de estilo na especificidade do conjunto de bens, roupas, práticas, experiências, aparências e disposições culturais destinados a compor um estilo de vida » (Featherstone, 1995: 123). Durante seu discurso17 Jocelyn faz críticas à França, ele diz que em seu país existe uma separação entre imigrantes e “franciliens”. Ele ressalta a violência vivida por ele na banlieue, segundo ele, uma violencia institucional e social porque ele não teria tido acesso a boas escolas. Jocelyn diz que a capoeira lhe mostrou que os negros lutaram por suas vidas nas colônias, que eles não aceitaram a escravidão. Quando eu lhe perguntei por que ele pensava que a capoeira poderia ser utilizada para fazer manifestações ele me respondeu que “c’est à cause de son fondement, son essence. Elle a été créée dans le contexte esclavagiste, dans les conditions les plus ignobles de la société. La richesse du nègre et celle de l’être humain est la condition de créer dans les situations les plus difficiles, la capoeira est sortie d’une situation de souffrance pour lutter contre cela. J’ai retrouvé cette question de la lutte dans la capoeira elle-même ». Ele conta que a primeira manifestação que ele fez com a capoeira foi realizada durante o ano de 2001, contra a extrema direita que havia passado ao segundo turno das eleições presidenciais na França. A associação Kolors e outros grupos fizeram uma roda de capoeira em Republique. Mas foi em 2005 que ele começa a organizar manifestações de caráter « racial » ele diz que é importante de fazer este tipo de manifestação « car la négritude elle n’est pas encore affirmée en France » e que segundo ele a capoeira deve informar as pessoas desta mentira que é a superioridade européia. 17 Entrevista realizada em setembro de 2005. 15 Jocelyn é um bom orador, que diz estar comprometido em preservar a « tradição da capoeira ». No panfleto distribuídos aos membros de sua associação em setembro de 2005 estava escrito o seguinte : « Conscience, voilà le terme exacte de notre pratique ! L’inscription à notre proposition est l’assurance d’une pratique légitime et sérieuse, attachée à des fortes racines au brésil (sic) et en France. Notre lien avec notre « mestre Beija Flor » assure à notre travail une certaine pérennité et un soutien indéniable. Notre vision se veut l’héritage de la tradition ancestrale des nègres du Brésil, que « Mestre Pastinha »nomme « Capoeira Angola ». Notre apprentissage se résume en deux axes majeurs, conscience pratique et politique de cet art, dans le respect de chacun. » Para concluir: Se no seu início, o movimento de expansão da capoeira fora do Brasil esta intimamente associado ao movimento de imigração de brasileiros em busca de melhores condições de vida e de trabalho fora do Brasil durante os anos 70 e 80 ; hoje na França várias associações são dirigidas por francêses, o fenômeno de expansão não esta mais necessariamente vinculado a um fenômeno migratório, mas ao estabelecimento de um complexo sistema de redes sociais e de troca de informações estabelecido durante as décadas de 1980 e 1990 e que vem se intensificando e complexificando entre praticantes franceses e brasileiros. A potencialização deste fenômeno de expansão é certamente em grande parte devido a apropriação, tradução e aclimatação desta prática pelos praticantes francêses. Podemos então falar da transnacionalisação da capoeira como parte de um processo de transnacionalisação das culturas afro-americanas no mesmo sentido que nos diz Capone sobre o campo das religiões afro americanas: « les recherches sur la transnationalisation des religions afro-américaines peuvent donc apporter, à mon sens, une contribution intéressante au débat sur les théories de la globalisation et de la transnationalisation culturelle. Il faudra montrer comme dans le domaine afro-américaniste, les théories actuelles sur la globalisation ne font que reprendre ce qui est à base même de ces études, à savoir la reconfiguration des identités individuelles et collectives au sein d’un monde devenu transnational. (…). Les cultures « afro-américaines » n’ont d’ailleurs jamais été enfermées dans un territoire, elles ont été toujours inscrites dans une « écoumène ». (Capone, 2004 : 15-16). 16 Se como vimos acima o surgimeto da capoeira começa com os afrodescendentes durante o século XIX no Brasil sua historia continua ainda hoje num contexto de trocas globais cada vez mais intensas e aceleradas, num continuo e diversificado processo de transnacionalisação. Bibliografia: _______. Danses à la ville. In : Danses « latines »et identité, d’une rive à l’autre… Sous la direction de Dorier – Apprill, Elisabeth. Paris. L’Hartmattan, 1998. pp. 213 – 219. _______. La sagesse de l’ethnologue. Paris : l’œil neuf editions. 2004. AGIER Michel, CARVALHO Maria Rosario G. De. (1994) Nation, race, culture le mouvement noire et indien au Brésil. Cahier d’Amérique latine n°17, p.107 – 124. Institut des Haute Etudes d’Amérique Latine. APPIAH, Kwame Anthony. Na Casa de Meu Pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. ASSUNÇÃO, Mathias Horing. Capoeira – The history of an afro-brazilian martial art. London. Routledge, 2005. BRETAS Marcos Luis. 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