UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ARQUITETURA, ENGENHARIA E TECNOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE EDIFICAÇÕES E AMBIENTAL LÚCIA FLÁVIA MILANI DIAS RAMOS UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DOS MÓVEIS DE MADEIRA E SEUS DERIVADOS CUIABÁ 2013 LÚCIA FLÁVIA MILANI DIAS RAMOS UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DOS MÓVEIS DE MADEIRA E SEUS DERIVADOS Dissertação de mestrado apresentada a Universidade Federal de Mato Grosso, como um dos requisitos para obtenção do título de mestre em Engenharia de Edificações e Ambiental. Área de concentração: Construção Civil Orientador: Dr. Norman Barros Logsdon Co-Orientador: Dr. José Manoel Henriques de Jesus Cuiabá-MT Setembro, 2013. Dedico este trabalho a Maria Helena Moreira Dias, Ana Claudia Milani Ramos e Elen Cristina de Castro Paula, exemplos de amor, carinho, dedicação, compreensão e força. Pilar de sustentação; ensinamento de valores; base fundamental à vida: a família. AGRADECIMENTOS A Deus pela orientação espiritual. À minha família, pelo apoio e incentivo, em especial a minha mãe, Maria Helena, pela inspiração na busca do conhecimento, pelo carinho, dedicação, atenção e pela revisão deste trabalho. Mãe, palavras são insuficientes para demonstrar sua importância neste momento. Ao Orientador Dr. Norman Barros Logsdon e Co-Orientador Dr. José Manoel Henriques de Jesus, pelos ensinamentos, dedicação, orientação e suporte para o desenvolvimento deste trabalho. A Universidade Federal de Mato Grosso e ao Programa de Pós-Graduação, pela infraestrutura oferecida. Ao Professor Prof. Dr. José Eduardo Penna, pelo apoio em visita técnica. À Prof.ª Dra. Zaíra Morais dos Santos Hurtado de Mendoza e ao Prof. Dr. Milton Luiz Siqueira, pelas críticas construtivas que contribuíram para o engrandecimento deste trabalho. Ao Senhor Ladislau Nunes de Campos, mais conhecido como Miro, da MobiliArt Móveis Planejados e a MóveisGiane Design - Móveis e Ambientes Planejados, em especial ao Senhor Jianei Paulo Soldatelli, pela atenção e receptividade em ceder informações e possibilitar visita técnica as suas fábricas de móveis. Aos companheiros e professores do Programa de Pós-Graduação, pelas conversas e debates realizados ao longo da pesquisa e do curso. Aos que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho. “A árvore, quando está sendo cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira“ (Provérbio árabe). RESUMO RAMOS, L. F. M. D. Uma contribuição ao estudo dos móveis de madeira e seus derivados. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Edificações e Ambiental). Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologia. Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, Mato Grosso, 2013. O mobiliário de madeira, ou de derivados de madeira, está presente em várias etapas da vida humana. Embora seja um tema relevante e atual, tenha constante uso e a utilização da madeira e seus derivados como matéria-prima na fabricação de móveis seja crescente, a literatura que aborda o assunto é insuficiente e incompleta. O objetivo desta pesquisa foi condensar em um texto único uma quantidade maior de informações sobre o assunto, abordando estudos sobre a história do mobiliário, conhecendo sua origem e suas transformações devido à capacidade técnica e a sensibilidade estética do seu projetista e executor; os tipos de madeiras e os derivados que podem ser utilizados na fabricação de móveis; as normas específicas relacionadas às dimensões mínimas e máximas dos mobiliários e as que regulamentam o setor moveleiro; medidas ergonômicas; os acessórios utilizados no processo de composição final de um móvel; as ligações utilizadas para fixação das peças; os acabamentos e componentes utilizados; os efeitos de design e as tendências do setor. Todo o trabalho foi elaborado a partir de referências teóricas diversas, sem nortear-se em um autor específico. Espera-se que esse estudo acadêmico seja relevante para a sociedade de um modo geral, mas, principalmente, para o setor moveleiro e à indústria da madeira, tornando-se uma referência com informações mínimas necessárias sobre mobiliário de madeira e de derivados de madeira, pois reúne questões que envolvem o projeto e a fabricação de mobiliários, contribuindo na ampliação do conhecimento sobre o assunto. Palavras-chave: Mobiliário, Madeira, Derivados de madeira, Tecnologias. ABSTRACT RAMOS, L. F. M. D. A contribution to the study of wood furniture and woodbased. Dissertation (Master in Engineering of Building and Environmental). School of Architecture, Engineering and Technology. Federal University of Mato Grosso. Cuiabá, Mato Grosso, 2013. The furniture made of wood or wood-based is present in various stages of the human life. Although it is a relevant and current issue that has being used constantly and the use of wood and wood-based has increased as raw material in furniture manufacture, literature that addresses the topic is incomplete and scarce. The aim of this research was to gather into a single text a larger amount of information about the subject, covering studies on: the history of furniture in way to know its origins and transformations due to the technical and aesthetic sensibility of its designer and maker; types of wood and of wood-based that can be used in the furniture manufacturing; specific standards related to minimum and maximum dimensions and that regulate furniture sector; ergonomic measures; accessories used in the final process of furniture composition; connections used for fixing; components used for finishing; design effects and the sector trends. All the work was compiled from a variety of theoretical references, without being guided from a specific author. It is expected that this academic study is relevant to society in general, and especially to the furniture industry and to the wood industry, becoming a reference with minimum required information about wood furniture and wood-based, because it gathers issues that concern the design and manufacturing of furniture, and contributes to the expansion of knowledge on the subject. Keywords: Furniture. Wood. Wood-based. Technologies. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABIMCI Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente ABIPA Associação Brasileira da Indústria de Painéis de Madeira. ABRAF Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas. BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. BP Laminado de Baixa Pressão CNC Controladores Numéricos Computadorizados DEC Compensado decorativo Dr. Doutor. FF Lâmina Celulósica (Finish Foil) FOR Compensados para formas de concreto GER Compensados de uso geral HDF Painel de Fibras de Alta Densidade (High Density Fiberboard) LE Lâmina Ecológica LM Lâmina de madeira MDF Painel de Fibras de Média Densidade (Medium Density Fiberboard) MDIC Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. MDP Painel de Partículas de Média Densidade (Medium Particleboard) NAV Compensado naval OSB Painel de Partículas Orientadas (Oriented Strand Board) P Compensado Plastificado PVC Policloreto de vinila (Polyvinyl chloride) R Compensado Resinado RAIS Relação Anual de Informações Sociais SAR Compensado Sarrafeado SDF Painel de Fibras Super Denso (Super Density Fiberboard) SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial UB Unidade de brilho Density LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Trono litúrgico usado por Tutancâmon em cerimônias – Museu do Cairo, Egito............................................................................................. 21 Figura 2 Figura 3 Figura 4 Figura 5 Figura 6 – – – – – Cadeira klismos ...................................................................................... 22 Trono de Maximiano............................................................................... 24 Organograma da história geral ............................................................... 26 Cama da Idade Média ............................................................................ 27 Cadeiras de braços criadas na Itália no século XV. Cruzadas em forma de X .............................................................................................. 28 Figura 7 – Mobiliário do estilo gótico ....................................................................... 29 Figura 8 – Mobiliários renascentistas ...................................................................... 30 Figura 9 – Mobiliário renascentista espanhol .......................................................... 31 Figura 10 – Mobiliário barroco ................................................................................... 32 Figura 11 – Mobiliário estilo regência ........................................................................ 33 Figura 12 – Mobiliário estilo rococó ........................................................................... 34 Figura 13 – Mobiliário neoclássico ............................................................................ 35 Figura 14 – Mobiliários Arts & Crafts projetados por Gustav Stickley ....................... 37 Figura 15 – Cadeiras, por Heny van de Velde e Victor Horta, respectivamente........ 38 Figura 16 – Mobiliários de Antonio Gaudí ................................................................. 38 Figura 17 – Mobiliários Art Nouveau ......................................................................... 39 Figura 18 – Mobiliários Art Deco ............................................................................... 40 Figura 19 – Cadeiras, representação inicial do mobiliário moderno .......................... 42 Figura 20 – Mobiliários modernos de madeira e tubo metálico ................................. 42 Figura 21 – Mobiliários de Mies van der Rohe .......................................................... 43 Figura 22 – Chaise-longue e sofá de Le Corbusier ................................................... 43 Figura 23 – Mobiliários modernos de madeira e couro ............................................. 44 Figura 24 – Mobiliários de Charles Eames ................................................................ 44 Figura 25 – Cadeira Lounge y Ottoman de Charles Eames ...................................... 44 Figura 26 – Mobiliários modernos de plástico ........................................................... 45 Figura 27 – Mobiliários modernos de plástico e espuma .......................................... 45 Figura 28 – Mobiliários modernos projetados por brasileiros .................................... 46 Figura 29 – Marcenaria local de pequeno porte ........................................................ 51 Figura 30 – Máquinas utilizadas no processo de fabricação de móveis .................... 52 Figura 31 – Máquinas portáteis: serra meia esquadria, serra circular, tupia portátil, plaina elétrica, serra tico-tico e lixadeira elétrica. ...................... 54 Figura 32 – Fábrica de móveis local de médio porte ................................................. 54 Figura 33 – Serra circular esquadrejadeira ............................................................... 55 Figura 34 – Seccionadora ......................................................................................... 56 Figura 35 – Layout de indústria convencional ........................................................... 58 Figura 36 – Layout de indústria semiautomática ....................................................... 59 Figura 37 – Layout de indústria automática .............................................................. 60 Figura 38 – Estrutura da cadeia produtiva de madeira.............................................. 62 Figura 39 – Cadeia produtiva da madeira com enfoque na indústria de móveis ....... 63 Figura 40 – Conjunto rústico de mesa e banco em madeira maciça ......................... 67 Figura 41 – Móveis de madeira maciça de mogno .................................................... 69 Figura 42 – Móveis de madeira serrada, fabricados com madeira de floresta plantada ................................................................................................. 70 Figura 43 – Painel de madeira maciça em teca ........................................................ 73 Figura 44 – Móveis fabricados com painéis de madeira maciça em teca ................. 74 Figura 45 – Painel compensado ................................................................................ 75 Figura 46 – Moveis de compensado, por Zanine Caldas, década de 1950 ............... 76 Figura 47 – Tipos de compensado ............................................................................ 77 Figura 48 – Objetos confeccionados com compensado e com compensado naval ....................................................................................................... 78 Figura 49 – Painel aglomerado ................................................................................. 80 Figura 50 – Objetos confeccionados em aglomerado ............................................... 81 Figura 51 – Móveis fabricados em aglomerado......................................................... 82 Figura 52 – Característica das partículas - Aglomerado versus MDP ....................... 82 Figura 53 – Painel de MDP ....................................................................................... 83 Figura 54 – Mobiliários em MDP ............................................................................... 85 Figura 55 – Painel de MDF........................................................................................ 86 Figura 56 – Característica das partículas. MDP versus MDF .................................... 87 Figura 57 – Mobiliários em MDF ............................................................................... 87 Figura 58 – Painel OSB ............................................................................................. 89 Figura 59 – Design de móveis com fabricação em OSB ........................................... 90 Figura 60 – Painéis de chapa dura............................................................................ 91 Figura 61 – Design de móveis com fabricação em chapa dura ................................. 92 Figura 62 – Processos de laminação da madeira ..................................................... 95 Figura 63 – Lâmina de madeira obtida através do faqueamento da madeira ........... 96 Figura 64 – Lâminas naturais tingidas imitando o desenho da madeira com perfeição................................................................................................. 97 Figura 65 – Lâminas rádicas de diferentes espécies de madeira.............................. 98 Figura 66 – Porta tipo almofadada revestida com laminado plástico ...................... 100 Figura 67 – Revestimento Finish Foil ...................................................................... 101 Figura 68 – Painéis de madeira revestidos com FF ................................................ 102 Figura 69 – Esquema de composição do laminado de baixa pressão (BP) ............ 102 Figura 70 – Painéis de madeira revestidos com laminado de baixa pressão (BP) .. 103 Figura 71 – Esquema de composição do laminado de alta pressão (AP) ............... 104 Figura 72 – Amostras de laminado de alta pressão (AP) amadeirados e em cores .................................................................................................... 104 Figura 73 – Revestimentos em laminado de polímeros .......................................... 105 Figura 74 – Revestimentos em PVC para acabamento – fita de borda................... 106 Figura 75 – Revestimentos em PET para acabamento ........................................... 106 Figura 76 – Móveis de madeira com efeitos de pintura ........................................... 108 Figura 77 – Tipos de emendas ................................................................................ 109 Figura 78 – Tipos de encaixes (1) ........................................................................... 110 Figura 79 – Tipos de encaixes (2) ........................................................................... 111 Figura 80 – Sistemas de união entre peças ............................................................ 112 Figura 81 – Cavilha de madeira, cavilhas de plástico e móvel com cavilha ............ 113 Figura 82 – Sistema “rotofix” e esquema de montagem .......................................... 114 Figura 83 – Tipos de dobradiças ............................................................................. 115 Figura 84 – Tipos de articuladores para móveis...................................................... 115 Figura 85 – Tipos de sistemas para porta de correr ................................................ 116 Figura 86 – Tipos de corrediças .............................................................................. 117 Figura 87 – Tipos de puxadores .............................................................................. 118 Figura 88 – “O Modulor” de Le Corbusier................................................................ 121 Figura 89 – Ocupação do espaço pelo homem ....................................................... 121 Figura 90 – Dimensões (em centímetros) mínimas recomendadas para pessoas em diferentes movimentos e situações ................................................ 122 Figura 91 – Relação de dimensões para cozinhas com bancadas e armários ....... 124 Figura 92 – Relação de dimensões para cozinhas com forno e fogão .................... 125 Figura 93 – Relação de dimensões para escritórios com visitantes ........................ 126 Figura 94 – Relação de dimensões de mesas e armários para escritórios ............. 127 Figura 95 – Relação de dimensões para escritórios com armários auxiliares ......... 127 Figura 96 – Relação de dimensões para sofás para direfentes usuários ................ 128 Figura 97 – Relação de dimensões com espaços livres para sofás ........................ 128 Figura 98 – Relação de dimensões para mesas retangular de refeições................ 129 Figura 99 – Relação de dimensões para mesas de refeições ................................. 129 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Polos moveleiros no Brasil em 2004 ....................................................... 61 Tabela 2 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ABNT) ........................... 131 Tabela 3 – Normas Técnicas relacionadas a painéis de madeira (ABNT) .............. 134 Tabela 4 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ISO) ............................... 136 Dfkafjdakljflakjdflkjdklfajfkdajkljfkdjka rwekjrqwkejrqkjre ejrkqqrjrlkqj rjqkrjqkjekqj rkqrjqk rjqekjrkjqkeq jerkqjr Fdjfkajfafdjf Dfkafjdakljflakjdflkjdklfajfkdajkljfkdjka rwekjrqwkejrqkjre ejrkqqrjrlkqj rjqkrjqkjekqj rkqrjqk rjqekjrkjqkeq jerkqjr Fadjfkajf Dfkafjdakljflakjdflkjdklfajfkdajkljfkdjka rwekjrqwkejrqkjre ejrkqqrjrlkqj rjqkrjqkjekqj rkqrjqk rjqekjrkjqkeq jerkqjr SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 15 1. O MOBILIÁRIO ................................................................................................... 17 1.1. A ORIGEM DO MOBILIÁRIO ...................................................................... 17 1.2. CONTEXTO HISTÓRICO DO MOBILIÁRIO ............................................... 20 2. DESIGN DE MOBILIÁRIOS ............................................................................... 36 3. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS DE MADEIRA ....................................................... 48 3.1. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS SOB MEDIDA ................................................. 49 3.2. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS EM SÉRIE ...................................................... 56 3.3. INDÚSTRIA DE MÓVEIS ............................................................................ 60 4. MATÉRIA-PRIMA: MADEIRA E SEUS DERIVADOS ........................................ 62 4.1. MADEIRA MACIÇA OU SERRADA ............................................................ 64 4.2. PAINÉIS DERIVADOS DE MADEIRA......................................................... 71 4.2.1. Painéis de madeira maciça .............................................................. 72 4.2.2. Painéis compensados ...................................................................... 74 4.2.3. Painéis aglomerados........................................................................ 79 4.2.4. Painéis MDP – Medium Density Particleboard................................. 82 4.2.5. Painéis MDF – Medium Density Fiberboard..................................... 85 4.2.6. Painéis OSB – Oriented Strand Board ............................................. 88 4.2.7. Painéis de chapa dura ..................................................................... 91 5. ACABAMENTOS E REVESTIMENTOS ............................................................. 94 5.1. REVESTIMENTOS NATURAIS .................................................................. 94 5.1.1. Lâminas de madeira natural............................................................. 94 5.1.2. Lâminas pré-compostas de madeira ................................................ 96 5.1.3. Lâminas de rádica natural ................................................................ 98 5.2. REVESTIMENTOS SINTÉTICOS............................................................... 99 5.2.1. Revestimento FF (Finish Foil) ........................................................ 100 5.2.2. Laminado de baixa pressão (BP) ................................................... 102 5.2.3. Laminado de alta pressão (AP)...................................................... 103 5.2.4. Laminado de Polímero ................................................................... 105 5.3. PINTURA.................................................................................................. 107 6. SISTEMAS DE FIXAÇÃO E MONTAGEM ....................................................... 109 6.1. ENCAIXES E EMENDAS, OU JUNÇÕES................................................. 109 6.2. ACESSÓRIOS PARA FIXAÇÃO E COMPOSIÇÃO FINAL DE MÓVEIS ... 111 6.2.1. Elementos de fixação ..................................................................... 113 6.2.2. Elementos de articulação ............................................................... 114 6.2.3. Puxadores ...................................................................................... 118 7. DIMENSÕES E ERGONOMIA.......................................................................... 120 8. NORMAS TÉCNICAS ....................................................................................... 131 8.1. NORMAS NACIONAIS ............................................................................. 131 8.2. NORMAS INTERNACIONAIS – MOBILIÁRIOS ........................................ 135 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 138 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 141 15 INTRODUÇÃO Os móveis de madeira, ou de derivados de madeira, acompanham o homem em todas as etapas de sua vida. No berço dos primeiros sonos, nas carteiras escolares e escrivaninhas das primeiras letras, na mesa de refeições, nos armários para guardar seus pertences, nos cabos de vários instrumentos de trabalho e até em seu ataúde para repouso eterno. Apesar disso, as informações a respeito dos móveis de madeira, ou derivados de madeira, são escassas ou dispersas. Quando se procura informações sobre uma disciplina que trate de móveis, as ementas de um modo geral são incompletas, algumas tratam apenas dos materiais utilizados na fabricação de mobiliários, outras apenas do design, e outras mais específicas que orientam como montar um determinado móvel. Qual a origem do móvel? O móvel atual se assemelha aos móveis antigos? Mudaram ao longo do tempo? Quais os materiais utilizados na fabricação de um móvel? São considerados conceitos ergonômicos? Estas e várias outras perguntas não têm resposta imediata e necessitam de consulta à literatura. A procura de resposta a essas questões motivaram a realização deste trabalho, que, por meio de extensa revisão bibliográfica, tem o objetivo de condensar em um texto a maior quantidade de informações possível sobre móveis de madeira ou derivados de madeira. Especificamente, pretende-se discorrer acerca das origens, contexto histórico e evolução do mobiliário de madeira; abordar os tipos de madeiras e os derivados que podem ser utilizados na fabricação de móveis; as normas específicas relacionadas ao mobiliário e as que regulamentam o setor moveleiro; os acessórios utilizados no processo de composição final de um móvel; as ligações utilizadas para fixação das peças; os acabamentos e revestimentos utilizados; os efeitos de design e as tendências do setor; e medidas ergonômicas. A pesquisa bibliográfica foi a ferramenta utilizada no desenvolvimento e concepção da dissertação como um todo, fundamentada na abordagem de assuntos diretamente relacionados com o tema. A conceituação do que é mobiliário e como ele se apresenta no cotidiano através de aspectos de design, ergonomia e normas 16 regulamentadoras, incluindo ainda pesquisas sobre os materiais e as técnicas de construção de um móvel de madeira, possibilitam delinear todo o desenvolvimento do estudo, Além desta Introdução, o trabalho está organizado em 8 Capítulos e as Considerações Finais. O Capítulo 1 discorre sobre o conceito e a história do mobiliário, permeando por sua origem e os acontecimentos que originam os móveis de um modo geral, desde as antigas civilizações egípcia, grega e romana, passando pela Idade Média, até a Itália e a França dos séculos XV a XIX. Buscando contextualizar com o momento histórico de cada estilo, o Capítulo 2 trata sobre o design, evidenciando os aspectos visuais e não apenas os funcionais. O Capítulo 3 discorre sobre a fabricação dos móveis, descrevendo brevemente sobre as fábricas de móveis sob medida e em série. Com o objetivo de descrever suas origens, vantagens e características, o Capítulo 4 apresenta a matéria-prima utilizada, incluindo a madeira maciça e os painéis de madeira. Nesse capítulo são descritos os painéis de madeira maciça, o compensado, o aglomerado, o MDP, o MDF, o OSB e a chapa dura. No Capítulo 5 estão relacionados os revestimentos naturais e os revestimentos sintéticos como o laminado plástico, revestimento FF, laminado de baixa pressão (BP), laminado de alta pressão (AP) e laminado de polímero e a pintura, empregados no acabamento dos móveis, implicando diretamente nos seus aspectos visuais. O Capítulo 6 mostra os sistemas de fixação e montagem de móveis, desde os sistemas tradicionalmente utilizados para madeira maciça até sistemas mais modernos, com uso de ferragens, em painéis de madeira. O estudo das dimensões humanas, a ergonomia, é tratado no Capítulo 7, que traz informações acerca das medidas padrões para projeto de móveis. O Capítulo 8 relaciona as normas técnicas, tanto nacionais como internacionais, que orientam a fabricação da matéria-prima e de alguns mobiliários. Nas considerações finais a intenção é trazer à tona algumas constatações ocorridas no decorrer do estudo. 17 1. O MOBILIÁRIO “O móvel, como toda manifestação artística, é reflexo da vida e dos costumes da época em que foi criado.” Mancuso, 2012. 1.1. A ORIGEM DO MOBILIÁRIO Desde os primórdios da humanidade o homem está à procura de um local no qual possa se abrigar. A princípio, enquanto nômades, se protegia em cavernas ou embaixo de formações rochosas. A partir do momento que passou a ter um local de moradia, sentiu a necessidade de alguns objetos para exercer suas atividades cotidianas como sentar-se, deitar-se, alimentar-se, entre outras. Mais que um refúgio, a habitação torna-se um local de vivência e convivência em um mesmo espaço físico e cultural. Neste sentido, Corbella e Yannas (2003) salientam que “a habitação é um espaço para morar e exercer uma série de atividades humanas, diferenciando-se do espaço externo”. Não só pela pressão da natureza hostil ou adaptação biológica, mas também pela necessidade de limitar espaço próprio em seu habitat, a proteção e a apropriação de espaço estão presentes na casa e, na realidade, são complementares. Com isso, se dá a origem do mobiliário, o qual, ao longo do tempo, passa a modificar-se devido às necessidades humanas e tendo em vista a capacidade técnica e a sensibilidade estética do seu projetista e executor. A casa e seus complementos, no caso, os móveis, são a afirmação da sua personalidade e projeção de si mesmo na sua relação com o mundo. A história da humanidade possui direta ligação com a história do mobiliário. Existe um paralelo entre ambas: enquanto a humanidade foi evoluindo, foi-se evoluindo a forma de morar, e cada época colocou-se, representativamente, fosse a austeridade de um rei, fosse a feminilidade de uma rainha, enfim, os estilos são a história agregada das características de viver de cada momento (MANCUSO, 2012). 18 A evolução tecnológica traz o surgimento de novos objetos e o desaparecimento de outros. Sugere espaços a partir de objetos que integram vários usos bem como determina a extinção definitiva. Neste contexto, observa-se que os espaços habitáveis são continuamente alterados para se adequarem a novas necessidades ou atividades através da substituição de mobiliários e equipamentos ainda em condições de uso, abreviando a sua vida útil, modificando assim os espaços e proporcionando novos arranjos (RICCETTI, 19991 apud GONDIM, 2010). O termo “móvel” passou a ser utilizado devido ao fato de que, por uma questão de hábitos de mudança temporária de moradia de algumas populações, estes eram construídos de maneira que pudessem ser facilmente transportados de um lugar para outro, de acordo com os costumes de antigas civilizações e até mesmo das ricas cortes europeias que mudavam de palácios de tempos em tempos (LUCIE-SMITH, 19792 apud SILVA, 2006b). A Enciclopédia Mirador (2001) conceitua o mobiliário como o conjunto dos móveis ou peças utilizados pelo homem no ambiente doméstico ou funcional, para o conforto do seu corpo ou guarda dos seus pertences, de seu prazer estético ou bemestar, em condições e para fins de trabalho ou de lazer, de atividade ou repouso. Dentre os materiais empregados na manufatura ou indústria do mobiliário, é a madeira o de maior incidência, vindo em seguida o bronze, o ferro, o marfim, o mármore e dezenas de elementos de uso acessório ou decorativo, como o couro, o osso, as fibras, os tecidos, vernizes, tintas, madrepérola ou mesmo o ouro, a prata e as pedras preciosas. Modernamente, diversos outros materiais se incorporam a essa relação, sobretudo os de natureza sintética e artificial, como as fibras de vidro e os laminados plásticos. A escolha de componentes ora mais, ora menos nobres, ora mais, ora menos elaborados, assim como os fins e a qualidade do mobiliário em termos utilitários ou estéticos, dependem basicamente da ‘cultura’ em que se apresenta, de suas condições 1 RICCETTI, Teresa Maria. A Paisagem Doméstica: a relação do homem com sua morada. São Paulo: FAU USP, 1999. Dissertação (Mestrado). Universidade de São Paulo. 2 LUCIE-SMITH, Edward. Furniture: A Concise History. London: Thames and Hudson, 1979. 216 p. 19 socioeconômicas e padrões de comportamento (ENCICLOPÉDIA MIRADOR, 2001). Dessa forma, o móvel é o reflexo de uma sociedade, e se apresenta de maneira a satisfazê-la em seus interesses não se limitando a subsistência, mas também ao seu nível cultural e seus hábitos. Essa ideia é reforçada na afirmativa de que “os móveis de assento são exemplos dos mais significativos, o fato de não serem usados no Oriente, mas especialmente no mundo ocidental, não significa superioridade cultural, apenas diversidade de costumes” (LUCIE-SMITH, 1979 apud SILVA, 2006b). Segundo Lucie-Smith (19793, apud Silva, 2006b) em diferentes períodos da história, o mobiliário pode ser analisado sob quatro ângulos diferentes. O primeiro remete às funções práticas ou de uso. Nesse aspecto, incluem-se os móveis de assentos, as mesas e estantes, camas, armários e guarda-roupas, todos usados na realização das atividades da vida humana. O segundo trata-se da “importância que os móveis desempenham como indicadores de posição social”. Nesse prisma, os móveis servem para enfatizar a hierarquia social. A possibilidade de medir o progresso tecnológico pela observação dos móveis constitui o terceiro aspecto. Muito embora a evolução tecnológica com relação à fabricação de móveis seja recente, sendo mais significativa nos últimos sessenta anos que nos seis séculos anteriores, os materiais usados ao longo de sua história como madeira, metais, vidro, polímeros, materiais dos acessórios e ferragens e outros, são indícios de muitas informações. O quarto ângulo de observação se baseia na maneira como os móveis são utilizados e organizados no espaço. Neste o mobiliário é parte integrante do interior doméstico que pode ser constantemente alterado, sanando necessidades cotidianas, satisfazendo desejos ou compondo cenários. Desse modo, é possível afirmar que o móvel possui autenticidade e identidade cultural e está intimamente relacionado ao tempo, espaço e civilização, transcendendo a história e alcançando a funcionalidade e permeando pelos aspectos do conforto e da beleza. 3 LUCIE-SMITH, Edward. Furniture: A Concise History. London: Thomas and Hudson, 1979. 216 p. 20 1.2. CONTEXTO HISTÓRICO DO MOBILIÁRIO Existe uma linha tênue entre a história em si, a história da arte e a história do mobiliário. Os móveis adaptam-se aos costumes de cada época e a divisão geral dos estilos do mobiliário corresponde a das grandes correntes artísticas: Renascimento, Barroco, Rococó, Neoclássico, Império. Didaticamente, pode-se expor a temática dividindo os momentos cronologicamente: Antiguidade, Idade Média, Renascimento, Barroco, Regência, Rococó, Neoclássico, Século XIX e Contemporâneo (MANCUSO, 2012). Para os povos antigos, com exceção da busca do sustento diário, é na tentativa de conseguir uma habitação adequada que o homem despendeu longos e prolongados esforços no decorrer dos séculos. De acordo com a condição de vida da época os móveis eram estritamente utilitários e funcionais, em número reduzido de peças, criados para suprir necessidades. Os móveis são a afirmação da sua personalidade e projeção de si mesmo na sua relação com o mundo (SILVA, 2006c). O desenvolvimento do nível cultural fez o homem começar a apreciar a arte e usá-la para embelezar o mobiliário. A partir da civilização egípcia, as peças começaram a ser construídas com arte e beleza, como trabalho decorativo, aperfeiçoada através dos estudos para as tumbas e monumentos reais. O faraó e família viviam em alto luxo e conforto. Os palácios eram equipados com móveis revestidos às vezes de ouro e de marfim, os utensílios de uso diário eram também de qualidade superior, demonstrando a riqueza daqueles que a possuíam, bem como a habilidade e a perícia dos artesãos que os fabricavam. Toda a arte, arquitetura, escultura, mobília e decoração existiam para agradar e homenagear a divindade dos deuses na pessoa do faraó (SILVA, 2006). Feduchi (2001) afirma que, como resultado da inspiração da civilização mais antiga ao longo do Nilo, pode-se dizer que a história do mobiliário começa no Egito. Neste sentido a Enciclopédia Mirador (2001) salienta que o mobiliário egípcio é o primeiro com representatividade (Figura 1), dos quais restam amostras originais tanto do Antigo Reino – IV dinastia (2614-2505 a.C.) – como no Novo – XVIII dinastia (1570-1304 a.C.). De acordo com Lima (2012), o que contribuiu para a conservação das referências desse mobiliário, representado por tamboretes, mesas, cadeiras e bancos, foi o clima seco do Egito, bem como seus elaborados ritos funerários. 21 Figura 1 – Trono litúrgico usado por Tutancâmon em cerimônias – Museu do Cairo, Egito Fonte: Enciclopédia Mirador (2001) Os egípcios foram os criadores de muitos móveis usados até hoje, tais como: cama – em formas simples, de armação retangular, estreitas, algumas com cabeceira mais alta que os pés, às vezes com ângulo bem pronunciado e não mais de 30 cm de altura; bancos – existiam dos mais simples aos mais decorados, normalmente com patas de animais; cadeiras – foram a evolução do banco, construídas de várias alturas; cestos – feitos de fibra (palma ou junco) para armazenar alimentos; arcas ou caixas – eram usadas para guardar roupas e adornos. Os recursos usados para decorar as peças eram faixas com motivos geométricos, imagens de animais, lótus, papiro e outros símbolos característicos do Egito. A natureza era a grande inspiradora para o embelezamento dos móveis. Os egípcios costumavam definir em traços decisivos e gerais o objeto cuja noção queria transmitir (SILVA, 2006d). Usavam tinta branca, vernizes e revestimentos encerados eram aplicados na madeira, folheavam com metal e incrustavam pedras e marfim, não poupando nos detalhes. Exemplo disso são as urnas funerárias. O entalhe foi outro recurso usado, sendo que nos pés das camas e cadeiras era comum dar a forma de pé de animal curvado, sendo as formas de pata de touro e de leão as mais usadas. Apesar de poucos exemplares terem resistido até os dias atuais, a Grécia também deu sua contribuição ao mobiliário atual e foram os precursores da ergonomia. Os móveis gregos são conhecidos melhor graças às descrições 22 literárias, às pinturas e às esculturas da época. Seus aspectos gerais podem ser reconstituídos a partir de detalhes de jarros cerâmicos pintados, caixas funerárias e outras esculturas em relevo (FEDUCHI, 2001; LIMA, 2012). No início, o mobiliário grego era derivado dos egípcios, que pela criatividade evoluiu para modelos próprios e exclusivos com cuidados especiais em relação às proporções dos homens (começo da ergonomia). Os trabalhos em tornearia e entalhes assumem importantes papeis, em móveis de linha reta, com decorações de formas naturalistas bem destacadas, e faixas com motivos geométricos. Materiais muito usados no período foram: bronze, mármore e madeiras nativas como o cedro. Utilizavam pintura e incrustação de pedras preciosas. Assim como no Egito, a maneira de vida ditou o estilo do mobiliário, com tonalidades claras e artefatos móveis; a maioria da mobília era portátil ou mesmo dobrável, a cadeira dobrando-se em X ou formato de tesoura, uma forma ainda popular hoje. O mobiliário grego, entre 1200 e 300 a.C., produziu uma variedade maior de móveis decorativos. Os tons azeitona e amarelo, a madeira nativa como o cedro, foi torneada, entalhada, pintada, e incrustada com pedras preciosas e marfim (SILVA, 2006e). Neste sentido Gómez (2003) afirma que a estrutura do mobiliário grego é simples e mais adequada para o corpo humano, diferente das a dos egípcios. A inovação mais distinta dos projetistas gregos foi a cadeira conhecida como “klismos”, leve e com encosto. A cadeira klismos pode ser vista na Figura 2. Figura 2 – Cadeira klismos Fonte: historiadascadeiras.blogspot.com.br (2013) O “klismos – o assento dos Deuses” é basicamente liso, como pés curvados para fora desde o assento e um espaldar que é constituído de uma simples tábua 23 retangular curvada, desde os lados até o centro. Confortável e muito popular, ela foi bastante utilizada principalmente nos períodos arcaico e clássico, épocas em que, conforme Lima (2012), os móveis funcionais e simples conviviam com outros mais elaborados. De acordo com Silva (2006f), a forma dos móveis romanos era simples, porém nas melhores casas a decoração era extremamente ornamental. Tem antecedentes no mobiliário etrusco e, como nos primitivos móveis gregos, também utilizavam linhas retas. Outra forte característica é o material usado na confecção, como o bronze, mármore e outros tipos de pedra. A decoração era feita de forma naturalista e bem destacada. O destaque do móvel romano está no entalhe e nos pés torneados e pintados em cores brilhantes ou então embutidos em madeira contrastando, montados com encaixes de bronze. Com o aperfeiçoamento dos artesões as curvas foram aparecendo suavemente nas pernas e pés de alguns dos móveis romanos, não excluindo, porém os típicos pés em colunas retas e torneadas características deste período. Os romanos criaram um tipo de cadeira "klismos" mais robusta e também outros tipos de assento, como bancos e cadeiras de vime (JOHNSON, 19784 apud GÓMEZ, 2003). No ano de 330 d.C., Constantino transferiu a capital do império de Roma para Bizâncio, uma cidade grega às margens do Bósforo, na qual pôs o nome de Constantinopla. Em seu apogeu, no século VI d.C., Constantinopla era o centro de vasto império e abrangia o norte da África, Egito, Síria, Armênia, Ásia Menor, Sicília, parte da Itália e Espanha. A arte desta área conservou uma característica fundamentalmente bizantina por mais de 1.000 anos e sua influência se estendeu muito além. Desse período, não se conservou quase nenhum mobiliário doméstico e a única prova que se tem são os documentos gráficos da época. Os móveis de que se têm mais informações são os tronos e cadeiras. Os tronos eram, fundamentalmente, construídos em madeira maciça, com formas arquitetônicas, pinturas decorativas e, geralmente, tinham um dossel em cima. Alguns eram feitos com materiais preciosos, decorados com joias, revestidos com suntuosas e delicadas telas e almofadas. As peças de marfim se incorporavam a muitos objetos: arcas, estojos, relicários e, inclusive, em portas. Um soberbo exemplo, ainda 4 JOHNSON, Hugh. La Madera. Editorial Blume. Barcelona, España: 1978. 24 existente, é a cadeira conhecida como o “Trono de Maximiano" (Figura 3). No período usavam-se ainda os clássicos e sempre populares tamboretes e cadeiras montadas em forma de "X", com assentos de couro (SILVA, 2006g). Figura 3 – Trono de Maximiano Fonte: home.psu.ac.th; oberlin.edu (2012) Silva (2006g) afirma ainda que durante o período bizantino existia grande quantidade de caixas para usos diferentes, desde os pequenos estojos de joias até os grandes cofres para armazenagem, que serviam também como assentos, cama ou mesa. Alguns eram de construção primitiva, outros eram pintados ou com incrustações de madeiras finas, ouro, prata ou marfim. Havia ainda os revestidos de marfim. Muitos dos objetos domésticos e roupas eram guardados em arcas, outros colocados em prateleiras dos armários que aparecem nas ilustrações da época. Não existiam os guarda-roupas e nem as cômodas. As camas eram de formato clássico, mas desapareceram os descansos de cabeça e algumas possuíam pés torneados. 25 O mobiliário continuou se desenvolvendo ao longo da histórica transição da Grécia Antiga para Roma, mas todo o progresso parou por um tempo com a queda do Império Romano. Segundo Mallalieu (1999), “após a queda do Império Romano no século V d.C., muitas técnicas e materiais luxuosos usados na mobília do mundo antigo desaparecem. Entre os séculos XI e XV, no entanto, os móveis recuperaram lentamente sua importância.” Devido a escassez dos móveis nesse período, mesmo nas famílias importantes, estes se limitavam a satisfazer apenas as necessidades básicas de comer, dormir, sentar, armazenar e, em pouca quantidade, ler e escrever. Contudo, expressavam, como função adicional, a posição social ou status no interior da casa. Nesse período, o carvalho era a madeira mais usada. Na Itália e na Espanha, porém, se utilizava a nogueira, o cipreste e a pereira. Os entalhes eram baseados em motivos arquitetônicos românicos, com arcos arredondados, e, nos séculos XIV e XV, em motivos góticos com arcos pontiagudos e rendilhados. O fato de os móveis serem em grande parte construídos sobre pés altos, conforme Mallalieu (1999), pode ser explicado pelo fato de que “todas as casas da Idade Média eram frias e úmidas, independentemente da posição social do ocupante, e a mobília precisava estar acima do nível do chão para evitar o apodrecimento.” Dessa forma, tanto os baús como as camas, por exemplo, precisavam estar a certa distância do chão úmido. Durante o longo período em que se estende a Idade Média, de 476 d.C. até 1453, o mobiliário vai sendo modificado, juntamente com as influências artísticas de cada século e período, permeado por inspirações, com temáticas românicas e góticas e iniciando-se às ideologias renascentistas até meados do século XV. A história do mobiliário é tão completamente uma parte da história dos hábitos e costumes de diferentes povos, que só se pode compreender e apreciar as diversas mudanças através dos estilos, às vezes graduais e às vezes rápidas, por referência a certos acontecimentos históricos e influências na qual estas alterações foram efetuadas (LITCHFIELD, 2011). A Figura 4 apresenta o organograma da história geral, destacando os momentos históricos e demonstrando os períodos que se estende a idade antiga, a idade média e a idade contemporânea. 26 Figura 4 – Organograma da história geral HISTÓRIA PRÉ-HISTÓRIA 4000 a. C. HISTÓRIA IDADE DA PEDRA PALEOLÍTICO NEOLÍTICO IDADE DOS METAIS IDADE DO COBRE IDADE DO BRONZE IDADE DO FERRO IDADE ANTIGA até 476 d.C. IDADE MÉDIA 476 d.C. até 1453 IDADE MODERNA 1453 até 1789 IDADE CONTEMPORÂNEA 1789 até aos dias atuais Fonte: Adaptado de Litchfield (2011) No panorama europeu da maior parte da Idade Média, nem os padrões culturais dos povos bárbaros – egressos de uma vida econômica pastoril –, nem as dificuldades de comércio sob o cerco árabe, tampouco os calores cristãos ou a estrutura social do feudalismo poderiam favorecer o artesanato ou sequer a manutenção de um mobiliário de qualidade. Com exceção de alguns tronos famosos, como o do bispo de Ravenna (século VII), de marfim, ou o de Carlos Magno, de mármore, os móveis se limitam ao mínimo exigido por um estilo de vida instável e inseguro, quando não ascético e alheio, ou mesmo hostil, às “coisas deste mundo”. Restam, pois, durante séculos, os bancos, tamboretes, cadeiras e arcas rudes, refugiando-se apenas entre as cortes bizantinas uma ou outra das técnicas dos antigos, como o torneamento. Só a partir do século XIV esse quadro irá se modificar (ENCICLOPÉDIA MIRADOR, 2001). Os baús estão entre os primeiros móveis europeus e serviam não só para guardar e proteger os objetos valiosos, como também para assentos, mesas e até camas. Os mais antigos eram feitos de tronco de árvore escavado, com tiras de ferro para aumentar a solidez. No século XII, eram construídos com tábuas cortadas ou serradas no sentido do comprimento do tronco, articuladas e unidas em forma de caixa com pregos de metal ou pinos. Na segunda metade do século XV, os tampos 27 eram mais leves e assentados nos encaixes de uma estrutura com junção de macho e fêmea. No período gótico, as superfícies frontais eram entalhadas com arcos rendilhados e pontiagudos (MALLALIEU, 1999). Das camas do período inicial da Idade Média poucas resistiram. Elas tinham um papel importante na expressão do status, eram destinadas menos para dormir e mais para mostrar. A cama de gala era a peça mais cara de todas numa casa nobre. No período românico tinham parapeitos baixos unindo os quatro pés da cama a uma parte mais baixa ainda no meio de um dos lados, para permitir que o ocupante entrasse. No século XIII, inicia-se a busca por mais conforto ao dormir e as camas eram em forma de tenda, com uma armação côncava de madeira coberta de tecido, suspensa no teto e com cortinados suntuosos presos sobre ela ou com cortinados suspensos por um dossel quadrangular que corria sobre trilhos de ferro e, durante o dia, eram puxados para cima, formando trouxas em forma de pera, como se apresenta na Figura 5 (MALLALIEU, 1999). Figura 5 – Cama da Idade Média Fonte: new-design-times.com (2013) As cadeiras usadas durante a Idade Média eram em forma de X, a mais antiga, passando pela Antiguidade e remontando ao Egito antigo, sendo usada por professores romanos à qual se associou a autoridade. Com variações regionais características, na Itália eram popularmente conhecidas como Savonarola (Figura 6). 28 Também eram fabricadas cadeiras do tipo trono, com princípio das caixas com projeções superiores formando o encosto e os lados, decoradas com motivos arquitetônicos. Os banquinhos eram provavelmente o único tipo de assento das casas humildes e eram feitos com tora de madeira circular ou triangular com pernas fixadas ao assento e presas com pino de madeira. As mesas de jantar eram simples tábuas longas e estreitas de madeira apoiada em suportes do tipo cavaletes. Os primeiros guarda-louças eram apenas prateleiras presas na parede. No século XV já se fabricavam pequenos armários com portas e pernas compridas, guarda-comidas com portas perfuradas para ventilação, armários para guardar roupas de cama e mesas (MALLALIEU, 1999). Figura 6 – Cadeiras de braços criadas na Itália no século XV. Cruzadas em forma de X Fonte: Enciclopédia Mirador (2001) Na arte gótica, o material empregado é a madeira de carvalho ou de nogueira, quase que exclusivamente. Os móveis do período gótico seguem as características arquitetônicas de seus grandes edifícios e o estilo se estende por três séculos se difundindo completamente em todo o continente europeu, onde começa a distinguir claramente as diferentes características nacionais (GÓMEZ, 2003). Segundo Lima (2012) os elementos decorativos do gótico não se transferiam para os desenhos dos móveis, pelo menos até o século XV. Uma das novas formas que foram introduzidas foi um tipo de aparador, com uma pequena zona para guardar objetos e o armário, com portas grandes, ambos com motivos arquitetônicos como arcos, colunas e desenhos. As poltronas eram rígidas, mas almofadadas (Figura 7b) e as camas eram amplas. As mesas eram muito simples, na maioria das 29 vezes limitadas a uma tábua sobre dois ou mais apoios ou cavaletes, o que lhes conferiam maior mobilidade (Figura 7a). Esse estilo, no princípio um fenômeno característico do norte da Europa, seguiu presente nos desenhos de mobiliários até o início do século XVI. Figura 7 – Mobiliário do estilo gótico a) Mesa de carvalho datada de meados do século XIX b) poltrona almofada Fonte: Mallalieu (1999); Lima (2012) Segundo Gómez (2003), pode-se comprovar que no móvel do Renascimento desapareceu parcialmente a unidade de conjunto do móvel gótico. A influência do móvel italiano, rico e luxuoso, fez com que no começo do século XVI a escultura transbordasse as linhas estruturais dos móveis, passando a ocupar primeiro plano no que antes era complemento. O desenho, esboço, tornou-se para o Renascimento em algo importante, não só como uma forma de arte, mas também como um documento. Apreciava-se a invenção artística em seu ponto de origem. O desenho do mobiliário italiano do século XV tendia à simplicidade e à funcionalidade. A primeira inovação nos móveis do renascimento italiano foi a arca de madeira decorada, muito elaborada, denominada “cassone” (Figura 8a), baseada em protótipos clássicos, cuja forma, em parte, era inspirada nos sarcófagos romanos. A rica marchetaria, a talha figurativa e a utilização da madeira de nogueira no lugar do carvalho (que era o material mais usado nos primeiros trabalhos desse período) caracterizaram-se como as mais importantes inovações da época, quando se começou a utilizar uma 30 maior variedade de formas, assim como ornamentos mais bem elaborados. Voltaram a surgir as cadeiras dobráveis com assentos em tapeçaria ou couro e se criaram outras com laterais maciças, encostos talhados e, em lugar de pés, tábuas também talhadas. Começou-se ainda a se expandir o uso do armário (LIMA, 2012). Figura 8 – Mobiliários renascentistas a) Arca de madeira decorada – “cassone” b) Cadeira “caquetoire”, segunda metade do século XVI Fonte: Lima (2012); Mallalieu (1999) No mobiliário francês do século XVI, utilizava-se uma decoração mais rica, que refletia a influência renascentista. Suas complexas justaposições de motivos clássicos foram usadas para decorar os móveis segundo um novo estilo da renascença. Na primeira década do século XVII, as mudanças no design das peças começaram a ser observadas, porém de modo ainda sutil. O design do renascimento inglês foi mais simples que o francês. Os detalhes eram menos elegantes, a decoração e as partes torneadas eram mais simples e planas e os motivos foliados mais estilizados, como é o caso da cama na Figura 9b. Assim como na França, na Inglaterra o interesse pelo desenho renascentista perdurou até o século XVII. A Espanha recebeu as mais variadas influências, tanto pelas novas ideias renascentistas como por uma grande tradição árabe. Durante o século XVI, a principal contribuição espanhola à história do mobiliário foi a criação de um tipo de móvel chamado “bargueño” (Figura 9a), composto por uma arca de tampa frontal com várias gavetas sustentadas por um armação (LIMA, 2012). 31 Figura 9 – Mobiliário renascentista espanhol a) Bargueño pintado com partes douradas b) Cama de madeira entalhada Fonte: Mallalieu (1999); Feduchi (2001) Na Itália, muitas formas de móveis desenvolvidas durante a Renascença persistiram no século XVII, mas com a ornamentação cada vez mais requintada, de acordo com o estilo Barroco que florescia em outras artes italianas daquela época. Os suportes de baús, cadeiras e mesas eram entalhados com figuras e apoiados em arabesco e conchas; as camas eram douradas e com cortinas de veludo ou seda; as mesas tinham tampo de mármore colorido (MALLALIEU, 1999). O desenho de estilo barroco é mais evidente no mobiliário do final do século XVII, sendo que durante a primeira parte do século, o novo estilo influenciou basicamente só a superfície, mas não as formas; mais a frente começou-se a produzir várias novidades, entre elas uma maior utilização da figura humana esculpida (Figura 10b), empregada em forma de coluna, como suporte, junto com pés torneados em espiral (LIMA, 2012). Na França, o barroco está presente no reinado de Luís XIV e é a transmissão da vaidade de um monarca para decoração e mobiliário, com móveis muito entalhados representados por cadeiras enormes e pesadas (MANCUSO, 2012). O esplendor sólido do mobiliário barroco também foi aceito na Alemanha, como mesas com tampo com mármore incrustado, suportadas por peças com 32 figuras vigorosamente entalhadas (Figura 10a). Na Inglaterra e na França o barroco esteve presente nas dispendiosas camas de gala festonadas com materiais luxuosos até cadeira profusamente entalhadas e dispostas em filas em volta das salas, são claramente esculturais (MALLALIEU, 1999). Figura 10 – Mobiliário barroco a) Mesa com entalhes em arabescos b) Cadeira de braços, Veneza, século XVII Fonte: Lima (2012); Mallalieu (1999) Após a morte de Luís XIV, a Regência passa para Luís XV. O estilo desse período, conhecido como régence, é menos pesado e mais gracioso do que o anterior, introduzindo uma exuberância rococó em que as curvas substituíam a angularidade. Muitas formas e tipos novos de móveis surgiram nesse período e o tipo mais comum da cadeira de braços, fauteuil (Figura 11b), tinha o assento em forma de coração, com ornamentos em arabesco, espaldar, pernas curvas e braços; a cômoda tinha a parte frontal, as laterais e as pernas curvas e duas ou três fileiras de gaveta (Figura 11a) (MALLALIEU, 1999). Na França, durante o reinado de Luís XIV, grandes cadeiras com e sem braços eram entalhadas com arabescos e douradas, revestida com veludo; as mesas em geral tinham pernas retas afuniladas com tirantes em forma de arabescos, friso entalhado e outros motivos estilizados, e a mesa de canto dourada surgiu nesta época; os armários recebiam incrustações, molduras e encaixes figurativos. (MALLALIEU, 1999). As primeiras peças de móveis ingleses atribuídas ao estilo regência são do final do século XVIII. 33 De acordo com Mallalieu (1999) a mobília do estilo regência tem grande sensibilidade para o design e grande variedade e excelente qualidade de materiais. De um modo geral o estilo regência é devido aos reinados ingleses e franceses, e em termos artísticos faz a transição entre o estilo Luís XIV, com características do barroco, para o estilo Luís XV, do rococó. Figura 11 – Mobiliário estilo regência a) Cômoda de Charles Cressent Kingwood, 1735-40 b) Par de Fauteuils, Nicolas Heurtaut, meados do século XVIII Fonte: Mallalieu (1999) Na Inglaterra da década de 1750, o rococó adotou fantasias góticas e chinesas. Na Itália tinha a preferência por móveis menos grandiosos das salas de visita e levou à adoção entusiástica de frentes bombé (Figura 12a) e formas sinuosas. A moda rococó para mesas entalhadas e douradas complementadas por espelhos ornamentados, também eram apropriadas aos majestosos aposentos espanhóis. O estilo rococó inglês e francês influenciou basicamente toda a Europa e cada país tendeu a um determinado estilo (MALLALIEU, 1999). A variante francesa do estilo rococó abrangia ambiciosos projetos com grande variedade de materiais e se caracterizava por formas complexas e sinuosas que se curvavam em todas as direções. O rococó inglês foi muito mais sóbrio. As incrustações eram bem menos utilizadas devido à preferência por madeiras finas, como a nogueira, introduzindo pés em forma de “S”, com pés de garra e bola (Figura 12b), para as mesas, cadeiras e cômodas, inspirado nas peças de bronze chinesas, denotando a popularização do design oriental (LIMA, 2012). “No final do reinado de Luís XV na França, entre 1760 e 1770 o estilo rococó, favorecido por muito tempo no design de interiores, começou a ser gradualmente 34 substituído por um neoclassicismo nascente”, salienta Mallalieu (1999). As últimas peças de móveis no estilo são principalmente um estilo neoclássico um pouco deteriorado. O neoclassicismo, substituto do rococó na década de 1760, existiu por todo o período do estilo de regência, mas como era uma época de gosto eclético, houve muitas outras tendências populares. Nenhum dos estilos correntes existiu isoladamente, pois se relacionavam com tendências semelhantes na arquitetura, pintura, na escultura e nas artes decorativas. No entanto, em 1770, o neoclassicismo tinha superado o rococó quase completamente. Figura 12 – Mobiliário estilo rococó a) Cômoda holandesa bombé em madeira e mármore no estilo francês b) Cadeira de braços rococó inglesa: contraste elegante com as linhas suaves do estofado Fonte: Mallalieu (1999) Embora a corrente estética tenha surgido ainda antes desse reinado, a primeira fase do neoclássico se denominou de estilo Luiz XVI na França. Seu estilo se manifestou dentro de um completo repertório de motivos derivados de fontes greco-romanas, ainda que as formas globais também tivessem sido refletidas nessa nova plástica. Nas formas dos móveis havia desenhos retangulares, circulares e ovais que descansavam sobre pés retos que se estreitavam, eram simples e geométricas (LIMA, 2012). O estilo Luís XVI apresenta maior rigidez em seu desenho com peças com linhas retas dominantes, oferecendo um aspecto mais severo. Mas o mobiliário em seu conjunto não ignoram curvas encantadoras nem a decoração ondulada. O estilo se diferencia do império por ser uma conformação elegante e original do estilo anterior (GÓMEZ, 2003). 35 Ainda no reinado de Luís XVI, conforme esclarece Mallalieu (1999), surgiram poucas novidades nos tipos de móveis, sendo feitas simples adaptações das peças desenvolvidas anteriormente. Nos móveis de sentar, as pernas eram torneadas, caneladas e afuniladas. As camas e mesas tinham pernas em forma de coluna estriada. E as cômodas eram quadradas, às vezes com uma parte saliente ou em forma de meia-lua (Figura 13). Para Lima (2012), o neoclassicismo na Inglaterra tornou muito popular o mobiliário pintado e reviveu o interesse pela decoração incrustada, que praticamente havia desaparecido no período rococó. Figura 13 – Mobiliário neoclássico a) Cômoda neoclássica francesa do século XVIII simetricamente disciplinada e decorada, com virtuosidade técnica e nobreza b) Cômoda Chippendale feita para a Harewood House, com medalhão da Britânia na porta Fonte: Mallalieu (1999) O Neoclassicismo foi um movimento cultural nascido em meados do século XVIII, que teve larga influência na arte e cultura de todo o ocidente até meados do século XIX. No entanto, profundas modificações ocorreram no fim do século XVIII e expandiram-se para o mundo a partir do século XIX. Com o desenvolvimento da indústria, houve a substituição do móvel artesanal pelo industrializado. Nas palavras de Mancuso (2012) “luxo ao alcance de muitos”. E ainda, segundo essa autora, circulação rápida das notícias fez com que os padrões de gostos mudassem muito. Assim, nesse cenário, nascem os móveis do século XIX e móveis contemporâneos, que são dotados de design e mobilizados pelos movimentos artísticos e estilos subsequentes. 36 2. DESIGN DE MOBILIÁRIOS “O design, apesar da arte, não é arte pura, é utilitária.” Mancuso, 2012. No início da história, as formas essenciais do mobiliário, como camas, mesas, bancos, arcas, entre outros, foram estabelecidas e não sofreram alteração em suas formas básicas, mas sim pequenas modificações, ornamentações características e criação de novas peças (MACUSO, 2012). A Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra, importante por diferentes aspectos socioeconômicos e culturais, foi importantíssima para o design por ter favorecido o seu crescimento. Com a possiblidade de tecidos, cerâmicas e produtos industrializados, proporcionou-se a substituição natural dos produtos artesanais e a necessidade de designers para criar e desenvolver os novos produtos. Até então o que se conhecia eram “estilos” mais clássicos e tradicionais que eram utilizados por uma pequena parcela da população (GURGEL, 2007). Segundo Mancuso (2012) “não há data precisa para o início e o término de um estilo, pois as modificações são feitas lentamente, de maneira que entre dois estilos bem definidos há sempre um período intermediário”. O chamado movimento Arts & Crafts (ou, simplesmente, artes e ofícios), liderado por William Morris, foi criado no início da década de 1860, com a intenção se buscar um retorno às tradições artesanais da Idade Média como reação à supressão da originalidade e à degradação da qualidade que a produção em massa provocou, Em 1890, o movimento já tinha se expandido pela Europa e América do Norte (LIMA, 2012). O movimento Arts & Crafts “é considerado a semente do movimento moderno, graças a sua simplicidade, desconexão histórica e uso honesto de materiais” (GURGEL, 2007). No final do século XIX, foram formadas nos Estados Unidos oficinas do movimento, baseadas nos congêneres ingleses. A estética do desenho de um mobiliário simples, despido de ornamentação, concebida por Gustav Stickley (Figura 14) tem popularidade até os dias de hoje. Os conceitos fundamentais que 37 orientavam o design eram a simplicidade, a utilidade e uma elaboração “honesta” (DEMPSEY, 2003). Figura 14 – Mobiliários Arts & Crafts projetados por Gustav Stickley Fonte: Dempsey (2003) e treadwaygallery.com Eram características do movimento: móveis em madeira geralmente local, de linhas simples e bem proporcionadas; pés retos e com pouco entalhe; dobradiças em ferro bruto; painéis de madeira na parede; e decoração sem desordem (GURGEL, 2007). O Arts & Crafts pode ser considerado como um movimento de transição da segunda metade do século XIX, com a incorporação da máquina em todas as artes industriais, a racionalização de trabalho, dos estudos e organização econômica, com avanço da tecnologia e utilização de novos materiais. Segundo Feduchi (2001), simultaneamente, um grupo de arquitetos iniciou um novo movimento que refletia não só na arquitetura, mas também na indústria e nas artes plásticas, unidos aos novos conceitos de volumes e espaços, da beleza da máquina, dos novos materiais e de sua aplicação nos objetos e nos mobiliários. No final do século XIX, estes conceitos dão lugar a uma nova arte. Entre as décadas de 1890 e 1910 floresceu o estilo Art Nouveau. Derivado do Arts & Crafts, é um estilo orgânico, provém de formas naturais, transmite uma sensação de movimento e, segundo Lima (2012), afeta tanto a arte como o design. O Art Nouveau é um movimento cultural, cuja essência pertence à personalidade dos seus criadores e suas obras magníficas (FEDUCHI, 2001). No mobiliário, seus pioneiros foram os arquitetos belgas Henry van de Velde e Victor Horta (Figura 15), quem forneceu os interiores de seus edifícios para completar as formas sinuosas da decoração arquitetônica (GÓMEZ, 2003). 38 Figura 15 – Cadeiras, por Heny van de Velde e Victor Horta, respectivamente Fonte: stuffnonsense.com/ pinterest.com Conforme esclarece Fiell (2001), o estilo Art Nouveau espalhou-se pela Europa, recebeu várias denominações e constitui-se da obra de grandes nomes. Na França, conhecido pelas formas entrelaçadas de Hector Guimard foi identificado com o termo Le Style Moderne. Na Alemanha foi adotado o nome Jugendstil. O termo Stile Liberty foi criado na Itália como reconhecimento à promoção do estilo. Na Espanha, especialmente na Catalunha, o estilo floresceu com o trabalho de Antonio Gaudí (Figura 16) e seus seguidores. Émile Gallé e outros designers produziram mobiliário notável no estilo (Figura 17). Figura 16 – Mobiliários de Antonio Gaudí a) Sofá pequeno de madeira maciça b) Cadeira pequena de madeira maciça Fonte: archiproducts.com 39 Figura 17 – Mobiliários Art Nouveau a) Aparador em mogno com talhas e embutidos, de Émile Gallé, 1900 b) Cadeira para sala de jantar da Maison Coilliet, Hector Guimard, 1898-1900 Fonte: Fiell (2001) “A Art Nouveau pode ser considerada como o primeiro verdadeiro estilo internacional moderno.” Mas, inexplicavelmente, devido ao fato de se basear em motivos ornamentais, ficou ligada à decadência do fin de siècle (final do século), sendo estilisticamente ultrapassada pelas formas geométricas simples mais adaptadas à produção industrial e pela máquina estética do início no século XX (FIELL, 2001). Da revolta contra a industrialização, que o Art Nouveau representa, até o design contemporâneo, há um longo caminho percorrido na tentativa de trazer o conforto, aliado à beleza, pelas grandes massas dos países densamente povoados. (MACUSO, 2012). Buscando referências em um estilo eclético, com um leque de fontes, que inclui da civilização egípcia ao neoclassicismo e ao movimento moderno, segundo Fiell (2001), e seguindo a linha da Art Nouveau do principio do século, surge a Art Deco. A Exposition Internacionale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes de Paris, em 1925, proporcionou o surgimento do termo e, a partir daquele ano, o estilo 40 teve expressão no trabalho de muitos designers na França, na Europa continental, na Inglaterra e Estados Unidos, no entanto, Fiell (2001) argumenta que “A Art Deco era mais um estilo decorativo internacional do que um movimento de design, que surgiu em Paris nos anos 20” (Figura 18). Figura 18 – Mobiliários Art Deco a) Cadeira de Pierre Legrain (1888-1929) b) Cadeira Chaise Défenses, 1927, Jacques-Emile Ruhlmann Fonte: christies.com, theredlist.fr (2013) Neste sentido, Mancuso (2012) salienta que a exposição de Paris, de 1925, assinala o triunfo do estilo cubista sobre a nova arte. De modo geral, o mobiliário cubista segue a doutrina estética proveniente da pintura, com linhas simples e formas geométricas, sendo a forma do móvel estritamente necessária para desempenhar determinada função. Para Fiell (2001), o tempo deste estilo foi encurtado pela Segunda Guerra, quando sua base decorativa e sua estética se tornaram insustentáveis. A Art Deco reapareceu nos anos 60, tanto pelos novos designers desiludidos com o modernismo quanto no mercado de colecionadores. Todos estes que podemos chamar de pequenos estilos revolucionaram o mobiliário de acordo com as novas técnicas e derivam, no final da Primeira Guerra Europeia, no movimento cubista e expressionista. As revistas de decoração e as exposições propagam e intercambiam estas correntes e o estilo se internacionaliza. 41 É então que, simultaneamente com a arquitetura, chamada até então de funcionalista, se desenvolve um mobiliário que podemos denominar de estilo contemporâneo (FEDUCHI, 2001). Em 1919, a Escola de Artes Aplicada de Weimar se transforma na Bauhaus, a singular escola de Artes Decorativas e Industrial. A Bauhaus foi uma instituição que conseguiu a síntese dos movimentos anteriores, cujo centro de formação foi um grande laboratório onde arquitetos, artesãos e técnicos realizaram um trabalho comum na construção, na arte decorativa. Foi nesta instituição que, sem dúvida, surgiram as primeiras correntes do mobiliário contemporâneo (FEDUCHI, 2001). A “casa da construção”, significado de Bauhaus, procurava trazer unidade às artes reformando a teoria da educação (FIELL, 2001). A Bauhaus, uma escola de artes e ofícios criada na Alemanha, é responsável por toda a geração de artistas disposta a romper com o passado e a conseguir que a arte contemporânea encontrasse a sua originalidade e se exprimisse em todos os domínios. Os métodos de ensino da Bauhaus fizeram com que aparecessem tipos de móveis diferentes, tanto na forma como no material empregado. Foi precisamente na Bauhaus que Marcel Breuer estudou os primeiros modelos de mobiliário metálico tubular (MACUSO, 2012). Em 1933 a Bauhaus foi fechada. Embora muito criticada, não se pode duvidar de sua importância. Em apenas quatorze anos desenvolveu um trabalho que durou muito tempo depois (FEDUCHI, 2001). A visão pioneira funcionalista do design da Bauhaus teve um impacto fundamental na prática do design industrial, fornecendo embasamento filosófico no surgimento do Movimento Moderno (FIELL, 2001). A cadeira é o móvel mais influente nos avanços técnicos e no emprego de novos materiais, portanto o mais representativo. Constantemente surgem novos modelos de cadeiras, mas pode-se dizer que todos tem um antecedente nos primeiros móveis contemporâneos. As cadeiras modernas têm sua representação inicial com os modelos de Michael Tronet (Figura 19a), com inovação da madeira curvada, e Charles Rennie Mackintosh (Figura 19b), com a pureza de linhas geométricas (FEDUCHI, 2001). 42 Figura 19 – Cadeiras, representação inicial do mobiliário moderno a) Cadeira de Michael Tronet b) Cadeira de Charles Rennie Mackintosh Fonte: revistacasaejardim.globo.com, Dempsey (2003) Feduchi (2001) afirma que as cadeiras modernas tem maior representatividade após a Primeira Guerra Mundial, como consequência de mudanças econômicas, politicas, artísticas e técnicas da época. Dessas cadeiras, pode-se relacionar a “cadeira vermelho e azul” (1917-18) de Gerrit Rietveld (Figura 20a); a poltrona de tubo e lona (1925) de Marcel Breuer (Figura 20b). Figura 20 – Mobiliários modernos de madeira e tubo metálico a) Cadeira de Gerrit Rietveld b) Cadeira de Marcel Breuer Fonte: Fiell (2001) 43 As cadeiras MR10 (1928) e a Barcelona (1929) de Ludwig Mies van der Rohe (Figura 21); a chaise-longue (1928) e o sofá estofado com estrutura metálica (1929) de Le Corbusier (Figura 22) também são cadeiras com representatividade moderna. Figura 21 – Mobiliários de Mies van der Rohe a) Cadeira Barcelona b) Cadeira de MR10 Fonte: Feduchi (2001) Figura 22 – Chaise-longue e sofá de Le Corbusier Fonte: Fiell (2001) Outras cadeiras modernistas merecem igualmente destaque, como é o caso da cadeira “Paimio” de madeira compensada (1930) de Alvar Aalto (Figura 23a); a cadeira de pele e estrutura metálica (1938) de Bonet, Kurchan, e Ferrari Hardoy (Figura 23b); as cadeiras de madeira (1946), de armação tubular (1958) e a Lounge y Ottoman (1956) do casal Charles e Ray Eames (Figura 24 e 25). 44 Figura 23 – Mobiliários modernos de madeira e couro a) Cadeira de Alvar Aalto b) Cadeira B.K.F Fonte: Fiell (2001), Feduchi (2001) Figura 24 – Mobiliários de Charles Eames a) Cadeira de madeira b) Cadeira com armação tubular Fonte: Fiell (2001), Feduchi (2001) Figura 25 – Cadeira Lounge y Ottoman de Charles Eames Fonte: Fiell (2001) 45 Com o emprego do plástico, novos designs surgem para as cadeiras, como é o caso da cadeira “Tulipa” de Eero Saarinen (Figura 26a); cadeira uma peça só toda de plástico (1960) de Verner Panton (Figura 26b); a cadeira Selene de Vico Magistretti (Figura 27a). Figura 26 – Mobiliários modernos de plástico a) Cadeira de Saarinen b) Cadeira de Verner Panton Fonte: Feduchi (2001), E, diferentemente de todos as cadeiras, a famosa El saco criada pelos italianos Gatti, Paolini e Teodoro (Figura 27b), que se adapta facilmente a forma do corpo humano, chama a atenção pelo seu caráter inovador (FECUCHI, 2001). Figura 27 – Mobiliários modernos de plástico e espuma a) Cadeira de Selene de Magistretti Fonte: Feduchi (2001), b) Cadeira de El saco 46 Estes designers são criadores do móvel funcional, cujas características são a ausência de elemento ornamental, sem atender a necessidades individuais, construídos sobre uma estrutura audaciosa com valor de utilidade universal. Os móveis funcionais têm tendências para formas simples, claras, abertas e com nítido sentido social (MACUSO, 2012). No Brasil o design de mobiliário começou a se desenvolver por volta dos anos de 1950. Embora sem um público consumidor de grande representatividade que possibilitasse o desenvolvimento do design de móveis, Sergio Rodrigues procurou criar móveis com verdadeira identidade brasileira e foi responsável pela criação de peças reconhecidas internacionalmente, como a Poltrona Mole (Figura 28a). Ainda nos anos de 1950, pode-se destacar o arquiteto e designer Paulo Mendes da Rocha, a italiana Lina Bo Bardi e Zanine Caldas. A partir da década de 1970, os móveis foram criados por designers e arquitetos como Oscar Niemeyer, que desenhou móveis de formas bem futuristas (Figura 28b), Carlos Motta, Marcelo Ferraz, Ruy Ohtake e os irmãos Fernando e Humberto Campana (GURGEL, 2007). Figura 28 – Mobiliários modernos projetados por brasileiros a) Cadeira de Sergio Rodrigues b) Cadeira de balanço de Oscar Niemayer Fonte: sergiorodrigues.com.br, niemeyer.org.br (2013) Com um público cada vez mais numeroso, a produção em massa de móveis, que tem que se adaptar às reduzidas dimensões das casas modernas, é voltada a construção de móveis de sobrepor, móveis componíveis, assentos de abrir e fechar. Por razões estéticas e econômicas, novos materiais como metal, vidro, plástico, tecidos combinados e outros materiais modernos passam a concorrer com a madeira (MACUSO, 2012). 47 Já em 1974, pode-se dizer que existiam duas orientações na fabricação do mobiliário. Uma é representada pelos fabricantes industriais, destinada a numerosos clientes pouco exigentes; a outra é representada pelos artesãos que fabricam peças únicas destinadas a uma clientela refinada e exigente. Porém, à medida que há a valorização dos designers, e estes passam a criar móveis que serão reproduzidos em massa, essa defasagem vai diminuindo. Assim, o móvel artisticamente criado é lançado para produção industrial, atingindo um número maior de clientes devido ao barateamento do seu custo. Com isso, as fábricas investem em estudos de marketing, visando conhecer as necessidades do mercado, criando um móvel que atinja a falta dos demais modelos existentes (MACUSO, 2012). 48 3. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS DE MADEIRA “Quando nasces, embala-te um berço feito de minha madeira, e quando morreres o teu ataúde o será também (...). Faz-me respeitar: sou a árvore”. Domingos Faustino Sarmiento. Ao que afirma Bernardi (2009), “a madeira é o material mais utilizado na fabricação de móveis ao longo do tempo”. No Egito, artesões utilizavam ferramentas rústicas no trabalho da madeira e técnicas muito sofisticadas, que mesmo com o avanço tecnológico poucas foram modificadas. As peças do mobiliário primitivo eram talhadas num só bloco de madeira, desse modo o ofício de carpinteiro derivou do de entalhador. Com o tempo o carpinteiro deixou de executar todas as técnicas na fabricação do mobiliário e uma variante da sua arte passou a ser praticada pelo torneiro. A principal ocupação do torneiro passou a ser a fabricação de cadeiras e foi então que se deu o primeiro passo no sentido da técnica das juntas, uma vez que os pés e as costas da cadeira tinham de ser fixados no assento. A técnica de unir as partes de uma peça de madeira por meio de juntas derivou originalmente da carpintaria, que as usavam para forrar salas com madeira para decoração e ao mesmo tempo conservar o calor. Como as tábuas unidas com prego não ficavam com folga necessária para suportar a dilatação e a contração da madeira provocada pelas mudanças de temperatura e umidade, criou-se um sistema de molduras encaixadas, as peças de madeira são unidas por meio de juntas de espiga e encaixe. Aos poucos o carpinteiro se dedica exclusivamente à construção de casas e os móveis ficam a cargo do marceneiro (BERNARDI, 2009). Neste sentido, a Enciclopédia Mirador (2001) afirma que a marcenaria distingue-se da carpintaria pelo refinamento tecnológico e pelo teor estético, havendo, em Portugal ou no Brasil, a diferença de status social entre o profissional marceneiro e carpinteiro, sendo que este último, quer trabalhe como auxiliar do primeiro, quer autonomamente, ocupa-se dos aspectos mais rudes do preparo ou feitura das peças de madeira, tanto na área do mobiliário, como na construção civil. 49 Dal Piva (2006, 2007) afirma que a figura do marceneiro, profissional que interfere em todas as fases do processo produtivo do móvel, sustentou durante muitas décadas a imagem de um setor que vem evoluindo às margens de uma política de ações definitivas no que diz respeito à operacionalização do trabalho. Esses profissionais multiplicaram-se, fazendo peças sob encomenda em madeira maciça, pois havia a necessidade de suprir uma demanda do mercado consumidor, a qual, as empresas fabricantes de móveis em série não podiam atender, em virtude de uma tecnologia rígida de produção. Aos poucos, as marcenarias, antigos e precários galpões, foram evoluindo para estruturas essencialmente verticalizadas, com especialização, mas, ainda com baixo nível tecnológico. Posteriormente, os fabricantes de móveis, atentos às necessidades apresentadas pelo mercado consumidor de personalizar espaços, passaram a dispor de maior flexibilidade na produção e na montagem, a fim de adequar cada móvel ao ambiente e ao gosto pessoal do comprador, com suporte de profissionais contratado por estas, como arquitetos e projetistas (DAL PIVA, 2006, 2007). Atualmente existem fábricas de móveis artesanais, ou sob medida, oriundas das marcenarias, e fábrica de móveis em série. Ambos os tipos de fábricas podem utilizar como matéria-prima tanto a madeira maciça quanto os painéis de madeira. 3.1. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS SOB MEDIDA As fábricas de móveis sob medida, segundo Dal Piva (2007) “são na maior parte micro e pequenas empresas, tendo na grande maioria um número muito baixo de funcionários”. Boch (2007) conceitua a fabricação de móveis sob medida como “o processo onde o móvel é fabricado de maneira quase que artesanal, por profissionais polivalentes, que conhecem todo o processo de fabricação do produto” e salienta que esses móveis “são personalizados, ocupam bem os espaços das residências e proporcionam uma rentabilidade bem maior por unidade fabricada”. O sistema requer para cada móvel uma negociação inicial, visita ao cliente para dimensionar o móvel, elaboração do projeto, apresentação e o acompanhamento da produção até a entrega final. Seu processo de fabricação exige 50 muita atenção do projetista, já que o erro no dimensionamento pode comprometer a instalação do móvel e a margem de lucro prevista pelo marceneiro (DAL PIVA, 2007). Devido ao desuso da madeira maciça e ao surgimento de materiais alternativos, as marcenarias requerem transformação, exigindo assim algumas adaptações no processo produtivo, tanto no que se refere às máquinas e ferramentas, quanto no que diz respeito a algumas operações (tais como esculpir, entalhar e secar a madeira), cuja aplicação se mostra inviável ou desnecessária nesses novos materiais agora empregados (DAL PIVA, 2006). Neste sentido Folz (2002) enfatiza: A mão de obra de uma marcenaria há cinquenta anos não era a mesma presente nas indústrias moveleiras atuais. A figura do marceneiro foi desaparecendo aos poucos e, hoje, não é mais exigido o conhecimento das características das madeiras maciças, da execução de encaixes, do manuseio de várias ferramentas. Até pouco tempo atrás, fazer móveis era uma atividade predominantemente artesanal. O atual “marceneiro” é aquele que domina um determinado tipo de máquina e que precisa saber basicamente cortar, usinar e montar. Por outro lado, Dal Piva (2006) lembra que o conhecimento relativo ao processo produtivo, aplicações das placas e de outros materiais, bem como, o destino desses materiais relacionados ao uso, funcionalidade, ergonomia, novos sistemas de fixação e ferragens, passa a exigir do marceneiro uma atualização constante e um contato maior com os fornecedores no sentido de adaptar tecnologia empregada e custos. No entanto, há desvantagens na fabricação do móvel sob medida, como excesso de operações manuais, baixa produtividade, poucas máquinas produtivas, dificuldade de se encontrar mão de obra qualificada e necessidade de profissionais para elaborar projetos especiais (DAL PIVA, 2007). Em geral, comparados as grandes fábricas de móveis, o espaço das marcenarias é reduzido e, muitas vezes, a sequência de trabalho, pode estar comprometida. A Figura 29 apresenta o layout esquemático de uma marcenaria local, de pequeno porte, que fabrica móveis em grande maioria de chapas de madeira. A 51 MobiliArt - Móveis Planejados possui um espaço menor do que 100 m² e conta com maquinários como serra circular radial, chamada de esquadrejadeira pelo marceneiro Miro, desempenadeira, tupia, furadeira, coladeira de borda e outras máquinas portáreis. Figura 29 – Marcenaria local de pequeno porte A serra circular radial (Figura 30a) é uma máquina motorizada, de estrutura metálica, composta por uma mesa plana, encostos e disco de serra. Esta tem como finalidade cortar em linha reta, em sentido diagonal, transversal ou longitudinal, com inclinações de 0º a 45º em relação à mesa. Além disso, possibilita esquadrejar, rebaixar e fazer ranhuras nas peças (DAL PIVA, 2007). A plaina desempenadeira (Figura 30b), de acordo com Dal Piva (2007), é utilizada para desempenar peças de madeira em uma relação face/lado. Composta por encosto paralelo inclinável, esta máquina motorizada permite desempenar a madeira em ângulos que vão de 90º a 135º em relação à face. A tupia (Figura 30c) pode ser resumida basicamente como uma mesa com encosto perpendicular que opera com discos de serra e fresas para perfis, cuja função é a realização de rebaixos, molduras, perfis e canais. 52 Figura 30 – Máquinas utilizadas no processo de fabricação de móveis a) Serra circular radial b) Plaina desempenadeira c) Tupia d) Furadeira e) Coladeira de borda f) Lixadeira Fonte: invicta.com.br, baldan.ind.br (2013) 53 A furadeira e a lixadeira (Figura 30d/f) tem como função a própria referência ao nome. A primeira faz furos de um modo geral por meio de brocas, podendo ser classificadas como furadeira de coluna, de bancada, horizontal ou furadeira múltipla. A segunda permite lixar peças planas e curvas, possibilitando o acabamento das peças, o arredondamento ou perfilhamento de bordas e elaboração de perfis redondos ou ovalado, quebrando os cantos longitudinais de peças retas. Tanto no uso artesanal quanto no industrial, a coladeira de borda (Figura 30e) foi desenvolvida para trabalhar com painéis de madeira de bordas retas, perfiladas ou arredondadas, de maneira totalmente adaptável as necessidades solicitadas. Esta permite a colagem de bordas através da alimentação automática das bordas em papel melamínico, lâminas de madeira ou PVC em rolos (DAL PIVA, 2007). Além das máquinas, ferramentas manuais de um modo geral são necessárias para a fabricação de móveis, entre elas a chave de fenda, o martelo, o formão, o serrote, a grosa, a lima, entre outras. Embora tenham sido aperfeiçoadas, com a mecanização e o desenvolvimento industrial algumas dessas ferramentas têm sido substituídas por outras que proporcionam maior agilidade e produtividade. Tais ferramentas entraram em desuso devido ao advento industrial, evoluindo para se transformar em uma máquina. O setor moveleiro dispõe de máquinas portáteis que tornam as operações mais ágeis, segundo Dal Piva (2007), principalmente em montagens e instalações que são necessárias fora do espaço da marcenaria. As máquinas portáteis possuem motor monofásico e baixo peso, permitindo considerá-las como “autênticas ferramentas mecânicas e manuais” que podem ser utilizadas com as mesmas técnicas de trabalho. Alguns exemplos desses tipos de máquina são a serra de recorte (tico-tico), serra circular de mesa, a serra circular meia esquadria, tupia portátil, lixadeira e plaina elétrica, entre outros (Figura 31). Algumas dessas máquinas possibilitam a adaptação de dispositivos e acessórios em cada uma delas. As marcenarias de pequeno porte, como é o caso do exemplo em questão, não possuem sistemas automatizados em nenhuma das etapas de fabricação do móvel. O corte das peças que compõem o móvel é realizado por meio de dimensionamento manual e apenas a execução é feita através do processo mecanizado. 54 Figura 31 – Máquinas portáteis: serra meia esquadria, serra circular, tupia portátil, plaina elétrica, serra tico-tico e lixadeira elétrica. Fonte: dewalt.pt (2013) Figura 32 – Fábrica de móveis local de médio porte 55 A Figura 32 apresenta o layout esquemático da MóveisGiane Design - Móveis e Ambientes Planejados, fábrica local de móveis planejados, que além das máquinas coladeira de borda e furadeira, conta com outras duas máquinas importantes para a sua produção: a esquadrejadeira e a seccionadora. A serra esquadrejadeira (Figura 33), ao contrário da serra circular tradicional, apresenta uma mesa móvel conhecida como carro deslizante, que acelera e melhora a precisão do corte. Além de cortar, essa máquina tem a função de dimensionar as peças que podem ser serradas em retas ou ângulos (DAL PIVA, 2007). A seccionadora (Figura 34), capaz de trabalhar com variados tipos de painéis, desenvolve cortes retos e precisos, com bom acabamento devido a um sistema de riscador e serra. Existem diversos modelos de seccionadoras. A seccionadora vertical faz cortes em chapas na posição vertical e tem como vantagem a redução do espaço ocupado. A matéria-prima utilizada é cortada, na maioria dos casos, na posição horizontal. A seccionadora horizontal utiliza chapas nesta posição para a realização de cortes, podendo ser alimentada na máquina por método manual ou automático. As fábricas de médio porte, como é o caso da MóveisGiane, possuem a seccionadora horizontal com o sistema automático de corte, controlados por um computador, sobre a qual Dal Piva (2007) ressalta que “cortam a madeira conforme as dimensões estabelecidas por um plano de corte também previamente estabelecido”. Esta máquina possibilita a otimização e agilidade no processo produtivo, principalmente quando há produção em maior escala. Figura 33 – Serra circular esquadrejadeira Fonte: baldan.ind.br (2013) 56 Figura 34 – Seccionadora Fonte: baldan.ind.br (2013) 3.2. FABRICAÇÃO DE MÓVEIS EM SÉRIE De acordo com Franco (2010), com o fim da Segunda Guerra Mundial, há a disponibilidade de equipamentos de transformação da madeira e de matérias-primas elaboradas, o crescimento demográfico e a concentração da população desta nos centros urbanos. Com isso, o mercado de fabricação de móveis tornou-se capaz de sustentar a produção de produtos em larga escala e as organizações de maior porte passam a fabricar móveis visando atender este mercado nascente, caracterizado pela menor personalização em termos qualitativos e por maior volume quantitativo. Assim, a racionalização da produção e a economia de escala dão início à produção seriada. O novo modelo de produção passou a apresentar características diferentes, pois a máquina passou a determinar os padrões de conformação e acabamento, deixando, assim, de depender da habilidade humana, uma vez que as operações foram dividas em etapas das quais cada uma delas poderiam ser aprendidas rápida e facilmente por qualquer trabalhador não qualificado. A produção de móveis em série se iniciou no Brasil na década de 1950 na região serrana do Estado do Rio Grande do Sul, no polo moveleiro de Bento Gonçalves com produção concentrada em móveis seriados retilíneos de madeira (FOLZ, 2002). Para Folz (2002), os móveis seriados por sua vez, podem ser torneados, fabricados de madeira de reflorestamento, ou retilíneos, fabricados com chapas de madeira. A produção de móveis torneados é composta por inúmeras etapas, 57 enquanto os seriados retilíneos possuem um processo produtivo mais simplificado, com produção em grande escala e poucas etapas, reduzindo-se ao corte de painéis, usinagem e embalagem, eliminando o processo de montagem do móvel que passou a ser feito pelo varejista. A produção de móveis retilíneos seriados é realizada por médias e grandes empresas, em alguns casos com linhas de produção com máquinas flexíveis de última geração. Com produção em grande escala, os móveis seriados, destacando-se os tradicionais para quarto e cozinha, destinam-se à parcela da população com menor poder aquisitivo e se utilizam de redes atacadistas nacionais como distribuidores. Visando possibilitar um melhor aproveitamento do espaço físico disponível, surgem no mercado os chamados móveis modulados. Consumidos pela classe média, estes móveis oferecem certa personalização através da escolha diferenciada de módulos que podem compor armários de cozinha ou ainda salas e quartos (FOLZ, 2002). Basicamente, o que diferencia o trabalho artesanal do fabril é a divisão do trabalho e a racionalidade operativa, destacando profissionais que passam a exercer atividades especializadas, como entalhador, lustrador, pintor, entre outros. A produção passou a se concentrar em grandes indústrias, função do maior investimento necessário para a implantação de linhas completas de produção (incluindo a alimentação dos equipamentos e o transporte das peças) através de uma programação computadorizada, e da própria capacidade produtiva desses equipamentos. Como exemplo, vale destacar que uma seccionadora de painéis de grande porte, processa entre 500 e 600 m² de painel de aglomerado ou MDF de 15 mm por hora. [...] resulta num total de 100 mil m² de painel processado por mês. Considerando-se que um armário de porte médio congrega um total em 7 a 8 m² de painel, tem-se uma produção média de 15 mil armários/mês. (FRANCO, 2010) A fabricação seriada é muito variada de uma indústria para outra. Esta variação depende da planta da indústria, do tipo de móvel que se produz e dos maquinários utilizados, que podem ser equipamentos de linhas integradas ou não integradas (FOLZ, 2002). As linhas não integradas são dotadas de máquinas tradicionais, com predominância nacional, como desempenadeira, plaina, esquadrejadeira, tupia, 58 entre outras. Em contrapartida as linhas integradas são compostas por máquinas estrangeiras, principalmente italianas e alemãs, de alta tecnologia e dotadas de Controladores Numéricos Computadorizados (CNC) que proporcionam o barateamento no custo de fabricação por reduzir várias etapas no processo produtivo e dispensar um grande número de mão de obra. No entanto, as indústrias de produção seriada podem tanto ter uma distribuição uniforme quando são utilizadas máquinas CNC, para o caso de indústria de móveis retilíneos, como apresentar diferentes setores que integrem máquinas tradicionais com máquinas de última geração, como é o caso das indústrias de móveis torneados (FOLZ, 2002). As Figuras 35, 36 e 37 apresentam o layout das indústrias de fabricação seriada, com diferentes processos tecnológicos da indústria moveleira e demonstração de dados, especificamente em uma linha de produção de lateral de uma estante. A primeira apresenta o layout de uma industrial convencional; a segunda é uma indústria semiautomática; a terceira uma indústria automática. Figura 35 – Layout de indústria convencional Fonte: Folz (2002) 59 A industrial convencional conta com equipamentos tradicionais similares aos utilizados na fabricação sob medida, como serra circular, esquadrejadeira, tupia e furadeira. Devido à inexistência de equipamentos automatizados, há a necessidade de grande quantidade de empregados que se tornam peças fundamentais para a fabricação de móveis. Por outro lado, a indústria semiautomática, com a integração de máquinas tradicionais e máquinas tecnológicas, consegue reduzir não somente a quantidade de máquinas, como também o seu quadro de funcionários pela metade, tornando-se menos dependente de fatores humanos e, ainda, aumentando sua produção diária (FOLZ, 2002). Figura 36 – Layout de indústria semiautomática Fonte: Folz (2002) 60 A Figura 37 apresenta o layout da indústria automática que necessita de mais espaço para produção e a área necessária para o desenvolvimento de suas atividades mais que triplica. Contudo, o número de funcionários é reduzido e passa a ser um terço da quantidade, comparado à indústria convencional. Devido ao sistema produtivo altamente tecnológico e automatizado, sua produção ultrapassa em mais do que o dobro da produção da indústria semiautomática e em muito mais do que o triplo da produção com relação à indústria convencional. Figura 37 – Layout de indústria automática Fonte: Folz (2002) 3.3. INDÚSTRIA DE MÓVEIS A indústria de móveis é formada por mais de 16 mil micro, pequenas e médias empresas, de capital nacional em sua maioria, que geram, segundo dados de 2004 da pesquisa Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), cerca de 206 mil empregos. Essas empresas localizam-se em sua maioria na região centro-sul do país, constituindo polos moveleiros em alguns estados, a exemplo de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul; São Bento do Sul, em Santa Catarina; 61 Arapongas, no Paraná; Mirassol, Votuporanga e São Paulo, em São Paulo; Ubá em Minas Gerais; Linhares, no Espírito Santo (BRASIL-MAPA, 2007). Tabela 1 – Polos moveleiros no Brasil em 2004 Polo moveleiro Estado Empresas Bento Gonçalves RS 370 São Paulo SP 3.000 Mirassol SP 210 São Bento do Sul SC 210 Arapongas PR 145 Votuporanga SP 85 Ubá MG 310 Linhares e Colatina ES 130 Bom Despacho MG 117 Lagoa Vermelha RS 60 SP 54 Tupã Fonte: ABNT (2013) O setor moveleiro tem como característica a elevada participação dos móveis de madeira com produção de aproximadamente 2/3 do total produzido, sendo que cerca de 60% da produção total são de móveis residenciais, 25% de móveis de escritório e 15% de móveis institucionais, escolares, médico-hospitalares, móveis para restaurantes, hotéis e similares. Em alguns segmentos específicos, como é o caso dos móveis para escritórios, por exemplo, já existe interesse de empresas estrangeiras, mas a maior parte das empresas é familiar, tradicional e geralmente de capital inteiramente nacional. Devido ao aumento das exportações nos últimos anos, a indústria desenvolveu muito a sua capacidade de produção e apurou significativamente a qualidade dos seus produtos. Em relação aos anos da década de 1980, a indústria passou por um processo de modernização empresarial e tecnológica, que com tecnologias avançadas, matérias-primas sofisticadas e apuro na qualidade dos produtos têm destacado a produção da indústria brasileira de móveis (BRASIL, 2007). 62 4. MATÉRIA-PRIMA: MADEIRA E SEUS DERIVADOS “Tratar a madeira com amor é perpetuar no produto o espírito da floresta”. Sergio Rodrigues. A cadeia produtiva do setor florestal, segundo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES é composta basicamente por fins industriais e fins combustíveis. Os fins combustíveis utilizam a madeira para energia (lenha e carvão). Os fins industriais possuem três segmentos: 1- serrados; 2- polpa (celulose e papel); 3- painéis (painéis de madeira sólida e reconstituídos), como podem ser visualizados na Figura 38 (BRASIL-MAPA, 2007). Figura 38 – Estrutura da cadeia produtiva de madeira Fonte: BRASIL (2007) Um ponto de destaque é a convivência de dois modelos de organização industrial presentes no Brasil. De um lado, em especial no que se refere a celulose, papel, lâmina de madeira, chapa de fibra e de madeira aglomerada, o setor é dominado por poucas empresas de grande porte, integradas verticalmente da floresta até produtos acabados, que monopolizam completamente a produção e o comércio. De outro, principalmente na produção de madeira serrada, compensados 63 e móveis, atua um grande número de empresas de pequeno e médio porte, de menor capacidade empresarial. No caso da indústria de móveis, além da variedade no uso de materiais, o setor apresenta uma forte pulverização das preferências dos consumidores, levando a uma redução da escala da demanda e de uma enorme fragmentação do mercado (BRASIL-MAPA, 2007). Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas – ABRAF (2011)5 apud Vidal e Hora (2011), os segmentos de celulose, papéis e painéis de madeira industrializada responderam por uma produção de R$ 34,4 bilhões em 2010, equivalente a 66% do valor bruto da produção do setor florestal de produtos madeireiros. Boa parte da produção industrial de produtos madeireiros está voltada à indústria de móveis. Na cadeia produtiva da madeira, tanto a madeira serrada quanto a madeira processada têm como destino a indústria de móveis. No esquema da Figura 39, mostra-se a cadeia produtiva da madeira com enfoque nesse setor, de modo que é possível observar que a madeira processada tem como finalidade a produção de compensados e painéis de madeira reconstituída, entre as quais se destacam o MDF (Medium Density Fiberboard), MDP (Medium Density Particleboard), Chapa de fibra e OSB (Oriented Strand Board). Atualmente esses produtos, juntamente com o compensado, são a principal matéria-prima da indústria moveleira. Figura 39 – Cadeia produtiva da madeira com enfoque na indústria de móveis Fonte: Adaptação de VIDAL e HORA (2011) 5 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRODUTORES DE FLORESTAS PLANTADAS – ABRAF. Anuário estatístico da ABRAF 2011: ano base 2010. Brasília, 2011. 130p. 64 Segundo Vidal e Hora (2011) e de acordo com os dados da ABRAF (2011), estima-se que os segmentos de painéis de madeira industrializada, indústria da madeira e móveis responderam por uma produção com total de R$ 21,5 bilhões em 2010, equivalente a 41% do valor bruto da produção do setor florestal de produtos madeireiros. A representatividade do setor moveleiro torna-se, assim, um dos mais significativos economicamente no setor florestal. A madeira apresenta múltiplos usos, sendo solicitada na indústria de móveis, na construção civil, como elemento decorativo, na indústria de celulose e papel, na produção de painéis diversos, na produção de energia (lenha e carvão) e na indústria siderúrgica, entre outros. Devido a sua disponibilidade e características, a madeira foi um dos primeiros materiais a ser utilizado pela humanidade, mantendo, apesar do aparecimento dos materiais sintéticos, uma imensidade de usos diretos e servindo de matéria-prima para múltiplos outros produtos. A sua utilização na indústria de marcenaria para fabricação de móveis é uma das mais expandidas. Segundo o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – MDIC (2012), a atividade da cadeia produtiva de madeira vai desde a produção de madeira serrada e produtos sólidos de madeira até a fabricação final do móvel. O setor desenvolveu-se a partir de três regiões do Brasil, sendo a cidade de São Paulo seu polo pioneiro, em 1950, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina consolidaram seus núcleos de produção efetivamente nas décadas de 1960 e 1970, quando essas regiões investiram no mercado internacional. Atualmente, o Estado de São Paulo concentra o maior número de empresas, enquanto a Região Sul detém os maiores polos produtores/exportadores. 4.1. MADEIRA MACIÇA OU SERRADA A madeira, por suas inúmeras qualidades, é um dos materiais mais utilizados pelo homem e possui grande diversidade de espécies com usos diversos. Paim (2007) afirma que a madeira é um dos materiais mais nobres que existe na natureza e um dos mais tradicionais, sendo usada na fabricação de móveis desde os primórdios da humanidade. 65 A primeira matéria-prima empregada na fabricação de móveis foi a madeira nativa, ou madeira de lei6. Suas características principais são a aparência das diferentes fibras e colorações, a alta resistência física e mecânica, a durabilidade e a usinabilidade (pode ser emoldurada, torneada ou entalhada). Como exemplo, podemos citar o jacarandá, o mogno, a imbuia, a cerejeira, o freijó e o marfim (ROSA et al, 2007) Segundo Lelis et al. (2001) a madeira é um material renovável, cujo suprimento pode ser planejado, por exemplo, por meio de reflorestamento. Seu beneficiamento consome menos energia do que outros materiais utilizados na construção civil, como o aço, o cimento e o alumínio. Assim, sua utilização racional e sustentável justifica cada vez mais seu uso em edificações para fins tanto estruturais quanto decorativos. A madeira possui um grande número de variáveis que afetam suas propriedades físicas como o solo, o clima, as condições locais de onde provém a árvore, a classificação botânica, a fisiologia da árvore, a anatomia do tecido lenhoso, a variação da composição química e outros possíveis fatores. As características físicas mais importantes são: a umidade, a estabilidade dimensional, a densidade e o peso específico. A umidade de equilíbrio, segundo Hellmeister (1973)7, “é função da temperatura ambiente e da umidade relativa do ar”. No Brasil, a umidade de equilíbrio varia entre 12 e 18%. A diminuição ou o aumento da quantidade de água provoca a diminuição (retração) ou o aumento (inchamento) nas dimensões da peça de madeira. A densidade depende da espécie em estudo, do local de procedência da árvore, da localização da parte da madeira na tora e da umidade (LOGSDON; JESUS, 2009). 6 7 a) Madeira de Lei: Madeira dura; madeira de cerne muito resistente que, em seu estado atual, resiste bem aos fungos e aos insetos xilófagos, inclusive à cravação e à penetração de preservativos. (SENAI. RS. Glossário Mobiliário e Madeira. Bento Gonçalves, CETEMO – NIT/MM, 1994). b) Madeira protegida por lei, ou madeira nobre, com grande estabilidade e excelente trabalhabilidade, tais como Jacarandá-da-Bahia, Pau-Brasil, Mogno-brasileiro, Araribá e Vinhático. (GONZAGA, Armando Luiz, Madeira: uso e conservação. Brasília, DF: IPHAN / Monumenta, 2006). HELLMEISTER, J. C. Sobre a Determinação das Características Físicas da Madeira. Escola de Engenharia de São Carlos - USP, São Carlos - SP. 1973 66 Por ser um material natural, a madeira apresenta características de heterogeneidade sob muitos aspectos: as diferentes espécies e tipos existentes, suas características anatômicas e propriedades físicomecânicas, a localização das fontes de suprimento, seus custos de obtenção, transporte e processamento e seus níveis de desempenho como matéria-prima tanto no processamento como no uso final entre outros. Especialmente na indústria moveleira todos estes fatores incidem com maior ou menor intensidade, mas, dentre eles, destacam-se principalmente a aparência, trabalhabilidade e a disponibilidade (RAZERA NETO, 2005). Razera Neto (2005) afirma que o fator aparência é caracterizado na madeira e no móvel pela cor e tonalidade, grã (refere-se ao arranjo, direção ou paralelismo, dos elementos celulares constituintes do lenho em relação ao eixo longitudinal do tronco e tem influência nas propriedades mecânicas e na secagem da madeira), textura e, mais indiretamente, pela densidade, pela retratibilidade, pela trabalhabilidade, e pela facilidade de acabamento. Em resumo, um conjunto de características, ou propriedades específicas, de cada madeira que determinam se ela pode ou não ser apropriadamente usada para fabricação de móveis. Dentre as principais propriedades que têm importância para o uso na produção de móveis com madeira sólida, segundo Razera Neto (2005) e ampliado por Logsdon e Jesus (2009), incluem-se: a cor, o cheiro, a disposição da grã e a textura (referem-se à impressão visual), o brilho e a figura (relacionam-se ao desenho natural das faces) e a estabilidade dimensional (relaciona-se a variação dimensional, rachaduras e empenamentos, causados pela variação de umidade). Um ponto que diferencia o processo de trabalho no móvel feito com madeira maciça é o acabamento, que geralmente procura salientar a madeira, optando principalmente pelos acabamentos feitos à base de vernizes, visando ressaltar o material do qual o móvel é feito utilizando as almofadas e os detalhes entalhados (DAL PIVA, 2006, 2007). Segundo Folz (2002), os móveis torneados são caracterizados por detalhes mais trabalhados, misturando formas curvas com retas, têm como principal matériaprima a madeira maciça. Nos móveis torneados executados sob encomenda, a madeira usada é a de folhosas tropicais e o maquinário das empresas é defasado tecnologicamente, pois além da produção ser dominada pelas micro e pequenas empresas, cuja matéria-prima básica é o compensado conjugado com madeiras 67 nativas, seus equipamentos e instalações são quase sempre deficientes e ultrapassados, o que gera muitas imprecisões nas medidas. A fabricação de móveis torneados é composta por inúmeras etapas, como secagem da madeira, processamento secundário, usinagem, acabamento, montagem e embalagem e seu trabalho é predominantemente artesanal. “Seu produto final destina-se principalmente ao mercado doméstico”. De acordo com Dal Piva (2007), a principal peculiaridade da produção de moveis de madeira maciça é a necessidade de submeter a matéria-prima a um processo de secagem. A secagem da madeira se inicia ao ar livre e é concluída em estufas, nas quais a madeira atinge um índice de umidade que facilita a trabalhabilidade, pois a madeira em toras ou pranchas vem com um teor de umidade superior a ideal de ser trabalhada. Figura 40 – Conjunto rústico de mesa e banco em madeira maciça a) Mesa e banco com encosto b) Mesa e banco A madeira maciça é utilizada em mobiliário de forma geral, porém mais usada em peças de dimensões menores, devido à dificuldade de obtenção de toras de grande diâmetro, ao preço elevado e à preservação do meio ambiente (DAL PIVA, 2006, 2007). Folz (2002) afirma que o setor de madeira maciça é dominado por serrarias com máquinas obsoletas e que desperdiçam muito material, tanto de madeira nativa com de madeira reflorestada (pinus e eucalipto). Mas o grande problema no fornecimento da matéria-prima é a inexistência de empresas especializadas no processamento de madeira serrada destinada à indústria moveleira. Outro problema 68 do setor é a escassez de madeira nativa e as restrições ambientais ao comércio desta madeira e ainda a carência de madeira oriundas de reflorestamento. Mas, neste mesmo sentido, Dal Piva (2007) é mais sutil e ponderado em afirmar que: Nos últimos tempos, a escassez de madeira levou as marcenarias a empregar, ao lado da madeira maciça, materiais alternativos (por exemplo aglomerado, MDF, etc.), apenas revestidos com laminas de madeira. Tal transformação exigiu das marcenaria algumas adaptações no seu processo produtivo, tanto no que se refere às máquinas e ferramentas, quanto no que diz respeito as operações (tais como esculpir, entalhar e secar a madeira), cuja aplicação se mostra inviável ou desnecessária nos materiais agora empregados (DAL PIVA, 2007). Segundo Giustina (2001), existe no setor moveleiro uma preocupação constante de se buscar alternativas novas e de ter um bom fornecimento, também em móveis de madeira maciça. O setor de móveis de madeira maciça, não cresceu mais, por uma questão de falta de disponibilidade de matéria-prima em boas condições. Paim (2007) confirma a ideia afirmando que “como a madeira maciça está cada vez mais escassa e cara, buscam-se alternativas e meios de baixar o custo e economizar a quantidade de madeira consumida na fabricação de móveis”. Existe também a necessidade de um produto de boa qualidade e com preço compatível com o mercado. Um dos grandes problemas que atinge a área de produção de móveis de madeira maciça, e que atinge o setor florestal, é que a parte fornecedora deve conjugar a qualidade e a entrega, de tal forma que possa dar á indústria uma estrutura e um trabalho de continuidade, o que nos últimos anos vem melhorando muito, mas ainda não está em condições de abastecer grandes indústrias (GIUSTINA, 2001). A madeira nativa, maciça, foi largamente explorada, tendo deixado em risco de extinção algumas espécies nobres, como imbuia, cedro, mogno, entre outras. Em 2009, eram poucas as espécies que ainda podiam ser usadas pela indústria, como cerejeira e mogno (Figura 41), dado que a extração de madeira nativa é controlada pelo poder público. Outro forte fator que inibiu o uso dessa matéria-prima foram as pressões de grupos ambientalistas. A madeira originária de reflorestamento, como, 69 por exemplo, o pinus e o eucalipto, tem se mostrado como uma grande alternativa para a indústria moveleira. Contudo, os móveis produzidos com essa madeira, principalmente com pinus, são essencialmente destinados às exportações, pois não têm uma boa aceitação no mercado interno. O mercado consumidor europeu, por sua vez, só compra móveis que sejam fabricados com madeira de áreas reflorestadas (PEREIRA, 2009). Figura 41 – Móveis de madeira maciça de mogno a) Cabeceira b) Cristaleira Fonte: olx.com.br (2013) A madeira serrada pode ser definida como peças obtidas por meio do desdobro de toras utilizando serras, o que representa um tipo de transformação primária da madeira. Dependendo do formato e das dimensões das peças, os serrados possuem diversas denominações, tais como: vigas, tábuas, pranchas, pontaletes, sarrafos, ripas e caibros. Atualmente a maior parcela da madeira serrada é produzida no país a partir de espécies de folhosas tropicais (Região Amazônica). No entanto, as espécies oriundas de reflorestamentos, (Pinus e Eucalyptus), detêm parcela expressiva dos volumes de produção no Brasil e têm crescido continuamente (ABIMCI, 2009b). Os principais produtos de madeira serrada utilizados na fabricação de móveis são de espécies de reflorestamento (pinus e eucalipto) e de espécies tropicais. 70 A madeira serrada de espécies de reflorestamento refere-se a utilização de madeira serrada na indústria moveleira proveniente de florestas plantadas e tem aumentado significativamente. Geralmente, a produção é destinada ao mercado externo e as empresas possuem alto grau de tecnologia. No segmento de móveis para residência, a madeira de pinus é utilizada em móveis torneados na produção seriada, estes móveis apresentam acabamento sofisticado, com detalhes de formas curvas e retas (Figura 42). No caso do eucalipto proveniente de plantações, a madeira possui um grande potencial na fabricação de móveis e vem sendo cada vez mais utilizado pela indústria moveleira. Atualmente, seu uso está atrelado, principalmente, a estruturas e apliques para estofados, acabamento interno, camas e cadeiras. No entanto, peças bem elaboradas (torneadas, pés de cama, estantes, e outras) já estão sendo produzidas (ABIMCI, 2009c). Figura 42 – Móveis de madeira serrada, fabricados com madeira de floresta plantada a) Banco com encosto b) Espreguiçadeira Fonte: meumoveldemadeira.com.br (2013) A madeira serrada de espécies tropicais, por outro lado, trata-se do uso da madeira serrada de espécies tropicais, extraídas de florestas nativas. Seu uso para fabricação de móveis tem diminuído e está praticamente concentrada na fabricação de móveis sob encomenda, caracterizados pela sofisticação e alta qualidade do acabamento. Com relação à produção, não requer alta tecnologia e muitas vezes é artesanal. Rosa et al (2007) afirmam que, provavelmente, a utilização da madeira maciça na produção de móveis deverá se concentrar na madeira de reflorestamento e, de acordo com a ABIMCI (2009c), devido às exigências ambientais, o uso de 71 madeiras provenientes de florestas certificadas é um fato e a tendência é que a madeira serrada oriunda de reflorestamentos venha substituir, gradativamente, a demanda pelos serrados tropicais. Além dos móveis rústicos de madeira maciça e dos fabricados com madeira serrada, há também a possibilidade de produzir móveis através dos painéis de madeira. 4.2. PAINÉIS DERIVADOS DE MADEIRA Biazus, Hora e Leite (2010) afirmam que os painéis de madeira são estruturas fabricadas com madeiras em lâminas ou em diferentes estágios de desagregação que, aglutinadas pela ação de pressão, em geral sobre ação de temperatura, e da utilização de resinas, são novamente agregadas visando a manufatura. A principal vantagem desse tipo de produto é a aplicação como substituto da escassa e encarecida madeira maciça. Os painéis de madeira podem ser divididos em três tipos: os painéis de madeira maciça, os painéis de madeira reconstituída e os painéis de madeira processada mecanicamente. Os painéis de madeira reconstituída passaram a ter seu consumo largamente incrementado no Brasil a partir da década de 1990 e são fabricados com base no processamento da madeira, que passa por diferentes processos de desagregação. Os principais tipos de painéis de madeira reconstituída são o aglomerado, o Medium Density Particleboard (MDP – Painel de Partículas de Média Densidade), o Medium Density Fiberboard (MDF – Painel de Fibras de Média Densidade) e correlatos como o High Density Fiberboard (HDF – Painel de Fibras de Alta Densidade) e o Super Density Fiberboard (SDF – Painel de Fibras de Super Densidade), o OSB Oriented Strand Board (OSB – Painel de Partículas Longas e Orientadas), as chapas de fibra e os compensados (BIAZUS; HORA; LEITE, 2010). São denominados de painéis de madeira reconstituída, ou compósitos, os conjuntos de partículas, fibras ou partes da madeira (lâminas, sarrafos e outros), unidos por um adesivo, sob a ação de pressão e temperatura. Geralmente o produto formado (compósito) tem características superiores às dos seus componentes. São empregados, usualmente, em graus diversos de associação, tanto na fabricação de 72 móveis, quanto na indústria da construção (como rodapés, pisos, portas, divisórias, elementos estruturais de casas, entre outros) e, de acordo com as suas características específicas, oferecem vantagens e desvantagens quando comparados com a madeira maciça. No Brasil, a indústria de painéis de madeira reconstituída utiliza em grande quantidade madeira oriunda de florestas plantadas que, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Painéis de Madeira – ABIPA (2008)8 apud Biazus, Hora e Leite (2010), responde por cerca de 500 mil hectares plantados de pinus e eucalipto. De acordo com a ABIPA (2012), o Brasil está entre os países mais avançados do mundo na fabricação de painéis de madeira reconstituída e é também o país com o maior número de fábricas de última geração. Com investimentos contínuos em tecnologia e automação, as empresas construíram versáteis e modernos parques industriais destinados à instalação de novas unidades, à atualização tecnológica das plantas já existentes, à implantação de linhas contínuas de produção e aos novos processos de impressão (hot stamping9), de impregnação, de revestimento e de pintura. Na outra vertente, afirmam Biazus, Hora e Leite (2010), os painéis de madeira processada mecanicamente são formados por camadas de lâminas ou sarrafos de madeira maciça e representados principalmente pelos compensados, cuja utilização segue a aplicação dos demais materiais, servindo tanto a indústria de moveis quanto a construção civil. No Brasil, essa indústria utiliza madeira no processo produtivo tanto de florestas plantadas (sobretudo de pinus e situadas na Região Sul) quanto de florestas nativas (principalmente na Região Norte). 4.2.1. Painéis de madeira maciça De acordo com Paim (2007), os painéis de madeira maciça são painéis de madeira de reflorestamento, constituindo um material sólido e estabilizado para a fabricação de móveis. As madeiras mais utilizadas na fabricação de painéis maciços 8 9 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE MADEIRA PROCESSADA MECANICAMENTE – ABIMCI. Estudo Setorial 2008: Indústria de Madeira Processada Mecanicamente. Curitiba, 2009. Hot stamping – processo de decoração com fita impressora, que, pressionada por clichê, transfere sua textura e os motivos para o substrato. É necessário o uso de máquina e de calor. (MATTOS; GONÇALVES; CHAGAS, 2008). 73 são: eucalipto, pinus e teca (Figura 43). Os painéis podem ser encontrados em dimensões diversas e podem ser fabricadas nas dimensões solicitadas pelo cliente, dependendo da quantidade desejada. A utilização destes painéis em móveis serve para a fabricação de móveis maciços, como tampos, laterais, gavetas e outras partes desejadas. O fluxo de produção do painel maciço se apresenta da seguinte forma: derrubada da árvore – descascamento – desdobro primário – desdobro secundário (tábuas e sarrafos) – secagem em estufa – acabamento – emenda com “finger-joint”10 – acabamento final. Figura 43 – Painel de madeira maciça em teca Fonte: tijotematelhados.com.br (2013) Os painéis de madeira maciça são produtos tecnologicamente desenvolvidos para serem utilizados na indústria moveleira e na construção civil porque apresentam características mecânicas que possibilitam o seu emprego em diversas funções tais como: fabricação de todo o tipo de mobiliário onde é empregado o uso de madeira maciça; fabricação de pisos e esquadrias de madeira para uso interno, entre outros. Por ser um painel com fabricação a partir de sarrafos, preferencialmente até 75 mm de largura, ele apresenta estabilidade 10 Finger-joint: emenda dentada, com boa resistência mecânica, facilita a retirada de defeitos da madeira, a aplicação de adesivo e a pressão de colagem, otimizando a produção dos elementos estruturais e apresentando resultados de resistência mais uniformes com relação a outras emendas. (MACÊDO, Alcebíades Negrão; CALIL JUNIOR, Carlito. Estudo de emendas dentadas em madeira laminada colada (MLC): avaliação de método de ensaio – NBR 7190/1997. Cadernos de engenharia de estruturas, n.7. São Carlos, SP: USP/ Escola de Engenharia de São Carlos, 1999). 74 quanto ao empenamento, desde que o seu processo de fabricação tenha sido executado dentro das normas e exigências para este tipo de painel e observadas as características físicas da madeira a ser utilizada (BERNARDI, 2003) Neste sentido, Paim (2007) complementa que a tendência natural ao empenamento é menor, pois a madeira é seca em estufa, serrada em ripas em torno de 5 a 7 cm de largura e depois emendadas na largura em uma prensa, com adesivo, pressão e calor. Além disso, esses tipos de painéis são mais estáveis do que a madeira maciça. Figura 44 – Móveis fabricados com painéis de madeira maciça em teca Fonte: moveismachado.com.br (2013) 4.2.2. Painéis compensados Segundo Iwakiri (2005), a produção e utilização de compensados, em escala industrial, data do início do século XX, nos Estados Unidos da América. Desde então, segundo Baldwin (1981)11 apud Iwakiri (2005), houve um grande processo de desenvolvimento que pode ser dividido em três períodos: • Período de 1905 a 1935: caracterizado pela fase de desenvolvimento de tecnologia básica, em termos de projetos e fabricação de equipamentos para linha de produção, difusão e ampliação de mercado desse novo produto; 11 BALDWIN, R.F. Plywood Manufacturing Pratices. San Francisco: Miller Freeman, 1981. 326p. 75 • Período de 1936 a 1965: fase de consolidação das indústrias de compensados como importante segmento da indústria madeireira, como o desenvolvimento de sistemas de prensagem mais avançados e produção de resinas sintéticas termo-endurecedores (fenol-formaldeído, ureia-formaldeído), para colagem a quente do painel; • Período de 1966 a 1982: fase de inovações tecnológicas, como automação industrial, aperfeiçoamentos em termos de materiais (resinas, extensores, catalisadores), e o desenvolvimento de secadores mais eficientes e prensas automáticas de múltipla abertura, contribuindo para aumentar a produtividade, melhorar a qualidade do produto e reduzir o custo de produção. Macedo e Roque (1997) ressaltam que o compensado é um produto obtido pela colagem de lâminas de madeira sobrepostas (Figura 45), com as fibras cruzadas perpendicularmente, o que propicia grande resistência física e mecânica. Figura 45 – Painel compensado Fonte: ebmmadeiras.com.br (2012) Segundo a Remade (2003), o compensado liderou por muitos anos o mercado de painéis no Brasil. Com instalação inicial no Sul do País, por volta dos anos 1940, a indústria deste setor apoiava-se nas florestas naturais de Araucária e só atingiu significativa produção na década de 1970. Iwakiri, (2005) explica que: A fabricação de compensados é baseada no princípio da laminação cruzada, na qual as lâminas são sobrepostas em número ímpar de camadas, com a direção da grã perpendicular entre as camadas 76 adjacentes. A restrição imposta, pela linha de cola, aos diferentes comportamentos físicos e mecânicos nas camadas individuais, confere ao painel um equilíbrio estrutural por meio da construção balanceada [...]. A madeira sólida, por ser um material heterogêneo e pela sua natureza anisotrópica, apresenta algumas limitações quanto à utilização, devido às diferentes alterações dimensionais e da resistência, nos sentidos, longitudinal e no transversal. Quando as lâminas são coladas, obedecendo ao principio da laminação cruzada, a restrição imposta pela linha de cola ao comportamento individual das lâminas, resulta em produtos com melhor estabilidade dimensional e melhor distribuição de resistência nos sentidos, longitudinal e transversal. O painel compensado tem múltiplas aplicações: construção civil, móveis (Figura 46), formas para concreto, embalagens, entre outros. Suas características mecânicas, grandes dimensões e variedade de tipos adaptáveis a cada uso, constituem os principais atributos para justificar a ampla utilização deste material (Figura 48). Figura 46 – Moveis de compensado, por Zanine Caldas, década de 1950 a) Chaise longue b) Mesa com revisteiro Fonte: saberdesign.com.br (2012) O compensado é produzido sob duas principais especificações: a) para uso interno (moisture resistent) com colagem à base de resina de ureia-formaldeído, sendo empregado basicamente na indústria moveleira; e b) para uso externo (boiling water proof) com colagem à base de resina de fenol-formaldeído, sendo normalmente utilizado na construção civil (MACEDO; ROQUE, 1997). Iwakiri (2005) elenca as principais vantagens decorrentes da fabricação do compensado em relação à madeira maciça, como: apresentar maior coeficiente de 77 resistência, distribuindo de forma mais uniforme em toda a extensão do painel; menor contração e maior estabilidade dimensional, em função da laminação cruzada; obter maior aproveitamento da tora pela laminação para os compensados do que pelo desdobro da tora em madeira serrada; possibilitar chapas com maiores dimensões (comprimento e largura). No Brasil, tradicionalmente conforme classificados, a ABIMCI conforme (2009a), sua “os fabricação, compensados em dois são tipos: multilaminados (plywood), formado por lâminas de madeira, e sarrafeados (blockboard), formado por lâminas de madeira e tapete sarrafeado”. Nos compensados multilaminados (Figura 47a), por meio da colagem, as lâminas são unidas e ajustadas em dimensões finais em função do comprimento e largura dos painéis. A lâminas juntadas são utilizadas normalmente para formação de miolo ou contracapa do compensado e as lâminas das capas são normalmente inteiras, quando provenientes do desenrolamento. Já os compensados sarrafeados (Figura 47b) podem ser definidos como um painel fabricado com o miolo constituído de sarrafos e revestidos com lâminas. São utilizadas duas lâminas, sendo a primeira em contato com os sarrafos disposta no sentido perpendicular que funciona como camada de transição e a segunda constituída de lâmina da capa de melhor qualidade, no sentido paralelo aos sarrafos que compõem o miolo. Este produto é uma alternativa para aproveitamento de resíduos de serrarias, principalmente aqueles constituídos de pequenas peças de madeira normalmente descartadas ou destinas a geração de energia (IWAKIRI, 2005). Figura 47 – Tipos de compensado a) Multilaminado Fonte: macopa.com.br (2012) b) Sarrafeado 78 De acordo Iwakiri (2005), os painéis compensados produzidos no Brasil podem ser classificados em: compensados de uso geral (GER), que são compensados multilaminados cujo adesivo usado na fabricação restringe ao uso interno; compensados para formas de concreto (FOR) que são compensados multilaminados com colagem a prova d’água admitindo uso externo, com larga utilização na construção civil; compensado decorativo (DEC) que são painéis que recebem em sua superfície lâminas de madeira faqueada, consideradas como decorativas, e a colagem deve ser do tipo intermediária, ou seja, pode ser utilizada em locais com alta umidade relativa e, eventualmente, entrar em contato com a água; compensado industrial, que são painéis com menor restrição em termos de aparência e o adesivo utilizado deve ser a prova d’água, com ampla utilização em embalagens; compensado naval (NAV), os quais são genericamente classificados para uso exterior, com colagem a prova d’água, com alta resistência mecânica, destinados a aplicações que exigem o contato direto com a água como a construção naval; compensado sarrafeado (SAR), formado por sarrafos e o adesivo utilizado na sua produção é do tipo inferior, restringindo sua aplicação basicamente à indústria moveleira; compensado resinado (R), cujos painéis recebem aplicação superficial de resina resistente a água; compensado plastificado (P), sendo painéis com aplicação de filme sintético na superfície. De um modo geral, a indústria moveleira utiliza o GER, o DEC e o SAR. Figura 48 – Objetos confeccionados com compensado e com compensado naval a) Violão b) Tabela de basquete Fonte: lightinthebox.com, muccashop.com.br (2012) 79 4.2.3. Painéis aglomerados Segundo Iwakiri (2005), os aglomerados (particleboard) surgiram na Alemanha, no início da década de 1940, como forma de viabilizar a utilização de resíduos de madeira para produção de painéis compensados, face à dificuldade de obtenção de madeiras de boa qualidade, devido ao isolamento da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Devido à redução de disponibilidade de matéria-prima para fabricação de resina, a produção foi paralisada em seguida, tendo em vista a prioridade de uso do petróleo para finalidade militar. Após a guerra, em 1946, o processo de desenvolvimento de painéis aglomerados foi retomado nos Estados Unidos, com aperfeiçoamento de equipamentos e processos produtivos. A partir da década de 60, houve grande expansão em termos de instalações industriais e avanços tecnológicos. A primeira indústria de chapas de madeira aglomerada no Brasil foi instalada em 1966, em Curitiba, Estado do Paraná. Desde então, surgiram inúmeras unidades industriais, nas regiões sul e sudeste do país, e a produção brasileira de aglomerados ultrapassou a marca de 1 milhão m³ ainda em 1998 (IWAKIRI et al., 2006). De acordo com Coli et al. (2007), os painéis de madeira aglomerada podem amenizar as variações dimensionais da madeira maciça, diminuir seu peso e custo e manter as propriedades isolantes, térmicas e acústicas. Esses painéis são estáveis, podendo ser cortados em qualquer direção, o que permite o seu melhor aproveitamento. Segundo esses autores, “dentre os produtos à base de madeira, as chapas de partículas vêm apresentando as maiores taxas de crescimento de produção, em função da variedade de produtos disponíveis e flexibilidade na aplicação para os mais variados fins”. O painel aglomerado é formado a partir da redução da madeira em partículas (Figura 49) que são impregnadas com resina sintética e arranjadas de maneira consistente e uniforme, formando um colchão. Esse colchão, pela ação controlada do calor, pressão e umidade, adquire a forma definitiva e estável denominada aglomerado. O painel aglomerado pode ser pintado ou revestido com vários materiais, destacando-se papéis impregnados com resinas melamínicas, papéis envernizáveis e lâminas ou folhas de madeira natural (MACEDO; ROQUE, 1997). 80 Figura 49 – Painel aglomerado Fonte: marcenariacasarao.blogspot.com (2012) Os componentes básicos utilizados na produção de aglomerados são a madeira, a resina (age como adesivo) e, em alguns casos, o catalizador. Outros materiais como emulsão de parafina, retardantes de fogo, produtos preservantes contra fungos e insetos, podem ser adicionados para melhorar algumas propriedades dos painéis para aplicações mais especificas. Para Iwakiri (2005) a espécie da madeira é um parâmetro importante no processo de produção de painéis aglomerados. Os parâmetros mais importantes relacionados à espécie são: densidade da madeira (baixa densidade para que a razão da compactação proporcione a densificação necessária para a formação do painel), acidez, extrativos e materiais estranhos (associados à madeira na forma de resíduos provenientes de operações anteriores à entrada na indústria). No entanto, Almeida, Logsdon e Jesus (2010) ressaltam que: É interessante salientar que, a respeito das partículas, não há restrições quanto ao uso de algum tipo de espécie, inclusive podem ser aproveitados resíduos industriais ou de exploração florestal, madeiras de baixa qualidade, não industrializáveis ou sem serventia, desde que sua geometria possa garantir uma boa densidade ao painel. Entretanto, para a fabricação no Brasil, as mais utilizadas são provenientes de florestas plantadas de Pinus e Eucalyptus, muitas vezes de plantio das próprias empresas que as estão fabricando. O princípio de fabricação dos painéis aglomerados faz com que o produto apresente algumas vantagens em relação aos painéis compensados e madeira serrada. Neste sentido, Iwakiri (2005) apresenta as seguintes vantagens: 81 • Eliminação de efeitos de anisotropia da madeira, ou seja, as alterações dimensionais e resistência mecânica nas direções longitudinal e transversal do painel são similares; • Eliminação dos fatores redutores de resistência da madeira como nós, inclinação da grã, lenhos juvenil e adulto, entre outros; • Possibilidades de adequações das propriedades físico-mecânicas dos painéis através do controle dos parâmetros de processo como resina, geometria de partículas, grau de densificação, entre outros; • Menores exigências em termos de matéria-prima como diâmetro, forma do fuste, defeitos, entre outros; • Menor custo de produção, relacionado principalmente a qualidade da madeira e mão de obra. Macedo e Roque (1997) afirmam que grande parte da demanda de painéis aglomerados está associada ao setor moveleiro, sendo o consumo restante dividido entre a fabricação de racks, caixas acústicas, gabinetes de televisão, divisórias e outros (Figura 50). Figura 50 – Objetos confeccionados em aglomerado a) Caixa acústica b) Tabela de basquete Fonte: magazineluiza.com.br, muccashop.com.br (2012) A madeira aglomerada destaca-se na fabricação de móveis em tampos de mesas, laterais de portas e de armários, divisórias, laterais de estantes (ROQUE; VALENÇA, 1999). 82 Figura 51 – Móveis fabricados em aglomerado a) Mesa de escritório b) Criado mudo Fonte: cliquearquitetura.com.br, area61.com.br (2012) 4.2.4. Painéis MDP – Medium Density Particleboard A partir da metade da década de 1990, as empresas brasileiras investiram em modernização tecnológica, passando do processo de prensagem cíclica para prensagem contínua, o que conferiu ao painel aglomerado melhor característica de resistência, e implementaram a modificação da nomenclatura para MDP (Medium Density Particleboard), ou Painel de Partículas de Média Densidade, numa tentativa de dissociar o novo produto do aglomerado tradicional. Na Figura 52, apresenta-se um comparativo entre as partículas desses painéis. Com a nova tecnologia de produção, o MDP apresenta características de melhor resistência ao arrancamento de parafusos, menor absorção de umidade e empenamento GONÇALVES; CHAGAS, 2008). Figura 52 – Característica das partículas - Aglomerado versus MDP a) Aglomerado b) MDP Fonte: Adaptado de pbprojetosplanejados.blogspot.com (2012) (MATTOS; 83 Segundo a Remade (2006b), o MDP foi lançado no primeiro semestre de 2006, primeiramente pela Berneck e na sequência pela Eucatex e pela Satipel. O produto é resultado do uso intensivo da tecnologia das prensas contínuas, modernos classificadores de partículas e softwares de controle de processo, aliados à utilização de resinas de boa qualidade e madeira de florestas replantadas. Representa uma evolução tecnológica do aglomerado convencional. Uma das suas principais características é a qualidade superior que apresenta em relação aos antigos painéis de madeira aglomerada. O MDP é produzido com a aglutinação de partículas de madeira com resinas especiais (Figura 53). É um painel de madeira reconstituída, com partículas posicionadas de forma diferenciada, com as maiores dispostas ao centro e as mais finas nas superfícies externas formando três camadas, que são aglutinadas e compactadas entre si com resina sintética através da ação conjunta de pressão e calor em prensa contínua, resultando em um painel homogêneo e de grande estabilidade dimensional. Figura 53 – Painel de MDP Fonte: moveiscasaverde.blogspot.com (2012) O adesivo é o componente de maior custo na produção desses painéis. A quantidade a ser aplicada deve ser otimizada em função das propriedades requeridas para a finalidade a que se destina, em função do conteúdo de sólido resinoso e com base no peso seco das partículas de madeira. Partículas menores que compõe as camadas externas do painel requerem quantidades maiores de 84 adesivo e, para partículas maiores da camada interna é aplicada quantidade menor de adesivo (IWAKIRI, 2005). Pertencente a uma nova geração de painéis de partículas de média densidade o MDP é produzido com madeiras de cultivos florestais sustentáveis de Pinus e Eucaliptus, tornando-se, com isso, um produto ecológico, pois possibilita a utilização das florestas plantadas que permitem o uso da madeira em larga escala, reduzindo a pressão sobre as florestas nativas (ABIPA, 2012). As opções de acabamento do MDP são: in natura, revestido ou pintado (ABIPA, 2012). Com propriedades mecânicas estáveis e aparência diferenciada do aglomerado convencional, o MDP apresenta bom desempenho nos processos de pintura, pois possui uma superfície muito fina, bastante fechada e homogênea e de alta densidade, o que causa menor inchamento das partículas da superfície do painel e, consequentemente, menor absorção de tinta. Possui também maior resistência ao arranque de parafuso, menor empenamento, menor absorção de umidade, além do importante diferencial de menor preço. Um móvel feito de MDP, totalmente ou em parte, será sempre mais econômico e mais competitivo no mercado (REMADE, 2006b). As principais características do MDP são: • Alta densidade das camadas superficiais, o que assegura um acabamento superior nos processos de impressão, pintura e revestimento; • Produção com o conceito de três camadas: colchão de partículas no miolo e camadas finas nas superfícies; • Homogeneidade e grande uniformidade das partículas das camadas externas e interna; • Propriedades mecânicas superiores: melhor resistência ao arrancamento de parafuso, menor absorção de umidade e empenamento; • Utilização de resinas especiais; • Utilização de madeiras selecionadas provenientes de florestas plantadas, econômica e ecologicamente sustentáveis (REMADE, 2006b). 85 Segundo a Remade (2006b) as principais aplicações do MDP são em portas retas; laterais de móveis; prateleiras; estantes; divisórias; tampos retos e tampos pós-formados; base superior e inferior; frente e laterais de gaveta. Biazus, Hora e Leite (2010) também compartilham a afirmativa e complementam que “o MDP é o painel mais consumido no mundo, sendo utilizado na fabricação de móveis retilíneos (Figura 54) e, de forma secundária, na construção civil”. Figura 54 – Mobiliários em MDP a) Estante com escrivaninha b) Painel para televisor Fonte: casasbahia.com (2013) Os painéis de MDP podem ser comercializados com revestimento aplicado em ambas as faces e apresentam-se em três diferentes tipos: baixa pressão (BP)12,1 Finish Foil (FF)132 e lâmina de madeira (LM)14 (BIAZUS; HORA; LEITE, 2010). 4.2.5. Painéis MDF – Medium Density Fiberboard Segundo Iwakiri (2005), os painéis designados comercialmente de MDF (Medium Density Fiberboard) ou Painel de Fibras de Média Densidade foram desenvolvidos em meados da década de 1960 e passaram a ser produzidos em 12 Consiste na fundição ao painel de uma folha de papel especial impregnada com resina melamínica pela ação de temperatura e pressão. 13 Consiste na colagem de uma película de papel ao painel. 14 Consiste em revestir o painel com uma lamina de madeira natural. 86 escala comercial no início dos anos de 1970. Na década de 1990, houve um grande crescimento na produção e consumo do produto em todo o mundo e novas unidades industriais foram instaladas em vários países. Macedo e Roque (1997) esclarecem que o produto surgiu do resultado de uma pesquisa que tinha por objetivo a substituição da chapa de fibra dura por um produto de melhor qualidade e com processo produtivo menos poluente. No entanto, ao final da pesquisa, constatou-se que o novo painel poderia ter maior espessura do que a inicialmente prevista, o que permitiu, na época do seu lançamento, que o MDF fosse também considerado um substituto do aglomerado. Dada a sua melhor qualidade e usinabilidade, o novo produto também teve ampla aceitação nos mercados usuários de compensado e madeira serrada. O MDF é um painel de madeira reconstituída, cujas fibras de madeira são aglutinadas e compactadas entre si com resina sintética através da ação conjunta de pressão e calor em prensa contínua. O MDF é um painel industrial homogêneo (Figura 55), com excelente estabilidade dimensional, de superfície uniforme, lisa e de média densidade e que pode ser facilmente torneado, entalhado e usinado (ABIPA, 2012). Figura 55 – Painel de MDF Fonte: Adaptado de domoveis.com.br (2012) O MDF possui consistência e algumas características mecânicas que o aproxima da madeira maciça e o difere do painel de madeira aglomerada, basicamente por apresentar parâmetros físicos e de resistência superiores, boa estabilidade dimensional e excelente capacidade de usinagem. Sua fabricação no 87 Brasil começou em 1997, ocorrendo, desde então, um expressivo crescimento de consumo, evidenciando a aceitação do produto pelo mercado e atraindo a instalação de mais fabricantes. No Brasil, a principal demanda desse painel é na indústria moveleira, constituindo-se a construção civil um mercado potencial, ainda não devidamente explorado (JUVENAL; MATTOS, 2002). A Figura 56 apresenta um comparativo entre as partículas dos painéis de MDP e MDF. Figura 56 – Característica das partículas. MDP versus MDF a) MDP b) MDF Fonte: Adaptado de pbprojetosplanejados.blogspot.com (2012) Por suas características, o MDF é amplamente utilizado na indústria moveleira para frontais em peças com usinagens e trabalho de baixo relevo, nos móveis de um modo geral (Figura 57) e também em artesanatos diversos. Na construção civil é utilizado para fabricação de pisos, rodapés, almofadas de portas, batentes, portas usinadas, peças torneadas como balaústres de escadas, pés de mesas e também em embalagens (ABIPA, 2012). Figura 57 – Mobiliários em MDF a) Armários de cozinha b) Conjunto com cama para quarto Fonte: artrequinte.com (2013) 88 As empresas fabricantes de MDF têm uma capacidade nominal instalada de 5,1 milhões de metros cúbicos ao ano. Esses painéis são produzidos com madeiras de cultivos florestais sustentáveis de Pinus e Eucaliptus, por isso é um produto ecologicamente correto. As florestas plantadas permitem o uso da madeira em larga escala, reduzindo a pressão sobre as florestas nativas (ABIPA, 2012). 4.2.6. Painéis OSB – Oriented Strand Board Segundo Iwakiri (2005), o OSB (Oriented Strand Board) ou Painel de Partículas Longas e Orientadas é um painel estrutural de partículas orientadas que foi desenvolvido nos Estados Unidos na década de 1970. A partir dos anos de 1980, houve um crescimento significativo das indústrias nos Estados Unidos, Canadá e nos países da Europa. O OSB, conforme Mattos, Gonçalves e Chagas (2008), começou a ser fabricado no Brasil em 2001, e, embora também seja empregado em móveis, é largamente usado em painéis decorativos, em embalagens e na construção civil. De acordo com Nascimento et al. (2011) o OSB tem sua origem nas chapas de waferboard 15 . O OSB é um painel de partículas longas de madeira orientadas, coladas com resina à prova d’água e prensadas a quente, sendo que as partículas da camada interna podem estar dispostas aleatoriamente ou perpendicularmente em relação às camadas externas. Desenvolvido para aplicações estruturais, foi considerado como uma segunda geração dos painéis waferboard. Iwakiri, Albuquerque e Mendes (2003) acrescentam afirmando que as principais diferenças entre os dois produtos, waferboard e OSB, consistem, primeiramente, na dimensão dos wafers e strands, que são mais curtos nos wafers, em torno de 40x40 mm, e mais alongados no OSB, 25 mm de largura por 80 a 150 mm de comprimento. Em segundo lugar, diferenciam-se, entre si, na maneira na qual o colchão é formado. Nas chapas waferboard, as partículas são distribuídas aleatoriamente durante o processo de formação do colchão, numa camada homogênea, enquanto que na formação do colchão em chapas OSB (Figura 58), 15 Painel de uso estrutural, produzido com partículas maiores de formatos quadrado ou ligeiramente retangular, encoladas com resina fenol-formaldeído, com distribuição aleatória das partículas e consolidado através de prensagem a quente. (IWAKIRI, 2005) 89 este é formado por algumas camadas de partículas strands, nas quais, nas camadas internas, o alinhamento é perpendicular à direção da formação do colchão, enquanto que nas camadas externas, o alinhamento é paralelo à direção de formação. Figura 58 – Painel OSB Fonte: lpcorp.com (2012) As chapas de OSB recebem mais de uma definição. A indústria Europeia de Painéis à Base de Madeira – European Wood-Based Panels Industry – define OSB como “um tipo de derivado de madeira de concepção técnica avançada, constituído de partículas longas, largas e finas, unidas por resina sintética (resina fenólica, ureia formol e melamina) e prensadas a quente”. Já a EN 300 (Norma Europeia) – versão portuguesa de 2002 – afirma que OSB trata-se de “aglomerado de partículas de madeira longas e orientadas” e o caracteriza por: Placa composta de várias camadas constituídas por partículas longas de madeira, de determinado formato e espessura, aglutinadas por uma mistura colante. As partículas das camadas exteriores encontram-se alinhadas e dispostas paralelamente ao comprimento ou à largura da placa. As lamelas das camadas interiores podem encontrar-se orientadas aleatoriamente ou alinhadas, geralmente, na direção perpendicular à das partículas de madeira longas das camadas exteriores (NASCIMENTO et al., 2011). Os painéis OSB têm ocupado espaço em muitas aplicações, antes exclusivas dos compensados, em virtude de fatores como redução de disponibilidade de toras de boa qualidade para laminação, pois o OSB pode ser produzido a partir de toras 90 de qualidade inferior e de espécies de baixo valor comercial. Nesse aspecto, Iwakiri (2005) salienta que “o comprimento dos painéis é definido em função da tecnologia de produção e não em função do comprimento das toras, como no caso dos compensados”. Nesse sentido, Nascimento et al. (2011) acrescentam que “na fabricação de OSB a utilização das espécies é muito eficaz. São utilizadas árvores de rápido desenvolvimento, de diâmetro menor e/ou mais jovens. São aproveitados de 85% a 90% da tora, sejam elas de reflorestamento ou manejo”. Segundo Albuquerque e Mendes (2012), os painéis OSB possuem um baixo custo e as suas propriedades mecânicas e físicas se assemelham às da madeira sólida, tendo em vista suas características de resistência mecânica e boa estabilidade dimensional, competindo diretamente com o mercado de compensados. Deve-se levar em consideração o fato de que, chapas OSB, se expandem quando são expostos diretamente à chuva forte, ou alta umidade relativa por longos períodos. Por conseguinte, o uso se limitaria a construções protegidas e interiores. Mas o OSB é principalmente usado como forro, parede e base para pisos. No que se refere aos móveis (Figura 59), atualmente, os usos são armações para mobília, assento e encosto de cadeira, tampos de mesa industriais, painéis de paredes decorativas, base para tampo de escrivaninha, prateleiras e estantes. Figura 59 – Design de móveis com fabricação em OSB a) Poltrona OSB (Brasch Arquitetura) b) Escrivaninha Fonte: sarquitetos.com e designinnova.blogspot.com (2012) Segundo a Remade (2006a), no segmento de mobiliário, o OSB também pode ser usado em estofados, poltronas, assentos de cadeiras revestidos e elementos construídos integrados ao móvel. 91 4.2.7. Painéis de chapa dura As chapas duras ou de fibra são produzidas há bastante tempo no Brasil. Começou em 1954, com as fábricas da Duratex, em Jundiaí (SP), e da Eucatex, em Salto (SP). Houve dificuldades iniciais de aceitação do produto nacional, devido ao fato de ter sido o primeiro tipo de painel de madeira reconstituída a ser fabricado no país. No entanto, essas dificuldades foram superadas e os aumentos de capacidade de produção ocorreram até 1982 (MATTOS; GONÇALVES; CHAGAS, 2008). As chapas duras de fibra de madeira (hardboard) são produzidas com fibras de madeira aglutinadas pelo processo de alta temperatura, tempo e pressão. Não recebem resina sintética, pois são prensadas a quente pelo processo úmido que reativa os aglutinantes naturais da própria madeira, a lignina. O resultado é uma chapa plana de alta densidade que pode ter várias opções de revestimentos e acabamentos (Figura 60). Os fabricantes do segmento de chapa de fibra têm uma capacidade nominal instalada de 440 mil metros cúbicos ao ano. A madeira de Eucaliptus reflorestada e certificada é utilizada na produção destas chapas (ABIPA, 2012). Figura 60 – Painéis de chapa dura Fonte: placacentropossamai.com.br (2012) Conforme a ABIMCI (2009a) a norma brasileira classifica as chapas em normal, tratada, temperada, com uma face lisa ou com duas faces lisas. A chapa normal é “derivada de fibras de madeira com massa específica aparente excedendo a 800 kg/m³”. A chapa tratada é “derivada de fibras de madeira, tratada com 92 substâncias secantes ou endurecedoras antes da prensagem, normalmente com massa específica aparente excedendo a 800 kg/m³”. A chapa temperada é “derivada de fibras de madeira, tratada com substâncias secantes ou endurecedoras durante ou após a fabricação para melhorar a resistência mecânica, à água e a qualidade superficial”. A chapa com uma face lisa (S1S) é fabricada por meio da “prensagem das fibras na forma de um colchão úmido entre uma chapa de aço lisa e uma tela de arame”. Já a classificada como duas faces lisas (S2S) também passa por prensagem das fibras na forma de um colchão, porém seco e entre duas chapas de aço lisas. A chapa dura é um painel cujas características principais são a alta densidade e a resistência físico-química, que proporcionam acabamentos de alto padrão. Ela é um tipo de painel dos mais versáteis, sendo indicada para a fabricação de móveis residenciais (Figura 61) e para escritórios, fundos de armários e gavetas, para a paletização de produtos de diversas indústrias, em painéis de divisórias e nas indústrias automobilística, de embalagem, de brinquedo, de imagem e som, em hortifrutigranjeiros e na construção civil, podendo ser trabalhada de diversas formas: estampadas, curvadas, moldadas, usinadas, cisalhadas e pintadas (ABIPA, 2012). Figura 61 – Design de móveis com fabricação em chapa dura a) Armário b) Painel suporte para objetos Fonte: home-boxer.blogspot.com.br (2012) 93 As opções de acabamento são: in natura (sem revestimento), na qual a chapa é entregue em sua cor natural, podendo receber diversas operações de beneficiamento; pintada (brilho ou semifosco), o produto já pintado com cores sólidas, amadeiradas ou fantasia, tendo como resultado final pintura em alto-brilho ou semifosca; ou revestida com laminado de baixa pressão (BP) por meio de temperatura, tempo e pressão, quando uma lâmina celulósica impregnada com resina é fundida à chapa dura, resultando em um painel pronto para uso. Os painéis podem ser apresentados lisos ou com texturas (ABIPA, 2012). 94 5. ACABAMENTOS E REVESTIMENTOS “As verdades diferentes na aparência são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore.” Mahatma Gandhi Atualmente, o mercado de revestimento para madeira e derivados de madeira possui um número variado de opções. A escolha desses revestimentos depende diretamente do efeito procurado, do custo e de outros fatores, cuja descrição não é objetivo deste trabalho. Os revestimentos podem ser divididos, basicamente, em revestimentos naturais, revestimentos sintéticos e pintura, os quais serão descritos abaixo. 5.1. REVESTIMENTOS NATURAIS No revestimento de painéis aglomerados, MDF e compensados podem ser utilizadas lâminas de madeira natural, lâminas de rádica natural ou lâminas précompostas de madeira (PAIM, 2007). 5.1.1. Lâminas de madeira natural Segundo Dal Piva (2007), antigamente as lâminas de madeira eram cortadas com serras mecânicas e usadas como alternativa para revestimento de superfícies imitando a própria madeira. Mas, além de se perder o equivalente a espessura da serra, as lâminas obtidas tinham espessura superior a 2 cm, resultando em um baixo índice de aproveitamento, tornando, assim, o processo lento e de custo elevado. Com os novos avanços do desenvolvimento tecnológico na área da mecânica e eletroeletrônica, aliado a um melhor conhecimento das essências disponíveis, hoje é possível obter lâminas decorativas de madeira natural de 0,63 mm a 0,7 mm de espessura (DAL PIVA, 2007). 95 Boch (2007) afirma que esse tipo de revestimento pode ser obtido a partir do corte de lâminas de árvores nativas ou reflorestadas, atribuindo ao móvel um aspecto de madeira maciça. Essas lâminas podem ser obtidas por dois processos: o torneamento (Figura 62a), e o faqueamento (Figura 62b). Figura 62 – Processos de laminação da madeira a) Torneamento b) Faqueamento Fonte: Dal Piva (2007) Dal Piva (2007) explica que “as lâminas torneadas são lâminas utilizadas na fabricação de compensados e têm espessura entre 1 a 3 mm” e são obtidas: por desenrolamento contínuo das toras, isto é, a tora ainda cilíndrica é colocada entre as ponteiras de uma máquina semelhante a um torno e encosta-se nela uma faca comprimida em posição tangencial. Faz-se a tora girar de encontro à navalha de corte e a lâmina contínua é retirada semelhante ao desenrolar de uma bobina de papel (DAL PIVA, 2007). As lâminas faqueadas são utilizadas para revestimentos de superfícies de madeira como compensados, aglomerados ou MDF ou até paredes (PAIM, 2007). Neste caso a tora é dividida em setores especiais tendo como objetivo a obtenção dos desenhos mais agradáveis. Seu avanço é automático e ajustável, permitindo obter lâminas de diferentes espessuras, a qual também é determinada pela natureza da madeira. Desse modo, conseguem-se lâminas finas de madeira como figueira 96 e lâminas mais grossas com madeiras como a sucupira e o ipê (DAL PIVA, 2007). O marceneiro pode encontrar opções de lâminas de madeira tingidas, o que significa ter a lâmina na cor desejada, com seus desenhos naturais preservados (Figura 63). As medidas das lâminas variam de acordo com a madeira escolhida: a largura fica entre 20 e 70 cm e o comprimento a partir de 2,6 m. Podem-se criar lâminas mais largas com um processo de emenda de duas peças (PAIM, 2007). Figura 63 – Lâmina de madeira obtida através do faqueamento da madeira Fonte: fortemadeiras.com.br (2013) Dal Piva (2007) afirma que todas as lâminas de madeira, faqueadas ou torneadas, apresentam uma face mais lisa, que é mais agradável ao tato e deve receber o acabamento, e outra mais áspera, que deve estar voltada para a área de colagem. As vantagens do uso da lâmina natural são os desenhos e a textura natural de cada espécie vegetal, com suas nuances que só a natureza oferece (PAIM, 2007; DAL PIVA, 2007). 5.1.2. Lâminas pré-compostas de madeira Uma boa opção para a marcenaria é a lâmina pré-composta, que utiliza madeira reflorestada. Seu processo de fabricação é diferente, pois a matéria-prima é 97 fatiada em lâminas finas, que são prensadas e cortadas por meio de faqueamento de blocos. Esses blocos são formados por centenas de lâminas tingidas (DAL PIVA, 2006, 2007). Paim (2007) explica o processo de fabricação afirmando: A colagem das lâminas forma blocos de várias dimensões e tonalidades de cores com desenhos variados, que podem imitar madeiras nobres e rádicas (padrão cujo termo parte de “raiz da árvore”). Os blocos são formados por um conjunto de folhas de lâminas previamente preparadas e prensadas com resinas especiais. Depois, as folhas são estabilizadas por tempo suficiente para garantir sua resistência. Após, são faqueadas em uma máquina (que pega o bloco e fatia em lâminas) (PAIM, 2007). As vantagens das lâminas pré-compostas de madeira são devido ao fato de serem uniformes quanto a sua tonalidade de cor, desenho das fibras e dimensões (Figura 64), facilitando o aproveitamento na montagem e colagem das chapas. Esse material também pode facilitar o complemento de um projeto do cliente em diferentes períodos de tempo, pelo fato das lâminas serem produtos padronizados (PAIM, 2007). Figura 64 – Lâminas naturais tingidas imitando o desenho da madeira com perfeição Fonte: vieiralaminas.com.br (2013) 98 Paim (2007) afirma que “as lâminas pré-compostas podem ser utilizadas para revestir e decorar chapas de compensado, MDF, aglomerado e chapas duras de fibra”. 5.1.3. Lâminas de rádica natural De acordo com Dal Piva (2007), as lâminas rádicas são obtidas na parte da árvore denominada “nó vital” e que está compreendida entre o tronco e a raiz (Figura65). Quanto à fabricação, assevera: A Fabricação da rádica é praticamente igual à lâmina reta, só que o seu corte pode ser feito em galhos, forquilhas, raízes e tronco atravessado. Não existem rádicas naturais com mais de 18 cm de largura e 1,20 m de comprimento, somente as de tronco que podem chegar até 90 cm de diâmetro. A madeira é extremamente selecionada, cozida em caldeiras específicas, fatiada em guilhotina e seca em estufas que aquecem e vaporizam simultaneamente. Este processo é demorado e cuidadoso, pois a perda é de 40% na fabricação sem contar as perdas no transporte até chegar ao uso final (DAL PIVA, 2006). Figura 65 – Lâminas rádicas de diferentes espécies de madeira Fonte: vieiralaminas.com.br (2013) 99 O processo cria um desenho chamado linheiro, que possui traços paralelos. Quando esse bloco é novamente prensado e cortado em outro ângulo, o traçado se modifica e surge assim a lâmina catedral. O processo pode ainda ser repetido várias vezes, o que possibilita uma variação de padrões praticamente infinita (DAL PIVA, 2006). 5.2. REVESTIMENTOS SINTÉTICOS Dal Piva (2007) esclarece que “de modo geral, os materiais plásticos utilizados no ramo da madeira são tipos de revestimentos que consistem numa chapa ou lâmina sintética de textura lisa ou rugosa”. A partir da revolução provocada pelo desenvolvimento de painéis reconstituídos, surgiram no mercado muitos revestimentos de origem sintética, diversificando a utilização desses painéis, tanto no âmbito da construção como no design de móveis e decoração de interiores em geral. O grupo de revestimentos sintéticos, de superfície de material não-orgânico, são representados por plásticos, resultantes de um processo de alta tecnologia, dispondo de uma grande variedade de desenhos e aplicações (DAL PIVA, 2006, 2007). Os laminados, ou lâminas sintéticas, são encontrados no mercado em vários tipos e são produzidos a partir da impregnação de materiais celulósicos com resina termoestável, formando um conjunto prensado por meio de calor e alta pressão. Esses revestimentos podem ser incorporados às chapas na própria usina, ou depois, na fase de transformação (PAIM, 2007). Atualmente, fabricam-se laminados plásticos de uma grande variedade de acabamentos, que podem ser brilhantes, simulando metais diversos, versões que reproduzem texturas de madeiras, laminados que simulam o aspecto do granito, e, inclusive, laminados de fantasia, com rugosidades e irregularidades muito singulares e de belos efeitos. Naturalmente, também é possível encontrar este material com uma ampla variedade de cores, tanto de cores básicas como de tonalidade derivadas (DAL PIVA, 2006, 2007). 100 Figura 66 – Porta tipo almofadada revestida com laminado plástico Fonte: SENAI. RS. CETEMO apud Dal Piva (2006) Uma característica do laminado plástico é a sua capacidade postforming16, ou seja, a aptidão que este material tem de se adaptar a todo o tipo de formas e de perfis, propriedade que representou uma certa revolução no setor do mobiliário, ao possibilitar a obtenção de cantos curvos revestidos (DAL PIVA, 2006, 2007). Os revestimentos sintéticos são representados pelos revestimentos FF (Finish Foil), laminados de baixa pressão (BP), laminados de alta pressão (AP) e laminados de polímero. 5.2.1. Revestimento FF (Finish Foil) O revestimento FF, apresentado na Figura 67, é constituído de uma película celulósica do tipo finish foil (folha de acabamento). Esse tipo de revestimento é colado a superfície de um substrato, como aglomerado ou MDF, sob ação conjunta de resina, calor e pressão, aderindo fortemente a ele. Os tipos de papéis mais utilizados são o de 60 g/m² e o de 30 g/m², sobre os quais são aplicadas as tintas para produzir o padrão de cor desejado, reproduzindo o efeito madeirado, fantasia ou simplesmente padrões unicolores (PAIM, 2007). 16 “Pós-formar-se”. Possui propriedade de poder ser curvado quando aquecido em equipamento especifico. (DAL PIVA, 2007; PAIM, 2007). 101 Figura 67 – Revestimento Finish Foil Fonte: en.pfleiderer.pl (2013) O revestimento FF (finish foil) é produzido por meio da pintura de bobinas de papel com tintas apropriadas, pelo sistema de pintura em rotogravura ou flexogravura. Em seguida, o papel pintado recebe um acabamento intermediário (FF reenvernizável), que é colado ao painel por meio de resina, calor e pressão ou recebe acabamento final, nesse caso os mais comuns são os acabamentos acrílico-melamínico. Como o conjunto é submetido a uma temperatura de prensagem de 120 - 150 graus, gerando imperfeições da superfície da chapa de madeira nas quais o papel é colado, os acabamentos brilhantes em FF ficam prejudicados e não alcançam o brilho superior a 70 UB (unidade de brilho). Portanto, quando se deseja um acabamento com alto brilho em FF, por exemplo, maior que 90 UB, é necessária a aplicação de um verniz de acabamento após a prensagem do papel na chapa de madeira. Nesses casos utilizam-se as chapas de FF reenvernizáveis, pois essas permitem a adesão do acabamento final, na qual geralmente são aplicados os vernizes com cura Ultra Violeta (DAL PIVA, 2007). A superfície do revestimento FF é pouco resistente à abrasão e mais suscetível a riscos, sendo recomendado apenas para ambientes internos e secos, em superfícies verticais. Sua aplicação é mais comum em móveis de sala de estar e dormitórios (BOCH, 2007; DAL PIVA, 2006). 102 Figura 68 – Painéis de madeira revestidos com FF Fonte: Catálogo Eucatex (2013) 5.2.2. Laminado de baixa pressão (BP) Os laminados de baixa pressão (BP) são papéis cuja destinação é a fabricação de laminados plásticos, constituindo uma camada decorativa fundida a superfície de uma chapa de MDP ou MDF (PAIM, 2007). O BP consiste em um papel impregnado com resina melamínica, que, por efeito de prensagem a quente, une-se ao painel de madeira reconstituída (Figura 69). O BP tem boa resistência à abrasão, e alta resistência a manchas. Sua aplicação se destina a confecção de móveis para cozinhas, dormitórios, escritórios, banheiros, divisórias, entre outros. Recomendado para a utilização em superfícies verticais e horizontais (BOCH, 2007; DAL PIVA, 2006). Figura 69 – Esquema de composição do laminado de baixa pressão (BP) Fonte: formica.com.br (2013) 103 Figura 70 – Painéis de madeira revestidos com laminado de baixa pressão (BP) a) Mostruário em MDF b) Chapas em MDF Fonte: Catálogo Berneck (2012); 5.2.3. Laminado de alta pressão (AP) O laminado de alta pressão (AP) é uma cobertura laminar, de acabamento e de decoração, fabricado com folhas impregnadas de resinas fenólicas, cuja constituição é composta de três capas: o suporte ou base, cuja grossura depende da quantidade de folhas de papel tipo kraft; a capa intermediária, que dá a cor e a textura; e a capa superficial, que protege a anterior mediante uma folha impregnada de uma resina transparente de grande dureza. O esquema de composição desse revestimento é apresentado na Figura 71. Todo este conjunto submete-se a uma grande pressão por meio de prensagem a uma temperatura de 200°C, para que se produza o endurecimento ou polimerização total, transformando o conjunto num bloco homogêneo (DAL PIVA, 2006, 2007). Mais conhecido como Fórmica, o AP consiste em camadas de papel, sendo sua camada da superfície decorativa, apresentando diversos padrões. É um produto impermeável, possui resistência superior a impactos e apresenta maior durabilidade. Este material pode ser usado como aplicação em revestimentos verticais e horizontais, sendo mais utilizado em móveis de banheiro, cozinha, e tampos em geral (BOCH, 2007; DAL PIVA, 2006). 104 Figura 71 – Esquema de composição do laminado de alta pressão (AP) Fonte: formica.com.br (2013) Neste sentido, Paim (2007) complementa afirmando que os laminados de alta pressão são papéis destinados a fabricação de laminados plásticos de alta pressão. Obtido por prensagem a quente sob pressão, normalmente entre 7 a 8 MPa, daí a denominação de laminado de alta pressão. Sua composição baseia-se na impregnação de materiais celulósicos com resinas termoestáveis, formando um conjunto que será prensado por meio de calor e de alta pressão. Possui grande resistência ao desgaste, ao calor, ao impacto e às manchas. Sua superfície aparente pode apresentar grande variedade em termos de padrões de desenho, cores e textura (Figura 72). Figura 72 – Amostras de laminado de alta pressão (AP) amadeirados e em cores Fonte: Catálogo Fórmica (2013) 105 5.2.4. Laminado de Polímero O laminado de polímero é um laminado fabricado com materiais plásticos como o PVC (policloreto de vinila) e o PET (polietileno tereftalato). São painéis decorativos que possuem características ideais para aplicação em altos e baixos relevos, através de processo de termoformagem em prensas de membrana. Permitem uma boa proteção contra umidade e gorduras e baixa resistência à abrasão (DAL PIVA, 2006; BOCH, 2007). Figura 73 – Revestimentos em laminado de polímeros a) PVC b) PET Fonte: SENAI-RS, CETEMO (2006) apud Dal Piva (2007) O policloreto de vinila (PVC) é um material sintético, um tipo de plástico especial, que se apresenta na forma de filmes enrolados com espessuras que variam em função da finalidade e aplicação (PAIM, 2007). O PVC é aplicado sobre um substrato (chapa), aglomerado ou MDF, com usinagens previamente definidas, dando o perfil desejado das bordas ou detalhando molduras ou almofadas nas faces das peças. Esse revestimento é colado sobre a peça, com adesivos vinílicos ou de contato, em uma prensa de membrana. É colado na peça (fundido) em uma única operação, revelando com detalhes as usinagens executadas nas bordas ou faces, apresentando um painel “almofadado”. No caso de painéis revestidos com PVC, o usuário poderá encontra-lo na forma final de portas ou frentes de gavetas. Esses painéis são produzidos por empresas especializadas e podem 106 ser encontrados em revendas e algumas lojas especializadas em componentes para móveis (PAIM, 2007). Figura 74 – Revestimentos em PVC para acabamento – fita de borda a) Amostras b) Rolos Fonte: Catálogo IBRAP Laminados (2013); formaq.com.br (2013) O polietileno tereftalato, ou PET, é um poliéster, polímero termoplástico ou plástico. Assim como o PVC, o PET é utilizado principalmente para o revestimento de peças do mobiliário, como portas de armários e frentes de gavetas, podendo possuir usinagens do tipo almofadas. É fornecido na forma de filme plano, em rolos com espessuras e cores variadas (Figura 75), de acordo com a aplicação. Também estão disponíveis no mercado fitas de bordas em rolo (PAIM, 2007). Figura 75 – Revestimentos em PET para acabamento a) Amostras b) Filmes planos - rolos 107 5.3. PINTURA A madeira natural sofre alterações de cor e textura ao ficar em contato direto com o ar, a luz, o calor e a umidade. Os móveis em madeira, mesmo estando ao abrigo das intempéries, precisam de aplicação de produtos de acabamento, naturais ou sintéticos, para sua proteção (BLUMM; BERTARELLO, 2006). A pintura tem a função de proteger e preservar o material, além de conferirlhe embelezamento. O processo consiste na aplicação de camadas finas na superfície da peça, denominadas de demãos. A fragilidade da camada de tinta é definida pelo tipo de resina que for aplicado. O revestimento deve formar uma película perfeitamente aderida ao substrato, conferindo a mesma resistência a fatores químicos e físicos do ambiente onde será utilizado. A indústria moveleira utiliza diversos tipos de materiais para recobrir superfícies, sendo estes aplicados por meio de jato, impressão, imersão, cortina, dentre outros (BOCH, 2007). Os processos de pintura mais utilizados são: tingimentos – dar a tonalidade requerida às lâminas e madeiras; aplicação de seladores – forma a base necessária à aplicação do verniz; envernizamento – protege o móvel de riscos e umidade e confere brilho e sedosidade ao móvel; aplicação de fundos – forma a base necessária à aplicação de tintas ou laca; laqueação – efeito decorativo que apresenta um aspecto esmaltado em diversas cores (Figura 76a); goffrato – laca com textura, também conhecida como fórmica líquida, é um esmalte poliuretânico texturizado de aspecto final fosco (AVEIRO, 2009). Blumm e Bertarello (2006) afirmam ainda que a pintura nos móveis de madeira servem para fechar os poros e cobrir a superfície de madeira com uma camada protetora, impedindo ou minimizando o contato com o ar e a umidade, presentes no ambiente. Todas as etapas de preparação – lixamento, tingimento, emassamento, aplicação de produtos e polimento seguem a mesma rotina, independentemente da linha de produto com a qual se esteja trabalhando. Porém, existem alternativas de diferentes materiais para a mesma finalidade, o que faz com que possa ser reduzido o tempo e a quantidade de produto a ser aplicado, além de melhorar consideravelmente a qualidade final. Os principais efeitos de pintura utilizados são: decapê – marca os poros da madeira, normalmente em tonalidade clara; pátina – confere ao móvel um aspecto envelhecido, estriado numa única cor ou mesclado (Figura 76b); alvejado – confere 108 ao móvel uma tonalidade clara, embranquecida e homogênea; pergaminho – confere ao móvel um aspecto de pergaminho; ebanizado – confere ao móvel a tonalidade preta (AVEIRO, 2009). Figura 76 – Móveis de madeira com efeitos de pintura a) Móvel laqueado b) Móvel com pátina Fonte: casosdecasa.com.br (2013) 109 6. SISTEMAS DE FIXAÇÃO E MONTAGEM “Grandes coisas não se fazem por impulso, mas pela junção de uma série de pequenas coisas.” Vincent Van Gogh 6.1. ENCAIXES E EMENDAS, OU JUNÇÕES De acordo com SENAI-RS (1994), os encaixes são a união de duas ou mais peças, formando montagens, e a emenda, ou junção, é o ponto onde duas ou mais peças se unem. Como a tendência é a produção de móveis totalmente desmontados, utiliza-se junções com o próprio material através de espigas, ranhuras, malhetes, ou o emprego de acessórios que são encontrados no mercado, como: trapézio, parafusos, buchas, uniões invisíveis, entre outros (SENAI-RS, 1995). Os tipos mais comuns de emendas são as de topo (butt joints), as emendas biseladas (scarf joints) e as emendas dentadas (finger joints). A Figura 77 apresenta alguns tipos de emendas. Figura 77 – Tipos de emendas A= Emenda de topo; B= Emenda biselada; C= Emenda dentada vertical; D= Emenda dentada horizontal; E= Emenda dentada não estrutural. Fonte: Adaptado de Forest Products Laboratory (2010) As emendas de topo são as mais simples emendas longitudinais e, apesar de não desperdiçarem madeira, não apresentam resistência mecânica considerável, não sendo assim recomendáveis. As emendas biseladas surgiram como uma boa alternativa para suprir as limitações de resistência das emendas de topo, sendo consideradas as mais resistentes emendas longitudinais. Contudo, do ponto de vista 110 de produção, este tipo de emenda é muito dispendioso, uma vez que, para atingir uma boa proporção da resistência da madeira maciça, é necessário que o corte apresente uma baixa inclinação, conferindo um consumo excessivo de madeira e adesivo (MACÊDO; CALIL JUNIOR, 1999). Com isso, os pesquisadores buscaram uma nova modalidade de emenda longitudinal e as emendas dentadas surgiram como uma alternativa promissora para substituir as emendas biseladas. A explicação para a grande aceitação das emendas dentadas justifica-se pela sua adaptação ao processo industrial, além de sua boa resistência mecânica, resistência mais uniforme e intermediária entre a emenda de topo e a emenda biselada, e, mesmo necessitando de equipamentos específicos para sua produção, facilita a retirada de defeitos da madeira, a aplicação de adesivo e a pressão de colagem (MACÊDO; CALIL JUNIOR, 1999). Na confecção de móveis são utilizados os mais variados tipos de encaixes. A resistência do móvel depende muito das proporções empregadas nos encaixes das peças, havendo sempre uma relação direta entre a largura e a espessura das madeiras. Em geral, nos montantes das peças não devem aparecer. Nesse caso, utilizam-se as espigas com talão que, além de oferecerem maior resistência à união das peças, apresentam também melhor acabamento (SENAI-SP, 2005). Nas estruturas de móveis de madeira maciça são utilizados encaixes de meia madeira, rebaixo, ranhura, cavilhas, malhete reto e espigas (SENAI-RS, 1995). Alguns desses tipos de encaixes podem ser vistos na Figura 78 e 79. Figura 78 – Tipos de encaixes (1) A= Simples; B= Meia-esquadria; C= Cavilha; D= Pino e encaixe; E= Lingueta e rebaixo; F= malhete reto – trava de canto; G= encaixe; H= bloqueio canto; I= ranhura. Fonte: Adaptado de Forest Products Laboratory (2010) 111 Figura 79 – Tipos de encaixes (2) J= L em meia madeira; K= cruzeta em meia madeira; L= T em meia madeira; M= rasgo e espiga simples; N= rasgo e espiga dupla; O= furo e espiga dupla com rebaixo; P= espiga e talão com reforço; Q= espiga engastada; R= espiga e talão chanfrado; S= meia esquadria com espiga postiça; T= malhete de pestana. Fonte: Adaptado de SENAI-SP (2005) Assim, como o uso de móveis de madeira maciça é decrescente, por motivos já citados, esses tipos de encaixe estão também em desuso. 6.2. ACESSÓRIOS PARA FIXAÇÃO E COMPOSIÇÃO FINAL DE MÓVEIS O sistema de união das peças para formação do móvel, atualmente utilizado, baseia-se totalmente na utilização de elementos acessórios aos painéis de madeira, dos quais recebem furações para a fixação desses elementos, e é praticamente de caráter universal. Este sistema, que teve início quase que obrigatoriamente para tornar viável a utilização do aglomerado, veio a substituir todos os demais sistemas de união utilizados, os quais demandavam operações diversas e complexas, como malhetes, encavilhamentos, colagens, e outros. Além disso, o sistema de acessórios 112 possibilitou a montagem, desmontagem e remontagem do móvel, dando-lhe um caráter muito maior de mobilidade, além de permitir que a sua montagem seja feita diretamente no local de instalação, devido a simplificação de operações (FRANCO, 2010). Neste sentido, Boch (2007) complementa que a desmontabilidade vem sendo cada vez mais fator primordial para compra e venda de móveis, pois garante vantagens como o transporte facilitado, agilidade de produção, padronização de peças, redução de espaços na fábrica e em depósitos, e, consequentemente, preços mais acessíveis. A Figura 80 mostra alguns tipos de união entre peças. Figura 80 – Sistemas de união entre peças a b c d e f g h a. Sistema de união de chapas para camas; b. Sistema de junção perpendicular embutido tipo “girofix”; c. Sistema de junção perpendicular aparente; d. Sistema de união por parafuso passante; e. Sistema de fixação de corrediças metálicas para gavetas; f. Sistema de fixação de dobradiças de pressão. Fonte: Adaptado de Franco (2010) e Catálogo eletrônico Hettich (2012) A precisão na união entre as peças é um dos fatores mais determinantes para a boa qualidade do móvel, que é responsável pelo alinhamento entre as peças e pelo aspecto coeso e harmonioso na sua conformação final (FRANCO, 2010). 113 6.2.1. Elementos de fixação As fixações com cavilhas (Figura 81), um acessório cilíndrico e estriado em madeira ou plástico, podem, ou não, utilizar cola. A cola é utilizada junto a ela para permitir melhor aderência e torna a montagem definitiva, sendo que as peças pelo sistema não poderão ser desmontadas novamente. A ausência permite que o móvel possa ser desmontado posteriormente. Esse tipo de fixação é um dos mais empregados na indústria moveleira e muito utilizado em gavetas (BOCH, 2007). Figura 81 – Cavilha de madeira, cavilhas de plástico e móvel com cavilha Fonte: Adaptado de bigfer.com.br (2013) Os parafusos são atualmente utilizados nos móveis de padrão mais barato, como a alternativa de menor custo para união dos elementos, pois, além de tudo, raramente são com buchas de expansão. Não são uma solução adequada, principalmente para aglomerado, pois podem comprometer o desempenho do material e do móvel. Já os pregos, mesmo não sendo apropriados, são utilizados até em móveis de alto padrão, principalmente em fundo de chapa dura, pois garantem maior rigidez ao móvel (FRANCO, 2010). Os sistemas tipo “rotofix” (minifix ou girofix) são compostos por uma haste e um tambor, sendo a montagem feita com um giro no tambor que trava a haste, permite e montagem de duas ou três peças simultaneamente (Figura 82). Há também os parafusos de união que são acessórios utilizados para junção de módulos de um móvel. Esses dois tipos de acessórios possibilitam a desmontagem quantas vezes forem necessárias (BOCH, 2007). 114 Figura 82 – Sistema “rotofix” e esquema de montagem Fonte: Adaptado de bigfer.com.br e hettich.com.br (2013) 6.2.2. Elementos de articulação Até o final da década de 1960, o tipo mais utilizado de dobradiças era a comum (Figura 83a/b), que não apresentava grande eficiência e não permitia nenhum ajuste de posição para o alinhamento entre a porta e o móvel (FRANCO, 2010). Atualmente, o sistema de dobradiças é composto por um calço e um caneco, ou copo, onde é utilizado um sistema de pressão (Figura 83c/d). É usado em portas, sendo que o calço é fixo à lateral, enquanto o caneco é preso à porta. Conforme o modelo da dobradiça e do calço pode-se obter vários padrões de recobrimento sobre laterais e divisões, bem como diversos ângulos de abertura (BOCH, 2007). Das dobradiças convencionais às dobradiças de caneco, passando pelos pistões a gás, o mobiliário evolui junto com as ferragens, possibilitando novas construções funcionais. Portas que param em qualquer posição, design simples e atraente, amortecimento integrado e sofisticação. Estas são características que fazem dos articuladores itens de diferenciação na produção de móveis de qualidade. A tecnologia empregada na produção de ferragens para móveis proporcionou à indústria de móveis e marcenaria, de modo geral, uma revolução na busca pela sofisticação e ergonomia nos ambientes e móveis. Dobradiças e pistões estão sendo aos poucos substituídos por articuladores mais ergonômicos que possuem amortecimento integrado de fácil montagem. Atualmente, quando se pensa em articuladores para móveis (Figura 84), prioriza-se a sofisticação, ergonomia e praticidade na utilização e na produção, que aliadas à economia, proporcionam uma relação perfeita (HAFELE, 2012). 115 Figura 83 – Tipos de dobradiças a b c d a. Dobradiça comum; b. Dobradiça comum “borboleta”; c. Calço para dobradiça caneco; d. Dobradiça caneco; Fonte: Adaptado de bigfer.com (2013) Figura 84 – Tipos de articuladores para móveis Fonte: Adaptado de bigfer.com (2013) 116 Franco (2010) afirma que até a década de 1990, as portas de correr revelavam soluções insatisfatórias pelo fato dos sistemas dotados serem precários. Com a implantação de novas indústrias de acessórios, foram introduzidos sistemas mais simplificados e eficientes que se compatibilizam tanto com o móvel popular quanto aos demais móveis, que utilizam sistemas com trilhos metálicos (Figura 85). Figura 85 – Tipos de sistemas para porta de correr Fonte: Adaptado de bigfer.com (2013) 117 Figura 86 – Tipos de corrediças a) Corrediça metálica b) Trilhos metálicos telescópicos Fonte: Adaptado de bigfer.com e Catálogo eletrônico Hettich (2012) Quanto às gavetas, os sistemas construtivos anteriormente eram de contato das laterais das gavetas com um perfil de madeira fixado no móvel, ou de um canal 118 executado na parte central da lateral, que corresse naquele perfil. Por volta dos anos de 1980, o perfil de madeira passou a ser substituído por perfil plástico fixado na lateral do móvel por pressão; posteriormente, na década de 1990, por corrediças metálicas (Figura 86a); atualmente por trilhos metálicos telescópicos (Figura 86b), principalmente nos móveis de padrão elevado (FRANCO, 2010). 6.2.3. Puxadores Os puxadores (Figura 87), de acordo com SENAI-RS (1994), são acessórios utilizados para puxar, com a finalidade de abrir gavetas e portas. Franco (2010) afirma que os puxadores têm por características especificas representar não somente a sua utilidade, mas também ser um elemento estético capaz de criar uma personalidade própria ao móvel. Um exemplo disso é que, até pouco tempo atrás, quando uma indústria falava de uma nova linha de produtos podia se tratar simplesmente da troca do modelo do puxador e talvez do padrão dos painéis de um modelo já existente, principalmente em móveis populares. Figura 87 – Tipos de puxadores Fonte: Franco (2010) 119 O puxador de madeira foi o inicialmente utilizado, seguido pelos puxadores metálicos, rebuscados, inspirados em motivos clássicos e que simbolizavam a aristocracia. Os puxadores plásticos, que procuravam imitar a formas dos metálicos existentes, surgiram com o advento do móvel popular de madeira reconstituída, se firmando juntamente com esse produto. Mas esses puxadores eram ineficientes e com acabamento inferior. A partir da década de 1980, com o aprimoramento técnico de sua produção e da influência do design europeu, os puxadores passaram a ter uma linguagem mais despojada, evidenciando as qualidades da superfície bem acabada, da boa combinação entre os materiais e a melhor integração com o design do móvel, com maior uso de alumínio no segmento de móveis (FRANCO, 2010). 120 7. DIMENSÕES E ERGONOMIA “Tudo o que o homem cria é destinado ao seu uso pessoal.” Neufert, 2011. Conforme se pode conferir em capítulos anteriores deste trabalho, os móveis foram criados e adaptados ao longo dos séculos, sempre visando atender às necessidades do homem. Dessa forma, as dimensões do que é fabricado devem estar intimamente relacionadas com as do seu corpo. Por esse motivo, durante muito tempo, os membros do corpo humano foram utilizados como unidades de medida e atualmente, devido à adoção da unidade metro, tem-se que comparar esta unidade com as do corpo para se obter a noção real das dimensões (NEUFERT, 2011). Neufert (2011) afirma que muitos estudiosos, como Leonardo da Vinci, Miguel Angelo, A. Zeising e E. Moessel dedicaram-se ao estudo das proporções do corpo humano. Entre as décadas de 1940 e 1950, o arquiteto Le Corbusier passou a adotar em seus projetos um modelo baseado na divisão harmônica que chamou de “Le Modulor” (Figuras 88 e 89), o qual Kenchian (2005) afirma ser “um instrumento de medida baseado nas relações métricas e proporcionais do corpo humano, com propósito de que esse instrumento fosse incorporado à prancheta dos arquitetos de todo o mundo”, proporcionando assim a unificação dos sistemas métrico e britânico e procurando padronizar as medidas utilizadas pelos projetistas. Historicamente, a preocupação básica da humanidade com a figura humana foi mais estética, mais envolvida com proporções do que com medidas e funções absolutas. Entretanto, nas últimas décadas houve um aumento da preocupação com as dimensões humanas e corporais e nenhum outro setor deu mais importância a isso do que o campo da engenharia humana, das configurações do homem, ou ergonomia, uma ciência interdisciplinar que integra as ciências biológicas, como a psicologia, antropologia, fisiologia e medicina, com a engenharia (PANERO; ZELNIK, 2002). 121 Figura 88 – “O Modulor” de Le Corbusier Fonte: Neufert (2011) Figura 89 – Ocupação do espaço pelo homem Fonte: Neufert (2011) Segundo Gurgel (2005), a ergonomia combina e estuda as características físicas do corpo humano, sua fisiologia e os fatores psicológicos que nele atuam, 122 com objetivo de melhorar a relação entre o homem e o meio ambiente. A figura 90 apresenta algumas dimensões dessa relação. Figura 90 – Dimensões (em centímetros) mínimas recomendadas para pessoas em diferentes movimentos e situações Fonte: Adaptado de Gurgel (2005) Apesar das variáveis envolvidas, a interface entre usuário e ambiente projetado, ou adaptado ao homem, deve garantir conforto, segurança e uma vivência eficiente e alegre naquele ambiente. As alturas das superfícies de trabalho de uma cozinha, escritório ou estúdio; os espaços livres para cadeiras ao redor de uma mesa de jantar ou de reuniões; as alturas das prateleiras em apartamentos ou bibliotecas; as larguras de corredores em edifícios comerciais ou residenciais; tudo isso deve refletir as configurações humanas nas dimensões corporais (PANERO; ZELNIK, 2002). Iida (2000) afirma que do ponto de vista ergonômico os produtos produzidos são considerados como meios para que o homem possa executar determinadas funções. E para que esses produtos funcionem bem em sua integração com o usuário, devem ter qualidade estética (responsável pela aparência agradável do produto, através de cores, das texturas, das formas, entre outros), qualidade 123 ergonômica (incluindo facilidade de manuseio, adaptação antropométrica e demais itens de conforto e segurança), e qualidade técnica (que faz o produto funcionar, do ponto de vista elétrico, mecânico ou químico). De acordo com Fialho (2005), de modo geral, a aquisição de um móvel é feita em função da durabilidade e da aparência visual e, na maioria das situações, o conforto, a segurança e a saúde passam despercebidos. Um móvel esteticamente agradável e aparentemente confortável pode ter sido projetado sem respeitar as características físicas humanas, sem os devidos padrões ergonômicos. Nesse sentido, há uma forte tendência no mercado moveleiro quanto à inovação e qualidade dos produtos. As novas opções de materiais e a necessidade crescente de adequação do produto às características de cada consumidor estão fazendo surgir inúmeras opções de móveis que variam na cor, forma, uso de materiais, desenho e funcionalidade. As dimensões dos móveis variam muito segundo o modelo, o estilo ou o fabricante. Entretanto, vale a pena ter em mente algumas medidas consideradas mínimas para algumas peças de mobiliário, bem como algumas sugestões de distâncias mínimas entre os móveis (GURGEL 2005). A ABNT (2004), por meio da NBR 15127, estabelece procedimentos para definir medidas do corpo humano que podem ser utilizadas como base na elaboração de projetos tecnológicos, para diversas aplicações (por exemplo, vestimentas, mobiliário, locais de trabalho, transportes, atividades na residência ou lazer). Pode ser necessário complementar esta lista básica com medidas adicionais específicas. No entanto, esta norma, nada comenta sobre as dimensões com relação ao corpo humano e o meio ambiente. Panero e Zelnik (2002) afirmam que “a coleta de dados antropométricos é uma atividade cara, demorada e relativamente árdua, sobretudo se o objetivo for a obtenção de uma amostra nacional verdadeiramente representativa”. Por isso, poucos estudos antropométricos foram realizados com civis e a maior parte das pesquisas antropométricas ainda está sendo feita para o setor militar, pelo menos nos Estados Unidos. Dessa forma, os designers e arquitetos devem utilizar os dados com cautela. Ainda assim, vale apresentar cautelosamente, neste trabalho, as dimensões previstas para alguns móveis considerados de maior necessidade. As Figuras 91 a 124 99 proporcionam a visualização das dimensões necessária, como mínimas e máximas estimadas (em centímetros), entre mobiliários e as proporções humanas. Figura 91 – Relação de dimensões para cozinhas com bancadas e armários Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 125 Figura 92 – Relação de dimensões para cozinhas com forno e fogão Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 126 Figura 93 – Relação de dimensões para escritórios com visitantes Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 127 Figura 94 – Relação de dimensões de mesas e armários para escritórios Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) Figura 95 – Relação de dimensões para escritórios com armários auxiliares Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 128 Figura 96 – Relação de dimensões para sofás para diferentes usuários Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) Figura 97 – Relação de dimensões com espaços livres para sofás Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 129 Figura 98 – Relação de dimensões para mesas retangular de refeições Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) Figura 99 – Relação de dimensões para mesas de refeições Fonte: Adaptado de Panero e Zelnik (2002) 130 Para Neufert (2011) e Kenchian (2005) deve-se conhecer o tamanho de aparelhos, utensílios e vestuário que o homem utiliza para poder dimensionar os móveis destinados a contê-los. Afirmam ainda que é preciso conhecer o espaço que uma pessoa precisa entre as peças de mobiliário de uma sala de jantar, de uma cozinha, quarto, entre outros, e complementam dizendo que o mobiliário (mesa, cadeiras, armário, cama) e o espaço destinado a ele são dados de partida para o desenho dos ambientes, respeitando diretrizes pertinentes. 131 8. NORMAS TÉCNICAS “O homem acredita mais com os olhos do que com os ouvidos. Por isso longo é o caminho através de regras e normas, curto e eficaz através dos exemplos.” Sêneca As normas técnicas são documentos produzidos por um órgão oficial acreditado que tem como objetivo estabelecer regras, diretrizes, ou características acerca de um material, produto, processo ou serviço. 8.1. NORMAS NACIONAIS A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) disponibiliza normas técnicas para consulta e aplicação. As disponíveis para mobiliário estão relacionadas no quadro abaixo. Tabela 2 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ABNT) Norma NBR 12666:1992 Título da norma Móveis – Terminologia Cancelada em 12/06/2012 NBR 12743:1992 Móveis – Classificação de Mobiliário Cancelada em 21/06/2012 NBR 13579-1:2011 Colchão e colchonete de espuma flexível de poliuretano e bases Parte 1: Requisitos e métodos de ensaio NBR 13579-2:2011 Colchão e colchonete de espuma flexível de poliuretano e bases Parte 2: Revestimento NBR 13918:2000 Móveis – Berços infantis – requisitos de segurança e métodos de ensaio Cancelada em 21/07/2010. Substituída por: ABNT NBR 158601:2010 ABNT NBR 15860-2:2010 NBR 13919:1997 Móveis – Cadeiras altas – requisitos de segurança e métodos de ensaio Cancelada em 05/10/2011. Substituída por: ABNT NBR 159911:2011 ABNT NBR 15991-2:2011 132 Tabela 2 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ABNT) – continuação Norma Título da norma NBR 13960:1997 Móveis para escritório – Terminologia Cancelada em 21/06/2012 NBR 13961:2010 Móveis para escritório - Armários NBR 13962:2006 Móveis para escritório – Cadeiras – Requisitos e métodos de ensaio NBR 13963:1997 Móveis para escritório – Móveis para desenho – Classificação e características físicas e dimensionais Cancelada em 21/06/2012 NBR 13964:2003 Móveis para escritório – Divisória tipo painel NBR 13965:1997 Móveis para escritório – Móveis para Informática – Classificação e características físicas e dimensionais Cancelada em 12/01/2010. Substituída por: ABNT NBR 15786:2010 NBR 13966:2008 Móveis para escritório – Mesas – Classificação e características físicas dimensionais e requisitos e métodos de ensaio NBR 13967:2011 Móveis para escritório – Sistemas de estação de trabalho – Classificação e métodos de ensaio NBR 14006:2008 Móveis escolares – Cadeiras e mesas para conjunto aluno individual NBR 14007:1997 Móveis escolares – Assentos educacionais – Requisitos e mesas para instituições Cancelada em 01/05/2003. Substituída por: ABNT NBR 14006:2003 NBR 14033:2005 Móveis para cozinha NBR 14034:1998 Móveis de cozinha – Padronização Cancelada em 31/05/2005. Substituída por: ABNT NBR 14033:2005 NBR 14042:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Conectores NBR 14043:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Dobradiças NBR 14044:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Corrediças NBR 14045:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Dispositivos de fechamento e limitadores de movimento NBR 14046:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Niveladores NBR 14047:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Suportes NBR 14048:1998 Móveis – Ferragens e acessórios – Puxadores e espelhos e guias para guias chaves NBR 14049:1998 Móveis – Ferragens e acessórios Rodízios e suportes para pé 133 Tabela 2 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ABNT) – continuação Norma NBR 14109:1998 Título da norma Móveis para escritório – Armários – Ensaios de estabilidade, resistência e durabilidade. Cancelada em 31/10/2003. Substituída por: ABNT NBR 13961:2010 NBR 14110:1998 Móveis para escritório – Cadeiras – Ensaios de estabilidade, resistência e durabilidade. Cancelada em 30/01/2003. NBR 14111:1998 Móveis para escritório – Mesas – Ensaios de estabilidade, resistência e durabilidade. Cancelada em 14/04/2008. Substituída por: ABNT NBR 13966:2008 NBR 14112:1998 Móveis para escritório – Divisórias – Ensaios de estabilidade e resistência Cancelada em 01/09/2003. Substituída por: ABNT NBR 13964:2003 NBR 14113:1998 Móveis para escritório – Sistemas de estação de trabalho – Ensaios de estabilidade, resistência e durabilidade. Cancelada em 09/07/2009. Substituída por: ABNT NBR 13967:2009 NBR 14252:1998 Material têxtil – Tecido plano para revestimento de móveis NBR 14488:2010 Tampos de vidro para móveis – Requisitos e métodos de ensaio NBR 14535:2008 Móveis de madeira – Requisitos e ensaio para superfície pintadas NBR 14776:2013 Cadeira plástica monobloco – Requisitos e métodos de ensaio NBR 15141:2008 Móveis para escritório – Divisória modular tipo piso-teto NBR 15164:2004 Móveis estofados – Sofás NBR 15413-1:2011 Colchão de molas e bases Parte 1: Requisitos e métodos de ensaio NBR 15413-2:2011 Colchão de molas e bases – Parte 2: Revestimento NBR 15485:2007 Mobiliário - Acessórios aramados - Requisitos e métodos de ensaio NBR 15761:2009 Móveis de madeira – Requisitos e métodos de ensaios para laminados decorativos NBR 15786:2010 Móveis para escritório – Móveis para tele atendimento, call center e telemarketing – Requisitos e métodos de ensaio NBR 15860-1:2010 Móveis – Berços e berços dobráveis infantis tipo doméstico Parte 1: Requisitos de segurança NBR 15860-2:2010 Móveis – Berços e berços dobráveis infantis tipo doméstico Parte 2: Métodos de ensaio NBR 15878:2011 Móveis — Assentos para espectadores — Requisitos e métodos de ensaios para a resistência e a durabilidade 134 Tabela 2 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ABNT) – continuação Norma Título da norma NBR 15925:2011 Móveis – Assentos plásticos para eventos esportivos NBR 13966:2008 Móveis para escritório – Mesas – Classificação e características físicas dimensionais e requisitos e métodos de ensaio NBR 15991-1:2011 Cadeiras altas para crianças – Parte 1: Requisitos de segurança NBR 15991-2:2011 Cadeiras altas para crianças – Parte 2: Métodos de ensaio NBR 15996-1:2011 Móveis – Camas beliche e camas altas para uso doméstico Parte 1: Requisitos de segurança NBR 15996-2:2011 Móveis – Camas beliche e camas altas para uso doméstico Parte 2: Métodos de ensaio NBR 16031:2012 Móveis – Assentos múltiplos – Requisitos e métodos para resistência e durabilidade NBR 16045:2012 Móveis – Camas de uso doméstico NBR 16067-1:2012 Móveis – Berços, berços de balanço ou pendular de até 900 mm para uso doméstico. Parte 1: Requisitos de segurança NBR 16067-2:2012 Móveis – Berços, berços de balanço ou pendular de até 900 mm para uso doméstico. Parte 2: Métodos de ensaio NBR ISO/IEC 17025:2005 Requisitos gerais para a competência de laboratórios de ensaio e calibração Fonte: ABNT (2013) A ABNT também disponibiliza normas técnicas para painéis de madeira. Estas seguem listadas abaixo. Tabela 3 – Normas Técnicas relacionadas a painéis de madeira (ABNT) Norma Título da norma NBR ISO 1096:2006 Madeira compensada - Classificação NBR ISO 1098:2006 Compensado laminado para uso geral - Requisitos gerais NBR ISO 1954:2006 Madeira compensada - Tolerâncias dimensionais NBR ISO 2426-2:2006 Madeira compensada - Classificação pela aparência superficial Parte 2: Folhosas NBR ISO 2074:2012 Madeira compensada – Vocabulário 135 Tabela 3 – Normas Técnicas relacionadas a painéis de madeira (ABNT) – continuação Norma NBR ISO 2426-3:2006 Título da norma Madeira compensada – Classificação pela aparência superficial Parte 3: Coníferas NBR ISO 12466-1:2012 Madeira compensada – Qualidade de colagem Parte 1: Métodos de ensaio NBR ISO 12466-2:2012 Madeira compensada – Qualidade de colagem Parte 2: Requisitos NBR 9484:2011 Compensado – Determinação do teor de umidade NBR 9485:2011 Compensado – Determinação da massa específica aparente NBR 9486:2011 Compensado – Determinação da absorção de água NBR 9488:2011 Amostragem de compensado para ensaio – Requisitos NBR 9489:2011 Condicionamento de corpos de prova de compensados para ensaios – Requisitos NBR 9533:2012 Compensado – Determinação da resistência à flexão estática NBR 9535:2011 Compensado - Determinação do inchamento - Método de ensaio NBR 10024:2012 Chapa dura de fibra de madeira — Requisitos e métodos de ensaio NBR 14810-1:2006 Chapas de madeira aglomerada – Parte 1: Terminologia NBR 14810-2:2006 Chapas de madeira aglomerada – Parte 2: Requisitos NBR 14810-3:2006 Chapas de madeira aglomerada – Parte 3: Métodos de ensaio NBR 15316-1:2009 Chapas de fibras de média densidade – Parte 1: Terminologia NBR 15316-2:2009 Chapas de fibras de média densidade – Parte 2: Requisitos NBR 15316-3:2009 Chapas de fibras de média densidade – Parte 3 - Métodos de ensaio Fonte: ABNT (2013) 8.2. NORMAS INTERNACIONAIS – MOBILIÁRIOS A ISO (International Organization for Standardization), também estabelece alguns critérios a serem aplicados a mobiliários. 136 Tabela 4 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ISO) Norma ISO/TR 24496:2012 ISO 21015:2007 ISO 21016:2007 ISO 7170:2005 ISO 22879:2004 ISO 4211-2:1993 ISO 4211-3:1993 ISO 7174-2:1992 ISO 9221-1:1992 ISO 9221-2:1992 ISO 7173:1989 ISO 4211-4:1988 Título da norma Móveis para Escritório – Cadeiras de escritório – Métodos para determinação das dimensões. Office furniture – Office work chairs – Methods for the determination of dimensions Móveis para Escritório – Cadeiras de escritório – Métodos de ensaio para determinação de estabilidade, resistência e durabilidade. Office furniture – Office work chairs – Test methods for the determination of stability, strength and durability Móveis de escritório – Mesas e escrivaninhas – Métodos de ensaio para determinação de estabilidade, resistência e durabilidade. Office furniture – Tables and desks – Test methods for the determination of stability, strength and durability Móveis – Unidades de armazenamento – Determinação da resistência e durabilidade Furniture – Storage units – Determination of strength and durability Rodízios e rodas – Requisitos para rodízios para móveis Castors and wheels – Requirements for castors for furniture Móveis – Testes de superfícies – Parte 2: Avaliação da resistência ao calor úmido Furniture – Tests for surfaces – Part 2: Assessment of resistance to wet heat Móveis – Testes para acabamentos de superfície – Parte 3: Avaliação da resistência ao calor seco Furniture – Tests for surface finishes – Part 3: Assessment of resistance to dry heat Móveis – Cadeiras – Determinação da estabilidade – Parte 2: cadeiras com inclinação ou com mecanismos reclináveis, quando totalmente reclinado, e cadeiras de balanço Furniture – Chairs – Determination of stability – Part 2: Chairs with tilting or reclining mechanisms when fully reclined, and rocking chairs Móveis – Cadeiras para crianças – Parte 1: Requisitos de segurança Furniture – Children's high chairs – Part 1: Safety requirements Móveis – Cadeiras para crianças – Parte 2: Métodos de ensaio Furniture – Children's high chairs – Part 2: Test methods Móveis – Cadeiras e bancos – Determinação da resistência e durabilidade Furniture – Chairs and stools – Determination of strength and durability Móveis – Testes de superfícies – Parte 4: Avaliação da resistência ao impacto Furniture – Tests for surfaces – Part 4: Assessment of resistance to impact 137 Tabela 4 – Normas Técnicas relacionadas a mobiliários (ISO) – continuação Norma ISO 7174-1:1988 ISO 7171:1988 ISO 5970:1979 ISO 4211:1979 Fonte: ABNT (2013) Título da norma Móveis – Cadeiras – Determinação da estabilidade – Parte 1: cadeiras verticais e banquetas Furniture – Chairs – Determination of stability – Part 1: Upright chairs and stools Móveis – Unidades de armazenamento – Determinação da estabilidade Furniture – Storage units – Determination of stability Móveis – Cadeiras e mesas para instituições educacionais – Tamanhos Funcionais Furniture – Chairs and tables for educational institutions – Functional sizes Móveis – Avaliação da resistência da superfície a líquidos frios Furniture – Assessment of surface resistance to cold liquids 138 CONSIDERAÇÕES FINAIS Realizar um estudo sobre móveis de madeira e de seus derivados, desde suas origens, nos primórdios da humanidade, passando pelos processos evolutivos do mobiliário que acompanhou o desenvolvimento mundial, as tendências e adaptações relativas à matéria-prima, ao design, à evolução tecnológica e ao meio ambiente e chegando até os processos de produção atuais, mostrou-se como um desafio e foi encarado com afinco. Apesar de escassa e fragmentada, a bibliografia citada serviu de fonte para a construção do trabalho aqui exposto. Ainda que tenha encontrado dificuldade de reunir as informações dispersas, essa pesquisa procurou manter o objetivo de contribuir consideravelmente com a ampliação do conhecimento sobre o assunto. Considera-se importante ressaltar que a história do mobiliário está diretamente relacionada com fatores históricos e humanos. Portanto, à medida que o homem evolui, seja intelectualmente, artisticamente ou materialmente, o móvel o acompanha e se adapta a sua necessidade imediata. Tal necessidade pode estar vinculada a fatores culturais, econômicos, ambientais, ou, simplesmente, estéticos. Dessa forma, o móvel criado inicialmente para atender às necessidades funcionais do homem, torna-se um objeto em constante transformação e é o reflexo de sua personalidade. Inseridos em um círculo de acontecimentos, os móveis, a evolução tecnológica e fatores naturais ou ambientais direcionam o processo produtivo do mobiliário, tanto no sentido da matéria-prima quanto no processo de fabricação. A escassez da madeira maciça, vista inicialmente como um problema, alavanca a busca por materiais alternativos, incentivando a pesquisa e abrindo uma nova visão de mercado e influenciando as relações de produção, mão de obra, tendências estéticas e passando, inclusive, a incluir como consumidores as classes menos abastadas. Com os novos produtos surge então a necessidade de, tanto as empresas do setor como de os profissionais do ramo, se adaptarem às condições de produção e trabalhabilidade. As marcenarias, em sua grande maioria, passam a confeccionar móveis com painéis e, considerando o fato de os painéis muitas vezes já terem 139 acabamento, o processo de fabricação é reduzido, se limitando a cortar, usinar e montar, dispensando procedimentos mais complexos e facilitando assim a padronização, a racionalização e o controle de qualidade. Esse novo processo de confecção de móveis, aliado à agilidade na produção em larga escala, fez com que a indústria moveleira conseguisse produzir com preço um pouco mais acessível e fosse capaz de atender a uma parte da população antes impossibilitada de adquirir tais produtos. Contudo, a fabricação de móveis adquire um traçado mais retilíneo, uma vez que a matéria-prima são painéis de derivados de madeira. Com isso, o mobiliário, antes artesanal e artístico, adquire um cunho mais industrial e padronizado. Atualmente existe grande variedade de acessórios para compor um móvel. Dessa forma, é possível obter aspectos visuais dos mais variados, seja devido aos puxadores, ao acabamento ou a associação com outros materiais, como metal, vidro e tecido. O que retoma a possibilidade de manifestação da criatividade de projetistas e executores. Com isso, os móveis sob medida também podem adquirir conceitos ainda mais personalizados. Embora os painéis de madeira tenham sido recebidos com certo receio, vão ganhando espaço e a aceitação gradativa dos consumidores. Em alguns casos a falta de informação sobre a matéria-prima acarreta um equivoco, pois há certo preconceito acerca de determinados materiais, julgados como pouco resistente ou esteticamente desagradável, sendo sempre comparados à madeira maciça. As normas técnicas que regulamentam o setor moveleiro se apresentam de forma a delinear aspetos importantes tanto no âmbito dos materiais quanto no do mobiliário, apresentando questões como, por exemplo, métodos de classificação, colagem, teor de umidade e resistência dos painéis, com normas especificas para cada painel. Para os mobiliários existem normas para classificação, características físicas dimensionais, requisitos de segurança, métodos de ensaio, entre outras. Contudo, no que se refere a ergonomia, as normas existentes se apresentam incompletas, uma vez que não consideram a diversidade de móveis existentes bem como a dessemelhança das dimensões humanas. Apesar deste apontamento, pode-se afirmar que o setor moveleiro é um mercado promissor, tanto no estudo teórico devido à escassez de publicações, quanto no desenvolvimento de projetos, fabricação ou comercialização do móvel, já 140 que existe a necessidade de troca de móveis em curto espaço de tempo, seja por depreciação ou tendência. Por fim, almeja-se que esse estudo acadêmico seja relevante para a sociedade de um modo geral, para o setor moveleiro e à indústria da madeira, tornando-se uma referência com informações mínimas necessárias sobre mobiliário de madeira e de derivados de madeira, reunindo questões que envolvem o projeto e a fabricação de mobiliários. Mas, principalmente, espera-se que motive a elaboração de trabalhos futuros com propostas semelhantes que possam complementar este estudo, abordando com profundidade assuntos importantes como, por exemplo, a resistência dos mobiliários. 141 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE; Carlos Eduardo Camargo de; MENDES, Lourival Marin. OSB. REMADE – Madeiras-Painéis. Disponível em: <www.remade.com.br>. Acesso em: 12 ago. 2012. ALMEIDA, Jane Eliza de; LOGSDON, Norman Barros; JESUS, José Manoel Henriques de. (2010) – O estado da arte dos painéis de madeira aglomerada produzidos no Brasil e suas características. In: XII EBRAMEM, Lavras, MG. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. Catálogo de Normas Técnicas. Disponível em: < http://www.abnt.org.br>. Acesso em: 04 mar. 2013. ______. NBR 15127: Corpo humano – Definição de medidas. Rio de Janeiro: ABNT, 2004. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DE MADEIRA PROCESSADA MECANICAMENTE – ABIMCI. 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