XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC 2º SEMINÁRIO NACIONAL DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO ÁREA TEMÁTICA: PLANEJAMENTO TERRITORIAL, GEOGRAFIA ECONÔMICA TURISMO E TERRITORIALIDADE – A regionalização do turismo no Rio Grande do Sul Maximilianus Andrey Pontes Pinent 1 Daniele dos Santos Guidotti Pereira 2 Resumo O presente artigo estabelece uma discussão conceitual referente à temática territorial, distinguindo espaço, território e territorialidade relacionados ao turismo, em especial, ao programa de regionalização do turismo no rio grande do sul. No estudo aqui apresentado objetivou-se analisar os conceitos sob os aspectos holísticos de construção delimitando na compreensão das categorias da geografia para o turismo, com suas variâncias conceituais e diversidade de entendimento e apropriação pelas teorias compostas, desde espaço, passando por território chegando à regionalização. Avançamos para o entendimento das categorias da geografia no turismo, contextualizando o programa de municipalização do turismo e o programa de regionalização do turismo em nível brasil, mas relacionando a sua aplicação no Rio Grande do Sul. Em linhas gerais, concluindo um posicionamento pelo recorte analítico proposto para composição das políticas de ordem participativa que costumam respaldar estratégias como do programa de regionalização que visa a ocupação social do território. Palavras chaves: turismo, regionalização, território, territorialidade, espaço. Abstract En este artículo se establece una discusión conceptual sobre la cuestión territorial, el espacio distintivo, el territorio y la territorialidad en relación con el turismo. Sin embargo, la más importante es la regionalización del programa de turismo en el Rio Grande do Sul, Brasil. En Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul el estudio que aquí se presenta tiene como objetivo analizar los conceptos en los aspectos holísticos de la construcción que delimita la comprensión de las categorías de la geografía para el turismo, con sus variaciones y la diversidad de comprensión y apropiación por teorías compuestas desde el espacio conceptual, pasando por el territorio de venir a la regionalización. Para avanzar en la comprensión de las categorías de la geografía em el turismo, contextualizar el programa de descentralización del turismo em nível de la municipalidade y el programa de regionalización del turismo en el nivel de Brasil, pero en relación con su aplicación en Rio Grande do Sul. En general, cumplir la colocación por el Bacharel em Turismo e discente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional pelas Faculdades Integradas de Taquara -FACCAT, Taquara/RS. [email protected] 1 2 Bacharel em Direito e discente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional pelas Faculdades Integradas de Taquara –FACCAT, Taquara/RS. [email protected] Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC enfoque analítico propuesto para las políticas de composición que normalmente ordenan y respaldan estrategias participativas, como el programa de regionalización destinada a la ocupación social del territorio. Palabras llaves: turismo, regionalización, territorio, territorialidad, espacio. Introdução Turismo e geografia são conceitos que se entrelaçam, já que o turismo se impõe pelo uso dos recortes geográficos e pode ser expresso através da forma de territorialidade que o homem constrói nos espaços que ocupa. Assim, pode-se dizer que Turistificar é usar da cultura e dos espaços geográficos como meio convidativo de apresentação de uma localidade às pessoas que a desconhecem. Para contextualizar as condições que circundam esta afirmação é importante analisar e considerar os conceitos geográficos de comunidade local, com suas formação e perspectivas, de ambiente de convivência regionalizado, bem como as implicações de turistificar. Todos estes termos, isoladamente, podem ter nenhuma representatividade ou sentido para o entendimento de uma localidade, de suas escolhas de trabalho e renda, e de suas determinantes para apreender o turismo como fator de desenvolvimento. Porém, quando analisados em conjunto, a partir da geografia, da geopolítica e das escolhas geoeconômicas, proporcionam uma compreensão mais profunda acerca do tema. O presente artigo estabelece uma discussão conceitual referente à temática territorial, distinguindo espaço, território e territorialidade relacionadas ao turismo, em especial, ao Programa de Regionalização do Turismo no Rio Grande do Sul. Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul O território neste artigo, conceito chave no pensamento geográfico, é motivo de análise pela aproximação que representa entre o saber geográfico e o saber turístico, sendo que este, intrínseca e explicitamente, emprega a tarefa de abarca-lo a partir de uma perspectiva relacional ligada à dimensão do poder e da formação de capital social. Compreensão das categorias da geografia para o turismo Numa demonstração da apropriação conceitual de geografia, o então Ministro do Turismo (Brasil, 2013) interpreta o país como um território de múltiplas paisagens, berço de uma complexa e diversificada territorialidade. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC O turismo, como área das ciências sociais aplicadas, busca referenciais nas outras ciências para comprovar sua usabilidade e, impreterivelmente, utilizou-se dos conceitos da geografia para definir seu emprego. Discorrer sobre território e paisagem é usual desde as primeiras interpretações do que é turismo, ainda quando se tentava traduzir o feito de Thomas Cook, considerado o pai do turismo moderno, que em 1840 promove a primeira viagem organizada da história. É basilar ao entendimento do turismo o resgate dos conceitos advindos da geografia, como região, território, paisagem, espaço, territorialidade e redes, os quais serão sucintamente estudados, sem a pretensão de esgotar-se. Conforme Branco Filho (2010), a relação existente entre turismo e geografia é irrefutável. Segundo o autor não há outra atividade econômica ou prática social que consuma tanto espaço quanto o turismo, motivo pelo qual converte-se uma das práticas mais “genuinamente territoriais e um terreno fértil para análises e/ou estudos de (re)ordenamento sócio espacial”. Coincidentemente, dois renomados autores, Boullón (1995), do turismo, e Santos (2008), da geografia, caracterizam o espaço geográfico como só existente pela intervenção humana e sob o olhar imediato de quem o observa. O turismo é abordado em Santos (2008) com vistas ao entendimento das propriedades de atuação, numa referência aos tempos da divisão do trabalho, no reconhecimento de que cada lugar é teatro de tempos “externos” múltiplos, nos quais o processo social redistribui os fatores envolvidos. E essa redistribuição não é indiferente às condições preexistentes, isto é, às formas herdadas, provenientes de momentos anteriores, nas quais incluem-se as formas naturais e o meio ambiente construído. Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. E é nessa retórica a afirmação de CASTELLS (1983:179) de que “não há teoria do espaço que não seja parte integrante de uma teoria social geral, mesmo implícita”, considerando que: O espaço é um produto material em relação com outros elementos materiais – entre outros, os homens, que entram também em relações sociais determinadas, que dão ao espaço (bem como aos outros elementos da combinação) uma forma, uma função uma significação social. Portanto, ele não é uma pura ocasião de desdobramento de uma estrutura social, mas a expressão concreta de cada conjunto histórico, no qual uma sociedade se especifica”. (CASTELLS, 1983:181). Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC O uso dos espaços é igualmente relevante para os processos sociais, determinando escolhas para o seu uso e consolidando costumes, os quais incidirão nos valores socioeconômicos e na manutenção cultural. Para CASTELLS (1983:182), o espaço urbano é estruturado, ou seja, ele não está organizado ao acaso, e os processos sociais que se ligam a ele exprimem, ao especificá-los, os determinismos de cada tipo e de cada período da organização social. O turismo, como política pública no Rio Grande do Sul, faz disso uma ferramenta auxiliar na especificação das regiões turísticas e dos municípios integrantes de cada uma, considerando, primeiramente, a proximidade geográfica e, depois, a relação da territorialidade construída em cada cidade. Nesse sentido, no vocabulário do turismo destaca-se também a importância da paisagem como referencial na constituição do produto turístico, o qual é concebido pelo recurso natural ou construído e somado ao acesso (atrativo) e à gama de serviços providenciais ao seu uso, conforme avalia o Plano de Marketing do Rio Grande do Sul 2012 –2015 (SETUR/RS, 2012:26). Assim, na descrição da paisagem, tão associada ao sentido do olhar, não basta uma interpretação abreviada, tal como a contida em um dicionário, ao contrário, é imperativo um olhar mais amplo e integrador, reconhecendo e considerando eventuais representações. De acordo com Castro, apud CASTRO (2007:2), “sendo a paisagem o que se vê, supõe-se necessariamente a dimensão real do concreto, o que se mostra, e a representação do sujeito, que codifica a observação. A paisagem resultado desta observação é fruto de um processo cognitivo, mediado pelas representações do imaginário social, pleno de valores simbólicos”. A paisagem apresenta-se, assim, de maneira dual, sendo ao mesmo tempo real e representação, de modo que é possível ao mesmo autor resgatar a interpretação de “um fragmento do mundo sensível tal qual está dotado de personalidade por uma consciência” (LENCLUD apud CASTRO 2007:3). Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. Milton Santos (2002) revisita o conceito de paisagem e o diferencia de espaço explicando que a primeira é composta por um conjunto de formas, as quais se ligam às heranças representativas das sucessivas relações localizadas entre o homem e a natureza, num dado momento. O espaço, por seu turno, refere-se às formas, mas acrescidas da vida que as anima. Conforme citado por Castro (2007), Santos esvazia o conceito de paisagem grifando que não existe dialética das formas enquanto formas, subentendendo-a como sendo “o que é possível de ser abarcada com a visão, destituída da sociedade, possuidora Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC de um caráter histórico em suas distintas materialidades presentes” (SANTOS apud CASTRO, 2007, p. 6). Nessa perspectiva, prevalece a relação espaço versus tempo, quando então são atribuídos valores a paisagem transformada em espaço geográfico. A simples existência da forma não basta. Ao ser usada, passa a ser social, sendo parte da construção de conteúdo, tornando-se, então, espaço. Ainda no tocante à paisagem, Branco Filho (2010), que em sua pesquisa estabelece a relação de geografia e turismo, refere-se ao termo como o mais importante para os profissionais do turismo, acrescentando que se trata do mais instigante e interessante conceito a ser compreendido, desenvolvido e pesquisado, tanto do ponto de vista teórico como na gestão territorial baseada no aproveitamento turístico do espaço. Em sua pesquisa, Branco Filho (2010) destaca as ideias de Boullón, o qual refere uma vasta interdisciplinaridade ao analisar outros conceitos vinculados ao termo “paisagem”, tais como “qualidade”, “percepção/cognição”, “propriedades e componentes sensoriais”, “topofilia”, “tipos e formas”, “promoção e marketing”, “capacidades e limites”, dentre outros, os quais são entendidos como marcantes para o arcabouço conceitual do turismo. Este autor comenta a força da intervenção humana na relação com o espaço utilizado e, principalmente, o fato de planejar o ordenamento físico, de forma transcendental a todos os conceitos geográficos, bem como sua relação com o turismo. O turismo integra este rol de concepções do planejar e requer que se conheça o território (BRANCO FILHO, 2010), que, pela concepção de Girardi (2008) o território é , resultado da impressão do poder no espaço, territorializado pelo sujeito territorial, que é movido pela intencionalidade. As categorias de análise na compreensão do espaço geográfico incluem a paisagem, o território, o lugar e o ambiente, de modo que cada recorte enfatiza uma dimensão da Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul complexidade organizacional, tais como o econômico/cultural (na paisagem), o político (no território), a existência objetiva e subjetiva (no lugar) e a transfiguração da natureza (no ambiente)” (SUERTEGARAY, 2000; SUERTEGARAY, apud GAYER, 2006:2). Oportuna a referência à território que, segundo Suertegaray (2000), o trata do espaço geográfico a partir da concepção que privilegia o político ou a dominação/apropriação. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC Nesse contexto, Raffestin (1993) limita o espaço ao seu significado material, como um espaço social, enquanto Souza (2001) percebe o território como um espaço diferenciado e circunscrito por e a partir de relações de poder, ou seja, o território é entendido como um “campo de forças”. Raffestin (1993:143) destaca o caráter político do território, o qual suporta “o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático em qualquer nível. Ao se apropriar de um espaço, concreta ou abstratamente, o ator ‘territorializa’ o espaço”. Souza (2010), explica que a gênese do território traz intrinsicamente a interrogação de “quem domina ou influencia quem nesse espaço, e como?” (SOUZA, 2001, p. 79). Assim, o território pode ser observado como reflexo de uma área dominada por determinado grupo de pessoas e, por meio deste domínio, a possibilidade de controlar, dominar ou influenciar o comportamento dos demais. Desse modo, as estratégias espaciais utilizadas para a obtenção do referido controle constituiriam a territorialidade. (FONTOURA, 2008). Nesta senda, o poder se manifesta através de táticas e estratégias territoriais, instituindo recortes circunscritos, próprios e delimitados, desenvolvidos a partir de escolhas e enfrentamentos (SANTOS, 1994). Deste modo, para Fontoura (2008), o território possui um papel ativo, dando suporte às ações nacionalizadoras que surgem com as novas técnicas. Ademais, como não existem ferramentas globais de regulação a tais ações, essa competência fica a cargo das esferas de poder. Haesbaert (2005), por seu turno, analisa o território sob diferentes enfoques, elaborando uma classificação em que se verificam três vertentes básicas: 1) jurídico-política, segundo a qual “o território é visto como um espaço delimitado e controlado sobre o qual se exerce um determinado poder, especialmente o de caráter estatal”; 2) cultural(ista), que prioriza dimensões simbólicas e mais subjetivas, o território visto fundamentalmente como produto da apropriação feita através do imaginário e/ou identidade social sobre o espaço”: 3) econômica, “que destaca a desterritorialização em sua perspectiva material, como produto espacial do embate entre classes sociais e da relação capital-trabalho”. (HAESBAERT apud SPOSITO, 2004:18). Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC 2) A existência do espaço turístico como território está condicionada à presença de atrativos turísticos, segundo Boullón (1995). Para esse autor, o espaço é percebido como matéria-prima do turismo, “puesto que constituyen (os atrativos) la causa principal que motiva un viaje turístico. Cada vez que alguien emprende un viaje hacia uno de estos atractivos, genera un conjunto de necesidades de transporte, alojamiento, alimentación, visitas al lugar, distracciones, esparcimientos, deportes o compras, cuya satisfacción da origen a una serie de construcciones que adoptan las características requeridas para la prestación de los servicios correspondientes” (Boullón, 1995:21). Convém acrescentar que o autor refere-se ao espaço turístico como descontinuo, sendo ocupação de um território recortado por vários atrativos e complementação de outros tipos de atividades socioeconômicas. Essa condição facilita a integração ou complementação de diferentes categorias e tipos que adotam os serviços turísticos como rede. Esta rede de caminhos, denominados corredores turísticos (ou rotas), conectam e permitem que os fluxos turísticos se movimentem de um para outro ponto, tendo como principal elemento de composição os centros turísticos. 3) Quando Boullón (1995) descreve os municípios, seu objeto de estudo para definição do planejamento turístico, caracteriza o espaço geográfico por contar com uma população residente e um território sobre o qual exerce sua jurisdição. “Ambos elementos, territorio y población, son las variables que se emplean para definir los distintos tipos de municipios” (Boullón, 1995, p.21). O relevante nesta interação dos conceitos é destacar que o território e a territorialidade são expressões do conjunto de subsistemas que formam o sistema turístico (SISTUR). Para Beni (2001:47), as ações desse conjunto, que envolvem subsistemas distintos e autônomos, como o ecológico e o econômico, ao serem evocadas para justificar e determinar funções da atividade turística, convertem-se em ações específicas do sistema”. Quando Haesbaert (2005) analisa as territorialidades "gaúchas" e a formação de redes regionais e transnacionais, descreve suas interpretações de território e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC territorialidade, baseando-se em estudos sobre as flutuações populacionais como um movimento aprofundado e promotor de novas configurações territoriais, ocasionando mudanças de cunho estrutural, cultural, econômico e social. A análise da transposição geográfica de identidade demonstra que são os atores que territorializam o espaço. O autor define que para a existência de um território deve haver territorialidade (algo como a qualidade ou a condição de ser território). A territorialidade Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul enfatiza a dimensão simbólico-cultural do território, ligada por exemplo, à questão de identidade. E esta territorialidade “gaúcha” apresenta-se em três escalas: a original, de caráter tradicional (interna –pampiano x serrano); territorialidade em rede, desenhada pelos migrantes gaúchos (sulistas) fora da região sul no interior do Brasil; e a mais complexa, além da fronteira nacional brasileira (HESBAERT, 2005). Destaca-se também, perante o processo de regionalização do turismo, a definição de rede e região, visto a soma de suas propriedades para definição não somente do conceito, mas também do entendimento das divisões que os atores do turismo no Rio Grande do Sul buscaram para compô-la. Para Haesbaert (2005), a região ultrapassa a divisão territorial definida por questões geográficas, históricas e sociais, com suas várias subdivisões. Uma região administrativa é uma divisão regional organizada pelo Estado nacional para facilitar a administração e a governação de um país. Estas regiões têm uma origem artificial, imposta por lei, independentemente do fato de a divisão ter em conta critérios geográficos ou culturais. Uma região enquanto conceito “(...) foi majoritária sobretudo nos momentos mais ideográficos ou voltados para a realidade empírica, numa valorização da região como “fato” (seja como “fato” concreto, material, seja como “fato” simbólico, vivido), do que nos períodos em que se afirmava uma Geografia Geral, voltada para a construção teórica, mais racionalista, onde a região adquiriu um papel mais de “artifício” (analítico) do que de realidade efetivamente construída e/ou vivida” (HAESBAERT, 2010:6). Nesse sentido, Haesbaert (2010) teoriza a regionalização em escalas espaçotemporais, com interseções entre espaço geográfico e tempo histórico, compondo novas considerações a relação de região, regionalização e regionalidade, propondo um caminho mais complexo, para o entendimento da região não simplesmente como um “fato” (em sua existência efetiva) nem como um mero “artifício” (enquanto recurso teórico, analítico) ou como instrumento normativo, de ação (visando a intervenção política, via planejamento). Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC Propomos então tratar a região como um “arte-fato” (sempre com hífen), tomada na imbricação entre fato e artifício e, de certo modo, também, enquanto ferramenta política. A região vista como arte-fato é concebida no sentido de romper com a dualidade que muitos advogam entre posturas mais estritamente realistas e idealistas, construto ao mesmo tempo de natureza ideal-simbólica (seja no sentido de uma construção teórica, enquanto representação “analítica” do espaço, seja de uma construção identitária a partir do espaço vivido) e material-funcional (nas práticas econômico-políticas com que os grupos ou classes sociais constroem seu espaço de forma Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul desigual/diferenciada). “Arte-fato” também permite indicar que o regional é abordado ao mesmo tempo como criação, auto-fazer-se (“arte”) e como construção já produzida e articulada (“fato”) (HAESBAERT, op. cit, p.7). Assim, cabível pensar o processo de regionalização do turismo como política pública adotada para retomar a divisão de região e regionalização proposta por Haesbaert e suas definições sobre o que se desenha para este recorte (atual) de espaço geográfico e tempo histórico. As categorias da geografia no turismo Apresenta-se já no conceito do turismo uma composição do segmento como fenômeno das ciências sociais aplicadas, em que GAYER (2010:13) inclui o espaço geográfico e o define como sendo “o local onde a vida acontece e nele estão expressas não somente a cristalização da vida, mas também o seu movimento presente, a interpretação deste espaço deve considerar (...) sobre o tempo e a cultura –o movimento”. A definição melhor aceita sobre o turismo, adotada inclusive pela Organização Mundial de Turismo (OMT), foi descrita por Padilla (1997): O turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivo de recreação, descanso, cultura ou saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa ou remunerada, gerando múltiplas interrelações de importância social, econômica e cultural. (Padilla, 1997:16). As pessoas viajam para desfrutar dos espaços construídos por outras pessoas e com efeito, conforme Castells (1983, op. cit., 185), a base das análises espaciais define a sociedade como sendo um “sistema de relações entre partes funcionalmente diferenciadas e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC que está localizado territorialmente”. Dessa forma, anteveem esclarecer os principais processos ecológicos3 para a apreciação posterior da regionalização do turismo no Rio Grande do Sul, que aspira o uso dos territórios para turistificação e uma nova dinâmica socioeconômica em alguns momentos existente no processo de desenvolvimento e em outras parte da inovação territorial: 3 (da Ecologia Humana –assim resgatado pelo autor na construção dos convívios sociais, conforme R.D. Mackenzie, The Scope of Human Ecology, Publications of the American Sociological Society, XX, 1926, pp. 141-154). A concentração – a saber, o aumento da densidade de uma população num certo dado momento; a centralização ou espacialização funcional de uma atividade ou rede de atividades num mesmo espaço, com sua articulação hierarquizada no conjunto do território regional; a centralização, com seu corolário, a descentralização, está na base dos processos de mobilidade da estrutura urbana, e, consequentemente, das funções de circulação, no sentido amplo do termo; a segregação refere-se ao processo pelo qual o conteúdo social do espaço torna-se Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul homogêneo no interior de uma unidade e se diferencia fortemente em relação às unidades exteriores, em geral conforme a distância social derivada do sistema de estratificação; enfim, a invasão-sucessão explica o movimento pelo qual uma nova população (ou atividade) se introduz num espaço previamente ocupado, sendo rejeitado pela anterior, sendo integrada ou finalmente sucedendo-lhe como dominante na unidade ecológica visada (CASTELLS, op. cit, 186). A Regionalização do Turismo no Rio Grande do Sul, modelo de organização que adota a região turística como referência territorial para fins de planejamento e gestão, permite a formulação de políticas públicas para o desenvolvimento do turismo considerando todas as diversidades e potencialidades dos municípios envolvidos –466 dos 497 emancipados que compõem o mapa gaúcho, representados nas divisões territoriais demonstradas na Figura 1 –Regionalização do Turismo RS, abaixo –sob a ótica do desenvolvimento integrado, possibilitando o aumento da competitividade das regiões com seus produtos turísticos, potencializando impactos positivos nas economias locais. Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul Figura 1 Regionalização do Turismo RS. A regionalização, empregada como política pública, é a representatividade do desejo comum das instâncias de governo de levar estruturação, ampliação, diversificação e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC qualificação da oferta turística gaúcha para toda sua diversidade territorial, baseadas nas estratégias de execução da Política Nacional de Turismo e, consequentemente, do Rio Grande do Sul. A Secretaria do Turismo (Setur/RS) adotou a intervenção do planejar in loco, através do “Programa RS Mais Turismo”, para consolidar esta prática política e colocou a região como foco para o planejamento coordenado e para aplicação de políticas públicas transversais posicionando o turismo como política pública que incide como fator de desenvolvimento socioeconômico. Esta aposta na regionalização retoma o processo que outrora firmou as parcerias institucionais neste segmento e reverberou na promoção de destinos como Gramado e Bento Gonçalves como exemplos mais duradouros. É importante ressaltar que a regionalização do Turismo no Estado não nasce agora, mas é fruto de um longo e pioneiro processo que contou com a participação de diversos atores. Conforme pesquisa realizada por Machado (2011), o documento mais antigo que aborda a regionalização é o Plano Estadual de Turismo, do ano de 1976, quando se adota a organização do Estado a partir de Zonas Turísticas. Desde então, o processo de regionalização passou por várias dinâmicas, destacando suas reorganizações em 1985, através de Polos, e em 1991, quando a gestão pública do turismo aproxima sua divisão aos mesmos critérios de organização dos COREDES, entendendo que o setor constitui-se pelos fatores determinantes das identidades culturais, históricas, físicas e econômicas dos municípios. Em âmbito federal, em 1994, o Governo Federal inicia sua trajetória de valorização territorial dos destinos turísticos com o “Programa de Municipalização do Turismo”, concebido para dinamizar a atividade turística no país. Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. Este modelo de regionalização vinha sendo adotado desde então, e em 2000, o Rio Grande do Sul adotou como política estadual o Programa de Regionalização do Turismo, criando nove regiões turísticas. Em 2003, os gestores dessa política na Setur/RS são alçados ao Governo Federal, onde lançam o “Programa Nacional do Turismo”, em 2004, o qual foi transformado num movimento nacional, mobilizando agentes e produzindo resultados na territorialização da atividade em todo o país. Para alcançar os resultados esperados no processo de regionalização foram definidas premissas que expressam as relações existentes entre a geografia humana, o turismo e a importância do acúmulo de capital social (Brasil, 2013:30): abordagem Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC territorial; integração e participação social; inclusão (entendendo a região como espaço plural e participativo); descentralização (da gestão de recursos e execução das políticas); sustentabilidade (compreendendo o desenvolvimento sustentável das regiões turísticas como base para a preservação da identidade cultural, respeitando as especificidades locais); inovação (compreendendo que a estruturação dos destinos depende de uma nova visão integradora do desenvolvimento produtivo e da competitividade com uma ação em redes para circulação de renda e geração de riqueza no território); e competitividade (compreendida como produção territorial que soma atrativos e serviços das bases produtivas). Cabe destacar que, ao revisar o programa, o Ministério do Turismo investe no reforço da ação municipal e na qualificação de capital social, considerando a perspectiva de contribuir para a eficiência, desconcentrando os investimentos que ainda encontram-se destinados a um número limitado de localidades e regiões. Para tanto, determina os eixos de atuação do programa, visando destinar recursos que integrem ações a partir da maturação do território. Dentro do mesmo processo, porém, em nível Estadual, a Secretaria do Turismo revisita as regiões, repactuando a territorialidade, os critérios de participação de cada cidade e o enquadramento dos eixos de atuação, para, em sequência, iniciar o planejamento regional em conformidade com a realidade de cada território. Neste momento, o Estado faz um novo recorte passando das 11 Macrorregiões e 24 Microrregiões Turísticas para, em 2011, consolidar a repactuação das atuais 25 Regiões Turísticas. Importa destacar o entendimento de ambiente do Sistema do Turismo (SISTUR), o qual Beni (2001) aborda para compreender a lógica de absorver as inquietudes de determinadas regiões Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul e municípios quando se manifestam sobre suas participações no PIB do turismo estadual e a vontade de alterar o mapa da regionalização do turismo: “A conceituação do que constitui o ambiente do sistema é questão complexa, que foge a todo esforço no sentido de delimitá-lo. Requer-se, por isso, que sua apresentação conceitual seja bem mais sutil do que a mera busca de limites. Cumpre lembrar que, que se diz que alguma coisa está situada fora do sistema, significa que ele pode fazer relativamente pouco a respeito das características ou do comportamento de tal coisa” (Beni, 2001:46). Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC Neste sentido, o espaço geográfico e território são fundamentais para a proposta da regionalização, já que o que está em questão é o espaço e o poder, bem como a nova repactuação do turismo no Rio Grande do Sul, que abre novamente o debate sobre território e territorialidade e sobre como este segmento utiliza-se dos conceitos geográficos para as escolhas políticas e sociais. Sublinhe-se que o governo Estadual não determina critérios rígidos para definição dessa regionalização, nem mesmo a obrigatoriedade da aceitação. Conforme o conceito adotado pelo Ministério do Turismo, o “Programa de Regionalização do Turismo” propõe o desenvolvimento da atividade turística de forma regionalizada, com foco no planejamento coordenado e participativo. A estratégica política escolhida para o desenvolvimento turístico no país é orientada por um processo de planejamento descentralizado e compartilhado, resultante da estruturação e da implementação de instrumentos e de ferramentas que permitem uma maior interlocução entre o Ministério do Turismo e as 27 Unidades Federativas do país. O resultado dessa opção que integra a gestão pública federal aos entes federativos desde 2003 é um mapa turístico brasileiro que conta atualmente com 3.635 municípios, organizados em 276 regiões turísticas, ou seja, com uma repercussão positiva de resultados socioeconômicos no território nacional. A avaliação recente do Programa de Regionalização aponta para a necessidade de novos desafios, notadamente no que diz respeito à construção de uma estratégia de fortalecimento e posicionamento do turismo a partir da organização das regiões, numa abordagem territorial aliada à gestão descentralizada investida, institucional e empresarial, para o desenvolvimento e a integração do turismo no Brasil. “A dimensão e a diversidade do território brasileiro são de tal ordem que a estruturação e organização da oferta turística do País constituem um dos maiores desafios para a gestão e o desenvolvimento sustentável da atividade. A estruturação da oferta turística pode ser potencializada, se considerada em sua dimensão regional, em que diversos municípios se integram e se complementam na prestação de serviços aos turistas, agregando valor aos territórios. Tendo este princípio como Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul referência, o Ministério do Turismo criou e vem implementando o Programa de Regionalização do Turismo, pelo qual os municípios são incentivados a um trabalho conjunto de estruturação e promoção, em que cada Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC peculiaridade local pode ser contemplada, valorizada e integrada num mercado mais abrangente”. (BRASIL, 2012). Dessa forma, o destino turístico é entendido como um “termo respaldado pela autonomia para definir não só um conjunto de lugares, territórios e culturas, que também formata um modelo estratégico de venda de diversos tipos de oferta turística como só produto” (Barbosa, 2009:291). Segundo Barbosa (2009), para fins de regionalização do turismo, o destino é percebido como um conjunto de atividades turísticas, serviços e facilidades que dependem de vários fatores, tais como boa estrutura, acessibilidade e locomoção, hospedagem, entretenimento, compras e gestão pública, em uma mesma região. Essa região pode ser constituída por um ou mais municípios, os quais concentram traços semelhantes, ligados à história local, ao clima, à cultura ou a outro aspecto importante da vida, caracterizadores dos sujeitos dessas localidades. Se a distribuição de atrativos e serviços está para as cidades conjuntamente, com proximidade geográfica e similaridades culturais, a regionalização proporciona a ação do homem como agente social, a circulação de pessoas visitantes entre as localidades e a troca de relações constantemente. É facultado às cidades pactuarem entre si condições de incremento tecnológico e organizacional na busca de inovações que coloquem sua região, com menos recursos humanos, técnicos e financeiros em condições de competir neste mercado de constante evolução, o que pode auxiliar, e mesmo determinar, a continuidade de uma localidade como destino turístico. Contudo, este compendio para expor a política pública que planeja e organiza a atividade turística dependeria para seu sucesso da constituição do que denomina Putnam (2006) de Capital Social: A superação dos dilemas da ação coletiva e do oportunismo contraproducente daí resultante depende do contexto social mais amplo em que determinado jogo é disputado. A cooperação voluntária é mais fácil numa comunidade que tenha herdado um bom estoque de capital social sob a forma de regras de reciprocidade e sistemas de participação cívica. Aqui o capital social diz respeito a características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas (Putnam, 2006, p. 177). Conforme Beni (2001:119), convém lembrar que a responsabilidade pela aplicação e controle dos instrumentos da política do turismo não compete apenas ao Poder Executivo, mas também aos atores sociais e agentes institucionais que nela atuam. O autor Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC destaca ainda que um Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul cluster –arranjo produtivo local –organiza-se e estrutura-se mesmo sem um plano diretor, mas as estratégias de desenvolvimento da região são fundamentais e, devem ser formuladas a partir de debates entre os segmentos sociais, institucionais e empresariais. Dessa forma, o turismo que sujeita o seu sucesso a um desenvolvimento sistêmico, caracterizado por uma afinidade multissetorial aponta, conforme Barbosa (2000), para a importância dos estímulos aos diferentes processos de aprendizado e de difusão do conhecimento, além das diversas formas políticas envolvidas, ou seja, trabalhar com atores coletivos sob perspectivas de olhar e ação sistêmicas, mobilizando a participação dos agentes locais e, ao mesmo tempo, garantindo a coerência com as políticas do setor em níveis regionais e nacional. A regionalização, segundo o Barbosa (2000), aparece como articuladora de produtos característicos de um determinado grupo de atores da cadeia turística e pode ser amplamente utilizada para atender às particularidades da localidade. Ressalta-se o apontamento que Branco Filho (2010:155) quando capitula o planejamento estratégico do turismo explorando a concepção de Acerenza (1992), o qual aponta que dos elementos que interatuam para a construção do sistema turístico tem um dinâmico: o turista; três são geográficos: a região geradora, a rota de trânsito e a região de destino; e outro econômico: a “indústria” turística. Tal relevância se dá pela conexão que esses elementos exercem ao interagirem no ambiente no qual a atividade é desenvolvida, acionada pelo indivíduo que procura conhecer uma realidade diferente do território em que vive seu cotidiano. Mais do que determinar um processo de organização e gestão do destino, a regionalização representa uma conexão de conceitos de desenvolvimento num relacionamento em rede, preconizando a participação de entes governamentais das diversas instâncias no auxílio às composições sociais que investem seus modus operandi na estruturação de produtos turísticos e, consequentemente, na oferta turística do seu território. O Ministério do Turismo define o Programa de Regionalização do Turismo ampliando o conceito de espaço como agente de transformação social e não meramente espaço físico: “(...) assim, planejar e estabelecer seu modelo de desenvolvimento implica o reconhecimento das particularidades territoriais nos planos econômico, político, social, cultural e ambiental. Nessa perspectiva, a participação representativa dos municípios e das regiões é determinante, por se tratar de uma tarefa coletiva de interesse comuns” (Brasil, 2004:17). Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC E esta percepção, de envolver e fortalecer representatividades dos setores locais, formatando as alianças da cadeia produtiva em seus arranjos produtivos, define e constitui os relacionamentos intermunicipais a partir das realidades regionais, determinando quais são, então, os territórios turísticos. Nos últimos dez anos o Ministério do Turismo investe no Programa de Regionalização como estratégia de abordagem territorial, fomentando a gestão compartilhada, reconhecendo a diversidade e pluralidade de segmentos sociais capazes de determinar a ampliação, a qualificação e a diversificação da oferta e, assim, (re)organizar constantemente seus programas para fortalecer o turismo brasileiro. A composição da gestão do programa impõe a mesma relação geografia, turismo e capital social ao definir os níveis de atuação em âmbito nacional, estadual, regional e municipal, com envolvimento das governanças em todas as esferas até o alcance social esperado, ou seja, a comunidade. A incorporação de novos arranjos produtivos, consolidados pelo modelo regionalizado poderá, quiçá, viabilizar a promoção que Barat (apud Barbosa, 2009:299) indica ser possível: “dinamizar regiões estagnadas, pela implantação de polos de desenvolvimento. Muitas economias nacionais procuram atenuar os seus desníveis regionais através da intervenção consciente e do controle das forças do mercado, criando o que François Perroux (1961) na sua teoria do polo de crescimento, denomina de “polos complexos”, onde, por exemplo, um centro de extração de matérias-primas é acoplado a um centro de produção de energia e, através de uma rede de instalações em transportes, aos centros de transformação e de consumo”. Dada a concepção da regionalização do turismo como política, é relevante pensar o modelo de organização regional que visa estruturar o turismo como pressuposto de garantia da sustentabilidade ambiental, economicamente produtivo e socialmente equitativo. Tal modelo visa mais do que simplesmente subdividir o espaço geográfico, mas objetiva um equilíbrio entre os territórios como destinação turística que, traduz a produção do turismo como fonte da distribuição de riqueza a todos os agentes que compõe estas divisões territoriais, formatando o que denomina-se destino turístico. O destino, como território, deve primar pela turistificação, definindo acesso físico, econômico e legal, originando utilidade e valor agregado à comunidade local. Turismo e territorialidade – a regionalização do turismo no Rio Grande do Sul. Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Florianópolis, Santa Catarina XIV SIMGeo Simpósio de Geografia da UDESC Considerações finais Esse apanhado por várias obras que permeiam a geografia e o turismo, com diferentes abordagens, revela, antes de tudo uma composição de poder, em várias instâncias na conceituação territorial e das políticas públicas do turismo que lidam com os significativos e complexos diferenciais dos relacionamentos do homem com o tempo e o espaço. O turismo, como atividade em ascensão, que cresce em resultados e componentes sociais, depende do entendimento de território, territorialidade, região, redes, espaços e lugares e sugere a análise dos conceitos geográficos, principalmente os da geografia humana, que estuda a forma como o homem ocupa o espaço, estabelece o uso da paisagem e o processa no tempo e no espaço, constituindo conhecimentos simbólicos, sociais e econômicos. O turismo se apresenta como um emaranhado territorial que, sob a óptica socioeconômica interpreta as territorialidades para os turistas, e este estudo procurou associar a representatividade que a geografia na interpretação de conceitos como região, rede, território, espaço e paisagem permeiam nas intenções de desenvolvimento almejados por investidores, governantes e comunidades que gostam, apostam e entendem a integração social representadas por este segmento. Por fim, a exposição dos aspectos analisados, referenciam sinteticamente, que a composição das políticas públicas de ordem participativa costumam respaldar-se em estratégias como do Programa de Regionalização, a gradação que constitui setores ímpares como do turismo no envolvimento de capital social que esteja baseado nas composições territoriais, envolvendo as singularidades de suas formações e uso de seus espaços geográficos. BIBLIOGRAFIA CITADA BENI, M. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Senac, 2001. BRANCO FILHO, C.C. 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