A participação das mulheres na implementação de projetos urbanos em áreas pobres no Brasil Ana Lúcia Alencar Burgos1 [email protected] Modalidad de trabajo: Eje temático: Palabras claves: Presentación de experiencias profesionales y metodologías de intervención Clases, género, etnia y sociabilidad. Participação, gênero., política urbana, sustentabilidade Introdução Este artigo tem o objetivo de demonstrar a Participação das Mulheres durante a execução da intervenção física de urbanização de 05 áreas pobres localizadas na região metropolitana de Recife, Pernambuco. Essas 05 áreas receberão recursos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, com a utilização de recursos do Orçamento Geral da União, que é repassado aos Municípios e Estados. São os seguintes: Projeto Charnequinha, localizado no Município do Cabo de Santo Agostinho; Projeto Vila Manchete, localizado no Município de Olinda; Projetos Sítio Grande/Dancing Days, Campo do Vila e Abençoada por Deus, localizados na cidade do Recife, no estado de Pernambuco. Esses projetos têm uma concepção integrada de intervenção urbanística que compreende ações de regularização fundiária, implantação de infra-estrutura, desenvolvimento comunitário, ambiental, geração de trabalho e renda, com o objetivo de proporcionar a melhoria das condições de habitabilidade das áreas pobres onde estão inseridos 1 Doutoranda em Serviço Social pelo Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco no Brasil. Supervisora do Trabalho Técnico Social da Caixa Económica Federal no Brasil. Ponencia presentada en el XIX Seminario Latinoamericano de Escuelas de Trabajo Social. El Trabajo Social en la coyuntura latinoamericana: desafíos para su formación, articulación y acción profesional. Universidad Católica Santiago de Guayaquil. Guayaquil, Ecuador. 4-8 de octubre 2009. 1 Desenvolvimento O processo de urbanização contém uma dinâmica própria na qual uma população se concentra em um determinado espaço e estabelece relações sociais que se materializam e dão conformação ao espaço físico-territorial urbano. São as aglomerações urbanas que se apresentam funcionalmente e socialmente interdependentes, com uma relação de articulação hierarquizada, formando redes urbanas de cidades. Por conseguinte, a análise da urbanização desenvolvimento. encontra-se Historicamente, estreitamente o relacionada desenvolvimento à resulta problemática de do transformações estruturais que, por sua vez, são conseqüência de movimentos cumulativos de recursos técnicos, materiais e humanos de uma sociedade. Nessa perspectiva, a paisagem urbana sofre uma evolução, em ritmos distintos, estabelecendo contornos e organizando a paisagem física. Nesse sentido, a noção de desenvolvimento tem a ver com a articulação da transformação da estrutura social de uma dada sociedade. Para que o processo de urbanização aconteça de uma forma mais adequada, é necessário que haja um planejamento urbano, onde as cidades sejam planejadas de forma sustentável Sabemos que o Brasil é marcado pelo perverso processo de urbanização, onde houve uma grande explosão das cidades e regiões metropolitanas sem que estas fossem preparadas para receber esta população, trazendo marcas no desenvolvimento das cidades e que por muitos anos o Brasil terá que carregar. Para melhorar esse desenho urbano das cidades, é necessário que o Estado cada vez mais tenha a iniciativa de desenvolver políticas públicas que de fato contribuam para melhorar as condições das grandes cidades, nos aspectos espaciais, sociais, ambientais e econômicos. Como formas de melhorar este desenvolvimento, o Estado tem se preocupado em desenvolver políticas de cunho sustentável, que possam transformar a realidade dos diversos lugares, a partir da implementação de projetos urbanos. No entanto, vários entraves são encontrados quando da implementação desses projetos urbanos. O primeiro entrave é a própria deficiência do Estado, quanto ao aspecto técnico, de recursos e de gestão, que vem dificultando no sentido de obter resultados positivos no desenvolvimento dos projetos urbanos. Outro limitador é a participação da comunidade, uma vez que muitas vezes é incipiente, conservadora e não democrática, prevalecendo os interesses individuais ou aceitando o que é imposto pelo Estado. Um outro limitador é a falta de avaliação das políticas públicas. A maioria dos projetos urbanos são implementados e no final só são avaliados o custo/benefício e aplicação dos recursos. 2 O desenvolvimento urbano têm tido uma crescente atenção de órgãos governamentais, agências financiadoras, entidades da sociedade civil e especialistas de diversas áreas de conhecimento. Entretanto, as práticas não têm sido muito inovadoras. As áreas urbanas no Brasil e na América Latina têm se caracterizado pelo aumento das dualidades. Autores mostram isto em toda a sua complexidade e diversidade (RIBEIRO, 2004). Tem uma parcela da população que desfruta de um nível alto de consumo e uma parte que também tem condições de satisfazer suas necessidades básicas. Na outra face do espaço urbano estão os excluídos, aqueles que não satisfazem suas necessidades materiais básicas. Ainda que de forma diferenciada, cidade do mundo inteiro defronta-se com este quadro de inclusão-exclusão (RIBEIRO, 2004). Falar das desigualdades não é apenas tratar do problema do ponto de vista do acesso desigual aos espaços e processos das cidades é, acima de tudo, reconhecer que as desigualdades entre mulheres e homens não atravessam a produção e reprodução das cidades, mas são, por princípio, elementos constituintes das mesmas. Esta é uma distinção importante, na medida em que se atuamos apenas no plano das desigualdades de acesso estaremos trabalhando os impactos da estrutura na vida das mulheres- o que é importante, mas não o suficiente – enquanto que ao assumirmos as desigualdades de gênero como estruturadoras e dinamizadoras das cidades estaremos enfrentando a questão do poder, e conseqüentemente dos privilégios que os homens têm com a conservação desta estrutura. Deste modo, analisar as sociedades numa perspectiva de gênero é desvelar e buscar transformar os complexos mecanismos sociais, políticos e institucionais que têm mantido as mulheres em situações de opressão, submissão e injustiça. (MACEDO, 2001). Tal concepção não pretende considerar que a dimensão de gênero é mais ou menos produtora de desigualdades que outras dimensões da estrutura sócio-política e econômica, como classe e raça /etnia, mas sim indicar que não é possível entender e atuar com vistas às mudanças estruturais se não considera a complexa trama de interações e determinações mútuas que são produzidas por estas três dimensões. A questão da mulher, como as demais questões dentro do sistema capitalista, não pode ser analisada fora do marco de classe. As mulheres estão divididas em classes sociais diferentes, mesmo com todas as transformações que as classes sociais sofreram neste século. Há algo mais forte que as separam : a propriedade privada dos meios de produção, que permite a exploração da classe por outra; e nada dentro do sistema capitalista poderá uni-las, nem mesmo a opressão secular que sofrem enquanto 3 mulheres. A opressão é um fato cultural que assume diversas formas segundo o grau de desenvolvimento das forças produtivas em cada lugar e em cada período histórico. Engels teve um papel fundamental por ter concedido à opressão feminina o status de um problema analítico. Ele relacionou a questão a formas de organização familiar e a divisão sexual do trabalho. Engels fez materializar a opressão, inserindo no domínio da história. Se a submissão não é algo natural, pode ser superada, diz Engels. Outra importante contribuição foi a da antropóloga Margaret Mead, que questionava o tabu da opressão como natural. Para ela, os papéis são definidos pela cultura. Os seus estudos jogaram por terras muitos valores arraigados na sociedade burguesa e revolucionaram as concepções dominantes sobre a relação entre sexos. Para a psicanalista Norma ferro, o homem não nasce homem, da mesma maneira que a mulher não nasce mulher. Vão sendo construídos dentro de certas coordenadas históricas. A opressão da mulher é, portanto um processo ligado às transformações ocorridas nas relações humanas desde as primeiras sociedades. A opressão da mulher está vinculada a existência da propriedade privada dos meios de produção e apenas poderá ser superada com uma mudança radical na infra-estrutura, que acabe com propriedade privada e a divisão da sociedade em classes, Os movimentos feministas, ressurgidos nos anos 1960, exigiram e foi-lhes exigido compreender e explicar a condição de subordinação das mulheres. Nas disciplinas sociais e humanas não se discutia a gênese e o desenvolvimento da dominação e predomínio dos homens sobre as mulheres, apresentado nas declarações das nações unidas. As mulheres lançaram uma primeira hipótese: a subordinação que afeta quase todas as mulheres é uma questão de poder múltiplo, localizado em diferentes espaços sociais. A subordinação feminina foi identificada inicialmente como produto de ordem patriarcal, tomando a categoria patriarcado de Max Weber. Estudos feitos consideram as seguintes perspectivas: as relações sociais de sexo, que privilegia a divisão do trabalho como núcleo motor da desigualdade; os sistemas de gênero como sistemas de poder, resultado de um conflito social; e a reprodução das mulheres, que faz o homem exercerem controle sobre o corpo das mulheres e leva-os a dirigir o trabalho das mulheres. O sociólogo Pierre. Bourdieu escreveu sobre as maneiras como a divisão do mundo, fundada sobre as diferenças biológicas, particularmente aquelas que se referem à divisão sexual do trabalho, da procriação e a da reprodução, operam como a mais fundamentada 4 das ilusões coletivas. O conceito de gênero estrutura a percepção e a organização concreta e simbólica de toda a vida social. Partindo das concepções sobre gênero, apresentada por pesquisadores, verificou que ainda são recentes os estudos realizados, mas claramente observamos como as relações sociais acontecem entre homens e mulheres. Sabemos que no dia-a-dia da mulher brasileira, evidenciam-se as desigualdades, as discriminações e as violências às quais as mulheres são submetidas. Nas cidades, onde se concentra mais de 80% da população brasileira, sabemos que as desigualdades expressas no território atingem de forma diferenciada os grupos sociais, variando não somente quanto aos recortes de classe e gênero, mas também quanto à raça/etnia, idade, orientação sexual, religião, entre outros. As mulheres representam 51,2% da população brasileira – aproximadamente 89 milhões (76 milhões nas cidades), mas apenas 42,7% da população economicamente ativa, IPEA (segundo dados do PNAD/IBGE, 2003). Uma das evidências mais significativas das desigualdades entre homens e mulheres refere-se ao salário: o rendimento médio dos homens é de R$ 785,82, enquanto o das mulheres fica em R$ 546,96 (PNAD/IBGE, 2003). Ou seja, o rendimento das mulheres alcança apenas 70% do rendimento dos homens. Quase 25% dos domicílios existentes são chefiados por mulheres, mas nas regiões metropolitanas este índice é maior. No mercado de trabalho, as mulheres não apenas estão inseridas nas profissões de menor prestígio e mais baixa remuneração, como ainda apresentam taxas de desemprego mais altas. Também estão mais presentes, proporcionalmente, no mercado informal e, quando empregadas, têm menores acesso a promoções e cargos de chefia e estão menos incluídas que os homens nas chamadas garantias trabalhista como carteira assinada, previdência social, etc. (MACEDO, 2001). As mulheres são, também, as principais responsáveis pelos trabalhos referentes à esfera da reprodução, como o trabalho doméstico e o cuidado com filhas e filhos, o que faz delas as maiores prejudicadas pela precariedade dos serviços públicos como luz, abastecimento d’água, redes de esgoto, drenagem, coleta de lixo e pela precariedade ou inexistência de equipamentos públicos comunitários como creches, escolas, lavanderias, etc. A violência contra a mulher, em suas diferentes formas de expressão, do assédio moral e da violência psicológica até as agressões físicas e sexuais, é outro indicador da discriminação de gênero. Uma em cada cinco mulheres brasileiras sofreu algum tipo de violência por parte de algum homem (segundo pesquisa realizada pela Fundação Perseu 5 Abramo). A maioria das mulheres são vítimas de violência dentro da própria casa, enquanto os homens sofrem de violência principalmente na rua. É necessário alterar o lugar em que a mulher está na sociedade, fortalecendo a participação das mulheres nos espaços de poder. Há que se garantir a participação paritária nos cargos de direção das associações, movimentos, comitês, comissões, espaços de orçamento participativo e conselhos, bem como buscar garantir 50% das vagas de delegados nos diversos segmentos que estarão na Conferência Nacional das Cidades para as mulheres. Esta representação paritária deve ser refletida no Conselho Nacional das Cidades (ConCidades), cujo caráter deliberativo tem que ser regulamentado. É necessária uma nova cultura que esteja presente nas instituições, nas organizações, nos movimentos, nos governos, nos diversos canais de comunicação, investindo numa concepção onde mulheres e homens tenham os mesmos direitos, oportunidades, responsabilidades, competências. Há que se investir em encontros, debates, oficinas de formação, que envolvam ora apenas mulheres, ora mulheres e homens para que sejam discutidas questões do cotidiano que levem à superação dos referenciais tradicionais que reforçam as desigualdades de gênero na sociedade, buscando produzir uma nova cultura, onde prevaleça a eqüidade de gênero. Diante dos aspectos tratados sobre a dinámica do processo de urbanização e como a questão de gênero se insere, através da implementação destes cinco projetos de urbanização pretendemos verificar a participação das mulheres. Serão utilizados varios instrumentos de pesquisa e o Método de Participação de Luis de La Mora - método para identificar a forma de participação das mulheres. Este método visa aferir os diversos Formatos da Participação. Foi desenvolvido por Luis De La Mora (1998) com o objetivo de aferir a qualidade da Participação dos agentes sociais, utilizando as variáveis de Forma, Tipo, Grau e Nível de Articulação Interinstitucional. A forma de Articulação pode adotar quatro diferentes modalidades: espontânea, induzida, conquistada e imposta. A Participação pode ser de três tipos diferentes: clientelista, maniqueísta e crítico. De la Mora (1998) propõe uma escala crescente de graus de Participação classificados de 0 a 06. E finalmente, a Participação pode assumir três níveis de relevância: alto, baixo e médio. 6 Conclusão Com a realização do estudo comparativo a ser realizado nas comunidades beneficiadas durante a implementação dos cinco projetos de urbanização, ou seja, o Projeto Charnequinha, localizado no Município do Cabo de Santo Agostinho; o Projeto Vila Manchete, localizado no Município de Olinda; os Projetos Sítio Grande/Dancing Days, Campo do Vila e Abençoada por Deus, localizados na cidade do Recife, no estado de Pernambuco, Brasil, através do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, com a utilização de recursos do Orçamento Geral da União, será aferida a participação das mulheres nos eventos e reuniões ocorridas nestas cinco comunidades, no sentido de verificar quais os elementos que venham a facilitar ou dificultar o desempenho dessas mulheres para a eficácia da promoção da política urbana. Pelas experiências identificadas em outros projetos quanto a participação das mulheres durante a implementação de projetos urbanísticos, constatamos que a Participação das Mulheres na promoção das políticas urbanas tem sido de fundamental importância para a eficácia dos projetos urbanos,. Observamos ainda que existe um maior número de mulheres presentes e participando da maioria das ações que ocorrem no processo de implementação da política urbana nas áreas pobres do Brasil. Por sua vez esta participação das mulheres poderia ser mais efetiva. Esta forma de participação das mulheres vem referendar este processo de desigualdade de gênero, colocado por Macedo e outros teóricos que apontam que a participação das mulheres acontece em espaços de pouco poder decisório, onde esses eventos ocorridos nas comunidades são muitas vezes considerados como eventos de cunho feminino.Por sua vez também está presente o papel da mulher dentro do sistema capitalista, a opressão secular que sofrem enquanto mulheres. 7 Bibliografía -CASTELLS, Manuel- A Questão Urbana, Ed.François Masperu, Paris, 1973. -.MURARO, Rose Marie- Mulher, Gênero e Sociedade, Rio de Janeiro, 2001. -SCHPUN, Mônica Raisa, Gênero sem fronteiras, Editora mulheres, 1997. -SCOTT, Joan. Uma Categoria Útil para Análise Histórica.SOS Corpo. - PORTELLA, FILHO, Petrônio- O ajustamento da América Latina: crítica ao modelo de Washington. Lua nova, 32. P.101-131, 1994. 8