Diagnóstico do Sector da Biotecnologia e
das Ciências da Vida em Portugal
Abril de 2005
Produzido por
ÍNDICE
PREÂMBULO
6
1. BREVE ENQUADRAMENTO MUNDIAL DA BIOTECNOLOGIA
7
1.1. Estados Unidos da América
8
1.2. Europa
10
1.3. Brasil
13
1.4. Outras regiões
16
1.4.1. Canadá
16
1.4.2. Ásia-Pacífico
17
1.5. Conclusões comparativas
19
2. A BIOTECNOLOGIA EM PORTUGAL
21
2.1. Caracterização geral do Sector em Portugal
21
2.2. Unidades de Investigação em Portugal
24
3. PRINCIPAIS RESULTADOS DAS AUDITORIAS TECNOLÓGICAS AO SECTOR DE
BIOTECNOLOGIA
30
3.1. Breve descrição da metodologia de auditoria
30
3.2. Caracterização geral das empresas
32
3.3. Caracterização da base tecnológica
37
3.4. Capacidade de gestão da tecnologia
42
3.5. Estrutura e estratégia
47
3.6. Interacção com a envolvente
49
3.6.1. Caracterização da envolvente
50
3.6.2. Interacção com a envolvente
53
3.7. Análise SWOT
57
4. PERSPECTIVAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO SECTOR EM PORTUGAL - VISÃO DAS
EMPRESAS CONTACTADAS
59
5. CONCLUSÕES GERAIS
60
5.1. Realidade actual
60
5.2. Potencialidades
62
5.3. Medidas urgentes para o sector
63
5.4. Existem Bio-regiões em Portugal?
63
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
65
ANEXO 1
66
2
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Distribuição do número de empresas nos EUA por área de actividade, de acordo com o
directório da OECD DSTI/DOC [2].............................................................................................. 9
Figura 2: Montante de Fundos de capitais de risco angariados (C.R.) e das ofertas públicas de
venda (OPV.) em empresas de biotecnologia dos E.U.A. [3]................................................... 10
Figura 3: Número de empresas de biotecnologia de alguns países pertencentes à OCDE(2003) [3].
.................................................................................................................................................. 11
Figura 4: Distribuição do número de empresas por sector na Suécia [4], Bélgica e Finlândia [2]. . 11
Figura 5: Montante de Fundos de capitais de risco angariados (C.R.) e das ofertas públicas de
venda (O.P.V) em empresas de biotecnologia na Europa [3]. ................................................. 13
Figura 6: Distribuição de empresas no Brasil por área em 2001 [14].............................................. 13
Figura 7: Distribuição do número de empresas por área em Minas Gerais [14]. ............................ 15
Figura 8: Número total de empresas, empresas que receberam Capital de Risco (C.R.) e número
de patentes por empresa em 2001 e 2004 para o Estado de Minas Gerais, Brasil [14]. ......... 15
Figura 9::Distribuição de empresas canadianas por área (2003) [8, 9]. .......................................... 16
Figura 10: Países da região Ásia-Pacífico com desenvolvimento no sector de biotecnologia........ 17
Figura 11: Investimento de capital de risco em empresas de biotecnologia da Austrália entre 2002
e 2004 [12]. ............................................................................................................................... 18
Figura 12: Distribuição de empresas por área na Austrália, Coreia do Sul e Índia [12]. ................. 18
Figura 13: Número de empresas de biotecnologia (cotadas e não cotadas) na Europa, EUA,
Canadá e Região Ásia-Pacífico em 2003 [16]. ......................................................................... 19
Figura 14: Lucros, despesas em investigação e número de empregados nas empresas (cotadas)
de biotecnologia do Canadá, Região Ásia-Pacífico, EUA e Europa [16]. ................................ 20
Figura 15: Evolução das empresas de Biotecnologia Tradicional em Portugal [17]........................ 22
Figura 16: Evolução das empresas da Indústria Farmacêutica em Portugal [17]. .......................... 23
Figura 17: Unidades de Investigação com actividades de Investigação e Desenvolvimento em
Portugal. Os números nas zonas de intersecção indicam unidades que se incluem em mais do
que uma área. ........................................................................................................................... 24
Figura 18: Distribuição de Investigadores segundo sector de execução, para um número total de
31 146 [20]. ............................................................................................................................... 29
Figura 19: Modelo Conceptual de Avaliação ................................................................................... 31
Figura 20: Evolução do número de empresas de Nova Biotecnologia e de trabalhadores (dados da
amostra) .................................................................................................................................... 32
Figura 21: Distribuição de empresas por área de actividade........................................................... 33
Figura 22: Fases de desenvolvimento económico das empresas em função do sector da
biotecnologia. ............................................................................................................................ 34
Figura 23: Estrutura jurídica das empresas nas três fases de desenvolvimento económico.......... 35
Figura 24: Investimento de capital de risco (C.R.) nas empresas analisadas considerando as três
fases de desenvolvimento económico. ..................................................................................... 35
Figura 25: Estrutura do mercado alvo em função da fase de desenvolvimento da empresa.......... 36
Figura 26: Existência de estratégia de internacionalização das empresas. .................................... 37
Figura 27: Vectores de classificação da base tecnológica da empresa .......................................... 38
Figura 28: Níveis atribuídos aos indicadores de capacidade tecnológica (A-Arranque; DDesenvolvimento; C-Consolidação).......................................................................................... 39
3
Figura 29: Importância Interna vs. Relevância Externa ................................................................... 40
Figura 30: Esquema representativo da análise do potencial de desenvolvimento da tecnologia ... 41
Figura 31: Potencial de desenvolvimento das tecnologias (A-Arranque; D-Desenvolvimento; CConsolidação) ........................................................................................................................... 42
Figura 32: Indicadores da capacidade de gestão da tecnologia (A-Arranque; D-Desenvolvimento;
C-Consolidação) 1(mínimo) e 5 (máximo) ................................................................................ 43
Figura 33: Critérios considerados para a apropriação de tecnologias (A-Arranque; DDesenvolvimento; C-Consolidação) 1(mínimo) e 5 (máximo) .................................................. 45
Figura 34: Número de patentes por empresa, segundo a sua fase de desenvolvimento económico
.................................................................................................................................................. 46
Figura 35: Desenvolvimento de I&D segundo a fase de desenvolvimento económico das
empresas................................................................................................................................... 47
Figura 36: Estratégia de internacionalização das empresas segundo o sector de actividade. ....... 48
Figura 37: Existência de plano de formação contínua nas empresas segundo a fase de
desenvolvimento económico..................................................................................................... 49
Figura 38: Tipo de relação entre as empresas e os clientes e fornecedores, de acordo com a fase
de desenvolvimento económico................................................................................................ 53
Figura 39: Interacção entre as empresas e possíveis competidores............................................... 54
Figura 40: Associativismo das empresas de acordo com a fase de desenvolvimento económico. 54
Figura 41: Fontes de financiamento externo a I&D.......................................................................... 55
Figura 42: Percentagem de empresas que estabelecem relações de parceria/consórcio com o SCT
.................................................................................................................................................. 56
Figura 43: Representação gráfica das forças, fraquezas, oportunidades e ameaças das 24
empresas analisadas ................................................................................................................ 58
4
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Países europeus envolvidos em algumas bio-regiões..................................................... 12
Tabela 2: Segmentos de mercado das empresas de biotecnologia no Brasil [26].......................... 14
Tabela 3: Distribuição de empresas de biotecnologia no Brasil por estado segmento de mercado
[26]. ........................................................................................................................................... 14
Tabela 4: Indicadores de biotecnologia para os EUA e Brasil (2001) [14]. ..................................... 15
Tabela 5: Empresas de Biotecnologia Tradicional em Portugal [17]. .............................................. 21
Tabela 6: Empresas na Indústria Farmacêutica em Portugal [17]................................................... 22
Tabela 7: Empresas na Protecção Ambiental em Portugal [17]. ..................................................... 23
Tabela 8: Unidades de Investigação no Ensino Superior [19]. ........................................................ 25
Tabela 9: Unidades de Investigação do Estado [19]........................................................................ 27
Tabela 10: Unidades de Investigação de IPsFLs [19]. .................................................................... 28
Tabela 11: Números de CAE das empresas que constituem a amostra. ........................................ 33
Tabela 12: Caracterização dos indicadores de capacidade tecnológica. ........................................ 38
Tabela 13: Caracterização dos indicadores da importância da tecnologia. .................................... 40
Tabela 14: Níveis do indicador de potencial de desenvolvimento da tecnologia. ........................... 41
Tabela 15: Caracterização dos indicadores da capacidade de gestão da tecnologia..................... 43
5
Preâmbulo
Este estudo do sector da Biotecnologia insere-se no âmbito do projecto FIVE (Fomento da
Inovação e Valorização Empresarial). O objectivo central do Programa FIVE é a criação de
mecanismos que permitam estimular a articulação entre a oferta e a procura nacional de
tecnologia e inovação, promovendo a apropriação de conhecimento/tecnologia pelas empresas
nacionais e a criação de uma nova dinâmica de empreendedorismo baseado na valorização
empresarial da tecnologia e da inovação.
O diagnóstico realizado visa a identificação das reais capacidades tecnológicas das empresas
(assessment), com uma forte incidência na análise de áreas passíveis de criação de spin-offs
tecnológicos, em virtude da existência de competências fortes nas empresas e que estejam subexploradas. Paralelamente, pretende-se a realização de análises tecnológicas prospectivas
(forecasting), com as mesmas empresas, com vista à identificação de necessidades tecnológicas
e trajectórias de desenvolvimento da tecnologia, que permitam antecipar necessidades futuras.
Desta forma, foram obtidos inputs, que associados à análise da oferta de tecnologia pelas
universidades e centros de I&D, permitem induzir um plano de desenvolvimento e apropriação de
novas tecnologias pelo tecido empresarial.
Para este estudo foram contactadas 35 empresas, na sua maioria pertencentes ao Directório da
Biotecnologia [1], e 26 aceitaram integrar este estudo (Anexo 1). Numa primeira fase foi enviado
um questionário, sendo posteriormente realizada uma entrevista com um ou dois gestores de topo
de cada empresa. Os dados obtidos por ambas as fontes de informação foram analisados de
acordo com o metodologia de diagnóstico de empresas de base tecnológica, desenvolvido pela
INTELI no âmbito do projecto FIVE. A análise dos resultados obtidos é descrita nos Capítulos 3 e
4 deste relatório e no Capítulo 5 são apresentadas as conclusões gerais deste estudo. Nos
primeiros capítulos é apresentado um enquadramento sumário da biotecnologia a nível mundial
(Capítulo 1) e a nível nacional (Capítulo 2).
6
1. Breve enquadramento mundial da biotecnologia
Existem várias definições para biotecnologia, dependendo do contexto e do grau de abrangência
que se pretende. Uma definição consensual do que é a biotecnologia consiste na aplicação de
microrganismos ou componentes de sistemas biológicos para a obtenção de produtos ou serviços
de valor acrescentado.
Neste sentido, a biotecnologia está entre nós há mais de 5000 anos, desde que o ser humano
descobriu as primeiras bebidas fermentadas tais como a cerveja e o vinho ou como outros
produtos fermentados como o pão ou o iogurte. Também os produtos lácteos, tais como a
manteiga ou o queijo, são igualmente produzidos por meio de processos que envolvem enzimas
na sua produção, e todos estes produtos já têm milénios de existência. Pode então designar-se
por Biotecnologia Tradicional toda a tecnologia relacionada com a produção destes produtos,
baseada inicialmente em conhecimentos empíricos, embora incluindo desenvolvimentos científicos
recentes.
Por outro lado, a descoberta da estrutura do DNA nos anos cinquenta e a elucidação do
mecanismo do código genético na década seguinte deu origem a um novo ramo da biologia, a
engenharia genética, cuja aplicação deu origem à Nova Biotecnologia. O conhecimento
aprofundado dos mecanismos celulares e moleculares permitiu a manipulação do genoma de
organismos com vista à produção de proteínas recombinadas com as mais variadas finalidades,
desde a atribuição de resistência a plantas em relação a fungos ou insectos (criando-se assim os
Organismos Geneticamente Manipulados, ou OGMs), até à produção de fármacos por via
biológica ou enzimática. O próprio desenvolvimento das técnicas de cultura de células e tecidos
abriu perspectivas na obtenção de novos produtos biológicos de interesse.
De acordo com o presente estudo, a biotecnologia tem a sua aplicação maioritariamente em cinco
áreas:
•
Agro-Alimentar: área onde desde sempre a Biotecnologia Tradicional tem sido utilizada, e
onde a Nova Biotecnologia tem originado vários resultados de relevo, desde os OGM a um
melhoramento dos processos de produção dos vários produtos da Biotecnologia
Tradicional;
•
Ciências da Vida: a indústria farmacêutica tem sido dominada tradicionalmente pela
síntese química orgânica e pela purificação de antibióticos, mas tem tido um grande
desenvolvimento com a Nova Biotecnologia devido à utilização de organismos
recombinados para a produção de proteínas de aplicação terapêutica, quer em humanos
quer em animais. Na área do diagnóstico, tem sido fundamental a intervenção da Nova
Biotecnologia, associada ao desenvolvimento dos conhecimentos nas áreas da biologia,
fisiologia e medicina, para a criação de novos métodos de identificação e análise de
patologias;
7
•
Indústria: esta designação abrange as várias áreas onde a Nova Biotecnologia encontra
aplicação na indústria química, na indústria dos têxteis, na indústria de celulose, na
indústria dos detergentes e na indústria energética. Recorre-se ao uso de microrganismos
ou sistemas biológicos para a produção de enzimas ou outros produtos de interesse
industrial ou comercial. A aplicação da Biotecnologia a estes sectores industriais é também
é conhecida como Biotecnologia branca ou industrial;
•
Protecção Ambiental: onde se utilizam microrganismos para o tratamento de águas
residuais, fitoremediação de solos e efluentes;
•
Serviços: todos as vertentes de desenvolvimento da Nova Biotecnologia necessitam de
uma série de métodos padronizados que podem ser subcontratados a empresas que
prestem esse tipo de serviços, como por exemplo a síntese ou sequenciação de ácidos
nucleicos ou de proteínas, a clonagem de genes, mas também serviços de índole jurídica
ou de consultoria, tais como a transferência de tecnologia.
Na abordagem que se segue apenas se considera a Nova Biotecnologia, uma vez que é na sua
aplicação industrial que reside um grande potencial.
1.1. Estados Unidos da América
Os debates em torno da biotecnologia datam desde o início dos anos 70, aquando do
desenvolvimento da tecnologia de DNA recombinado nos Estados Unidos da América (EUA) e da
necessidade que surgiu de explorar estas tecnologias com fins comerciais. A novidade do
mercado, o seu grande potencial e rápido crescimento criaram elevadas expectativas em relação
ao impacto social e económico da indústria biotecnológica.
Desde o aparecimento da primeira empresa de biotecnologia nos Estados Unidos em 1976, a
Genentech Inc., fundada pelo investidor de capital de risco Robert Swanson (da Kleiner & Perkins
venture) e pelo bioquímico Herbert Boyer (cientista da UCSF), ocorreu um grande
desenvolvimento das Ciências da Vida, surgindo novos campos de aplicação, tais como a AgroAlimentar, Protecção Ambiental e a prestação de Serviços. O número de empresas aumentou
acentuadamente, verificando-se em 2001 um total de 1273, das quais 300 são empresas cotadas
em bolsa. O gráfico seguinte apresenta a distribuição das empresas de biotecnologia por sectores
de actividade nos EUA.
8
11%
3%
55%
31%
Ciências da vida
Agro-alimentar
Serviços
Protecção ambiental
Figura 1: Distribuição do número de empresas nos EUA por área de actividade, de acordo com o
directório da OECD DSTI/DOC [2].
Na década de 90, empresas situadas nos Estados Unidos passaram a contar com mecanismos de
captação de recursos financeiros, tais como o capital de risco e os mercados bolsistas como o
NASDAQ. Todavia, mesmo no caso dos EUA, o papel dos fundos de natureza governamental foi
fundamental para a sustentação do fluxo de inovações e dos programas de desenvolvimento
científico associados à criação de empresas em biotecnologia. Isso ocorreu tanto através do apoio
aos institutos de investigação e universidades como por meio da criação de fundos de
investimento seed.
O desenvolvimento sector da Biotecnologia depende fortemente da disponibilidade de capital de
risco pelo facto de se tratar de uma industria muito capital intensiva, com um elevado risco
associado. Por sua vez, o desenvolvimento do sector do capital de risco depende fortemente da
existência de mercados de capitais líquidos onde os investidores de capital de risco possam sair
dos investimentos realizando mais valias assinaláveis.
É desde os anos 90 que ocorre um aumento progressivo do investimento de capital de risco nas
empresas de biotecnologia, tendo-se verificado um aumento de mais de 50% de 1999 para 2000.
No entanto, maus resultados obtidos por empresas do sector conduziram à decepção de alguns
investidores face às expectativas iniciais e, por consequência, a uma diminuição do número de
investimentos nos anos seguintes. As ofertas públicas de venda decaíram drasticamente e
somente em 2004 houve uma ligeira recuperação, ficando no entanto o valor muito aquém do
obtido em 2000.
9
7000
6000
Milhões $
5000
OPV.
4000
C.R.
3000
2000
1000
0
1999
2000
2001
2002
2003
2004
Ano
Figura 2: Montante de Fundos de capitais de risco angariados (C.R.) e das ofertas públicas de venda
(OPV.) em empresas de biotecnologia dos E.U.A. [3].
Actualmente, os investidores nos EUA já estão na fase de recuperação do capital investido e
continuam a investir em empresas nos estágios iniciais de desenvolvimento. Os EUA , em
conjunto com a Europa, mantêm-se na linha da frente da investigação em biotecnologia e no
aparecimento de novas empresas de biotecnologia.
1.2. Europa
As vantagens em termos de crescimento económico e competitividade dos Estados Unidos
devidas ao desenvolvimento e investimento no sector da biotecnologia conduziram a uma reacção
da Europa com a opção estratégica de promover o sector na União Europeia.
De facto, durante a década de 80 a biotecnologia na Europa era desenvolvida apenas em grandes
empresas, ao contrário do que acontecia nos EUA, já então com um número crescente de
pequenas empresas. A bolha financeira dos anos noventa deu origem a grandes disponibilidades
de fundos de investimento de capital de risco, promovendo a inovação nos Estados Unidos e na
Europa. Porém, os empreendedores europeus eram menos numerosos, tendo avançado mais
lentamente. Foi no início dos anos 90 que surgiram as primeiras pequenas empresas de
biotecnologia no Reino Unido, criadas por investigadores ligados a centros de investigação e
universidades. Pouco tempo depois, numa tentativa de recuperar o tempo perdido, o governo
alemão também encorajou e promoveu a criação de pequenas empresas através do programa
BioRegio (1995). Actualmente, a Alemanha já ultrapassou o número de empresas de biotecnologia
do Reino Unido (Figura 3).
10
Bélgica
Filândia
Holanda
Dinamarca
Suíça
Israel
Suécia
França
Reino Unido
Alemanha
0
50
100
150
200
250
300
350
Nº de empresas
Figura 3: Número de empresas de biotecnologia de alguns países pertencentes à OCDE(2003) [3].
Tal como nos EUA, a actividade da maioria das empresas de biotecnologia na Europa está
relacionada com a área das Ciências da Vida (40-60%), no qual se verificam os maiores
investimentos. Na figura 4 são apresentados os dados da distribuição do número de empresas por
sector em alguns países pertencentes à União Europeia.
Filândia
21%
41%
Ciências da Vida
Agro-Alimentar
Serviços
Biotecnologia Industrial
Protecção Ambiental
23%
15%
Suécia
Bélgica
21%
32%
34%
4%
55%
20%
16%
18%
Figura 4: Distribuição do número de empresas por sector na Suécia [4], Bélgica e Finlândia [2].
11
Em 2002 foi publicada uma estratégia da União Europeia para o desenvolvimento do sector das
Ciências da Vida e da biotecnologia [5]. Neste plano, a cumprir até 2010, são reforçadas as
iniciativas que têm sido tomadas para o desenvolvimento da biotecnologia na Europa, como por
exemplo a criação de bio-regiões. De facto, nos finais dos anos 90 a necessidade de coordenação
dos agentes envolvidos no desenvolvimento da biotecnologia originou a criação destas bioregiões, promovendo a transferência do conhecimento e investigação para o mercado.
Actualmente existem várias bio-regiões espalhadas pela Europa, com uma estrutura que envolve
grandes biofarmacêuticas, empresas médias e em fase de arranque (start-up), empresas de
distribuição e de serviços, empresas ou centros governamentais de transferência de tecnologia,
universidades, institutos de investigação e hospitais, onde existe uma interligação bem definida e
com objectivos comuns, criando um ciclo virtuoso de atracção de investimento e criação de
empresas.
Tabela 1: Países europeus envolvidos em algumas bio-regiões.
Bioregiões europeias
Países envolvidos
Biovalley
França (Alsácia), Suiça (Basel), Alemanha (Freiburg)
Lyon-Rhone Alps Life Science Network
França
ScanBalt Bioregion
Dinamarca, Estónia, Finlândia, Islândia, Letónia, Lituânia,
Noruega, Polónia, Suécia, Alemanha (norte) e Rússia (NO)
Medicon Valley Academy
Suécia e Dinamarca
Biotech Region Munich
Alemanha (Munique)
Stockholm-Uppsala
Suécia
Turku Bio Valley
Finlândia
Cambridge Biotech Cluster
Reino Unido
BioRegio Regensburg
Alemanha
Algumas destas bio-regiões são coordenadas por agências que actuam como centros de contacto,
funcionando como pontos de partida excelentes para quem pretenda informações aprofundadas
da região ou contactos entre a indústria e a academia.
No País Basco o governo regional lançou um programa no segundo semestre de 2001 (BioBask),
no qual disponibilizou 52 milhões de Euros para financiar investigação, educação e a criação de
novas empresas, incluindo uma incubadora de empresas de biotecnologia e um novo centro de
investigação. Actualmente o sector privado e os centros de investigação estão já a despertar o
interesse dos investidores europeus, e uma das primeiras empresas constituídas aquando do
lançamento do referido programa está a revelar-se um caso de sucesso. [25]
12
O investimento de capitais de risco em empresas de biotecnologia tem sido constante desde o ano
2000, mas poucas têm sido as empresas de biotecnologia europeias que desde o ano 2001
passaram a ter cotação na bolsa (Figura 5).
3500
Milhões USD
3000
2500
OPV
2000
C.R.
1500
1000
500
0
2000
2001
2002
2003
Ano
Figura 5: Montante de Fundos de capitais de risco angariados (C.R.) e das ofertas públicas de venda
(O.P.V) em empresas de biotecnologia na Europa [3].
O sector da biotecnologia na Europa tem um atraso de aproximadamente 10 relativamente aos
EUA. As 1700 empresas privadas europeias (dados de 2003) são muito pequenas, precisando de
se consolidar de modo a poder competir com as 1100 empresas privadas de biotecnologia
americanas [3].
1.3. Brasil
Em 2001 o Brasil posicionava-se entre os 10 países com maior número de empresas no sector da
biotecnologia. Com efeito, identificaram-se 314 empresas neste país, com uma facturação
aproximada de 4 mil milhões de dólares e cerca de 27,8 mil trabalhadores [14].
12%
Agro-alimentar
32%
Ciências da Vida
Protecção Ambiemtal
32%
Serviços
Outros
20%
4%
Figura 6: Distribuição de empresas no Brasil por área em 2001 [14].
Apesar da actividade da maioria das empresas de biotecnologia no Brasil estar relacionada com o
área das Ciências da Vida, quando é feita uma análise por estados é evidente uma diferença
13
quanto à área mais desenvolvida: São Paulo apresenta um maior número de empresas na área de
Serviços, enquanto que Minas Gerais se encontra mais orientada para as Ciências da Vida.
Tabela 2: Segmentos de mercado das empresas de biotecnologia no Brasil [26].
Segmentos de Mercado
Definição
Saúde Humana
Diagnósticos, fármacos, fitofármacos, vacinas, soros,
biodiversidade
Saúde Humana, Animal e Vegetal
Identificação genética, análise de transgénicos
Saúde Animal
Veterinária, reprodução animal, vacinas, probióticos,
aquacultura
Agronegócio
Melhoramento de plantas, transgénicos, produtos florestais,
plantas ornamentais e medicinais, flores, bioinseticidas,
biofertilizantes, inoculantes
Meio Ambiente
Biorremediação, tratamento de resíduos, análises
Instrumental Complementar
Software, Internet, bioinformática, e-commerce, P&D
Química Fina/Enzimas
Química fina, enzimas
Em Sinergia
Biomaterais, biomedicina, consultoria em biotecnologia
Fornecedores
Equipamentos, consumíveis, suprimentos
MNCs, Públicas, Fármacos, Genéricos
Empresas Multinacionais, públicas e outras
Tabela 3: Distribuição de empresas de biotecnologia no Brasil por estado segmento de mercado [26].
Segmentos de
Total por
Mercado
Segmento
São Paulo
Minas
Rio de
Paraná
Gerias
Janeiro
Distrito
Restantes
Federal
Estados
Saúde Humana
74
20
33
12
4
0
5
Saúde Humana,
Animal e Vegetal
14
5
6
0
0
2
1
Saúde Animal
14
3
6
0
1
0
4
Agronegócio
37
13
8
3
5
5
3
Meio Ambiente
14
2
9
2
0
1
0
Instrumental
Complementar
11
5
2
0
1
1
2
Química
Fina/Enzimas
18
5
1
0
1
0
11
Em Sinergia
15
2
9
1
0
0
3
Fornecedores
51
39
8
1
1
0
2
MNCs, Públicas,
Fármacos, Genéricos
66
35
7
9
3
1
11
Total
314
42
29
9
5
3
12
Como as empresas de biotecnologia investem muito em I&D, têm necessidades elevadas de
capital elevada, o que torna por vezes difícil o arranque de novas empresas por falta de
disponibilidade de recursos financeiros. No Brasil, apesar de toda a movimentação financeira que
existe para o apoio de empresas nascentes de base tecnológica, a maioria dos investimentos
ainda se aplica em sectores não tecnológicos. Podemos observar que no Brasil o número de
14
empresas que recebeu apoio financeiro ainda é bastante pequeno (apenas 3% teve apoio de
capital de risco para o seu arranque em 2001), quando comparado com os Estados Unidos, onde
a percentagem chegou aos 30% (Tabela 4).
Tabela 4: Indicadores de biotecnologia para os EUA e Brasil (2001) [14].
EUA
Brasil
1.457
304
28,5
3,9
191.000
27.825
Investimento I&D (10 USD)
15,7
N/D
Investimento de Capital de Risco
31 %
3%
Número de empresas
9
Facturação (10 USD)
Número de empregados
9
Apesar de não existirem dados pormenorizados sobre investimento em I&D para o Brasil, de
acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Montes Claros para o estado
de Minas Gerais observou-se que, em 2002, 42% das empresas de biotecnologia investiram mais
de 10% da sua facturação em I&D, 30% investiram entre 4 a 10%, e apenas cerca de 27% investiu
menos de 2%. Em relação aos EUA o investimento em I&D chega a 55% do valor da facturação
das empresas [14].
2%
Agro-alimentar
18%
71%
Ciências da vida
Protecção ambiental
Serviços
9%
Figura 7: Distribuição do número de empresas por área em Minas Gerais [14].
80
1.2
Nº de empresas
70
1
60
50
0.8
40
0.6
30
0.4
20
0.2
10
0
Nº de patentes por empresa
1.4
90
0
2001
2004
Ano
Total empresas
Empresas que receberam C.R.
Patentes por empresa
Figura 8: Número total de empresas, empresas que receberam Capital de Risco (C.R.) e número de
patentes por empresa em 2001 e 2004 para o Estado de Minas Gerais, Brasil [14].
15
É no entanto de referir que, apesar de Portugal ter relações privilegiadas com o Brasil, que
poderiam contribuir para o desenvolvimento de determinadas áreas da biotecnologia, ainda não
foram estabelecidas parcerias estratégicas suportadas por iniciativas governamentais conjuntas de
modo a estimular esse desenvolvimento.
1.4. Outras regiões
O sector da biotecnologia tem vindo a aumentar continuamente as suas receitas, onde os Estados
Unidos detêm cerca de 81% das receitas da indústria global, enquanto a Europa é responsável por
penas 16% das receitas em 2003. No entanto, outras regiões começam a ter algum relevo no
sector da biotecnologia, tais como o Canadá e a região da Ásia-Pacífico.
1.4.1. Canadá
Com mais de 400 empresas (2003), o Canadá apresenta uma das maiores indústrias de
biotecnologia a nível mundial. A indústria de biotecnologia deste país é essencialmente constituída
por pequenas e médias empresas (PMEs), que foram criadas desde 1996 devido à existência de
investimento de capital de risco na fase de arranque e de desenvolvimento das empresas [8]. Das
470 empresas de biotecnologia (389 não cotadas em bolsa), 312 têm pouco mais de 20
empregados [9]. A existência de muitas empresas novas e pequenas, altamente dependentes da
disponibilidade de capital de risco, fez com que o sector fosse bastante afectado pela diminuição
dos investimentos norte-americanos na área das ciências da vida, que de certa forma se espalhou
ao Canadá. No entanto, esta falta de disponibilidade de capital veio a ser colmatada pelo auxílio
governamental. Tal como na Europa, também no Canadá foi reconhecido um forte potencial
económico às bio-regiões, fazendo com que muitos governos regionais se juntassem ao governo
federal para criar fundos de investimento, incubadoras e centros de investigação. O
desenvolvimento das principais bio-regiões localiza-se preferencialmente em locais onde existe
uma rede de apoio significativa incluindo universidades e hospitais, tais como Montreal, Toronto e
Vancouver [7].
As empresas de biotecnologia canadianas estão sobretudo concentradas na área das Ciências da
Vida tendo-se verificado um aumento de 37% para 69% entre 1997 e 2003 (Figura 9) [8, 9].
Agro-alimentar
12%
69%
Ciências da vida
Protecção Ambiental
Serviços
12%
3% 4%
Biotecnologia Industrial
Figura 9: Distribuição de empresas canadianas por área (2003) [8, 9].
16
1.4.2. Ásia-Pacífico
A contribuição da região Ásia-Pacífico para a indústria global da biotecnologia é ainda reduzida.
Com efeito, este sector encontra-se em fase de arranque quando comparado com as regiões dos
Estados Unidos e Europa. No entanto, é de considerar a enorme potencialidade do sector, uma
vez que se encontra num período de grande crescimento, como é evidenciado pelo elevado
número de novas empresas e centros de investigação que surgiram recentemente tendo como
base um substancial suporte financeiro [10].
Figura 10: Países da região Ásia-Pacífico com desenvolvimento no sector de biotecnologia.
De acordo com o relatório da Ernst & Young de 2002 para a biotecnologia mundial, a região ÁsiaPacífico encontra-se em pleno desenvolvimento. Trata-se, no entanto, de uma região pouco
homogénea, sendo os países mais desenvolvidos a Austrália em conjunto com outros cinco países
emergentes, onde se incluem a Índia e a China [11].
A Austrália, o país líder em biotecnologia na região da Ásia-Pacífico, encontra-se igualmente bem
posicionada a nível mundial, ocupando a sexta posição no ranking deste sector e sendo
responsável por 60% das receitas daquela região. Foram vários os factores que a posicionaram
como o país mais desenvolvido nesta região: Investigação e Desenvolvimento (I&D) forte e bem
fundamentada, legislação estruturada para a protecção da propriedade intelectual, recursos
humanos altamente qualificados e governos federais e estatais bastante empenhados na atracção
de investimento para o apoio da biotecnologia [7].
17
14
12
10
8
2003
6
2004
4
2
0
Investimentos
Nº
(milhões USD) investimentos
Nº empresas
Figura 11: Investimento de capital de risco em empresas de biotecnologia da Austrália entre 2002 e
2004 [12].
Tal como para os EUA e Europa, na região Ásia-pacífico a área das Ciências da Vida é a mais
beneficiada pela Nova Biotecnologia (Figura 16). A Austrália, mais precisamente a região de
Vitória, está em vias de se tornar numa das cinco principais bio-regiões da biotecnologia mundial,
conjuntamente com San Diego, Cambridge, São Francisco e Boston [13].
Austrália
Coreia
21%
15%
57%
58%
12%
22%
6%
9%
Índia
37%
15%
9%
24%
15%
Agro-alimentar
Ciências da vida
Protecção Ambiental
Serviços
Biotecnologia Industrial
Figura 12: Distribuição de empresas por área na Austrália, Coreia do Sul e Índia [12].
Em relação aos países emergentes, a sua principal força reside nas pessoas que adquiriram
experiência na indústria biofarmacêutica no estrangeiro e que ao regressarem ao país natal
aplicam o conhecimento adquirido. Como explica David Kryl, director científico da SciTrax
(empresa de transferência de tecnologia em Londres) e membro da Organização para o
18
Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas, “a vantagem da Ásia em relação à Europa é o
regresso de recursos humanos que, para além de ideias, trazem igualmente dinheiro”.
A “cultura de negócio” que invade a região Ásia-Pacífico, que contrasta com a “cultura académica”
da biotecnologia Europeia, incitou um grande número de empresários a aproveitar a oportunidade
oferecida pelos baixos salários e custo do produto naquela região. No entanto, o que está
realmente a levar ao desenvolvimento da biotecnologia nestes países é o seu enorme mercado
interno. Prevê-se que em 2010 o mercado potencial das indústrias de biotecnologia irá ultrapassar
as fronteiras nacionais em toda a região Ásia-Pacífico, devido ao acordo alcançado pela
Associação das Nações do Sudeste Asiático com a China, no sentido de criar a maior zona
mundial de mercado livre [11].
1.5. Conclusões comparativas
Em 2003, a indústria de biotecnologia mundial estava representada por cerca de 4500 empresas
concentrada em quatro mercados principais – Estados Unidos, Europa, Canadá e Ásia-Pacífico.
Os Estados Unidos lideram a indústria, enquanto o Canadá aparece em segundo lugar em relação
ao número de empresas de biotecnologia, com mais de 400 em 2003 (Figura 13). A Europa
continua em larga expansão, actualmente com o maior número de produtos aprovados e de
investimento de capital de risco observados até à data. A região da Ásia-Pacífico apresenta um
mercado emergente que se encontra em crescimento, sendo os países intervenientes a Austrália,
Índia, China e Singapura [15].
96
1765
Europa
1159
EUA
314
Privadas
547
Ásia-Pacífico
389
Canadá
0
Públicas
120
81
500
1000
1500
2000
Nº de Empresas
Figura 13: Número de empresas de biotecnologia (cotadas e não cotadas) na Europa, EUA, Canadá e
Região Ásia-Pacífico em 2003 [16].
O sector da biotecnologia na região Ásia-Pacífico apresenta um crescimento superior ao da
Europa, o que a torna um sério competidor no que se refere à indústria de biotecnologia
Americana [11]. Este crescimento tem origem em diferentes linhas de apoio: estímulos
governamentais, regresso de pessoal qualificado e perspectiva de derivar num enorme mercado.
No entanto, a escassez de capital de risco e obstáculos ao nível da regulamentação na região
Ásia-Pacífico podem atrasar o desenvolvimento do sector e permitir, desta forma, a consolidação
19
da posição Europeia, pois a Europa apresenta uma indústria de capital de risco mais estabelecida
e, além disso, as empresas europeias têm um acesso mais fácil aos mercados de capitais [11].
Para o total mundial de empresas (cotadas) do sector, os lucros totalizaram em 2003 cerca de 46
mil milhões de dólares (40 mil milhões em 2002). Mais de 75% destes lucros provêm de empresas
Norte Americanas, enquanto que a Europa contribuiu com 16%, o Canadá com 4% e a região da
40
160
35
140
30
120
25
100
20
80
15
60
10
40
5
20
0
Nº de Colaboradores
USD (mil milhões)
Ásia-Pacífico com apenas 3%.
0
Canadá
Lucros
Ásia-Pacífico
Europa
Despesas de I&D
EUA
Nº Colaboradores
Figura 14: Lucros, despesas em investigação e número de empregados nas empresas (cotadas) de
biotecnologia do Canadá, Região Ásia-Pacífico, EUA e Europa [16].
O reconhecimento do potencial crescimento do sector da biotecnologia por parte de muitos
governos estimulou a sua expansão, através de um aumento de fundos governamentais para a
indústria. Se por um lado a separação geográfica do sector tornou essencial o estabelecimento de
colaborações além-fronteiras, por outro lado, o aumento da competitividade global da indústria da
biotecnologia conduziu os investidores a procurarem quer os melhores negócios quer as
tecnologias mais promissoras, independentemente da sua localização [15].
20
2. A Biotecnologia em Portugal
2.1. Caracterização geral do Sector em Portugal
A Biotecnologia Tradicional em Portugal está associada a um grande número de empresas
pertencentes ao sector Agro-Alimentar, como é ilustrado na tabela seguinte:
Tabela 5: Empresas de Biotecnologia Tradicional em Portugal [17].
Valores médios
CAE
Número de
Descrição do CAE
Empresas
Número de
empregados
15510
Indústrias do leite e derivados
15811
Panificação
15891
Fabricação
de
fermentos,
leveduras
VAB
35
153
6 360 972
194
25
329 398
3
52
2 802 110
e
adjuvantes para panificação e pastelaria
1591
Fabricação de bebidas alcoólicas destiladas
11
11
631 893
15920
Fabricação de álcool etílico de fermentação
3
29
532 128
1593
Indústria do vinho
134
34
1 360 808
Estas empresas caracterizam-se por serem de média a pequena dimensão, com excepção das
indústrias do leite e derivados. Estas últimas apresentam um Valor Acrescentado Bruto (VAB)
médio elevado em comparação com todas as restantes, enquanto à indústria de panificação
corresponde o VAB médio mais reduzido.
Recorrendo a dados do Banco de Portugal [17], constata-se que esta tipologia de empresas se
tem mantido em número aproximadamente constante, com excepção para as indústrias
panificadoras, que exibiram um grande crescimento até 1998 seguido de uma queda abrupta, e da
indústria do vinho, que tem tido um crescimento tendencialmente constante (Figura 15).
21
160
140
500
Nº de empresas
120
400
100
80
300
60
200
40
100
20
2002
2001
2000
1999
1998
1997
1996
1995
1994
1993
1992
0
1991
0
Nº de empresas panificadoras
600
Ano
Indústria do vinho
Indústrias do leite e derivado s
Fabricação de bebidas alco ó licas destiladas
Fabricação de fermento s, leveduras e adjuvantes para panificação e pastelaria
Fabricação de álco o l etílico de fermentação
Fabricação de malte e cerveja
P anificação
Figura 15: Evolução das empresas de Biotecnologia Tradicional em Portugal [17].
Estas indústrias encontram-se normalmente localizadas perto da origem da matéria-prima, tendo
as indústrias do leite e derivados preponderância nos distritos da Guarda (7 empresas), Castelo
Branco (5) e Ponta Delgada (5), enquanto as indústrias do vinho se encontram principalmente no
norte (28 empresas no distrito do Porto, 12 em Viseu e 11 em Vila Real).
Na indústria farmacêutica, independentemente de se utilizarem processos biotecnológicos ou não,
as empresas portuguesas têm baseado a sua actividade no fabrico de produtos farmacêuticos de
base e de preparações farmacêuticas, entre as quais a produção de medicamentos, como se
ilustra na tabela seguinte:
Tabela 6: Empresas na Indústria Farmacêutica em Portugal [17].
Valores médios
CAE
Descrição do CAE
Número de
Empresas
Número de
empregados
24410
Fabricação de produtos farmacêuticos de base
2442
24421
VAB
5
179
7 780 545
Fabricação de preparações farmacêuticas
28
152
9 200 841
Fabricação de medicamentos
26
150
9 600 912
Esta indústria é caracterizada por um número reduzido de empresas, em que a produção de
princípios activos está concentrada em apenas cinco empresas. Os princípios activos são
tipicamente produzidos por via química, embora mais recentemente sejam produzidos por
microrganismos (nomeadamente antibióticos) e posteriormente extraídos e sujeitos a um
22
processamento químico de derivatização. Esta indústria é caracterizada por VABs médios
bastante elevados.
60
Nº de Empresas
50
40
30
20
10
2002
2001
2000
1999
1998
1997
1996
1995
1994
1993
1992
1991
0
Ano
Fabricação de produtos farmacêuticos de base
Fabricação de preparações farmacêuticas
Fabricação de medicamentos
Figura 16: Evolução das empresas da Indústria Farmacêutica em Portugal [17].
Geograficamente, estas empresas encontram-se concentradas no distrito de Lisboa (27 empresas
num total de 33).
O sector da Protecção Ambiental pode associar-se ao CAE 90 (Saneamento, higiene pública e
actividades similares), que foi introduzido no ano 2000 e exibe também um pequeno número de
empresas. Estas empresas surgiram provavelmente devido à crescente preocupação com o
tratamento de águas residuais e protecção do ambiente e já se encontram empresas com alguma
dimensão a trabalhar nesta área, nomeadamente na gestão de resíduos e limpeza pública em
geral (Tabela 7).
Tabela 7: Empresas na Protecção Ambiental em Portugal [17].
Valores médios
CAE
Descrição do CAE
Número de
Empresas
Número de
empregados
90001
Recolha e tratamento de águas residuais
90002
Gestão de resíduos e limpeza pública em geral
90003
Gestão de outros resíduos e actividades
VAB
5
53
3 557 130
24
150
3 619 473
6
29
1 696 627
Estas empresas encontram-se predominantemente no distrito de Lisboa, mas existem empresas
de CAE 90002 em praticamente todos os distritos, reflectindo uma necessidade local de
tratamento dos resíduos urbanos. Dada a recente introdução (2000) desta nova categoria de CAE,
a evolução das empresas baseada na evolução do CAE é necessariamente pouco informativa.
23
As empresas que investem na Nova Biotecnologia em Portugal caracterizam-se por serem
recentes, constituídas na década de 90 com capital quase sempre exclusivamente nacional
proveniente de pequenos investidores, e devido a esta situação, o seu impacto na economia
portuguesa ainda é muito reduzido.
2.2. Unidades de Investigação em Portugal
Segundo a base de dados do Observatório da Ciência e do Ensino Superior [19], existem 1153
Unidades de Investigação em Portugal com actividades de Investigação e Desenvolvimento, das
quais 139 se incluem na área das Ciências Biológicas, 423 na área das Ciências da Saúde e 39
na área da Engenharia Bioquímica, sendo estas as áreas relacionadas com a biotecnologia.
Algumas destas unidades de investigação incluem-se em mais do que uma área conforme é
ilustrado no seguinte construir o diagrama.
Ciências
Biológicas
46
Ciências
da Saúde
68
359
14
11
4
10
Engenharia
Bioquímica
Figura 17: Unidades de Investigação com actividades de Investigação e Desenvolvimento em
Portugal. Os números nas zonas de intersecção indicam unidades que se incluem em mais do que
uma área.
As Unidades de Investigação mencionadas encontram-se em três tipologias de instituições: Ensino
Superior (228 unidades), Estado (253) e Instituições Privadas sem Fins Lucrativos (IPsFL, 31).
instituições e empresas identificadas
As Unidades de Investigação do Ensino Superior encontram-se distribuídas segundo a Tabela 8.
24
Tabela 8: Unidades de Investigação no Ensino Superior [19].
Instituição (Distrito)
Secção
Instituto Jean Piaget (Setúbal)
Nº Unid.
CB*
CS*
2
1
1
1
1
Instituto Politécnico da Guarda
Escola Superior de Educação
Instituto Politécnico de Beja
Escola Superior Agrária
1
1
Escola Superior de Educação
1
1
Escola Superior Agrária
1
1
Escola Superior de Enfermagem
1
Instituto Politécnico Castelo Branco
Escola Superior Agrária
1
Instituto Politécnico de Coimbra
Escola Superior Agrária
1
1
Instituto Politécnico de Leiria
Escola Superior de Enfermagem
1
1
1
1
Instituto Politécnico de Lisboa
Escola Superior
Fernanda Resende
Instituto Politécnico de Portalegre
Escola Superior de Educação
1
1
Instituto Politécnico de Santarém
Escola Superior Agrária
1
1
Escola Superior de Desporto – Rio Maior
1
Instituto Politécnico de Setúbal
Escola Superior de Saúde
1
Instituto Politécnico de Viana do
Castelo
Escola Superior Agrária – Ponte de Lima
1
1
Escola Superior de Tecnologia e Gestão
1
1
Instituto Politécnico de Bragança
Escola Superior de Tecnologia do Mar
de
Enfermagem
Maria
1
1
1
1
1
1
1
1
1
Instituto Superior de Ciências da
Saúde (Porto, Setúbal)
3
3
Instituto de Ciências do Intelecto e
do Físico, para o Bem-Estar e a
Segurança (Porto)
1
1
Instituto Sup. Psicologia Aplicada
(Lisboa)
Unidade de Investigação em Eco-Etologia
1
EB*
1
Universidade dos Açores
5
5
1
2
Universidade do Algarve
7
6
1
1
8
7
2
1
4
1
3
2
Universidade Católica Port. (Porto)
2
2
2
1
Universidade de Évora
5
5
3
1
Univ. Fernando Pessoa (Porto)
1
1
1
1
Universidade
(Lisboa)
1
1
Faculdade de Ciências
12
10
4
Faculdade de Farmácia
5
1
5
Faculdade de Medicina
Universidade de Aveiro
Universidade da
(Castelo Branco)
Beira
Interior
Independente
Universidade de Lisboa
Universidade Nova de Lisboa
1
2
27
2
27
Faculdade de Medicina Dentária
1
1
1
Instituto Bacteriológico de Câmara Pestana
1
Escola Nacional de Saúde Pública
1
1
1
1
Faculdade de Ciências e Tecnologia
8
7
2
4
Faculdade de Ciências Médicas
1
21
1
21
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
2
1
1
Instituto de Higiene e Medicina Tropical
4
2
4
1
Instituto de Tecnologia Química e Biológica
1
1
1
1
25
Instituição (Distrito)
Universidade Técnica de Lisboa
Universidade do Porto
Secção
Faculdade de Motricidade Humana
Nº Unid.
CB*
CS*
10
5
7
Instituto Superior de Agronomia
5
4
1
Instituto Superior Técnico
2
1
2
1
Centro de Materiais – CEMUP
1
1
Faculdade de Ciências
1
1
Faculdade de Ciências do Desporto e de
Educação Física
4
2
Faculdade de
Alimentação
1
Ciências
da
Nutrição
e
1
2
1
2
Faculdade de Medicina
15
1
15
Instituto
Salazar
Ciências
Biomédicas
5
de
Abel
5
6
4
6
4
3
2
Faculdade de Farmácia
2
1
2
Faculdade de Medicina
17
4
17
1
1
1
Universidade da Madeira
3
2
2
1
Universidade do Minho (Braga)
3
1
2
2
Universidade de Trás-os-Montes
4
Alto Douro (Vila Real)
* - CB: Ciências Biológicas; CS: Ciências da Saúde; EB: Engenharia Biológica
2
3
1
Universidade de Coimbra
de
1
4
Faculdade de Farmácia
Faculdade de Medicina Dentária
EB*
Faculdade de Ciências e Tecnologia
Faculdade de Ciências do Desporto e Educação
Física
2
É de realçar que cerca de 90% das Unidades de Investigação pertencentes ao ensino superior
estão associadas a Universidades, dos quais 81% se situam nos distritos de Lisboa (50%), Porto
(19%) e Coimbra (12%), revelando uma forte polarização da investigação nestes três distritos.
Também é de notar que a grande parte das instituições se dedica essencialmente às Ciências da
Saúde ou às Ciências Biológicas, como já seria de esperar a partir da distribuição apresentada no
diagrama da Figura 17.
As Unidades de Investigação pertencentes ao Estado distribuem-se de acordo com a Tabela 9.
26
Tabela 9: Unidades de Investigação do Estado [19].
Instituição
Distrito
Nº Unid.
CB*
CS*
Câmara Municipal de Setúbal
Setúbal
1
Governo Regional da Madeira
R. A. Madeira
4
1
Governo Regional dos Açores
R. A. Açores
2
2
Ministério da Economia
Lisboa
3
1
Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas
Aveiro
1
1
EB*
1
2
2
3
Coimbra
1
1
Lisboa
5
2
1
Santarém
1
1
1
Viseu
1
Ministério da Ciência e da Tecnologia
Lisboa
2
2
Ministério da Cultura
Lisboa
2
2
Ministério da Defesa Nacional
Lisboa
1
Ministério da Justiça
Coimbra
1
1
1
Lisboa
1
1
1
Porto
1
1
1
1
1
Ministério da Reforma do Estado e da Administração Pública
Lisboa
1
1
Ministério da Saúde
Aveiro
5
5
Braga
5
5
Bragança
1
1
Coimbra
32
32
Faro
3
3
75
75
2
2
65
65
R. A. Açores
1
1
R. A. Madeira
1
1
Santarém
1
1
23
23
2
2
Vila Real
1
1
Viseu
2
2
Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território
Lisboa
1
1
Ministério do Equipamento Social
Lisboa
1
1
Ministério do Trabalho e da Solidariedade
Lisboa
3
3
Porto
1
1
Lisboa
Portalegre
Porto
Setúbal
Viana
Castelo
do
1
* - CB: Ciências Biológicas; CS: Ciências da Saúde; EB: Engenharia Biológica
Relativamente às Unidades de Investigação associadas ao Estado, nota-se que a maioria está
relacionada com o Ministério da Saúde (87%), destacando-se os distritos de Lisboa, Porto e
Coimbra. O Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, o segundo Ministério em
27
termos de número de Unidades, abarca apenas 3,6% do número total, com preponderância do
distrito de Lisboa. Como seria de esperar, devido ao peso do Ministério da Saúde, a grande
maioria das Unidades de Investigação concentra-se na área das Ciências da Saúde.
Finalmente, as Unidades de Investigação pertencentes a IPsFLs encontram-se distribuídas no
território português de acordo com a Tabela 8.
Tabela 10: Unidades de Investigação de IPsFLs [19].
Distrito
Nº
Unid.
CB*
CS*
EB*
Braga
1
1
Coimbra
7
3
Évora
1
1
Lisboa
11
3
9
Porto
8
5
7
Região Autónoma da Madeira
1
1
1
Região Autónoma dos Açores
1
1
Setúbal
1
1
5
1
1
2
* - CB: Ciências Biológicas; CS: Ciências da Saúde; EB: Engenharia Biológica
O padrão manifestado anteriormente continua a revelar-se nas Instituições Privadas sem Fins
Lucrativos (IPsFLs): a densidade maior de Unidades de Investigação concentra-se mais uma vez
nos distritos de Lisboa (35%), Porto (26%) e Coimbra (23%), onde as áreas predominantes voltam
a ser as Ciências da Saúde e as Ciências Biológicas.
Desta análise pode concluir-se que a investigação em Portugal na área das Ciências da Saúde,
Ciências Biológicas e Engenharia Bioquímica, se encontra muito concentrada em três distritos:
Lisboa, Porto e Coimbra, de onde será de esperar que surjam mais iniciativas empresariais na
área da Nova Biotecnologia, uma vez que estas estruturas é que podem albergar os futuros
empresários.
Por outro lado, as estatísticas efectuadas mais recentemente para contabilizar o total de
investigadores em Portugal datam de 2001 [20], e mostram uma evolução crescente de cerca de
27% entre 1997 e 1999, seguido de um abrandamento no crescimento para 10% de 1999 a 2001,
ano em que o total de investigadores se cifrava em 31 146. A distribuição de investigadores
segundo o sector onde executam as actividades de I&D é ilustrada pelo gráfico ilustrado na Figura
18.
28
17%
55%
Empresas
Estado
Ensino Superior
15%
13%
IPsFL
Figura 18: Distribuição de Investigadores segundo sector de execução, para um número total de
31 146 [20].
É de salientar que Portugal detém uma das percentagens mais reduzidas (0,34%) de
investigadores em relação ao total da população activa em toda a União Europeia, onde a
Finlândia lidera com uma fracção de 1,34% da população activa [20].
29
3. PRINCIPAIS RESULTADOS DAS AUDITORIAS TECNOLÓGICAS
AO SECTOR DE BIOTECNOLOGIA
3.1. Breve descrição da metodologia de auditoria
Com base na metodologia de auditoria de inovação desenvolvida para o Projecto FIVE foram
realizadas auditorias a 24 empresas.
O modelo conceptual subjacente à metodologia baseia-se numa leitura do funcionamento da
empresa relativamente à gestão dos activos tecnológicos e da inovação no seio da organização e
no quadro das suas relações com a envolvente. A presente metodologia considera que as
empresas possuem um conjunto de capacidades que lhes permitem gerir de forma mais ou menos
eficaz a sua base tecnológica. Assim, as capacidades de gestão de tecnologia de uma empresa
são entendidas como um conjunto complexo de competências e conhecimento acumulado,
desenvolvidos através de processos de aprendizagem organizacional, que permitem às empresas
a coordenação das suas actividades e a utilização dos seus activos tecnológicos.
Estas capacidades são postas ao serviço da empresa, para que, de uma forma dinâmica, esta
possa gerir o conjunto dos activos tecnológicos que possui (a sua base tecnológica), no sentido de
promover uma atitude inovadora e de gerar mais-valias para a organização. Nesta sequência, a
avaliação da base tecnológica da empresa torna-se determinante, para se aferir as suas
necessidades e capacidades tecnológicas e quais as perspectivas de evolução futura. A análise
da base tecnológica da empresa é o elemento central de toda a metodologia de análise, uma vez
que é com base nesta avaliação que se determinam as competências da empresa (procurando as
possíveis soluções de valorização empresarial da tecnologia), bem como as suas necessidades
(que, por exemplo, possam dar indicações quanto a possíveis apoios a processos de spin-offs
académicos).
Por outro lado, a gestão tecnológica está necessariamente relacionada com a estrutura
organizacional da empresa, pelo que se torna premente averiguar a arquitectura subjacente à
gestão, concretizada na dimensão estrutura e estratégia.
Por fim, o processo de interacção com a envolvente, uma vez que a empresa é um sistema aberto,
a estruturação dos processos e as trajectórias de inovação dependem, não só de factores
internos, mas também da sua articulação com o meio circundante. Esta articulação opera-se quer
ao nível do ambiente geral, que é constituído pelos aspectos da envolvente que influenciam o
comportamento da empresa mas que não são controláveis por esta – aspectos sociais, políticos,
legais, económicos, científicos, tecnológicos -, quer ao nível do ambiente específico, integrado por
agentes que desenvolvem relações de troca com a empresa, nomeadamente clientes e
fornecedores, e que a influenciam e são influenciados por ela. A Figura 19 apresenta uma
30
representação do modelo conceptual de avaliação utilizado nas auditorias realizadas no âmbito do
projecto FIVE.
Figura 19: Modelo Conceptual de Avaliação
A partir do modelo conceptual apresentado, podem-se então diferenciar quatro dimensões de
análise, às quais se acrescentou uma dimensão adicional de carácter genérico:
•
Características Gerais da Empresa
•
Base Tecnológica
•
Capacidades de Gestão de Tecnologia
•
Estrutura e Estratégia
•
Interacção com a Envolvente
Se por um lado, estas componentes não assumem o mesmo grau de importância nem exigem o
mesmo nível de profundidade de análise, por outro, não devem ser analisadas de forma separada
visto que estão interrelacionadas entre si. De facto, o cerne de todo o processo de auditoria
situa-se ao nível das dimensões "Base Tecnológica" e "Capacidades de Gestão de Tecnologia", o
que distingue a auditoria tecnológica e de inovação de todas as auditorias convencionais estratégicas, de gestão, empresariais. No entanto, a nível interno, as competências e capacidades
tecnológicas e de inovação das empresas não podem ser analisadas independentemente das
suas competências e capacidades de gestão, organizacionais e de definição de um
posicionamento competitivo, pelo que surge a análise da dimensão "Estrutura e Estratégia". Como
a empresa não vive isoladamente mas funciona como um sistema aberto, tem que ser analisada
num determinado contexto ou envolvente - daí a dimensão "Interacção com a Envolvente". Esta
interacção será determinante para se poder enquadrar a actividade empresarial do sector no
tecido empresarial (e também no científico e tecnológico) nacional, de modo a poderem
determinar-se sinergias que permitam uma acção mais concertada dos vários elementos
constituintes no sentido de um desenvolvimento mais racional do sector da Biotecnologia em
Portugal.
31
3.2. Caracterização geral das empresas
As empresas incluídas neste estudo foram seleccionadas a partir do directório da Associação
Portuguesa de Bioindústrias (APBio), que tem como principais objectivos a divulgação da
biotecnologia portuguesa e o apoio à entrada das empresas nacionais em mercados externos.
Os dados apresentados referem-se a 24 empresas que actuam na área da Nova Biotecnologia.
Embora as empresas mais antigas tenham iniciado a sua actividade na segunda metade do
séc. XX, apenas a partir de do ano 2000 se verificou um aumento significativo do número de
empresas. Este facto está directamente associado à criação de empresas por parte de jovens
doutorados e reflecte uma política de investimento na formação específica das Ciências da Vida,
com a atribuição de bolsas de doutoramento e de apoio a Centros de Investigação. Refira-se ainda
que as áreas de Ciências Biológicas e Engenharia Bioquímica são responsáveis por 10% do total
de doutoramentos em Portugal [22].
A Figura 20 apresenta o aumento do número de empresas e de postos de trabalho entre 2001 e
2004 para a amostra auditada. Neste período de tempo verificou-se o aparecimento de 11 novas
empresas (aumento de 85%) e um aumento de 13% no número de postos de trabalho. Esta
tendência reflecte uma mudança no panorama nacional e comprova a aposta e empenho de
20
1300
15
1250
10
1200
5
1150
0
1100
Nº de Colaboradores
1350
2004
25
2003
1400
2002
30
2001
Nº de Empresas
alguns investigadores na criação do seu próprio negócio.
Ano
Nº de Empresas
Nº de Colaboradores
Figura 20: Evolução do número de empresas de Nova Biotecnologia e de trabalhadores (dados da
amostra)
Tal como já tinha sido verificado para as empresas portuguesas que utilizam Biotecnologia
Tradicional, também as empresas aqui analisadas apresentam um número de CAE bastante
diversificado (Tabela 9). Este facto torna difícil a sua caracterização económica e dificulta a análise
32
da representatividade da amostra considerada face ao número total de empresas de Nova
Biotecnologia, pois não é fácil determinar este último.
Tabela 11: Números de CAE das empresas que constituem a amostra.
CAE
N.º de empresas
Não responderam
7
05020
1
15893
1
24410
2
24421
1
51900
1
52488
1
73100
3
74140
3
74202
2
74842
1
85145
1
Apesar da maioria das empresas exercer actividade no sector das Ciências da Vida (Figura 21),
apenas três possuem um CAE associado ao fabrico de produtos farmacêuticos. Na área AgroAlimentar apenas surge uma empresa cujo CAE se associa ao fabrico e utilização de leveduras
(15893). As restantes empresas apresentam um código de actividade bastante diversificado e
mesmo algumas das empresas mais recentes, que aguardam o financiamento de projectos,
iniciaram actividade na área da Consultoria (CAE 74140).
A distribuição das empresas por sector apresenta a mesma tendência observada nos EUA,
Europa e outras regiões, onde as maiores expectativas de desenvolvimento e apresentação de
novos produtos se encontram nas Ciências da Vida, seguidas da área Agro-Alimentar e Serviços.
33%
38%
Ciências da Vida
Agro-Alimentar
Protecção Ambiental
4%
25%
Serviços
Figura 21: Distribuição de empresas por área de actividade.
33
A área da Protecção Ambiental apresenta um grande potencial, principalmente na biorecuperação
de solos, devido à crescente preocupação com o ambiente e procura de indústrias não poluentes
(Tratado de Quioto). No entanto, as dificuldades económicas sentidas no país e na Europa em
geral forçam as empresas à redução de custos, limitando a procura de serviços nesta área em
períodos de abrandamento económico.
60
Nº de empresas
50
40
30
20
10
0
Ciências da vida/serviços
Arranque
Agro alimentar/ambiente
Desenvolvimento
Consolidação
Figura 22: Fases de desenvolvimento económico das empresas em função do sector da
biotecnologia.
De um modo geral, as empresas foram agrupadas segundo o seu estágio de desenvolvimento
económico, dividindo-as em fase de arranque (#11, 46%), de desenvolvimento (#7, 29%) e de
consolidação (#6, 25%). Em fase de arranque foram incluídas empresas sem actividade comercial
e a desenvolver I&D dos seus produtos/processos ou em vias de o fazer. Na fase de
desenvolvimento
encontram-se empresas a desenvolver alguns produtos/processos, em que um destes já é
comercializado. Por último, na fase de consolidação encontram-se as empresas já com
comercialização de mais do que um produto e que normalmente apresentam mais de quatro anos
de actividade. Algumas destas empresas iniciaram actividade com processos de fermentação
convencional, mas actualmente já desenvolvem investigação e apostam no desenvolvimento de
processos associados à Nova Biotecnologia.
Na análise do tipo de sociedade e estrutura accionista observa-se uma tendência para as
empresas evoluírem para uma estrutura de sociedade anónima (S.A.) a partir da qual poderão ser
cotadas na bolsa. Destas empresas, 83% são constituídas apenas por capital nacional, e só 12%
têm capital estrangeiro (5% não responderam).
34
Percentagem de empresas
100
80
Quotas
60
S.A.
40
20
0
Arranque
Desenvolvimento
Consolidação
Fase de desenvolvimento
Figura 23: Estrutura jurídica das empresas nas três fases de desenvolvimento económico.
O início de actividade com apoio financeiro de sociedades de capital de risco começa agora a ser
mais evidente, ficando contudo muito aquém do que se verifica nos EUA e na UE. Em Portugal
ainda não existe uma cultura de capital de risco, e quando surge encontra-se normalmente
associada à banca. Embora o grande potencial da biotecnologia seja reconhecido, os montantes
necessários para o investimento inicial e os ciclos longos associados à I&D, aliados ao facto de
Portugal não ser reconhecido como um país de elevado potencial tecnológico, intimidam e
comprometem a participação das capitais de risco portuguesas.
Percentagem de empresas
100
80
60
com C.R.
sem C.R.
40
20
0
Arranque
Desenvolvimento
Consolidação
Fase de desenvolvimento
Figura 24: Investimento de capital de risco (C.R.) nas empresas analisadas considerando as três fases
de desenvolvimento económico.
Apesar de apenas 29% do total de empresas ter referido o seu VAB, pode verificar-se que grande
parte das empresas em fase de arranque gera poucas ou nenhumas receitas. Os dados obtidos
em relação a este indicador provêm de empresas em fase de consolidação e de desenvolvimento,
já que apenas duas das empresas em fase de arranque apresentam receitas. Na grande maioria
das empresas em fase de arranque os gestores aguardam financiamento estatal, acumulando
funções para garantirem o vencimento mensal.
35
Devido à falta de receitas e ao elevado custo dos equipamentos e instalações, apenas cinco
empresas têm espaço próprio, quatro são empresas consolidadas e uma está em fase de
desenvolvimento. As outras empresas arrendam espaços a Institutos ou Universidades onde
desenvolvem ou irão desenvolver a sua actividade laboratorial (46%). Esta situação não é vista
como uma desvantagem, uma vez que se aproveitam recursos já existentes e se estabelecem
ligações mais próximas com Centros de Investigação.
Em relação à certificação, todas as empresas conhecem as diferentes normas e referem a
importância deste factor. No entanto, em fase de arranque este não é entendido como sendo uma
prioridade ou uma necessidade das empresas, o que vai ao encontro do facto de nenhuma possuir
certificação. Por outro lado, todas as empresas em fase de consolidação são certificadas, quatro
das quais segundo a norma ISO 9001:2000 e uma em processo de certificação de acordo com
esta mesma norma. São indicadas ainda outras normas específicas da área de actividade, tais
como, FDA, ICH-GCP, GM 9001. Quanto às empresas em fase de desenvolvimento, ou se
encontram certificadas (28%) ou visam obter certificação num período máximo de três anos.
No esquema da Figura 25 é ilustrada a estrutura do mercado alvo das empresas de acordo com a
fase de desenvolvimento. Verifica-se que a maioria das empresas consolidadas tem como
mercado alvo a indústria farmacêutica.
Mercados
Farmacêutica
Hospitais (diagnóstico)
Agro-alimentar
Ambiental
Biotecnologia industrial
Consumidor final
Serviços
Fase da empresa
Fase de arranque
Fase de desenvolvimento
Fase de consolidação
Figura 25: Estrutura do mercado alvo em função da fase de desenvolvimento da empresa.
36
Por outro lado, as empresas mais recentes (em fase de arranque) apostam sobretudo no mercado
Agro-Alimentar, e quando a sua tecnologia o permite abordam outro tipo de mercados
(farmacêutico, clínico e ambiental). Nestes dois últimos realiza-se sobretudo o desenvolvimento e
comercialização de métodos de diagnóstico.
Apenas quatro empresas apresentam como um dos mercados alvo a biotecnologia industrial,
apesar da principal facturação dessas empresas estar relacionada com outras áreas (Ambiente,
Agro-Alimentar e Farmacêutica). Uma das empresas consideradas de Serviços para o consumidor
final estabeleceu recentemente algumas parcerias para desenvolver I&D na área das Ciências da
Vida, o que implicou a sua colocação na fronteira entre estes dois mercados, sendo considerada
como prestadora de Serviços na área das Ciências da Vida.
Das empresas auditadas, 15 apresentam uma estratégia de internacionalização. Seis, para além
de terem clientes internacionais, a possuem unidades de produção ou de prestação de serviços no
estrangeiro. Nomeadamente, quatro (em fase de consolidação) têm unidades de produção no
estrangeiro (EUA, Brasil e Macau), enquanto que as outras duas (uma em fase de arranque e
outra em fase de desenvolvimento) têm escritório nos EUA. As restantes nove empresas têm
clientes internacionais que na maior parte dos casos representam mais de metade da sua
facturação.
Clientes e
instalações
internacionais
6
Não 9
Clientes
internacionais
9
Figura 26: Existência de estratégia de internacionalização das empresas.
3.3. Caracterização da base tecnológica
A análise da base tecnológica da empresa é feita segundo duas perspectivas: a base tecnológica
actual e uma análise prospectiva das tecnologias relevantes para a empresa no futuro.
A caracterização da base tecnológica actual da empresa, isto é, do conjunto de tecnologias-chave
que a mesma detém, abarca quer a inventariação, quer a classificação ou avaliação das
tecnologias existentes na organização.
A análise foi baseada nas respostas aos inquéritos, com uma taxa de sucesso de 46%. É de
salientar que, no que toca à caracterização da base tecnológica, apenas uma empresa em fase de
desenvolvimento respondeu ao questionário.
37
Foram considerados dois critérios na definição das tecnologias da empresa: (i) a tecnologia tem
que ser relevante, i.e., deverá ter algum valor para a competitividade da empresa e dos seus
produtos e (ii) a tecnologia tem que ser distinta de outras no seio da empresa e diferente dos
produtos da empresa, embora possa ser vendida ou licenciada ela própria como um produto.
Foram considerados três vectores de caracterização da base tecnológica das empresas,
designadamente: a capacidade tecnológica em relação aos competidores, a importância da
tecnologia e o seu potencial de desenvolvimento.
Importância
Interna
Externa
Capacidade Tecnológica
I&D
Evolução da
Tecnologia
Situação
Proprietária
Pessoas e
Equipas
Equipamentos
Controlo
Potencial de Desenvolvimento
Figura 27: Vectores de classificação da base tecnológica da empresa
Ao conjunto de indicadores foi atribuído um valor numérico entre 1(mínimo) e 5 (máximo), de
acordo com o desempenho da empresa num determinado parâmetro.
Tabela 12: Caracterização dos indicadores de capacidade tecnológica.
Indicador
Descrição
Equipamentos
Avalia a adequação dos equipamentos existentes para a eficiência e
eficácia dos processos tecnológicos
Recursos Humanos
Avalia nível de formação profissional, flexibilidade e experiência dos
recursos humanos
Controlo
Avalia o tipo de monitorização
equipamentos face à tecnologia
Situação Proprietária
Avalia o grau de protecção da tecnologia
I&D
Avalia a existência de I&D associado à tecnologia
e
controlos
efectuados
pelos
Na auto-avaliação da capacidade tecnológica, à excepção do indicador situação proprietária, não
parece existir uma relação directa entre o estágio de desenvolvimento da empresa e a sua
capacidade tecnológica. Ou seja, de um modo geral, os gestores consideram que as tecnologias
38
da empresa se encontram bem posicionadas face à concorrência, atribuindo-lhes um nível médio
ou superior.
Equipam entos Associados às Tecnologias
A
D
C
Recursos Hum anos Associados às Tecnologias
A
D
C
Capacidade de Controlo das Tecnologias
A
D
C
Situação Proprietária sobre as Tecnologias
A
D
C
Existência de I&D
A
D
C
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
Insustentável, m uito abaixo das capacidades dos com petidores
Sustentável, situação equivalente m as abaixo em alguns aspectos
Razoável, equivalente ou ligeiram ente superior à m édia
Dom inante, com dom ínio nos aspectos chave; entre os m elhores
Superior, em que sobressai na generalidade de parâm etros
Figura 28: Níveis atribuídos aos indicadores de capacidade tecnológica (A-Arranque; DDesenvolvimento; C-Consolidação)
O nível médio mais baixo foi atribuído aos equipamentos e à sua capacidade de controlo, o que
significa que a idade dos equipamentos, a sua flexibilidade e os mecanismos de monitorização
poderão condicionar a capacidade de inovação.
No indicador situação proprietária relativa à tecnologia, onde é possível identificar maiores
diferenças em função do estágio de desenvolvimento das empresas, verificamos que as empresas
num estágio mais avançado apresentam uma situação mais favorável em termos da protecção dos
seus activos tecnológicos. A existência de mais activos passíveis de protecção e consequente
utilização de mecanismos mais “sofisticados”, tais como patentes ou licenças, poderá estar na
origem desta situação.
Destaca-se o nível médio de quatro atribuído aos recursos humanos, que salienta a adequação da
formação profissional, flexibilidade para a execução de diferentes tarefas e experiência com a
tecnologia em questão, bem como o nível médio de quatro atribuído à existência de I&D. Nestes
indicadores é evidente o nível médio mais elevado nas empresas em estado de arranque. Este
facto está provavelmente relacionado com a criação de empresas por recém-doutorados em
biotecnologia e áreas afins como forma de valorizar empresarialmente o seu conhecimento.
39
Tabela 13: Caracterização dos indicadores da importância da tecnologia.
Indicador
Descrição
Avalia o peso interno da tecnologia nos recursos da empresa
Peso interno nos recursos
Avalia a relevância da tecnologia para a competitividade dos
produtos da empresa
Relevância externa
Os gestores das empresas em fase de arranque atribuem maior relevância à tecnologia enquanto
possível fonte de competitividade para os produtos da empresa, em comparação com os gestores
das empresas nos outros estágios. Por outro lado, o peso dos recursos afectos às tecnologias –
sobretudo os recursos humanos - não difere de forma significativa nas três situações
consideradas.
5
A
A
4
Relevância Externa
A
C
A
C
Arranque
Desenvolvimento
3
D
C
Consolidação
2
1
1
2
3
4
5
Importância Interna
Figura 29: Importância Interna vs. Relevância Externa
O indicador do potencial de desenvolvimento da tecnologia considera uma composição entre o
gap para o estado-da-arte da tecnologia da empresa e o grau de obsolescência da tecnologia a
nível internacional.
40
Tabela 14: Níveis do indicador de potencial de desenvolvimento da tecnologia.
1
2
3
4
5
Empresa
Longe do estado
da arte
Estado da arte
Algum atraso
Estado da arte
Estado da arte
Tecnologia
Madura
Madura
Crescimento
para declínio
Crescimento
Embrionária
A avaliação é feita em função de um índice que reflecte a diferença entre o gap 1 e o gap 2 (Figura
30). Isto é, quanto maior for a distância do estado da arte para a obsolescência da tecnologia e
menor a distância da empresa à situação internacional, maior o potencial de desenvolvimento.
Para valores negativos, a empresa deverá equacionar fortemente alternativas à tecnologia.
Figura 30: Esquema representativo da análise do potencial de desenvolvimento da tecnologia
Com o indicador do potencial de desenvolvimento da tecnologia pretende-se avaliar o grau de
obsolescência da tecnologia a nível internacional. Se uma determinada tecnologia está madura a
nível internacional e começa a ser substituída por outra, poderá não fazer sentido continuar a
investir no desenvolvimento desta tecnologia na empresa e procurar conhecer, desde logo, as
formas de acesso às alternativas tecnológicas em desenvolvimento.
Verificou-se que os gestores posicionam as várias tecnologias enumeradas num estado da arte
que corresponde a uma fase de crescimento qualquer que seja o estágio de desenvolvimento das
empresas.
41
A
D
C
0%
20%
40%
60%
80%
100%
Emp. longe do estado arte e este com tecnologia madura
Emp. no estado arte mas este longe de tecnol. madura
Tecnologia em fase de crescimento e empresa c/ atraso
Empresa no estado arte e este em f ase de crescimento
Empresa no estado arte e este correspondente a fase embrionária
Figura 31: Potencial de desenvolvimento das tecnologias (A-Arranque; D-Desenvolvimento; CConsolidação)
Paralelamente, verifica-se uma maior heterogeneidade no desenvolvimento tecnológico das
empresas consolidadas. De acordo com os dados obtidos, todas as empresas se situam no estado
da arte, mas enquanto algumas possuem uma tecnologia madura outras encontram-se ainda
numa fase embrionária ou de crescimento.
3.4. Capacidade de gestão da tecnologia
Após a análise das características gerais e da base tecnológica das empresas, interessa avaliar a
capacidade de gestão da tecnologia por forma a perceber quais as capacidades das empresas
que deverão suportar a evolução contínua e sustentada do desenvolvimento das suas tecnologias.
Tal como para a avaliação dos indicadores da base tecnológica, do número inicial de empresas
seleccionadas para o estudo (24) apenas 42% foram analisadas, quer por falta de informação
disponibilizada quer por referirem não possuir qualquer tecnologia. Assim, para a análise desta
dimensão foi considerado um conjunto de capacidades chave das empresas que se encontram
definidas na Tabela 15.
42
Tabela 15: Caracterização dos indicadores da capacidade de gestão da tecnologia.
Indicador
Descrição
Identificação e Classificação
Avalia a capacidade da empresa em caracterizar a sua base
tecnológica
Análise da Envolvente Tecnológica
Determina os meios de que a empresa dispõe para se informar
acerca de novas tecnologias
Apropriação de Tecnologias
Caracteriza a capacidade da empresa em identificar e adquirir
novas tecnologias
Desenvolvimento Tecnológico
Avalia a importância da I&D no quadro da empresa e recursos
afectos a estas actividades
Capacidade
Exploração
Exploração
Tecnologia
da
de
Avalia a rentabilização da tecnologia na empresa e os
mecanismos de protecção
Produção
Caracteriza a capacidade de introdução de melhorias e
inovações em processos tecnológicos
Concepção
Caracteriza a capacidade de introdução de melhorias e
inovações em produtos
Também nesta caracterização a cada um dos indicadores foi atribuído um valor numérico entre 1 e
5, de acordo com o desempenho da empresa num determinado parâmetro. A Figura 32 ilustra a
dispersão dos indicadores obtidos para as empresas auditadas. De referir que, também no que
concerne à dimensão de análise Capacidade de Gestão de Tecnologia, apenas uma empresa em
fase de desenvolvimento respondeu ao questionário.
Identificação e Caracterização
A
D
C
Análise da Envolvente Tecnológica
A
D
C
Apropriação de Tecnologias
A
D
C
Devenvolvim ento Tecnológico
A
D
C
Capacidade de Exploração de Tecnologias
A
D
C
Capacidade de Introdução de Melhorias e Inovações na Produção
A
D
C
Capacidade de Introdução de Melhorias e Inovações nos Produtos
A
D
C
0%
10%
1
2
20%
3
4
30%
40%
50%
60%
70%
80%
90%
5
Figura 32: Indicadores da capacidade de gestão da tecnologia (A-Arranque; D-Desenvolvimento; CConsolidação) 1(mínimo) e 5 (máximo)
Numa primeira análise, pode constatar-se que, de uma forma geral, as empresas analisadas
apresentam valores de indicadores acima de 3, o que indica que estas empresas consideram
possuir uma boa capacidade de gestão da tecnologia. Como seria de esperar, o nível de
43
100%
desenvolvimento económico acompanha, de um modo geral, a capacidade de gestão da
tecnologia, pois enquanto empresas em fase de arranque ainda necessitam de um certo período
até atingirem níveis de apropriação tecnológica mais elevados, as empresas consolidadas têm um
maior domínio das tecnologias resultante de um esforço mais prolongado de apropriação.
No que diz respeito à Identificação e Classificação das tecnologias todas as empresas analisadas
conseguem uma caracterização completa, embora não formalizada, das tecnologias que detêm, o
que é fundamental para uma gestão adequada. Para empresas consolidadas essa caracterização
já se encontra na sua maioria formalizada através de um recenseamento completo em manuais de
operação.
Na Análise da Envolvente Tecnológica todas as empresas reconhecem a importância de se
manterem a par dos mais recentes desenvolvimentos tecnológicos que possam implicar uma
melhoria das suas próprias tecnologias. As diferenças encontradas de acordo com o nível de
desenvolvimento económico reflectem essencialmente a dificuldade que as empresas em fase de
arranque revelam em possuir departamentos próprios para este efeito, e não uma falta de
iniciativa.
Também na Capacidade de Apropriação de Tecnologias se revela uma tendência semelhante à do
indicador anterior, pois as empresas têm de se inteirar dos mais recentes desenvolvimentos em
tecnologia antes de as poderem adquirir. De um modo geral as empresas efectuam análises
aprofundadas, embora sem preocupação de avaliação formal (através de departamentos
próprios), das novas tecnologias.
Dos vários critérios tidos em conta nas referidas análises (como facilidade de apropriação, grau de
exclusividade, risco financeiro e tecnológico) todos foram considerados relevantes, sendo que
para as empresas em fase de arranque o mais significativo é o grau de exclusividade enquanto
que para as empresas já consolidadas se dá mais peso ao valor de investimento.
44
Facilidade de apropriação
A
D
C
Grau de exclusividade
A
D
C
Valor do inves tim ento
A
D
C
Fam iliaridade da em pres a com a tecnologia
A
D
C
Fam iliaridade das instituições tecnológicas com a tecnologia
A
D
C
Contrato de as sistência técnica
A
D
C
Risco financeiro e tecnológico
A
D
C
Prazo até apropriação com pleta
A
D
C
0%
10%
20%
1
30%
2
3
4
40%
50%
60%
70%
80%
90%
100%
5
Figura 33: Critérios considerados para a apropriação de tecnologias (A-Arranque; DDesenvolvimento; C-Consolidação) 1(mínimo) e 5 (máximo)
Tal como o factor exclusividade, também o prazo de apropriação completa da tecnologia é um
factor muito mais crítico para uma empresa em fase de arranque do que para uma empresa
consolidada. De facto, o sucesso de algumas empresas de biotecnologia em fase de arranque
depende da rapidez de implementação de uma nova tecnologia, que interessa proteger e a partir
da qual será obtido o retorno do investimento. Por outro lado, uma empresa consolidada já dispõe
de vários processos tecnológicos e a sua sobrevivência não está tão dependente do tempo de
implementação de uma determinada tecnologia. Finalmente, o risco financeiro da apropriação é
considerado igualmente crítico em ambos os casos.
Quanto aos principais processos de apropriação de tecnologias, das 24 empresas apenas 42% os
referiu, sendo relacionados na sua maioria com a aquisição da tecnologia ainda numa fase de
desenvolvimento e com colaborações de I&D quer com Universidades quer com Institutos
Tecnológicos.
O indicador de Desenvolvimento Tecnológico reflecte a importância da I&D no quadro da empresa,
em conjunto com os recursos (departamentos próprios e recursos humanos) destinados a este fim.
Neste caso, as empresas em fase de arranque apresentam um valor de indicador mais baixo, não
devido a desinteresse em investigação e desenvolvimento mas sim por falta de capacidade
financeira, o que impede a existência de recursos próprios.
45
A Exploração da Tecnologia refere-se à capacidade da empresa na utilização das suas
tecnologias de uma forma eficiente e eficaz, quer a nível de processos e produtos quer a nível da
comercialização dessas tecnologias. Este indicador subdivide-se em três:
•
Capacidade de Exploração da Tecnologia, que envolve uma vertente global associada
à capacidade de detecção de oportunidades de exploração comercial da tecnologia,
indicando ao mesmo tempo os vários mecanismos de protecção utilizados (segredo,
patentes, avanço tecnológico). Nas empresas estudadas observa-se pouca variação
neste indicador, reflectindo uma política comum de interligação entre vários
departamentos (quando existentes) com a finalidade de rentabilizar a exploração
comercial das tecnologias existentes, utilizando normalmente o segredo como
mecanismo de protecção. Porém, as empresas já consolidadas também recorrem a
patentes como mecanismo de protecção das tecnologias, como se ilustra na Figura
33.
100
85.5
80
45.7
60
Adquiridas
40
20
Submetidas
1.1 1.3
0.4 0.1
0
Arranque
Desenvolvimento
Consolidada
Figura 34: Número de patentes por empresa, segundo a sua fase de desenvolvimento económico
•
Exploração da Tecnologia de Produção, que permite avaliar a incorporação de
melhorias e inovações nos processos tecnológicos. Neste indicador verifica-se mais
uma vez uma relação entre o nível de desenvolvimento económico e a introdução de
melhorias nos processos. Assim, é possível que as empresas em fase de arranque
ainda não tenham tido oportunidade de implementar grandes melhorias nos
processos,
enquanto
que
empresas
já
consolidadas
apresentam
grande
permeabilidade à introdução de inovação ao nível da qualidade, custo, flexibilidade e
tempo de resposta nos seus processos.
•
Exploração da Tecnologia de Concepção, tal como o indicador anterior, permite avaliar
a incorporação de melhorias e inovações, embora neste caso para os produtos. De um
modo geral as empresas mostram-se pouco flexíveis à introdução sistemática de
novos produtos, sendo este tipo de intervenção mais pontual, com peso reduzido ao
nível da facturação da empresa. Esta situação poderá estar relacionada com a
46
reduzida dimensão das empresas e consequente peso que qualquer investimento em
novos produtos assume para as mesmas.
Da análise conjunta dos indicadores de Capacidade de Gestão de Tecnologia pode concluir-se
que, de uma forma geral, todas as empresas detêm uma gestão eficiente dos seus recursos
tecnológicos, apostando em I&D e na melhoria e inovação de processos e produtos de uma forma
concertada. As maiores limitações a um desenvolvimento mais sustentado das tecnologias
prende-se normalmente com a fase de desenvolvimento económico, em que escasseiam os
recursos financeiros para a introdução de inovação nas empresas em fase de arranque.
3.5. Estrutura e estratégia
Esta dimensão pretende traduzir a influência das características organizacionais e de gestão da
empresa na capacidade de gestão dos activos tecnológicos e de inovação. Importa abordar um
conjunto de tópicos para uma caracterização mais correcta da atitude da empresa face à gestão
de tecnologia e inovação e tal como nas secções anteriores ir-se-á proceder a esta análise de
acordo com a fase de desenvolvimento das empresas.
Cerca de 60% das empresas têm menos de dez trabalhadores, o que se reflecte na sua estrutura
e organização. Empresas com maior número de empregados e com início há mais tempo
apresentam um organigrama com departamentos bem definidos, enquanto que empresas mais
recentes, algumas delas constituídas por uma ou duas pessoas, é frequente verificar-se a
acumulação e articulação entre funções. Contudo, a existência de uma forte interligação entre os
departamentos (ou funções no caso de empresas mais pequenas) é comum na maioria das
empresas, tal como a existência de um departamento ou alguém responsável pela I&D.
A grande maioria das empresas em fase de arranque e todas as empresas consideradas
consolidadas apostam na diferenciação de produtos como vantagem competitiva, contando para
isso com a I&D de novos produtos já a decorrer. Mais especificamente, cerca de 80% das
empresas consideradas consolidadas fazem I&D enquanto que apenas 36% das empresas em
fase de arranque estão actualmente a desenvolver actividades de I&D.
% de empresas
100
80
60
40
20
0
Arranque
Des envolvim ento
Consolidação
Figura 35: Desenvolvimento de I&D segundo a fase de desenvolvimento económico das empresas.
47
Das empresas em fase de arranque que não desenvolvem actividades de I&D, 18% não
concorreram a nenhum programa de apoio, mas 45% concorreram e aguardam o desbloqueio do
financiamento.
De um modo geral, nas empresas as decisões são tomadas numa reunião geral com os
accionistas ou sócios, que na maioria dos casos são também responsáveis pelos vários
departamentos. A pesquisa interna ou consultoria informal são os métodos mais utilizados como
fontes de apoio na tomada de decisões. Apenas duas das empresas utilizam o benchmarking e os
estudos de mercado como fontes de apoio em decisões estratégicas.
Dadas as particularidades de cada sector, na abordagem à internacionalização optou-se por
analisar os dados divididos por sector. Verificou-se que na área das Ciências da Vida (na qual se
incluem as empresas de Serviços, existe uma estratégia de internacionalização mais acentuada,
visto que a maioria das empresas tem sobretudo clientes estrangeiros, enquanto apenas uma
empresa da área Agro-Alimentar tem um escritório comercial nos EUA.
Nº de empresas
12
10
8
6
4
2
0
não
clientes
internacionais
Ciências da vida/serviços
clientes e
instalação
internacional
Agro-alimentar/ambiente
Figura 36: Estratégia de internacionalização das empresas segundo o sector de actividade.
Actualmente o Brasil está a ser encarado como um mercado emergente, estando a ser abordado
por investidores ingleses e espanhóis e, na opinião de alguns dos gestores das empresas
diagnosticadas, Portugal poderá perder a oportunidade de explorar este mercado e outros de
língua portuguesa caso não surjam incentivos governamentais de divulgação ou facilitação na
instalação de unidades de produção nestes países. Estes incentivos ou apoios referidos não terão
de ser necessariamente financeiros mas sim facilitadores em termos diplomáticos.
Uma das forças apontadas por todas as empresas está relacionada com a competência dos
recursos humanos, e neste indicador também se considera que a competência do quadro de
recursos humanos é um dos factores determinantes para sustentar processos de mudança na
empresa. As empresas contactadas dispõem, na sua maioria, de recursos humanos altamente
qualificados em termos académicos, 58% das quais foram constituídas inicialmente por pessoas
com doutoramento. As mesmas empresas empregam também outros doutorados, utilizando os
apoios estatais para o efeito (beneficiando do programa de inserção de mestres e doutores). Face
48
a esta situação, é natural que também ao nível da gestão de topo se verifique uma forte atitude
pró-activa face à mudança, tendo sido verificado que 62% das empresas utiliza mais
frequentemente o brainstorming como mecanismo de estímulo à criatividade e inovação. Face ao
rápido avanço tecnológico na área da biotecnologia e à globalização dos mercados, a atitude da
gestão de topo face à mudança é crítica para o sucesso das empresas.
Cerca de metade das empresas em fase de arranque e de desenvolvimento apresenta planos de
formação contínua enquanto que das empresas consolidadas apenas uma não possui qualquer
plano de formação. Uma dessas empresas consolidadas investe bastante na formação nacional e
internacional de licenciados e mestres recrutados quer para preencher um vazio no conhecimento
em relação à área específica de actuação da empresa, quer para continuar a progredir em termos
de conhecimentos a nível mundial.
100
% de empresas
80
60
40
20
0
Arranque
Desenvolvimento
Consolidação
Figura 37: Existência de plano de formação contínua nas empresas segundo a fase de
desenvolvimento económico.
3.6. Interacção com a envolvente
O comportamento activo da empresa face à envolvente é normalmente visto no quadro do
estabelecimento de redes de cooperação ou, numa fase mais madura, na formação de bioregiões. A importância das bio-regiões tem originado inúmeros estudos e caracterizações
internacionais, especialmente em ambientes onde as PMEs abundam. Tal como anteriormente
referido, nos EUA, na Europa, no Canadá e na Austrália já existem várias bio-regiões que incluem
pequenas empresas de biotecnologia. Foi inclusivamente proposta, na estratégia para a
Biotecnologia apresentada em Janeiro de 2005 pela APBio, a formação de vários clusters na área
da biotecnologia, em diversas regiões do país. A caracterização da envolvente das empresas que
colaboraram neste estudo, bem como a sua interacção com essa envolvente, permitirá uma
avaliação mais substanciada da possibilidade de existência de algumas redes de cooperação que
possam originar uma bio-região.
49
3.6.1. Caracterização da envolvente
Nesta análise distinguem-se três factores determinantes: i) a estrutura do mercado, condições da
procura e competição; ii) o desenvolvimento da fileira industrial e iii) as condições dos factores e a
intervenção do Estado.
Estrutura do mercado, condições da procura e competição
O mercado alvo bem como as estratégias de internacionalização foram anteriormente
apresentadas. Verificou-se que, na área das Ciências da Vida, o mercado internacional é
fundamental na facturação anual da maioria das empresas, enquanto que o mesmo apenas é
verdade para uma das empresas do sector Agro-Alimentar/Ambiental.
De uma forma geral, nenhum dos gestores contactados referiu a existência de uma baixa procura
dos seus produtos ou serviços, na área das Ciências da Vida. Porém, em algumas situações,
empresas com mercados alvo noutros sectores (Agro-Alimentar ou Ambiental) têm como principais
clientes centros de investigação ligados às universidades, referindo uma baixa procura dos seus
serviços por empresas desses sectores. Uma estratégia que tem sido utilizada por empresas
dieccionadas para o desenvolvimento de produtos de base biotecnológica, é a de representação
de produtos internacionais semelhantes aos que pretendem desenvolver. A procura destes
produtos tem confirmado a necessidade e oportunidade de desenvolver produtos semelhantes
para apostar no mercado nacional. Numa das empresas consolidadas, a venda destes produtos
de base biotecnológica representa cerca de 2,6% da facturação da empresa, e é provável a
instalação de uma unidade de produção caso surja uma boa oportunidade de desenvolvimento de
produto.
Empresas baseadas no desenvolvimento de novos produtos (todas ainda em fase de arranque)
apostam na presença em congressos científicos ou feiras internacionais para estabelecer
contactos com farmacêuticas internacionais e se darem a conhecer. Recentemente ocorreu um
grande encontro internacional em Lisboa com o tema "Drug Information Association", 17th Annual
Euromeeting, que seria bastante útil para promover as empresas de biotecnologia nesta área e
estabelecer parcerias internacionais. Porém, para além de várias empresas farmacêuticas, apenas
duas empresas nacionais que actuam na área da biotecnologia/ciências da saúde estiveram
presentes. A falta de divulgação deste tipo de eventos, ou por outro lado a inércia de alguns dos
gestores das empresas nacionais, poderá ser um factor que condiciona a procura dos seus
produtos ou serviços.
Existe cada vez mais uma exigência do mercado internacional em relação às certificações e o
nível e variedade de competências dos recursos humanos afectos às empresas nacionais é cada
vez mais um factor de distinção. Alguns gestores com contactos internacionais referiram que já
começa a haver a percepção de que Portugal tem uma excelente componente de recursos
50
humanos na área das Ciências da Vida, referindo até uma capacidade de trabalho superior à que
se verifica no Norte da Europa.
No sector Agro-Alimentar, verifica-se um perfil de actuação comum nas empresas contactadas.
Todas têm como objectivo o desenvolvimento de produtos ou melhoramento de processos com
base biotecnológica. Porém, as empresas em fase de arranque obtêm a maior parte da facturação
com a prestação de outros serviços não directamente relacionados com a biotecnologia, enquanto
fazem I&D ou esperam a chegada de financiamento para iniciar os trabalhos. Duas empresas
(uma em fase de desenvolvimento e outra consolidada) já têm procura internacional de produtos
desenvolvidos pela própria I&D, e já começam a ter a possibilidade de financiar a sua
investigação. Curiosamente, os principais clientes destas empresas são estrangeiros.
Desenvolvimento da fileira industrial
A maioria das empresas contactadas que tem como mercado alvo a indústria farmacêutica
situa-se no distrito de Lisboa. Porém, os clientes destas empresas são essencialmente
internacionais. Por outro lado, a maioria das empresas farmacêuticas (27 das 33 existentes no
país) está situada no distrito de Lisboa, constituindo potenciais clientes destas empresas. Neste
estudo foram incluídas quatro empresas farmacêuticas, todas elas situadas no distrito de Lisboa.
Aparentemente não existe qualquer parceria, relação comercial ou mesmo de transferência de
tecnologia entre estas empresas e as restantes empresas da Nova Biotecnologia, que por sua vez
também não mencionaram qualquer relação com empresas farmacêuticas nacionais. Foram
contactadas outras empresas farmacêuticas do distrito de Lisboa para integrarem este estudo,
mas não manifestaram interesse em contribuir para a caracterização deste sector, provavelmente
por não desenvolverem qualquer actividade relacionada com a área da biotecnologia. Porém, nas
farmacêuticas que integraram este estudo observou-se um grande interesse pela utilização da
biotecnologia na produção de novos fármacos e, enquanto algumas já desenvolvem I&D em
consórcio com centros de investigação, outras aguardam uma boa oportunidade de negócio nessa
área.
Três das empresas do sector Agro-Alimentar/Ambiente pretendem desenvolver produtos biofuncionais, utilizando como fornecedores e clientes as empresas de leite e derivados. A totalidade
destas empresas está situada no norte do país, em Braga e no Porto. Apesar dos distritos da
Guarda e de Castelo Branco concentrarem um maior número de empresas de leite e derivados, já
se assiste a alguma receptividade da parte de indústrias deste sector na região do Porto para
fornecer a matéria-prima. No entanto, o desenvolvimento nacional destes produtos ainda está em
fase de I&D, não tendo sido efectuado qualquer benchmarking ou estudos de mercado para
avaliar o potencial de mercado para estes produtos. Outras empresas do sector Agro-Alimentar,
não necessariamente situadas no Norte do País, têm estabelecido relações comerciais e de
desenvolvimento de processo e de produto com indústrias Agro-Alimentares nacionais,
alcançando algum sucesso.
51
Algumas das empresas estudadas referiram como um dos mercados alvo a indústria química e
energética, com know-how para actuarem nestas indústrias ao nível da Biotecnologia Industrial.
Porém em nenhum caso foi referida qualquer relação comercial com empresas nacionais.
Condições dos factores e intervenção do Estado
Foram identificados vários factores externos comuns (positivos e negativos) a condicionar a
actividade das empresas. Na maioria dos casos, a qualificação e competência dos recursos
humanos, quer contratados quer da envolvente, são apontados como factores positivos para a
actividade da empresa. Curiosamente, muitos dos factores que influenciam negativamente a
actividade das empresas estão relacionados com a intervenção do Estado. Por exemplo, foi
referido que existem várias medidas governamentais para estimular a criação de novas empresas,
bem como programas de financiamento de projectos, mas na opinião da grande maioria das
empresas são excessivamente burocráticos. A desadequação destes programas ao sector da
biotecnologia, privilegiando a formação de empresas de Serviços com retorno rápido do
investimento, é também um factor apontado como sendo limitante.
Empresas que actuam na área do sector Agro-Alimentar/Ambiental referiram que a legislação
existente está bem estruturada mas que a falta de fiscalização leva a que as indústrias não
invistam em mecanismos de Protecção Ambiental. A construção de ETARs possibilitou a utilização
da biotecnologia no tratamento das águas. Porém, a escassez de pessoal especializado na sua
manutenção poderia funcionar como uma mais-valia para as empresas de biotecnologia que
actuam nesta área, mas a falta de fundos municipais para contratar serviços que dêem formação
ou actuem nessa área é apontado por algumas empresas como um factor negativo. De um modo
semelhante, a recente legislação do sector da restauração/Agro-Alimentar levou a que duas
empresas que actuam nesta área se dedicassem a prestar serviços de formação de pessoal.
Paralelamente, estas empresas, em particular, também têm a capacidade de actuar ao nível do
melhoramento de processo na indústria Agro-Alimentar, mas verificam que, de uma forma geral,
os industriais desta área ainda não se encontram sensibilizados para a necessidade de investir na
melhoria dos processos.
As empresas consolidadas ligadas principalmente ao sector farmacêutico não dependem de
subsídios estatais, mencionando como principais factores negativos a abertura do mercado ao
oriente (com produtos genéricos muito mais baratos e de qualidade duvidosa) e a entrada de
países de leste na Comunidade Europeia (Países da ex-URSS e República Checa com uma
tecnologia mais avançada), que poderão ser fortes competidores no mercado internacional. No
entanto, foi também referido o facto de o mercado farmacêutico, nomeadamente a produção de
biogenéricos, ser um mercado emergente, principalmente em países como a França e a
Alemanha. Um outro factor referido como bastante positivo para o sector farmacêutico nacional foi
a recente estratégia do INFARMED de promoção do sector farmacêutico como um todo a nível
internacional, organizando eventos onde também participam empresas internacionais ou
52
subsidiando a deslocação de algumas empresas nacionais a eventos internacionais. Deste modo,
as empresas farmacêuticas nacionais podem enfrentar como um todo coeso e muito mais forte os
competidores internacionais, tendo por outro lado a oportunidade de estabelecer com eles
parcerias estratégicas.
3.6.2. Interacção com a envolvente
Após a caracterização da envolvente genérica das empresas, aborda-se a sua interacção com a
sua envolvente específica, ou seja, o conjunto de instituições com as quais a empresa mantém
contacto regular.
Relação com fornecedores, clientes e competidores
Todas as empresas consolidadas fidelizam os seus fornecedores, estabelecendo contratos ou
parcerias. Verificou-se que em empresas em fase de arranque é mais frequente o estabelecimento
de relações pontuais com fornecedores e clientes.
Fornecedores
Relação
Clientes
Fase da empresa
Contrato
Fase de arranque
Parceria
Fase de desenvolvimento
Pontual
Fase de consolidação
Não revelado
Figura 38: Tipo de relação entre as empresas e os clientes e fornecedores, de acordo com a fase de
desenvolvimento económico.
A Figura 38 reflecte o número de empresas que referiram conhecer competidores nacionais e
internacionais. Algumas empresas estabelecem parcerias estratégicas com os competidores
nacionais e, embora em menor número, com competidores internacionais. Na área da Prestação
53
de Serviços, mais especificamente de sequenciação de DNA, foi também referida a existência de
uma parceria estratégica entre duas empresas nacionais potencialmente competidoras.
Parceria com competidores internacionais
Parcerias com competidores nacionais
Têm competidores nacionais
Têm competidores internacionais
Não têm
0
5
10
15
20
25
30
35
40
45
% de empresas
Figura 39: Interacção entre as empresas e possíveis competidores
Participação em associações de sectores
A participação em associações sectoriais permite às empresas unir esforços no sentido de
alcançarem maior competitividade e visibilidade no mercado internacional. Para além disso uma
das funções das associações sectoriais é o de promover ou defender o sector (conjunto de
empresas) junto de organizações governamentais. O mercado da biotecnologia é global, daí a
necessidade da existência de uma ou várias associações sectoriais que promovam esse conjunto
de empresas junto de possíveis clientes ou investidores nacionais ou internacionais.
100
% de empresas
80
60
40
20
0
Arranque
Desenvolvimento
Consolidação
Figura 40: Associativismo das empresas de acordo com a fase de desenvolvimento económico.
Enquanto que todas as empresas consolidadas pertencem a várias associações sectoriais, 40%
das empresas em fase de desenvolvimento e nenhuma empresa em fase de arranque referiu o
facto de pertencerem a alguma associação sectorial.
54
Ligação a serviços de apoio e à envolvente sócio-económica
A maioria das empresas em fase de arranque (64%), independentemente do sector em que se
inserem, surgiu ligada a incubadoras de empresas (públicas ou privadas). Por outro lado,
empresas já consolidadas e mais antigas, não se apoiaram nesse tipo de serviços. Apenas
algumas das empresas em desenvolvimento (29%) afirmaram que foram inicialmente apoiadas por
incubadoras.
Uma das falhas apontadas aos serviços das incubadoras públicas é o deficiente apoio jurídico, daí
que algumas empresas recorram a apoio jurídico nacional e internacional. Por outro lado, a
maioria das incubadoras não tem espaço próprio adequado à instalação de laboratórios para I&D,
e a alternativa é o aluguer do espaço ou o estabelecimento de parcerias com Centros de
Investigação. O aluguer de espaços de laboratório é considerado excessivamente caro, quando
comparado com os valores praticados em alguns países europeus e nos EUA.
No que diz respeito a apoios financeiros, dos quais a maioria das empresas dispõe para iniciar
actividades de I&D, predominam os apoios do Programa PRIME, cujas candidaturas são
realizadas por intermédio da Agência de Inovação. A maioria das empresas recorre e beneficia de
vários programas de financiamento em simultâneo: das empresas contactadas, 25% esperam o
financiamento do Programa IDEIA e 13% referiram o apoio do Programa NEST, enquanto algumas
empresas recorreram aos sistemas de incentivos SIMIE, SIPIE e NITEC. Apenas uma empresa
referiu o apoio do Programa POCTI e duas referiram a utilização do programa de inserção de
mestres e doutores da AdI.
25
% de empresas
20
15
10
5
0
FP6
FCT
POCTI NITEC
Programas nacionais
SIPIE
SIME
NEST
IDEIA
Programa europeu
Figura 41: Fontes de financiamento externo a I&D.
Algumas empresas (17%) também beneficiam dos apoios concedidos pela Fundação para a
Ciência e Tecnologia (FCT) a nível do financiamento de projectos e bolsas de doutoramento.
Relativamente aos programas europeus, 21% das empresas concorreram a estes programas, e
12% referem especificamente o 6º Programa Quadro (FP6).
55
De acordo com 95% dos gestores das empresas analisadas, os programas governamentais de
apoio à formação de empresas são inexplicavelmente burocráticos e de avaliação excessivamente
morosa. A demora na disponibilização do financiamento também é outra das falhas apontadas a
este tipo de apoios. De um modo geral foi considerado que os apoios existentes são suficientes,
embora possam ser melhorados. Foi proposto que se investisse:
•
Na diminuição da burocracia associada aos programas de criação de novas empresas,
intervindo tanto na agilização do processo de candidatura como no tempo de resposta;
•
No ajuste dos programas existentes a empresas com necessidades de financiamento (em
fase de arranque e sem o apoio de grupos económicos de peso);
•
No aumento da divulgação de novas empresas de biotecnologia e análises frequentes das
necessidades reais do sector, para que as novas empresas possam preencher as lacunas
existentes.
Foi também referido que a função primordial do Estado deverá passar pela criação de
mecanismos de fixação de empresas para atrair futuros clientes.
Uma opinião aparentemente contraditória diz respeito à existência de sociedades de capital de
risco em Portugal. Algumas empresas referem a inexistência deste tipo de investimentos em
biotecnologia a nível nacional, considerando essencial a criação de capital de risco privado e
adequado ao sector. Outras empresas (25%) referem o apoio de sociedades de capital de risco na
sua constituição, cujo financiamento está sobretudo ligado a operadores públicos nacionais.
Ligação ao SCT
As universidades e os institutos tecnológicos são os parceiros da maioria das empresas no
estabelecimento de consórcios de I&D. Várias empresas estabeleceram parcerias com diversos
tipos de instituições, incluindo hospitais e outras empresas. Nesta sequência, é relevante para
este estudo incluir na análise o estabelecimento de consórcios entre empresas e entre empresas e
hospitais.
Universidades
Institutos Politécnicos
Laboratórios Públicos
Institutos Tecnológicos
Hospitais
Empresas
não revelou
0
10
20
30
40
50
60
70
80
90
% de empresas
Ciências da vida/serviços
Agro-alimentar/Ambiental
Figura 42: Percentagem de empresas que estabelecem relações de parceria/consórcio com o SCT
56
Os institutos tecnológicos foram considerados pela maioria das empresas como bons ou muito
bons parceiros, enquanto que as relações estabelecidas com as universidades foram
consideradas satisfatórias ou boas. Também as parcerias estabelecidas com hospitais e empresas
foram consideradas muito boas.
Duas das empresas (área das Ciências da Vida) prestam serviços a universidades, laboratórios
públicos e institutos tecnológicos. Uma dessas empresas é uma spin-off do próprio instituto.
Quatro das empresas do sector Agro-Alimentar/Ambiente são spin-offs de universidades.
Para além das parcerias estabelecidas com institutos e universidades nacionais, duas empresas
referiram parcerias com universidades internacionais (Italianas e Americanas). Uma dessas
empresas tem um parceiro internacional com sede na Flandres cuja estratégia de actuação passa
pela investigação, transferência de tecnologia e divulgação de informação científica ao público em
geral.
3.7. Análise SWOT
A análise SWOT das 24 empresas analisadas permite perceber, por um lado, quais as forças e
fraquezas das várias empresas em relação aos seus concorrentes (análise interna) e por outro a
situação do mercado da biotecnologia nacional (análise externa).
Pode referir-se que a grande maioria das empresas analisadas em qualquer uma das três fases de
desenvolvimento económico (arranque, desenvolvimento e consolidação) referiram, na sua autoanálise, que os seus principais pontos fortes são os recursos humanos e o know-how, o que indica
que em Portugal existe pessoal qualificado com elevada capacidade de trabalho. Os contactos
que algumas destas empresas detêm com o meio científico, essencialmente as que se encontram
na fase de arranque, é considerado por elas como uma vantagem para a sua progressão,
colocando-as um passo à frente em relação aos seus competidores. É igualmente de referir que
para algumas destas empresas a imagem de credibilidade que já adquiriram, mesmo não estando
há muito tempo em actividade, é igualmente considerada como um ponto forte.
Os recursos financeiros foram considerados a principal fraqueza da maioria das empresas do
sector da biotecnologia (46%). A falta de apoios financeiros, como por exemplo a existência de
capital de risco para a fase de arranque das empresas, dificulta o início de actividade das
mesmas. No entanto, esta questão já não se torna primordial para empresas em desenvolvimento
ou consolidadas, para as quais o mercado onde actuam e o planeamento estratégico são
considerados os pontos fracos de maior relevo.
Outra observação importante retirada da análise interna é que, para algumas empresas, o
mercado/produto é considerado uma força enquanto que para outras é tomado como um ponto
fraco. Isto acontece, por exemplo, para as empresas cuja marca ganhou notoriedade no mercado
português que, dada a sua dimensão relativamente pequena, é visto como uma fraqueza.
57
Relativamente à análise externa, para a grande maioria das empresas pertencentes às três fases,
o mercado onde actuam é considerado a principal oportunidade. No entanto, dado que se trata de
um mercado emergente, em alguns sectores ainda pouco consolidado, é considerado como uma
oportunidade mas também uma ameaça devido a alguma incerteza. Muitas empresas referem
também a conjuntura presente, em que se começa a incentivar o arranque e desenvolvimento de
empresas de base tecnológica, como uma vantagem para o sector.
Como ameaças externas são consideradas, por um lado, com a concorrência, sendo-lhe atribuída
importância de acordo com a evolução do desenvolvimento económico da empresa (considerado
por 36% das empresas em fase de arranque e 67% das empresas consolidadas), e por outro lado
o tempo que algumas destas empresas possam demorar a consolidar os seus projectos. É no
entanto interessante referir que, de todas as empresas de transferência de tecnologia analisadas,
nenhuma considera a concorrência como uma ameaça, referindo mesmo que, dada a dimensão
do mercado, seja pouco provável que tal venha a acontecer.
Fraquezas
Forças
100%
100%
75%
75%
50%
50%
25%
25%
0%
0%
RH
Imagem
Arranque
Contactos
Tecnol.
Desenvolvimento
Inovação Produtos e
mercados
Consolidação
Financeira
Arranque
Localização e
mercado
Desenvolvimento
100%
100%
75%
75%
50%
50%
25%
25%
Mercado
Arranque
Conjuntura Actual
Desenvolvimento
Consolidação
Ameaças
Oportunidades
0%
Imagem
Consolidação
0%
Concorrentes
Arranque
Envolvente
Desenvolvimento
Consolidação
Figura 43: Representação gráfica das forças, fraquezas, oportunidades e ameaças das 24 empresas
analisadas
58
4. Perspectivas para o desenvolvimento do sector em Portugal Visão das empresas contactadas
Pela conjuntura nacional actual cerca de 50% das empresas analisadas considera que as
perspectivas de desenvolvimento do sector em Portugal são optimistas. O país detém recursos
humanos de elevado potencial e uma boa abertura para permitir o desenvolvimento.
Para a análise ao desenvolvimento do sector em Portugal foi pedido às várias empresas que
avaliassem (de 1 - nada importante a 5 - muito importante) as principais barreiras que consideram
importantes para esse desenvolvimento. Essas barreiras foram categorizadas em 3 tipos: Internas,
Externas e Financeiras.
As barreiras internas referem-se a, por exemplo, fraca preparação de dirigentes, segurança de
equipamentos industriais, antiguidade dos equipamentos, deficiências produtivas, entre outras.
Estas foram consideradas, de uma forma geral, pouco importantes, com excepção para a falta de
recursos humanos especializados e a dificuldade de inovação tecnológica de especial relevo para
empresas já consolidadas. Esta visão revela que as empresas se preocupam com a sua
organização interna e com a inovação, o que torna estas barreiras internas pouco significativas
para o seu desempenho.
Por outro lado, as barreiras externas consideradas mais relevantes para as empresas
consolidadas foram a dificuldade no estabelecimento de alianças estratégicas, a transferência de
tecnologia das universidades e a falta de fornecedores especializados. Para as empresas em fase
de arranque e desenvolvimento, as principais barreiras consideradas foram a ausência de
informação sobre mercados e a regulamentação. Como seria de esperar, as empresas atribuem
maior importância às barreiras externas do que às internas, uma vez que aquelas não são
directamente controláveis pelas empresas.
As barreiras financeiras ao desenvolvimento do sector (falta de seed capital, perda de clientes,
dificuldade de cobrança, insuficiência de capitais próprios, entre outras) foram consideradas as
mais relevantes. No entanto, observa-se uma grande discrepância entre os vários pontos
considerados como barreiras financeiras para as empresas nas várias fases de desenvolvimento
económico. Todas as empresas deram importância à insuficiência de capitais próprios, aos
encargos com pessoal e ao nível de financiamento público à I&D. Por outro lado, a dependência
face a seed capital e insuficiências de tesouraria são características das empresas em fase de
arranque e de desenvolvimento, enquanto que os encargos fiscais e a baixa na procura dos
produtos são consideradas as barreiras mais importantes para as empresas consolidadas.
Na generalidade são indicadas algumas barreiras ao desenvolvimento do sector, embora
nenhuma delas tenha um relevo especial, o que indica que as empresas se encontram
suficientemente preparadas para lidar com as dificuldades que possam surgir, tanto interna com
externamente.
59
De acordo com os gestores das empresas contactadas, de uma forma geral, a dificuldade no
arranque definitivo do sector da biotecnologia em Portugal pode ser atribuída à falta de casos de
sucesso no sector e à ausência de multinacionais no país, o que por sua vez se deve à
inexistência de infra-estruturas e investimento adequados. Segundo os gestores entrevistados, o
Estado português deverá ter um papel activo, cativando a entrada e fixação de novos clientes no
país.
5. Conclusões gerais
Com este estudo, pretendeu-se avaliar a situação do sector da biotecnologia em Portugal,
enquadrando-a na biotecnologia mundial e procurando evidenciar as semelhanças e diferenças.
No entanto, com a finalidade de se obter uma visão a partir do interior do sector, foram
contactadas várias empresas, às quais foi solicitado o preenchimento de um questionário em
conjunto com uma entrevista a um ou dois gestores de topo. A conjugação dos resultados obtidos
e a sua interpretação foi apresentada, e permite um diagnóstico mais preciso da realidade do
sector em Portugal, permitindo também indicar onde será necessário intervir de modo a potenciar
o desenvolvimento e a interligação entre os vários elementos que participam ou possam vir a
participar numa rede estratégica de colaborações no sector. Assim, apresentam-se de seguida as
conclusões resultantes deste estudo, em conjunto com potenciais pontos de intervenção e
medidas a serem tomadas no curto prazo. Finalmente, discute-se a possível constituição de bioregiões em Portugal.
5.1. Realidade actual
•
O sector da biotecnologia é muito pequeno e o seu peso na economia portuguesa é
diminuto. Apesar de se ter verificado um aumento significativo de empresas nos últimos
anos (85% entre 2001 e 2004), não existe uma inventariação adequada das empresas do
sector, e nem sequer um CAE comum para este tipo de empresas.
•
A maioria das empresas de biotecnologia é constituída por recursos humanos altamente
qualificados em termos académicos, 58% das quais foram constituídas inicialmente por
pessoas com doutoramento.
•
O tipo de equipamentos e capacidade de controlo reflecte a dificuldade financeira das
empresas em fase de arranque e em desenvolvimento, podendo limitar a sua capacidade
de inovação e competição com os concorrentes internacionais.
•
As empresas em fase de arranque e de desenvolvimento encontram-se no estado da arte,
com tecnologias em fase de crescimento quando comparadas com o que existe a nível
internacional.
60
•
Todas as empresas detêm uma gestão eficiente dos seus recursos tecnológicos,
apostando claramente em I&D e na melhoria e inovação de processos e produtos.
•
As maiores limitações a um desenvolvimento mais sustentado das suas tecnologias estão
relacionadas com a fase de desenvolvimento, tendo sido registada a falta de recursos
financeiros para a introdução de inovações nas empresas em fase de arranque.
•
Os principais processos de aquisição de novas tecnologias utilizados pelas empresas
deste estudo resultam de colaborações de I&D com universidades e institutos
tecnológicos.
•
Nas empresas em fase de arranque, o prazo de apropriação da tecnologia é um dos
critérios aos quais é dada maior relevância. Nas empresas consolidadas um dos critérios
mais importantes na apropriação de novas tecnologias é o valor do investimento.
•
A maioria das empresas da área das Ciências da Vida tem no seu portofólio de clientes
empresas internacionais, enquanto que as empresas da área Agro-Alimentar/Ambiente
têm sobretudo clientes nacionais.
•
Algumas indústrias Agro-Alimentares da região norte já utilizam os serviços das empresas
recém-formadas ao nível do melhoramento de processos, mas na área Ambiental a
procura é muito mais reduzida. Neste estudo foram detectadas quatro empresas com
capacidade de actuar a este nível, mas com poucos clientes ou nenhum, do sector
industrial nacional. De facto, a falta de fiscalização da implementação das directivas
europeias relativamente à protecção ambiental leva a que outro tipo de indústrias não
sinta necessidade dos serviços de empresas de biotecnologia para implementar
processos mais limpos e amigos do ambiente.
•
Existem vários incentivos governamentais à criação de novas empresas de base
tecnológica assim como programas de financiamento, mas que não são adequados a
empresas de biotecnologia (especificamente no que diz respeito ao desenvolvimento de
novos produtos) pois prevêem um retorno rápido do financiamento.
•
Os programas de financiamento promovidos por organismos estatais são muito onerosos
no processo de candidatura, excessivamente burocráticos, e com tempos de resposta
demasiado morosos.
•
Na maioria dos casos, as incubadoras públicas ligadas a universidades não dispõem de
acompanhamento legal necessário à constituição e acompanhamento de empresas de
biotecnologia;
•
Existem algumas redes de cooperação e investigação em consórcio entre universidades,
laboratórios de investigação (públicos e privados), empresas de biotecnologia do sector
Agro-Alimentar e indústrias agro-alimentares quer na região norte do país quer no distrito
de Lisboa.
61
•
Na área das Ciências da Vida verifica-se a existência de redes de cooperação entre o
SCT e empresas de biotecnologia, mas não foi referida qualquer parceria com a indústria
farmacêutica.
•
Existem, na Europa, várias empresas de capital de risco que investem sobretudo em startups de biotecnologia. Porém, as capitais de risco investem sobretudo em empresas que
pertencem a bio-regiões, com sistemas de cooperação entre o SCT, empresas, hospitais e
farmacêuticas, promovidos e bem geridos, exigindo certificação ou adaptação a boas
normas de laboratório e, com frequência, patentes.
5.2. Potencialidades
•
O mercado mundial da biotecnologia é vasto, com Portugal a poder tirar partido do
mercado do Brasil e de outros países de expressão portuguesa. Nestes mercados,
Portugal poderá usufruir de uma larga vantagem em comparação com países como
Espanha, Inglaterra e Holanda, que já estão presentes nestes mercados.
•
A recente iniciativa do INFARMED para internacionalizar as farmacêuticas nacionais
poderá incluir a procura de novos processos de desenvolvimento de fármacos com base
biotecnológica. Nesse sentido, o estabelecimento de parcerias entre farmacêuticas e
empresas de biotecnologia nacionais poderá constituir uma mais valia para todos os
interessados para produzir novos produtos de base biotecnológica, incluindo biogenéricos
(aproveitando a queda de várias patentes de produtos biotecnológicos nos próximos
anos).
•
Para além de algumas empresas de transferência de tecnologia, existe pelo menos uma
outra empresa que se assume como parceiro científico de empresas ou de laboratórios do
SCT. Neste caso particular, a empresa tem a capacidade de intervir no desenho da I&D
para o desenvolvimento de novos fármacos, acompanhar os seus ensaios clínicos e
submetê-los a aprovação pela FDA ou EMEA, contando para isso com uma equipa
multidisciplinar. Este tipo de empresas deve multiplicar-se, pois permite estabelecer a
ponte entre o SCT e empresas internacionais. A possibilidade de o fazerem com
empresas nacionais (como, por exemplo, farmacêuticas) poderá contribuir para a inovação
do sector, tornando-o mais competitivo a nível internacional com produtos de base
biotecnológica. Apesar de não ter sido possível avaliar as parcerias reais entre empresas
de biotecnologia e empresas farmacêuticas, pode-se afirmar que existe um potencial
bastante vasto para o desenvolvimento de biofármacos (incluindo biogenéricos), desde
que se estabeleça esse tipo de parcerias a nível nacional.
•
Os recursos humanos são, na opinião de todos, uma mais valia a não desperdiçar para o
aperfeiçoamento e desenvolvimento de tecnologias;
62
•
As empresas de transferência de tecnologia poderão ser parceiros na construção de
patentes e partilha de riscos financeiros.
5.3. Medidas urgentes para o sector
•
Criação de uma agência específica para o sector de biotecnologia com a missão de
produzir diagnósticos e actualizações regulares das empresas do sector, avaliando,
gerindo e propondo parcerias e cooperações com o SCT, a indústria e sistemas de apoio,
centralizando
também
informações
pertinentes
para
as
empresas
e
futuros
empreendedores. A mesma agência seria também responsável pela promoção do sector a
nível internacional, atraindo investimento estrangeiro, à semelhança do que acontece por
exemplo na Suécia e na Holanda.
•
Dar maior ênfase nos cursos universitários ao empreendedorismo, de modo a atenuar a
dicotomia entre investigadores e empresários.
•
Estimular a resolução de problemas práticos com recurso à biotecnologia, por meio de
iniciativas que partam de ideias ou descobertas no SCT e as levem à constituição de
empresas, com a participação e apoio de equipas de gestores e fontes de financiamento
orientadas para o sector.
•
Sensibilização dos industriais portugueses (química, farmacêutica, agro-alimentar,
celulose, têxtil, detergentes) para a aplicação da Biotecnologia Industrial a estes sectores,
no seguimento da recente estratégia europeia a desenvolver até 2025 [23], dado que
algumas das empresas de biotecnologia incluídas neste estudo apresentam capacidade
para actuar a esse nível.
•
Elaboração de legislação adequada a este sector para definir áreas de operação, com
consulta directa aos interessados. É pertinente legislar também acerca de produtos de
base biotecnológica, para que possam ser exportados ou importados. Paralelamente, é
fundamental reforçar a fiscalização ao nível da Protecção Ambiental.
5.4. Existem Bio-regiões em Portugal?
Os casos de sucesso resultam muitas vezes de redes de cooperação bem geridas, que atraem
sistemas de financiamento adequados ao desenvolvimento de produtos de biotecnologia, em que
o retorno do investimento ocorre a longo prazo. Talvez seja ainda prematuro propor a formação de
uma bio-região quando ainda não foi estabelecida uma rede de cooperação real e profícua entre
universidades,
centros
de
investigação,
hospitais,
start-ups
de
biotecnologia,
indústria
farmacêutica, associações sectoriais e uma agência governamental ou privada que tenha a
capacidade de atrair capital de risco internacional e promover os produtos feitos in-house que
possam ser comercializados mundialmente. De qualquer modo, a existência de algumas redes de
cooperação entre universidades e centros de investigação nesta área [24] que utilizam as
63
iniciativas e programas governamentais quer para I&D quer para a criação de novas empresas de
base tecnológica (ex. apoio de incubadoras), é um bom ponto de partida para o estabelecimento
dessas cooperações que poderão originar uma bio-região. Estas iniciativas acompanham a
estratégia da Comissão Europeia para Ciências da Vida e biotecnologia publicada em 2002 [5]. Tal
como foi referido anteriormente, a criação de um instituto especificamente dedicado à área das
Ciências da Vida poderia promover esta área a nível internacional, coordenando as parcerias entre
a indústria farmacêutica e as empresas de biotecnologia e centros de investigação. Em vários
países da Europa estas agências atraem investimento internacional, disponibilizando informações
actualizadas sobre a capacidade de inovação do país em questão.
No norte do país (Porto e Braga), verificou-se a existência de redes de cooperação bem sucedidas
entre Universidades, Centros de Investigação, Incubadoras, Empresas de biotecnologia ligadas ao
sector Agro-Alimentar ou à Protecção Ambiental e o IEFP do Porto. Estas redes poderão servir de
exemplo e de embrião à formação das primeiras bio-regiões no nosso país, o que permitirá
aumentar de modo concertado a competitividade do sector bem como a sua projecção e
visibilidade a nível internacional.
64
6. Referências bibliográficas
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Ciência e do Ensino Superior, http://www.oces.mcies.pt
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Ciência e do Ensino Superior.
21.
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23.
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sustainable growth in Europe. 2005, European Technology Platform for Sustainable
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24.
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Portuguesa de Bioindústrias.
25
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26
Silveira, J., et al, Evolução recente da biotecnologia no Brasil. 2004, Instituto de Economia,
Universidade Estadual de Campinas.
65
ANEXO 1
Tabela A1: Empresas, incluídas no directório da APBio [1], que aceitaram participar neste estudo. Sectores
de actividade: C.V. – Ciências da Vida; Agro – Agro-alimentar; Amb. – Ambiente; B.I. – Biotecnologia
Industrial
Empresa
Sector
Actividade
Localização
Alfama
C.V.
Desenvolv. de fármacos
Oeiras
*Bioalvo
C.V.
Desenvolv. de fármacos
Lisboa
EcBio
C.V.
Desenvolv. de fármacos / Serviços
Oeiras
Imunostar
C.V.
Desenvolv. testes diagnóstico
Porto
Genetest
C.V.
Desenvolv. testes diagnóstico
Porto
Biotecnol
C.V. / B.I.
Desenvolv. de processos
Oeiras
ATGC
C.V. / Agro / B.I.
Transferência Tecnologia
Oeiras
Instrastec
C.V. / B.I.
Transferência Tecnologia
Lisboa
Biocodex
C.V.
Transferência de tecnologia / Serviços
Porto
Cipan
C.V.
Produção/Desenvolv. de APIs
Carregado
Hovione
C.V.
Produção/Desenvolv. de APIs
Lisboa
Bluepharma
C.V.
Produção/Desenvolv de medicamentos genéricos
Coimbra
Lab. Azevedos
C.V.
Produção/Desenvolv. de medicamentos
Lisboa
Crioestaminal
C.V.
Serviços
Coimbra
*Alfagene
C.V.
Distribuidor
Carcavelos
Eurotrials
C.V.
Serviços
Lisboa
Gene-express
C.V. / Agro
Serviços
Oeiras
Stabvida
C.V. / Agro
Serviços
Oeiras
Biopremier
C.V. / Agro
Serviços
Lisboa
Proenol
Agro
Produção/Desenvolv de enzimas imobilizados
V.N. Gaia
Necton
Agro
Produção/Desenvolv. de microalgas
Olhão
Bioinnovation
Agro
Desenvolv. de produtos
Porto
Biostrument
Agro
Serviços
Porto
Biotrend
Agro / Amb. / B.I.
Desenvolv. produtos/processos
Lisboa
Biotempo
Agro / Amb.
Desenvolv. produtos /processos/ Serviços
Braga
IberBio
Amb.
Serviços
Lisboa
* Empresas entrevistadas, mas cujos resultados não foram incluídos neste estudo. A Bioalvo só inicia a actividade
este ano (2005) e a Alfagene é um distribuidor, não tendo sido incluída neste estudo mais nenhuma empresa deste
tipo.
66
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Diagnóstico do Sector da Biotecnologia e das Ciências da