A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
Identidade territorial como estratégia de planejamento do
turismo rural: O Vale Dos Vinhedos/RS
TIARAJU SALINI DUARTE1
Resumo: O presente artigo intitulado a identidade territorial como estratégia de
planejamento do turismo rural: O Vale Dos Vinhedos/RS tem como objetivo
compreender como a região do Vale dos Vinhedos efetivou uma dinâmica singular
para o planejamento do turismo rural a partir da identidade territorial da imigração
italiana e sua produção vitivinícola. O Vale dos Vinhedos-RS localiza-se entre os
municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, e tem como base do
processo de consolidação do planejamento do turismo a identidade territorial. A
metodologia deste estudo baseia-se por pesquisas teóricas (bibliográfica e
documental), trabalho de campo no Vale dos Vinhedos e análise de planos de
turismo rural na esfera nacional.
Palavras-chave: Turismo rural; identidade territorial; Vale dos Vinhedos
Territorial identity as the rural tourism planning strategy: the
Vale dos Vinhedos/RS
Abstract: This article entitled territorial identity as a the rural tourism planning
strategy: the Vale dos Vinhedos/RS, has the objective understand how the Vale dos
Vinhedos effected a singular dynamics for the planning the rural tourism from the
territorial identity, based on Italian immigration and wine production. The Vale dos
Vinhedos-RS is located between the municipalities of Bento Gonçalves, Garibaldi
and Monte Belo do Sul, and the planning of tourism rural is based on the
consolidated territorial identity. The methodology of this study is based on theoretical
research (literature and documents), the field work in the Vale dos Vinhedos and
analysis of rural tourism plans in the national sphere.
Key-words: Rural tourism; territorial identity; Vale dos Vinhedos.
1 – Introdução
O presente artigo tem como objetivo compreender como a região do Vale dos
Vinhedos efetivou uma dinâmica singular para o planejamento do turismo rural a
partir da identidade territorial da imigração italiana. O Vale dos Vinhedos (imagem
1
- Acadêmico do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo. E-mail
de contato: [email protected]
3077
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
01) localiza-se no estado do Rio Grande do Sul, entre os municípios de Bento
Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, e tem como base para o processo de
consolidação do planejamento do turismo rural a identidade territorial.
Imagem 01 – Localização do Vale dos Vinhedos – Rio Grande do Sul/Brasil.
Fonte: DUARTE, Tiaraju Salini; FREITAS, Pamela. (2014)
A escolha desta região na pesquisa justifica-se, pois, a mesma recebe uma
notável quantidade de turistas oriundos não só de diversos estados brasileiros, mas
também dos mais variados países do mundo. Segundo a Associação dos Produtores
do Vale dos Vinhedos (APROVALE):
Em 2012, foram 92.287 turistas, número inferior aos 106.797 turistas que
conheceram o roteiro durante este ano (2013). E a promessa é que a
programação de inverno do Vale dos Vinhedos repita o sucesso no número
de visitantes com cursos de degustações de vinhos [...] O número de
visitantes que conhecem o Vale dos Vinhedos cresce anualmente e
geralmente, o índice de crescimento fica na casa dos 10%. “Esse aumento
de 15% reflete no preparo dos estabelecimentos em receber o turista, na
satisfação dele que conhece o nosso roteiro e retorna encantado
2
(APROVALE, 2013)
A peculiaridade do turismo no Vale dos Vinhedos está ligada ao seu passado
histórico que construiu uma identidade territorial enraizada na imigração italiana, no
cultivo da videira e no processo de produção do vinho; Todos estes fatores criaram o
2
Disponível em: http://www.valedosvinhedos.com.br/vale/index.php. acessado em 07 de agosto de
2013.
3078
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
uma marca regional primordial para o desenvolvimento da pratica do turismo na
região.
Partindo desta problemática, buscou-se analisar três principais aspectos
levantados na pesquisa sobre o turismo rural na região de estudo: a organização da
região turística denominada Vale dos Vinhedos, a construção de uma identidade
territorial materializada historicamente e a importância da multifuncionalidade da
agricultura para o turismo rural.
A metodologia deste estudo baseia-se por pesquisas teóricas (bibliográfica e
documental), trabalho de campo no Vale dos Vinhedos que visou a análise da
estrutura voltada para o turismo rural no recorte desta pesquisa, bem como a coleta
de pontos que culminou na construção de um mapa dos principais atrativos que são
disponibilizados na região; Por fim, analisou-se planos de turismo rural no âmbito
nacional para compreender as políticas voltadas para este setor.
2 – Desenvolvimento
Ao trabalharmos com o turismo rural, no primeiro momento devemos distinguilo do que denomina-se de turismo no espaço rural. O turismo no espaço rural
consiste em uma abordagem onde o turista não se direciona essencialmente para
uma propriedade onde irá se relacionar com as atividades agrícolas. Este tipo de
turismo acaba abarcando diversas atividades que muitas vezes podem extrapolar os
limites das propriedades, dessa maneira, dentro deste conceito têm-se diversas
formas de organização do turismo, como o ecoturismo, turismo cientifico, turismo
cultural, etc.
Muitas das atividades que se apresentam como produtos turísticos do meio
rural correspondem simplesmente a práticas de ócio dos citadinos
desenvolvidas em espaços abertos, fora das cidades, onde o meio rural
serve apenas de sua base física, como um suporte relativamente neutro de
consumos turísticos que poderiam desenvolver- se em outros âmbitos.
(SILVA, 1998. p. 115)
Assim sendo, o atrativo deste conceito não diz respeito essencialmente ao
modo de vida rural, mas sim a atividades de lazer realizadas neste espaço, as quais,
3079
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
muitas vezes, encontram-se desconectadas da realidade do mundo rural. Logo, o
espaço rural apresenta-se em diversos casos como uma plataforma de ócio.
Em contrapartida, destaca-se inserido nesta lógica do turismo no espaço
rural, o que denominamos de turismo rural. A diferença básica entre ambos é que o
turismo no espaço rural abarca diversas categorias de atividades, enquanto o
turismo rural tem sua própria endo-consistência (imagem 02).
Imagem 02 – Esquema turismo no espaço rural e turismo rural.
Fonte: DUARTE, Tiaraju Salini, 2014.
Quando trago a ideia de endo-consistência, me refiro a ideia do particularismo
que este segmento possui em relação aos outros, pois, o turismo rural destaca-se
por possuir uma alma, uma essência relacionada ao modo de vida da população que
reside neste espaço.
O turismo rural, conforme já destacaram Graziano da Silva, Vilarinho e Dale,
constitui-se em uma atividade que une a exploração econômica a outras
funções como a valorização do ambiente rural e da cultura local que, não
raras vezes, são alguns de seus atrativos principais (1998). (SCHNEIDER,
2000. p. 27)
Logo, o turismo rural está conexo a atmosfera criada diretamente na
propriedade rural gerada a partir do singular modo de vida criado no espaço rural.
Esta identidade rural é que atrai o turista para este segmento.
3080
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
Por ello un intento de aproximación atendería al espacio que ocupa y a las
actividades económicas que lo caracterizan, al tipo de alojamiento
propiamente rural y a las modalidades de recreación que podrían
desarrollarse en él e, incluso, a las relaciones que se entablan entre los
turistas y la comunidad receptora. (CLIMENT, 2009, p. 186)
Assim, o turismo rural, muito além de visar somente à questão econômica da
população local, também resgata a história deste espaço, sua valorização
patrimonial e a sustentabilidade dos seus recursos naturais e culturais. Desta forma,
existem diversos aspectos positivos gerados por esta múltipla função da agricultura,
a qual servirá muitas vezes de subsídio para a reinvenção da comunidade que
organiza este segmento.
2.1 – “o lago de pedalinho” e o Planejamento do turismo rural no Brasil.
O turismo rural no Brasil evidencia-se hoje como uma estratégia que, ainda
que incipiente, começa a despontar significativamente no espaço rural, tendo como
base a multifuncionalidade da agricultura como principal aporte para este setor,
sendo responsável muitas vezes pela ressignificação do espaço rural, tanto pela
população que ali reside como a população citadina. O próprio Plano Nacional de
Turismo rural lançado no ano de 2010 evidencia a necessidade da valorização da
cultura local como essência para o desenvolvimento desta atividade.
Além da possibilidade de geração de uma renda adicional para as
comunidades locais, o Turismo Rural pode contribuir para a revitalização
econômica e social das regiões, a valorização dos patrimônios e produtos
locais, a conservação do meio ambiente, a atração de investimentos
públicos e privados em infraestrutura para os locais onde se desenvolve.
(BRASIL, 2010, p. 12)
Contudo, o que sobressai em alguns projetos de turismo rural no Brasil
(relacionados principalmente a ausência de planejamento territorial do turismo) diz
respeito a falsificação das ruralidades. Desta forma, as imagens rurais muitas vezes
são modificadas ou até mesmo criadas em prol do desenvolvimento do turismo a
qualquer custo. A adulteração torna-se iminente, descaracterizando completamente
a área de origem e o tornando insustentável a longo prazo.
As municipalidades turísticas, coniventes com agentes privados, promovem
qualquer produto que direta ou indiretamente traga dividendos. Trucida-se a
alma do lugar, criando locais públicos ou não, de alta vazão sonora.
3081
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
Espanta-se os que buscavam a paz campestre, enquanto que, em paraísos
praianos de exuberância tropical, constrói-se casas com telhados inclinados
para escorrimento de neve (YAZIGI, 2001. p. 110)
O autor referência está “falsificação” com a nomenclatura de arquiteturas de
“branca de neve”, as quais se configuram como um exemplo de descaracterização
da cultura local em prol de uma tentativa de desenvolvimento baseada em modelos
implementados em outros territórios com base em fenômenos temporais e espaciais
completamente diferentes da realidade onde este projeto será implementado.
Observamos, por exemplo, o surgimento de planos de turismo rural pautados
em “lagos com pedalinhos” sem uma mínima conexão com a identidade territorial
local, visando somente um arrecadamento monetário a curto prazo. Esta
problemática denota a necessidade de uma discussão aprofundada sobre que tipo
de planejamento do turismo rural no Brasil queremos construir.
Os agentes econômicos privados e a organização pública (tanto na esfera
municipal, estadual e nacional) em muitos casos não se preocupam com a
organização do território para a população que ali reside, mas sim na arrecadação
econômica que esta atividade pode gerar.
O que o Brasil de ambição turística tem sistematicamente se recusado (e
desconstruindo o pouco que já se fez) é se conscientizar da importância da
organização do território – antes de tudo para si mesmo e só depois,
eventualmente, para o turista. [...] a organização do território é fundamental
para o turismo e indispensável para o habitante comum. Entretanto não se
trata de qualquer “organização”, e sim de um procedimento que requer arte,
que teimamos em ignorar. (YAZIGI, 2001. p. 33)
A ausência de planejamento deste setor demonstra como carecem as
discussões sobre os planos de turismo rural, não somente na escala local com a
população que reside neste espaço, mas também pelo meio acadêmico. Como
afirma o autor, teimamos em ignorar a necessidade da organização do território para
a população que reside no espaço rural. Os planejadores deste segmento pensam
na disposição dos objetos turísticos, mas não na identidade que este espaço possui;
Constrói-se “lagos com pedalinhos” como se este fosse o único atrativo do espaço
rural.
Muitos planos desconsideram a construção da infraestrutura básica para a
população rural, a qual muitas vezes carece do básico para viver. Desta forma,
3082
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
torna-se evidente a necessidade da discussão sobre como o planejamento do
turismo rural vem sendo efetivado e também exemplos que ocorreram dentro do
Brasil que possam servir de suporte para uma estratégia de organização do turismo
rural na esfera nacional3.
2.2 –multifuncionalidade da agricultura e identidade territorial: o Vale dos
Vinhedos e o Planejamento do turismo.
Em uma contracorrente a estes projetos turísticos pautados no imediatismo e
na falsificação das ruralidades é que o turismo rural no Vale dos Vinhedos aflora
como uma proposta de planejamento baseada na identidade territorial. O grande
cerne do turismo na área de estudo é a fuga desta adulteração do local que assola
diversas regiões que trabalham com o turismo rural no território nacional.
Outro fator que se destaca é a organização do território antes mesmo da
implementação do projeto de turismo rural. O Vale dos Vinhedos possuía uma
organização logística de mobilidade populacional pré-existente ao projeto de
implementação do turismo. Em resumo, não foi o turismo criado e a posteriori a
infraestrutura, foi ordenamento territorial pré-existente na região que auxiliou a
consolidação deste roteiro.
Além desta organização territorial que antecede o projeto de turismo na região
de estudo, buscou-se estratégias de ressignificação da identidade territorial no Vale
dos Vinhedos, derivada do seu processo histórico de formação (a origem da
imigração italiana para a região data de 18754), a qual se apresenta não só como um
atrativo turístico, mas também como estratégias de desenvolvimento territorial
endógeno.
Logo, a multifuncionalidade da agricultura possibilitou a organização do
turismo rural na região de estudo. Na percepção de Maria José Carneiro:
3
Contudo, estes serviriam de exemplo, e não como único caminho a ser seguido. Não propomos criar
um modelo fechado que se aplique a toda a realidade do território nacional, mas sim uma estratégia
que possa se adaptar as mais diversas realidades do território nacional.
4
Data oficial da imigração italiana é de 20 de maio de 1875, mas não se sabe ao certo em que data o
império tomou a si a empresa de colonizar Conde d' Eu e dona Isabel. Os arquivos são omissos a
este respeito. Não há dúvida, porém, quanto à presença de colonos italianos já antes de 1875,
disseminados pelas outras colônias da província. (...) Dados do governo provincial revelam que entre
1859 e 1875, teriam entrado no Rio Grande do Sul cerca de 7290 italianos. (DE BONI e COSTA,
1984, p 65)
3083
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
A abordagem da multifuncionalidade da agricultura se diferencia por
valorizar as peculiaridades do agrícola e do rural e suas outras contribuições
que não apenas a de bens privados, além dela repercutir as críticas às
formas predominantes assumidas pela produção agrícola por sua
insustentabilidade e pela qualidade duvidosa dos produtos que gera.
(CARNEIRO, 2003. p 19).
Desta forma, a multifuncionalidade seria uma das estratégias de reprodução
socioespacial dos agricultores, de modo que valoriza as práticas particulares de
cada recorte espacial, rompendo com a ideia de setores da economia (primário,
secundário e terciário) que tradicionalmente foi criada, na qual cada setor seria
responsável somente por uma determinada função econômica, e nada mais.
A noção de multifuncionalidade rompe com o enfoque setorial e amplia o
campo das funções sociais atribuídas à agricultura que deixa de ser
entendida apenas como produtora de bens agrícolas. Ela se torna
responsável pela conservação dos recursos naturais (água, solos,
biodiversidade e outros), do patrimônio natural (paisagens) e pela qualidade
dos alimentos. (CARNEIRO, 2003. p 19).
Estas
múltiplas
funções
estabelecidas
no
espaço
rural
permitem,
concomitantemente, o desenvolvimento de atividades não agrícolas que diversificam
as possibilidades de geração de renda entre as famílias, valorizando os saberes e
práticas dos agricultores. Dentro desta concepção multifuncional da agricultura
familiar, é que o turismo rural no Vale dos Vinhedos se planejou, tornando o mesmo
uma estratégia de reprodução socioespacial do espaço rural. Destaco que a origem
da organização do turismo rural nesta localidade surge da iniciativa dos próprios
agricultores, que na década de 1990 organizaram-se para promover a identidade
territorial da região do Vale dos Vinhedos a partir do turismo rural.
A ideia da construção do conceito de identidade vai ao encontro da
perspectiva do autor Manuel Castells:
Entendo por identidade o processo de construção de significado com base
em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais
interrelacionados, o (os) qual (quais) prevalece (m) sobre outras fontes de
significados. (CASTELLS, 2006, p. 22)
Estes significados são entendidos aqui como uma identificação simbólica dos
atores sociais. Por conseguinte, nesse processo recriam-se no imaginário individual
3084
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
valores e práticas que serão mobilizados na construção de uma identidade coletiva
sobre o espaço.
É relevante destacar que a identidade não somente faz referência a pessoas
ou objetos materiais, afinal, a mesma carrega signos do passado e do presente;
representações que criam o processo de identificação. Este, por sua vez, perpassa
pela noção de semelhança, igualdade, de um ser humano com outro, com um objeto
ou um símbolo.
Ela [a identidade] nunca é construída a partir da mera diferença ou de
características “próprias”, “singulares”, pois tem sempre um caráter
reflexivo, isto é, identificar-se implica sempre identificar-se com, num sentido
relacional, dialógico, e a identidade, por mais essencializada que pareça,
justamente por seu caráter simbólico, é sempre múltipla e/ou está aberta a
múltiplas re-construções. (HAESBAERT, 2007, p. 42)
Contudo, muitas vezes transcorre-se a ideia de que esta identidade caminha
sempre no campo do irreal, no âmbito simbólico-imaterial. Não obstante, por mais
que esteja pautada nesta dimensão, a mesma necessita do material, de um marco
concreto, um referencial espacial. Conforme explica Haesbaert (2007),
As identidades não são construções totalmente arbitrarias ou aleatórias,
elas precisam ancorar-se em referentes materiais ou, em outras palavras,
tem sempre uma fundamentação política “concreta”. “As marcas da
identidade não estão inscritas no real”, diz Penna, masos elementos sobre
as quais as representações de identidades são construídas e são dele
selecionados. (HAESBAERT, 2007, p. 42)
Entende-se, que é a partir desse marco material e simbólico que serão
construídos os processos de identificação, como no caso de grupos de indivíduos
que constroem no espaço, identidades territoriais.
Os grupos sociais podem muito bem forjar territórios em que a dimensão
simbólica (como aquela promovida pelas identidades) se sobrepõe à
dimensão mais concreta (como a do domínio político que faz o uso de
fronteiras territoriais para se fortalecer). (HAESBAERT, 1999, p. 171)
Observa-se
então,
que
a
partir
da
identidade
territorial
e
da
multifuncionalidade da agricultura é que a maioria dos empreendimentos gerados na
região denominada Vale dos Vinhedos são criados; Estes são vinculados a cultura
local que foi impressa pela identidade territorial na região de estudo. (Imagem 03)
3085
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
Imagem 03 Mapa de produtos e serviços de Turismo Rural no Vale dos Vinhedos – Rio Grande do
Sul/Brasil.
Fonte: DUARTE, Tiaraju Salini; FREITAS, Pamela. (2014)
Desta maneira, quase todos os empreendimentos criados juntamente com a
gênese do roteiro e até mesmo após a sua origem estão vinculados a identidade
territorial vinculada a imigração italiana e a vitivinicultura. São diversas vinícolas,
restaurantes, hotéis e pousadas que oferecem um contato direto com a produção
vinícola e o modo de vida rural que ali desenvolveu-se ao longo de mais de um
século.
Contudo, mesmo tendo em vista este processo de organização, trago uma
preocupação: evidencia-se hoje no Vale dos Vinhedos o início de uma possível
falsificação das ruralidades, principalmente com a crescente especulação imobiliária,
a criação de condomínios residenciais fechados e o aumento significativo da
pressão sobre os produtores rurais por parte do setor privado e público para a sua
inserção, muitas vezes obrigatória no circuito turístico.
3. Considerações finais
As novas perspectivas da utilização do espaço rural começam a aparecer de
forma acentuada, principalmente, a partir da redescoberta do campo para atividades
3086
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
que antes eram somente vistas como afazeres urbanos. O rural no século XXI surge
como uma nova forma de proporcionar lazer para as pessoas que não querem mais
simplesmente visitar locais com paisagens exuberantes. O turista busca além das
paisagens, modos de vida essencialmente rurais de maneira a valorizar as
identidades locais, apreciando as amenidades do espaço rural.
Desta maneira, com a crescente importância do turismo para o espaço rural é
que diversos projetos de desenvolvimento deste setor começam a surgir. Não
obstante, como destacado anteriormente, muitos destes projetos de planejamento
não preocupam-se com o espaço rural e o modo de vida que ali é construído, mas
sim com o lucro imediato que este pode gerar em um período de curto prazo. À vista
disso, em diversos locais o planejamento do turismo rural acaba sendo submetido a
égide do capital, falsificando ruralidades e tendo como principal atrativo “lagos com
pedalinhos” como única estratégia de desenvolvimento.
Neste artigo destacou-se que uma das estratégias para planejar o turismo
rural na esfera nacional deve-se pautar na Identidade territorial criada historicamente
pelas comunidades. Assim sendo, trouxe-se como exemplo o Vale dos Vinhedos,
uma região turística que sobressai-se no cenário do turismo rural brasileiro e que
tem como alicerce para a sua organização a identidade territorial baseada na
imigração italiana e no processo do fabrico do vinho. Consequentemente, estes
processos imprimiram no território fortes traços culturais que são mantidos até os
dias atuais, como práticas e hábitos tradicionais, tanto no que concerne ao
patrimônio imaterial (práticas do saber-fazer herdadas dos antepassados presentes
nos sistemas agrícolas relacionados ao cultivo de videiras, na fabricação do vinho)
quanto ao patrimônio material (presente nas casas de pedra, nos instrumentos
agrícolas, na fabricação de pipas para armazenar o vinho), registros preservados
nas propriedades, o que tornou o turismo rural nesta localidade viável e consolidado.
Desta forma, argumenta-se que os projetos de desenvolvimento do turismo
rural no Brasil devem ter como uma das premissas básicas a valorização das
identidades territoriais como um dos princípios para organizar o projeto de turismo
rural. Além disso, deve-se incentivar a manutenção das práticas agrícolas como
base para o crescimento do turismo nas diversas regiões brasileiras que pretendem
trabalhar com o este segmento.
3087
A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
Para finalizar, ressalto a necessidade de organizar o território (por parte do
setor público e privado) para a própria população que reside nestas localidades, não
tendo como foco o turismo, mas sim a qualidade de vida da população que reside no
espaço rural; se este princípio for respeitado, o turismo rural será uma consequência
da organização do território, e não o processo contrário.
4 - Referências bibliográficas
BRASIL, Ministério Do Turismo. Turismo rural: orientações básicas. Brasília:
Ministério do Turismo. 2. Ed. 2010. 68 p.
CARNEIRO, Maria J; MALUF, Renato S. (Orgs.) Para além da produção:
multifuncionalidade e agricultura familiar. Rio de Janeiro: MAUAD, 2003.
CASTELLS. Manuel. A identidade em questão. In: HALL, Stuard. A identidade
cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
CLIMENT, María Paz Such; CARRETERO; del Mar García. Turismo en espacios
rurales. Geografía Mundial del turismo. Madrid: Sinteses, 2009. p. 186-222.
DE BONI, L. A; COSTA, R. Os italianos do Rio Grande do Sul. Caxias do Sul: EST
– Correios Riograndense – EDUCS, 1984.
HAESBAERT, Rogério. Identidades territoriais. In: CORREA, R. L; ROSENDAHL,
Z. (Orgs.). Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999.
284p.
HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à
multiterritorialidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Bertrandt Brasil, 2007.
SCHNEIDER, Sergio; FIALHO, Antônio Verardi . Atividades não agrícolas e
turismo rural no Rio Grande do Sul. In: ALMEIDA, J. A. , RIEDL, M (orgs) Turismo
Rural: ecologia, lazer e desenvolvimento.1ª ed.Bauru : EDUSC, 2000, p. 14-50.
SILVA, J. G. Turismo em Áreas Rurais: Suas Possibilidades e
Limitações no
Brasil. in: Almeida, J.; Froehlich, J; Riedl, M., orgs. Turismo Rural e Desenvolvimento
Sustentável. Santa Maria, 2001.
YAZIGI, Eduardo Abdo. A alma do Lugar: Turismo, Planejamento e cotidiano em
litorais e montanhas. Contexto. São Paulo , 2001. 301 p.
3088
Download

Identidade territorial como estratégia de planejamento do turismo rural