UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO EM BALNEÁRIO CAMBORIÚ ANGELO RICARDO CHRISTOFFOLI TURISMO E RELIGIOSIDADE NO BRASIL: UM ESTUDO DOS DISCURSOS DA PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA Balneário Camboriú Abril de 2007 ANGELO RICARDO CHRISTOFFOLI TURISMO E RELIGIOSIDADE NO BRASIL: UM ESTUDO DOS DISCURSOS DA PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA Tese apresentada no Programa de Pós Graduação Stricto Sensu Doutorado em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí Orientadora: Profa. Dra.Yolanda Flores e Silva Balneário Camboriú Abril de 2007 ANGELO RICARDO CHRISTOFFOLI TURISMO E RELIGIOSIDADE NO BRASIL: UM ESTUDO DOS DISCURSOS DA PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do Grau de Doutor, no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Turismo e Hotelaria, Área de Concentração: Turismo e Hotelaria, do Centro de Educação de Balneário Camboriú, da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI (SC) – e aprovada na sua versão final em: 25/04/2007. BANCA EXAMINADORA: ____________________________________ Profa. Dra. Yolanda Flores e Silva - Orientadora ________________________________________ Profa. Dra. Dóris Van De Meene Ruschmann Membro – (Titular UNIVALI) ________________________________________ Profa. Dra. Elisabete Tamanini Membro - (Titular UNIPLAC/Lages) ________________________________________ Prof. Dr. Rafael José dos Santos Membro – (Titular UCS/Caxias do Sul) ________________________________________ Dra. Luciana Paolucci Membro - (Titular UNIVALI) 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a todos aqueles grupos sociais que, diante do mundo que nos rodeia, conseguem manter íntegras suas raízes culturais, nas quais a vida e o homem ainda são os maiores valores. 5 AGRADECIMENTOS No decorrer deste trabalho, muitas foram às pessoas e instituições com as quais cruzamos, e que nos marcaram com seus préstimos e apoios afetivos e profissionais. Finda a tarefa, cabe-nos, registrar nosso apreço e reconhecimento, pois, este trabalho não é o resultado das preocupações de apenas uma pessoa, daí a sinceridade destes agradecimentos! Começo por aqueles que deram vida a minha história, aos meus escritos. Falo dos visitantes que circulam nos ambientes da religiosidade, aos quais procurei com este trabalho, colaborar para que emergissem diante dos olhos dos profissionais e pesquisadores do turismo. Digo isso porque muitas das vezes não são reconhecidos enquanto um grupo coeso e uniforme, mas muitas outras vezes são percebidos como sendo o contrário disso, pois diante da inexorabilidade da vida atual, mantiveram junto a seu grupo e as suas famílias valores que nossa sociedade, se conhece, não mais os vive mais cotidianamente. Espero então, que este trabalho dê vida a estes diferentes personagens deste momento do passado, para que saiam e assumam seu lugar na História. Gostaría de agradecer aos Professores que estiveram na Qualificação e na Banca de Defesa, Professores: Dra. Dóris Van De Meene Ruschmann, Dra. Elisabete Tamanini, Dra. Luciana Paolucci e Dr. Rafael José dos Santos, as quais resultaram na ampliação do horizonte da pesquisa que, permitiu-me avançar no conhecimento e na dinâmica da produção científica sobre esse grupo da sociedade brasileira merecedor de atenções e de observações acadêmicas. Aos funcionários do Programa de Doutorado Acadêmico da Universidade do Vale do Itajaí, principalmente Márcia, sempre disponíveis e prestativos às minhas necessidades. Merecem meus agradecimentos intensos e as minhas desculpas, a Deda, o Giovanni e a Larissa, que por centenas de dias e noites, muitas vezes ouviram um “não posso” participar das coisas do dia-a-dia familiar. Para finalizar um agradecimento muito especial à minha Professora Orientadora da Tese, que durante estes anos, ouviu pacientemente, argumentações e considerações, e, por haver aceito o desafio de orientar-me — o que fez, sempre, com muita competência e elegância —, com sua atenção e disponibilidade calorosa. 6 PENSAMENTO “A miséria da religião, é, ao mesmo tempo, expressão e protesto contra a miséria real. É o lamento da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, alma de uma condição desalmada (...). Assim, a crítica do Paraíso transforma-se em crítica da Terra, a crítica da religião em crítica da lei, a crítica da teologia em crítica política (...). A religião é visão invertida do mundo, mas porque esta sociedade, este Estado, são o mundo invertido.” Karl Marx, citado por Marilena Chauí (1986, p. 85) CHRISTOFFOLI, Angelo Ricardo. Turismo e religiosidade no Brasil: um estudo dos discursos da produção acadêmica brasileira. 2007, 139 f. Tese (Doutorado em Turismo e Hotelaria) – Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hotelaria, Universidade do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, 2007. RESUMO O Objetivo geral deste estudo é o de colaborar com a compreensão sobre os discursos existentes nos textos produzidos por autores do turismo sobre deslocamento religioso e turismo religioso na produção científica do turismo brasileiro e áreas afins entre os que atuam ou pesquisam este ambiente. A População que compões este estudo são os textos de autores brasileiros sobre o ambiente por eles denominado de turismo religioso. A Metodologia adotada para coleta, análise e discussão dos dados tem abordagem qualitativa de natureza exploratória na busca de dados bibliográficos e documentais. Os procedimentos de coleta de dados compreenderam a leitura dos textos e organização dos dados sobre a obra e o autor, o contexto de sua elaboração, a natureza de sua construção, o referencial utilizado como ancoragem e o uso da obra no turismo; a análise dos dados foi pela técnica de análise denominada de Discurso do Sujeito Coletivo – DSC, através das etapas: seleção das expressões chave; idéias centrais; ancoragem; e a síntese dos discursos. Os resultados obtidos estão relacionados ao avanço acerca das discussões e dos discursos do turismo associados a religiosidade católica junto aos autores do turismo brasileiro, visto que, a partir de suas publicações, estes influenciam diretamente a prática e os planejamentos, bem como na interpretação sobre o turismo nos ambientes dos deslocamentos religiosos. Confirmou-se que o turismo ainda não possui mecanismos definidos para a compreensão das diversas motivações culturais no ambiente religioso e na religiosidade popular do catolicismo, como também o turismo não tem estudos sistemáticos e sistematizados que discutam as diferentes categorias que interpretem a peregrinação, a romaria e o que se define como turismo religioso. Também se constatou ocorrer uma autoaceitação e auto-citação entre alguns poucos autores, talvez em face do pequeno número de pesquisas de campo encontradas, as quais poderiam trazer mais luz à discussão e a compreensão da situação estudada, isso porque, as obras concentram-se quase sempre, em interpretar as atividades dos visitantes apenas, esquecendo-se dos fiéis e das congregações. Constatou-se que os autores não possuem um conjunto definido de categorias que possam explicar e justificar o uso do termo ‘turismo religioso’, pois, entende-se também que não conseguem distinguir todos os diferentes elementos que dão suporte aos grupos que convivem paralelamente no universo religioso, muito menos aos possíveis turistas que lá se encontram, e sobre os quais pretendem atuar. PALAVRAS CHAVE: Turismo; Turismo Religioso; Produção Acadêmica; Discursos. CHRISTOFFOLI, Angelo Ricardo. Tourism and religiosity in Brazil: a study of the discourses of Brazilian academic production. 2007, 139 f. Thesis (Doctorate in Tourism and Hotel Management) – Postgraduate Program in Tourism and Hotel Management, University of Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, 2007. ABSTRACT The general objective of this study is to further understanding on the discourses that exist in the texts produced by authors in the area of religious travel and religious tourism, in the scientific production of Brazilian tourism and related areas, or carrying out research in this ambient. The object of this study consists of texts by Brazilian authors, on the ambient which they denominate religious tourism. The Methodology adopted for the collection, analysis and discussion of the data was the qualitative, exploratory approach of bibliographic and documentary review. The data collection procedures included the reading of texts and organization of data about the works and the authors, the context in which the texts were written, the nature of their construction, the framework used as anchorage, and the use of the work in tourism. The data were analyzed using the document analysis technique known as the Collective Subject Discourse Analysis – CSD, through the following stages: selection of key expressions; central ideas; anchorage; and synthesis of the discourses. The results obtained relate to advances on tourism discussions and discourses associated with Catholic religiosity, since, based on their publications, they directly influence the practice and planning, as well as the interpretation of tourism in contexts of religious travel. This study also confirms that tourism still does not have any clearly-defined mechanisms for understanding the various cultural motivations in the religious environment, and in the popular religiosity of Catholicism, and that tourism lacks systematic and systemized studies on the different categories that interpret pilgrimage in what is defined as religious tourism. It also observes that there is a self-acceptance and self-citation among few of the authors, perhaps due to the small number of field studies found, which can shed more light on the discussion and understanding of the situation studied. This is because the works almost always focus on interpreting the activities only of visitors, forgetting religious followers and congregations. It demonstrates that the authors and researchers do not have a clear set of categories to explain and justify the use of the term ‘religious tourism’, therefore, it is assumed that they are unable to distinguish all the different elements which give support to the groups that coexist alongside the religious environment, far less the potential tourists to be found there, and on whom they intend to act. KEY WORDS: Tourism; Religious Tourism; Academic Production; Discourses. 9 CHRISTOFFOLI, Angelo Ricardo. Turismo y religiosidad en Brasil: un estudio de los discursos de la producción académica brasileña. 2007, 139 f. Thesis (Dotorato en Turismo e Hoteleria) – Programa de Posgrado en Turismo e Hoteleria, Universidad del Vale del Itajaí, Balneário Camboriú, 2007. RESUMEN El Objetivo general de este estudio es el de colaborar con la comprensión sobre los discursos existentes en los textos producidos por autores del turismo sobre desplazamiento religioso y turismo religioso en la producción científica del turismo brasileño y áreas afines entre los que investigan este ambiente. La Población que compone este estudio son los textos de autores brasileños sobre el ambiente por ellos denominado turismo religioso. La Metodología adoptada para recolección, análisis y discusión de los datos tiene abordaje cualitativo de naturaleza exploratoria en la búsqueda de datos bibliográficos y documentales. Los procedimientos de recolección de datos comprendieron la lectura de los textos y organización de los datos sobre la obra y el autor, el contexto de su elaboración, la naturaleza de su construcción, el referencial utilizado como fundamentación y el uso de la obra en el turismo; el análisis de los datos fue realizado por la técnica de análisis denominada Discurso del Sujeto Colectivo – DSC, a través de las etapas: selección de las expresiones clave; ideas centrales; fundamentación; y la síntesis de los discursos. Los resultados obtenidos están relacionados al avance acerca de las discusiones y de los discursos del turismo asociados a la religiosidad católica junto a los autores del turismo brasileño, puesto que, a partir de sus publicaciones, éstos influencian directamente la práctica y los planeamientos, así como la interpretación sobre el turismo en los ambientes de los desplazamientos religiosos. Se confirmó que el turismo aún no posee mecanismos definidos para la comprensión de las diversas motivaciones culturales en el ambiente religioso y en la religiosidad popular del catolicismo, así como tampoco el turismo tiene estudios sistemáticos y sistematizados que discutan las diferentes categorías que interpreten la peregrinación, la romería y lo que se define como turismo religioso. También se constató que ocurre una autoaceptación y autocitación entre unos pocos autores, tal vez debido al pequeño número de investigaciones de campo encontradas, las cuales podrían traer más luz a la discusión y a la comprensión de la situación estudiada, eso porque las obras se concentran, casi siempre, en interpretar solamente las actividades de los visitantes, olvidándose de los fieles y de las congregaciones. Se constató que los autores no poseen un conjunto definido de categorías que puedan explicar y justificar el uso del término ‘turismo religioso’, pues se entiende también que no logran distinguir todos los diferentes elementos que dan soporte a los grupos que conviven paralelamente en el universo religioso, mucho menos a los posibles turistas que allá se encuentran, y sobre los cuales pretenden actuar. PALABRAS CLAVE: Turismo; Turismo Religioso; Producción Académica; Discursos. 10 LISTAS DE FIGURAS FIGURA 1 - CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA .......................................................106 FIGURA 2 - EDIN SUED ABUMANSSUR ..............................................................110 FIGURA 3 - REINALDO DIAS ................................................................................112 FIGURA 4 - EMERSON J. S. DA SILVEIRA ..........................................................114 FIGURA 5 - ANCORAGEM DE CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA .........................116 FIGURA 6 - ANCORAGEM DE EDIN SUED ABUMANSSUR.................................117 FIGURA 7 - ANCORAGEM DE REINALDO DIAS..................................................118 FIGURA 8 – ANCORAGEM DE EMERSON J. S. DA SILVEIRA ...........................119 FIGURA 9 – COMPOSIÇÃO DO TURISMO RELIGIOSO......................................124 LISTAS DE QUADROS QUADRO 1 DSC - Sobre Turismo Religioso (Turismo Religioso).........................120 QUADRO 2 DSC - Sobre Turismo Religioso (Religiosidade) ................................120 QUADRO GERAL DSC - Sobre Turismo Religioso...............................................123 LISTAS ABREVIAÇÕES E SIGLAS AIEST Associação Internacional de Espertos em Turismo CAR Centro de Atividades Múltiplas DSC Discurso do Sujeito Coletivo ECA/USP Escola de Comunicação e artes da Universidade de São Paulo EMBRATUR Instituto Brasileiro de Turismo OMT Organização Mundial do Turismo PUC Pontifica Universidade Católica SISTUR Sistema de Turismo UNIVALI Universidade do Vale do Itajaí SUMÁRIO LISTAS DE FIGURAS .............................................................................................10 LISTAS DE QUADROS ...........................................................................................11 LISTAS ABREVIAÇÕES E SIGLAS.......................................................................12 INTRODUÇÃO .........................................................................................................14 1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PESQUISA..................22 2 TURISMO E RELIGIÃO........................................................................................30 2.1 O TURISMO E RELIGIÃO: DEFINIÇÕES E CONCEITOS IMPORTANTES À DISCUSSÃO ............................................................................................................32 2.2 CRENÇAS RELIGIOSAS NO OCIDENTE: OS DESLOCAMENTOS RELIGIOSOS77 2.3 AS TRANSFORMAÇÕES DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL........................84 2.3.1 Transformações nos deslocamentos religiosos brasileiros (1500-1900) .........85 2.3.2 Estratégias da Igreja Católica com relação aos deslocamentos religiosos brasileiros (1900-2000) ............................................................................................95 3 OS DISCURSOS SOBRE TURISMO RELIGIOSO NO BRASIL .........................102 3.1 PERFIL DOS AUTORES ESCOLHIDOS PARA O ESTUDO ...........................103 3.2 A PRODUÇÃO ANALISADA ............................................................................106 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................125 REFERÊNCIAS......................................................................................................137 INTRODUÇÃO A partir das atividades profissionais desenvolvidas enquanto docente em turismo, percebeu-se1 que a relação entre o ambiente religioso e o ambiente do turismo é estruturada sobre premissas diferentes, para não dizer opostas entre si. O estudo do turismo no ambiente da religiosidade católica popular2 que serve de pano de fundo deste trabalho tem gerado poucas percepções e posições estratégicas de análise por parte dos estudiosos das Ciências Sociais Aplicadas, setor onde se encontra classificado o turismo, concentradas principalmente em dois aspectos que são: a movimentação física de pessoas, e, o lazer turístico, ou seja, percebeu-se que estas duas categorias apresentam-se em boa parte das interpretações dos autores da relação entre os dois universos em questão. Além disso, se percebe que há uma determinada necessidade de pesquisa para responder ao mercado apenas (como é o caso, de muitas interpretações funcionalistas que ocorrem nos textos e nas interpretações realizadas pelos autores do turismo), as quais estão aquém dos valores sociológicos valorizados pelos grupos sociais que estudam, e isso me moveu para a execução dessa Tese. Isto porque estes autores parecem ver apenas o que consideram importante 1 Desenvolvi durante dois anos uma pesquisa intitulada ‘Turismo religioso e Humanismo Latino no Brasil’ para a Fondazione Cassamarca de Treviso na Itália. O objetivo maior era identificar a existência de estruturas de apoio aos fiéis nos maiores santuários católicos brasileiros (Aparecida (SP), Iguape (SP), Frei Galvão (SP), Juazeiro (CE), Padre Eustáquio (MG), Nova Trento (SC), Bomfim (BA), Caravaggio (RS), Navegantes (RS), entre outros, com base nas estratégias da Conferência Episcopal Italiana (CEI). Para surpresa, apesar da existência de muitas pastorais (do romeiro, dos fiéis, dos peregrinos, etc.), nenhum local pesquisado conhecia tanto a estrutura relacionada ao turismo da CEI, bem como as estratégias, as ações e publicações direcionadas para os que trabalham com turismo. Essa relação com o ambiente religioso advém de minha graduação em História (1991), duas Especializações (História 1994; Turismo 1997), mais o Mestrado em Turismo e Hotelaria (2000), todos pela Universidade do Vale do Itajaí. Também deriva pelo fato de ser líder do Grupo de Pesquisas Investigação em Lazer e Eventos, registrado no CNPQ desde 2000 com pesquisas na Linha Gestão do Lazer Público e Privado, onde desenvolvo pesquisas sobre lazer público tanto nas praias de Balneário Camboriú e região, como sobre os espaços públicos para o lazer da comunidade, fato que me levou a pesquisar sobre os motivos que levam os visitantes a Nova Trento, SC. Atualmente sou professor nas áreas de Lazer, do Turismo e Gastronomia, atuando principalmente nos seguintes temas: História do Lazer, Lazer público, Planejamento do Lazer turístico, Patrimônio Histórico e Turismo, junto a Universidade do Vale do Itajaí. 2 O antropólogo Ruben César Fernandes em trabalho sobre as caminhadas e peregrinações no interior de São Paulo e no santuário de Czestochowa na Polônia, desenvolveu argumentações relacionadas ao simbolismo popular. Para o autor, “o predicado ‘popular’ deve caracterizar os laços que unem uma classe de iguais (vínculos horizontais); mas, por outro lado, deve também dar conta das relações obtidas entre posições desiguais em um eixo vertical. Remete às idéias de fraternidade, no primeiro caso, e às de autoridade no segundo. ‘Popular’ enquanto ‘classe subalterna’ está associado ao primeiro sentido; e, quando pensado como ‘extra-oficial’, associa-se prioritariamente, ao segundo” (FERNANDES, 1994, p.51 e p.231). 15 no ambiente religioso: a apropriação de mais este espaço através do planejamento, da padronização ou controle, visando integrá-lo ao exigido pelo mercado e pelas tendências das demandas turísticas em constante deslocamento físico. Outra característica generalizada nas argumentações dos autores do turismo, é que a urbanização, a vida agitada, a modernidade e a pós-modernidade, são os elementos mais importantes para a justificativa da transformação da religiosidade em lazer turístico, e essas transformações se expressam principalmente nos momentos indicados por eles como sendo ‘profanos’ (festas, arraiais, danças, bailes) que ocorrem junto aos locais ‘sagrados’ da religiosidade católica popular, e ainda conforme a percepção destes, isso ocorre em detrimento dos momentos sagrados. Como percebi que essas considerações dos autores não atingem o que considero essencial, concentrei-me em entender como se davam as relações entre os autores do turismo e os ambientes religiosos. Percebi também que o universo religioso é pouco conhecido da população em geral, e mesmo dos estudiosos das Ciências Sociais Aplicadas, assim, busquei com essa Tese desenvolver subsídios e embasamento que colaborem e expliquem a realidade atual da relação entre ambos. Chauí (1982) colabora com a compreensão do processo de apreensão do conhecimento de determinado objeto (sobre a sociedade brasileira) em sua discussão sobre os ‘discursos competentes e outras falas’ relacionados à compreensão dos aspectos ideológicos existentes no universo brasileiro da relação entre dominação e dominados. Para Chauí se quisermos compreender um determinado acontecimento social (algo), isso ocorrerá quando esse algo é “conhecido objetivamente quando é possível dominá-lo inteiramente pelas operações do entendimento” (1982, p. 34). Retornando ao turismo, tome-se como exemplo a apreensão de diferentes operações do entendimento elaboradas e aplicadas sobre um determinado objeto, na obra de Ruschmann sobre os impactos do turismo no meio ambiente. Mesmo distante de sua primeira edição (que ocorreu em 1997), continua sendo utilizada como referência obrigatória para diversos segmentos turísticos, porém o mesmo não se observa nem ocorre com o turismo e a religiosidade, pois, as atuais descrições e análises realizadas pelos autores, por si já bastam para explicar a atuação do turismo, isso porque, para os autores do turismo atualmente se estabeleceu uma relação mais intensa entre religiosidade e lazer, que ocorrem nos momentos de festas, compras e diversões. 16 Para tentar explicar porque essa situação ocorre nos autores do turismo em relação à religiosidade, bem como demonstrar elementos menos valorizados nas análises da relação entre religiosidade e turismo (o deslocamento físico e o lazer através das atividades percebidas como ‘profanas’), tomarei como base os elementos da teoria sociológica do sagrado e do profano de Durkheim (1996) nas buscas de respostas. Para Durkheim, (apud Ferretti 2001, p. 1), nestes dias, a vida religiosa atinge grau de excepcional intensidade. Referindo-se ao descanso religioso, Ferretti (2001) lembra que Durkheim afirma ser o caráter distintivo dos dias de festa correspondente, em todas as religiões conhecidas, à pausa no trabalho, suspensão da vida pública e privada à medida que estes momentos não apresentam objetivo religioso. Ferretti (2001) indica ainda que para Durkheim, as festas teriam surgido da necessidade de separar o tempo em dias sagrados e profanos. Ferretti (2001, p. 1) discute sincretismo religioso e festas indicando que Durkheim, [...] discute a importância do elemento recreativo e estético na religião, mostrando, a interrelação entre cerimônia religiosa e a idéia de festa, pela aproximação entre os indivíduos, pelo estado de “efervescência” coletiva que propicia e pela possibilidade de transgressão às normas. Para Durkheim (apud FERRETTI, 2001, p. 1) “as festas surgiram pela necessidade de separar no tempo, dias ou períodos determinados dos quais todas as ocupações profanas sejam eliminadas”. Adiante afirma: “o que constitui essencialmente o culto é o ciclo das festas que voltam regularmente em épocas determinadas”. Assim a repetição do ciclo das festas constitui, para Durkheim, elemento essencial do culto religioso. Durkheim também salienta “da importância dos elementos recreativos e estéticos para a religião, comparando-os a representações dramáticas e mostrando, que às vezes é difícil assinalar com precisão as fronteiras entre rito religioso e divertimento público” (apud FERRETTI, 2001, p. 1). Durkheim estabelece relações íntimas entre religião e festas, entre recreação e estética, mostrando o parentesco ou a proximidade entre o estado religioso e a efervescência, o delírio, os excessos ou exageros das festas. Para Durkheim os elementos do profano e do sagrado, estão compondo o universo religioso de forma concomitante, não existindo um sem a presença do outro, por mais que, ambos não se expressem ao mesmo tempo. Para Durkheim “a impossibilidade da coexistência dos dois num mesmo espaço permitiu a instituição dos templos e dos santuários” (1996, p. 326), pois, que estes, “são porções de 17 espaço, destinadas às coisas e aos seres sagrados e que lhes servem de hábitat, pois estes só podem se estabelecer ali com a condição de apropriar-se totalmente daquele chão num raio determinado” (DURKHEIM, 1996, p. 326). Já Mircéa Eliade na obra ‘O Sagrado e o Profano’ enfatiza que participando das atividades festivas relacionadas ao illud tempus3 o homem religioso esforça-se para reunir-se periodicamente num Tempo Original dos calendários sagrados, assim, “a festa não é a omemoração de um acontecimento mítico (e protanto religioso), mas sim sua reatuzalização” (1992, p 69). Nesse sentido se entende que, Eliade percebe as ações que influenciam a vida dos homens, imersas cotidianamente no religioso, compostas por complexos rituais culturais a serem observados e seguidos, muitas vezes sem permissão para escolhas individuais. Interessante perceber o que o antropólogo Roberto DaMatta (1983, p. 32) considera em seus estudos sobre os ritos brasileiros: ele entende que são duas as formas atuais de estudo desenvolvidas pelos cientistas sociais, em primeiro lugar estão os estudos que consideram o cerimonial em si, passando a descrevê-lo enquanto [...] o estudo do cerimonial como reflexo direto é muito mais comum, pois é mais fácil reduzir o rito à sociedade do que perceber que elementos dessa sociedade são operados ritualmente, e assim dramatizados e colocados em foco. Em segundo está um acontecimento repleto de simbolismos, em constante modificação que não se extingue com o fim da cerimônia, pois ele o entende como “um extraordinário de maior duração” (DAMATTA, 1983, p. 32), que se inicia antes e o que vem depois da cerimônia. Nessa visão mais ampla do religioso, direcionamonos também as idéias desenvolvidas por Mircéa Eliade, que entende ser a função integradora do sagrado4 baseada na percepção do religioso como centro do mundo, principalmente nos níveis culturais das sociedades arcaicas, “onde viver como ser humano é, em si, um ato religioso, pois a alimentação, a vida sexual e o trabalho têm um valor sacramental” (ELÍADE apud GUIMARÃES, 2000, p. 70). 3 Na repetição anual da Cosmogonia encontra-se o Tempo regenerado, que coincide com o illud tempus (momento em que o mundo viera pela primeira vez à existência). Participando desse ciclo de recriação, o homem tornava-se contemporâneo e, portanto, renascia de novo, recomeçando sua existência com a reserva das forças vitais intacta, tal como no momento de seu nascimento. 4 Para Eliade, mesmo na mais elementar das religiões é a experiência do sagrado que ‘funda’ e estrutura o Mundo de um determinado indivíduo, pois ao transcender o mundo físico, faz ver o passado mítico de cada grupo humano (isto é, mantém unido o conjunto de tradições mitológicas e culturais da tribo) (Apud Guimarães, 2000, p. 367-70). 18 Retomando as idéias de religião de Durkheim, observa-se que para ele [...] os fenômenos religiosos caracterizam-se naturalmente em duas categorias fundamentais: as crenças e os ritos, sendo que as primeiras são os estados da opinião, consistem em representações; os segundos são modos de ação determinados. Entre esses dois tipos de fatos há exatamente a diferença que separa o pensamento do movimento [...]“todas as crenças religiosas conhecidas [...] supõem uma classificação das coisas reais ou ideais [...] em duas classes [...] que as palavras profano e sagrado traduzem bastante bem” (DURKHEIM, 1996, p. 19). Partindo-se também dos elementos de análise propostos por Durkheim (as crenças e os ritos), se fez a estruturação desta Tese onde, entende-se que as crenças religiosas populares são as motivações que fazem com que os fiéis movimentem-se física e continuamente na busca da confirmação de sua fé nos santos (ou santuários) praticando “os ritos que lhes são solidários” (1996, p. 28), enquanto componentes de um grupo socialmente estruturado. De outro lado têm-se os ritos, ou seja, as formas como ocorrem essas movimentações, mediadas pelas “regras de conduta que prescrevem como o homem deve comportar-se com as coisas sagradas” (DURKHEIM, 1996, p. 24), bem como as estratégias (orações, rezas, caminhadas, romarias, peregrinações, entre outras), utilizadas pelos fiéis em busca da confirmação às suas crenças religiosas. Considerando também as idéias de Durkheim (1996), de que o essencial é que haja indivíduos reunidos, que sentimentos comuns sejam experimentados e expressos em atos comuns, “tudo nos leva então à mesma idéia: os ritos são, antes de tudo, os meios pelo qual o grupo social se reafirma periodicamente” (1996, p. 422). Para colaborar com essa discussão utilizo Chauí que descreve a religião como “uma atitude genérica perante o real, tornando-se impossível estabelecer uma diferença qualitativa entre religião dos dominantes e religião popular” (1982, p. 72), pois para a autora, variam apenas em grau e não em sua natureza. Complementa dizendo que a religião popular é a “preservação de valores éticos, estéticos, étnicos e cosmológicos de grupos minoritários e oprimidos, de sorte a funcionar como canal de expressão da identidade grupal e de práticas consideradas desviantes [...]” (p. 72). DaMatta justifica a necessidade de se entender a religiosidade dentro da cultura, distinguindo-a como conceito-chave para a interpretação da vida social (1986, p. 123), como um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si 19 mesmas”. Porém, indica que a cultura não é um código que se escolhe simplesmente, “é algo que está dentro e fora de cada um de nós, como as regras de um jogo de futebol, [...] (123-4). A partir deste contexto, se defende como proposta nesta Tese, que autores do turismo percebem ambas as situações (crenças e ritos da religiosidade católica popular) como formas diferentes de expressão, parte delas relacionadas à fé, e outra parte maior ligada apenas ao lazer que se estabeleceu na sociedade atual (e, portanto, apto ao turismo), cada qual com seus distintos objetivos e, portanto, desconectadas entre si (em oposição à visão unívoca de Durkheim onde ambos encontram-se conectados). Sendo que, além disso, é também considerado pelo mercado turístico como parte de um produto a ser consumido (a religiosidade), como outro qualquer dentro da ampla oferta de lazer turístico. Os autores ainda as vêem de forma simples, como uma oportunidade de atuação do profissional do turismo. Sobre as formas da movimentação dos fiéis (entendidas por Durkheim como sendo os ritos) vêm ocorrendo estudos desenvolvidos por profissionais do mercado turístico, para os quais a movimentação física (o deslocamento ocorrido pela viagem) das pessoas per se, representa a totalidade do processo, permitindo sua compreensão, e, portanto, a implantação de ações sobre ele. Na ausência de outras explicações pelos autores do turismo, nesta Tese, serão procuradas outras disciplinas para auxiliar, e, buscando explicar o que rege a existência dessa condição na movimentação das pessoas. Será usado Steil5, por exemplo, ao indicar a ocorrência de uma situação de inter-relação de dois mundos (uma articulação do envolvimento religioso com o turismo) ao descrever e analisar de modo concomitante algo que ao turismo ainda é desconhecido, o autor, indica que o eixo comum dessa articulação pode ser encontrado no fato de que o turismo e a peregrinação são vividos como o inverso da vida cotidiana. O turismo, assim como a peregrinação, está na ordem do lazer, do ócio (2003b, p. 56). Complementando sua argumentação Steil indica que (2003b, p. 56), [...] tanto num como no outro, observa-se a busca de uma sociabilidade ideal. Mas enquanto a peregrinação busca uma dissolução simbólica do indivíduo num todo holístico, o turismo opera a partir de um corte social eletivo que procura estabelecer ilhas de sociabilidade através da 5 Carlos Alberto Steil Doutor em Antropologia tem uma extensa produção científica concentrada na análise antropológica das sociedades e dos grupos religiosos. Este autor será utilizado em diversos momentos neste trabalho, uma vez que, apesar de, desenvolver estudos junto à religiosidade, perpassa muitas vezes o turismo como forma de análise. 20 demarcação de fronteiras entre um "eles" e um "nós". De modo que, se a peregrinação visa integrar numa sociedade global, o turismo, num sentido ideal típico, visa integrar numa sociedade particular, onde se torna possível experimentar o "outro" (a alteridade), para melhor apreender a si mesmo. E assim, a partir desses dois elementos propostos por Steil (a dissolução simbólica e as ilhas de sociabilidades), se poderão perceber distintas condições e interesses relacionados ás viagens aos ambientes religiosos. No entanto é preciso estar atento à afirmação de Durkheim (1996, p. 328) que pode ser importante quando da percepção sobre as estratégias utilizadas pelos autores do turismo, pois, [...] ninguém pode se envolver numa cerimônia religiosa de alguma importância sem se submeter a uma espécie de iniciação prévia que o introduza progressivamente no mundo do sagrado. Para isso, podem se empregar unções, purificações, bênçãos, todas elas operações essencialmente positivas; mas chega-se ao mesmo resultado por meio de jejuns, vigília, pelo retiro e pelo silêncio, isto é, por abstinências rituais que não são senão a prática de interdições determinadas. Essas diferentes condições e ações indicadas por Durkheim, mesmo que conceituais e estruturais apenas, ultrapassaram os limites dos locais de ocorrência da fé, isto é, precisam ser observadas muito antes da viagem, junto a cidade de origem não sendo percebidas nos textos dos autores do turismo, nem na imprensa, que passou a noticiar principalmente as vantagens econômicas advindas da movimentação dos fiéis, agregando-lhes capacidades não admitidas pelos administradores religiosos, ou ao menos desprezadas por estes. A partir daí passouse a utilizar correntemente o termo turismo religioso pelos jornalistas, apoiados tanto pelos administradores públicos quanto por certos segmentos da Igreja, em oposição aos desejos e dinâmicas dos administradores dos santuários católicos6. Antes de adentrar-se especificamente nesta discussão, considera-se importante recordar que o Turismo no Brasil nasce na Geografia7 e Antropologia, sendo depois incorporado pelas Ciências Sociais Aplicadas onde se estabeleceu plenamente, concentrando-se no estudo dos aspectos gerenciais e comerciais, mais do que dos aspectos culturais, sendo que o turismo e a religiosidade católica popular, somente nas últimas duas décadas mereceram atenção de pesquisadores 6 Na pesquisa desenvolvida nos santuários católicos, indicada anteriormente, ficou claro que os religiosos ligados as administrações dos ambientes de fé, renegam, mas não proíbem a existência de turistas no meio dos fiéis devotos, pois nesses momentos, vêem a oportunidade de atendê-los de forma igual aos fiéis. 7 Sugiro observar-se o texto de Adyr A. Balastrieri Rodrigues intitulado ‘Turismo e Geografia: reflexões teóricas e enfoques regionais’ (1999, p.22) que discute a evolução dos estudos sobre o turismo. 21 dessas ciências. Por outro lado a produção de artigos resultantes dessa atenção para com a relação turismo-religiosidade é muitíssimo recente, tanto na academia quanto na produção textual disponível no mercado editorial, concentrando-se quase que toda ela nos últimos sete anos (2000-2006). 22 1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA PESQUISA Dentre todas as Ciências que vêm estudando o turismo e a religiosidade popular de forma conjunta as Ciências Sociais são as que mais têm produzido informações e análises sobre esses elementos inerentes à formação das sociedades, indistintamente ao momento histórico analisado. Em contrapartida, serão usados autores de outros ramos do conhecimento e de análise social, buscando-se com isso, colaborar com as interpretações acerca dessa relação. São Sociólogos, Antropólogos, Historiadores, Filósofos, bem como religiosos que continuamente especulam desde os pequenos grupos humanos que ainda vivem os valores tradicionais, ou ainda os pesquisadores que se concentram sobre as transformações do catolicismo popular atual, o qual se assenta sobre uma complexidade de formas e de dinâmicas baseadas em grupos distintos situadas nos centros urbanos, bem como nas rurais mais tradicionais. Assim, pretende-se avançar um pouco mais acerca das percepções dos significados dos deslocamentos religiosos, pois, esta Tese leva à algumas análises acerca do universo do turismo e da religiosidade católica popular realizada por autores do turismo brasileiro, que em muitas produções vêem este ambiente como uma demanda de mercado que pode ser colocada dentro dos ditames da padronização de novos produtos e de serviços do turismo, não fosse um detalhe a ser observado: a motivação deste movimento está relacionada à fé e as crenças, e portanto, a aspectos que se entende, não podem ser quantificados ou incentivados mediante apenas às mudanças das estruturas físicas e de serviços turísticos dos locais visitados, bem como da própria forma da movimentação física em si. Percebe-se nas ‘falas’8 que compõe os discursos destes autores do turismo, uma dinâmica de fragmentação do universo das movimentações religiosas, na ânsia de sua interpretação quando de sua predisposição para o mercado e, isso vai de encontro ao que Carlos Rodrigues Brandão9 analisou em diferentes interfaces da religiosidade de uma comunidade de Itapira, SP. 8 O termo ‘falas’ neste trabalho é com o sentido de falar, expressar, dizer, sendo, portanto para designar as expressões retiradas dos textos dos diferentes autores do turismo analisados. 9 Carlos Rodrigues Brandão é antropólogo possuindo uma grande produção concentrada no estudo da religiosidade popular em diversas obras como: Cavalhadas de Pirenópolis (1974); A festa do santo de preto (1975); A folia de Reis de Mossâmedes (1977); Religião e catolicismo do povo (1977); O Divino, o Santo e a Senhora (1978) e Deus te Salve, Casa Santa (1979), entre outros. 23 Em sua obra Brandão (1986, p. 295) indica que se deve olhar a religião a partir de suas relações políticas, apreendendo os significados e os usos sociais desta, através das crenças e cultos, pois que isso ajuda a “corrigir dois enganos no exame da questão [...]”. Para ele, esses enganos são: [...]“reter a discussão ao âmbito da historiografia das origens e do exercício etnográfico de descrições da burocracia religiosa, do processo ritual e do sistema de símbolos”, isso porque ficará “de lado o exame de problemas das relações entre o trabalho social com os deuses e as transações entre a sua prática e os interesses políticos especializados, de algum modo, como religião (BRANDÃO, 1986, p. 295). Isto é, o autor entende que mais que descrever os processos sociais das relações dos fiéis com os seus santos per se, é necessário aprofundar-se nos diversos elementos dessa relação, elementos estes que, quando ausentes, induzem a uma interpretação senão errônea ao menos superficial. E, em última análise é isso que esta Tese propõe, isto é, recuperar nos discursos dos autores do turismo, os elementos ou as categorias que utilizam para a interpretação do turismo na religiosidade católica popular. Brandão (1986, p. 296) apresenta o segundo engano que ocorre aos pesquisadores que pretendem chegar depressa e aos saltos a conclusões finais superficiais a respeito das funções do setor religioso: [...] olhando a religião pela porta dos fundos, se é tentado a reduzir o sagrado à lógica funcionalista que inventa corresponder tipos de respostas do trabalho e da ideologia das religiões a tipos emparelhados de necessidades específicas de categorias de sujeitos e grupos sociais [...]. De outro lado, a posição dos autores sobre turismo, que seguem no sentido contrário, pode ser percebida na obra do antropólogo Carlos R. Brandão, que se concentra na análise de uso dos espaços públicos para a realização das festas populares. Brandão (1989, p. 7) afirma que: [...] algumas sociedades comemoram com mais ênfase certos acontecimentos e situações, enquanto outras os deixam em segundo plano. Nas cidades médias e grandes as festas cívicas, históricas e profanas conquistam um lugar de crescente importância, enquanto nas pequenas cidades e nos povoados do interior elas ocupam um segundo plano, e os festejos locais e religiosos povoam quase todo o calendário. Para responder os porquês da ocorrência dessas situações Brandão (1989, p. 8), justifica a importância de se conhecer os valores de grupo ou comunitários intrínsecos aos ambientes dessas festas relacionadas ao ambientes religiosos, indicando que, 24 [...] é como se no mundo da cidade a festa oscilasse entre um máximo sentido do universal como no Natal e no Ano Novo, e em contrapartida, um máximo de afirmação simbólica do valor da individualidade. Enquanto isso no campo, valem mais as cerimônias de reconhecimento de um ‘nós’ local, como nas festas de santos padroeiros, e de associação da biografia individual ao ritmo e ao sentido da vida comunitária, como no batizado, no casamento e no velório. Essa opinião é compartilhada por DaMatta (1983, p. 55) na obra que discute os componentes da realidade da sociedade brasileira quando, ao comparar diferentes festas como o carnaval e as festas religiosas, afirma que as segundas, [...] por colocarem lado a lado, e num mesmo momento o povo e as autoridades, os santos e os pecadores, os homens sadios e os doentes, atualizam em seu discurso uma sistemática neutralização de posições, grupos e categorias sociais, exercendo uma espécie de pax catholica. Partindo-se da compreensão expressa nas reflexões apresentadas anteriormente, estas conduziram para os elementos que colaboram com a problematização desta Tese, os quais estão relacionados a pressupostos que temos: o turismo não possui estudos sistematizados sobre turismo religioso; o turismo, considerando sua inserção nas Ciências Sociais Aplicadas (Administração) não dá ênfase aos estudos de planejamento do mercado para a religiosidade católica popular; o turismo não conseguiu ainda produzir trabalhos que tenham por objetivo a compreensão das motivações sociológicas e culturais que levam ao crescimento do turismo junto aos ambientes de religiosidade católica popular; o turismo não tem estudos que discutam as diferenças e os caminhos entre a fé, a peregrinação, a romaria e o que determinam os autores do turismo de turismo religioso. Ao relacionar as interfaces das percepções desenvolvidas na prática cotidiana deste autor desta Tese, e sua comparação com o referencial teórico-metodológico escolhido para consubstanciar a pesquisa, delinearam-se os seguintes objetivos: Identificar os discursos sobre turismo religioso na produção científica do turismo brasileiro e áreas afins; e Descrever os discursos adotados sobre deslocamento religioso e turismo religioso na produção científica brasileira, que atuam ou pesquisam este tema Toda e qualquer pesquisa científica prescinde de um método sistematizado que possibilite deixar claro, tanto o caminho a ser seguido quanto os elementos que serão considerados nas análises. Assim, nesta Tese em face de que se utilizaram elementos subjetivos na construção das categorias das ‘falas’ dos discursos 25 constantes nos textos analisados, entendeu-se ser o método qualitativo o mais adequado enquanto referência para sistematização dos dados coletados. Geertz (1989, p. 40) afirma que “estudar uma determinada cultura é estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura”, e o pesquisador deve ter como tarefa principal, descobrir as estruturas conceituais que informam os atos dos sujeitos no discurso social, construindo um sistema permeado pela leitura interpretativa que evidencie a base desses conhecimentos. Para alcançar esta meta, a abordagem qualitativa possui três características essenciais: ter uma visão ampla do tema a ser pesquisado; considerar que as categorias dos discursos emergem progressivamente e que o pesquisador não intervém com seus saberes e julgamentos, sem antes avaliar as inter-relações das informações e a cultura em que estão coletadas (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1998). A pesquisa desenvolvida com os discursos sobre turismo religioso utilizou basicamente publicações brasileiras dos autores do turismo, sendo essa conduta adotada para a coleta dos dados preliminares, também utilizou, para o debate, de fontes de pesquisa de diferentes livros, periódicos e referências eletrônicas das áreas de Antropologia, Sociologia, História, Religião, Turismo e áreas afins que tenham estudos na temática de interesse, sobre os quais houve o mapeamento por ordem de importância nas áreas do estudo, autoria, período de publicação. As Etapas do desenvolvimento da Pesquisa utilizadas foram: a) Elaboração da proposta de pesquisa e escolha do método de referência adotado para coleta, análise e discussão dos dados levantados. b) Tipo de pesquisa: com abordagem qualitativa de natureza exploratória (buscou dados bibliográficos e documentais) para responder ao foco escolhido como norteador na elaboração dos objetivos propostos. c) Contexto e universo da pesquisa: referenciais acadêmicos (livros e periódicos) sobre turismo religioso de autores da área e áreas afins, editados nas últimas décadas. d) Procedimentos e Instrumentos de coleta de dados: de natureza multi-metodológica, num roteiro de leitura dos textos em que constam os dados sobre a obra e o autor, o contexto de sua elaboração, a natureza de sua construção (se é uma obra didática, epistemológica, ou teórico-prática,), o referencial utilizado como ancoragem e o uso da obra no turismo; e) Análise dos dados: feita pela técnica de análise de discurso com o uso do modelo denominado de Discurso do 26 Sujeito Coletivo – DSC (LEFÈVRE, 2003). A Identificação dos conceitos e categorias adotados no material documental ocorreu segundo esta técnica de análise a partir de leituras sistematizadas em que pelas revelações possíveis geradas pelas diferentes leituras, se permitiu a revelação dos “modelos culturais interiorizados” (Lefèvre, 2000, p. 16). Os procedimentos desta análise compreenderam as etapas: seleção das expressões chave (termos ou frases que destacam o tema ou sugerem sua presença nos textos escritos); ou seja, a partir dos documentos consultados, foram selecionadas e separadas as expressões (frases completas) que permitiram a compreensão das dinâmicas que regeram ou regularam as práticas dos autores; idéias centrais (nome ou expressão lingüística que revelou ou descreveu o sentido que o especialista deu ao conteúdo de sua fala); ou seja, a partir da seleção das frases, anteriormente feita, foram realizadas análises e identificadas, uma ou algumas, palavras que permitiram incorporar o sentido completo da afirmação realizada pelos autores; ancoragem (teoria, ou ideologia, ou crença, que, o autor do Discurso professou sobre a temática); isto é, num nível acima das idéias centrais utilizaram-se palavras âncoras que simbolizam as forças que regeram, consciente ou inconscientemente, as ‘falas’ dos autores; e o discurso do sujeito coletivo (síntese dos discursos feita na primeira pessoa pelo pesquisador sobre todos os discursos de todos os autores); isto é, a partir da pré-seleção realizada anteriormente, fizeram-se considerações visando reinterpretar as afirmações de cada autor. Durante a análise das ‘falas’ dos autores, o papel do pesquisador é unir as peças deste grande quebra-cabeça, chamado de produção científica, considerando os seguintes princípios, que segundo Santil (2001, p. 83-4) são: Coerência, visto que o Discurso do Sujeito Coletivo é uma agregação ou soma de depoimentos que formam um discurso coerente, em que cada uma das partes deverá ser reconhecida como constituinte de um todo; O discurso tem um posicionamento próprio distinto, original, específico, frente ao tema pesquisado e os objetivos propostos; Distinção entre os discursos quando os resultados apontam mais de um Discurso do Sujeito Coletivo, sendo possíveis discursos totalmente distintos ou discursos complementares, que apenas confirmam os resultados obtidos; Produção de uma artificialidade natural, uma vez que o DSC é construído a partir da seleção de várias ‘falas’ semelhantes ou repetidas pelos informantes. 27 Vale recordar Lefèvre e Lefèvre e Teixeira (2000) quando afirmam que o DSC é o resgate da fala social de várias pessoas, que são sistematizadas e agrupadas em uma grande fala coletiva, em que se busca emergir da forma mais direta e adequada à fala ou o discurso social do tema tratado. Como afirmava Koch (1997), um texto é uma construção de sentidos que recebe toda sorte de influências conscientes e intencionais, que reflete de forma individual e coletiva as ideologias e domínios de crenças e valores dos seres humanos. Daí a dificuldade em se fazer uma leitura e a partir dela extrair uma essência mínima sobre o que se quer em uma pesquisa. A questão, como também afirma Lopes (1978), não é somente saber o que as palavras nos dizem após, reproduzidas em forma de categorias. O importante na verdade é alcançar o que seria o resultado mais próximo do que se idealiza como resposta às questões formuladas em uma pesquisa. Para apresentar os argumentos relacionados à Tese, organizou-se o texto com a seguinte disposição: inicialmente apresenta-se na INTRODUÇÃO uma extensa justificativa para a realização da Tese condicionada às inferências cotidianas do autor, o que permitirá captar a lógica de apresentação do texto. Após, no capítulo 1 FUNDAMENTOS TEÓRICO E METODOLÓGICOS DA PESQUISA se descrevem os Objetivos e os Procedimentos de Pesquisa, bem como a Metodologia de Análise utilizada. No capítulo 2 TURISMO E RELIGIÃO, apresenta-se, a discussão sobre os significados de turismo, 2.1 TURISMO X RELIGIÃO: DEFINIÇÕES E CONCEITOS IMPORTANTES À DISCUSSÃO. Este inclui os autores ligados à discussão do turismo em geral, pois, considera-se importante apresentá-los antes de tudo, uma vez que, em face da posição que os autores do turismo possuem, em relação aos significados desses itens (conceitos, definições e turismo), os mesmos interferem nas escolhas dos autores do turismo religioso. Isso se refletirá sobremaneira nas escolhas das categorias de análise da relação entre a religiosidade e o turismo religioso que cada autor opta por fazer, e que gera um determinado número de categorias para sua descrição e interpretação. Após, apresento os autores que perpassam o turismo religioso em textos esparsos ou descontínuos, objetivando demonstrar o quão diverso é o universo de possibilidades de sua interpretação. 28 No item 2.2 CRENÇAS RELIGIOSAS NO OCIDENTE: OS DESLOCAMENTOS RELIGIOSOS serão apresentados uma série concisa de elementos que demonstram a evolução dos valores e significados das atividades relacionadas às peregrinações e romarias e deslocamentos motivados pela fé através dos séculos, desde a implantação do Catolicismo no mundo, até os significados mais atuais, elementos que se percebe, não se fazem presentes nas argumentações da maioria dos autores do turismo religioso aqui descrito. No Item 2.3 será apresentado as informações obtidas sobre AS TRANSFORMAÇÕES DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL, subdividindo os muitos dados obtidos em dois momentos: o primeiro (2.3.1) é: as transformações nos deslocamentos religiosos brasileiros (ocorridos entre os anos de 1500 até aproximadamente 1900) que vai desde a entrada dos religiosos com os primeiros colonizadores chegando às transformações ocorridas na religião oficial com a entrada das diferentes congregações européias que buscam radicalmente transformar as dinâmicas da religiosidade popular com a introdução do controle sobre as Irmandades leigas, e o segundo (2.3.2): as estratégias da igreja católica sobre diferentes caminhos percorridos pelos deslocamentos religiosos brasileiros (entre os anos 1900 e 2000), visto que são muitas as informações sobre as mudanças ocorridas nas dinâmicas da fé e da religiosidade, influenciadas pela urbanização e pelas transformações nas relações sociais, como as do trabalho, como também pelas intensas transformações dos valores religiosos. A escolha em apresentar as informações sobre o desenvolvimento dos deslocamentos religiosos no Ocidente e após sua evolução no Brasil prende-se à estratégia de que, o leitor compare as falas dos autores do turismo analisados, com outras ‘falas’ que compõe os discursos e as categorias das diferentes disciplinas que corroboram esta Tese sobre a percepção limitada do universo da religiosidade popular pelos autores do turismo. O CAPÍTULO 3 se concentra na descrição dos DISCURSOS SOBRE TURISMO RELIGIOSO NO BRASIL. Neste Capítulo apresenta-se primeiro o item: PERFIL DOS AUTORES ESCOLHIDOS PARA O ESTUDO, pois, propositadamente serão apresentados quatro textos apenas, pois se considera as referências utilizadas pelos autores sobre os termos turismo e turismo religioso, uma vez que, apresentam muitas das categorias que servem de referência a quase todos os textos 29 sobre turismo religioso no Brasil. No segundo o item: A PRODUÇÃO ANALISADA, através do uso do Método do Discurso do Sujeito Coletivo, para logo a seguir, desenvolver interpretações e análises sobre estes. Para finalizar a Tese apresentam-se as CONSIDERAÇÕES FINAIS, onde serão desenvolvidas ponderações acerca das compreensões e categorizações percebidas junto aos autores do turismo sobre a relação, em parte conflituosa, que ocorreu entre o turismo e o universo da religiosidade católica popular. Também se faz afirmações baseadas em considerações próprias, com o objetivo de fechar o ciclo desta Tese. 2 TURISMO E RELIGIÃO Dentre as muitas obras brasileiras publicadas sobre turismo, algumas poucas se referem especificamente ao turismo religioso, assim chamado por alguns autores como: Andrade (1999), Aoun (2001), Beni (2000), Dias (2002), EMBRATUR (2000), Montjano (2001), mas, sem consenso. Neste texto, a categoria ‘turismo religioso’ é utilizada apenas quando os autores citados a fizerem, enquanto que a categoria ‘religiosidade’ será opção do autor para representar o movimento de pessoas em ambientes religiosos, cuja primeira característica relacionada é a fé. Optou-se pela utilização constante do termo religiosidade, face aos diferentes argumentos dos distintos autores que, baseando-se em diferentes características (categorias, adjetivos, qualidades, tipologias, etc.) generalizam o uso do termo turismo religioso sobre esse espaço, pois se entende que esse termo, caracteriza mais uma categoria de análise do que um conceito teórico a ser incorporado ao turismo. A miríade de publicações no Brasil que perpassam o universo do turismo enquanto objeto de estudos e análises aumentam dia a dia, tornou necessário efetuar uma seleção das obras, face aos objetivos propostos neste trabalho. Para a melhor compreensão do universo de autores dos trabalhos que analisam o turismo e sua relação com a religiosidade católica popular foi desenvolvido um amplo levantamento, com a finalidade de apresentá-los nesta Tese. Tal seleção se iniciou com a leitura das referências bibliográficas utilizadas pelos autores brasileiros que discutem turismo, mesmo quando são usadas algumas obras traduzidas disponíveis no mercado editorial brasileiro, passando pelos artigos esparsos publicados em revistas científicas (edições em papel e on line), terminando nas coletâneas publicadas no Brasil, as quais indicaram expressamente o termo turismo religioso. Algumas atingiram o objetivo que se entendeu primordial, que era de colaborar com a compreensão sobre os processos sociais que delineiam o fenômeno do turismo; outras se concentraram em descrevê-lo, através da identificação dos elementos relacionados à administração das necessidades frente os recursos (humanos e materiais) e a infra-estrutura física existente. Encontraram-se autores (brasileiros ou não), que ampliaram a percepção 31 sobre o turismo, através do uso de muitas terminologias como: conceitos, definições, características, tipologias, etc., isso aliado a que, após o uso de termos mais distintos, raramente foram encontradas argumentações ou explicações que relacionaram o uso de determinado termo com uma construção teórico-metodológica que o justificasse ou o descrevesse. Assim, antes de tudo considera-se importante desenvolver uma discussão introdutória sobre os significados de termos como ‘definição’ e ‘conceito’, relacionados ao turismo, bem como outros afins ao ‘turismo religioso’. Entende-se ser tal condição imprescindível, visto que, ocorre certa facilidade dos autores, na transposição ininterrupta do uso das mesmas, o que gera certa confusão por parte do uso de temos que possuem significados diferentes, e que parecem ser utilizados como elemento acessório à compreensão da relação entre turismo e religiosidade católica popular. Ao observar nos discursos dos autores atuais do turismo uma diversidade de categorias e de terminologias, a primeira interrogação partiu do uso dos termos conceito e definição, face que, os mesmos são apresentados nos textos como tendo o mesmo significado. Resolveu-se voltar no tempo e consultar autores já em desuso pela evolução da Língua e da grafia usual, para buscar alguns dos seus diferentes significados. O dicionário Mesquita de Carvalho apresenta o termo conceito como “síntese, símbolo, entendimento, juízo” (1955, p. 271) enquanto que para definição afirma ser a “enunciação dos atributos e propriedades de uma cousa (sic), exposição dos diversos pontos pelos quais pode ser encarado um assunto” (1955, p. 328). Magalhães (1955, p. 710) entende que definição é a [...] proposição recíproca, cujos atributos conhecidos exprimem a essência de um sujeito desconhecido, havendo duas espécies de definição: a nominal, que explica o significado de cada palavra e a real, que explica a essência ou a própria natureza das coisas designadas por essa palavra. Para o termo conceito, Magalhães (1955, p. 552) indica que, [...] é o produto ou o resultado de um ato da inteligência, mediante o qual está representa um objeto de maneira abstrata, isto é, desprovido de notas individualizadoras: por exemplo: o conceito de homem, que pode ser aplicado a todos os homens, passados, presentes e futuros; o objeto material do conceito é a cousa apreendida pela inteligência; o objeto formal, aquilo que a inteligência atinge em primeiro lugar nesta cousa (sic), isto é, uma essência. Bueno, no Dicionário do Ministério da Educação (1991, p. 330), afirma que 32 definição é “explicação, distinção, enunciação de qualidades características”, e conceito significa “idéia, opinião, reputação síntese do pensamento”. Os autores Durozoi e Roussel (2002) são mais profundos em suas colocações relacionadas aos diferentes significados relativos a conceito e definição. Definição é “a operação que determina a compreensão de um conceito” (2002, p. 119) formado pela justaposição do gênero próximo e da diferença específica. Aos autores conceito significa “uma idéia abstrata e geral” (2002, p. 97) que sofre transformações num constante vaivém e produz um enriquecimento mútuo. Afirmam que os empiristas entendem que os conceitos são resultados de um processo de abstração a partir das experiências, enquanto aos racionalistas, são produzidos pela razão independente de qualquer empirismo. Assim, a primeira constatação (que se evidenciará ao longo do texto), está na necessidade do consenso do uso de certa terminologia quando da discussão sobre turismo, em relação aos ambientes religiosos onde pode ocorrer o turismo religioso indicado pelos autores. 2.1 O TURISMO E RELIGIÃO: DEFINIÇÕES E CONCEITOS IMPORTANTES À DISCUSSÃO Para a melhor compreensão do universo de autores e trabalhos que analisam o turismo e sua relação com a religiosidade católica popular desenvolveu-se um amplo levantamento com a finalidade de apresentá-los nesta Tese. Inicia-se indicando que a Organización Mundial del Turismo (1995, p. 12) apresenta a definição de turismo, a qual [...] inclui as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares distintos ao de seu entorno habitual, por um período de tempo inferior a um ano, com fins de lazer, por negócio e por outros motivos. Ao fim da apresentação das Categorias motivacionais a OMT (1995, p. 23) indica que, [...] quanto ao motivo da visita se deve distinguir entre as motivações e as 33 atividades. [...]. Visitantes com diferentes motivos de visita podem dedicarse à mesma classe de atividades, se bem que algumas destas estão estreitamente vinculadas com certas motivações. Ainda que o motivo da visita seja um dos elementos chaves que determinam a demanda turística, é essencial um bom conhecimento das atividades dos visitantes, por exemplo, para adequar a demanda turística e as atividades de oferta. Noutra obra editada pela Organización Mundial del Turismo (1998, p. 43), no item 2.2, o texto apresenta o título ‘Conceito e definições de turismo’, indicando que [...] o conceito de turismo pode ser estudado de diversas perspectivas e disciplinas, dada à complexidade das relações entre os elementos que o formam. [...], existe, todavia, um debate aberto com o intento de se chegar a um conceito unívoco e padronizado de turismo que possa refletir uma definição universal. O texto passa a descrever os diferentes autores e suas definições que ao longo dos anos serviram de referência para a atividade turística. A seguir o texto apresenta a definição adotada pela OMT em 1994: [...] o turismo compreende as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares distintos ao de seu entorno habitual, por um período de tempo inferior a um ano, com fins de lazer, por negócio e por outros motivos (OMT, 1998, p. 44). Cooper (2001, p. 14-15) também sob o apoio da Organización Mundial del Turismo apresenta diferentes autores como Mathieson e Wall (1982); Leiper (1981); Gunn (1979); Murphy (1985); Mill e Morrison (1992); Westlake (1985) descrevendo cada teoria desses autores, bem como seus diferentes argumentos. Em certo momento afirma que [...]. Não obstante, enquanto isso possa parecer um debate um tanto quanto seco e acadêmico, o rigor e a disciplina que uma definição de turismo válida e funcional impõe ao assunto, é vital, para o desenvolvimento do conhecimento completo, respeitado e valorizado. Percebe-se nesta afirmação ser necessário balizar a discussão, em especial quando o turismo atua conjuntamente com diferentes áreas do conhecimento que possuem interesses específicos sobre os significados do turismo, por mais estéreis que possam parecer a nossa discussão. Adyr Rodrigues10 não admite essa possibilidade quando busca dissuadir o leitor à busca de novos paradigmas para o turismo, por dois motivos: primeiro porque é muito difícil determinar tecnicamente as especificidades para a construção 10 Texto já indicado anteriormente na Nota de Rodapé nº 7. 34 de uma nova epistemologia sobre o turismo, e segundo porque este momento histórico não é o ideal para emprestar-lhe status de ciência autônoma (um momento histórico repleto de transformações e instabilidade de todas as ciências). Isso porque, talvez, à autora bastem os paradigmas da Geografia (1999, p. 22), pois afirma que [...] o fenômeno do turismo, por sua natureza complexa, reconhecida por todos os seus estudiosos, é um importante tema que deve ser tratado no âmbito de um quadro interativo de disciplinas de domínio conexo, em que o enfoque geográfico é de fundamental importância. Em nova edição da OMT reaparecem as mesmas contradições teóricas anteriormente apresentadas, nos aspectos relacionados a conceitos e definições.O texto publicado em 2001, indica “que não existe definição correta ou incorreta, uma vez que todas contribuem de alguma maneira para aprofundar o entendimento do turismo” (OMT, 2001, p. 35). Adiante afirma (2001, p. 37) que “o conceito de turismo pode ser estudado de diversas perspectivas e disciplinas, dada a complexidade das relações entre os elementos que o formam”. Na Revista Turismo, Visão e Ação do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Turismo e Hotelaria (2000, p. 25), turismo é definido no Congresso da AIEST (Associação Internacional de Espertos em Turismo) realizado na cidade de Cardiff em 1981, como “o movimento de pessoas, por tempo determinado, para destinações fora de seu local de residência, e as atividades realizadas durante o tempo de permanência nas localidades visitadas”. A Revista traz ainda outras diferentes versões para o termo turismo (2000, p. 29), ao indicar como sendo, [...] o conjunto de relações e fenômenos produzidos pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do lugar de domicílio, desde que tais deslocamentos e permanências não estejam motivados por uma atividade lucrativa. A revista cita também texto da EMBRATUR (Instituto Brasileiro do Turismo) que apresenta ser turismo (2000, p. 29), [...] uma atividade econômica representada pelo conjunto de transações – compra e venda de serviços turísticos – efetuadas entre agentes econômicos do turismo. É gerado pelo deslocamento voluntário de pessoas para fora dos limites da área ou região em que tem residência fixa, por qualquer motivo, excetuando-se os de exercer alguma atividade remunerada no local. De outro lado, o texto da EMBRATUR, também apresenta o termo turista 35 (2000, p. 29) como sendo [...] aquele que se desloca para fora do seu local de residência permanente, por mais de 24 horas, realizando pernoite, por motivo outro que não o de fixar residência ou exercer atividade remunerada, realizando gastos de qualquer espécie com renda auferida fora do local visitado. Lage e Milone (2000, p. 26) afirmam que, [...] o turismo moderno não precisa ter um conceito absoluto, mas importa no conhecimento do mecanismo dinâmico que integra. Especificamente sob a análise da teoria microeconômica, quando aplicada a um estudo do setor turístico particular, por se tratar de uma abordagem restrita do comportamento dos indivíduos e das empresas, não se incorporando aspectos globais, pode ser estudada em três partes: demanda, oferta e mercado turístico. Barretto (2003, p. 5) em texto bastante elucidativo para a compreensão da evolução que discute a participação das Ciências Sociais na interpretação e nos significados do turismo considera que dois aspectos devem estar presentes para que ocorra o turismo, pois [...] o turismo consiste no deslocamento de pessoas que, por diversas motivações, deixam temporariamente seu lugar de residência, visitando outros lugares, utilizando uma série de equipamentos e serviços especialmente implementados para esse tipo de visitação. A atividade dos turistas acontece durante o deslocamento e a permanência fora da sua residência. Os negócios turísticos são os realizados nos equipamentos ou durante a prestação de serviços que os turistas utilizam na preparação e na execução da sua atividade. Começam no local de origem, quando os turistas se dirigem a uma agência de viagens ou a uma companhia de transportes para comprar um pacote turístico ou uma passagem, continuam quando os turistas chegam ao local de destino e utilizam transporte local, acomodações, serviços de alimentação, rede de diversões, lojas de suvenires, etc. e ainda quando os turistas retornam à casa e levam seus filmes para revelação na loja do bairro. Veja-se que são citados os equipamentos e serviços especialmente implementados e, os negócios são realizados nos equipamentos ou na prestação de serviços que os turistas realizam nos equipamentos. Para Corrêa (2000, p. 94) em um texto que interpreta o meio ambiente e a natureza como componentes do mercado, o turismo [...] é um processo que, basicamente, envolve cinco ciclos de atividades, de cuja interdependência resulta a materialização do respectivo negócio. Tais ciclos interdependentes podem ser representados pelos negócios do transporte, do albergamento, da restauração, dos serviços de apoio e do entretenimento de quem necessita deslocar-se por razões as mais diversas! Já o conhecido autor do turismo Trigo (2001, p. 60) apresenta turismo não 36 mais como um ‘processo’, mas sim como uma ‘atividade’ apenas, incluindo motivacionais como as ‘variadas razões’ que impelem à sua ocorrência, como uma atividade, [...] sofisticada que movimenta bilhões de dólares por ano e atinge centena de milhões de pessoas. Inúmeros locais transformaram-se em complexos turísticos pelas mais variadas razões: belezas naturais, núcleos históricos ou artísticos, centros comerciais, de convenções ou culturais, eventos esportivos ou ligados ao show business, grandes metrópoles ou complexos industriais ou ainda centros turísticos artificiais como a Disneylândia em Los Angeles. Andrade (1999, p. 48) desenvolve algumas digressões na Introdução de uma obra que é considerada clássica para os estudiosos do turismo. Inicia afirmando que o turismo é um fenômeno social anterior às viagens que os jovens aristocratas ingleses faziam, acompanhados de seus ilustres preceptores, [...], pois que havia uma programação de diversas atividades fundamentadas em grandes passeios de excelente qualidade e repleta de atrativos prazerosos. E estas viagens se formaram à base do dinheiro, a partir do século XVIII, com o nascimento do chamado ‘turismo financeiro’ ou ‘turismo de capital’, praticado pelos aristocratas que viviam das rendas auferidas da agricultura Andrade (1999, p. 11) argumenta que as conceituações apresentadas sobre o turismo baseiam-se em elementos colocadas dentro da classificação: ‘conceituais doutrinais incompletas’ e ‘conceituais legais limitadas’, pois, entende que, face uma preocupação em elaborar conceitos restritos de turismo (relacionando-o as atividades fora da residência) e de turista (relacionando-o ao lazer, ao divertimento e ao tempo livre), essas conceituações baseavam-se mais no que os turistas abandonam quando viajam do que na análise das motivações que levam as pessoas a tornarem-se turistas. Afirma Andrade (1999, p.11-2) que “o turismo nasce de um conjunto de atividades de natureza heterogênea que impedem a constituição de ciência autônoma e de técnicas específicas independentes”, e, indica que três elementos precisam compor o princípio elementar de análise do turismo: o homem, o espaço e o tempo. O primeiro por ser do homem o autor do ato de viajar; o segundo face que o ato de viajar ocupa para mover-se, do espaço físico, e o terceiro, que é uma quantidade consumida para a realização do ato de viajar. Ao discriminar as conceituações, Andrade (1999, p. 47), passa a descrever as ‘modalidades’ como sendo resultantes das necessidades, primeiramente dos 37 empresários, depois dos profissionais e por último dos turistas e os ‘tipos’ de turismo. O autor também chama de modalidades turísticas, estando essas definições relacionadas às motivações turísticas, elemento explorado inicialmente por Krapf (ANDRADE, 1999, p. 60-61). Os tipos principais de turismo são: de férias, o cultural, de negócios, desportivo, de saúde, e, o religioso. O autor (1999, p. 87-97) desenvolve mais a fundo os elementos motivacionais que levam o homem a atingir suas aspirações relacionadas ao: desejo de evasão, a necessidade de evasão, ao espírito de aventura, a aquisição de status, a necessidade de tranqüilidade, ao desejo ou necessidade cultural, ao desejo ou necessidade de compra. De outro lado Giacomini Filho (2000, p. 62) indica que na era da Sociedade da Informação o turista tem um perfil diferenciado, isso porque suas necessidades e desejos alcançam facilmente o nível emocional. São carências procedentes das mais variadas fontes, como auto-estimas, imitação, auto-realização, frustrações pessoais, auto-afirmação, estímulos profissionais, etc.. Veloso (2003) ao início de sua obra indica uma percepção a respeito dos porquês se utilizam formas parciais de análise, e diferentes termos por diferentes autores com o intuito de analisar o desenvolvimento turístico. O autor afirma que [...] as ações no turismo obedecem a critérios e características muitas vezes formais, mas que são enunciadas em publicações variadas, com interpretações que em determinados momentos chegam a confundir os próprios profissionais e cientistas do turismo, pois a evolução e a rapidez da transformação do momento turístico produz um efeito catalisador de idéias, imaginações e projetos que escapam ao próprio ordenamento e entendimento recíproco daqueles que nele trabalham (VELOSO, 2003, p. ). Percebe-se que, contrariamente ao autor, não ocorre confusão pela profusão, mas sim, a ausência de profundidade nas considerações teóricas dos autores, parecendo que, a grande diversidade de conceitos e definições é lançada aleatoriamente. Veloso para apresentar algumas definições gerais utiliza-se dos seguintes termos: significados, sinônimos e conceitos (2003, p. 4), bem como logo a seguir indica tipos, formas, modalidades e segmentos (2003, p. 7) dizendo que, [...] de acordo com cada autor temos as interpretações mais interessantes, a partir da especialidade com que analisam o turismo, baseados nos estudos sociológicos, geográficos, comerciais, ambientais, filosóficos, institucionais, mas tudo leva a um bom e interessante denominador comum. 38 A partir dessas colocações de Veloso, se pode perceber então que os resultados encontrados pelos autores do turismo serão sempre diferentes, face que seus métodos e categorias também o são. O que, porém, parece preocupante da parte dos autores e trabalhos citados nesta Tese, é que a poucos autores ocorre utilizar conhecimentos de diferentes áreas científicos que estejam relacionados ao ambiente religioso. Também preocupa que, quando são citados, inexistem embates de fundo conceitual ou ideológico com os mesmos, havendo apenas a apresentação de suas teorias (definições ou conceitos principalmente), sendo que, ao aprofundarem a relação percebe-se que poderiam colaborar com o crescimento do conhecimento sobre o tema, o que leva a se perceber que, não existe um campo de conhecimentos delineados e aceitos pelos autores do turismo, como é o caso de Abumanssur (2003), Bessa (2004), Costalonga (2003), Gazoni (2003), Moraes (2000) e (2003), Novaes (1999), Oliveira (1996) e (1999), Ribeiro (2002), como sendo pertinentes aos estudos da relação turismo e religiosidade. Nash (1997) já havia percebido essa situação ao analisar o turismo em geral como parte do imperialismo capitalista, mas de Nash (1997, p. 71) o que mais interessa para essa Tese é que, [...] talvez não se possa examinar toda a amplitude do turismo em um só esquema teórico, porém as formulações teóricas do turismo deveriam ser aplicáveis ao mais amplamente possível. [...]. Em todos os casos aqui mencionados, a investigação deveria concentrar-se na relação existente entre anfitriões e convidados, com suas correspondentes transações intergrupais. Pois, para Nash (1997, p. 87) qualquer generalização sobre “a evolução dos sistemas turísticos exige apresentar previamente de forma concreta os parâmetros que tem maior importância nos câmbios socioculturais”, e, “se, se quer que a investigação do turismo seja verdadeiramente antropológica, não deveria limitar-se a uma estreita gama de sociedades ou de situações contratuais, se não que deveria esforçar-se para abarcar o fenômeno onde quer que ele tenha lugar” (1997, p. 71). Isto é, não se podem concentrar estudos em uns poucos santuários religiosos, e após, generalizar que essa realidade encontra-se disseminada em todos os ambientes religiosos. Nash vai de encontro ao pensamento de Ouriques (2005), que discute o turismo como uma nova estratégia capitalista baseada no fetichismo marxista e nas novas aparências dadas a antigos elementos culturais. Afirma que quando houve a transformação da fé em Nova Trento - SC, “o que parece evidente é 39 a apropriação, pelos ideólogos do capital turístico, da fé religiosa em benefício de uma forma específica de acumulação do capital”. Hans Joachin Knebel (1974) na obra Sociologia del turismo, aprofunda discussões sobre as origens do turismo moderno apresentando diversos elementos que, a seu ver, compõem a evolução do fenômeno na sociedade ocidental. Interessante observar que para o autor, essa ocorrência social vem se verificando há poucos séculos apenas, pois, Knebel informa que na base das investigações da obra está o conceito de ‘tempo livre’, o qual se compõe de um período de tempo que media a jornada de trabalho e a necessidade fisiológica do descanso. Aprofunda essa percepção sobre o que chamou de ‘as viagens dirigidas pela tradição’ (KNEBEL, 1974, p. 17-19). Descreveu desde os cruzados, passando pelas viagens científicas, as imposições familiares baseadas no patriarcado, atingindo as agremiações dos ofícios que eram aprendidos obrigatoriamente em viagens (como os artesãos, ao qual a mobilidade era componente de seu crescimento profissional), ou mesmo à nobreza (que só aprendia nas viagens o elementar para a manutenção da classe). Afirmou que “os antepassados dos modernos turistas remontam somente ao século XVII e XVIII” (KNEBEL, 1974, p. 15), pois antes disso havia o “tour de formação e não de informação” (KNEBEL, 1974, p. 19). Como componentes históricos do turismo atual, Knebel (1974, p. 20-25) descreve os tours desenvolvidos pelos burgueses nas viagens aos balneários que estavam relacionados à manutenção da saúde, que num primeiro momento (entre os anos 1720 e 1800), apesar de direcionados ao econômico, ficaram escondidos sob a aparência de interesse cultural. Num segundo momento (entre os anos 1820 e 1900 aproximadamente), os balneários começaram a diversificar sua oferta, passando daqueles que ofereciam somente banhos, para os que passaram a oferecer divertimentos através das salas de jogos. Depois surgiram os tours que uniam cultura e natureza, os quais originaram o termo Romantismo, e também os tours que uniram natureza e esportes, fato que originou o surgimento de diferentes atividades, como alpinismo, bridge ou whist (KNEBEL, 1974, p. 26-8). Para Knebel (1974), portanto, os componentes culturais anteriormente presentes às sociedades não podem ser colocadas no rol do turismo, visto não satisfazerem os elementos relacionados ao tempo livre das pessoas e estarem relacionados a questões de grupo (de trabalho, por exemplo) ou de classe social de origem do indivíduo, aos 40 quais ele não poderia separar-se voluntariamente. De outro lado Peter Burns11 (2002p. 118-122) na sua obra ‘Turismo e Antropologia’ editada originalmente na Inglaterra, faz uma grande discussão acerca de muitos aspectos do turismo importantes para o antropólogo. O autor identifica quatro temas importantes aos estudos antropológicos, sendo um deles o turismo como religião e ritual, onde faz a pergunta: o turismo é uma forma moderna de religião ou peregrinação?. Após isso, faz algumas digressões com base em diferentes autores, os quais estão em grupos opostos12 de percepção. Porém o autor nada conclui, apenas indica em nota de rodapé que “não estamos interessados em definições como parte de algum fetiche maníaco de classificação, mas na busca de significado e causalidade” (BURNS, 2002, p. 121). Percepção que, em contrário a Burns, considera-se peça chave de uma discussão que leve em consideração elementos da Antropologia na compreensão da relação do turismo e a religiosidade. Um dos quatro temas indicados pelo autor é se o turismo pode ser considerado como uma forma de peregrinação no sentido de que: 1) apresenta estágios ou características similares [...]; 2) o turismo oferece liberação da vida corriqueira e rotineira e às vezes (mas não sempre) esta inclui liberação das normas sociais, e 3) o turismo pode oferecer oportunidade para autoreflexão e transformação pessoal (BURNS, 2002, p. 121). Noutro momento Burns (2002, p. 54), afirma que a dominação capitalista da cultura e, por conseguinte do turismo pela sua mercantilização, perverte suas conseqüências sociais quando, busca incessantemente inserir os cidadãos no universo das regras do consumo, que a princípio são negativas (faz referências à necessária relação do turista com estruturas turísticas, através de controles exercidos por guias e agências, etc.). Porém, o que mais chamou a atenção foi que, em uma obra tão extensa e repleta de elementos humanísticos (cultura, homem, 11 Apesar de ser considerada uma obra didática pela Sociologia, Burns é um dos poucos autores disponíveis no Brasil que desenvolve considerações acerca da relação turismo e religiosidade. 12 Os autores indicados são concentrados em grupos a defender se turismo e peregrinação tem ou não o mesmo significado. O primeiro grupo é composto por Nash D. Tourism as an anthropological subject. Current Anthropology, 22, 1981; MacCannell D. The tourist. New York: Schocken, 1976; Passariello P. Never on a Sunday? Mexican tourist at the beach. Annals of tourism research, 10: 10922, 1983; e Graburn N. To pray, pay and play: the cultural structure of japanese domestic tourism. Aixem-Provence: Centre dês Hautes Études Touristiques, 1983. O segundo grupo inclui autores como Brown D. Genuine Fakes. In: Selwin, T. 1996; Boorstin D. The Image: a Guide to pseudo-events in América New York: Harper & Row 1964; e Barthes R. Mythologies. London: Paladin 1984. 41 respeito, etc.) não se percebeu claramente a utilização do termo turismo religioso pelo autor, nem mesmo se percebeu a concordância com algum dos autores indicados no segundo grupo. Isso se entende, poderia indicar que Burns não concorda com o uso do termo ‘turismo religioso’, mesmo para um país com uma história, repleta de referencias ligadas as movimentações religiosas. Enquanto isso Montejano (2001) em trabalho originalmente editado na Espanha, um país com grande tradição religiosa e de movimentação de fiéis13, faz descrição sobre os fundamentos do turismo, não identificando o termo turismo religioso enquanto turismo, sendo que, no único momento que o cita, relaciona-o às peregrinações que exigem infra-estrutura de apoio. Quanto ao turista que perpassa o universo religioso, “liga-o ao crente e praticante, o que pode ser interpretado como alguém em movimento, ligado a valores sagrados” (MONTEJANO, 2001, p. 60). Portanto, percebe-se no autor a necessidade da existência da movimentação físicoespacial dos fiéis com os valores do sagrado para que esteja inserido no turismo. Moesch (2003) discute a construção de um turismo holístico em oposição às formas de desenvolvimento até o momento existente, argumentando que muitas das ausências nas percepções sobre o turismo decorrem dos vícios de interpretação conceitual sobre turismo e seu amplo espectro, condicionado a um conhecimento ambíguo e limitado da capacidade transformadora desse marcante fenômeno social, apresentando os motivos. Para a autora isso ocorre porque faltam alicerces, faltam bases de sustentação conceitual, faltam informações e comunicação entre aqueles que se propõe ser os engenheiros do projeto da construção turística nacional. Moesch (2003) percebe o turismo ligado à existência de quatro eixos de sustentação (segurança psicofísica, funcionalidade, confortabilidade e a agradabilidade), todos, elementos relacionados aos serviços disponíveis e a infra-estrutura do setor turístico, apesar de que, o texto ao caracterizar o aspecto holístico, poderia transparecer mais elementos humanistas na percepção. Essa concentração na análise dos problemas administrativos é facilmente percebida quando se aprofunda efetivamente uma pesquisa sobre a religiosidade e 13 Trata-se do famoso Caminho de Santiago de Compostela dos mais conhecidos roteiros de deslocamento religioso de todo o mundo. As primeiras peregrinações ao túmulo do São Tiago ocorreram por volta do ano 800 quando o rei Alfonso II mandou construir uma igreja no local do possível sepultamento. Citado por MULLER S.A. Turismo e interioridade: a experiência do Caminho de Santiago de Compostela. In: MOSER G.C. Sociologia aplicada ao turismo. Indaial, SC: ASSELVI. 2001. 42 o turismo como ocorreu na pesquisa de Fagundes (2004, p. 12), quando indica para a definição de turismo que face [...] às características especiais de serviços e estrutura, o turismo é, conseqüentemente, cercado por problemas de análise, monitoração, coordenação e elaboração de políticas, geralmente porque seus planejadores e as pessoas que são responsáveis pela administração não estão preparados e agem isoladamente, sem estabelecer parcerias com todos os atores e agentes responsáveis pelo desenvolvimento do turismo, O autor também entende que, apesar de serem conhecidos pelos autores e planejadores turísticos, os termos desenvolvimento sustentável e sustentabilidade, não o são pelas comunidades locais, as quais quase pouco ou nada participam do processo de inclusão de ações turísticas. Assim Fagundes (2004, p. 13) afirma que “de nada vale implantar um planejamento turístico numa destinação sem a participação efetiva da comunidade local”. O autor reporta suas percepções aos aspectos turísticos, porém, complementa indicando com detalhes que passam despercebidos dos autores do turismo, indicando que, [...] a pós-modernidade exige uma nova relação entre religião e turismo [...]. Esta relação é complexa e precisa ser melhor analisada não somente procurando explicar os motivos que possam unir fé com diversão ou entretenimento, nem mesmo diferenciar o lazer da religiosidade, mas apresentar essa relação dentro de um contexto antropológico e sociológico [...] (FAGUNDES, 2004, p. 14). Essa percepção também baliza esta Tese, ao buscar identificar, para além das categorias usuais de percepção dos autores, diferentes elementos que permeiam a relação do turismo com a religiosidade popular. Tais características já foram identificadas em pesquisa recente desenvolvida pelo Ministério do Turismo Brasileiro (2005) cujo título é ‘Classe C e D, o Novo Mercado para o Turismo Brasileiro’. Em linhas gerais as informações interessantes fornecidas pela pesquisa são: esse turista tem um comportamento e uma visão específica dos passeios, viagens, excursões e do turismo; costuma viajar em grupo e percebe a viagem como uma forma de fortalecer laços de sociabilidade. Viaja com muita freqüência, especialmente nos finais de semana, quando percorre distâncias curtas ou médias, fica hospedado na casa de amigos e parentes e realiza dispêndios modestos ao longo da viagem. Outras conclusões da pesquisa são: o turista popular viaja com os organizadores/operadores informais do turismo que residem no próprio bairro ou que 43 fazem parte de sua rede de relações; o uso sistemático de excursões no formato bate e volta com duração curta (menos de 24 horas) e de curta distância com pernoite no ônibus; Os provedores de serviços são totalmente informais (falta de estrutura de negócios, existe a dificuldade de acesso às informações básicas sobre fornecedores, destinos e do modus operandi da atividade turística e, o desconhecimento dos pacotes turísticos econômicos disponíveis no mercado). Continuando a percepção que vem ocorrendo mudanças evolutivas para o conceito de turismo, Veloso (2003), o apresenta de uma maneira que se entende seja a mais direta e a mais próxima daquilo que poderia colaborar com a percepção dos horizontes e limites que o ambiente da religiosidade católica popular vem exigindo do setor turístico. Veloso (2003, p. 4) indica o turismo como “uma atividade econômica representada pelo conjunto de transações – compra e venda de serviços turísticos –, efetuados entre os agentes econômicos do turismo”. Ou seja, para o autor, somente seria incluído no universo do turismo o uso do termo ‘turismo religioso’, se, e somente se, ocorresse o efetivo uso de estruturas e serviços para o turista criados e implantados junto aos ambientes religiosos, caso contrário, ressalvas devem ser observadas. Tais ressalvas, se entende, são apresentadas no decorrer desta Tese. Também afirma Veloso (2003, p. 4) ser “o turismo gerado pelo deslocamento de pessoas para fora dos limites de sua residência fixa, por qualquer motivo, menos o de exercer atividade remunerada”. Percebe-se que o autor indica uma característica que se entende, ser a categoria mais tradicional utilizada pelos autores do turismo para efetuar a análise da relação do turismo com a religiosidade católica popular, qual seja: ocorre por parte dos autores do turismo a agregação de diferentes motivações (porém, a primeira quase sempre é o deslocamento físico). Corroborando essa situação, cita-se Aoun (2001, p. 28-9) que indica, “porém, os autores do turismo tendem a generalizar como categoria de análise, que apenas o deslocamento físico faz parte do fenômeno turístico”. Em oposição a essas visões administrativas, poder-se-ia sugerir a leitura do texto de Andréa Damacena e Silvia Fernandes que a partir de uma pesquisa de campo, passam a descrever as mudanças percebidas no pluralismo religioso brasileiro onde, “o indivíduo tem maior autonomia para construir um sistema de crenças fora do espaço das instituições religiosas” (2001, p. 1). Apresentam detalhes 44 motivacionais e as novas dinâmicas, sem, no entanto, abandonar a sua religiosidade. Para colaborar ainda mais com a possibilidade de interpretação das transformações da religiosidade brasileira pelos autores do turismo, cita-se a afirmação de Siqueira (1999, p. 1) que se utilizando de diversos autores que atuam junto à religiosidade diz que, [...] assiste-se a um processo de privatização das crenças religiosas e a uma pluralização da fé, ou como denomina Pace (1997), a uma liberalização religiosa. Parker (1997) refere-se à religião difusa; Hervieu-Léger (1993) a uma religiosidade ou identidade religiosa flexível-flutuante. Mardones (1994) usa os seguintes termos: nova sensibilidade místico-esotérica, sacralidade não religiosa, nova religiosidade sincrética. Maitre (1988) fala em nebulosa heterodoxa, Champion (1990) em nebulosa místico-esotérica e crédulos difusos e Sanchis (1997) em nebulosa polivalente da Nova Era e diversidade nas formas de adesão Isso, segundo DaMatta porque não se tem capacidade de observar com profundidade as matérias-primas que compõe os rituais, pois entre estes e a vida diária, as diferenças são “apenas a colocação em foco, em close up, de um elemento, de uma relação, sendo difícil classificá-los, quando não se entende como são construídos” (1983, p. 65), fato que se entende, ocorre com os autores do turismo. O historiador Peter Burke baseando-se na obra de Fernand Braudel pode colaborar com essa percepção quando caracteriza o cotidiano dos homens como “o reino da rotina e das atitudes, o que poderíamos chamar de hábitos mentais” (1992, p. 24). Na argumentação do cotidiano o autor inclui o ritual como elemento indicador de ocasiões especiais, e não como parte das atitudes cotidianas apenas, e este ritual pode ser confundido com os hábitos rotineiros, caso as pessoas que os observem não estejam particularmente relacionadas ao grupo observado, o autor dá como exemplos os modos de comer ou as formas de saudações. Outros aspectos destacados na análise de Burke, é que para aqueles que olham de fora, talvez seja difícil perceber que os rituais também podem colaborar diretamente com as mudanças sociais, o que seria positivo à compreensão das transformações que interessam ao turismo, e, se deve tomar cuidado ao que chamou de anacronismo psicológico, isto é, “a presunção de que as pessoas no passado pensavam e sentiam da mesma forma que nós” (1992, p. 34). Quase sempre os autores utilizam poucos exemplos de locais (Aparecida, SP), bem como de alguns exemplos de mudanças (barracas de lembranças, bailes e 45 festas) para generalizarem suas hipóteses, análises e interpretações. Dias (2003, p. 29) ao contrário, identifica e descreve seis tipos de locais religiosos, onde, [...] considerando-se a área do destino, objetivo final da viagem, que, junto com a motivação, é outro dos principais pontos a serem considerados, podemos fazer algumas distinções básicas entre os atrativos turístico religiosos, classificando-os em seis diferentes tipos: 1. Santuários de Peregrinação; Espaços religiosos de grande significado de caráter religioso; 3. Festas e comemorações em dias específicos; 4. Espetáculos artísticos de cunho religioso e 6. Roteiros de fé. Observa-se, porém, que apesar de quantificar e distribuir todos os ambientes religiosos (populares ou não) o autor não os diferencia enquanto ambientes propícios ao turismo e ambientes da fé. Ao contrário, a divisão desenvolvida pelo autor transforma-os em segmentos, e estes passam a incorporar o conjunto de possíveis atrativos do turismo cultural (dentro do qual está o religioso), assim sendo, tudo é passível de inclusão no universo do turismo religioso. Essa generalização compulsória incorporada por Dias se expressa novamente quando o autor, utilizando-se de outro elemento da cultura e dos ambientes religiosos (as festividades), utiliza-se da estratégia da turistificação, buscando através do uso dos componentes da religiosidade católica popular torná-los atrativos, ao afirmar que: [...] exibindo uma ampla diversidade e apresentando diferentes atrações populares, essas festividades podem ter lugar tanto em espaços públicos, quanto religiosos (ex: procissões), tendo em comum o fato de que ambos espelham a realidade dessa modalidade turística, o turismo religioso (2003, p. 28). Ou seja, para o autor, como ocorre a quase todos os autores do turismo, utiliza do uso desmedido desta visão que tudo e todos podem tornar-se parte do conjunto turístico de uma localidade e essa posição parece compor quase todos os destinos turísticos. Andrade (1999, p. 28-39) é outro autor que avança bem mais na demonstração de suas posições sobre a evolução do termo turismo, perpassando suas considerações da Antiguidade até a atualidade, descrevendo as conceituações como sendo divididas em ‘etimológicas’, ‘funcionais’ e ‘estruturais’. Nesta evolução dos significados, o autor apresenta a versão que, uma das primeiras tentativas coordenadas de conceituação por parte dos teóricos, relacionava as viagens turísticas com o lazer, e dentro desta percepção, negou a relação do turismo com a religiosidade, pois para o autor (1999, p. 28-39). viagens para o cumprimento de deveres de piedade é ato devocional e de fé; por isso obrigação moral impeditiva de finalidades turísticas, que se 46 baseiam no lazer e no descompromisso, jamais na meditação e na prece. Porém, continuando sua argumentação, nega a possível importância das teorias que utilizam o princípio do lazer como motivação para o turismo. Entende-se que Andrade utilizando-se de elementos nada científicos, afirmou haver surgido uma “febre de deserção entre os asseclas da doutrina do lazer como base do turismo” (1999, p. 32), complementando que isso ocorreu “porque as próprias estatísticas demonstram que a realidade é diferente das teorias que pretendem sustentar que turista é a pessoa que viaja para depois permanecer sem fazer coisa alguma” (1999, p. 32). Além de não apresentar estes autores e suas teorias, o que por si já é uma escolha deliberada sobre a valorização dada àquelas obras analisadas, entende-se que Andrade pretensiosamente deu um tom de superficialidade à percepção que, o lazer trabalha com o princípio que ‘se deve ficar sem fazer coisa alguma’, da mesma forma, afirmar que os teóricos do lazer desertaram de suas posições é generalizar sobre conteúdos aparentemente não dominados pelo autor. Para mostrar que a produção teórica do lazer sobre o turismo existe e que o lazer poderia trazer ao turismo para colaborar na gestão e no planejamento, basta observar-se a quantidade de títulos disponíveis no mercado editorial, bem como a importância deles para a compreensão de certos segmentos14 específicos do turismo atual. Para finalizar essa discussão sobre o lazer, entende-se que se os autores do turismo fossem menos tradicionais em suas interpretações, já que o são nas suas descrições e análises, se poderia utilizar com maior propriedade as pesquisas já desenvolvidas pelos estudiosos do lazer, visto que os autores do turismo, em sua maior parte, repetem-se em poucos autores do lazer em suas argumentações. 14 A área do Lazer é responsável pela produção de muitas obras disponíveis no mercado editorial. A seguir serão listadas algumas delas, com o intuito de demonstrar o quanto é amplo esse segmento, bem como o quanto ele poderia colaborar com as percepções sobre o turismo: BOULLÓN R.C. Las actividades turísticas y recreacionales: el hombre como protagonista. 3ªed. México: Trillas, 1999. BRUHNS, H.T. (org.). Introdução aos estudos do Lazer. Campinas: Ed. da Unicamp, 1997. (Col. Livro Texto). CAMARGO L. O de L. Educação para o Lazer. São Paulo: Moderna, 1998. (Col. Polêmica). DUMAZEDIER J. Sociologia Empírica do Lazer. São Paulo: Perspectiva, 1980. MUNNÈ F. Psicosociologia del tiempo livre: un enfoque crítico. Mexico: Trillas, 1995. 8ª reimpressão. SESC. Lazer numa sociedade globalizada: Lazer in a globalized society. São Paulo: SESC/WRLA, 2000. MARCELLINO, N.C. Políticas Públicas Setoriais de Lazer: O Papel das Prefeituras. Campinas: Autores Associados, 1996. WERNECK, C.L. Lazer, Trabalho e Educação: relações históricas, questões contemporâneas. Belo Horizonte: UFMG/CELAR/DEF, 2000. SERRANO, C.M.de T & BRUHNS, H.T. (orgs.). Viagens à natureza: Turismo, cultura e ambiente. Campinas: Papirus, 1997. (Col. Turismo). 47 De outro lado, temos autores internacionais que analisam as movimentações religiosas, como é o caso de Dean MacCannel antropólogo norte-americano, famoso junto aos autores brasileiros, por considerar o turismo uma nova forma de lazer, pelo fato de que este vem sofrendo um processo de sacralização generalizado, o que o leva a ser comparado ao ambiente religioso. MacCannel indicou (199915, p. 3) que, [...] a tese central deste livro está sustentada empiricamente na expansão e ideológica da sociedade moderna, intimamente ligados por diversos caminhos para o lazer de massa moderno, especialmente para o turismo internacional e a visitações. Ainda na sua argumentação inicial, MacCannel (1999, p. 34) indica que o [...] lazer é construído a partir de experiências culturais. Lazer e cultura continuam a existir indiferente ao mundo do trabalho e na vida diária. Estão concentrados nas férias, no entretenimento, nos jogos, brincadeiras e cerimônias religiosas. Esses rituais levam ao afastamento da cultura das atividades rotineiras e tem produzido o centro da crise da sociedade industrial. Veja-se que a essência da argumentação do autor, - e o que faz com que seja citado pelos autores brasileiros -, é a aceitação do lazer relacionado ao mundo do trabalho e dos deslocamentos para fora do ambiente cotidiano, como ocorre no turismo. MacCannel também se utilizou dos argumentos de Durkheim quando este afirmou que “o turismo é uma forma de respeito ritual para com a sociedade e absorve algumas das funções da religião no mundo moderno” (apud STEIL, 2002. p.58). A partir disso, se percebe que os autores brasileiros não se aprofundaram sobre quais seriam os outros elementos indicados por Durkheim (as funções da religião), mas sim assumiram apenas aquela que entendem relacionadas diretamente com a atividade turística, - o lazer -, sendo que, por lazer turístico são entendidas pelos autores todas aquelas atividades desenvolvidas durante a viagem nos ambientes religiosos. O que se entende, no entanto, é que essas atividades podem ocorrem tanto devido a uma motivação casual (pelo marketing, por exemplo), quanto por aspectos causais (relacionados aos elementos culturais do grupo social), ou seja, aos autores nas viagens o lazer transforma-se em uma ação compulsória, e não parte do código social, como é o religioso. Ao agirem dessa maneira os autores percebem os dois elementos indicados por Durkheim (crenças e ritos religiosos populares), apenas 15 A obra indicada é The tourist: a new thery of the leisure class. Berkeley: California Press, 1999. 48 enquanto ações praticadas isoladamente por indivíduos, não estando interrelacionadas socialmente, e por isso, passíveis de integrar a partir das estratégias de planejamento. Para melhor entender-se essa posição dos autores sobre lazer, utilizo o que diz Stanley Parker na obra ‘A Sociologia do Lazer’. Nela o autor aprofunda estudos a partir da visão que, os aspectos relacionados aos elementos culturais do grupo social, estão ausentes nas diferentes esferas do lazer na sociedade inglesa da década de 1970. Ao comparar a religião com o lazer, Parker percebe as duas formas (o lazer e a religião) como comportamentos não mais regulamentados pessoal e secretamente, e de escolha deliberada, isto é, entende que se precisa reconhecer em todos os aspectos da cultura a mesma evolução geral que esclarece o significado profundo da atividade de lazer na atualidade: a passagem de um comportamento de lazer social e moralmente determinado pelo grupo para uma ação livremente orientada em direção a objetos e valores que são exigências individuais autênticas, visto que não mais estão separados da pessoa por um labirinto de códigos sociais como ocorria no passado. Ou seja, para Parker, aquelas atividades que no passado ocorriam relacionadas aos grupos sociais (como foram o lazer e a religiosidade), agora são mediadas apenas pelos valores individuais, sendo que tanto com a religiosidade ou com o lazer, o mesmo vem ocorrendo no turismo. Porém, os autores do turismo que citam o lazer, não fazem uso dessa percepção em suas argumentações, pois, boa parte deles não desenvolve explicações, apenas descrevem ações praticadas pelos visitantes nos ambientes religiosos. Em trabalho anterior, (2002, p. 7) desenvolvi diversas considerações teóricoconceituais acerca dessa relação do turismo atual com o lazer, que entendo conflituosa, visto indicar que os autores não percebem a diversidade de função dos dois (turismo e o lazer), pois que, [...] continuamente, os estudiosos do turismo, o apresentam como uma atividade de lazer, ou vice-versa, mudando-lhe a posição de importância indistintamente. Ambas as atividades, porém, na atualidade são atividades individuais e profundamente individualizantes, não permitindo que venha a ocorrer o desenvolvimento de ações que promovam o crescimento, nem o entrelaçamento dos seres humanos, em busca da evolução cultural dos seus praticantes, como num passado um pouco distante ocorria com o lazer. Isso se reflete na situação que se descreve nesta Tese em relação à percepção dos autores, visto que, claramente nas argumentações que desenvolvem 49 sobre lazer e turismo, não procuram explicar seus argumentos, mas apenas descrevê-los, acabando por mascarar ou dificultar a compreensão da realidade, pois, [...] como os estudiosos do turismo não apresentam a preocupação de caracterizar essas distinções, e, nem mesmo buscam caracterizar as diferenças entre o lazer do passado e o praticado na atual sociedade de consumo, principalmente através do turismo, acabaram por colaborar com algumas percepções errôneas sobre o lazer enquanto uma das formas de turismo, e não o contrário [...] (CHRISTOFFOLI, 2002, p. 7). Face essa situação transforma-se a função e os objetivos anteriormente instalados na sociedade pelas práticas do lazer, colocando-o no campo do consumo para diferentes grupos sociais, e, entende-se que esse não é o papel da religiosidade, que ao contrário, é o de aproximar pessoas não pelo consumo de serviços, como de estruturas (hoteleiras, de alimentação, de transportes, etc.), nos ambientes religiosos, mas sim a partir de um encontro em que a horizontalidade das relações se estabelece quando se abandonam papéis sociais do mundo cotidiano. Ieno Neto (2005, p. 14) nos ajuda a compreender como se forma essa percepção diferenciada dos autores do turismo sobre o lazer nos ambientes religiosos ao discutir os consumos dos espaços públicos na atualidade. O autor (2005, p. 14) citando Augé indica que ocorre a existência de locais denominados de os não-lugares (espaços que, não são lugares antropológicos e que [...] não integram os lugares antigos, [...] onde se multiplicam [...] os pontos de trânsito e as ocupações provisórias (as cadeias de hotéis e os terrenos invadidos, os clubes de férias, os acampamentos de refugiados, [...].). Tais locais podem proporcionar a experiência do indivíduo se colocar como espectador solitário em relação ao mundo que o cerca, como ocorre muitas vezes na experiência turística, onde o contato efetivo com os companheiros de viagem ou dos habitantes não ocorre, diferentemente daquilo que entendo, proporciona o ambiente da religiosidade para os fiéis. Citando Sennet, Iedo Neto fala em voyeurismo na medida em que o indivíduo observa sem participar e fala também da civilidade numa sociedade intimista como sendo "a atividade que protege as pessoas uma das outras e ainda assim permite que elas tirem proveito da companhia uma das outras" (2005, p. 14). Essa também é a visão de Morin (1969, p. 74-75) quando discute as diferentes nuanças que se estabelecem quando ocorrem as transformações dos valores na sociedade moderna, através de mecanismos que ele generaliza como parte da cultura de massas do capitalismo. Essa percepção superficial dos autores 50 do turismo sobre o lazer e o turismo, vai de encontro a Aoun16 (2001, p. 94) que indicou ser expressa constantemente, pois, durante o período em que estivemos acompanhando o material de VIP Exame, percebemos que apesar de essa revista se utilizar de palavras do universo religioso, sempre o fez de forma despreocupada, aproximando todo esse antigo mundo lingüístico do nosso cotidiano moderno, sempre buscando dessacralizar por meio de diálogos [...]”. Eliade (1992, p. 17) explica em parte essa situação dizendo que basta constatar que a dessacralização caracteriza a experiência total do homem não-religioso das sociedades modernas, o qual, por essa razão, sente uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas, entende-se que essa condição também ocorre nas sociedades atuais. Descrevendo a importância das festas religiosas para os fiéis indica que “a repetição esvaziada de seu conteúdo conduz necessariamente a visão pessimista da existência, [...], quer dizer, quando dessacralizado o Tempo cíclico torna-se terrífico [...]” (ELIADE 1992, p. 90), isto é, transpondo-se essa visão para a atual relação da religiosidade os autores turismo percebem certo vazio nos conteúdos das atividades religiosas, transportando-as para a esfera do lazer. A partir daqui, serão apresentados os textos que indicaram expressamente o termo turismo religioso com suas categorias de compreensão. Em número especial da revista “Turismo - Visão e Ação”17, encontraram-se três referências ao universo do turismo religioso. O primeiro na página 23 indica o termo ‘religião’ como sendo “uma das mais antigas manifestações do pensamento, onde as pessoas postulam a existência de um meio ambiente invisível em pé de igualdade com o mundo visível embora não possa ser evidenciado da mesma maneira” (2000, p. 23). A seguir indica-se que nas religiões as pessoas “evocam seres, forças, lugares sagrados e uma força superior misteriosa que chamam 16 Parte do livro concentra-se em descrever anúncios de revistas especializadas em turismo, os quais além de apresentarem paisagens magníficas, relacionavam-nas a adjetivos como paraíso, paz, tranqüilidade. 17 Uma das poucas publicações brasileiras reconhecidas pela academia como sendo científica em turismo, editada pelo Programa de Mestrado/Doutorado em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), vêm sendo editada ininterruptamente desde 1998. O número especial denominado ‘Glossário’ editado em 2000 supriu uma lacuna naquele momento histórico, quando através de um número especial, concentrou na agregação de diferentes autores, uma infinidade de termos e conceitos por temas de análise, perpassando diferentes áreas afins ao Turismo como a Administração, o Meio Ambiente, a Cultura, etc. Outra publicação é a revista Turismo em Análise uma publicação semestral (maio/novembro), editada pela Editora Aleph e pelo Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo da ECA-USP. Tem por objetivo publicar estudos, pesquisas e relatos de experiências de docentes, pesquisadores e profissionais na área de Turismo e Hotelaria. 51 conforme o caso de Deus, Espírito, Anjo, Demônio, enfim, uma força que pode determinar e dominar o mal e o bem, assim como salvar e encaminhar a ‘alma’ de uma pessoa após a sua morte”. O segundo termo indicado pela revista é ‘turismo religioso’ (VISÃO E AÇÃO, 2000, p. 27), porém, não se faz a apresentação de uma definição, e sim, apenas são indicadas as definições de outros autores como VAZ (1999), ANDRADE (1997) e a EMBRATUR (1992). O terceiro termo apresentado pela revista é uma definição de Beni (1998) para turismo ‘religioso’, o qual é descrito e analisado a seguir. Beni (2000, p. 153), por exemplo, faz parte do grande grupo de autores (que atuam no turismo brasileiro), sendo que em seu trabalho sobre o SISTUR18, descreve a composição da segmentação do mercado de turismo (no item 2.1). Citando os diversos elementos que a compõe (desde os destinos geográficos, transportes, composição demográfica, nível econômico, ocupação, estado civil, até o estilo de vida), ao final afirma que o “motivo da viagem, entretanto, é o principal meio disponível para se segmentar o mercado”. Mais adiante o autor apresenta os elementos que compõe a vocação turística do núcleo receptor, sobre os quais se assentam os 35 tipos de turismo possíveis. Um destes tipos é o religioso, que Beni (2000, p. 422) refere como o que promove, [...] o grande deslocamento de peregrinos, portanto turistas potenciais, que se destinam à centros religiosos, motivados pela fé em distintas crenças. Este tipo de demanda tem características únicas levando, por isso, alguns autores a não considerá-lo nos estudos de Turismo. Observa-se que o autor concentrou sua percepção em dois elementos: primeiro frisou a motivação da viagem como o elemento mais importante a qualquer turista; e em segundo referindo-se aos peregrinos como turistas potenciais, ressaltou que estes são possuidores de características únicas, o que faz que os autores os desconsiderem enquanto demanda a ser trabalhada pelo turismo. Poder-se-ia ampliar a discussão dos motivos porque esta demanda é desconsiderada pelos 18 O SISTUR ou Sistema de Turismo é um modelo empírico de análise da estrutura do turismo proposto por Mário Carlos Beni a partir do universo da Administração. Baseia-se nos quatro subsistemas chamados por ele de: cultural, ecológico, social e econômico tendo sido incorporado pelo Turismo como um mecanismo de análise e interpretação, principalmente pelos profissionais que vêem nele um instrumento eficaz para o planejamento e a implantação de projetos turísticos. 52 autores, fazendo-se a seguinte pergunta: quais seriam essas características únicas indicadas por Beni que tanto distanciam os peregrinos do universo do turismo? Continuando sua argumentação Beni (2000, p. 422) afirma que, [...] em nosso entendimento, conforme já referido, esses peregrinos assumem um comportamento de consumo turístico, pois utilizam equipamentos e serviços com uma estrutura de gastos semelhantes à dos turistas reais. Perceba-se que o autor considera os peregrinos também enquanto turistas, pelo fato de utilizarem-se das estruturas do turismo, enquanto isso, Carlos A. Steil (2003a) afirma em contrário sobre a polêmica de existir dificuldades entre as Congregações religiosas de assumirem a mesma terminologia dada pelos profissionais que atuam com o turismo, indicando que entre os profissionais do mercado e as prefeituras, desenvolveu-se a visão de que os eventos religiosos podem transformar-se em turísticos, colaborando diretamente com economia local, enquanto que aos religiosos “a retirada da centralidade e da profundidade do ato religioso é nocivo frente às ações dispersivas e superficiais do turismo” (STEIL, 2003a, p. 36-7). Ribeiro (2002, p. 4) indica o turismo religioso com a definição oficial dada pela Conferência Mundial de Roma, realizada no ano de 1960, que percebe as motivações relacionadas ao ambiente religioso. A autora amplia os locais e as formas de ocorrência dessas práticas afirmando que, [...] o turismo religioso é compreendido como uma organização que movimenta inúmeros peregrinos em viagens pelos mistérios da fé ou da devoção a algum santo. A sua prática efetiva realiza-se de diversas maneiras: as peregrinações aos locais sagrados, as festas religiosas que são celebradas periodicamente, os espetáculos e as representações teatrais de cunho religioso, e os congressos, encontros e seminários, ligados à evangelização. Outro aspecto indicado no texto está na categorização usada pela autora: não é utilizado o termo turista religioso, apenas usam-se fiéis, romeiros, peregrinos, viajantes, caminhantes, etc., sem haver o uso explicito do termo turista ou seus possíveis adjetivos e significados. Outro aspecto está no recorta-e-cola do texto, pois a autora faz muitas afirmações sem preocupar-se em documentar as mesmas, como é o caso da colocação sobre a criação da Pastoral do Turismo pela Igreja católica. Noutro momento as explicações da autora para as modificações das dinâmicas religiosas prendem-se as relações de trabalho apenas, onde o foco da análise se 53 concentra na ação dos fiéis, mais do que na força que induziu estas mudanças, ao indicar que, os novos compromissos do trabalho faziam escassear o tempo disponível para cumprir as longas rotas da fé (RIBEIRO, 2002). Ribeiro indica que as manifestações de devoção tornavam-se cada vez mais estáticas e restritas a determinados locais, previamente delimitados para essa função, não importando as explicações relacionadas às imposições das Congregações acontecidas através dos tempos (2002, p. 2). Da mesma forma as explicações utilizadas por Ribeiro para justificar a compra de lembranças, não indicam ocorrer à possível inclusão do souvenir turístico no ato religioso, pois, [...] aqueles poucos que ainda participavam de peregrinações se esforçavam para trazer do santuário uma relíquia ou lembrança, que pudesse ser compartilhado com os que não foram. Esse objeto tornava-se uma forma de manter os vínculos entre os participantes da romaria e elemento de confraternização com os demais, transformando-se numa espécie de elo para a celebração de rituais (2002, p. 2). Porém, em continuidade na justificativa da construção dos novos valores nas movimentações religiosas, a autora indica o lazer (em oposição ao trabalho), como um elemento relacionado à fé para a ocorrência das atividades paralelas, esquivando-se de aprofundar compreensões sobre os valores simbólicos que possam reger a ambiente, pois, afirma que na segunda metade do século XIX, as peregrinações refloresceram de modo diferente, ainda que apresentando os mesmos elementos de suporte, como os dogmas da religião católica e os valores bíblicos. Os romeiros passaram a compartilhar não apenas a fé como também a intenção de desfrutar momentos de lazer em conjunto, onde era rompido o cotidiano de trabalho. A romaria passava a ser uma festa em si, para a qual o grupo preparava-se não apenas espiritualmente como também para desfrutar de um acontecimento social. Planejavam-se as datas ociosas, o transporte em conjunto, as acomodações, a alimentação e as atividades paralelas ao ato religioso (RIBEIRO, 2002, p. 2). Fagundes (2004, p.14) em sua dissertação que analisa a presença da comunidade nas discussões sobre sustentabilidade no Turismo Religioso em Nova Trento - SC indica posição de pensamento semelhante quando se refere à presença do lazer junto à religiosidade, afirmando que, [...] atualmente, com cada vez mais pessoas residindo em cidades, as crises financeiras, políticas, desemprego, redução de renda, acabam por comprovar a necessidade de renovar mitos e ritos religiosos. Para este momento de religiosidade e lazer, as pessoas acabam buscando um espaço alternativo, longe de seu cotidiano, quebrando as barreiras de sua consciência limitada aos hábitos cíclicos do dia a dia, constituindo-se assim 54 como um momento de fuga e re-ligação. É neste contexto que ganha força a prática do turismo religioso. Entende-se que ambos não percebem o momento festivo das atividades que compõe o universo religioso conforme o fazem Durkheim (já indicado anteriormente) ou Eliade, porque, ao não admitir a existência de um espaço religioso homogêneo, renega a existência de valores contrários atuando de forma concomitante, talvez porque mediada pela, [...] experiência do espaço tal como é vivida pelo homem não-religioso, quer dizer, por um homem que recusa a sacralidade do mundo, que assume unicamente uma existência ‘profana’, purificada de toda pressuposição religiosa (1992, p. 23). Eliade afirma que visto que o “homem não-religioso reproduz ainda mais essa visão quando interpreta as festas como sendo profanas ligadas aos mitos” (1992, p. 72), quando nelas percebe que “em muitos casos, realizam-se durante a festa os mesmo atos dos intervalos não-festivos, mas o homem religioso crê que vive então num outro tempo, que conseguiu reencontrar o primeiro tempo mítico” (1992, p. 72). Neste aspecto Fernandes se concentrou em estudar romarias, acompanhando os romeiros desde as etapas anteriores (preparação, concentração, caminhada e chegada ao santuário), até o retorno às suas casas. O autor faz lembrar que, ao serem organizadas às primeiras romarias episcopais à Aparecida, estas “tomaram o trem Rio – São Paulo e levaram os fiéis a rezar por Nossa Senhora de Aparecida – um em setembro e outro em dezembro de 1900” (1994, p. 106), sendo que este modelo foi utilizado anualmente até 1930. Este modelo é argumento por Ribeiro, bem como é a modificação indicada por Fagundes, porém, não são considerados os mitos como a base de sustentação das ações dos fiéis. Novamente Fernandes (1994, p. 157-158) ajuda a esclarecer os valores que compõe o universo religioso dos fiéis do santuário de Aparecida: [...] num clima carnavalesco, fomos penetrados pela atmosfera de realismo fantástico que caracteriza os santuários brasileiros em dia de festa: a liturgia dos padres em luto, a fila quilométrica da devoção ao santo, a visita mórbida à sala dos milagres, as centenas de cruzes amontoadas [...]; cavaleiros, motoqueiros, ciclistas em quantidade, a animação da praça, as lojas e as barraquinhas repletas de souvenires de gesso e plástico coloridos; o papagaio que lê a sorte, índio que vende ervas curativas, o parque de diversões, o bondinho aéreo que leva ao alto do cruzeiro, a mulher que vira macaco, o bêbado cético [...]. A paquera, muita comida, muita bebida, gente vestida em roupa de domingo a passear em meio a outro tanto de gente maltrapilha, dormindo pelos cantos da calçada. Sagrado e profano, ambos em estado de graça. 55 O autor conclui que “esta conjunção de tempos conceituais, que são insistentemente separados nos livros escolares, cria sérias dificuldades de comunicação entre os diferentes atores, incluindo o pesquisador” (FERNANDES, 1994, p. 158). O mesmo autor ainda indica os vínculos que compõe o ambiente da relação desses tempos conceituais como sendo: a dependência - os romeiros cultuam os santos em troca de proteção; territorial - toda sorte de objetos e assuntos são trazidos aos pés do santo para a benção; a inclusão - as promessas, romarias e santos são múltiplos à disposição dos fiéis (FERNANDES, 1994, p. 158), vínculos que não são percebidos, ou valorizados nas percepções dos autores do turismo. Assim, entende-se que os autores (neste caso Ribeiro (2002) e Fagundes (2004)), quando interpretam as ações dos peregrinos, entendem não haver possibilidade de encontrar-se nenhuma outra atividade fora daquelas relacionadas à manutenção da fé, pois caso isso ocorra, estes visitantes deixariam de ser fiéis, quando então, podem ser considerados como componentes de outros universos, como o do mercado turístico, ou do lazer, por exemplo, e a partir daí, os fiéis estariam predispostos somente as ações destes. Wernet (1999, p. 84) estudou as transformações ocorridas no Santuário de Aparecida, a partir de uma visão tradicional, entendendo por peregrinação, [...] um itinerário ou caminho difícil a um lugar sagrado que seja símbolo e manifestação do sagrado. Tal peregrinação exige penitência, testemunho público de fé e ação de graças por se ter chegado ao lugar sagrado e alcançado alguma graça. Afirma isso porque quando as romarias passaram a ser organizadas pela Igreja, vão transformar-se radicalmente. Citando documentos oficiais consultados Wernet indicou que, quando da chegada dos padres Redentoristas em 1894 (da Congregação do Santíssimo Redentor da Baviera), estes encontraram o Santuário “em situação deplorável”, pois “milhares de peregrinos acorriam ao Santuário sem receber uma palavra orientadora, permanecendo num nível de religiosidade externa de promessas e de gestos penitenciais sem crescer na fé e na vida cristã” (1999, p. 84-85), isto é, “a ação pastoral quase nula, não se pregava, não havia catequese, [...]” (1999, p. 84-85). Continuando o autor indicou que havia nestas peregrinações pouca ou nenhuma presença da Igreja, seja na organização e promoção das romarias, seja no caminho do Santuário, predominando “a peregrinação do povo, praxe comum de sua religiosidade tradicional: uma caminhada difícil e penosa ao 56 lugar sagrado [...]” (1999, p. 84-85). Objetivando-se mudar aquela realidade iniciaram-se assim as romarias oficiais, conduzidas e dirigidas pelos padres redentoristas. Passou-se a observar um rigoroso cerimonial para a chegada e à despedida do Santuário, neste, “havia horário previsto para as pregações, as confissões, as missas e comunhões, e, à tarde, antes da despedida, os peregrinos faziam a procissão [...]” (WERNET, 1999, p. 86). O mesmo autor (1999, p. 87) também indicou que, [...] estas romarias faziam parte do processo de moralização e racionalização dos costumes e das devoções do catolicismo tradicional. [...]. Obviamente os peregrinos continuavam a vir a Aparecida, individualmente e em grupos, a pé, a cavalo, e até de trem sem fazerem parte de uma romaria programada. Segundo Wernet a partir do Concílio Vaticano II19 o apoio dado pelos padres às romarias praticamente cessou visto que essas foram consideradas “manifestações espúrias da religiosidade popular” (1999, p. 88), mesmo que o povo não tenha dado ouvidos a essas discussões teóricas, continuando a ir à Aparecida. Naquele momento (década de 1960), oficialmente, a igreja abandona as práticas que estejam além dos muros dos santuários, permitindo mais liberdades para aquelas pessoas que passam a organizar os grupos e que, pelo abandono da organização da igreja, assumem esta função as ‘empresas turísticas’, (empresas de ônibus, algumas paróquias e as pessoas em geral), as quais passam a organizar uma “excursão sobretudo visava lucro” (1999, p. 88). Entende-se que o autor generaliza por demais as práticas das excursões, visto que, quando coloca todas na condição de serem resultantes de estratégias mercantilistas, não havendo mais nenhuma excursão motivada pela fé e pela religiosidade. Também, considerando essa condição reducionista baseada no mercatilismo como verdadeira para Aparecida, não se pode generalizar, como referência de argumentos, essa condição do transporte para todos os ambientes da religiosidade católica popular indicada por Wernet. Após esse momento de dominação sobre as dinâmicas religiosas populares pela Igreja, mais uma vez vão ocorrer mudanças estruturais nas práticas dos padres 19 O Concílio Vaticano II foi um evento que objetivou profundas transformações nas dinâmicas dos deslocamentos religiosos quando por força de obediência a Roma, as coordenações assumem um discurso moderno das ciências sociais, onde a ação humana fundamenta e instaura o sagrado nos santuários, tornando-se, portanto uma instituição humana e não divina (STEIL, 1996, p. 37). 57 Redentoristas, quando introduzem a Pastoral do Santuário, subdivididas em ações identificadas pelo Wernet (1999) em três momentos: a) não se devem destruir as formas devocionais populares; b) os sacramentos foram introduzidos na peregrinação, fato anteriormente pouco trabalhado; c) deve-se aproveitar a presença dos romeiros nos santuários para a sua evangelização. Após essas considerações o autor apresenta suas opiniões sobre as transformações nos espaços das peregrinações a Aparecida: [...] na pastoral do santuário procura-se sustentar e salvar o sentido tradicional da peregrinação e exercer uma pastoral moderna, opondo-se em parte, as tendências secularizadoras das quais se apresenta como uma das suas manifestações o ‘turismo religioso’ (1999, p. 89). Complementando suas percepções Wernet (1999, p. 89) ainda afirma que, [...] percebe-se um processo global que vai da romaria programada em direção a uma prática que facilmente se confunde com excursões religiosoturísticas ocorrendo também um esvaziamento da dimensão simbólica. A peregrinação religiosa se transformou em turismo religioso, salvo a ação pastoral no próprio santuário. Tal situação, identificada pelo autor, é entendida em parte como verdadeira. Porém, carece de aprofundamento visto que não é resultado de pesquisa efetiva com o universo dos fiéis de Aparecida, uma vez que se percebe certa superficialidade ou parcialidade na escolha dos elementos usados para a argumentação da diminuição da fé, quando, somente são analisadas as ações das Congregações, ficando alijadas as percepções a partir dos fiéis. Para colaborar melhor com a compreensão dos diferentes elementos que compõe e incidem sobre o universo dos visitantes que circulam o ambiente da religiosidade católica popular, e para que se possam definir mais e melhor todos estes possíveis valores simbólicos presentes e interferentes utilizo uma afirmação de Chauí (1986, p. 128) quando apresenta a religiosidade popular, como um conjunto de informações que deveria ser de domínio por parte dos autores do turismo, uma vez que, [...] o catolicismo devocional é montado sobre rezas, bênçãos, curas, promessas, todas elas fundadas na crença do milagre. Este se refere às doenças [...], a busca de proteção (para a colheita, o gado, a saúde, contra desastres naturais, para encontrar objetos perdidos) e à reparação de injustiças cometidas contra os fracos. O milagre depende, sem dúvida, da vontade de Deus, da intervenção dos santos, da fé de quem o pede, do valor da promessa feita como retribuição da graça à recebida. 58 Lima (2002, p. 3) analisando os aspectos valorizados pela mídia (jornais e TVs) que cobriram recente festa do padre Cícero20 indicou várias redes nacionais da mídia que descrevem elementos da religiosidade popular na composição da festa, enfatizando o aspecto do sacrifício associado à alegria do pagamento de promessas, o tocar a estátua, etc. afirma que, [...] as romarias do padre Cícero sempre são notícias nos principais jornais do Estado, como fonte de renda e atividade econômica da cidade de Juazeiro. O destaque, às vezes, não está no caráter religioso da festa, mas o grande evento comercial que a festa adquiriu atualmente. A festa passa a ter um caráter mais de valor conteudístico, preenchendo espaços na programação das emissoras de rádio ou TV, bem como motivando reportagens e coberturas especiais nos jornais diários ou revistas semanais (MELLO apud LIMA, 2002, p. 3). Para Lima (2002, p. 8) os elementos identificados pela mídia que cobre esse evento religioso, [...] retratam de maneira superficial e rápida a manifestação popular. Portanto, o conteúdo cultural da festa, muitas vezes, não é destacado, mais sim, o movimento comercial, turístico ou trágico – caso aconteça algum acidente. Os meios de comunicação seja rádio, TVs ou jornais estarão voltados ao imediatismo da notícia e a cobertura voltada à indústria cultural ou comercial, Este fato leva a percepção da inexistência de elementos da fé nessas atividades, visto serem interpretadas pelos profissionais da mídia, como profanas apenas. Steil interpretando as romarias no santuário de Bom Jesus da Lapa21 na Bahia, explica em parte como se dá esse processo afirmando que “devido ao seu status ‘intersticial’, dentro e fora do tempo ‘universal’ e ‘local’, a romaria pode conciliar uma dupla ética transacional, onde o santo e o mercado se sobrepõem como mediadores de bens espirituais e materiais” (1996, p. 83). Para o autor ocorre uma troca de papéis quando o romeiro entende que “pode alcançar favores materiais por intermédio das orações e penitência, também se pode alcançar favores graças sobrenaturais, através de doações em dinheiro”. 20 Para um maior aprofundamento sobre a história do Padre Cícero Romão Batista leia-se o livro de Ralph Della Cava ‘Milagre em Joaseiro’, editora Paz e Terra, 1976 (Coleção Estudos Brasileiros, volume 13). Nele são apresentados todos os elementos sobre a formação da vida sacerdotal, bem como as diferentes etapas desde a ocorrência do milagre até sua expulsão da Congregação, sendo que alguns destes detalhes compõe ainda hoje, um conjunto de valores em disputa constante entre e Igreja e a população. 21 Bom Jesus da Lapa, no interior da Bahia, estabeleceu-se no século XVIII, pois em 1728 o local já era descrito com o santuário, sendo que o povoamento da região ocorreu após 1663. Está situado no médio vale do rio São Francisco a 900 km de Salvador. O livro que trata deste tema intitula-se O Sertão das romarias: um estudo antropológico sobre o santuário de Bom Jesus da Lapa – Bahia. Petrópolis: Vozes, 1996. 59 Noutro trabalho mais recente, Steil (2003c, p. 256), recuperou suas pesquisas anteriores realizadas para sua tese de doutoramento sobre o santuário de Bom Jesus da Lapa na Bahia (editadas em 1996), refazendo seus olhares sobre as transformações por que vem passando o local, face às mudanças de significados atribuídos pela Igreja Católica. Afirma que, [...] em relação ao clero, registramos uma tentativa de reformulação do culto através da integração dos romeiros numa sociabilidade turística. No pequeno livro, escrito em 1969 e reeditado em 1988 pelos dirigentes do santuário, intitulado Guia dos Romeiros e Turistas de Bom Jesus da Lapa. Histórico e Curiosidades do Santuário e da Cidade (grifo meu), podemos ver que as categorias de romeiros e turistas não são apenas contrapostas, mas a segunda é sobreposta à primeira. Vemos, assim, uma tentativa de absorver o sentido e o ideário peregrínico numa estrutura de significados e categorias lingüísticas que remetem ao campo turístico, que é levada a cabo pelos próprios dirigentes do santuário. Isso pode justificar as explicações sobre os interesses dos visitantes de Aparecida, SP, indicados tanto por Wernet (1999) quanto por Moraes22 (2000) como sendo exteriores a um ambiente da fé. Porém, entende-se que tais percepções têm gerado falsas proposições dos autores sobre a estruturação dos elementos do turismo junto aos visitantes nos santuários, pois entendem eles que, o consumo das estruturas e serviços oferecidos aos fiéis, segue as linhas gerais dos consumidores do lazer turístico tradicional, e tem conduzido às atividades desenvolvidas pelos visitantes. Este consumo de lazer estaria colocado nas linhas gerais do planejamento turístico onde as pessoas que se movimentam, o fazem inicialmente, porque são possuidoras de um determinado tempo livre e usam este tempo para desenvolverem diferentes formas de atividades de lazer, entre as quais a visitação aos locais sagrados. No entanto, nenhum dos autores citados (STEIL (2003C); MORAES (2000); ou WERNET (1999), por exemplo), desenvolveram pesquisas que permitissem confirmar essas hipóteses, pois, como já foi dito anteriormente, se percebe a utilização de percepções parciais (isto é, desenvolvidas sobre observações relacionadas a apenas um local (cidade ou santuário), ou acontecimento (festa, 22 Mestre em Ciências - Turismo e Lazer, pela ECA/USP, licenciada em História - Unicamp e bacharel em Turismo pela PUC Campinas. Professora da UNIBERO. Observe-se nas Referências à indicação de dois textos desta autora, que apesar de, terem sido publicados em épocas diferentes (2000 e 2003), foram considerados com o mesmo conteúdo. Os artigos são análises resultantes de uma pesquisa realizada pelos acadêmicos de Turismo da UNIBERO no ano de 1999. Os mesmos resultados da pesquisa transformaram-se em dados estatísticos descritos e analisados por T. Femenick (ver Referências). 60 romaria), pelos autores, relacionadas mais às Congregações que aos fiéis e suas motivações. De encontro a essa percepção tem-se Costalonga (2003) que analisou a presença e a movimentação de fiéis no santuário da Penha23 na cidade de Vila Velha no Espírito Santo, existente há mais de 400 anos. Para a autora, encontramse muitos elementos da religiosidade popular relacionando as atividades que ocorrem no santuário, bem como, noutros momentos isso não ocorre. Segundo a autora, pelo fato que essas atividades estão relacionadas ao poder público (como é o caso da transformação da área histórica da cidade em um ponto turístico para a geração de renda para a população), o que tem levado muitos visitantes àquele local. De um lado a autora utilizou-se do termo turismo religioso em poucos momentos do trabalho, quando afirmou que [...] a permanente presença de turistas oriundos de diversas regiões do estado do espírito Santo, somado, ao fluxo constante de turistas nacionais e internacionais, dão sustentação ao simbolismo religioso das celebrações iniciadas diariamente às 5 horas da manhã [...] (COSTALONGA, 2003, p. 166). Noutro momento do trabalho Costalonga (2003, p. 160) afirma que “a mobilização de multidões de devotos e peregrinos sustentam a evolução do mito religioso através dos rituais da igreja”, indicando que estes são responsáveis pela transformação do Convento da Penha no ponto turístico mais significante do estado do Espírito Santo. Entende-se que os termos fiéis e peregrinos ficariam mais bem colocados para a explicação de presença tão grande de pessoas, uma vez que, certamente, a sustentação religiosa do santuário da Penha não é realizada por turistas, mas sim por fiéis, mesmo diante dos investimentos do poder público. Também indica que essas celebrações religiosas “que envolvem o turismo na região” (COSTALONGA, 2003, p. 160, estão diretamente relacionadas “ao tempo livre destinado aos ritos e celebrações” (COSTALONGA, 2003, p. 160). Nestas duas afirmações, percebe-se uma grande facilidade de interação de Costalonga no uso dos dois termos (fiéis e turistas) e suas adjetivações (devotos, turismo, tempo livre, ponto turístico) na colaboração da grandiosidade das movimentações de pessoas no 23 Localizado no alto de um penhasco que domina toda a baia o atual santuário da Penha tem seu primeiro registro no ano de 1558 quando chegou a Vila Velha o frei espanhol Pedro Palácios. Este trouxe um painel com a imagem de Nossa Senhora das Alegrias, o qual desapareceu por duas vezes surgindo no alto do penhasco. No local foi construída uma capelinha. Nossa Senhora das Alegrias deu lugar a Nossa Senhora da Penha padroeira do Espírito Santo, a qual chegou ao estado em 1569. O convento foi concluído em 1670 com um caminho de 1200 metros de comprimento, 116 degraus e uma altura de 154 metros. (in: Jornal do Brasil Caderno Roteiros da Fé. 11.09.2000, p. 70-1). 61 santuário da Penha. Também é possível perceber o entendimento de que a relação da existência de um tempo livre (apoiada pela presença de atividades relacionadas ao poder público) com as celebrações religiosas é que dá as condições à presença maciça de pessoas no local. Talvez, a partir desse exemplo de análise desenvolvida pela autora, pudéssemos generalizar neste e noutros casos, sobre quanto cada autor aprofunda as diferentes categorias que utiliza, e, como se dão as duas grandes formas de atração (se o lazer e o sagrado) para, após isso, descrevermos todos os elementos que as compõe, visto que estes podem facilmente pertencer as duas ou mais categorias de interpretação, as quais, não são de conhecimento dos autores do turismo, visto não aprofundarem-nas. Steil (1998, p. 2) já percebeu essa condição quando afirmou que, [...] turismo e peregrinação são tomados não apenas como experiências históricas de múltiplas formas de deslocamento espacial, mas, sobretudo como categorias explicativas e de compreensão da realidade que condensam estruturas de significados que estão sendo atualizadas e reavaliadas na prática social. Portanto para Steil (1998, p. 4) surge uma nova [...] categoria de peregrinos-turistas, ou de turistas religiosos, que se diferenciam dos peregrinos tradicionais não apenas pelo conjunto de motivações que os incitam a deslocar-se para os locais de peregrinação, mas, sobretudo pelas estruturas de significados dentro das quais inserem sua experiência, pois acreditamos que, se o objetivo declarado da viagem já não constitui um elemento importante de classificação para distinguir peregrinos de turistas, devemos buscar nas estruturas de significados, a que cada um está referido e aciona ao participar do evento, o critério possível de classificação. Para Steil (1998, p. 4) essa nova conformação [...] da peregrinação ao turismo atualiza um modelo de religião que está centrado na afirmação do indivíduo e na produção de diferenças, acionando, assim, no campo religioso, - a mesma lógica do distanciamento e da identidade que encontramos noutros domínios da vida moderna -, e 24 que se contrapõe à lógica da communitas , que opera no sentido da fusão 24 O termo communitas foi desenvolvido por Victor Turner em 1969, e significa basicamente a criação de um grupo de pessoas que o fazem sem necessariamente haver uma relação tradicional de agregação de grupo social, quando negam as classes sociais e rejeitam as ordens sociais existentes. A base de Turner foi o sociólogo Arnold Van Gennep com a teoria dos Ritos de Passagem em (apud SEGALEN, 2002, p. 48). Alphonse Dupront aprofunda a noção de communitas ideológica de Turner. Para Dupront (apud NASCIMENTO), a peregrinação forma-se por “um grupo humano dotado de uma irresistível pulsão comum, movido por uma força que o ultrapassa à procura de sua própria sacralização” (1987, p. 406). Ele pensa na formação de uma sociedade peregrina que, para além das fronteiras de sexo, idade, hierarquia, busca uma aproximação com os poderes sobrenaturais do sagrado. O autor enfatiza a idéia de uma experiência, acima de tudo, religiosa que, percorrendo um espaço até o lugar sagrado, permite fazer uma transformação misteriosa e espiritual, “Transmutação do homem. Transmutação do espaço” (idem, p. 375). 62 dos peregrinos numa totalidade idílica. Nascimento reforça a lógica da communitas em sua análise sobre o santuário de Trindade em Goiás, afirmando que “não são excludentes, mas constituem os pólos de tensão entre duas estruturas de significados que nos remetem para as múltiplas possibilidades de arranjos sincréticos entre tradição e modernidade” (2002, p. 4). Chauí emprega o adjetivo ambíguo para explicar essa situação do universo da religiosidade católica popular, isso porque “este é encarado ora como ignorância, ora como saber autêntico; ora como atraso, ora como fonte de emancipação” (1986, p. 124), indicando que “talvez seja mais interessante considerá-lo ambíguo, tecido de ignorância e de saber, de atraso e de desejo de emancipação, capaz de conformismo ao resistir, capaz de resistência ao se conformar” (1986, p. 124). Para Moraes o turismo religioso é resultante do “deslocamento humano que vem ocorrendo a milhares de anos em diversos povos” (2000, p. 1). Perceba-se que assim construída a afirmação da autora se correlaciona com a motivação, quase que de forma automática, levando o leitor a interligar o turismo religioso, com o deslocamento ocorrido nos últimos milhares de anos. Para a autora, “o turista religioso, por sua vez, não viaja apenas pela fé ou por obrigação religiosa, visita lugares sagrados para determinadas religiões e neles também pede graças ou agradece” (2000, p. 2). Moraes admite que o conceito de prazer esteja então “relacionado às sensações agradáveis. Para o peregrino a busca da satisfação e do conforto espiritual está muitas vezes associada ao sofrimento e, para o turista religioso não” (2000, p. 2), pois, este não procura sofrimento, ele que ir ao local sagrado com as facilidades que o turismo e a tecnologia que a sociedade contemporânea pode lhe oferecer, face que o local tem servido para atividades que atraem milhares de turistas e estes ‘atravessam’ o ambiente religioso. De outro lado Giovannini Junior ao analisar a tradicional celebração religiosa que se realiza em Tiradentes – MG, há mais de 200 anos questiona sobre “a possibilidade de colocar em um mesmo plano de sacralização experiências de ordem religiosa, mística e experiências secularizadas” (2000, p. 2). Para o autor parece “incompatível comparar a experiência que um torcedor de futebol vivência com a experiência de um fiel carismático, assim como afirmar que um ateu tem uma vivência do sagrado só porque visita uma igreja histórica” (2000, p. 2). O Autor descreve que a celebração vem sofrendo continuamente influência negativa por 63 parte dos visitantes e turistas que a vivenciam. Afirma querer chamar a atenção, [...] para a necessidade de se interpretar melhor os ambientes em que os ‘homens de fora’ circulam. No que se refere ao patrimônio cultural e ao turismo, é necessário uma interpretação e uma educação adequada para que o comportamento das pessoas não destoe de maneira agressiva do ambiente cultural e físico para onde se dirigem (2000, p. 4). Giovannini Junior afirma que, se turismo e peregrinação se aproximam na forma como buscam garantir uma eficácia simbólica dando sentido ao mundo, através do rito liminar da viagem, por outro, este momento liminar guarda diferenças quanto às estruturas de significado que estão sendo ativadas bem como suas combinações(2000, p. 4). Isso ocorre, segundo o autor, porque as “manifestações de tal complexidade merecem atenção minuciosa e prudente, para que não se formule conclusões apressadas e generalizantes. É fundamental trabalhar no sentido de levantar dados empíricos sobre os locais destas práticas” (2000, p. 4). Para Giovannini Junior, (2000b, p. 4) [...] a infra-estrutura ou os equipamentos, para usar um chavão da área turística, que envolvem, certamente guardam também um caráter alternativo: transporte individual, vans, kombis e ônibus fretados exclusivamente para este fim: dormitórios, às vezes organizados pela instituição ou por pessoas do entorno assim como a alimentação e barracas de souvenir, ervas, livros montados só para atender a ocasião. Enfim, toda uma rede variável de sociabilidade, comércio e estrutura incomum, alternativa e subterrânea que envolve uma gama enorme de pessoas, muitas delas vivendo à margem da sociedade, da indústria do turismo, das grandes instituições e bem longe, certamente dos olhares de economistas e pesquisadores pouco habituados a circularem no meio do povo como pessoas presentes na sociedade onde vivem. Giovannini Junior (2000, p. 4) entende que [...] se é o silêncio e o mistério que por um lado trazem esse sentido do sagrado e por outro estabelece regras de comportamento, a presença ‘mal programada’ de pessoas de fora, em massa, pode afetar drasticamente aquilo que sustenta a manifestação religiosa, o sentido do sagrado e também referências importantes a códigos de comportamento. Isso vai de encontro à análise relacionada ao ambiente da festa de Padre Cícero, feita por Lima (2002, p. 8) citado anteriormente, o qual indicou que, mais do que a festa em si, de caráter comemorativo, se pode observar a excessiva religiosidade do povo nordestino que se [...] manifesta através do imaginário popular, dos processos comunicacionais que estão inseridos nas festas, através dos significados e símbolos que representam, na tentativa de uma hegemonia cultural; os espaços sociais que revelam as formas de relações sociais, como por 64 exemplo, a integração, às vezes, não muito cordial, de pessoas de classes econômicas distintas e também uma questão industrial no qual a mídia e outras instituições comerciais transformam as festas em espetáculos grandiosos e massificados. Em direção a esse pensamento, Augé diz que talvez a solidão gerada pelo individualismo contemporâneo permitisse a que a vida se tornasse uma viagem e o indivíduo um espectador, assim, o indivíduo se livraria do peso de ter que ser um personagem, um ator, um sujeito, para assumir a liberdade de ser apenas um viajante, alguém que está de passagem pela vida (apud IENO NETO, 2005, p. 1214). Para o autor, a pluralidade de lugares, o excesso que isso impõe ao olhar (como ver tudo?) e à descrição (como dizer tudo?), produz a "expatriação" (o que é que vim fazer aqui?). Esse fato cria no sujeito o sentimento de não ver no espaço da paisagem que ele percorre ou contempla um lugar, nem de se sentir plenamente nele. Ele está de passagem, é um viajante (apud IENO NETO, 2005, p. 12-14). Com relação à afirmação anterior de Giovannini Junior, que relaciona negativamente elementos de sociabilidade do turismo para a religiosidade, Steil (1998, p. 2) refere como a peregrinação no presente, na sua forma tradicional, é uma crítica à sociabilidade do cotidiano e à vida moderna, que se organiza a partir da divisão social do trabalho e da produção de múltiplos status sociais. Em contrapartida, o turismo se caracteriza pela construção de diferenciações sociais a partir de valores como o bom comportamento, a higiene, os usos corretos das etiquetas, as condições materiais etc. (STEIL, 1998). Talvez isso justifique a oposição que se processa nos universos em questão, quando a sociabilidade se expressa por formas e conteúdos diferenciados, os quais não são percebidos pelos autores do turismo, como estes descritos por Biderman (2004, p. 2) entende que [...] além do aprimoramento pessoal e do efeito transformador a viagem espiritual tem um aspecto de confirmação. No caso do peregrino religioso, ajuda a revigorar a fé que professa. Quando não é um fiel, o viajante vai em busca de uma identidade que não sabe muito bem qual é [...] a sociedade de hoje, por desfazer as tradições que vinculavam as pessoas, deixou-as ‘desencaixadas’. Isso produziu uma camada de ' buscadores' atrás do conhecimento de si próprios e de outros sistemas de pensamento como alternativa aos valores liquefeitos da modernidade. Entende-se que esses valores que compunham as tradições talvez estejam sendo procurados no turismo, visto que usa de estratégias que levem as pessoas a ‘encontrarem-se’ nestas estratégias de marketing, como aquelas relacionadas à sacralização do turismo descritas por Auon e indicadas nas páginas desta Tese. 65 Steil (1996) percebeu um aspecto que parece ser inerente aos espaços dos santuários brasileiros. Isto é, [...] manifesta-se aí, na variedade de discursos, muitas vezes contraditórios e competitivos, anunciados por romeiros, moradores, dirigentes, uma grande ‘polifonia’, onde não apenas as visões e ritos de cada uma destas categorias, mas também os mútuos ‘desentendimentos’ entre elas e as formas como cada um interpreta as ações e os motivos das outras, fazem parte do culto (1996, p. 58). Pode-se perceber claramente nesta afirmação que o autor captou a miríade de discursos colocados lado a lado no santuário, cada um deles servindo a um determinado grupo, não necessariamente de fiéis, e que poderiam responder às colocações de Biderman (2004) quanto à busca de identidades, acompanhadas por Fernandes e percebidas por Steil (1996). Nascimento (1999, p. 2) tem como pressuposto que “a romaria não deve ser considerada uma ‘sobrevivência’ do catolicismo tradicional ou ‘rústico’”, pois entende que não se observa, principalmente no Brasil, uma diminuição ou decadência destas festas e romarias populares. Pelo contrário, naquelas que acontecem em santuários e centros de devoção - Trindade (GO), Aparecida do Norte (SP), Nossa Senhora da Penha (RJ), Pirapora do Bom Jesus (SP), Senhor do Bomfim (BA), o que se percebe é uma gigantesca congregação de fiéis. Para Nascimento25 (2002, p. 2) que aprofundou analises sobre as romarias em Trindade (GO), é neste ambiente que [...] se cria uma rede de sociabilidade que redimensiona as relações familiares e de vizinhança. Por um lado, nos pousos, a família se une num mesmo espaço, na barraca, para passar a noite ao final de cada dia da viagem. Cada família - que abriga uma família extensa, composta de uma ou várias famílias nucleares - dorme e come junto na mesma barraca. É uma situação peculiar em relação ao cotidiano, em que cada família nuclear possui a sua própria casa e, muitas vezes, a sua propriedade. Na romaria, as relações familiares intensificam-se e a convivência nas barracas permite uma aproximação espacial entre avós, pais, tios, filhos, primos, netos. Em contrário, Moraes (2000, p. 2) parece não valorizar a compreensão de profundidade, quando entende que não existe mais somente o peregrino de outrora, pois, outros tipos de viajantes apareceram como conseqüência do cotidiano das cidades, das necessidades impostas pela sociedade moderna que alteraram a religiosidade das pessoas e as suas peregrinações. A seguir descreve as variações de interesses encontrados nas peregrinações, coloca que o bem estar corpóreo 25 O santuário localiza-se na cidade de Trindade em Goiás, atraindo um público regional estimado em duzentas a 300 mil pessoas para a sua festa, que pode atingir visitantes vindos de Goiânia e Brasília. 66 supera os motivos espirituais “[...], sendo os problemas da alma colocados em segundo lugar” (2000, p. 5). Indica que cada vez menos o espírito religioso se faz presente nos ambientes das viagens, afirmando que [...] podemos apontar que, a maior parte dos entrevistados [...], estava ali mais por passeio ou curiosidade e os outros, que vieram como peregrinos voluntários, não o fizeram por motivos ligados ao mundo espiritual, mas em busca de cura para doenças (2000, p. 5). Continuando a análise das argumentações da autora, percebe-se uma gama de possibilidades para interpretar os significados da afirmação sobre o mundo espiritual. Analisando a posição dos autores como Moraes (2000), Costalonga (2003) e Wernet (1999), estes se concentram em perceber nas ações simbólicas dos fiéis, apenas as preocupações com o corpo físico. Utilizando novamente das afirmações de Chauí de que é “mania desses intelectuais imputar aos explorados uma alienação que é sua, como, por exemplo, quando falam numa cultura da pobreza dotada de estoque simbólico restrito, decorrente [...] de experiência de vida muito simples” (1982, p. 67), entendo que a alienação que ocorre nas percepções dos intelectuais sobre o universo da cultura popular, passa a generalizar também o universo dos autores do turismo. Também para Chauí “atribuir às [...] ordens inferiores pobreza cultural serve, no mínimo, para avaliarmos a miséria dos intelectuais” (1982, p. 67), sendo que essa percepção limitada se projeta sobre os momentos festivos do ambiente religioso dos autores do turismo. Também a partir de Durkheim tenta-se buscar outra explicação para essas percepções dos autores, quando afirma (1996, p. 325), que em todas as sociedades humanas “ocorre uma pausa, uma interdição dos atos característicos da vida cotidiana, da ‘existência vulgar’, quando da realização dos momentos religiosos”. Ao autor (1996, p. 325), [...] esse repouso não é simplesmente uma espécie de folga temporária que os homens teriam se concedido para entregarem mais livremente seus sentimentos de alegria que os feriados geralmente despertam, pois há festas tristes, consagradas ao luto e a penitência, durante as quais ele não é menos obrigatório. Baseando-se nesta afirmação se entende que, qualquer momento fora do processo religioso per se, são vistos como diversão ou profanas, pois, “é um fato conhecido que os jogos e as principais formas de arte parecem ter nascido da religião e que conservaram durante muito tempo um caráter religioso” (DURKHEIM, 1996, p. 415) e que, apesar do culto remeter outra direção, acaba sendo também 67 interpretado apenas como uma forma de recreação dissociada do religioso. Nesse sentido algumas obras publicadas recentemente, como os artigos de Steil (2003a) e (2002)26, bem como o texto de Álvaro Banducci27 relacionados principalmente a Antropologia, fogem às formas convencionais observadas em autores do turismo, isto porque esses dois autores entendem que a interação entre diferentes universos, é repleto de significações construídas por grupos sociais, sendo, necessário compreender o processo sociológico determinante28 que rege e as representações simbólicas e as práticas religiosas dos fiéis. Banducci (2001, p.23) argumenta que, [...] os teóricos do turismo, principalmente aqueles das ciências sociais, concordam com um aspecto: o turismo é um fenômeno extremamente complexo, mutável, que opera de múltiplas formas e nas mais diversas circunstâncias sendo difícil apreendê-lo, em sua totalidade, por meio de uma única perspectiva teórica ou mesmo de uma única ciência. Indicando a construção teórica de Jafar Jafari (baseada em quatro diferentes abordagens das ciências sociais sobre turismo: plataformas de defesa, de advertência, de adaptação e a do conhecimento), Banducci indicou que enquanto se preocupam em apontar os efeitos, quase sempre desastrosos, da implantação do turismo em diferentes comunidades, [...] esses estudos têm deixado de abordar o fenômeno em toda a sua complexidade, verificando, o modo como a população envolvida tem sido influenciada por outras instâncias do mundo globalizado e mesmo como têm pensado esse processo e elaborado as respostas ás suas investidas (2001, p.38). Assunto bastante polêmico essa diversidade de percepções também ocorre entre autores do turismo bem como nos autores que analisam os grupos de pessoas que se denominam de peregrinos e sua fé. 26 Trata se do texto “O turismo como objeto de estudos no campo das ciências sociais” publicado em 2002 no livro RIEDL, M; ALMEIDA J.A; VIANA A.L.B. Turismo rural: tendências e sustentabilidade. Santa Cruz do Sul: EDUNISC. No texto o autor descreve o papel da Sociologia e da Antropologia na compreensão do turismo enquanto fato social, onde o turista aparece com suas singularidades, em oposição as formas tradicionais de interpretação dos significados do turismo. 27 A obra intitula-se BANDUCCI JR. A; BARRETTO M. Turismo e Identidade local: uma visão antropológica. Campinas: Papirus, 2001. Banducci é Doutor em Antropologia Social, professor e pesquisador em Ciências Sociais. No texto o autor aprofunda a discussão sobre os poucos trabalhos que produzem conhecimento, enquanto a maior parte deles apenas descreve os efeitos do turismo sobre as comunidades hospedeiras. 28 Entende-se que, caso não se aprofunde os significados sociológicos determinantes que influenciam e compõe o universo do catolicismo popular, se estará realizando uma descrição superficial de um fato ou acontecimento em si, como o fazem os estudiosos tradicionais do turismo, sem haver uma explicação completa sobre o mesmo, não o relacionando às estruturas sociais que o geraram e que o perpetuam num determinado grupo social. 68 Neste segundo grupo temos Christian Dennys Monteiro de Oliveira que analisou o Centro de Apoio ao Romeiro (CAR), no Santuário de Aparecida, composto por “[...] um local para grandes romarias, áreas de lazer e de alimentação e amplos estacionamentos, com 720 lojas onde se pretendem ofertar principalmente artigos religiosos para que o romeiro possa estruturar seu tempo de forma alegre e descontraída”. Sobre as instalações físicas do local Oliveira (1999, p. 96) pergunta se não são as “preocupações sociais no mínimo revolucionárias para quem está estritamente preocupado com a especificidade do serviço religioso” (1999, p. 96), pois, a primeira vista se percebe uma estrutura comercial imensa, com muitas lojas à venda de artigos religiosos, o que pode parecer que os administradores estão muito mais preocupados em comercializar mercadorias do que preservar e disseminar a fé. Oliveira (1999, p. 100) identifica que, com as mudanças da instalação do CAR haveria a criação de dois novos percursos para os visitantes: um com o objetivo de cumprir suas obrigações religiosas, e que depois seguirá para um espaço profano, que foi “organizado para atender às suas necessidades de lazer, alimentação, higiene e consumo”. O segundo visitante ou turista religioso indicado por Oliveira, vêem que “suas obrigações sagradas corresponderiam mais a um plano contemplativo, relativizando ou restringindo muito sua identificação como romeiro” (1999, p. 100). Aproveita-se dessa percepção de Oliveira para em contraposição apresentar a informação que consta no livreto editado pelos padres Redentoristas (que administram o santuário de Aparecida), do ano de 1981, onde, em quase 100 páginas, somente em uma única foi utilizado o termo turista, da seguinte forma: [...] Aparecida apresenta poucas opções para o turista. Para você, no entanto, e para quem visita a cidade como romeiro, guiado pela fé, Aparecida é tão rica em atrações e tão fecunda em graças, que é chamada de ‘capital da fé’ (MISSIONÁRIOS REDENTORISTAS, 1981, p. 27). Oliveira (1999) entende que é inoportuna a coexistência do espaço profano no ambiente religioso, porque, ao restringir o tempo gasto com as ações religiosas dos romeiros em função de outros interesses, eles estariam deturpando as funções originais do espaço religioso do santuário, ou então, ao aumentar a importância do comércio, depreciariam os valores originais da fé. Essa percepção é bastante comum nos autores do turismo, em argumentos relacionados às atividades profanas nos ambientes religiosos, no entanto, utilizo-me da percepção de Durkheim que indicou o surgimento dos momentos de festividades junto aos religiosos como parte 69 da impossibilidade da coexistência do profano e do sagrado ocorrer nas mesmas unidades de tempo. Para Durkheim “não há religião, nem conseqüentemente, sociedade que não tenha partes definidas que se alternam segundo uma lei variável com os povos e as civilizações” (1996, p. 327). Durkheim também afirma que é nas sociedades mais rudimentares, nas sociedades inferiores que ocorre uma mistura dos cultos com a vida temporal, percebidos nas expressões e ações populares relacionadas a uma ‘naturalidade’ em transformar todos os acontecimentos em coisas sagradas, fato que poderia estar se repetindo em diferentes grupos sociais (1996, p. 327). Constatou também Oliveira (1999) que a cidade de Aparecida foi apenas comunicada sobre o empreendimento e que o monopólio sobre toda a infra-estrutura construída direta ou indiretamente ficou a cargo do santuário. Tal percepção está relacionada a outro aspecto que transparece em Oliveira (1999) e em Moraes (2000) que pesquisaram Aparecida - SP, como também em outros autores impregnados com a necessidade premente do planejamento turístico nestes espaços (NOVAES, 1999): esquece-se que ali se desenvolve planejamento por parte das Congregações, para uso dos fiéis nos santuários baseado nas estratégias impostas às congregações por Roma, e este espaço é disputado pelos profissionais do turismo. Tais estratégias das diferentes Congregações são muito anteriores a quaisquer ações dos poderes públicos e do turismo, ou mesmo muito anteriores à existência e implantação destes poderes, como é o caso do Brasil colonial e mesmo durante o Império (como se observa nos itens 2.1 e 2.2 desta Tese). Poder-se-ia incluir no rol de situações parecidas a essa ‘independência’ das Congregações aos poderes públicos constituídos a recentíssima inauguração do novo e imenso santuário de Santa Paulina em Nova Trento29 no estado de Santa Catarina, o qual é localizado no interior do município, e, só passou a integrar o Plano Diretor após alguns anos de instalação das movimentações de visitantes. Novaes (1999, p. 125) em texto que analisa mais profundamente a cidade de Nova Trento – SC, discorreu sobre a importância de haver proximidade dos interesses da Congregação e da comunidade, porém, ao citar a definição de turismo de Andrade, 29 O santuário de Santa Paulina localizado na cidade catarinense de Nova Trento distante 80 quilômetros de Florianópolis está relacionado à primeira santa brasileira Amábile Lucia Visintainer. Foi construído com dinheiro da Congregação e com a ajuda dos fiéis, sendo inaugurado em janeiro de 2006. 70 [...] o conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiéis de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião, anunciou os limites de sua percepção, delimitando também seu campo de atuação. Ribeiro (2002, p. 3) num texto sobre peregrinações e romarias, a ausência da discussão sobre o significado de turismo é percebida, pois a autora apresenta que, [...] a institucionalização do turismo está intimamente ligada às peregrinações, que ao longo do tempo deram origem ao aparecimento das pousadas, hospedarias na beira dos caminhos, povoados, portos e cidades, onde os peregrinos podiam pernoitar, descansar e dispor de alimentação, bebida e até mantimentos para a continuação da viagem. Para reforçar a afirmação anterior acrescenta Ribeiro (2002, p. 4) que as viagens em busca de espaços para as manifestações da fé envolvem pessoas em todo o mundo, e as empresas programam a implantação das estruturas turísticas, havendo o desenvolvimento do planejamento bem como a recepção dos fiéis. Porém, a autora não deixa claro como ocorre essa efetiva participação dos poderes públicos e das empresas de turismo nesse processo, como, aliás, poucos autores o fazem. Para Ribeiro (2002, p. 4), no entanto, [...] de posse dessa realidade, a indústria do turismo intensificou o investimento nos centros de peregrinação através de ações diretas sobre a realidade local e do uso da mídia e do marketing para incentivar o fluxo de visitantes. A partir daí, algumas regiões começaram a investir em planejamento e obras para ampliar sua capacidade de recepção e proporcionar alternativas de lazer aos turistas. Entende-se que as afirmações relacionadas à ‘indústria do turismo’ realizada pelo autor não correspondem à efetiva realidade dos ambientes religiosos, isto é, apesar do autor afirmar categoricamente ocorrer intensa presença do turismo nestes locais, o que se vê é a ausência quase total de muitos dos elementos importantes do turismo, como a hotelaria, os transportes, e principalmente a inexistência de pacotes, talvez porque estes setores do turismo não tenham preocupações com as motivações dos fiéis30. Aoun (2001, p. 16) argumenta sobre aspectos interferentes nas motivações para as viagens e que talvez esses novos valores levem o homem à busca dos novos significados da religiosidade através do uso das estruturas do 30 Apesar deste assunto não ser o foco desta Tese, após estudar diversos santuários católicos brasileiros constatou-se um enorme distanciamento entre os objetivos e as práticas das Congregações e a ausência de qualquer relação amistosa com empresas e agencias de turismo. O texto que indica sobre a pesquisa já foi citado anteriormente na Nota de Rodapé nº 1. 71 turismo, como, [...] a complexidade da vida urbana moderna e a ressignificação de valores e ícones tradicionais da sociedade instituem como sinônimo da libertação desse cotidiano impassível o ‘culto das férias’, traduzido num tempo, embora específico e programado, como ‘sagrado’ e revestido de valor especial, Porém, a autora só relaciona a movimentação de pessoas como libertação ao cotidiano, principalmente do trabalho, em face de que “nos personagens do cenário urbano e industrial [...], bem como de neuroses e inquietações, estamos o tempo todo sonhando com as próximas férias e planejando-as [...]”(AOUN, 2001, p. 16). Entende-se a afirmação da autora, quando diz que “ao se deslocar para o lugar escolhido de suas férias, estabelece-se uma relação diferenciada com esse novo espaço, compartilhando-o com novas pessoas e desfrutando de diferentes experiências revitalizadoras” (AOUN, 2001, p. 16). Pode-se considerar essa transmutação de espaços e tempos, em algo sagrado (como o é o ambiente religioso), porém, tais identificações são características que tanto podem atender ao lazer em oposição ao trabalho apenas, como também poderiam ser colocadas no universo dos que se movimentam pela fé, mais do que no universo dos turistas. Visto que os momentos de reunião pela fé são para muitos momentos sublimes de trocas sociais, onde todos se tornam iguais ao abandonarem seus papéis dentro da sociedade cotidiana, fato já indicado anteriormente na pax catholica de Roberto DaMatta (1983, p. 55), pode-se então perceber uma igualdade pelo lazer através da troca de ambiente, e ao mesmo tempo uma diferenciação, quando não ocorre efetivo crescimento dos turistas diante de seu grupo de convivência, face essa experiência ocorrer mais profundamente no individual do que no coletivo. Continuando sua argumentação Aoun utiliza-se da categoria ‘lazer’ para justificar a incorporação das férias, do tempo livre, e da aposentadoria como resultado das conquistas da sociedade. O tempo livre seria (2001, p. 16-17) aquele “dedicado espontaneamente ao descanso, à reposição das energias físicas e mentais nas diferentes formas de recreio e entretenimento, segundo opção individual das pessoas”. Em contínuo Aoun descreve que, “o ato de viajar também é entendido como uma das expressões do lazer e como forma de ocupação do tempo livre das pessoas, que ocorre geralmente nos fins de semana ou no período de férias [...]” (2001, p. 17). Esta afirmação de Aoun colabora com o entendimento de que, 72 [...] no mundo contemporâneo, viajar pode ser uma ‘experiência religiosa’ sem necessariamente ter ocorrido num local considerado sagrado; uma ascese, um esforço capaz de produzir, mesmo que minimamente, uma transformação existencial, criando outros estados de afeto (AOUN, 2005, p.320), Entende-se que essas afirmações (o tempo livre e o viajar) enfatizam aquilo que considero uma das controvérsias das discussões teóricas atuais dos autores do turismo: para esses o turismo está substituindo as formas tradicionais de lazer através das viagens, assim, toma corpo à percepção de que o turismo se torna cada vez mais uma necessidade para o bem-estar humano, quando percebem o turismo como o lazer, gerados pelo tempo livre. Com esse sentido Aoun utilizou-se de Marcellino (1995) que diz ser o [...] tempo livre é uma categoria peculiar de tempo, [...], em que deixam de estar presentes o caráter obrigatório do trabalho ou da escola, o caráter instrumental das tarefas de manutenção doméstica, o caráter de descompromisso social, político, ou religioso (2001, p. 17). Porém, o que não percebeu é que, se efetivamente nesta nova dinâmica, tanto o turismo como o lazer vêm se desenvolvendo individualmente no Capitalismo, então, as funções do deslocamento nos dois momentos seriam iguais; já no ambiente religioso são motivado pela fé, visto que para muitos a religiosidade é muito mais obrigação que diversão, onde não caberia o caráter de descompromisso religioso. Continuando sua argumentação Aoun descreve acontecimentos relacionados à ‘exemplos de andanças e perambulações’ (travessias marítimas, as Cruzadas, as peregrinações a Santiago de Compostela, entre outras) relacionadas à sociedade Ocidental, e que remetem aos antigos percursos do homem. Para a autora, interessa o deslocamento em si na viagem, indiferente das motivações e dos objetivos da mesma, pois afirma (2001, p. 28-29) que, [...] em muitos outros momentos da humanidade, tivemos movimentos turísticos com variados objetivos, pois é notório que o homem sempre investiu no sonho de viajar, apresentando as mais diversas formas, seja como aquisição de novos conhecimentos, seja como descoberta de novas terras, seja como fonte de renda. Novamente a autora se contradiz, pois, inicia a discussão citando a Marcellino, o qual reforça que lazer (e, portanto, o turismo) não pode possuir o caráter da obrigatoriedade em sua motivação, o que excluiria os objetivos como a aquisição de conhecimentos, novas terras e fontes de renda. 73 Na esteira dessa discussão encontra-se Silveira (2003) que discute sobre a ambigüidade do uso do conceito teórico de turismo e a possibilidade das oportunidades de negócios advindos da movimentação de pessoas, quando desenvolveu argumentações apresentando detalhes sobre essa ambigüidade conceitual-teórica da utilização de uma categoria chamada ‘turismo religioso popular’, indicando que o termo “tem alcançado uma enorme utilização, por parte dos setores ligados a reflexão acadêmica sobre turismo, dos empresários do setor, da própria igreja católica” (SILVEIRA, 2003, p. 142). Entende-se que efetivamente ocorre essa disseminação desenfreada do uso do termo, como também se concorda com a afirmação de que, “o termo é usado de forma acrítica” (SILVEIRA, 2003, p. 142), e, indistintamente. Para o autor, a utilização deslocada dos conceitos etimológicos de elementos como turismo, religioso e popular, poderia ajudar a “constituir uma categoria que mapeie os deslocamentos culturais [...]” (SILVEIRA, 2003, p. 141), talvez porque ele perceba a dificuldade que espera ao pesquisador do turismo nos ambientes da religiosidade popular. Também, o próprio autor utiliza-se do respaldo teórico de autores reconhecidos no mercado editorial (DIAS 2002; SILVEIRA, 2003; SILVEIRA, 2003a)31, os quais servem de referência para quase todos os autores do turismo, para afirmar que a categoria “emanada do mercado turístico, adquiriu foros de conceito” (SILVEIRA, 2003, p. 144). Esse mesmo autor justifica uma linha de análise interessante, que, porém, não foi aprofundada, quando afirmou que, [...] há a necessidade de aumentar uma nova tessitura de conceitualizações, aumenta-se a ambigüidade e a imprecisão epistemológica de tantas categorias, acadêmicas e descritivo-estatísticas, como a que têm sido largamente utilizadas no mercado turístico, entre elas, o próprio termo turismo religioso (2003, p. 147). De outro lado, entende-se, que, quanto mais estas categorias forem buriladas, mais e mais se pode responder às interpelações dos deslocamentos culturais. Entende-se também que, o autor baseando-se na utilização continuada de diferentes terminologias por diversos autores (dentre os quais ele próprio), que pressupõe de fato a existência destas, já na condição de categorias, deixou suas conclusões confusas, devido às afirmações diversas que efetua, não permitindo perceber uma 31 SILVEIRA E.J.S. Turismo religioso: Mercado e Pós-Modernidade. In: DIAS R. SILVEIRA E.J.S. da (Orgs), Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas, SP: ALÍNEA, 2003a, e, SILVEIRA E.J.S. Turismo e Consumo: A religião como lazer. In ABUMANSSUR, E.S. (org.), Turismo Religioso: Ensaios Antropológicos sobre religião e turismo. Campinas, SP: PAPIRUS, 2003b. 74 efetiva construção teórico-metodológica destas categorias de análise, como pretendia. Gazoni encontra-se nessa condição, aceitando como referência para a definição de turismo religioso a citada por Andrade, quando este indica ser o turismo um “conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a receptivas que expressam sentimentos místicos ou suscitam a fé” (2003, p. 2). Concluiu de pronto, que, este movimento de pessoas vem demandando “um conjunto de serviços indispensáveis que permitiriam ao cliente o acesso e a permanência em um lugar sagrado, seja um templo, uma via ou outro lugar” (GAZONI, 2003, p. 2). Percebe-se que o autor usa o termo ‘cliente’ e que estes prescindem de ‘serviços’ para manterem-se em determinados locais religiosos. O autor admite (2003, p. 2) que, na atualidade, a afirmação certamente é consenso entre autores do turismo, mas que ainda não compõe as preocupações do mercado, devido que, [...] a apropriação de elementos da religião, principalmente os santuários, como recursos para o desenvolvimento da atividade turística é passível de reflexão, apesar da complexidade de se envolver componentes aparentemente antagônicos como religiosidade e lazer Dos vários autores mencionados até aqui, nenhum deixou transparecer essa limitação antagônica do uso indiscriminado entre o lazer e a religiosidade, e Gazoni o fez abertamente, percebendo onde ocorrem os choques devidos as motivações das viagens. Sobre isso o Autor (2003, p. 3) entende que [...] o turista difere do peregrino principalmente no que se refere à motivação. O peregrino é movido pela busca da satisfação e conforto espiritual, com a esperança de aumentar sua santidade pessoal, obtenção de bênçãos e curas especiais, enquanto o turista busca o bem estar, muitas vezes a preguiça, a satisfação de lazer, esta motivação recai no desejo de escapar das pressões da sociedade, mesmo que, temporariamente. Tal afirmação do autor, por simples que possa parecer, compõe o cerne, a essência do problema existente na análise da relação fé-turismo por parte dos autores do turismo. Noutro momento, Gazoni afirma que “são raros os não-crentes que conseguem ficar espiritualmente imunes à vibração ritual desencadeada pelas grandes manifestações de fé [...]” (2003, p. 3), e que “o turismo vem se tornando um meio seguro para tornar este contato acessível e real” (2003, p. 3). Qual é a base teórica ou a experiência do autor para a afirmação realizada, pois, não se consegue imaginar qual a capacidade da estrutura turística é evocada 75 para permitir aos não fieis participarem (espiritualmente) das vibrações religiosas indicadas, pois, praticamente não existem empresas turísticas que atuem nestes locais. Aoun pode nos ajudar a explicar porque os autores do turismo crêem nas afirmações que fazem sobre as transformações dos ambientes da religiosidade em locais turísticos, talvez, estejam baseando-se na premissa de mão-única, que vai do turismo para a religiosidade para inverterem o processo, isto é, criam o mecanismo de condução que vai da religiosidade para o turismo através da utilização de símbolos e terminologia religiosa, visto que [...] é o turismo vendendo o paraíso aqui na Terra, apoiado numa clara referência ao consagrado relato bíblico do jardim do Éden e com toda a carga simbólica que ele representa para o Ocidente. Portanto, a utilização, especificamente, de palavras, conceitos e referências provenientes do universo religioso demonstrou possuir força e competência suficiente para fixarem muitas das imagens utilizadas para vender produtos de consumo turístico (2001, p. 116). Para reforçar a percepção dos valores que circulam na interpretação dos elementos relacionados à administração de localidades que compõe o universo de todos os autores do turismo em relação aos ambientes da religiosidade, utilizo-me da afirmação de Aoun quando indica que “a imagem do paraíso de VIP Exame é para ser consumida, para produzir deleite, nas formas mais diversificadas. No paraíso de VIP Exame, o pecado nem existe, a culpa não é vivida, a serpente é absolvida e a maçã é saboreada” (2001, p. 94). Isto é, os textos turísticos se utilizam de palavras do universo religioso de forma despreocupada, aproximando esse antigo mundo lingüístico ao nosso cotidiano moderno e pós-moderno, sempre buscando dessacralizar as experiências dos fiéis, isto é, retiram dos rituais religiosos valores que entendem não mais existir, fato que leva as percepções superficiais dissociadas das realidades que pretendem atuar. Aoun (2001, p. 82) citando afirmação de Rocha diz que no mundo publicitário existe o que os autores da área chamam de ‘conjunto de valores eternos’, que vão do amor à felicidade, do mar à montanha, do pássaro ao tigre, da riqueza á alegria e estes valores são equacionados com os mais diversos produtos e em seguida são constantemente acionados. Aoun citando a Vestergaard e Schroeder indicando estratégias do universo ideológico da propaganda, informa que “essa relação de natural com a idéia de natureza intocada, apoiada também em ideologias ambientais mais recentes, 76 transforma em mercadoria o paraíso, o santuário e também o templo, colocando-os a disposição” (2001, p. 91). Andrade (1999 p. 28-39) aprofunda sua percepção sobre a evolução do termo turismo, passando da Antiguidade até a atualidade, descrevendo as ‘conceituações’ como sendo ‘etimológicas’, ‘funcionais’ e ‘estruturais’, nesse ínterim, apresenta a versão que, uma das primeiras tentativas coordenadas de conceituação, relacionava as viagens turísticas com o lazer. Dentro desta percepção, Andrade (1999), indicou que tais autores enfatizavam que as “viagens para o cumprimento de deveres de piedade é ato devocional e de fé; por isso obrigação moral impeditiva de finalidades turísticas, que se baseiam no lazer e no descompromisso, jamais na meditação e na prece” (1999 p. 76). Argumenta que essa posição foi abandonada logo em seguida. Andrade (1999, p. 76) descreve o turismo religioso como sendo, [...] o conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiéis de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião. Logo a seguir o autor discrimina três ‘especificidades técnicas’ que “devem ser observadas em trabalhos promocionais, calendários de eventos e outros recursos de divulgação e de sistematização” (ANDRADE, 1999, p. 78). São elas: 1ª) quando alguém, por livre disposição e sem pretender recompensas materiais ou espirituais, viaja a lugares sagrados, o conjunto de atividades denomina-se romaria. 2ª) quando alguém visita lugares sagrados para cumprir promessas ou votos anteriormente feitos a divindades ou a espíritos bem-aventurados, o conjunto de atividades chama-se peregrinação. 3ª) quando alguém, empenhado em remir-se de suas culpas ou de seus pecados, de forma livre e espontânea ou por conselho ou disposição de líderes religiosos, se dirige a lugares sagrados ou a outros lugares, em espírito de arrependimento e compunção, o conjunto de atividades é designado como viagem de penitência ou viagem de reparação. Complementando seu raciocínio Andrade (1999, p. 78) indica algumas localidades onde, [...] muitos outros lugares, marcados por devoções oficiais ou populares de religiões, são núcleos receptores importantes em termos de fé e, conseqüentemente, em termos de turismo, cujas dimensões – pela propaganda e pelo marketing – superam as manifestações da fé e as próprias motivações religiosas. Aprofundando sua percepção, que se entende estar completamente errada, continua afirmando “as notícias, o marketing direto e indireto e as ações de 77 promotores e comerciantes instalados nas microrregiões ou nos locais onde acontecem os ‘feitos extraordinários’ acionam os agentes turísticos, que em geral, se antecipam a qualquer medida ou manifestação de autoridades religiosas” (ANDRADE,1999, p.79). Em contrário a isso, percebe-se que pouco ou nada da estrutura turística age em prol do crescimento do turismo nos ambientes religiosos, e se algum setor o faz, este é a mídia geral, porém sem, ou quase nenhuma ação planejada. Dias citando o Dicionário de turismo de Montaner, Antiach e Arcarons (1998), afirma que turismo religioso [...] é a atividade turística que consiste em realizar viagens (peregrinações) ou estadas em lugares religiosos (retiros espirituais, atividades culturais e liturgias religiosas, etc.), que, para os praticantes de uma religião determinada, supõe um fervor religioso por serem lugares sagrados de veneração ou preceituais segundo sua crença. 2.2 CRENÇAS RELIGIOSAS NO OCIDENTE: OS DESLOCAMENTOS RELIGIOSOS Entende-se que os textos dos autores fazem sempre a referência que, existe turismo religioso se as movimentações religiosas deixem de virem acompanhadas de um contingente de sofrimento físico (não necessariamente dor física) como as longas marchas e caminhadas, passar fome e sede, dormir mal, etc. elementos presentes às movimentações religiosas do passado. Consideram que a compulsória utilização de estruturas que não estejam diretamente relacionadas com a fé (trens, rodovias, automóveis, caminhões, longas caminhadas, compra de refeições, acomodações para pernoite, entre outras) passe automaticamente a compor outros universos (entre eles o do turismo), sendo necessário quase que por completo o abandono do uso dos termos como fiéis, peregrinos e romeiros, etc. Como muitos fiéis desenvolvem outras atividades nos mesmos ambientes (que os autores entendem estar relacionadas ao lazer) e, intercaladas aos momentos da religiosidade como fazer uma visita a uma imagem ou a um museu de ex-votos32 entre uma oração e uma missa, por exemplo, passam a 32 É comum encontrar-se nos santuários religiosos católicos um local onde são depositadas imagens pelos fiéis, tanto das esperanças como o resultado das graças alcançadas, junto aos santos de 78 ser considerados turistas em essência. No restante, existem autores do turismo (NOVAES, 1999, OURIQUES, 2005, RIBEIRO, 2002, MORAES, 2000), que perpassam estudos e análises pelo turismo que se desenvolve nos ambientes religiosos ou da religiosidade católica popular, de forma limitada quase sempre presos aos aspectos do planejamento (Custos, Segmentações de Mercado, Demandas, etc.), e, da infra-estrutura (Hospedagem, Alimentação, Transportes, etc.). Para essas análises, o conjunto de pessoas que se encontram nos ambientes da fé, é, num ou noutro momento, consumidor de serviços e de produtos, não importando outras características ou atividades que realizem. Para responder a essas percepções pouco aprofundadas dos autores do turismo, desenvolvem-se a seguir considerações que se entendem necessárias para clarear-se a percepção sobre a cultura, a cultura simbólica e apropriação simbólica que se realizam nos locais da fé da religiosidade católica popular. Para esta Tese se entende por espírito religioso, um ambiente propício à meditação, com um clima repleto de orações onde a introspecção rege as ações de cada um dos visitantes, sendo que as visitações e as ações mantêm estreitos vínculos com a vida dos santos e de seus milagres. Chauí (1986, p.83) afirma que “[...] nas religiões populares o milagre é rotina simples, fidelidade mútua entre as divindades e os fiéis, com ou sem ajuda de uma igreja ou de mediadores”. Tentando demonstrar uma justificativa para a intensidade da popularização dos milagres Chauí (1986, p. 83) indica que “os pedidos não são feitos porque se escolhe uma via religiosa, mas se escolhe uma via religiosa, porque se sabe, no presente, não há outra”. Complementa que [...] por isso o milagre é de estonteante simplicidade para a alma religiosa popular (e afastado pelas teologias, que apenas o toleram nas fímbrias da religiosidade), pois o milagre é o que restaura a ordem predeterminada do mundo por um esforço de imaginação e da vontade (1986, p. 85). Desde a Antigüidade a história está repleta de registros que indicam diferentes referências sobre o deslocamento das pessoas relacionadas à fé, mas, contrariamente disso, não ocorre consenso entre os autores sobre as origens desses movimentos bem como as suas funções nos diversos grupos sociais em sua relação com o turismo nesses períodos históricos. devoção. Essas imagens podem ser desde bilhetes, recados e fotografias até reproduções de partes do corpo humano, casas, carros, etc. 79 Assim, visando colaborar com essa percepção a seguir são apresentados autores de diferentes áreas do conhecimento através da apresentação de estudos ligados a origens, transformações e significados para as palavras peregrino peregrinação, romeiro, romaria, etc. Dal Ri (2002, p. 29-38) em um texto que discute a origem e os significados jurídicos da palavra cidadania, apresenta a evolução deste conceito que se estabelece na história romana (enquanto Cidade-Estado), entre os séculos VI e V antes de Cristo, indicando que naqueles momentos somente eram considerados ‘cidadãos romanos’, aqueles nascidos de ascendentes que fizessem parte das gens, isto é, os antigos clãs romanos33, assim, todos aqueles que não estivessem dentro dessa condição eram considerados peregrini. Num segundo momento (quando Roma já era República) o significado de cidadania modificou-se, incluindo a prerrogativa do casamento regular34 como forma de aquisição dos direitos dos cidadãos romanos, através de uma das muitas leis então vigentes. Uma delas dizia que um peregrinus (estrangeiro) podia ser reconhecido como cidadão romano, se o casamento tivesse observado as leis vigentes aos cidadãos daquele país. Dal Ri (2002, p. 39) indica também que, quando Roma já havia dominado militarmente boa parte do mundo da época, o conceito de cidadania se esvazia “devido à extensão deste status a todos os indivíduos residentes nos diversos territórios anexados pelo Império, realizado através do Constitutio Antoniniana de 212 a.C”, frente à pressão que estes povos realizavam constantemente em seu apoio a manutenção das fronteiras romanas. O autor informa ainda que Justiniano (482-465 d.C.) “o imperador do Império Romano do Oriente, ao eliminar da legislação imperial o status de peregrinus e de latinus contribuiu ainda mais a esta corrosão do civitas”35. Ao encontro das palavras de Dal Ri, tem-se Salgado (2003, p.1) que informa 33 Segundo o autor, os antigos clãs romanos tinham suas origens rurais, isto é, nos primeiros momentos das tribos que a partir das suas aldeias, juntas construíram o Estado romano. As gens concentravam cada homem e mulher que derivavam de um ancestral comum, em linha paterna. Ser componente de uma gens era de caráter exclusivo como ter um só pai. 34 Entendia-se por casamento regular aquele que ocorresse de forma como a tradição exigia. Constituir esposa ou marido apenas, não atingia tal situação, caso um deles fosse peregrino. 35 Latinus indicava todos os povos que se localizavam próximos a Roma e que foram dos primeiros a ser dominados pela Cidade-Estado, os quais receberam a cidadania italiana. Civitas era a primeira forma de ordenamento jurídico da cidadania romana, criada posteriormente as legislações das gens originárias de Roma. 80 baseado nos Documento da Santa Sé sobre a Peregrinação de 2000, que etimologicamente a palavra peregrinação [...] é um vocábulo grego per-epi-demos (literalmente ‘estrangeiro’, ‘não residente’) definindo ao peregrino ou ao viajante casual. Em latim a palavra primitiva peregrinus se referia a pessoa que viajava por países estrangeiros ou àquela que não tinha direitos de cidadania. Surgiu como uma composição de dois vocábulos per-agros que descrevia a pessoa que caminha (passa) através do campo, fora do lugar de sua residência, longe de casa (peregre ‘no estrangeiro’, ‘fora de casa’). Percebe-se o mesmo significado indicado por Dal Ri relacionados à cidadania, ou aos residentes num local estrangeiro. Novamente Salgado (2003, p.1) indica sobre as mudanças ocorridas nos significados: o termo peregrinatio significa uma instância fora do país, uma caminhada, uma viagem, uma visita aos países estrangeiros. Na realidade foi tão somente no século XII quando o vocábulo peregrinatio começou a designar univocamente a prática religiosa de visitar lugares sagrados. Di Bernardino (2002, p. 1138) afirma que o termo peregrinus no Império Romano dizia respeito ao “estrangeiro, não cidadão romano, [...], a maior parte da população de Roma era constituída de peregrini, vindos de países conquistados”. De outro lado Di Benardino (2002, p. 1137) afirma que para o romano Eusébio o termo peregrinatio no ano 300 d.C., indicava “todos aqueles que crêem em Cristo e se reúnem aqui (em Jerusalém), de todas as partes do mundo [...]”. Isso exemplifica como o significado alterou-se rapidamente em apenas alguns séculos. Balbinot (1999), afirma que etimologicamente, o termo peregrino estava relacionado com aquelas pessoas que se encontravam ‘per agros’, isto é, pelos campos, fora do lugar de residência, transformando-se com o tempo em ‘aquele que saía de sua casa ou de sua pátria’. Nos primeiros séculos do cristianismo o termo peregrinus referia-se ao estrangeiro, em oposição aos ‘civis’, pessoas nativas, aquelas nascidas no lugar. Para Scarvaglieri (apud BALBINOT, 1999, p. 77) o termo peregrinus se origina no advérbio peregre (originalmente de ‘per’ e ‘ager’). Para Steil (2003a, p. 30) a peregrinação “tem sua raiz etimológica relacionada ao aparecimento do outro, do estrangeiro, que percorre caminhos por terras desconhecidas e inóspitas”, e é “associado à idéia de um caminho ao encontro do outro, físico ou espiritual” (2003a, p. 30). Em concepção e entendimento mais atuais, Caselli diz que o significado das palavras peregrino e romeiro, são “uma velha questão semântica” (1999, p. 129). 81 Pois, para ele, o romeiro é o peregrino que vai a Roma e, peregrino “é o que abandona os lugares a si relacionados, os próprios hábitos e o ambiente afetivo para dirigir-se com o espírito religioso, a um santuário ao qual ele escolheu livremente, ou que lhe foi imposto pela indulgência” (1999, p. 129). Pode-se perceber na afirmação de Caselli, que o elemento inerente ao peregrino é a movimentação física, o abandono do local de habitação, porém essa movimentação é permeada por um espírito religioso. Para Bellinatti (1999, p. 20) a mudança dos Livros Canônicos redigidos no século III, suscitou entre os religiosos um novo fervor litúrgico e o desejo de realizar peregrinações a Roma que estava repleta de relíquias e mártires católicos, tendo por objetivo a redenção e o perdão dos pecados. Esses primeiros movimentos de grandes massas humanas em direção a Roma mostraram a necessidade de se organizar espaços de acolhimento aos peregrinos, esta em parte sanada através do surgimento de diversas associações (scholae) encarregadas de ajudar os devotos. Para Salgado (2003, p. 1) peregrinação é definida como uma viagem empreendida por motivo religioso, a um lugar que se considera sagrado (locus sacre), para atuar de uma maneira especial diante de Deus ou outras divindades, para realizar determinados atos religiosos, de devoção e penitência. Portanto, entende-se que a motivação é o elemento que mais conta para o autor quando se pretende desenvolver considerações acerca da movimentação dos peregrinos, e não as estruturas que se desenvolveram paralelamente a esses movimentos. Caselli (1999, p. 137), afirma que Veneza, cidade localizada ao norte da Itália, servia de ponto de peregrinação, (bem como de apoio àqueles que demandavam a Roma), entre os anos 1500 e 1800. Nesta cidade seguia-se um critério de especialização no atendimento aos peregrinos, havendo hotéis que atendiam apenas a italianos, a franceses, a flamengos e a alemães. Bellinatti cita a Erasmo de Rotterdam que em seus ‘Colóquios’ apresentou as condições físicas e espirituais daqueles locais dedicados aos peregrinos. Porém, afirmou que a esses serviços está “faltando à demanda: cada um solicitava ou oferecia o direito da hospitalidade aos do seu grupo” (1974, p. 57), indicando, portanto, um serviço disponível para poucos, e se entende, não caracteriza o turismo moderno (a hospitalidade paga). Atendo-se a estruturação das práticas religiosas Balbinot (1999, p. 77), escreveu que a partir do século IV, com o final das perseguições aos católicos pelos 82 romanos, iniciam-se as construções das igrejas, muitas delas sobre os túmulos dos mártires. O próprio imperador romano Constantino (que incorporou o catolicismo como religião oficial do Império), mandou erigir enormes basílicas sobre as sepulturas dos apóstolos Pedro e Paulo, sendo estas, referências de culto e motivo para as peregrinações a Roma, principalmente em anos jubilares. Segundo Piazzi (1999, p. 171), o termo Jubileu utilizado pelos católicos lembra uma antiga tradição hebraica onde a cada cinqüenta anos, se suspendiam os trabalhos nos campos, se cancelavam os débitos e se liberavam os escravos, sendo que este termo era usado exclusivamente com sentido religioso. Apesar de ocorrerem como parte espontânea da religiosidade dos primeiros católicos, as peregrinações do Império Romano passaram a acontecer de forma organizada a partir dos interesses da Igreja, através das peregrinações jubilares. Nestas peregrinações a Igreja católica colocou em uso celebrações especiais, ligadas às indulgências dos pecados cometidos, obtidas por meio das obrigações fixadas pelas bulas papais. Estes benefícios obtidos pelas indulgências estavam inicialmente ligados a muitas práticas religiosas, entre elas as visitas às basílicas ou locais de sepultamento dos apóstolos Pedro e Paulo. Segundo o jornal L’Osservatore Romano de 1974 aos peregrinos que se dirigiam a Roma foram redigidos diversos manuais ou guias; no ano 540 existia o Notitia regionum urbis Romae, no ano 1000 existiam o Itinerário Salisburguense, o Itinerário Malmesburiense e a Topografia Einsiedlensis, assim como houveram diversos guias editados exclusivamente para os peregrinos que se dirigiam a Terra Santa (BALBINOT, 1999, p. 112). Di Bernardino indicou existir no século V o guia organizado por Euquério de Lião, de “onde tiravam-se não apenas os itinerários, mas eram lidas em cada lugar passagens adequadas, e cantava-se um salmo adaptado à circunstância e se rezava” (2002, p. 1138). Estes deslocamentos foram tão intensos, que Dante em sua famosa obra “A Divina Comédia”, descreveu a torrente de peregrinos que se formou quando da emissão da Bula Papal de Bonifácio VIII em 1300, originando diversas procissões de devotos vindos dos arredores de Roma, de toda a Itália, bem como do resto do mundo de influência romana da época (BELLINATTI, 1999, p. 21). Bellinatti entendeu que a partir do século XV as peregrinações começam a 83 sofrer pesados questionamentos principalmente dos protestantes36 e humanistas. Em contrapartida, Balbinot indicou que a esses questionamentos a igreja católica através do Concílio de Trento reafirmou ainda mais os seus valores de veneração aos santos e as suas relíquias (1999, p. 117). Descreveu a importância da peregrinação e das penitências, mostrando como os pecados poderiam ser redimidos por meio do deslocamento sofrido, em que cada peregrino segue suportando pacientemente os trabalhos e as poucas comodidades do caminho escolhido, aumentando desta forma a sua devoção pela imitação das ações dos santos que venera. Houve também a exaltação a Virgem Maria (1999, p. 117). Da Revolução Francesa até a atualidade, muitos dos significados da palavra peregrinação transformaram-se ou desapareceram, porém, manteve-se a relação entre peregrinação e deslocamento espacial. A palavra romaria é uma destas transformações, pois para Balbinot (1999, p. 77) provém dos termos romerus, romerius, romipeta ou romarius, nomes dados aos peregrinos que a partir do século VI se dirigiam para Roma. Romaria, segundo Balbinot (1999, p. 77), transforma-se, “com a formação das várias línguas nacionais”. O termo foi assumido pela linguagem popular: romeo ou romipeto, em italiano; romieu, em francês; romero em espanhol; romeiro, em português; romaign, romen ou roam, em inglês.” Steil (2003ª, p. 31) acredita que o conceito ocidental de peregrinação está relacionado ao que se escrevia sobre a Odisséia de Homero, ou seja, “uma viagem cheia de dificuldades, marcada pelo sofrimento e pelo desejo de alcançar o ponto almejado”; Para Sigal (apud STEIL 1996, p.168) “a peregrinação como forma de penitência [...], se estabeleceu na Idade Média, especialmente no período monástico céltico e anglo saxão, como um meio de controle da Igreja sobre as peregrinações”. Sendo que para Sumption (apud STEIL 1996, p. 168) “eram as que se faziam para Jerusalém e para São Tiago de Compostela, impostas a muitos peregrinos como uma forma de punição para certos crimes seculares”. O termo secular atualmente é utilizado para definir uma oposição da comunidade ao controle praticado pela Igreja católica, ou, o desenvolvimento de atividades sem o controle desta, isto é, crimes praticados pela população civil contra 36 O Protestantismo enquanto movimento religioso aboliu diversas manifestações praticadas pelo Catolicismo Romano principalmente aquelas relacionadas à valorização exacerbada da utilização de diferentes mecanismos na relação entre o homem e Deus, como por exemplo, o uso dos santos e de suas relíquias (santuários, imagens, medalhas, milagres, etc.). 84 a Igreja ou contra qualquer componente de uma ordem religiosa. Para Nolan e Nolan romaria é apenas “uma especificidade das línguas espanholas e portuguesas significando jornadas mais curtas ou pequenas peregrinações” (apud STEIL 2003a, p. 33), que envolviam as participações comunitárias, combinando aspectos festivos e devocionais. Este sentido parece ser o mais popularizado no senso comum, fazendo-se presente também nas considerações dos autores atuais do turismo quando tratam de caracterizar aos deslocamentos religiosos ligando-os quase que exclusivamente a movimentação física e a necessidade de utilização das estruturas turísticas. Turner em extenso trabalho de análise das peregrinações ao redor do mundo, desenvolveu interpretações múltiplas sobre movimentações nas diferentes religiões. Interessante perceber que o autor não faz correlação entre as peregrinações e o turismo, isto é, apesar de afirmar que “hoje, peregrinações, são vividas como outras formas de atividades de lazer, organizadas, burocratizadas e sujeitas a influência dos modernos meios de transporte de massa e comunicação, mediados o tempo todo por agências de viagens” (1978, p. 37-38). Afirma ainda, que se encontrem paróquias em procissão com seus estandartes caminhando para pequenos centros de peregrinação, porém, “a maior característica da moderna peregrinação é a mistura com o turismo, e envolve uma jornada maior, usualmente feita em modernos meios de transportes, para santuários nacionais ou internacionais” (1978, p. 37-38), A seguir, no próximo item continua-se a apresentação das informações sobre as transformações na religiosidade popular, agora, ocorridas no Brasil, as quais se entendem, levaram a diversas transformações da religiosidade popular, e, portanto, das atividades realizadas nos santuários. 2.3 AS TRANSFORMAÇÕES DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL Para compreender a realidade atual dos deslocamentos religiosos no Brasil é preciso, antes de tudo, efetuar uma aproximação histórica destas movimentações. Inicialmente, através da correlação de suas dinâmicas com as suas origens eminentemente portuguesas (a maioria das devoções, o gosto pelas procissões, o 85 hábito das romarias e a crença nos milagres), como através da descrição das ocorrências dos santuários como ponto alto das manifestações e das festas nos diferentes locais do território brasileiro, pois estas sofreram diversas transformações nestes 500 anos. Estas ocorrências foram subdivididas em dois momentos que permitem uma maior compreensão e análise para a Tese: as transformações ocorridas nos primeiros quatro séculos de religiosidade (oficial e popular), de 1500 a 1900 e estão identificadas e apresentadas no tópico 2.3.1. Neste tópico, se descrevem as diferentes nuanças que caracterizaram e simbolizaram a representação da fé. O segundo momento as transformações ocorridas nos últimos cem anos, que vão de 1900 ao ano 2000, identificadas e apresentadas no tópico 2.3.2. Estão separadas, visto que, a Igreja, buscou neste período alicerçar a fé popular noutros moldes quando comparados aos séculos iniciais, e, principalmente recuperar o controle sobre esses locais, através da inclusão de mudanças, bem como da negação de estratégias antes disseminadas. Para Chauí essa resposta da igreja estaria colocada dentro da estratégia de manutenção da sua universalização, evitando com essas ações cair para a condição de individualização, isto é, esta individualização roubaria da igreja “a legitimidade de valer igualmente para todos” (1982, p. 64), visto que ser uma instituição “lhe tiraria o poder sobre os homens agora tomados universalmente como cidadãos e apenas enquanto particulares como fiéis” (1982, p. 64). 2.3.1 Transformações nos deslocamentos religiosos brasileiros (1500-1900) Oliveira (1985) desenvolveu seu estudo concentrando-se na visão da estrutura religiosa da Igreja Católica na manutenção do status do Estado e das elites brasileiras no período que vai de 1500 a 1960. Ao fazê-lo vai apresentando os valores que são introduzidos ou abandonados pelo clero, sendo que essas transformações descritas oferecem uma percepção sobre os diferentes valores que contribuíram com a formação dos fiéis brasileiros, ligados ao catolicismo popular. Oliveira define catolicismo popular como sendo “o conjunto de representações e práticas religiosas dos católicos que não dependem da intervenção da autoridade 86 eclesiástica37 para serem adotadas” (1985, p. 113). Para Oliveira essas práticas estabeleceram-se em face do tamanho físico do país aliado à ausência generalizada do aparelho religioso (isto é, baixíssimo número de religiosos em contato direto com o povo) desde o descobrimento em 1500 até o estabelecimento da República em 1889, momento decisivo na implantação de novas dinâmicas religiosas no Brasil (principalmente a Romanização) (1985, p. 113). Ainda para Oliveira (1985), os elementos do catolicismo popular desenvolveram-se, principalmente, junto às capelas das irmandades, das confrarias e das ordens terceiras, bem como nas capelas rurais administradas quase sempre por leigos, sendo que estes assumiam a maior parte dos serviços religiosos como a organização das festas ao santo padroeiro, as missas oficiais, os cultos, os funerais e missas de defuntos, a ajuda mútua e a assistência médica. Para Oliveira, (1985, p. 115), no Brasil Colônia, para os fiéis a imagem do santo era importantíssima, pois era através dela que se podia acessar ao santo e se sublimava o contato com Deus. Outro aspecto importante estava em que “os santos estão ao alcance de qualquer fiel, sem que intervenha alguma mediação institucional entre eles”. E esta é uma das principais características do catolicismo popular que se estruturou no Brasil desde sua descoberta e que perdura até hoje em muitos locais, onde a religiosidade católica popular se expressa concomitante a uma discreta presença dos padres. Essa proximidade física dos santos com seus fiéis davam e dão a qualquer um o direito de conversar diretamente com o seu santo protetor, independente dos respeitos aos dogmas e normas aplicadas pelo Clero (tome-se como exemplo o Padre Cícero no sertão nordestino indicado na nota de rodapé número 11, ou o exemplo de Frei Galvão de Guaratinguetá, cidade colada a Aparecida, mas que não faz parte das estratégias católicas como Nossa Senhora). Oliveira (1985, p. 114) indicou que “assim o catolicismo popular conhece uma multidão de santos, desde aqueles oficialmente reconhecidos pelo magistério eclesiástico, até os santos locais cujo culto não dura mais do que duas ou três gerações”, desaparecendo, ou sendo substituído por outro. Oliveira (1985, p. 114) afirma que neste período os santos são as representações fundamentais do catolicismo popular, sendo dotados de poderes sobrenaturais, são tidos como 37 Autoridade eclesiástica é o corpo de agentes religiosos institucionalmente qualificados para a direção dos fiéis e dos trabalhos religiosos católicos. 87 capazes de influenciar o curso da vida e da natureza, bem como a relação entre Deus e os homens se dá através da intermediação dos santos. Oliveira (1985, p. 131-132) entende que as aproximações dos fiéis com os santos de devoção aconteciam principalmente nos santuários, que podiam ser locais de ocorrência de algum milagre, passando às ermidas (onde viviam pessoas chamadas de ermitões por haverem abandonado a vida mundana concentrando-se em orações e penitências) e às capelas locais. O autor indica que a dinâmica nestes santuários foram incentivados pela renovação espiritual ocorrida em Portugal nos fins do século XVII, relacionadas a uma valorização da meditação e da penitência; com o lema ‘padecer e amar’, tendo como exercícios preferidos a via-sacra, a oração mental, com o uso eventual da mortificação corporal pela autoflagelação. Azzi38 (1977) desenvolveu profundo trabalho sobre o processo de implantação do catolicismo no Brasil, bem como as instabilidades da relação das autoridades eclesiásticas com o povo, afirmando que o [...] catolicismo popular ou tradicional a forma predominante nos primeiros três séculos de cultura cristã no Brasil, cujos principais aspectos são: construção de cruzeiros, oratórios e ermidas, constituição de irmandades, ordens terceiras e santuários, realização de romarias e procissões, ênfase no aspecto devocional em detrimento do sacramental e realização de festas religiosas (1977, p. 130). Para o autor (1977, p. 130), “a romaria era um dos atos mais sagrados da devoção popular, tida como um sacrifício: o de ir venerar o santo em sua casa. Uma das expressões fundamentais da fé residia na promessa: pagar promessa era uma das obrigações fundamentais do catolicismo popular”. Continua afirmando que “os santuários constituíam centros de devoção para os quais os devotos seguiam em romarias para a veneração do santo e cumprimento das promessas, ao lado do santuário surgia, com freqüência, a chamada casa dos milagres, onde os devotos deixavam os seus ex-votos como testemunhos das graças alcançadas”. Em concordância a essa informação, Oliveira (1985, p. 135) descreve a “co-existência de práticas religiosas católicas oficiais que convivem com valores auto produzidos localmente, as quais podem até ser opostas”. Assim, observando-se diferentes classes sociais participantes de uma mesma devoção religiosa, se encontrará diversas representações e práticas religiosas dentro desta, cada qual moldada com 38 Riolando Azzi estudioso da religiosidade católica popular é um dos maiores estudiosos da evolução da Igreja católica brasileira possuindo muitas obras sobre a história da Igreja Católica. 88 elementos específicos de cada grupo social. Além dessa situação, Oliveira (1985, p. 135) apresenta a existência de um código moral operado no catolicismo popular onde, a despeito do código jurídico oficial, as transgressões a suas normas são punidas pelas sanções religiosas e pelas sanções sociais do grupo, que castiga os transgressores por meios simbólicos – como o rebaixamento do status social, a perda do prestígio, a vergonha – mais do que pela violência. Entende-se que este código observado pelos fiéis é um aspecto bastante importante a ser conhecido e dominado pelos estudiosos do turismo, para se possa compreender às dinâmicas dos ambientes religiosos onde acontece também, não só o turismo, pois conforme Durkheim (1996, p. 372-3) ocorre um estado de dependência entre os seres sagrados e o homem, que se renova todo o momento que estes se reúnem para a solução de uma situação problema do dia-a-dia, e os problemas do cotidiano fortalece a relação dos homens com o sagrado e a imagem destes. Soihet (2002) desenvolveu estudos sobre a Penha no Rio de Janeiro39, concentrando-se em analisar o ambiente que se desenvolvia em torno da festa do final do século XIX até os anos de 1920, com a presença de diferentes grupos sociais, principalmente aqueles economicamente menos favorecidos (os homens rudes e simples afeitos ao trabalho formidável de todos os dias, os populares, a gentinha miúda da cidade). Completando a uma afirmação anterior de Oliveira (1985), também Soihet (2002) apresenta a festa como decorrente da tradição portuguesa presente na cidade, confirmando que no início, apenas os portugueses participavam da romaria popular, mas que a partir do segundo quartel do século XIX os negros tomam conta daquele espaço transformando-o em local de festa. É naquele local, que, segundo Soihet ocorrem os primeiros ‘ajuntamentos de negros’, que buscam dançar samba, batuques ou capoeira num processo que havia sido iniciado pelos portugueses que cantavam fados e o vira, bem como consumiam seus tradicionais alimentos nas barracas. Afirma a autora (2002, p. 345), que, 39 Nossa Senhora da Penha, no subúrbio da Penha no Rio de Janeiro é um famoso santuário que se estabeleceu sobre um rochedo de 65 metros de altura, com 382 degraus. A primeira imagem colocada no local foi em 1635 numa ermida mandada fazer quando o capitão Baltazar Abreu de Cardoso em homenagem a um pedido de ajuda seu a um ataque de serpente quando visitava o local, sendo que a atual igreja é do século XIX. É tradição ainda hoje ocorrerem shows de música popular e concursos de músicas de carnaval e festas populares bastante concorridas (SOIHET, 2002). 89 40 [...] durante a festa o local assumia características de arraial todo embandeirado, cabendo sua organização à comissão de festeiros da 41 Irmandade da Penha. Constava de missa solene, cerimônia de benção, barraquinhas de prendas, jogos, comidas e vendas de medalhas. Porém, também afirma que, “os devotos buscavam, em geral, cumprir inicialmente a parte mais formalmente religiosa, assistindo a missa, celebrada de hora em hora por toda a manhã e/ou efetuando o cumprimento de alguma promessa” (2002, p. 346). Perceba-se que estamos no fim do século XIX e o maior santuário carioca era administrado por leigos reunidos em Irmandades por afinidade a um determinado santo, visto que esta era a prática usual em toda a história daquele lugar, além disso, encontramos também uma gama de diferentes atividades desenvolvidas pelos fiéis da época, muitas delas relacionadas ao mundo considerado profano, isto é, em oposição ao sagrado. Soihet (2002, p. 350-351) aprofunda sua argumentação em relação ao fato de que a Igreja, após 1907, iniciou uma sistemática oposição sobre a forma como a festa ocorria. Em primeiro lugar condenando os excessos cometidos pela massa popular, depois, assumindo a condução do processo com a mudança radical dos festejos com a submissão da Irmandade para com o Prelado local e depois com a eliminação do jogo, das rodas de samba, da embriagues, entre outras limitações. Tal submissão não se aplicou com tanta intensidade em todos os locais de expressão da religiosidade popular, basta ver na afirmação de Nascimento (1999, p. 2) quando diz que este, “reproduz durante os séculos de sua existência, o perfil característico dos maiores centros brasileiros de devoção”. No santuário da Trindade reproduziamse as condições informadas por Soihet no Rio de Janeiro, tendo Nascimento indicado que (1999, p. 2) “durante a festa, o local atrai uma multidão para visitar a imagem, participar das missas e das procissões, além disso, há um gigantesco comércio de ambulantes e barracas de comida e jogos”. Estes elementos formam a dinâmica básica da relação entre fiéis e os santos de devoção popular nos santuários, ocorrendo em todos os recantos. Oliveira (1985, 40 Arraial: lugar onde há festejos e aglomeração popular ou ajuntamento festivo de povo (Laudelino Freire, 1957, p.739). Pierre Sanchis na obra “Arraial: festa de um povo: as romarias portuguesas”. Lisboa: Dom Quixote, 1983, produziu diversas informações sobre as tradições das romarias realizadas em Portugal e que se estabeleceram no Brasil com a vinda dos imigrantes. 41 O termo Irmandade significava um conjunto de irmãos, uma confraria, liga ou associação (MAGALHÃES, 1955 p. 939) que se organizavam em função de sua relação com um santo de devoção. Elas assumiam quase todas as funções religiosas durante a ausência dos padres. 90 p. 279) em seu estudo sobre a relação direta da religiosidade e dominação de classe indica que a partir de 1824 com D. Pedro I inicia-se uma reforma nas ordens religiosas, visto que estas se mantinham fiéis aos superiores em Portugal permanecendo dentro dos conventos ou próximos de suas paróquias apenas, e, portanto, posicionavam-se contrárias a política do Estado - que era a de manter a ordem do todo através da unidade religiosa. Esta reforma vai se solidificar com a implantação do processo conhecido como ‘romanização do clero’. Isto é, “moldar o catolicismo brasileiro conforme o modelo romano onde eram valorizados a espiritualidade centrada na prática dos sacramentos e o senso da hierarquia eclesiástica” (OLIVEIRA, 1985, p. 279). O autor cita do documento produzido por Dom Macedo Costa redigido em 1890, denominado ‘Pontos da reforma da Igreja no Brasil’, que previa mudanças nas conferências episcopais, nas missões, no clero, junto aos colonos imigrantes, nos seminários, nas ordens, nas confrarias e nas dioceses. Uma das faces da romanização, segundo Oliveira (1985, p. 288), foi o uso da substituição das devoções tradicionais nas áreas urbanas, pelas novas devoções de origem européia, estratégia que trouxe a substituição das antigas irmandades e confrarias (Santo Antônio, São Benedito, Santa Bárbara, São José, Bom Jesus) por novas associações paroquiais ainda hoje existentes (Sagrado Coração de Jesus, Imaculada Conceição, Sagrada Família e São José) que atuavam profundamente junto aos fiéis. Isso explica diversas situações que encontramos atualmente na realidade brasileira da religiosidade católica popular: certos locais sofreram abandono oficial, outros passaram a receber pesados investimentos pela Igreja. Schneider (2001, p. 34) ao descrever a história do garoto Agostinho Marmo42 considerado santo pela população, identificou outra estratégia, que foram as ‘Sagradas Missões’, “que se fez em base acentuadamente moralista, dando ênfase às ‘verdades eternas’ do pecado, da morte e do inferno, visando às reformas dos costumes do povo”. Segundo a autora, [...] o ensino do catecismo foi difundido e o culto eucarístico promovido, assim como é intensificada a freqüente confissão e comunhão. A devoção do mês mariano é difundida, e também se introduz o costume das festas solenes de primeira comunhão (SCHNEIDER, 2001, p. 35). 42 Aprofundado na obra intitulada Memória e história: misticismo, santidade e milagre em São Paulo. São Paulo: T. A. Queiroz. 2001 onde apresenta a vida e o sofrimento nos poucos anos de existência do menino, bem como o processo de transformá-lo em santo, a despeito da oposição oficial da igreja. 91 Isso porque naquele momento o catolicismo popular era visto pelos reformadores como que “eivado de paganismos e ‘imperfeições’, o catolicismo de origem européia continuará, na Colônia, a mesclarem-se com elementos que lhe eram estranhos, multifacetados, muitas vezes com a própria religião africana transmigrada” (SCHNEIDER, 2001, p. 35). Os novos sacramentos que aos poucos deveriam ser incutidos no povo aparecem, com efeito, neste caso do garoto Marmo, pois quando da construção da biografia do menino feita por um padre, nela constavam elementos que a Igreja considerava importantes como: o nascimento, o batismo, amor e sofrimento, o mais belo dia na vida do menino (a primeira comunhão), o devoto do menino Jesus e de Nossa Senhora, os quais seriam utilizados para modificar as dinâmicas do povo, bem como retirar deles a necessidade de transformá-lo em santo popular. Por outro lado, Oliveira (1985, p.288) afirma que para controlar as áreas rurais, imensas e dispersas pelo território, se fez uso do controle sobre os santuários, locais de grande afluência e concentração popular, agregando também o controle sobre as romarias: “procuram diminuir o seu número, só permitindo a realização de romarias com autorização eclesiástica”. Isso porque, [...] as razões encontradas para confiarem os santuários às congregações foram: combater as superstições e o fanatismo, catequizar, exercer o controle financeiro sobre as esmolas trazidas pelos romeiros destinando-as a obras prioritárias como seminários e moralizar as romarias. Confirmando as contínuas transformações por que passou a igreja, Steil (1996) ao analisar o ‘Relatório sobre as condições sócio-religiosas no santuário do Bom Jesus da Lapa’ conseguiu resgatar as mudanças nas estratégias dos discursos da Igreja frente aos fiéis e sua relação com o sagrado, baseados no Concílio Vaticano II43 e em 43 Ao ser iniciado o Vaticano II em outubro de 1962, a liturgia era na realidade um assunto prioritário, o primeiro assunto a ser discutido e, pode-se dizer também, o único assunto a ser discutido no Concílio durante o pontificado de João XXIII. Já que a Missa é o centro da liturgia, e a Missa é um sacrifício, tratou-se primeiramente da natureza do sacrifício em geral, depois de como ele entrou no Cristianismo e as intervenções do Magistério da Igreja em relação à missa até antes do Vaticano II (STEIL, 1996, p. 37). As orientações do Papa João XXIII sobre os objetivos do Concílio eram mais genéricas: "revestir o clero de novo fulgor de santidade", "instruir o povo nas verdades da fé e da moral", sem que se mencionasse nelas nenhum problema litúrgico. Em 5 de junho de 1960 João XXIII instituiu onze comissões preparatórias para estudar os diversos problemas da Igreja no mundo moderno. Havia uma Comissão Teológica, para examinar os problemas relativos à Sagrada Escritura, tradição, fé e costumes; e outras para os bispos e governo das dioceses, disciplina do clero, religiosos, sacramentos, liturgia, seminários, Igreja Oriental, missões, apostolado dos leigos, meios de comunicação (STEIL, 1996, p. 37). 92 oposição às práticas implantadas pelos Redentoristas44 no final do século XIX. Neste documento, segundo Steil (1996), a Igreja se vê como parte importante da sociedade e não apenas restrita ao santuário, passando a organizar ações de cunho religioso que pudessem auxiliar diretamente nos destinos da sociedade brasileira. Percebem-se aí as novas mudanças nas estratégias da Igreja, pois, se em 1890 os Redentoristas provocaram diversas mudanças nas dinâmicas do catolicismo popular, inclusive sobre as romarias, neste momento novamente o fizeram em função de objetivos traçados por níveis hierárquicos superiores, provavelmente de Roma. No Relatório o santuário é caracterizado como ‘um foco de ilusão religiosa a prolongar indefinidamente certa mistificação do cristianismo’ que transforma de forma reduzida “a religião a um comércio com Deus” apenas (STEIL, 1996, p. 263). Apresenta-se uma nova estratégia para dessacralizar45 o espaço do sagrado do santuário, destituindo dele todos os mistérios, principalmente pela desativação dos mitos e das imagens como fontes de mistificação do sagrado, elementos até então básicos na expressão da fé dos romeiros. Perceba-se que o ocorrido na Lapa (indicado por Steil) vai se repetir em todo o país, em maior ou menor grau de pressão. Em suma o novo pensamento era o de “destituir a peregrinação para a Lapa de sua efervescência e intensidade místicas e inscrevê-lo dentro do conjunto das práticas ordinárias do catolicismo oficial renovado”46 (STEIL, 1996, p. 263), o qual valoriza outros elementos incorporados após o Concílio Vaticano II. Esse aspecto precisa ser aprofundado no decorrer das percepções dos estudiosos dos ambientes da religiosidade popular, uma vez que é a partir dessa política que as atividades e os significados das ações dos fiéis se transformarão, bem como a evolução dos santuários. Tome-se como exemplo Bom Jesus de Iguape (SP), que não sofreu esse processo de dessacralização com a mesma intensidade, ou memso de renovação tão acentuada. 44 Os Padres Redentoristas alemães entraram no Brasil no final do século XIX (1894). A eles foi dada a administração de diversos santuários, como o da Lapa na Bahia, do Pai Eterno em Trindade, Goiás ou o de Aparecida em São Paulo, uma vez que sua fama era de bons administradores de santuários. 45 O significado do termo dessacralizar é bastante amplo, porém popularmente pode dizer que significa tirar o poder sagrado de alguma coisa a que se dava o valor de sagrado. Este processo colocado em curso nos santuários objetivava que as Congregações tomassem as rédeas das mãos dos fiéis e das irmandades. 46 O catolicismo renovado permitiu fazer com que os diversos grupos que se denominavam católicos, mas que não satisfizessem as exigências e dinâmicas do clero pudessem participar das atividades religiosas nos santuários. A esses devemos somar os que valorizavam os relatos bíblicos, os valores e princípios morais, os mitos católicos e milenaristas, os santos e heróis do catolicismo colonial, as visões de mundo tradicionais e secularizadas, etc. (STEIL, 1996, p. 57 e 272). 93 Para Bauman (1999, p. 90) a explicação à instalação da dessacralização pelo esvaziamento simbólico se estabelecer na sociedade atual, e, portanto, também na religiosidade, está em que “a cultura da sociedade de consumo envolve, sobretudo o esquecimento, não o aprendizado”. Eliade (1992, p. 45) ao descrever sobre a dessacralização da morada humana como uma etapa das transformações religiosas, afirma categoricamente que o processo faz parte integrante da gigantesca transformação do mundo assumida pelas sociedades industriais – transformação que se tornou possível pela dessacralização do Cosmos, a partir do pensamento científico e, sobretudo, das descobertas sensacionais da física e da química. Para Bauman (1999), com efeito, quando a espera é retirada do querer e o querer da espera, a capacidade de consumo dos consumidores pode ser esticada muito além dos limites estabelecidos por quaisquer necessidades naturais ou adquiridas; também a durabilidade física dos objetos do desejo não é mais exigida. Assim, para Bauman (1999, p. 90) o que vem ocorrendo no turismo em geral é, [...] uma relação tradicional entre a necessidade e sua satisfação, que é revertida na promessa e na esperança de satisfação, as quais precedem à necessidade que se promete satisfazer e serão sempre mais intensas e atraentes que as necessidades efetivas. Entende-se que este fato não está comportado pelo todo do universo dos deslocamentos religiosos pela fé, ou mesmo do universo dos turistas nos locais de fé e que, portanto, exige dinâmicas mais específicas do que a satisfação daquelas necessidades supridas pela estrutura turística a um turista. É importante perceber que o santuário de Aparecida no estado de São Paulo47 foi o precursor da implantação do controle dos padres sobre as movimentações religiosas populares, por dois motivos. O primeiro relacionava-se a sua localização geográfica, porque fica muito próximo das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Para entenderse o segundo motivo, porque Aparecida (e não um dos muitos outros santuários 47 A história do santuário começa com os pescadores que encontraram a imagem da santa nas águas do rio Paraíba. Aparecida passou por diversas etapas desde que em 1740 foi construída a primeira capelinha erigida próximo ao porto de Itaguaçú, após em 1745, construiu-se no morro dos Coqueiros uma capela em homenagem a Conceição Aparecida, sendo que esta foi ampliada entre 1760 e 1770 (Almanaque de N. S. Aparecida, 2004, p. 156). A atual Basílica, também chamada de ‘basílica nova’ foi construída em um novo local que permitiu aumentar consideravelmente o número de fiéis (in: Jornal do Brasil Caderno Roteiros da Fé. 11.09.2000, p. 27-8). 94 espalhados pelo país) foi escolhida para a implantação da renovação, utiliza-se novamente de Fernandes (1994, p. 107) que fez um pequeno histórico indicando que isso ocorreu em face que “Nossa Senhora da Conceição tem sido a Padroeira de Portugal e de seus Domínios Ultramarinos desde 1646, por um ato de D. João IV. Ela foi confirmada como Padroeira do Império brasileiro por D. Pedro I”. Efetivamente Aparecida conseguiu manter seu poder diante dos outros santos, pois que “foi coroada em oito de setembro de 1904”, e, em “1930 o Papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida a Padroeira do Brasil” (FERNANDES, 1994, p.107). Referindo-se às mudanças implantadas no santuário de Aparecida, Fernandes descreve as transformações administrativas do local, indicando que somente a partir de 1900 é que se estabeleceram as romarias episcopais no país, dentro de uma política de promoção de romarias populares, mas com controles exclusivos dos padres redentoristas alemães, instalados no local a partir de 1894. Segundo o autor, antes disso existe apenas o registro de uma romaria organizada por padres da Igreja, é de 1873 e, “foi dirigida pelo padre de Guaratinguetá, a cuja jurisdição pertencia o santuário” (FERNANDES, 1994, p. 123). Ainda, segundo o autor, nesta data as romarias independentes completavam 100 anos de existência, demonstrando que o povo em geral, independente dos controles oficiais mantinha-se em constante visita ao local, uma prova da longa existência dos deslocamentos religiosos populares. Deve-se perceber que dentro da estratégia de elevar os santuários ligados à figura de Nossa Senhora (em suas diversas possibilidades), houve um demérito em relação aos outros santuários, mesmos àqueles mais antigos e mais tradicionais na atração dos fiéis brasileiros, como foi o caso de Guaratinguetá, Iguape, os quais passaram a ser vistos como retrógrados e ficaram estagnados quando se observam as estratégias e as ações das congregações, tal qual se vê no crescimento contínuo e descomunal que ocorreu e ocorre em Aparecida. Alves (2005, p. 172) confirma as informações relacionadas ao Reino e as Colônias portuguesas, bem como sobre D.Pedro I, indicando também que, face aos problemas religiosos regionais que vinham ocorrendo no final do século XIX e início do XX (Canudos, Contestado, Juazeiro), e, mesmo “descontente em relação à ideologia do governo, neste período a Igreja emprestou as suas forças para auxiliar o estado na manutenção da ordem, já que o messianismo atingia diretamente o seu 95 poder sobre as almas”, objetivando com isso evitar a dispersão de forças religiosas, através da escolha de Maria. 2.3.2 Estratégias da Igreja Católica com relação aos deslocamentos religiosos brasileiros (1900-2000) A seguir desenvolvem-se algumas considerações relacionadas a mudanças ocorridas nos espaços dos santuários brasileiros onde as dinâmicas das congregações religiosas continuaram a se transformar, e, portanto, continuaram a interferir nas dinâmicas dos deslocamentos religiosos. Para compreender a situação atual das orientações de Roma aos deslocamentos religiosos e a relação entre os representantes das congregações dos santuários e os representantes dos poderes públicos, bem como os empresários do turismo em geral, deve-se perceber alguns aspectos relacionados à estruturação recente da Igreja, com influência direta no mundo do turismo. Assim, para entender o que vem ocorrendo nos espaços do sagrado nos santuários brasileiros, se deve aprofundar ainda mais as percepções acerca das relações que se estruturam e dos papéis concomitantes aos espaços profanos que se incorporam continuamente nestes locais. Vários autores como Fagundes (2004), Fernandes (1994), Brandão (1986), entre outros conseguem identificar diferentes ‘momentos’ que ocorrem concomitantes nos santuários. Nascimento (1999, p. 2) entendeu que a reza é um importante fator de sociabilidade, na qual os romeiros podem ampliar suas relações sociais para fora do âmbito da intimidade familiar. A reprodução do modelo de romaria em outras festas tradicionais da região do santuário de Trindade em Goiás evidencia que essas manifestações do catolicismo popular estão sendo redefinidas: elas incorporaram as novas modalidades de festividades modernas, mas, não deixaram de ter como parâmetro a tradição e sua memória. O autor sugere que, quando foi conveniente, essas festas trouxeram da cidade elementos para uma re-elaboração das suas tradições, provenientes da zona rural e vice-versa, numa troca permanente. Para Steil (1996, p. 57), Bom Jesus da Lapa na Bahia possui muitos elementos sagrados, como 96 os relatos bíblicos, os valores morais, os mitos católicos, as orações oficiais e clandestinas, os santos e heróis do catolicismo colonial e moderno, as cosmologias religiosas e as visões de mundo tradicionais e secularizadas, entre outros, bem mais extensos que a racionalidade dos padres é capaz de abarcar” (1996, p. 57). Tais elementos vêm gerando um universo muito grande de possibilidades, tanto de vivência por parte dos fiéis, quanto de interpretação por parte dos cientistas sociais. Porém, Steil (1996, p. 56) admite e justifica a existência de outros espaços, afirma que, sobre a coexistência de diferentes interesses sobrepostos no espaço do santuário da Lapa, [...] os peregrinos parecem não ter a mesma preocupação que os dirigentes do santuário em diferenciar as devoções tradicionais e modernas, mas transitam entre elas a partir de uma representação do santuário que engloba todas as manifestações do sagrado que possam vir a surgir neste espaço. Generalizando essa condição, entende-se que cabe a todos os cientistas sociais que se debruçam sobre estes espaços de transição, tomar pé da situação, evitando utilizar-se de expressões delimitantes em relação às formas de expressão da fé e de as suas dinâmicas, ou comportarem-se criticamente sem a devida compreensão do todo que pode ser multifacetado. Confirma Steil (1996) que ocorreram muitas trocas simbólicas no santuário do Bom Jesus, inclusive mediadas pelo dinheiro, e também por um comércio paralelo à fé, administrado tanto pelos religiosos como pela população, fato que, como ocorre noutros santuários brasileiros, e que motivam diversos momentos de tensão entre o poder público, os religiosos e os comerciantes que convivem nestes espaços. Steil (1996, p. 82) identificou essas diversas mercadorias presentes no Bom Jesus, como sendo: [...] objetos religiosos (imagens rosários, estampas de santos, medalhas), brinquedos de plástico e bonecas, objetos decorativos para a casa, artesanato de couro, utensílios domésticos, ferramentas de trabalho, vestuário e calçados, aparelhos eletrônicos, armas de fogo, etc.. Cada um dos grupos participantes deste comércio possui seus argumentos para fazê-lo, muitas vezes em detrimento dos outros, aos quais se imputam sempre os problemas inerentes a uma ética que se baseia na contradição da fé com as transações. Segundo Steil, para os romeiros o comércio é parte da festa, pois, levar uma lembrança do santo “é uma forma de prolongar a presença do Bom Jesus no seu cotidiano” (1996, p. 83). Os padres alegam que a loja financia a formação de seminaristas, os moradores alegam que há muito estão lá instalados (muitas vezes 97 dentro das grutas), mesmo antes dos redentoristas e o poder público entende ser naturalmente responsável pelo controle sobre o comércio em geral. Segundo Steil (1996) para os romeiros, nestes momentos acontece a chance de encontrarem uma grande diversidade de ofertas, ausente em seus cotidianos, fato que estimula o desenvolvimento deste comércio. Para Steil (1996, p. 86), no entanto, por mais que aos fiéis pareça ser a romaria uma forma tradicional de manutenção da fé, estas vêm se transformando continuamente num ‘palco de trocas culturais e de idéias. Um ponto de encontro de crenças ortodoxas e dissidentes, um universo de difusão de costumes e valores antigos e novos, um lugar de transações rituais e econômicas e uma arena de disputas de discursos seculares e religiosos “[...] ainda que para muitos cientistas sociais, essa evolução das estratégias da igreja e das dinâmicas dos fiéis não seja algo a considerar”. Moraes (2000, p. 4) percebeu que essa situação ocorria nos fiéis de Aparecida em relação às romarias, porém não soube aprofundar a percepção noutro aspecto por ela indicado quando afirmou que é importante salientar que o esvaziamento da dimensão simbólica não se deve apenas à forma de organização das romarias, mas também aos novos rumos da ação pastoral da Igreja após o Concílio Vaticano II. [...] preocupando em direcionar suas ações para a preparação dos peregrinos, em especial os sacramentos da penitência, eucaristia e evangelização. A autora começou a responder os porquês dos fiéis estarem alijados, segundo ela, da participação política, bem como, colocarem nas mãos dos santos de devoção o seu destino e os seus problemas, porém isso não ocorreu com profundidade. A mesma constatação foi realizada por Nascimento (1999, p. 2) ao analisar o santuário da Trindade em Goiás, afirmando que foi a partir do Vaticano II (1962 e 1965) que os padres do santuário passaram a fazer as celebrações sem interferir abertamente nas formas de religiosidade católica popular. Hoje a proposta dos padres está voltada somente para as celebrações nas igrejas, para as confissões e as procissões da penitência. Nascimento (1999, p. 2) considera a romaria de Trindade em Goiás como “uma prática que engloba a dinâmica do tradicional e do moderno, do religioso e do secular, sem perder a sua especificidade. Romaria não é apenas uma manifestação do catolicismo popular”. Para esta autora aspectos ligados a um estilo de vida 98 tradicional, que inclui o catolicismo rústico, persistem ao lado de outros novos, ligados a uma cultura das cidades, na qual se aproxima a dinâmica dos santuários especialmente durante as festas. Assim, ”a romaria mantém elementos tradicionais dessa forma de devoção e, ao mesmo tempo, não está fechada nem vulnerável às transformações que provêm de um mundo urbanizado” (1999, p. 2). Enquanto aqui no Brasil, conforme indicado acima, os santuários continuaram com seus problemas cotidianos em relação às formas e aos objetivos das movimentações religiosas de seus fiéis, enquanto na Europa a Igreja católica buscou aproximar-se dos elementos que compõe o turismo nos santuários, construindo teorizações de objetivos e dinâmicas a serem implantados através dos procedimentos emanados da Conferenza Episcopale Italiana48 (CEI) que, interessada na situação peculiar do entrelaçamento intenso do processo de locomoção baseada na fé (romarias, peregrinações, etc.), mais as necessidades físico-espirituais advindas do deslocamento geográfico (planejamento turístico), criou a Diretório Geral para a Pastoral de 49 Turismo , que segmentou-se nos diferentes países sob a forma das pastorais do turismo” (CHRISTOFFOLI, 2004, p. 387), Ou seja, através das estratégias e dinâmicas do turismo, pretende aumentar ainda mais a disseminação dos valores religiosos. Isso faz perceber que muitos são os interesses relacionados às ações da Igreja por meio das pastorais do turismo européias, no contexto dos locais onde acontecem os encontros entre os visitantes e as comunidades, fazendo crer que, essas ações pressupõem também objetivos comuns, com os responsáveis pelo turismo, visando à observância de elementos muito além do consumo em si, como por exemplo, os elementos humanistas. Na Europa essas pastorais vêm desenvolvendo atividades ligadas à recepção e acomodação dos peregrinos, incluindo a sistematização de locais relacionados a 48 A Conferência Episcopal Italiana (CEI) é um órgão da Santa Sé da Igreja Católica. Sediado em Roma possui diversas funções na estrutura organizacional, sendo uma delas a institucionalização de novas ações e políticas de turismo junto às diferentes Congregações. Como o turismo é percebido como um momento ímpar de reunião das pessoas, o CEI vem desenvolvendo intensas discussões, em diferentes instâncias da Igreja, na busca da utilização desses momentos para a sensibilização religiosa. Para isso a igreja vem formando quadros de trabalhadores com formação específica para o atendimento de fiéis e de turistas, com vistas a um aproveitamento das viagens com fins religiosos em todas as ações praticadas. São desenvolvidos eventos (seminários, palestras, congressos) com o fim único de valorizar o turismo dentro da perspectiva do CEI. 49 É o Departamento dentro da CEI que coordena diretamente todas as ações relacionadas ao turismo, desde a definição das políticas de ação, passando por eventos nacionais e internacionais (jornadas de formação de recursos humanos, por exemplo) ou até a edição de textos básicos e livros como os acima indicados. 99 esses serviços, assim como a definição das dinâmicas de distribuição e venda das lembranças. Porém, a expectativa da Igreja é de que com esse incremento da movimentação humana atual seria necessário que houvesse “a admissão no circuito turístico de novos conteúdos e de novas aberturas na perspectiva da promoção humana e da cultivação da espiritualidade, sem dúvida, impeliu o turismo a um horizonte mais idôneo às complexas exigências do homem pós-moderno” (MAZZA, 2001a, p. 1). Inicialmente a sistematização proposta pela igreja parece utilizar-se de elementos relacionados às formas economicistas tradicionais de estruturação do turismo, porém, com mais cuidado observam-se objetivos muito mais profundos, onde estariam colocados aspectos como a fé e as necessidades físico-espirituais dos visitantes, as quais vão muito além dos interesses e das ações dos planejadores turísticos e não apenas o consumo pelo consumo, tanto de paisagens como de povos (ou de religiões) como parecem ver os autores do turismo na atualidade. Para Mazza (2001a, p. 1) “se trata de olhar com sério interesse a um turismo inspirado em valores de humanidade e de espiritualidade capazes de aproximar as expectativas das pessoas” com a proposta de férias não mais medidas exclusivamente sobre modelos de puro consumismo hedonista, ou seja, aquele onde o indivíduo pode intermediar e escolher as experiências que quer ter, desprezando outras. De tal modo que a Igreja reveja seus atuais papéis diante dos usos promovidos pelo turismo, e se transforme [...] em sujeito cultural e não só sujeito cultuado ou de simples conservação do bem cultural, mas um organismo de produção de cultura e de pesquisa contínua de significados, inserida num movimento turístico no qual seja protagonista e não vítima sacrificada. Uma maneira de reagir a respeito da complexa e delicada questão do ticket-non ticket que ordena a regulamentação do fluxo turístico nas igrejas, a qual revela um incômodo de parte da Igreja no relacionamento relativo aos novos fenômenos de buscas culturais-religiosas de consumo turístico dos bens culturais (MAZZA, 2001c, p. 9). Segundo Mazza (2001a, p. 3) pelo turismo a Igreja é interpelada a posicionarse, mais em relação à intensa movimentação de pessoas, do que os possíveis tipos de visitantes a serem atendidos, pois, respondendo através da Pastoral do Turismo, não são considerados grupos sociais ou tipos de turistas merecedores de atenção especial, visto que é, 100 [...] inerente a um modo próprio da Igreja imersa em uma realidade turística, isto é, em relação a uma Igreja que entende anunciar e viver a fé, a esperança e a caridade sob um determinado e qualificado território turístico. Não é, entretanto, uma Pastoral por opção, mas um compromisso objetivo, que não pode ser descuidado, sob pena da diminuição da missão da Igreja como Igreja de Jesus Cristo, aberta e enviada para anunciar o evangelho ao mundo. Diferenciando-se dos cuidados dados aos peregrinos pela Pastoral específica, a Igreja afirma que as ações relacionadas às Pastorais do Turismo não atingem apenas aos turistas, mas que: [...] os destinatários são os residentes das comunidades turísticas, os hóspedes turistas ou aqueles em férias, os operadores e os trabalhadores no turismo, e as instituições que operam na organização, na promoção e no acolhimento do turismo. Para cada categoria de pessoas, busca-se uma ocasião, uma formulação, uma caracterização própria do anuncio da catequese (MAZZA, 2001a, p. 5). Apesar da intensidade e da complexidade das argumentações teóricas50 sobre a inter-relação entre religiosidade e turismo, existentes nos documentos do Departamento para o Turismo da Conferência Episcopal Italiana, não se observaram nos santuários católicos do Brasil51, elementos que caracterizassem a implantação de estruturas similares àquelas propostas pela CEI, nem mesmo era do conhecimento dos administradores responsáveis pelas atividades. Observou-se, de outro lado, a existência de inúmeras estruturas religiosas que desenvolviam trabalhos afins nos santuários católicos, isto é, se não usavam a teorização da Santa Sé, atingiam os mesmos objetivos de bem acolher, ouvir os pedidos e lamentos, ajudar espiritualmente, consolar, independente se os visitantes eram fiéis ou turistas, como é o caso da Pastoral do Turismo e do Lazer instalada em Florianópolis-SC, (ARQUIDIOCESE DE FLORIANÓPOLIS, 2000), a única com essa nomenclatura que encontrada na pesquisa, sem, no entanto se preocuparem, porém, com a comunidade e com os operadores turísticos, por exemplo. Dentro dessa inter-relação que os estudiosos do turismo brasileiros desejam ver estabelecida entre a Igreja e o mercado, pode-se observar uma pequena 50 A produção teórica da CEI italiana é grande, atingindo diferentes segmentos relacionados às movimentações humanas, dentre elas o turismo. Os textos mais conhecidos dos profissionais do turismo que atuam junto a CEI são: Pastorale del turismo, dello sport, del pellegrinaggio: sussidio per um impegno ecclesiale, 1996; La presenza della Chiesa nel mondo del turismo. 2001; Fondamenti Del Pellegrinaggio: quando nasce, come se sviluppa, come si vive. 2001; Viaggiare, visitare e accogliere. Per um turismo dei valori. 2001; La Pastorale del Turismo e la Pastorale dello Sport. 2001; La ripresa dell’intersse ecclesiale. Tendenze per la Pastorale del Turismo e per il Turismo Religioso. 2001. 51 Observações realizadas durante a pesquisa ‘Turismo religioso e humanismo latino no Brasil’ para a Fondazione Cassamarca de Treviso na Itália, já indicada anteriormente. 101 cristalização através do livro intitulado Turismo religioso: Roteiros da Fé Católica no Brasil, editado pela EMBRATUR em parceria com a Igreja Católica em 2000. Na obra estão descritas sessenta atividades religiosas por todo o país, passando por procissões, romarias, festas, encontros de oração, peças teatrais, etc., nelas são indicadas diversas informações relacionadas aos eventos (cidade, data, estimativa de público, formas de acesso, distâncias, organizadores e infra-estrutura turística). Porém, o que mais chama atenção é o fato de que no item entidade organizadora, consta quase sempre, a indicação de grupos religiosos que se preocupam com a organização e execução dos eventos, e somente em alguns deles aparecem setores públicos como Secretaria municipais ou Prefeituras na condução dos mesmos. De outro lado, as possibilidades de inter-relação entre o turismo e a fé no Brasil e descritas no livro, são infinitas, visto que, milhares destas festividades estão dispersas pelo território. Basta ver que no livro editado pela Embratur são listadas 60. Destas, apenas algumas (Nossa Senhora em Aparecida, SP, Círio de Nazaré em Belém, PA, Santa Paulina em Nova Trento, SC), ou seja, as maiores em número de fiéis merecem quase sempre o destaque dado pela mídia, como também o é pelos estudiosos do turismo em suas publicações. De outro lado também é fato que, agindo dessa maneira os estudiosos do turismo apenas sobrevoam o universo da religiosidade católica popular do Brasil, não conseguindo identificar características comuns a muitos destes locais, levantando assim detalhes que são generalizados para o conjunto da religiosidade popular, isso porque as possibilidades de análise e interpretação concentradas em poucos lugares são limitadas. Resta um universo imenso de eventos religiosos que não são conhecidos e menos ainda interpretados, dentre eles bastam citar os mais populares como as romarias diocesanas, as missões paroquiais, as novenas. Nestes locais certamente os pesquisadores da relação religiosidade e turismo poderiam encontrar mais elementos a disposição de suas análises, e assim talvez, poderiam melhor compreender as características e as necessidades dessas pessoas, tanto em sua relação com a fé e a religião, como em relação aos serviços e produtos do turismo. 102 3 OS DISCURSOS SOBRE TURISMO RELIGIOSO NO BRASIL A seguir apresentam-se os autores escolhidos para aplicação do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) sobre o turismo religioso nos ambientes da religiosidade católica popular, utilizando-se a denominação de turismo religioso, por eles indicada, como uma categoria já definida e aceita pelo mercado. De outro lado, apesar do mercado turístico alardear ser o turismo religioso um dos segmentos que mais cresce, só existe três livros editados no Brasil especificamente sobre este tema, nos anos 2003 e 2004 (sendo dois deles coletâneas). Estas coletâneas apresentam um total de 11 artigos, dos quais apenas os quatro escolhidos apresentaram elementos mais densos que permitissem sua utilização nas análises realizadas abaixo. O elemento regulador das escolhas concentrou-se na presença no texto do desenvolvimento de considerações, sobre tópicos como: se eram ou não autores do turismo; categorias de análise utilizadas; generalização das análises (em oposição a artigos focados em situações bastante restritas, como foi o caso dos autores Maria Ângela Vilhena, Paulo Roberto Albieri Nery ou Carlos Alberto Steil), presentes no livro de EDIN S. Abumanssur, Turismo Religioso: Ensaios Antropológicos sobre religião e turismo. Campinas, SP: Papirus, 2003; bem como com os artigos de Osvaldo Giovannini Junior; Jeferson L. Gazzoni e Haudrey Germiniani presentes no livro organizado por Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas, SP: ALÍNEA, 2003. No Capítulo 3 são apresentadas análises de outras obras de autores que estão também em uso no DSC, as quais perpassam o turismo religioso, porém, muitas são trabalhos individualizados e apresentam eventuais discussões sobre o tema, sendo alguns deles sem profundidade acadêmica, fato que fez provocar seu deslocamento para aquele capítulo. A seguir apresento, analiso e desenvolvo as análises do DSC sobre esses autores, bem como a seguir desenvolvo considerações. 103 3.1 PERFIL DOS AUTORES ESCOLHIDOS PARA O ESTUDO As obras analisadas de onde se retiraram os textos são: ABUMANSSUR, E.S. (org.), Turismo Religioso: Ensaios Antropológicos sobre religião e turismo. Campinas, SP: Papirus, 2003; DIAS R., SILVEIRA E.J.S. da (Orgs), Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas, SP: Alínea, 2003 e OLIVEIRA, C.D.M. de. Turismo religioso. São Paulo: ALEPH. 2004. (Col. ABC do Turismo). A análise metodológica do Método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) a seguir apresentada foi realizada com apenas quatro artigos encontrados nestas três obras. Em todos se operou a dinâmica do DSC, onde se fez a transcrição literal das expressões-chave e o desmembramento do seu conteúdo nas Idéias Centrais e das figuras metodológicas contidas na Ancoragem, com os resultados apresentados nos Quadros. Somente com este material nas mãos é que se organizou posteriormente a discussão teórica com as figuras do DSC. No tópico a seguir se apresentam os resumos dos currículos dos quatro autores analisados, e numa pequena Ficha Catalográfica com a intenção de que se possam conhecer os autores e sua relação com o tema estudado, suas áreas de atuação e produção científica. Após, são apresentadas as ‘falas’ relacionado a cada autor, a partir dos objetivos propostos pela pesquisa, com a respectiva discussão teórica, sendo que os elementos retirados dos artigos são descritos em Quadros dos Discursos lndividuais e após no Quadro dos Discursos Coletivos obtidos. Optou-se por escolher textos destes informantes em função da representatividade teórico-científica, uma vez que estes são as poucas publicações existentes especificamente sobre o tema turismo religioso no país, bem como porque a distribuição de suas posições e análises desenvolvidas nos dá uma amplitude maior de percepção do universo das obras em questão. Na separação destes documentos observaram-se quais os argumentos identificados estavam relacionados à organização do turismo, nos seus mais diferentes e abrangentes adjetivos (planejamento, organização, demanda estrutura e serviços); e noutro grupo à interação religiosidade - turismo religioso. Realizou-se essa aproximação e redução a dois termos, como forma de sistematizar a apresentação dos resultados, visto que a profusão de formas de expressão 104 encontrados nas análises tornaria a sua descrição no todo, inviável. 1) CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA Ficha Catalográfica do Autor/Texto. Turismo Religioso. São Paulo: ALEPH. 2004. (Coleção ABC do turismo). Mestre e Doutor em Geografia Humana (USP), e pós-doutorado em Turismo pela ECA-USP, lecionando em diversos cursos de turismo. O autor tem uma produção científica concentrada na área da Geografia Humana. Autor de outros artigos sobre turismo: visitação a santuários (2000); Turismo, monumentalidade e Gestação (2003) e Basílica de Aparecida: um templo para a cidade mãe (2001). O texto analisado compõe um livreto com 102 páginas organizadas num texto único. O referencial utilizado como ancoragem do texto os elementos de gestão dos espaços, com atenção a categorização dos locais, das atividades e das motivações dos fiéis e turistas que se encontram nos locais religiosos, argumentando a inclusão de atividades sob a ótica da sustentabilidade, 2) EDIN SUED ABUMANSSUR Ficha Catalográfica do Autor/Texto. Religião e turismo: notas sobre as deambulações religiosas. In ABUMANSSUR, E. S. (org), Turismo Religioso: Ensaios Antropológicos sobre religião e turismo. Campinas, SP: PAPIRUS, 2003. Mestre e Doutor em Ciências Sociais (PUC) e professor no curso de Teologia e Ciências da Religião, autor do livro: Moradas de Deus: Arquitetura Protestante e Pentecostal. 1. ed. São Paulo: Editora Cristão Novo Século, 2005, além deste analisado neste texto sobre turismo religioso. Possui relação com as orientações e bancas com temas afins a diferentes religiões, possuindo apenas uma pesquisa em turismo religioso, quando se concentrou principalmente sobre Iguape - SP. O referencial utilizado como ancoragem do texto é sociológico e 105 mercadológico ao mesmo tempo, pois os elementos mais valorizados são os comportamentos e as trocas de papéis sociais que vem ocorrendo, transformando os valores de diferentes grupos (os fiéis e os turistas), ocorrendo somente o turismo religioso. A obra aprofunda-se apenas nos detalhes estatísticos, sobre o perfil sócioeconômico dos romeiros e sobre os dados orçamentários do município. 3) REINALDO DIAS Ficha Catalográfica do Autor/Texto. DIAS R. O turismo religioso como segmento do mercado turístico. In: DIAS R. e SILVEIRA E. J. S. da (Orgs.). Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas, SP: ALÍNEA, 2003. É sociólogo, Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP). É professor no curso de Mestrado em Turismo (UNA-MG). O autor tem uma produção científica concentrada na área das Ciências Sociais, sendo autor de diversos livros no setor turístico como: Sociologia do turismo (2003); Turismo sustentável e Meio Ambiente (2003); e Turismo e patrimônio cultural (2006), sendo que o texto aqui analisado é o único com foco no turismo religioso.. O referencial utilizado como ancoragem do texto é eminentemente economicista, pois são observados elementos motivações para a viagem, gestão de produto, com atenção especial aos resultados advindos da atividade de lazer e a religiosidade. Também realiza uma extensa segmentação dos santuários, a partir dos seus atrativos predispondo-os a uma utilização turística. 4) EMERSON J. S. DA SILVEIRA Ficha Catalográfica do Autor/Texto. Turismo religioso, mercado e pós-modernidade. In: DIAS R. e SILVEIRA E. J. S. da (Orgs.). Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas, SP: ALÍNEA, 2003. Mestre e Doutor em Ciências da Religião (UFJF). Professor de Sociologia e Antropologia no Turismo. Autor Turismo e consumo: a religião como lazer em 106 Aparecida. In: Edin Sued Abumanssur. Turismo religioso: ensaios antropológicos sobre religião e turismo. (2003) e do livro Por uma sociologia do turismo, (2007) O referencial utilizado como ancoragem do texto é ao antropológico, pois são observados elementos de interação dos espaços religiosos por fiéis e turistas, com atenção especial aos resultados das estratégias das congregações em oposição as atividades e as motivações dos turistas. 3.2 A PRODUÇÃO ANALISADA A seguir serão apresentados os componentes dos discursos retirados dos textos analisados. Inicialmente estão colocadas todas as Expressões-chave encontradas (colocadas a esquerda). Após, destas expressões construíram-se as Idéias Centrais dos discursos, onde foram juntadas diversas expressões. A seguir apresento a Ancoragem e os Discursos Individuais. Nestes discursos, a ancoragem não é citada literalmente, mas, aparece em todas as ‘falas’, demonstrando que o conceituar turismo ocorre a partir das poucas discussões e reflexões ocorridas nos trabalhos de campo realizados pelos autores, sendo possível avaliar que esta capacidade de se expressar e de saber como conceituar o modelo que foi adotado nasceu das práticas de pesquisas realizadas em algumas localidades brasileiras. Nesta investigação, os discursos expressos não foram analisados de forma quantitativa, uma vez que a proposta era de compreender e talvez explicar a representação sociocultural dos autores sobre o turismo nos ambientes religiosos, apresentando de forma discursiva os sentidos e os significados de um fenômeno que hoje faz parte do cotidiano dos mesmos. FIGURA 1 - CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA Documento – Livro de Christian de Oliveira Expressões – chave • • Seria ele um conjunto de viagens – incluindo motivações e serviços – marcadas pela oferta de atrativos religiosos ou pela demanda por divindades, bens sagrados e rituais? Compreendê-lo em seus elementos constitutivos, sejam eles místicos ou sócioespaciais; visualizando sua lógica em lugares típicos, como os Centros de Peregrinação Titulo: Turismo Religioso. • Idéias Centrais • Idéia 01 – Pólos de convergência (altares, templos, santuários e cerimoniais), são responsáveis pela principal motivação do peregrino. • Idéia 02 – Entre cientistas sociais ou mesmo teólogos dispostos a observar o desenvolvimento turístico das localidades religiosas, têm sido comum 107 • • • • • • • • • típicos, como os Centros de Peregrinação (principalmente do catolicismo popular do Brasil). O turismo vai manter e recriar velhos equipamentos eclesiais em uma nova roupagem de visitação. É fundamental, portanto, reconhecer que as idéias de fé e sacrifício, estão na origem do ato religioso que motiva uma peregrinação. Identificar o turismo religioso com os dogmas religiosos é quase tentar juntar água e óleo! A identificação deve, isto sim, pautar-se pelo contexto devocional; por aquilo que denominamos de religiosidade: a maneira como a cultura religiosa é geograficamente vivenciada. Turismo religioso, como uma peregrinação contemporânea motivada por celebrações relacionadas direta ou indiretamente com a cultura cristã. Trata-se de apenas reconhecer os limites cristãos ocidentais que vêm transformando a peregrinação em turismo para atender à modernização de suas sociedades, tão marcadas pela noção de secularização. Os destinos religiosos, enquanto pólos de convergência (altares, templos, santuários e cerimoniais), são responsáveis pela principal motivação do peregrino. Entre cientistas sociais ou mesmo teólogos dispostos a observar o desenvolvimento turístico das localidades religiosas, tem sido comum identificar as diferenças predominantes entre peregrinos e turistas, na busca e na relação com o santuário. Se o lado inconsciente (individual e coletivo) acaba preponderando na realização do turismo religioso, não podem os planejadores e agentes de turismo continuar ignorando essas dimensões. Dimensões complexas, mas também riquíssimas para a reordenação dos territórios simbólicos (santuários) em sua capacidade receptiva. Diante de tais exigências de infra-estrutura e modernização, como a Igreja ficaria indiferente à chamada indústria do turismo, com suas técnicas, instalações, sistemas? Eis a origem de uma seqüência de interações que tornam os roteiros, os espaços e as festas religiosas objetos tão sagrados quanto turísticos, permitindo que o turismo religioso seja praticado por um crescente e diversificado volume de peregrinos. Acontece que os espaços religiosos, por força de uma separação estabelecida pelos agentes católicos ou estudiosos da religião, são verbalmente desqualificados de seu papel turístico. Ao contrário da valorização internacional de Jerusalém, Roma, Lourdes e Fátima, uma infinidade de espaços religiosos brasileiros fica destituída de seu peso turístico, identificar as diferenças predominantes entre peregrinos e turistas, na busca e na relação com o santuário. • Idéia 03 – Se o inconsciente (individual e coletivo) acaba preponderando na realização do turismo, não podem os planejadores e agentes de turismo continuar ignorando essas dimensões. Dimensões complexas, mas também riquíssimas para a reordenação dos territórios simbólicos (santuários religioso. • Idéia 04 – O produto turismo religioso continua restrito aos problemas conceituais que já relacionamos – quem opera esse turismo não é um profissional do setor, e o profissional acaba confundindo cultura e confissão religiosa. • Idéia 05 – O Santuário Ritual é, portanto, um santuário decisivo para a renovação técnica e simbólica do turismo religioso. Além de reconstituirse nas áreas privilegiadas dos outros três, colabora diretamente para configuração do terceiro tipo de roteiro classificado a pouco como Roteiro de Espetáculo. Nele o turismo religioso tende cada vez mais a se diluir em outras denominações, mais ajustadas com a aparência do atrativo. Em contrapartida, para compreensão do êxito do evento festivo, é cada vez mais fundamental destacar os aspectos da religiosidade que o santuário reedita. • Idéia 06 – As exigências de infra-estrutura e modernização é a origem de uma seqüência de interações que tornam os roteiros, os espaços e as festas religiosas objetos tão sagrados quanto turísticos, permitindo que o turismo religioso seja praticado por um crescente e diversificado volume de peregrinos. • Idéia 07 – De um lado, a capacitação dos profissionais deve exigir forte grau de especialização para lidar com um conjunto de atrativos tão complexos; de outro, a experiência do turista religioso, no Brasil, deve superar as barreiras estabelecidas pela religiosidade que afirma a fé como um dom inato e absoluto. • Idéia 08 – Ao contrário da valorização internacional de Jerusalém, Roma, Lourdes e Fátima, uma infinidade de espaços religiosos brasileiros fica destituída de seu peso turístico, apenas porque uma cultura de preconceitos vinculou turismo a profanação. • Idéia 09 – Caracterizado como um turismo de baixa renda – pouco consumo per capita e grande participação popular -, o turismo religioso só seria sustentável quando mobilizasse volumes crescentes de visitantes. Daí a estratégia de se renovar progressivamente a força simbólica das graças 108 • • • • • • brasileiros fica destituída de seu peso turístico, apenas porque uma cultura de preconceitos vinculou turismo a profanação. O turismo religioso – e isso é essencial – não é de religiosos, nem de religião. É um turismo motivado pela religiosidade, pela cultura religiosa. Portanto, onde quer que essa cultura se manifeste – seja na área rural, natural ou urbana, seja no cotidiano ou em momentos festivos – poderá existir um turismo religioso (com ou sem profissionalismo). Quatro tipos de santuários (Naturais, Tradicionais, Metropolitanos e Rituais). Só se torna acessível ao turista – e ao turismo religioso inclusive – mediante um processo contemporâneo de demarcação, controle, monitoramento e publicidade dirigida. A urbanização, os meios de comunicação e de transportes transformam-no: Passa de santuário tradicional a metropolitano no decorrer da construção da nova Basílica, e modifica, por extensão, o característico de seus peregrinos como turistas. O Santuário Ritual é, portanto, um santuário decisivo para a renovação técnica e simbólica do turismo religioso. Além de reconstituir-se nas áreas privilegiadas dos outros três, colabora diretamente para configuração do terceiro tipo de roteiro classificado a pouco como Roteiro de Espetáculo. Nele o turismo religioso tende cada vez mais a se diluir em outras denominações, mais ajustadas com a aparência do atrativo. Em contrapartida, para compreensão do êxito do evento festivo, é cada vez mais fundamental destacar os aspectos da religiosidade que o santuário reedita. De um lado porque o produto turismo religioso continua restrito aos problemas conceituais que já relacionamos – quem opera esse turismo não é um profissional do setor, e o profissional acaba confundindo cultura e confissão religiosa. Resultado: acredita-se que no Brasil não existe turismo religioso porque nossos receptivos (os diversos santuários) dispensam mediações. Entretanto, as mesmas agências que operam internacionalmente admitem que um trabalho sério e profissional com um grupo de turistas em motivação assumidamente religiosa torna indispensável à ação de duas lideranças: o guia de turismo e o guia espiritual. Essa observação expressa o peso das mediações que o simbolismo religioso vai requerer, principalmente em função das exigências promovidas pelo sistema de turismo. De um lado, a capacitação dos profissionais deve exigir forte grau de especialização para lidar com um conjunto de atrativos tão complexos; de outro, a experiência do turista religioso, no Brasil, deve superar as barreiras estabelecidas pela religiosidade que afirma a fé como um alcançáveis a todos que se dirigem àquela localidade santa. Portanto, quanto mais massificada a fé, melhor será a sustentabilidade do turismo religioso. • Idéia 10 – Identificar o turismo religioso com os dogmas religiosos é quase tentar juntar água e óleo! • Idéia 11 – O turista religioso faz tanta visita que – e até por isso mesmo – não se sente mais turista, é como alguém de casa; assim como a divindade – por imagens, orações, pensamentos – também não é um estranho nos espaços cotidianos desse turista. • Idéia 12 – Só se torna acessível ao turista – e ao turismo religioso inclusive – mediante um processo contemporâneo de demarcação, controle, monitoramento e publicidade dirigida. • Idéia 13 – Reconhecer os limites cristãos ocidentais que vêm transformando a peregrinação em turismo para atender à modernização de suas sociedades, tão marcadas pela noção de secularização. • Idéia 14 – Quatro tipos de santuários (Naturais, Tradicionais, Metropolitanos e Rituais). O Santuário Ritual é, portanto, um santuário decisivo para a renovação técnica e simbólica do turismo religioso. Além de reconstituir-se nas áreas privilegiadas dos outros três, colabora diretamente para configuração do terceiro tipo de roteiro classificado a pouco como Roteiro de Espetáculo. Nele o turismo religioso tende cada vez mais a se diluir em outras denominações, mais ajustadas com a aparência do atrativo. Em contrapartida, para compreensão do êxito do evento festivo, é cada vez mais fundamental destacar os aspectos da religiosidade que o santuário reedita. • Idéia 15 – Compreendê-lo em seus elementos constitutivos, sejam eles místicos ou sócio-espaciais visualizando sua lógica em lugares típicos. • Idéia 16 – Os destinos religiosos, enquanto pólos de convergência (altares, templos, santuários e cerimoniais), são responsáveis pela principal motivação do peregrino. 109 • • • • • • • • dom inato e absoluto. A medieval estratégia de confecção de objetos e imagens de santos vem sendo superada pela moderna força da comunicação escrita associada à pós-modernidade do acesso eletrônico. Missas, cultos, terapias e sermões pelas ondas do rádio ou nas telas de tv, todos esses rituais disseminaram-se nos últimos vinte anos. Dificilmente encontraremos uma estrutura mais eficaz para o crescimento da motivação religiosa ao fazer turístico. Não se trata da religião do indivíduo, mas sim dos simbolismos religiosos que se transformam, assim, o turismo religioso pode ser uma expressão autêntica de espiritualidade. A reflexão nos mostrou que o turismo religioso se fundamenta na construção de santuários e na projeção de simbolismos. [...] demonstrou, assim, ser possível praticar turismo religioso sem vínculos confessionais. O turismo é sustentável na medida em que seus atrativos otimizam diversas frentes de desenvolvimento, principalmente o vetor econômico, com a devida conservação do ambiente natural. Para tanto, deveriam existir mecanismos capazes de impedir a multiplicação ilimitada de peregrinos e as alterações no entorno do espaço sagrado. A sustentabilidade, por este ângulo, dinamiza algo como um ecoturismo sagrado. Considerando o santuário natural como o modelo de atrativo religioso mais conveniente para o turismo, reconhece-se a sustentabilidade em função da máxima preservação das formas originais. Eis um caminho interessante, para a maioria dos santuário já modificados. Caracterizado como um turismo de baixa renda – pouco consumo per capita e grande participação popular -, o turismo religioso só seria sustentável quando mobilizasse volumes crescentes de visitantes. Daí a estratégia de se renovar progressivamente a força simbólica das graças alcançáveis a todos que se dirigem àquela localidade santa. Portanto, quanto mais massificada a fé, melhor será a sustentabilidade do turismo religioso. A familiaridade que une visitante e visitado no turismo religioso explica também a alta freqüência das viagens a santuários. Dessa forma, o turista religioso faz tanta visita que – e até por isso mesmo – não se sente mais turista, é como alguém de casa; assim como a divindade – por imagens, orações, pensamentos – também não é um estranho nesses espaços. A comunidade mais preparada para receber permanentemente o turista será aquela que emite seus próprios turistas para outras comunidades, seja porque suas lideranças crescem em experiência, seja pelo aumento da renda de seus habitantes. O que não se pode 110 continuar acreditando é que o desenvolvimento turístico de um lugar dependa só do fluxo de entrada de turistas ‘estrangeiros’. Ancoragem • Fé. • Turismo. • Administração. Discurso Individual • Peregrinos e turistas possuem as mesmas motivações, faltando aos profissionais do turismo desenvolver estratégias de atração, bem como instalar infra-estrutura para que se possa atingir a sustentabilidade do negócio. FIGURA 2 - EDIN SUED ABUMANSSUR Documento – Texto de Edin Sued Abumanssur Expressões – chave • • • • • • • • O turismo religioso, como discurso, tende a desconsiderar as motivações religiosas para a viagem e se concentrar no fenômeno do deslocamento, e, mais especificamente, na necessidade que esse deslocamento traz em termos de estrutura de transporte, hospedagem e alimentação. Acresce o fato de que as peregrinações modernas têm de ser entendidas em um quadro de referências onde o tempo do trabalho e sua contraface, o tempo do lazer, emolduram o ato de fé. A peregrinação pode ser vista tanto como fenômeno religioso quanto como fenômeno turístico. O turista religiosamente motivado é mais do que um trabalhador em férias. Ele é o foco de convergência de transformações no campo religioso, reunindo e resumindo em sua prática de fé as atitudes que reconfiguram esse campo e expressam as formas como a religião é vivenciada em nossa modernidade. É preciso reconhecer que tratar as peregrinações como turismo religioso só se tornou possível após o surgimento das massas de trabalhadores que desde a revolução industrial vêm conquistando, aos poucos, o direito ao lazer. O turismo religioso e o turismo de massa são crias siamesas de um mesmo processo histórico. O produto turístico religioso sofre a mesma padronização de oferta. O turismo religioso que se destina aos Titulo: Religião e turismo: notas sobre as deambulações religiosas • Idéias Centrais • Idéia 01 – A peregrinação pode ser vista tanto como fenômeno religioso quanto como fenômeno turístico. O turismo religioso e o turismo de massa são crias siamesas de um mesmo processo histórico. Se o mundo do trabalho é condicionante do tempo de lazer e, consequentemente, do turismo, as viagens com motivação religiosa não ficam alheias a essa mesma determinação. • Idéia 02 – O turismo religioso, como discurso, tende a desconsiderar as motivações religiosas para a viagem e se concentrar no fenômeno do deslocamento, e, mais especificamente, na necessidade que esse deslocamento traz em termos de estrutura de transporte, hospedagem e alimentação. Se o mundo do trabalho é condicionante do tempo de lazer e, consequentemente, do turismo, as viagens com motivação religiosa não ficam alheias a essa mesma determinação. Acresce o fato de que as peregrinações modernas têm de ser entendidas em um quadro de referências onde o tempo do trabalho e sua contraface, o tempo do lazer, emolduram o ato de fé. • Idéia 03 – Se há algo de religioso no turismo, se há algo de turístico nas peregrinações, é importante saber como um e outro ajudam-nos na compreensão das vivências religiosas e, nesse caso, da religiosidade de um Brasil experimentado pelas classes populares. Nem todo turismo é uma forma de religião, nem toda peregrinação é uma forma de turismo. Mas, quando um turismo e religião convergem em um mesmo evento, temos aí um objeto fecundo de oportunidades de compreensão do fenômeno religioso. A peregrinação não se torna turismo religioso apenas pela ação ou tratamento dado a ela pelos agentes e 111 santuários nacionais é considerado ‘turismo de pobre’. Como regra, as romarias são organizadas de forma espontânea pelas pessoas interessadas. • Embora o peregrino também se divirta em sua peregrinação, é o compromisso religioso que o faz relevar as condições precárias em que se dá a sua viagem e, inclusive, aceitar o desconforto como um componente religioso da romaria. • Nem todo turismo é uma forma de religião, nem toda peregrinação é uma forma de turismo. Mas, quando um turismo e religião convergem em um mesmo evento, temos aí um objeto fecundo de oportunidades de compreensão do fenômeno religioso. • A peregrinação não se torna turismo religioso apenas pela ação ou tratamento dado a ela pelos agentes e gestores do turismo ou pela administração pública, o próprio peregrino moderno comporta-se com um turista à mediada que a religião mesma se torna objeto de consumo. • Desde a Idade Média o aspecto penitencial era o motivador da viagem, mesmo porque a noção de lazer como algo que se opõe ao tempo do trabalho é própria de uma sociedade organizada em torno das atividades produtivas. • Se o mundo do trabalho é condicionante do tempo de lazer e, consequentemente, do turismo, as viagens com motivação religiosa não ficam alheias a essa mesma determinação. • Essa relação entre religião e lazer é inventada e reinventada no cotidiano das práticas devocionais da população brasileira, em especial a de baixa renda. É essa promiscuidade entre religião, consumo e lazer, que nos possibilita o questionamento da religião com base em diferentes disciplinas. • Se há algo de religioso no turismo, se há algo de turístico nas peregrinações, é importante saber como um e outro ajudam-nos na compreensão das vivências religiosas e, nesse caso, da religiosidade de um Brasil experimentado pelas classes populares. Ancoragem • Turismo pela ação ou tratamento dado a ela pelos agentes e gestores do turismo ou pela administração pública, o próprio peregrino moderno comporta-se com um turista à mediada que a religião mesma se torna objeto de consumo. • Idéia 04 – O turismo religioso que se destina aos santuários nacionais é considerado ‘turismo de pobre’. Como regra, as romarias são organizadas de forma espontânea pelas pessoas interessadas. Embora o peregrino também se divirta em sua peregrinação, é o compromisso religioso que o faz relevar as condições precárias em que se dá a sua viagem e, inclusive, aceitar o desconforto como um componente religioso da romaria. Discurso Individual • A peregrinação é fenômeno religioso tanto quanto turístico, mediada pelo mundo do trabalho, assim, o turismo religioso tende a desconsiderar as motivações religiosas da viagem e se concentrar no deslocamento e nas necessidades que este traz em termos de estrutura de transporte, hospedagem e alimentação. 112 FIGURA 3 - REINALDO DIAS Documento – Texto de Reinaldo Dias Expressões – chave • • • • • • • • • • • O turismo está diretamente relacionado com o aumento do tempo livre. Por isso, utiliza-se de Jofre Dumazedier para uma discussão sobre tempo livre, lazer e turismo. As funções da vida de um indivíduo (necessidades e obrigações) onde segundo Dumazedier não se encontra o lazer, quais sejam: 1) o trabalho profissional; 2) o trabalho suplementar ou complementação; 3) os trabalhos domésticos; 40 as atividades de manutenção biológica; 5) as atividades ligadas aos estudos e 6) as atividades rituais ou ligadas a cerimoniais resultantes de uma obrigação familiar, social ou espiritual, colocando entre eles os ofícios religiosos. A terceira função do lazer leva o indivíduo a buscar o desenvolvimento de sua personalidade, conhecer o mundo e a si mesmo. Nesse sentido desenvolve o lado espiritual, busca o sagrado, como uma forma de romper com a vida material, profana. Não podemos afirmar que a vida espiritual seja um produto do tempo livre Para o peregrino, o deslocamento ao santuário ocorre devido estritamente a sua espiritualidade, vai á busca de um aperfeiçoamento, cumprir votos feitos anteriormente, pagar uma promessa, agradecer uma benção, o reconhecimento de uma graça recebida, a participação em uma festa religiosa importante, etc. Podemos considerar que a maioria das atividades de peregrinação está estruturada no tempo de lazer e pode ser considerada experiência de lazer O turismo, enquanto fenômeno econômico e social pode apresentar um número indefinido de vertentes dependendo das motivações do viajante para empreender a viagem O turismo abrange as viagens realizadas por motivos religiosos, pois, não importando a motivação, os viajantes fazem uso dos mesmos equipamentos, transportes e são gerados produtos e serviços para atender suas expectativas. Na maioria das localidades, onde existem santuários ou ocorrem manifestações religiosas, a infraestrutura para receber os visitantes ainda é precária, muitas vezes devido à pouca compreensão do potencial econômico da visitação periódica. O viajante pode ter um envolvimento grande com o sagrado, mas continua a necessitar de descanso, alimentar-se e desfrutar de momentos de calma e relaxamento, pois sua condição humana assim o exige. E, ao provocar essa demanda, usufrui dos mesmos equipamentos necessários ao atendimento dos viajantes que o faz com fins culturais, por exemplo. Embora com motivações de viagem diferentes, Titulo: IAS R. O turismo religioso como segmento do mercado turístico. • Idéias Centrais • Idéia 01 – O turismo está diretamente relacionado com o aumento do tempo livre. Nesse sentido desenvolve o lado espiritual, busca o sagrado, como uma forma de romper com a vida material, profana. A peregrinação realizada com motivos estritamente religiosos onde os viajantes estão convictos de que estão observando uma obrigação religiosa, não poderia ser classificada como uma atividade de lazer. • Idéia 02 – Porém a obrigação religiosa é decorrência de uma livre escolha anterior, quando optou por uma determinada crença. Assim, a ocupação do tempo de lazer foi escolhida livremente pelo indivíduo, pois ao escolher a religião, escolheu o uso que faria de seu tempo livre. Podemos considerar que a maioria das atividades de peregrinação está estruturada no tempo de lazer e pode ser considerada experiência de lazer. • Idéia 03 – Turismo religioso é aquele empreendido por pessoas que se deslocam por motivações religiosas e/ou para participação em eventos de caráter religioso. Compreende romarias, peregrinações e visitação a espaços, festas, espetáculos e atividades religiosas. Embora com motivações de viagem diferentes, ambos os viajantes utilizam-se de serviços e produtos comuns, tornando-se deste modo, turistas no sentido exato do termo. • Idéia 04 – O turismo, enquanto fenômeno econômico e social pode apresentar um número indefinido de vertentes dependendo das motivações do viajante para empreender a viagem. O turismo abrange as viagens realizadas por motivos religiosos, pois, não importando a motivação, os viajantes fazem uso dos mesmos equipamentos, transportes e são gerados produtos e serviços para atender suas expectativas. • Idéia 05 – Para o peregrino, o deslocamento ao santuário ocorre devido estritamente a sua espiritualidade, vai á busca de um aperfeiçoamento, cumprir votos feitos anteriormente, pagar uma promessa, agradecer uma benção, o reconhecimento de uma graça recebida, a participação em uma festa religiosa importante, etc. 113 ambos os viajantes utilizam-se de serviços e produtos comuns, tornando-se deste modo, turistas no sentido exato do termo. • Turismo religioso é aquele empreendido por pessoas que se deslocam por motivações religiosas e/ou para participação em eventos de caráter religioso. Compreende romarias, peregrinações e visitação a espaços, festas, espetáculos e atividades religiosas. • Ambos peregrinação e turismo – compartilham a existência de uma jornada voluntária e temporária para um lugar diferente de sua residência habitual; a possibilidade de serem fenômenos de massa; sua natureza de serem eventos que quebram a rotina, o fato de que geram conseqüências econômicas, urbanas e demográficas idênticas, etc. • A peregrinação realizada com motivos estritamente religiosos onde os viajantes estão convictos de que estão observando uma obrigação religiosa, não poderia ser classificada como uma atividade de lazer. Porém a obrigação religiosa é decorrência de uma livre escolha anterior, quando optou por uma determinada crença. Assim, a ocupação do tempo de lazer foi escolhida livremente pelo indivíduo, pois ao escolher a religião, escolheu o uso que faria de seu tempo livre. • Considerando-se a área do destino objetivo final da viagem, que junto com a motivação, é outro dos principais pontos a serem considerados, podemos fazer algumas distinções básicas entre os atrativos turístico religiosos, classificando-os em seis diferentes tipos: 1. Santuários de Peregrinação; 2. Espaços religiosos de grande significado de caráter religioso; 3. Festas e comemorações em dias específicos; 4. Espetáculos artísticos de cunho religioso e 6. Roteiros de fé. • Nas localidades onde a experiência religiosa ocorra em grande intensidade, é necessário haver alguma pausa, buscando atender essas necessidades o município multiplicará os efeitos econômicos e positivos do turismo religioso. • O turista quando compra lembranças, busca algo relacionado com o local de visitação, que terá um valor simbólico importante em seu grupo social de origem. No turismo religioso a este aspecto deve ser acrescentado o místico-espiritual quando os suvenires se tornam objeto de devoção, identificados com aquelas práticas religiosas. Ancoragem • Religião • Turismo • Idéia 06 – Ambos peregrinação e turismo – compartilham a existência de uma jornada voluntária e temporária para um lugar diferente de sua residência habitual; a possibilidade de serem fenômenos de massa; sua natureza de serem eventos que quebram a rotina, o fato de que geram conseqüências econômicas, urbanas e demográficas idênticas, etc. • Idéia 07 – Nas localidades onde a experiência religiosa ocorra em grande intensidade, é necessário haver alguma pausa, buscando atender essas necessidades o município multiplicará os efeitos econômicos e positivos do turismo religioso. O turista quando compra lembranças, busca algo relacionado com o local de visitação, que terá um valor simbólico importante em seu grupo social de origem. • Idéia 08 – No turismo religioso a este aspecto deve ser acrescentado o místico-espiritual, quando os souvenires se tornam objeto de devoção, identificados com aquelas práticas religiosas. Na maioria das localidades, onde existem santuários ou ocorrem manifestações religiosas, a infra-estrutura para receber os visitantes ainda é precária, muitas vezes devido à pouca compreensão do potencial econômico da visitação periódica. • Idéia 09 – O viajante pode ter um envolvimento grande com o sagrado, mas continua a necessitar de descanso, alimentar-se e desfrutar de momentos de calma e relaxamento, pois sua condição humana assim o exige. E, ao provocar essa demanda, usufrui dos mesmos equipamentos necessários ao atendimento dos viajantes que o faz com fins culturais, por exemplo. Discurso Individual • A opção religiosa é decorrência de uma livre escolha por uma determinada crença, e, é acompanhada por uma pausa da rotina para o lazer. Buscando atender as necessidades durante a experiência, o município implantará equipamentos, transportes, produtos e serviços, gerando efeitos econômicos e positivos do turismo religioso 114 FIGURA 4 - EMERSON J. S. DA SILVEIRA Documento – Livro de Christian de Oliveira Expressões – chave • • • • • • • • • O termo turismo religioso, categoria surgida no mundo do mercado/marketing, acabou sendo encampada nos discursos teóricos sobre o tema. A procissão pertence a lógica institucional, inscrita na história, mas o fiel que a vivencia estaria localizado numa lógica subjetiva. Contudo essas dimensões se interpenetram, modificando-se mutuamente. Será preciso, então, caracterizar a diversidade do deslocamento, perguntando-se o que diferencia o deslocamento-viagem em relação ao deslocamentoturismo e o deslocamento-peregrinação/romaria em relação ao deslocamento excursão. Todavia, o critério deslocamento ainda é insuficiente para construir tipologias turísticas. A condição de mercantilização dos lugares e religião com seu aparato de festas e tradições populares, ou seja, de torná-las possíveis porque comercializáveis, está na confecção das imagens. E é aí, no imaginário veiculado pelas mídias e em interação com o fluxo de visitantes/turistas, que o turismo e a religião vão encontrar seu ponto de convergência e o tecido no qual vão estar alinhavados pelo consumo. É necessário ter em mente que o turismólogo deve ser o profissional que deve refletir em termos globais e teórico/prático o fenômeno ao qual é instado a planejar. Talvez se possa dizer que na medida em que a sociedade se complexifica e em que sofre um desencaixe entre tempo/espaço, o turismo é alçado à condição de prática majoritária, com acentuada presença das classes médias, já o excursionismo parece ser a prática predominante das classes populares, exigindo outros tipos de conceitos para analisá-las. Houve o declínio da adesão institucional religiosa, o que não significa o declínio do sagrado. A religião não é mais aquela que fundamenta ação e visões de mundo dos homens e mulheres da sociedade ocidental. Se por um lado a secularização é um fato, de outro em sociedades latino-americanas, entre elas a brasileira, esse termo precisaria ser repensado, porque a modernidade capitalista nunca chegou a afirmar-se nas paragens tupiniquins. O turismólogo deverá estar atento para uma visão mais alargada desses fenômenos, para os símbolos presentes, suas dinâmicas peculiares e que servem como um código de leitura da sociedade, ou seja, pela religiosidade pode-se ler a sociedade que a produziu. A convivência simbiótica entre profano/sagrado, se é que tais características ainda permaneçam com o mesmo poder explicativo na pós-modernidade é anterior à constituição de um fluxo turístico. As massas de romeiros, antes sob o controle da Titulo: Turismo religioso, mercado e pós-modernidade • Idéias Centrais • Idéia 01 – A categoria turismo religioso surgida do mercado acabou encampada nos discursos teóricos. A mercantilização dos lugares e religião com festas e tradições populares, tornaas possíveis porque comercializáveis no imaginário veiculado pelas mídias e em interação com o fluxo de visitantes/turista, que o turismo e a religião vão encontrar seu ponto de convergência alinhavado pelo consumo. • Idéia 02 – Na medida em que a sociedade se complexifica e sofre um desencaixe entre tempo/espaço, o turismo é alçado à condição de prática majoritária, com acentuada presença das classes médias, já o excursionismo parece ser a prática predominante das classes populares, exigindo outros tipos de conceitos para analisálas. Houve o declínio da adesão institucional religiosa, o que não significa o declínio do sagrado. • Idéia 03 – A religião não fundamenta ação e visões de mundo na sociedade ocidental. A religião torna-se espetáculo, a consumidores que não se vinculam a dogmas nem a sistemas teológicos e nem igrejas. Aí, talvez, possa-se falar em turismo religioso. • Idéia 04 – O turismo é um espaço, uma territorialidade específica, uma etiqueta que, pode variar entre cultural, religiosa, virtual, colocaria em circulação/venda desde artesanatos tradicionais aos de última geração, mesclandoos, desconstruindo e introduzindo novas posturas (lazer e ludicidade) dentro da religião. Dessa forma, o religioso dilui-se no mercado, no lazer. • Idéia 05 – Formular definições não significa o término da reflexão acadêmica que deve primar pela crítica, autocrítica e autonomia. É preciso criar uma hermenêutica, construir uma interpretação dos fatos turístico-religiosos a partir da tradição de pesquisa, acúmulo de dados e teorização de modo que se possa compreender e gerir a diferença/diversidade social, religiosa e turística. • Idéia 06 – Não se pode colocar no mesmo patamar teórico/hermenêutico um romeiro que busca sua fé no padre Cícero (Ceará), e um turista que visita cidade cenográfica de Nova Jerusalém (Pernambuco). • Idéia 07 – Os elementos materiais em comum, viagem, hospedagem, comércio e artesanato são 115 igreja, transbordam essas fronteiras. O monopólio do significado religioso por parte da igreja cede lugar à atuação das empresas de turismo e organizadores de excursão. • Em termos estruturais, produziram-se espaços, nos locais para onde acorrem peregrinações/romarias, que sofrem ocupações e impactos econômicos. • Só uma investigação mais profunda, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo poderia responder podendo ser apontada uma mesma mediação que ata turismo e religião: o olhar, em direções que criam oposições e passagens. • A religião torna-se espetáculo, oferecido a consumidores e diria consumidores errantes e experimentadores de sensações, que não se vinculam a dogmas nem a sistemas teológicos e nem igrejas. Aí, talvez, possa-se falar em turismo religioso. • Não se pode colocar no mesmo patamar teórico/hermenêutico um romeiro que busca sua fé no padre Cícero (ceará), e um turista que visita cidade cenográfica de Nova Jerusalém (Pernambuco). Os elementos materiais em comum, viagem, hospedagem, comércio e artesanato são insuficientes para uma caracterização mais profunda. Por isso a interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, desvelando sua polissemia, entre as quais o turismo religioso. • O turismo é o consumo de um espaço, constituindo uma territorialidade específica, talvez uma etiqueta que, grudada no embrulho, pode variar entre cultural, religiosa, virtual, entre outras. O turismo colocaria em circulação/venda produtos desde artesanatos tradicionais aos de última geração, mesclando-os, desconstruindo dicotomias e introduzindo novas posturas (lazer e ludicidade) dentro de fenômenos como a religião. Dessa forma, o religioso dilui-s no mercado, no lazer. • Talvez seja legítimo cunhar o conceito de turismo religioso a não ser que se defendam concepções essencialistas desses fenômenos, vendo-os como incapazes de interagir e produzir sínteses conceituais ou dissensuais. • Formular definições não significa o término da reflexão acadêmica que deve primar pela crítica, autocrítica e autonomia. É preciso criar uma hermenêutica, ou seja, construir uma interpretação dos fatos turístico-religiosos a partir de uma tradição de pesquisa, acúmulo de dados e teorização sobre os mesmos, de modo que se possa compreender e gerir a diferença/diversidade social, religiosa e turística. Ancoragem • Religião • Turismo viagem, hospedagem, comércio e artesanato são insuficientes para uma caracterização mais profunda. A interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, desvelando sua polissemia, entre as quais o turismo religioso. Só uma investigação mais profunda, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo poderia responder podendo ser apontada uma mesma mediação que ata turismo e religião: o olhar, em direções que criam oposições e passagens. • Idéia 08 – Talvez seja legítimo cunhar o conceito de turismo religioso a não ser que se defendam concepções essencialistas desses fenômenos, vendo-os como incapazes de interagir e produzir sínteses conceituais ou dissensuais. • Idéia 09 – O monopólio do significado religioso da igreja cede lugar à atuação das empresas de turismo e organizadores de excursão. Em termos estruturais, produziram-se espaços, nos locais para onde acorrem peregrinações/romarias, que sofrem ocupações e impactos econômicos. • Idéia 10 – A procissão pertence a lógica institucional, inscrita na história, mas o fiel que a vivencia estaria localizado numa lógica subjetiva, essas dimensões se interpenetram, modificando-se mutuamente. • Idéia 11 – Será preciso, caracterizar a diversidade do deslocamento, perguntando-se o que diferencia o deslocamento-viagem em relação ao deslocamento-turismo e o deslocamento-peregrinação/romaria em relação ao deslocamento excursão. Todavia, o critério deslocamento ainda é insuficiente para construir tipologias turísticas. 116 Discurso Individual • Os elementos materiais em comum (viagem, hospedagem, comércio e artesanato) são insuficientes para uma caracterização mais profunda do turismo religioso. A interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, desvelando sua polissemia. Só uma profunda investigação, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo pode responder a mediação turismo e religião. CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA Discurso Individual: “Peregrinos e turistas possuem as mesmas motivações, faltando aos profissionais do turismo desenvolver estratégias de atração, bem como instalar infra-estrutura para que se possa atingir a sustentabilidade do negócio.” FIGURA 5 - ANCORAGEM DE CHRISTIAN D. M. DE OLIVEIRA TURISMO RELIGIOSO FÉ: peregrina peregrinação e turismo religioso possuem um elemento simb ó lico: a f é TURISMO:e peregrino peregrino turista e turista são o mesmo são o mesmo indiv íduo ADMINISTRAÇÃO: turismo planejado turismo planejado e sustentado e sustentado TURISMO: turismo religioso é turismo turismo religioso de massaé turismo de massa 117 EDIN SUED ABUMANSSUR Discurso Individual: “A peregrinação é fenômeno religioso tanto quanto turístico, mediada pelo mundo do trabalho, assim, o turismo religioso tende a desconsiderar as motivações religiosas da viagem e se concentrar no deslocamento e nas necessidades que este traz em termos de estrutura de transporte, hospedagem e alimentação.” FIGURA 6 - ANCORAGEM DE EDIN SUED ABUMANSSUR TURISMO TURISMO RELIGIOSO peregrina ção também é lazer turismo e religião têm as mesmas motivações motiva ções e necessidades f ísicas na atualidade peregrina ção tem relação com pobreza material materi 118 REINALDO DIAS Discurso Individual: “A opção religiosa é decorrência de uma livre escolha por uma determinada crença, e, é acompanhada por uma pausa da rotina para o lazer. Buscando atender as necessidades durante a experiência, o município implantará equipamentos, transportes, produtos e serviços, gerando efeitos econômicos e positivos do turismo religioso.” FIGURA 7 - ANCORAGEM DE REINALDO DIAS TURISMO RELIGIOSO RELIGIÃO E TURISMO agregar necessidades de infra-estrutura aos peregrinos o religioso enquanto uma escolha de lazer transformar as atividades religiosas em turísticas turistificar os locais religiosos 119 EMERSON J. S. DA SILVEIRA Discurso Individual: “Os elementos materiais em comum (viagem, hospedagem, comércio e artesanato) são insuficientes para uma caracterização mais profunda do turismo religioso. A interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, desvelando sua polissemia. Só uma profunda investigação, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo pode responder a mediação turismo e religião.” FIGURA 8 – ANCORAGEM DE EMERSON J. S. DA SILVEIRA RELIGIÃO E TURISMO é preciso criar uma hermenêutica é preciso uma investigação mais profunda a religião é influenciada pelo mundo do trabalho a religião transforma -se com o turismo a religião torna-se espetáculo A partir dos Discursos Individuais dos autores procedeu-se a construção dos Discursos Coletivos. Foram colocados em dois Quadros (a seguir) os quais comportam as duas principais visões encontradas nos quatro autores, ou seja: três deles possuem uma visão quase coincidente aos quais identifiquei como: “Sobre 120 Turismo Religioso (Turismo Religioso)”. O quarto autor destoa dessa visão e por isso foi identificado como: “Sobre Turismo Religioso (Religiosidade)”. A análise procurou sempre identificar se nas afirmações os autores compreendiam os significados do que se estavam descrevendo e se os mesmos correspondiam de forma clara e correta na interpretação dos significados de algumas situações descritas. Ao juntarmos todas as ‘falas’ majoritárias dos autores para uma avaliação sobre o que entendiam sobre o modelo de turismo religioso, obtivemos os seguintes Discursos Individuais: QUADRO 1 DSC - Sobre Turismo Religioso (Turismo Religioso) Peregrinos e turistas possuem as mesmas motivações religiosas que decorrem de uma livre escolha por uma crença mediada pelo mundo do trabalho, e, é acompanhada por uma pausa da rotina para o lazer quando são desconsideradas as motivações religiosas da viagem. Os profissionais do turismo devem desenvolver estratégias de atração, instalar infra-estrutura para atender as necessidades de transporte, hospedagem e alimentação, implantar equipamentos, transportes, produtos e serviços para que se possa atingir a sustentabilidade do negócio gerando efeitos econômicos positivos. QUADRO 2 DSC - Sobre Turismo Religioso (Religiosidade) Só uma profunda investigação, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo pode responder a mediação religião e turismo, pois, a interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, pois os elementos materiais em comum (viagem, hospedagem, comércio e artesanato) são insuficientes para uma caracterização mais profunda do turismo religioso. O que ficou também como algo forte quanto ao modelo de discurso adotado entre os autores, foi a quase unanimidade sobre as mudanças decorrentes da religiosidade e a implantação dos elementos do turismo entre as ações das congregações e as práticas desenvolvidas nos locais de atração religiosa. Segundo os autores essas mudanças definem as atuais relações entre fiéis e turistas, a partir da inserção dos turistas nos rituais religiosos, pois, chama atenção que o espaço simbólico, antes tão definido, agora é disputado também pelos turistas, que não se incomodam em entrar e sair dos ambientes e das atividades ritualizadas, de acordo com suas próprias vontades. 121 Entendem que não ocorre apenas uma mudança de ‘falas’ sem sentido na religiosidade, mas sim uma mudança de discurso. Os moradores passam a se relacionar com o evento de outros modos, pois, o ritmo alterou-se completamente. O turismo é sinônimo de agito e a rotina diária é quebrada com a atmosfera religiosa de contrição e silêncio sendo parcialmente dissolvida e contagiada pelo sentido histórico, como apenas mais um espetáculo cultural, sendo que, ao contrário dos espaços definidos nas ações ritualizadas, os turistas circulam com desenvoltura e sem cerimônia por todos os espaços e locais. A diversidade de experiências dos fiéis durante sua movimentação foi uma percepção unânime dos autores, porém muito mais do que isto se pode perceber que esta mudança passa não apenas pela quantidade das atividades nas visitações, mas também por transformações de teor cultural, uma vez que antes da implantação desse processo de mudança estrutural pelas Congregações, raramente ocorriam tais atividades. Isto indica uma mudança cultural forte e decisiva na dinâmica das atividades destes fiéis. Antes de tudo, se percebe claramente duas formas distintas de análise no grupo de autores sobre a implantação do turismo: primeiro concentrando sua análise na administração do espaço do sagrado como se o espaço religioso prescindisse sempre do planejamento antecipado para poder existir; o segundo identificado pelos autores como economicista. É o que atenta mais profundamente para os aspectos da infra-estrutura turística e os potenciais atrativos turísticos nos quais concentraram suas análises integralmente, enquanto que outro não tocou no assunto, ou ao menos desconsiderou sua importância no processo religioso, particularmente perpassando sua análise nos elementos da oferta e da infra-estrutura turística (hotéis, restaurantes, transportes, etc.). Ainda no que se refere aos objetivos economicistas de análise do turismo retirados das percepções dos discursos dos autores, percebeu-se uma preocupação direta destes apenas com os impactos sócio-econômicos, sendo que, também as perspectivas de solução desses, estão limitadas a esse universo de ação, não havendo menção de atuação junto a diferentes setores. Os autores que possuem um discurso positivo sobre o turismo sempre o apresentam como gerador de impactos positivos capazes inclusive de transformar as tradicionais relações de poder (condição econômica da comunidade, inclusão de novas profissões, serviços, etc.), com poucas possibilidades de crescimento ou de 122 cambio dessa condição. Isso também demonstra que os discursos dos autores valorizam sobremaneira os papéis dos administradores, dos gestores públicos e privados, que devem primar pela qualidade, predisposição para novos conhecimentos, e, principalmente, estarem abertos frente às novas exigências dos visitantes. Ainda assim, o grupo de autores concebe um discurso composto de perspectivas bastante favoráveis para o futuro do turismo nos ambientes da religiosidade popular, bem como, este modo de pensar e conceber o turismo entendem são promissores e demonstram a viabilidade do modelo turístico adotado nas localidades estudadas, e isso não significa dizer que o trabalho a ser realizado pelos poderes públicos e empresários não terá problemas a ultrapassar. De uma forma geral, entendem que se pode considerar que o modelo de turismo proposto nas localidades, vem alcançando objetivos, visto serem Aparecida-SP e Nova Trento-SC, consideradas referências para projetos da natureza religiosa em outras localidades do país. Percebe-se, no Quadro abaixo, que claramente o grupo de autores apresentados tem tendência a admitir que a religiosidade encontra-se imersa num universo turístico identificado como turismo religioso. Estas percepções, embora causem uma transformação na análise tradicional dos locais de movimentação religiosa, permitem constatar diferenciadas análises que destacam desde ações de planejamento das políticas privadas e públicas, considerações sobre os efeitos físicos, socioculturais e psicológicos, até o crescimento sustentável da atividade turística. Cada autor é detentor de diferentes conhecimentos relacionados a vários momentos do seu saber específico, como também estes conhecimentos estão relacionados às suas áreas de formação acadêmica e atuação profissional. Dominar as informações sobre tais elementos torna-se importante para que se possa entender a lógica de raciocínio do pensamento de cada autor, visto que, essa lógica determinará a inclusão ou exclusão de diferentes categorias de análise e de interpretação das práticas dos visitantes religiosos. Esse conhecimento técnico específico dos autores faz também com que depreciem ou sobre-valorizem diferentes aspectos encontrados nas movimentações religiosas, o que ao final, permite um amplo espectro de categorias de percepção, análise e interpretação e, por outro lado, transforma as informações em resultados muitas vezes contrários e 123 distintos. Segundo os discursos identificados nos autores, a composição do universo do turismo religioso se dá em função de diferentes aspectos, pois reforçam o foco nos aspectos do consumo ao se concentrarem nas afirmações que o município com atrativos e potenciais para o desenvolvimento do turismo, especialmente o religioso, poderão conquistar benefícios sociais, econômicos e ambientais. Porém, dependerão das políticas de planejamento territorial, além dos planos de turismo, transformando as características encontradas nos diferentes locais precisam ser disponibilizadas ao consumo turístico. Esses diferentes questionamentos realizados pelos autores em suas ‘falas’, depois de agrupados por conteúdo de análise, levaram aos seguintes DSC: QUADRO GERAL DSC - Sobre Turismo Religioso Peregrinos e turistas possuem as mesmas motivações religiosas que decorrem de uma livre escolha por uma crença mediada pelo mundo do trabalho, e, é acompanhada por uma pausa da rotina para o lazer quando são desconsideradas as motivações religiosas da viagem. Os profissionais do turismo devem desenvolver estratégias de atração, instalar infra-estrutura para atender as necessidades de transporte, hospedagem e alimentação, implantar equipamentos, transportes, produtos e serviços para que se possa atingir a sustentabilidade do negócio gerando efeitos econômicos positivos. Porém, só uma profunda investigação, abordando a rede de fluxos de romarias e peregrinações adentradas pelo turismo/consumo pode responder a mediação religião e turismo, pois, a interpretação precisa ser exercida sobre a forma, significado, visão de mundo que perpassa o ambiente e pessoas que o animam, pois os elementos materiais em comum (viagem, hospedagem, comércio e artesanato) são insuficientes para uma caracterização mais profunda do turismo religioso. Apresentando de maneira diferente o Discurso Coletivo obtido nos discursos acima, tem-se uma imagem em que a religiosidade estaria composta integralmente 124 pelo turismo religioso, e dentro dele também estariam todas as possíveis atividades realizadas pelos fiéis organizadas em: LAZER, DIVERSÃO e PASSEIOS (cor amarela); MUDANÇAS ECONÔMICAS (cor verde); e RELIGIOSIDADE e FÉ. Há nos discursos uma indissociação entre todas essas atividades e estruturas físicas, não cabendo mais suas separações como ocorria no passado. FIGURA 9 – COMPOSIÇÃO DO TURISMO RELIGIOSO TURISMO RELIGIOSO INFRA-ESTRUTURA; POTENCIAIS; ATRATIVOS; MUDANÇAS ECONÔMICAS LAZER; DIVERSÃO; PASSEIO; PAPÉIS INDEFINIDOS RELIGIOSIDADE; FÉ; PAPÉIS DEFINIDOS No geral, porém, os discursos dos os autores se direcionaram a presença de visitantes na condição de peregrinos-turistas, isto é, a existência dos dois papéis que convivem conjuntamente, quando não inteiramente turistas relacionados apenas com o lazer (em amarelo), a diversão o passeio e os papéis indefinidos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diversas são as constatações realizadas nos textos dos autores do turismo, assim, nas considerações a seguir, se desenvolvem algumas percepções afins aos elementos encontrados nos discursos, partindo-se de elementos mais genéricos que tomaram parte dos discursos para após, debruçar-se sobre os mais específicos. Os autores e trabalhos aqui analisados, que versam com mais profundidade o turismo religioso, são baseados em análises distintas ou mesmo opostas, sendo que a maior parte, não tem como ancoragem os deslocamentos religiosos ou religião, mas o turismo, e pro que não dizer a administração. Aspectos gerais merecem considerações, o primeiro que se observa é que existe uma gama de diferentes ciências a produzirem constantes e contínuas análises e interpretações relacionadas aos diferentes segmentos (ecoturismo, aventura, cultural, etc.) e setores das Ciências Sociais Aplicadas (gestão, administração, transportes, hospedagem, etc.); e, em segundo, ocorre uma aparente e sistemática negação dessas informações quando da aplicação dos autores analisados, sobre uma determinada realidade religiosa. Basta ver a quantidade de obras relacionadas ao turismo que são sistematicamente ignoradas pelos autores do turismo, os quais, por exemplo, parecem desconhecer as características dos fiéis indicadas diversas vezes no corpo da Tese. Isso também ocorre porque existem poucas pesquisas de campo que sirvam de base para as afirmações dos autores, o que leva a outra constatação: percebeu-se que os textos de diferentes autores acabam por reproduzir as afirmações de poucos e repetidos autores, ocorrendo o que chamei de auto-citação e auto-aceitação, isto é, o número total de autores que tratam de turismo religioso é pequeno (aproximadamente 50 autores), e dentre estes é comum ocorrer que um cita aos outros e vice-versa. Percebe-se nos autores do turismo a ausência de um referencial teórico e conceitual que ultrapasse as questões mais objetivas das Ciências Sociais Aplicadas para a percepção mais subjetiva da religiosidade, visto que as orientações seguidas pelos estudiosos do turismo são àquelas genéricas a muitos outros segmentos turísticos, não ocorrendo explicações consistentes às medidas tomadas para sugerir o planejamento turístico específico. Isso tem provocado uma situação conflitante, pois, se buscam justificar em todas as atividades religiosas apenas as existências de 126 elementos turísticos gerais, suprimem explicações do que seria a fé, a religiosidade e o religioso nas ações dos fiéis, para, a partir disso, construírem um consistente arcabouço teórico que justifique ações turísticas. Entende-se que alguns discursos conseguem claramente caracterizar diferenças e semelhanças entre os personagens que compartilham os espaços religiosos populares. Em sua maior parte, não indicam categorias que comportem a turistas, peregrinos, visitantes ou fiéis, pois para os autores, são os mesmos indivíduos que se revestem de todos esses papéis. A partir dessas colocações é necessário lembrar que além das motivações para os deslocamentos, outro discurso rege a ancoragem dos autores do turismo sobre a temática nos ambientes religiosos: estes vêm enfatizando continuamente que somente através do desenvolvimento sustentável é que se podem aumentar as possibilidades de atratividade turística. Neste sentido, é possível afirmar, que os autores depositam esperanças na estruturação do ‘turismo religioso’, isso porque as condições atuais encontradas são consideradas pejorativas (ausência das empresas turísticas; ausência do planejamento turístico; ausência dos poderes públicos; grandes aglomerados humanos; consumo de imagens; excursões bate-e-volta em ônibus e baixo gasto per capita. Como estratégias para isso, apontam a ampliação dos canais de comercialização e das vendas dos componentes da cultura, bem como a inclusão de novos atrativos locais, indo muito mais além da religiosidade atualmente estabelecida, mesclando-a também com produtos ligados a natureza. Isso porque para os autores a presença de aglomerados humanos nos locais religiosos, leva primeiramente a instalação do turismo de massa, aspecto que é desprezado por todos, e porque também constatam nesse tipo de movimentação dos visitantes, além dos incômodos causados pela sua presença (barulho, lixo, brigas, festas, etc.), um pequeno incremento financeiro na economia local. Porém, fica dos discursos dos autores do turismo que atuam nos ambientes religiosos a percepção de que a comunidade (ou seja, os fiéis e os turistas), não é chamada a participar dessa interação esperada, fato que nega o princípio do sustentável, uma vez que não foram encontrados resultados de pesquisas dos autores das Ciências Sociais Aplicadas, sobre aspectos como: religião e lazer; religiosidade é sinônimo de viagem; religiosidade é praticada nas férias, feriados ou 127 fins de semana, ou mesmo outros mais como aqueles vistos na pesquisa da EMBRATUR. Assim, pode-se dizer que os discursos indicam antes de tudo, que a prática do ‘turismo religioso’ contribui com a sustentabilidade levando ao crescimento das comunidades, não apenas na esfera produtiva e econômica, mas elevando-o a condição de um sujeito social e cultural, que mediante a possibilidade do resgate dos atributos positivos do turismo e da realidade, cria e implanta nas comunidades, fazendo crer que, a religiosidade não é mais capaz de desenvolver tais características, ou que a mesma não tenha realizado essa função nos séculos precedentes, podendo ser substituída pelo turismo. Dentro desta percepção, sugerese que se devam aprofundar bem mais a compreensão sobre as características sócio-culturais que interferem diretamente na definição da presença de pobres nos ambientes da religiosidade católica popular, visto ser este tema caro demais para os planejadores turísticos e, ser um argumento continuamente utilizado para se explicar a ausência de atividades turísticas do setor, também se deve trabalhar com mais afinco nas percepções dos discursos dos autores quando, de um lado relacionam os fiéis à pobreza material e a ignorância cultural, e de outro, quando relacionam a necessidade de inclusão de turistas com maior poder aquisitivo junto aos ambientes da fé. Transformar essa realidade dos visitantes é muito mais complexo do que as afirmações que o planejamento turístico faz como as que indicam a inclusão simples de novos serviços e atrativos, que levariam a uma mudança de perfil dos visitantes. Aos autores também ocorre à existência do turismo de massa junto da religiosidade popular relacionada à formação urbana da sociedade brasileira, generalizada como elemento preponderante e majoritário, o que, porém, não explica todas as realidades e todas as transformações da religiosidade católica brasileira. Os autores do turismo analisam a interação dos visitantes, somente junto a alguns santuários católicos, sobre os quais são desenvolvidas suas análises, o que demonstra, a meu ver, as poucas experiências empíricas dos autores, que não comportam efetivamente o universo de religiosidade católica popular. Assim, percebe-se que, se em parte forem verdadeiras as afirmações sobre mudanças ocorridas nas dinâmicas dos visitantes (fiéis e turistas) nos santuários, a grande maioria dos locais de ocorrência das movimentações religiosas, não está sendo 128 considerada nas pesquisas, mas apenas estão sendo colocadas no universo religioso, como se fosse um único espaço social. Além disso, analisam exteriormente as movimentações religiosas, isto é, a posição deles é feita a partir de interpretações pessoais, desenvolvidas sem que haja uma busca daquelas informações originadas e disseminadas pelos órgãos responsáveis (pelas Congregações), e isso se entende, gera uma visão delimitada e superficial, desprendida das simbologias peculiares a cada atividade realizada, visto que este é um aspecto da diferenciação entre aqueles que estudam o turismo e os que se concentram na religiosidade e na fé: ao utilizarem o termo religioso em vez de usar a religiosidade popular, entende-se que os autores do turismo, nem apontam estudos da religiosidade, menos ainda a religião, visto não compreendem esses processos em níveis mais profundos do que aqueles que vivenciam empiricamente, e que vêm servindo de baliza para suas posições pouco científicas, o que denota a ausência de uma visão holística dos mesmos no processo. Para a supressão dessas lacunas, sugere-se que os autores do turismo aprofundem pesquisas na direção de conhecer os valores disseminados pela Igreja Católica, pelas Congregações bem como pelos grupos religiosos, enquanto parte das estratégias de atração dos fiéis, face que as mensagens por elas produzidas e utilizadas, interagem diretamente com o público desejado. É preciso lembrar que as atuais estratégias de atração religiosa vão desde as mais tradicionais, (missas, bênçãos, casamentos, batizados) que existem já há muitos séculos, até as mais recentes que passam pelas rádios, TVs e pela internet, (como os Carismáticos, Canção Nova, Novenas, Romarias, entre outras), que ocorrem continuamente tanto na residência dos fiéis, como nos momentos onde ele está relacionado ao cotidiano doméstico. Quando discutem sobre os significados ao termo turismo se percebeu que, por mais que afirmem a necessidade de observar o respeito às comunidades onde devem ser inseridas as ações e atividades turísticas, não se percebeu aprofundamento sobre esses indicativos que direcionassem estratégias de atuação ou de ações efetivas do turismo em distintos locais de visitação religiosa. Ao observar-se a ancoragem dos autores a respeito das informações geradas pelas suas pesquisas que possuem dos visitantes (fiéis e turistas) nos ambientes da fé, percebe-se que os mesmos não dão o devido valor, ou não querem aprofundar-se nestes aspectos, o que seria o ideal para a inserção de ações sobre os visitantes. 129 Entende-se, que inicialmente é necessário a cada autor balizar a discussão sobre turismo antes de qualquer consideração, em especial, quando atuam conjuntamente com diferentes visitantes, como é o caso do ‘turismo religioso’ nos ambientes da religiosidade católica popular, onde deveriam expressar em seus textos, um conjunto de conhecimentos específicos pertinentes às práticas e estratégias diferenciadas desse ambiente. Essas ancoragens dos autores as motivações, entendem-se são parcias, devido à relação que tais atividades possam representar frente à sua formação acadêmica, pois, não percebem ou não explicam as mudanças ocorridas nas atividades oficiais (nos elementos reforçados impostos pela Igreja) tanto quanto nas escolhas pessoais, mais do que enquanto uma escolha de opções realizada individualmente. Se forem levadas em consideração as afirmações, se poderia sugerir que os estudiosos da relação entre o turismo e a religiosidade católica popular deveriam cercar-se de elementos mais consistentes para afirmarem tanto sobre as Congregações que administram os locais da religiosidade, quanto sobre os componentes que poderiam influenciar as escolhas e as atividades dos visitantes. Outra característica identificada, descrita, e muito valorizada pelos autores do turismo, é de que todos os visitantes possuem os mesmo motivos para se deslocarem aos ambientes religiosos, porque praticam as mesmas atividades, porém, o fazem sem apresentar as pesquisas que produziram tais informações para que se possa confirmar se essa visão não decorre apenas do viés consumo/motivação de sua formação acadêmica, ou mesmo de suas experiências empíricas sobre a religiosidade. Considera-se importante apresentar quais categorias são identificadas em todo este processo e de que forma os autores do turismo o fazem para sugerir a inclusão de estratégias junto a esse público diferenciado, visualizando nessas novas relações, uma percepção talvez mais subjetiva sobre o campo da prática profissional, hoje bastante delimitada pelo apenas pelo planejamento turístico. Assim, os autores do turismo, a partir de seus elementos de formação nas Ciências Sociais Aplicadas (administração, planejamento, gestão, rentabilidade, lucro, etc.) desprezam diversos outros valores presentes nas Ciências Sociais, na Geografia ou na Ciência da Religião, tanto quanto os valores simbólicos daquelas pessoas que compõem os visitantes dos ambientes religiosos, bem como com aqueles. As 130 categorias mais utilizadas nos discursos dos autores para explicarem a utilização do termo turismo religioso, passa pelos termos como planejamento, planejamento estratégico, demanda, oferta, preços, tendências, comunicação, economia, sustentabilidade, efeitos econômicos, atividades turísticas, agências, entre outras, bem como, nos diferentes autores também aparece, em maior ou menor grau, a incidência das estratégias de marketing do local visitado para a atração de visitantes, tanto quanto para a religiosidade católica popular, Porém, se esquecem da diversidade dos visitantes que se utilizam dos ambientes da religiosidade popular, e, em função da obtenção dessas informações, é que o marketing turístico dificilmente interage com elas. Cabe lembrar a ausência de conhecimento e de compreensão dos autores do turismo, sobre o processo de evolução das práticas nos ambientes religiosos, principalmente nos santuários (os ritos indicados por Durkheim), elas mesmas, em contínuo processo de adaptação interna, são realizadas a partir de interesses de cada uma das congregações ou da própria igreja. Portanto, é preciso conhecer os fiéis desde o momento em que, no seu cotidiano, se forma em sua mente a imagem dos locais religiosos, até o deslocamento, visto que a Igreja já o faz há muito tempo. Deveras preocupante é observar que as características indicadas e apresentadas pela pesquisa do Ministério do Turismo, muitas delas relacionados às percepções dos viajantes populares sobre os significados de termos como passeios, viagens, excursões e turismo, não constam das preocupações dos autores do turismo aqui analisados, pois, as características identificadas na pesquisa fogem literalmente aos valores e conceitos acadêmicos que norteiam as discussões dos autores analisados nesta Tese. Portanto, devem ser conhecidas a fundo, para que se possa efetivamente desenvolver ações que atinjam a estes visitantes com as estratégias do turismo, evitando-se repetir a posição atual de quase todos os autores que se ocupam dos ambientes religiosos: para eles, os visitantes que se encontram nestes locais, estão na condição de turistas religiosos e são possuidores de um conhecimento que os coloca ao alcance das estratégias do turismo, sendo que basta instalar a infra-estrutura turística para que as transformações ocorram. Outro aspecto das afirmações dos autores é que entendem ocorrer a substituição generalizada dos fiéis pelos turistas em todos os ambientes religiosos, porém, nenhum autor discrimina pesquisas científicas que colabore com essas afirmações, 131 e isso favorece ainda mais a confusão em torno tanto das afirmações utilizadas, bem como dos símbolos religiosos de uso corrente. Isso se entende dificultará a implantação das estratégias turísticas, pois, muitos fiéis ainda não estão inseridos nas práticas aceitas como ideais pelo turismo, isto é, não utilizam o agenciamento, os transportes, a hospedagem e as estruturas de serviços, como gostariam os planejadores turísticos e os autores. De outro lado as citações e auto-citações entre os autores não tem contribuído para o conhecimento acerca da relação entre fiéis e turistas nos ambientes religiosos. Percebeu-se uma ancoragem dos autores, que vai do turismo para a religiosidade, e isso os leva à ausência de percepção mais ampla sobre as dinâmicas existentes nos ambientes da religiosidade. Esta ausência decorre, principalmente, porque a base de percepção e informações utilizadas em suas análises vem do mercado, e, é centrada sempre em projeções de crescimento do turismo, das viagens e dos atrativos diferenciados, o que gera apenas a percepção da possibilidade de receita econômica, que dificilmente é desprezada pelos administradores públicos. Estes administradores públicos aliados aos autores vêem principalmente os benefícios econômicos trazidos pelas movimentações turísticas, ainda mais sendo elas comunidades locais, onde, qualquer mudança econômica é de grande importância, e assim inferem a movimentação religiosa, uma capacidade econômica que até o momento, entende-se, não foi confirmada nos diferentes ambientes religiosos brasileiros. Porém, o que os autores pouco ou nada desenvolveram em suas análises é o fato que praticamente nenhuma, ou quase nenhuma ação dos setores turísticos oficiais (poderes públicos, redes internacionais, agências de viagens, operadoras turísticas, campanha de marketing, pacotes, roteiros e atrativos, etc.), incide sobre os ambientes da religiosidade católica popular. Esses serviços são praticados por leigos no turismo oficial (organizadores de excursões bate-e-volta, grupos religiosos, fiéis em pequenos grupos paroquiais, etc.), fato identificado pelos autores, mas não aprofundado em suas considerações. Noutras palavras o que se vê nos ambientes religiosos é a inexistência da atuação de empresas turísticas estabelecidas formalmente, apesar das afirmações indicarem que o turismo e os turistas já tomaram conta destes espaços. Assim, na ancoragem dos autores, diferentes elementos locais (como a 132 cultura ou a natureza) passam de maneira simples a compor o rol de atrativos disponibilizados ao turismo, como ocorre com a religiosidade, e com as movimentações religiosas nos espaços dos santuários. Se num primeiro momento os autores apresentam argumentos que poderiam ser utilizados pelo turismo para alavancar ou incluir um elemento religioso de determinada comunidade na oferta turística, os quais são por eles considerados positivos, logo após, os autores apresentam restrições diversas (como as próprias dinâmicas da religiosidade católica popular em questão), as quais criam barreiras que devem ser transpostas em nome do planejamento, e da padronização exigida dos consumidores turísticos, sendo que essa passa quase sempre pela transformação dos fiéis em turistas. Ou seja, os autores não conhecem os limites existentes nos discursos que perpassam os ambientes religiosos (o universo dos valores simbólicos religiosos onde estão imersos os fiéis, os papéis sociais que vivem as aspirações e objetivos a serem alcançados, etc.), mas indicam que diversos atrativos e práticas turísticas seriam viáveis; indicam de forma preconceituosa os limites impostos pela religião vividos pelos que perpassam os ambientes religiosos, mas não se aprofundam em justificar suas existências (seus ritos e mitos Durkheiminianos - grifo meu), pois, apenas os descrevem esquecendo-se de agregar às suas argumentações os elementos motivacionais tantas vezes identificados superficialmente, como propulsão às movimentações religiosas das pessoas. Entende-se que este é um limite a ser transposto na construção da nova relação entre turismo e a religiosidade, pois, os discursos admitem que a igreja perdeu a centralidade na definição dos valores na sociedade, os quais vem sendo sobrepujado pela ciência e pelo mercado, face isso, entendem os autores, houve a introdução do turismo nos espaços da religiosidade popular, porém, não indicam como que esse processo ocorre, tanto nas estruturas físicas (as mudanças nos transportes e hospedagens, por exemplo), como, nos valores e práticas das Congregações, a partir de Igreja em Roma, bem como não menos importantes as transformações nos fiéis e nos seus valores religiosos, mas, apenas descrevem-no relacionado ao lazer. Entende-se, porém, que não é o turismo que possui essa capacidade de transformação, mas sim que ele é mais um dos componentes colocados dentro das transformações das sociedades pelas práticas relacionadas a estruturação decorrente do capitalismo. 133 Percebe-se nos discursos dos autores certa facilidade para falar da possibilidade de existência de um modelo único de estruturação do ‘turismo religioso’ nos diferentes locais onde ocorre a religiosidade, uma vez que essa visão baseia-se na implantação de componentes da infra-estrutura turística, uma vez que entendem, esses investimentos visam mais programar um novo empreendimento dentro das mudanças recentes da religiosidade, para fins econômicos ou de lazer. Nessa lógica os autores não aprofundam seus estudos em análises documentais das Congregações, bem como sobre as influencias que vem praticando sobre a religiosidade popular, ou sobre os diferentes locais que compõem o universo da religiosidade católica (festas, romarias, procissões, novenas, igrejas, santuários, etc.). Entende-se, que essas manifestações são passíveis de sofrer interferência do planejamento turístico a partir do momento que os autores do turismo comprovem as suas informações sobre as transformações e aprofundem suas interpretações não somente sobre as atividades realizadas pelos fiéis, mas também sobre os antigos e novos significados que possam estar vigorando nos espaços religiosos, que não condizem com as generalizações que se percebe, nos diferentes autores do turismo. Será necessário aprofundar como se deram as transformações em todos os diferentes locais de interação turismo e religiosidade, pois, essas não são iguais e não se deram da mesma maneira em todos os locais, visto que, cada sociedade possui diferentes elementos que interferiram e interferem em suas dinâmicas, em suas escolhas de grupo, e em muitas delas, certamente não ocorrem condições físicas, nem interesse por parte das comunidades para a inclusão do turismo. Parte dessa percepção poderia colaborar na discussão sobre turismo em ambientes da religiosidade, quando se percebe na fala dos autores que na atualidade uma parcela dos fiéis deixou de participar efetivamente dos ambientes da fé, passando a ser expectador apenas (por exemplo, ao ver uma procissão ‘passar’), falta à percepção destes em aprofundar estudos sobre os diversos papéis e significados possíveis dentro dos ambientes religiosos tradicionais e da religiosidade católica popular. Percebo que essa condição efetivamente ocorre, porém, nossa função enquanto cientistas sociais produtores de conhecimento, é também o de quantificar essas transformações através de dados obtidos mediante trabalhos de campo, senão, continuaremos a teorizar sobre condições irreais. Entende-se que essas afirmações somente enfatizam aquilo que considero 134 uma das controvérsias dentro das discussões teóricas atuais dos autores do turismo: para os autores o turismo religioso está substituindo as formas tradicionais de lazer, através das viagens, assim, toma corpo a percepção de que o turismo se torna cada vez mais uma necessidade para o bem-estar humano, sobre os quais os autores percebem enquanto ambientes religiosos, porém, o que não percebem é que nesta dinâmica tanto o lazer como o turismo vem se desenvolvendo individualmente no capitalismo, pois, quem pratica lazer não o faz mais em grupo ou em comunidade, mas sim sozinho e independente dos que os cercam, mesmo que cercado pela multidão, onde os elementos culturais do grupo social não mediam as atividades. Os autores não percebem que este fato é contrário as práticas vêem presentes nos ambientes religiosos, os quais no meu entendimento estão ligados a manutenção da relação com santo de devoção que a necessidade individual de lazer. Além disso, para muitos fiéis ainda é importante o espírito de comunidade, que não se forma apenas nos instantes em que se encontra nestes ambientes, nos quais se esquecem os papéis sociais cotidianos, mas que se inicia bem antes de sua saída para a viagem, na sua vida cotidiana, centrada naquilo que Elíade chamou de sagrado e profano e Durkheim de ritos e mitos, elementos que explicam e dão significado aos atos praticados nos ambientes religiosos, de forma muito mais profunda que a análise dos atos em si. Também, poderiam os autores das Ciências Sociais Aplicadas desenvolverem maior aproximação com a percepção das teorias de Elíade e de Durkheim, visto que os evocam e concebem distinções entre as motivações religiosas e as ações relacionadas com as atividades festivas dos visitantes, as quais são consideradas como lazer, independentes da sua correlação com outras atividades religiosas realizadas no cotidiano e longe dos ambientes religiosos, pois, esses aspectos não perpassam as preocupações dos autores do turismo que se interessam pela religiosidade. Entende-se, também, que os autores utilizam o termo turismo religioso, não conseguem distinguir todos os diferentes elementos que dão suporte aos grupos que convivem paralelamente no universo religioso, muito menos aos possíveis turistas que lá se encontram, e sobre os quais pretendem atuar. Serve esse estudo de recorte para descrever as necessidades do domínio de múltiplos e variados conhecimentos que deverá possuir a equipe de trabalho que quiser desenvolver ações relacionadas ao turismo, junto ao público que circula nos 135 ambientes religiosos populares. Se percebe o quanto é importante ao cientista que se debruça sobre o universo da religiosidade católica popular, evitar que, as análises principiem sob o aspecto da discriminação através de um discurso que pode se popularizar como verdade definitiva, provocando ainda mais para estigmatizar um grande grupo componente da sociedade, sobre o qual ainda não se possui elementos de consumo turístico que pouco permitam inferir sobre os conteúdos culturais historicamente produzidos e incorporados, e, portanto, de lenta transformação e mudança, que exigem mais do que apenas marketing turístico. Entende-se que o termo turismo religioso poderá ser utilizado, quando a academia perceber quais são as necessidades físicas e quais são todos os valores espirituais dos fiéis, das congregações, tanto quanto dos turistas que circulam nos ambientes da religiosidade popular, porém, se entende que, ainda não se sabe até o presente momento, quais são essas características e as efetivas necessidades desses diferentes visitantes, devido ao fato que, não existe um campo de conhecimentos que tenha sido delineado a partir de pesquisas científicas, sendo então os resultados aceitos pelos autores das Ciências Sociais Aplicadas como sendo pertinentes aos estudos da relação turismo e religiosidade. Portanto, desenvolver um campo específico de conhecimentos, que perpasse a existência de um conjunto de valores definidos, os quais compõem um código de valores religiosos dos visitantes dos santuários é imprescindível, é uma etapa necessária na evolução dos estudos sobre o tema. Porém, é necessário tomarmos posição sobre a exigência de uso do termo a partir de uma profunda construção teórica, mesmo que para muitos, isso pareça improdutivo e apenas mais um viés acadêmico, no entanto, percebo que o debate acadêmico precisa mediar o conhecimento sobre o tema através da construção de leis gerais que consigam interpretar e explicar as dinâmicas dos ambientes religiosos, para que com isso se possa impor respeito aos universos fora da academia, os quais estão relacionados superficialmente a ela, visto que a discussão acadêmica tem levado ao desenvolvimento de interpretações, as quais foram, e estão sendo apropriadas continuamente pelo mercado, e este, não prescinde de profundidade teórica. Para finalizar, compreendo que na atualidade o termo turismo religioso não é imprescindível para a construção do conhecimento sobre a relação entre o turismo e 136 a religiosidade católica popular, visto que os autores buscam mais a definição de estratégias de remodelação das dinâmicas dos fiéis, rechaçando certas atividades entendidas como negativas ao turismo ou que a ele se aproximam, mais do que aprofundar estudos explicativos sobre as transformações ocorridas. Enquanto isso não acontecer, entendo que devemos usar apenas o binômio turismo e religiosidade quando nos reportarmos às nuanças das relações desse tema. REFERÊNCIAS ABUMANSSUR. E. S. Religião e turismo: notas sobre as deambulações religiosas. In ABUMANSSUR, E. S. (org), Turismo religioso: ensaios Antropológicos sobre religião e turismo. Campinas, SP: PAPIRUS, 2003. Pág. 53-68. ALVES-MAZZOTTI, A. J.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa qualitativa e quantitativa. São Paulo: Pioneira, 1998. 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