A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI MARIO DRUMOND MDEditor BELO HORIZONTE OUTUBRO DE 2000 REGISTRADO NA BIBLIOTECA NACIONAL PROTOCOLO Nº 004626 Capa:”Auto-retrato” - Xilogravura a 2 cores de Inimá de Paula (1983) Folha de Rosto: Matriz da cor principal Nesta página: Matriz da 2ª cor Sumário Nota Introdutória, 9 I. Memória, 11 1. Primeiros Passos, 13 1.1 Primeiro Contato, 13 1.2 A Primeira Matriz, 15 2. Inimá de Paula, 15 3. A Oficina Goeldi, 18 4. Fernando Tavares, 20 5. Inimá de Paula na Oficina Goeldi, 23 5.1 As Calcografias, 23 5.2 Encontro com Oswaldo Goeldi, 26 5.3 A Primeira Xilografia, 26 5.4 O Projeto Editorial, 27 5.5 Dois Esboços, 28 5.6 A incrível série xilográfica de Inimá de Paula, 30 6. O mestre xilogravador Inimá de Paula, 30 7. Da importância do feito, 32 II. Curadoria, 37 1. Matrizes, 37 2. Imagens, 37 2.1 Imagens Calcográficas, 37 2.2 Imagens Xilográficas, 39 3. Esboços (Projetos de Gravuras), 42 3.1 Descrição dos Esboços em Acervo, 43 4. Acervo, 44 III. Catálogo, 47 1. Introdução, 49 2. Catálogo de Imagens, Matrizes e Exemplares impressos, 51 2.1 Calcografias, 51 2.2 Xilografias, 52 3. Esboços, 65 4. Catálogo Temático, 67 4.1 Suite Sertaneja, 67 4.2 Suite Praieira, 67 4.3 Suite Amazônica, 68 4.4 Suite Mitológica, 68 4.5 Suite Abstrata, 68 4.6 Divertimentos, 69 4.7 Retratos, 69 Inventário, 71 Notas, 80 Nota Introdutória Esse trabalho em forma de memória, seguida de curadoria e catálogo de acervo, é documentado quase que somente pelos próprios frutos colhidos nos trabalhos que dele são objeto. O que aliás, lhe é mais que o bastante, pois seu propósito é somente o de agrupar as peças de um pequeno trecho desconhecido, mas a meu ver muito importante e valioso, da obra de Inimá de Paula, com as respectivas informações básicas. Entrego-o assim aos competentes, apenas com o intuito de aliviá-los de muitos e enfadonhos “serviços de cozinha”, para que porventura possam extrair a matéria necessária, à altura e ao merecimento do assunto. Não é fruto de pesquisa exaustiva e laboriosa, com finalidades academicistas, ampla bibliografia consultada, etc. Perdoem-me quando nele encontrarem as inevitáveis falhas ou os excessos e desvios cometidos em relação aos seus objetivos; desconsidereos ou repudie-os como vícios de um autor que não resiste a certas tentações. Se contudo a documentação não pode ser mais ampla e mais formal a causa estaria também na informalidade com que a Oficina Goeldi costumava desenvolver os seus projetos. O ano de 1983 em especial, e em que estes fatos se deram, fora para a Oficina e para a mim dos mais produtivos; levávamos a cabo simultaneamente vários projetos e em áreas diversas - não houve mesmo tempo para formalidades. (1) Assim, nesse trabalho, a memória só poderia ser ainda mais precisa se eu pudesse contar com a ajuda de Inimá de Paula e de Fernando Tavares, mas como isso hoje é impossível terá o leitor de se contentar com os poucos recursos da que possuo. Quanto ao catálogo, é o que está aqui, e não pode ser mais nem menos. E a cura do acervo fica no que posso dar: o básico e o elementar, se é que consegui chegar a tanto. O autor Belo Horizonte, outubro de 2000 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI I MEMÓRIA I. Memória 1. Primeiros Passos 1.1 Primeiro Contato - Posso fazer um retrato? perguntou Inimá. - Pode fazer o que quiser, respondi. - Vou retratar um de Vocês... e nos encarou um a um, detidamente, por uns três longos e silenciosos minutos. Éramos Fernando Tavares, Paulo Giordano, Oswaldo Medeiros e eu no primeiro contato que fazíamos com Inimá no seu atelier do bairro Betânia, em Belo Horizonte. Nos contatos telefônicos preliminares com Inimá tive de vencer sua resistência inicial à nossa proposta de editá-lo em Gravura em Metal e Xilo. Argumentava ele que eram técnicas que não dominava e estava velho para aprender. Eu retrucava que a Oficina daria toda a cobertura técnica e só o que lhe pedíamos era a sua expressão plástica, revelada também nas duas mais nobres linguagens da Gravura. Acordamos então numa primeira experiência; dando certo prosseguiríamos. E em noite enluarada de abril de 1983 fomos os quatro diretores da Oficina Goeldi até o seu atelier, levando uma chapa de cobre preparada, um pote de “nanquim-comaçúcar” e pincéis. Inimá não nos conhecia pessoalmente. Apesar das apresentações ainda não sabia ali quem era quem. E após receber algumas instruções de Oswaldo Medeiros sobre a técnica que lhe era proposta, ofereceu-nos o sofá e as cadeiras para que nos sentássemos. Em seguida, acomodou-se numa banqueta alta, segurando numa das mãos a pesada chapa de cobre e na outra o pincel escolhido. Ao lado, na sua prancheta de desenho, estava o pote aberto da substância que lhe serviria para lançar a imagem a ser gravada. Foi quando, tentando uma busca rápida do tema, achou por retratar um de nós. Inimá examinava-nos indeciso, rosto sereno, olhar agudo. Súbito apontou o pincel para Fernando Tavares: - Vou retratar Você. Ficamos então a admirá-lo em seu ofício, pintando, pela primeira vez, com aquela grossa substância negra na superfície polida da A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI chapa, um retrato de Fernando Tavares. Este, após o suspense da escolha, parecia ter se transformado em estátua - não mexia um só músculo do rosto. Da nossa posição víamos apenas as costas da chapa e as suas mãos, uma a apoiá-la por baixo e a outra a trabalhar o pincel com segurança sobre a face polida. A intervalos, molhava os pelos do pincel com cuidado meticuloso e levava-os até a superfície da chapa sem que se perdesse uma só gota da substância no percurso. A cada vez que fazia isso seu olhar ia até o rosto de Fernando, fixava-se nele por alguns segundos e retornava com o pincel ao metal. Ia compondo a imagem de improviso, sem rascunhos e planejamentos anteriores. Sua mão fazia com o pincel um bailado gestual sobre a chapa que lhe servia de palco e nós, seus expectadores, nos deliciávamos encantados com aqueles movimentos firmes, uns rápidos, outros lentos, mas sempre harmoniosos e decididos, como se soubesse de cor toda a coreografia. Não víamos a imagem que ia-lhe saindo pela mão através do pincel e isso tornava o espetáculo ainda mais saboroso e enigmático. Naquele silencioso espetáculo podia-se ouvir o roçar da ponta do pincel na superfície lisa do cobre, e era como se ouvíssemos a própria música que sua mão transformava em dança para os nossos olhos. Ao fim, num gesto rápido, alçou bem alto o pincel e o desceu num pequeno giro, como se pusesse-lhe um ponto final (ou um grand finale). Em seguida, Inimá limpou metodicamente o pincel na boca do pote e deitou-o sobre ela transversalmente, cuidando para que ali ficasse sem cair para um dos lados. Depois, segurando a chapa pelas laterais, percorreu calmamente com o olhar cada um dos seus centímetros quadrados. Algumas vezes comparou o resultado com o modelo. Finalmente virou-nos a chapa para que víssemos o desenho: Fernando Tavares era um belo e expressivo “Retrato”, desenhado em negras pinceladas sobre a chapa de cobre. (aplausos) 14 MEMÓRIA 1.2. A Primeira Matriz Levada com cuidado para a Oficina Goeldi, naquela mesma noite a preciosa chapa recebeu o tratamento necessário para a morsura do ácido que iria corroê-la noite adentro, gravando-a exatamente nos rastros deixados pelo pincel de Inimá e fixando-lhe definitivamente o desenho no metal. No dia seguinte ele foi até a Oficina para conhecer o resultado. Lá assistiu a impressão da primeira prova de estado da sua águatinta, sendo tirada por Fernando na boa prensa Marinoni. O resultado era animador e o entusiasmo de Inimá contagiava a Oficina. Tínhamos a sua primeira matriz pronta e o autor satisfeito, mas não o editor. Era óbvio que apesar do sucesso dessa imagem, não cabia a sua edição. O projeto era o de uma tiragem para o nosso Clube da Gravura, cujo público esperaria um Inimá mais Inimá, e não o retrato de um dos diretores da Oficina. - Que venham-me então outras chapas, já tenho gula de gravador - pediu Inimá. A Oficina Goeldi iniciava assim um memorável trabalho editorial em que todos ganharam, principalmente a Arte Maior da Gravura Brasileira. 2. Inimá de Paula É de todos conhecida a biografia deste grande pintor, mineiro, nascido em Itanhomi em 1918, e falecido em Belo Horizonte em 1999. A crítica costumava dar-lhe o rótulo de “o fauve brasileiro” o que, apesar de honrá-lo e até ser-lhe justo, na minha opinião não reflete definitivamente a essência do mestre que ele foi. Viajado, cosmopolita e desengajado de grupos, provincianismos ou escolas definidas, nem por isso deixou de compartilhar alguns dos mais importantes momentos da nossa história da Arte, tenham-se manifestado em nível regional ou nacional, sempre em contribuição para a expressão da Arte brasileira. É cearense, carioca e mineiro em diferentes fases do seu trabalho, mas, quando observo as obras das suas diferentes fases, o que mais me seduz nelas é a inquietação de linguagem tipicamente expressionista, presente em todas e prevalecendo sempre sobre 15 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI quaisquer outras linguagens que possam tê-lo influenciado num ou noutro momento. Para mim, seu grande dom teria sido a intuição, que vejo forte em tudo o que é dele. Nela parece reviver a infância em Itanhomi, e o retocador preciosista que desde cedo ajudava o pai fotógrafo. Mas a obra nos mostra também que desde jovem vinha trabalhando com a cabeça de um sábio. Talento, estudo, disciplina e aplicação na magia que escolheu para si mesmo realizar o impossível com o possível. Nos intensos quase quatro meses de trabalhos e edições dentro da Oficina, fomos todos, alternadamente, seus alunos e mestres. Foi, com certeza, um relaciomento muito benéfico para todos que nele se envolveram. E não deixava de ser curioso lidar com aquele senhor de barbas grisalhas, comportando-se muitas vezes como aprendiz - atento, a anotar metodicamente num caderninho, alguns detalhes do ofício – dos quais precisava para aprimorarse. Trabalhava com profissionalismo e disciplina, em ritmo constante, sem dispersões nem obsessões. Era pontual e cumpria, uma a uma, as suas tarefas. Após o primeiro mês, no qual desenvolvemos juntos um ambicioso plano de trabalho e edição, adotou, para poder cumprilo à risca, como de fato nos fez cumprir, uma rotina diária. Esta dividia-se entre o trabalho de criação e o diálogo com o pessoal da Oficina, principalmente com Fernando Tavares. A ele passava muito de seu valioso cabedal de conhecimentos teóricos e práticos de pintura. Nestes diálogos demonstrou ser erudito em História da Arte, e não se enganava sobre coisas da Pintura. (2) Não escondia as suas influências - impressionistas, expressionistas, fauvistas, uma Vieira da Silva, ou um Arpad Szenes. Porém compunha com independência, em modo figurativo ou abstrato, indo de um ao outro livremente segundo a sua vontade e a sua intuição, indiferente aos modismos de época ou aos formalismos de escolas. Mais que isso foi capaz de, em poucos meses, tornar Fernando Tavares um pintor e ser também o primeiro a reverenciá-lo como tal. De trocar informações e conhecimentos profissionais com o pessoal da Oficina, mas fazendo com que essa troca vingasse em valores realizados a favor de todos. De estabelecer contato e convivência harmônica com o espírito de Oswaldo Goeldi (sempre presente no espaço mas nem sempre acessível) numa 16 MEMÓRIA espécie de “conversa” espiritual da qual extraiu registros fantásticos em desenho e gravura; além de criar e abrir uma incrível sequência de matrizes e imagens gráficas, muitas delas impecavelmente editadas e todas de valor - que são o objeto principal deste trabalho. Como homem, pude conhecer nele uma personalidade aparentemente simples e despojada, no ser e no vestir. Com a sua eterna boina de artista, era uma figura enigmática, um tanto quanto anacrônica, às vezes bastante estranha e certamente muito solitária.(3) Mas quando revelava-se o artista que dentro dele vivia, percebia-se-lhe a luminosidade de uma alma maravilhosa, satisfeita e plena de si; via-se então uma outra faceta da sua personalidade que não se opunha à do homem, mas completavalhe, acrescentando-lhe. Sofisticado, culto, fiel aos princípios libertários da Arte, desinteressado, sem preconceitos e incondicionalmente solidário com os companheiros. (4) 3. A Oficina Goeldi A Oficina Goeldi e a sua trajetória de dez anos ininterruptos de trabalhos e edições memoráveis são ainda desconhecidos do público em geral. Seu estudo em profundidade é objeto de outro trabalho em fase de execução. Apresento aqui um pequeno resumo. Fundada em 1980, em Belo Horizonte, para ser um laboratório gráfico e multidisciplinar de arte brasileira, teve como proposta realizar uma pauta interna de editoração de arte e gravura e apoiar, externamente, as manifestações contemporâneas de outras Artes, no que ela pudesse contribuir. Isso de fato se deu ao longo de toda a década, com repercussões sensíveis até hoje, e muito além do esperado. Aqui restrinjo-me a um breve relato da atuação da Oficina no campo das artes gráficas, e com ênfase naquilo que mais diretamente se relaciona com a atividade de Inimá de Paula. Com a aquisição do desativado ferramental de gravura do jornal “Estado de Minas” foi implantada primeiramente numa loja de 150 m2 e depois, em 1982, mudou-se para um galpão de 380 m2, ampliando significativamente sua ação editorial e cultural. Em 1985 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde operou também com os selos “Gráfica Brasileira” e “Gráfica do Brasil”, retornando a Belo Horizonte no início do ano de 1989. 17 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Já na data de sua inauguração, em 4 de dezembro de 1980, o selo da Oficina chancelava diversas e bem sucedidas edições de livros e gravuras de arte, e lançava o seu “Clube da Gravura”. Uma das propostas do Clube da Gravura da Oficina Goeldi era a edição de nomes consagrados nacionalmente, em alternância com jovens gravadores e de geração intermediária. A pauta não tinha restrição quanto a estilos, escolas, formação ou tipo de expressão plástica. Sua única exigência era a qualidade final do trabalho editado, numa postura aberta e sem preconceitos. (5) A proposta era sempre a tiragem de uma nova imagem numerada e assinada pelo artista, e exclusiva para distribuição entre os associados do Clube da Gravura, seguida de edições de outras novas imagens, em livro, álbum ou gravuras isoladas que a própria Oficina viabilizava. O artista entrava com o seu trabalho e era remunerado com um número pré-determinado de peças editadas. A Oficina assegurava os custos, serviços e materiais necessários à edição e ainda dava apoio técnico e de infra-estrutura. Os resultados foram surpreendentes, como demonstra o caso de Inimá de Paula, e a Oficina foi conquistando prestígio, prêmios e sobrevivência apesar da postura considerada radical e inflexível quanto à qualidade editorial, em forma e conteúdo. Em março de 1990, quando dava um salto de expansão e consolidava a sua estabilidade financeira, enfrentou uma adversidade fatal.(6) Em dezembro do mesmo ano não houve alternativa senão fechar as portas e encerrar os trabalhos, talvez dos mais importantes em qualidade e entre os melhores em quantidade, da Arte independente produzida no país.(7) 4. Fernando Tavares Assim como a Oficina Goeldi, Fernando Tavares e sua obra gráfica e pictórica são também objeto de outro trabalho. Aqui vamos nos limitar a um pequeno resumo biográfico e o seu importante papel neste episódio. Nascido em Belo Horizonte em 14 de março de 1950, Fernando Luis Parreira Tavares começou um pouco tarde a sua carreira de artista-plástico, na cadeia de Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, onde estava como preso político. Eram os anos setenta e elaborava 18 MEMÓRIA cartões de natal para os companheiros de cárcere. Conservo alguns desses registros que já revelavam um talento promissor. Saiu da cadeia com a saúde física e mental abalada, mas teve a sorte de ser encaminhado à Dra. Nise da Silveira, que percebendo sua inclinação para as artes, estimulou-o a frequentar a Escolinha de Arte do Brasil (EAB). Lá ele foi aluno do gravador José Altino e da pintora Maria Tereza Vieira, tornando-se depois assistente impressor da gravadora Marília Rodrigues, mestra responsável pela sua iniciação na Arte Maior da Gravura Brasileira. Em pouco tempo o aluno-assistente demonstrou suas notáveis qualidades e foi por Marília apresentado aos principais círculos do meio artístico do Rio de Janeiro, os quais não esconderam a admiração pelo novo talento: Edith Bhering, Anna Letycia, Carlos Scliar, Maria Leontina, Fayga Ostrower, Antonio Grosso, os seus colegas contemporâneos. Também a crítica especializada saudou e reconheceeu a força do seu talento. Em 1978 retornou a Belo Horizonte e fui apresentado a ele pelo gravador Paulo Giordano. Surgiu daí uma relação de trabalho, que consolidou-se quando fundamos a Oficina Goeldi em 1980. Dezesseis anos depois, no dia do seu aniversário, Ferando se despediu levando somente alguns livros. Se retornará, ainda não sei. Tornou-se o artista que encerra a obra sem falecer ou perder a razão; como Rimbaud, que muda de vida, vira outra pessoa, contrabandeia armas ou funda uma escola culinária.(8) Fernando era o diretor artístico da Oficina, foi o seu mais importante gravador e a maior autoridade em Arte da casa. Eu respondia pelos projetos gráficos e pautas editoriais, viabilizações financeiras e coordenação de produção. Quando convidamos Inimá de Paula tínhamos em mente mais ou menos o que de fato aconteceu. Mas era a presença de Fernando com o seu carisma que fazia com que um profissional como Inimá preferisse desenvolver seus projetos dentro da Oficina e não em seu próprio atelier. Sabe-se que não é fácil dois gênios criativos compartilharem um mesmo espaço de trabalho. Mas não para Fernando e Inimá. Sabiam ambos o que lhes competia em cada tarefa. Tinham vaidades mas não conheci as de Inimá; entre eles não houve disputas. Penso que seus egos se completavam, cultural e profissionalmente. 19 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Como vimos Inimá reconheceu Fernando logo no primeiro contato e o retratou em gravura. Sei que, por isso, Fernando sentiase em débito. Mas não seria fazer um retrato de Inimá que compensaria tal dívida, Fernando não raciocinava com banalidades. Procurou então fazê-lo pelo seu empenho na qualidade de resultado do trabalho de Inimá dentro da Oficina. Este, por sua vez, retrucava, procurando dar tudo de si para que Fernando e a Oficina fossem igualmente recompensados com a sua presença; e essa foi a tônica da nossa relação de trabalho - e que foi de importância capital para a façanha gráfica que inventariei e aqui apresento. Oswaldo Medeiros e Paulo Giordano, os outros dois diretores da Oficina, ambos talentosos artistas e gravadores, também receberam junto com Fernando as lições de Inimá e puderam ampliar consideravelmente seus horizontes plásticos na gravura e na pintura, e melhorar suas técnicas de composição e coloração, do que resultaram expressivas imagens e telas por eles produzidas posteriormente. (9) Quanto a Fernando, repassando o que foi dito, Inimá transformouo num pintor e acompanhou-o de perto, com ensinamentos e orientação, em toda a primeira série de obras pictóricas por Fernando produzida em paralelo com aqueles trabalhos de edição. 5. Inimá de Paula na Oficina Goeldi 5.1 As Calcografias Recordando, Inimá começou sua experiência na Oficina com a Gravura em Metal. Concorde em não editar a primeira experiência em água-tinta, que apesar de bem sucedida não convinha ao propósito; partiu para o desenvolvimento simultâneo de três novas matrizes em cobre, em três técnicas diferentes e com temas também diversos: numa delas, feita em água-tinta e relevo, desenvolveu uma requintada natureza morta, à Morandi, obtendo excelente resultado final, em que os tons de cinza, as linhas em relevo, as texturas e os grãos conseguidos fizeram da composição uma jóia de matriz e, na impressão, um efeito expressionista de beleza incontida; na outra, em sofisticada maneira de gravar águas-tintas, com pó20 MEMÓRIA A Calcografia, ou Gravura em Metal, é originária da Europa renascentista do Sec. XV e foi, através de suas diversas técnicas, muito utilizada para a reprodução de textos e ilustrações. Consiste em gravar numa chapa metálica - seja pelo entalhe a frio feito com ferramentas de corte ou punção (buris, berçoax, brunidores, e outras), seja pela corrosão de ácidos apropriados - imagens espelhadas de textos e desenhos, que serão vistas com muito requinte e realismo, e em posição de leitura, quando impressas no papel. É um processo gráfico complexo e sofisticado, exigente de profundo domínio técnico lado a lado a talentos e habilidades especiais. Não somente é de grande dificuldade a gravação da imagem no metal, como também é igualmente difícil a sua impressão com qualidade. de-breu pulverizado, brunidor, lixas finas e sucessivos banhos de ácidos, procurou realizar uma das suas conhecidas paisagens com arquitetura, mas compondo-a em modo abstrato, uma vez que procurava encontrar as sutilezas dos meios tons da água-tinta em lugar das formas de colorido exuberante de suas pinturas a óleo. É uma gravura de extrema delicadeza que ficou inacabada, e na sua imagem percebe-se o trabalho de brunimento iniciado a revelar sua prédisposição para a pesquisa; e na última, riscada a pontaseca sobre verniz, em maneira tradicional de gravar a água-forte, Inimá exibe em traço deslumbrante uma versão sua do “Prometeu acorrentado”. Também inacabada, essa gravura tinha por projeto um trabalho em meios tons de águas-tintas, que ele deixou-nos esboçado em nanquim-comaguada sobre o traço obtido em provas de impressão da matriz. A impressão se faz, em resumo, começando-se pelo entintamento de toda a matriz para em seguida proceder-se a sua limpeza de modo que a tinta seja totalmente retirada da superfície do metal e fique somente nos sulcos gravados,. A chapa é então levada à prensa com o papel umidecido, para que a tinta nos seus sulcos seja para ele transferida, por força de grande pressão mecânica. As três novas matrizes são faturas de artista de metier, senhor de si, e capaz de acrescentar substancial contribuição à linguagem da gravura enquanto Arte Maior, brasileira e universal. Três diferentes manifestações de radicalidade de espírito, convicção de propósito e domínio técnico. Três obras primas dificílimas e raras. Marília Rodrigues, a citada mestra de Fernando é virtuose da Gravura Brasileira. O trabalho de Inimá a impressionou muito quando ela gravava na Oficina nessa época - o que não é fácil quando se trata de Marília Rodrigues - principalmente pela 21 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI capacidade dele de conseguir, em muito pouco tempo e sem experiência anterior com a gravura, resultados tão significativos em técnicas tão difíceis. - Ele já tem o principal - disse-me ela - tem metier, bagagem e intui a gravura como poucos pude conhecer. Foi, porém, justamente o sucesso destas três experiências que levou Inimá a um dilema. A Gravura em Metal é sempre de complexa fatura e exige do gravador muito tempo e dedicação. Inimá deliciava-se nas suas artesanias, lixagens e retocagens e ainda divertia-se com a magia da chamada “cozinha da gravura”; contudo preocupava-se com o tempo e os seus outros compromissos profissionais. O projeto crescia e a agenda de Inimá estava tomada com exposições, lançamentos de livros e homenagens pelo país afora.(10) Hoje posso perceber os significados, que na época não pude decifrar, do seu “Prometeu acorrentado” e das duas outras imagens que gravou. Antes não me vinha o motivo dessas tão diferentes linhas de trabalho. Na minha opinião, foram elas fruto de pura intuição e não de cálculo, eis porque somente agora, após curadas no tempo e na história, chegou-nos o entendimento dessa “trilogia calcográfica”, única em toda a sua biografia; Na primeira das imagens Inimá nos mostra a natureza e a verdade da influência européia que recebera - e das mais elevadas, digase, - ao reverenciar, sem fauvismos, o gênio de Morandi; na segunda ele calca no metal o seu espírito de modernista brasileiro, numa de suas composições bem características, de raízes fortemente expressionistas e formas paradoxalmente abstratas, tudo sob um sutil tratamento fauve, numa imagem tipicamente sua e que se situa entre aquelas que lhe significaram suas maiores conquistas; e na última, pelo poder da sua capacidade figurativa, revela-nos a sua tragédia pessoal diante do dilema: deu à luz sua pintura, e deixou-se agrilhoar pelos marchands. Nenhuma dessas matrizes em metal recebeu tiragem. Ficaram em seus estados, quase prontas para edição. O dilema tinha de ser resolvido para que se continuasse a produzir; e a solução não poderia ser a de continuidade num projeto tecnicamente tão ambicioso. 22 MEMÓRIA 5.2 Encontro com Oswaldo Goeldi Foi numa das suas reuniões com o pessoal da Oficina, em que entramos num debate sobre a gravura de Goeldi, que o dilema parece ter-se, enfim, resolvido. Inimá conhecera Goeldi, o homem e a obra, e de ambos era admirador e um dos seus discípulos. Agora o reencontrava pela obra, guiado por Fernando Tavares e com olhos de gravador. Na Oficina já tinha visto e anotado sobre a técnica xilográfica - da qual Goeldi é ímpar - em fases de processo e impressão, pois eram muitas as xilos que se produziam por lá naquela época. Lembro-me que a cada palavra de Fernando e a cada gravura de Goeldi revista na edição de Anibal Machado que folheavam juntos, o rosto de Inimá iluminava-se. Percebendo isso Fernando buscou-lhe uma goiva e um pequeno retalho de linóleo. 5.3 A Primeira Xilografia Pode-se dizer que Inimá era um connaisseur de xilografia, mas nunca, até então, experimentara sua habilidade nesta técnica. Porém aceitou sem titubear o desafio de Fernando e começou a desenhar com caneta hidrocor no pequeno retalho de linóleo. Em seguida empunhou a goiva e começou a gravar. As duas ou três primeiras cavadas foram um tanto inseguras, mas logo ele conquistou o instrumento e, em poucos minutos, tinha tirado uma singela composição à Tarsila; paisagem com casinha, espelhada na matriz. E ao final deu-se ao luxo de gravar suas iniciais também espelhadas, colocando assim a sua marca num dos cantos da matriz, à maneira dos antigos gravadores. Rapidamente entintada em negro a matriz foi levada ao prelo e impressa à vista de todos. O branco no preto perfeitamente composto e resolvido. Estava pronta a sua primeira xilo. 5.4 O projeto editorial No dia seguinte Inimá apareceu mais cedo na Oficina, muito animado, trazendo uma pequena peça de linóleo enrolada debaixo do braço e uma pasta com dois esboços, além de um jogo de goivas novas. 23 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Disse-me que havia reformulado o projeto para a técnica de xilo.(11) Seu projeto era o de fazer seis imagens de tamanho médio, uma delas para o Clube da Gravura. Convenci-o de que não devíamos nos fixar em números de imagens. Ele sabia que compor em gravura não era como em pintura. Se esta permite uma mudança radical de rumos sobrepondo tintas e técnicas aplicadas, a gravura aceita poucos recursos de retoques; uma vez gravada na matriz a composição é quase definitiva. Qualquer erro pode invalidar um longo processo de trabalho. Exige, portanto, extrema habilidade técnica e capacidade de dar solução prévia à composição, de modo que o trabalho não se perca num detalhe ou equívoco de procedimento. Sabíamos, pela nossa vivência, que cada gravura tem seu próprio tempo de maturaçã. Por mais que considerássemos Inimá um dos mais rápidos e seguros na solução de suas composições, ainda assim seria perigoso definir números de imagens para tão pouco tempo disponível de realizá-las. Decidimos então, para evitar frustrações, que se fizesse o número possível de produzir no tempo que tínhamos, sendo a primeira imagem conseguida para edição a ser destinada ao Clube da Gravura, e as demais reproduzidas em tiragens capazes de atender os compromissos assumidos e pagar o preço da Oficina.(12) Assim decidido, pusemo-nos a trabalhar, começando por arranjar para ele um local apropriado dentro do espaço da Oficina, o qual iria ocupar durante dois meses e meio. Fernando deu providências para que tudo o que precisasse lhe fosse atendido, colocando como seu auxiliar Waldemar Gravura, o melhor de nossos oficiais de gravação e impressão. Oswaldo Medeiros e Paulo Giordano mantinham-se ao seu lado, assessorando-o em todas as etapas de trabalho, para que os resultados viessem a contento e não se perdesse tempo com erros de procedimentos. 5.5 Dois Esboços Inimá mostrou-nos então os seus dois esboços, os que fizera em casa e trouxera em sua pasta. O primeiro deles, de médio formato, fora pensado para o Clube da Gravura. (13) É uma composição de extraordinária sensibilidade e reveladora 24 MEMÓRIA A Xilografia, ou a Gravura em Relevo, é a mais antiga e tradicional técnica de gravura. Já usada pelos orientais em tempos remotíssimos foi a técnica mais difundida na Europa desde o período pré-renascentista do Século XIV, para imprimir imagens e textos em livros, papéis e pergaminhos. Consiste em cavar sulcos em um taco de madeira lisa de modo que fique na sua superfície somente os desenhos e letras espelhados que se deseja reproduzir. Entintandose depois a superfície em relevo da madeira e colocando-se sobre ela uma folha de papel, exerce-se por meio de prelo, prensa ou espátula de madeira (colher-depau) uma pressão tal que seja capaz de transferir toda a tinta para o papel, obtendo-se nele a imagem dos desenhos e letras em posição de leitura. Modernamente, com a descoberta de novos materiais, a Xilografia artística pode expressar-se de duas diferentes maneiras: pela tradicional gravação em madeira, a Xilogravura, e pela gravação em linóleo (material com dureza semelhante a da madeira, feito à base de borracha sintética), a Linoleogravura. de uma alma humilde e reverente. Mostra-nos uma gare ferroviária difusa numa luz misteriosa e da qual lhe saem os trilhos em perspectiva. Em primeiro plano estão duas figuras goeldianas, uma mulher e um homem de guarda-chuva, ambos de costas. A composição completa-se como uma paisagem de Inimá construída com as cores de Inimá vermelho e azul fortes colorindo áreas delimitadas por traços negros e espessos de lápis cera - e elementos de composição típicos de Goeldi: uma árvore, os claros, a perspectiva geral, os traços que constroem a gare, os trilhos da ferrovia e as figuras dispostas no quadro. O segundo esboço, de pequeno formato, quase o tamanho de um azulejo, fora feito para ser a primeira de uma série de imagens xilográficas. É uma abstração de uma audácia e de uma grandeza desafiadora dos maiores gênios desse modo de expressão. Nela Inimá fazia uma outra reverência, agora contemporânea e imediata, e desta vez ao pintor que via crescer e ajudava a construir: Fernando Tavares. Quem a visse naquele momento, como eu a vi, não teria dúvidas de que o autor pretendia terçar armas de igual para igual, numa esgrima composicional e colorista de signos malevitchianos, kandinskyanos e kleenianos, com o seu agora simultaneamente discípulo e mestre. Porém, com tudo isso, naquela imagem reconhece-se de imediato o mais puro Inimá de Paula, num momento de máxima ousadia e de beleza indescritível. (14) Os dois esboços nos foram mostrados com aquele sorriso maroto. Inimá era o primeiro a reconhecer as suas inexequibilidades. 25 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Isso porque, como no caso das matrizes em metal, isso se dava não por serem impossíveis como labor artístico e fatura de edição, mas porque eram projetos que, pela magnitude, exigiriam uma realidade muito distante daquela em que vivíamos. Enfim, para as circunstâncias, eram muito mais que idéias - eram ideais. Inimá assinou ambos e nos deu como lembranças. E, juntos, partimos para o exequível. 5.6 A incrível série xilográfica de Inimá de Paula O que dizer quando as expectativas mais otimistas são de tal forma ultrapassadas, que ficam a parecer com erros de cálculo e de planejamento? Para quem duvidava da realização de cerca de meia dúzia de matrizes para se editar de duas a quatro imagens, como explicar ter havido, no mesmíssimo período, a fatura de quarenta e quatro matrizes xilográficas para trinta e três imagens realizadas, vinte e duas das quais prontas para edição?(15) 6. O mestre xilogravador Inimá de Paula Essa produção equivale a de um ano normal de trabalhos dos mais experientes gravadores. Em geral bons gravadores conseguem montar uma exposição de 20 a 30 imagens anualmente. Se Inimá quisesse montar uma exposição dessa ordem, teria material mais que suficiente. É pena que não tenha sido feita, nem sequer nos ocorreu isso na época, dadas as circunstâncias.(16) E a própria Oficina estava cheia de compromissos naquele período. Como então conseguira ele a façanha? A resposta é simples: Inimá revelou-se um mestre xilogravador. E a xilografia é uma linguagem essencialmente expressionista, e como tal muito afeita ao seu espírito modernista. Além disso Inimá era dono de uma disciplina invejável e conseguia uma concentração extraordinária em tudo o que fazia. Soma-se a sua facilidade em lidar com as coisas da Arte e tínhamos um artista completo descobrindo-se gravador emérito, dentro da Oficina Goeldi. Possuíamos na Oficina um grande painel de cortiça onde 26 MEMÓRIA prendiam-se as provas de impressão para que pudessem ser vistas e comentadas. Era uma prática saudável aquela, em que observávamos as imagens que iam saindo das prensas e prelos e aquilo tornava-se uma espécie de fórum de debate, crítica e avaliação dos trabalhos em andamento. Inimá, durante quase três meses, monopolizou aquele painel com a sua produção. Quem naquele período entrasse na Oficina sempre encontrava ali uma pequena platéia, a comentar suas últimas e surpreendentes imagens recém-saídas do prelo. O resto da história as próprias matrizes e gravuras contam por si mesmas pela leitura de suas evoluções temáticas e técnicas. Observa-se que tão logo ele apropriou-se das informações e conhecimentos essenciais, soltou-se na busca de um tema com a liberdade de sempre, utilizando-se, inicialmente, do linóleo como material xilográfico. Vagou por diversos temas e formatos de matrizes até encontrar-se pronto para a edição do Clube da Gravura, que fez a duas cores (matrizes xilográficas x-12 e x-13 do catálogo) numa bem urdida composição abstrata. Essas duas matrizes parecem ser de um profissional com longa experiência nas técnicas xilográficas, nenhum expert o negaria, e no entanto compõem a sua primeira gravura liberada para tiragem. Nela ele utiliza, pela segunda vez, da madeira como material de gravar, fazendo-o, como na primeira vez (matriz x10), na 2ª cor, a fim de enriquecê-la com a nobreza da sua textura. Daí em diante o gravador está solto e à disposição do artista para fazer o que bem entender. E solta-se como uma Erínia em busca da vingança, saindo de um tema a outro e de uma linguagem para outra, livremente e sem empecilhos. Para ele era fácil e divertido o que para outros costuma ser difícil e penoso. Se há uma unidade temática possível de se encontrar no conjunto, diríamos que esta vem do povo brasileiro, a quem ele consagra sua obra e com quem mais se identifica em espírito e origem. Pescadores, jagunços, índios, mendigos, prostitutas, seringueiros, homens e mulheres do povo, em seus lazeres e afazeres, estão ali expressos em linguagens plásticas diversas nessa admirável coleção de imagens, que vai culminar numa monumental xilogravura, verdadeira obra-prima, cavada com virtuosismo na madeira em três enormes matrizes, que nos dão a emocionante figura de uma “Pietá Cabocla”. Neste tour gráfico pelo Brasil (com passagens na Mitologia Grega), Inimá se vale de sortida mas seleta bagagem. Quatro temas se 27 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI evidenciam de imediato cujas imagens eu apelidaria de “Sertanejas”, “Praieiras”, “Amazônicas” e “Mitológicas”, afora as “Abstratas” e os “Divertimentos”. Nas primeiras, junto às reminiscências de Itanhomi e da vida interiorana de Minas, ele nos conduz pelas referências luminosas de Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila e Guignard. Nas “Praieiras” além das lembranças cearenses vislumbramos Lasar Segal, Scliar, Pancetti, Djanira, Graciano e até os belos sons das canções de Caymmi. Podemos encontrar as lições marajoaras de Roquete Pinto, Stradelli, Silva Ramos e reflexos das imagens dos filmes de Luiz Thomaz Reis, da expedição Rondon, nas “Amazônicas” e em muitas delas e das demais não é difícil rever Van Gogh, Gauguin, Rousseau, Matisse, Manet, Bracque, Picasso, Vieira da Silva, para falar de alguns modernos... Goeldi está sempre presente, como um farol, um guia, um referencial. Porém sem a angústia e o sofrimento que em Goeldi são heranças européias, como também não há em Inimá o ceticismo e o sarcasmo daquele. Os dois se encontraram muito acima disso, nos mais altos planos do sensível, e Inimá tornou-se discípulo da técnica de Goeldi, conquistando assim os radicais de linguagem que exigiria para si e para a sua própria e inconfundível expressão gráfica. Há os também inevitáveis ensinamentos gráficos de Leskoschek, Santa Rosa, Lívio Abramo e Poty Lazarotto. Inimá encerra a sequência terminando seu Auto-retrato (matrizes x-42 e x-43) que começara bem antes, na intenção de ser a primeira das suas imagens gravadas na madeira. Talvez porque tendo começado no metal com o retrato de Fernando acreditou que devesse começar na madeira com um outro retrato - o seu próprio. Porém, logo após as primeiras goivadas percebeu que precisava caminhar um pouco mais no linóleo e na própria madeira, para cumpri-lo no nível de sua exigência. Eis que o artista sabia por onde ir. Seu Auto-retrato, fechando este ciclo mágico, é mais que uma obra-prima, é a sua própria assinatura. 7. Da importância do feito É pertinente perguntar porque Inimá uma vez obtido tamanho êxito, não fez mais gravuras. Acredito que, entre diversos fatores, dois foram os que mais concorreram para que este ciclo ficasse único na sua biografia. 28 MEMÓRIA O primeiro deles seria a sua agenda de compromissos. (17) O segundo teria sido a mudança da Oficina Goeldi para São Paulo em 1985 e, mesmo tendo retornado a Belo Horizonte em 1989, teve seu fechamento no ano seguinte. Somente numa casa de gravura como a Oficina Goeldi um artista como Inimá teria condições para prosseguir sua obra em metal e xilo. Dir-se-á que Inimá assinou posteriormente gravuras litográficas, o que é verdade. Mas estas não passam de extensões e até de reproduções de suas pinturas. As linguagens calcográficas e xilográficas revelam o lado gráfico da obra, e são indispensáveis na avaliação dos mestres pelos meios cultos em artes plásticas. Nestas duas linguagens o artista tem que se confrontar com o desafio da artesania gráfica e conhecêla a fundo para obter resultados expressivos. Para quem exerceu somente a pintura durante toda a sua carreira, a Oficina Goeldi ofereceu uma oportunidade única de enfrentar esse desafio. Nele Inimá foi bem sucedido. Sua obra gráfica aqui descrita e catalogada na íntegra é, sem dúvida, uma contribuição para a Arte Maior da Gravura Brasileira, e amplia o nosso repertório de expressão gráfica e pictórica. ***** Um tipo de crítica tentava invalidar nossa argumentação alegando não apresentar o conjunto características inovadoras, sejam composicionais ou de linguagem. Neste caso eu diria que o que há de mais inovador em Inimá (e isso não é afirmado somente para este conjunto gravurístico, mas pela análise de sua obra como um todo) é justamente não haver nele qualquer ansiedade, intenção ou pretensão inovadora. Ele não buscava fazer o discurso e muito menos o proselitismo da liberdade, mas a vivenciava. E talvez por isso a natureza libertária de sua obra seja tão poderosa, com a pujança daquilo que é de fato novo porque novo sempre foi, e não pela pretensão de sê-lo. É, pois, obra mais inovadora do que pretensas inovações que já nascem velhas e superadas. Numa reflexão de Augusto de Campos: “o antigo que foi novo é tão novo quanto o novo mais novo”. A prova está nessa sequência de gravuras realizadas em tempo tão breve, numa única empresa criativa. Fica claro que para Inimá 29 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI não havia muros, compartimentos, preconceito ou regras préestabelecidas para com o ato criador. Nisso não houve Zeus algum que pudesse agrilhoá-lo. E que não o tenhamos por ingênuo. Sabia por onde andava, e se trazia o gênio solto era com consciência. Com ela Inimá ia rompendo com facilidade o metal, o linóleo e a madeira, abrindo imagens surpreendentes e vibrantes. Inimá é alegria, prazer e certeza de si mesmo nos seus feitos. 30 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI II CURADORIA II – Curadoria 1. Matrizes O lote de matrizes de gravuras, a seguir catalogado, compõe-se de quatro matrizes calcográficas e quarenta e quatro matrizes xilográficas de diversos formatos, todas gravadas à mão por Inimá de Paula na Oficina Goeldi, em Belo Horizonte, durante o ano de 1983. Estas matrizes constituem, ao que sabemos, todo o trabalho calcográfico e xilográfico realizado por Inimá em sua carreira. É, irrefutavelmente, obra de mestre, tanto do ponto de vista técnico, pela qualidade do corte em linóleo e madeira e das gravações em metal, como artístico, por suas composições e soluções gráficas. Muitas delas geram imagens que podem ser classificadas como obras-primas. Procuraremos fazer aqui a avaliação individual e de conjunto das imagens obtidas. Como um todo, o conjunto dessas matrizes é forte na valorização do corpus da expressão gráfica nacional, não somente por ser fatura de artista consagrado mas, antes de tudo, por se constituir em si mesma obra de significação universal, em equivalência às dos expoentes da gravura contemporânea. De cada uma delas foram tiradas Provas de Estado Atual que demonstram o perfeito estado de conservação em que se encontram. 2. Imagens 2.1 Imagens Calcográficas As quatro matrizes calcográficas do conjunto foram abertas em chapas de cobre e ficaram inacabadas, apesar de estarem todas praticamente resolvidas do ponto de vista da composição. Inimá trabalhou cada uma delas em linguagens e técnicas diferentes, talvez por terem sido suas primeiras gravuras e ter desejado testar ou experimentar o seu domínio diante destas linguagens e técnicas sobre o metal. A primeira delas (Imagem 01, matriz c-1, do catálogo) foi gravada em uma única água-tinta a partir de desenho feito a pincel com A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI nanquim-com-açúcar (processo do açúcar) e tem como imagem um Retrato de Fernando Tavares. Seu estado original, impresso em PE tirada na época, demonstra que permitia tiragem. Embora Inimá pretendesse aprimorá-la, não tocou na matriz após a primeira gravação. A prova de estado atual revela algumas marcas naturais do tempo sem prejuízo para a imagem. Artisticamente nos surpreende por revelar em Inimá, de imediato, um gravador da mesma cepa do pintor, com igual força de expressão e originalidade. A segunda (02, c-2) recebeu gravação em relevo com desenhos de contornos e superfícies protegidos a verniz e várias águastintas feitas em grãos variados de breu derretido. Revela uma Natureza Morta com garrafa, compoteira e bule. Não se conservou PEs da época, mas o estado atual (acrescido de algumas marcas naturais do tempo sem prejuízo para a composição) comprova que a matriz estava praticamente pronta para edição, com significativos trabalhos de aprimoramentos da imagem e polimentos feitos com lixas entre as diversas gravações. O resultado é de uma imagem rara, requintada e que já revela um gravador de metier em busca da perfeição. Apesar de Inimá não tê-la dado como acabada, não é difícil vê-la, tal como está, como uma de suas obras primas. A terceira matriz (03, c-3) recebeu duas ou três delicadas águastintas em breu pulverizado sobre desenhos protegidos ou gravados a vernizes, e tem como imagem uma composição abstrata feita a partir da fragmentação das conhecidas paisagens que frequentam a pintura de Inimá. O artista deu início ao brunimento da matriz para abrir-lhe claros e luzes, trabalho esse que ficou inacabado. Não se conservaram PEs de época. O estado atual, sem marcas do tempo, demonstra que Inimá caminhava com segurança para uma segunda obra-prima calcográfica, mas deixou-a inacabada. Ainda assim registra o sofisticado labor, o domínio técnico e a pré-disposição para pesquisa de Inimá para atingir seus propósitos nas técnicas abordadas. A quarta e última matriz (04, c-4) feita por Inimá em cobre é uma água-forte a traço para uma figuração de tema mitológico (Prometeu). Ele gravou apenas o traço básico do desenho na técnica tradicional de água-forte, mas foram conservados três esboços seus, dois deles feitos sobre PEs da matriz gravada e um outro feito a nanquim, reveladores de que seu projeto ia muito mais longe, dos pontos de vista técnico e artístico. Projetava uma sequência de águas-tintas e águas-fortes sucessivas para enriquecer o desenho de volumes e meios tons que lhe 34 CURADORIA acrescentariam forte tonalidade expressionista como resultado final. O estado atual mostra algumas marcas do tempo sem prejuízo da imagem e revela que a gravação da água-forte ficou apenas num primeiro estágio. O desenho fixado no cobre é primoroso e é valido de per si, acrescentando, ainda que num estágio primário de um projeto inacabado, uma nova imagem de valor à iconografia do famoso mito. O conjunto destas quatro matrizes demonstra a maestria do autor e deixa claro que a Gravura em Metal brasileira poderia ter em Inimá um de seus expoentes se lhe fossem dadas a disponibilidade de tempo para dedicar-se e as condições de trabalho necessárias. É valioso como ensaio e pesquisa de linguagem de um dos nossos maiores pintores; é precioso por ser registro único em sua biografia; e é raridade para o conjunto de imagens calcográficas produzidas no Brasil. 2.2 Imagens Xilográficas Das quarenta e quatro matrizes xilográficas deste acervo, trinta e cinco foram abertas no linóleo e nove na madeira. O conjunto xilográfico revela trinta e três imagens, nove das quais utilizam duas matrizes para impressão. Dessas nove, três são linoleogravuras (Imagem 08, matrizes x-4 e x-5; 09, x-6 e x-7; 29, x-30 e x-31), quatro são mistas, com a 2ª cor em madeira (11, x-9 e x-10; 13, x-12 e x-13; 15, x-15 e x-16; 34, x-36 e x-37) e duas são xilogravuras (35, x-39 e x-40; 36, x-42 e x-43). Duas das matrizes não foram utilizadas por erros de fatura: a matriz x-38, feita em linóleo para ser a matriz principal da Imagem 34 em que fracassou uma tentativa de retoque com massa plástica, e a matriz x-41, que foi gravada em madeira com o desenho invertido, e que deveria ter sido a 2ª cor da Imagem 35. Das trinta e três imagens resultantes, dezoito receberam edição com tiragens numeradas e assinadas pelo artista (Imagens 11, 12, 13, 14, 15, 18, 19, 20, 21, 23, 24, 25, 27, 28, 30, 31, 33 e 34), uma foi impressa sem numeração e assinatura para ser distribuída como cartão de natal do artista (Imagem 37) e três ficaram prontas para edição a ser produzida em data posterior (Imagens 29, 35 e 36), o que acabou não ocorrendo. A Imagem 13 teve edição especial para o Clube da Gravura da Oficina Goeldi, com 250 exemplares numerados e assinados. As demais tiveram tiragens reduzidas, a maior, de 35 exemplares (Imagens 15 e 34), e a menor de 15 exemplares (Imagem 11). 35 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Pelos dados recolhidos nas chancelas dos 70 exemplares assinados e remanescentes do acervo da Oficina Goeldi (13 dos quais da tiragem do Clube da Gravura) pode-se extrapolar que o artista numerou e assinou uma quantidade em torno de 800 exemplares tirados das dezoito imagens editadas.(18) Porém, mesmo esse sucesso editorial pode ser considerado de pequena monta em relação ao mercado de gravura, para uma chancela deste porte. O que valoriza ainda mais o acervo existente, tanto o de matrizes quanto o de exemplares conservados, uma vez que suas peças tornam-se raridades e estão bem conservadas.(19) Mas muito além do sucesso editorial foi o sucesso artístico do empreendimento, este sim, de grande monta para a Arte Maior da Gravura Brasileira. Tematicamente dividimos o conjunto xilográfico em sete seções ou suites xilográficas, assim apelidadas: a) “Sertaneja”: aquelas cujos temas são os aspectos interioranos e sertanejos, suas aldeias, paisagens e personagens, composta das Imagens 05, 10, 12, 16,17, 18, 19 e 20 do catálogo; b) “Praieira”: que tem como tema marinhas tiradas ao litoral típico nordestino, com suas jangadas, barcos e pescadores, composta das Imagens 07, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29 e 30; c) “Amazônica”: com temas indígenas, ribeirinhos e florestais típicos da região, composta das Imagens 31, 32, 33, 34 e 35; d) “Mitológica”: com temas da mitologia grega, composta das Imagens 09 e 21; e) “Abstrata”: das composições neste modo elaboradas, composta das Imagens 08, 11 e 13; f) “Divertimentos”: daquelas cujos temas figurativos são isolados e não compõem séries com outras imagens, compreendendo as Imagens 06, 14, 15 e 37; e g) “Auto-retrato”, constituída de uma única imagem, a de nº 36. Pode-se afirmar com segurança que todas elas são contribuições importantes para o repertório de imagens da xilografia nacional 36 CURADORIA e, mesmo que algumas poucas matrizes possuam defeitos de fatura (x-3, x-18, x-27, x-34, x-38 e x-41) que impediram o seu acabamento e até a edição, isso não reduz a importância das suas imagens como frutos de pesquisa em profundidade e elaboração artística de primeira linha. Em compensação em cada uma das seções podemos destacar pelo menos uma obra-prima, senão duas ou até três. O expert pode avaliá-las e eleger as de sua escolha; quanto a mim, enxergo como verdadeiras obras-primas as imagens 05 e 18 da seção “a”; 24, 27 e 28 da “b”; 34 e 35 da “c”; 21 da “d”; 08 e 13 da “e”, 14 e 15 da “f” e o Auto-retrato como hors concours, indiscutivelmente genial. 3. Esboços (Projetos de Gravura) Os seis esboços deixados por Inimá na Oficina Goeldi, dos quais cinco são conservados em acervo, foram feitos como projetos gravurísticos e possuem o valor de aquarelas e desenhos, como peças únicas de sua autoria. Além disso, agregam rica informação sobre como ele desenvolvia suas pesquisas e estudos em busca de aprimoramento técnico e artístico. Os de nº 01, 02 (que não pertence ao acervo), 03, 04 e 05 representam imagens de de alta significação para a sua obra. São trabalhos de pesquisa e de aprofundamento em técnicas e linguagens novas para ele, e que demonstram o seu grau de envolvimento e dedicação para obter a excelência nos resultados. Já o esboço de nº 06, que representa a imagem de um Cristo em cenário barroco mineiro, é, a nosso ver, uma peça de qualidade abaixo da média e não foi sem algum vacilo que a incluímos como item deste acervo, até porque chegamos a duvidar de sua autoria. Isso porque em nenhum outro trabalho Inimá valeu-se de instrumentos de desenho técnico (curvas francesas). Mas a dúvida em relação à autoria se desfaz pela avaliação do acabamento do desenho, feito a mão livre, e do estilo da cenarização, da figura humana e da composição em geral. Também o papel utilizado é exatamente da mesma marca, gramatura, cor e formato do que foi utilizado no esboço de nº 01. 3.1 Descrição dos Esboços em Acervo O esboço nº 01, do catálogo, foi feito em técnica de aquarela e lápis cera negro (crayon), e tem como imagem uma gare ferroviária 37 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI com figuras goeldianas. Foi feito em papel nacional, tipo vergê, de baixa gramatura, que além de ser de qualidade inferior não é apropriado para a técnica aplicada. As margens do desenho estão marcadas com digitais do artista nas cores usadas, o que é comum entre os gravadores, que assim fazem provas de cores para conhecer tons e misturas antes de utilizá-las. O esboço é assinado a lápis com a chancela “Inimá” e datado “83”. O esboço nº 03 é um projeto de desenvolvimento da água-forte gravada em cobre na matriz c-4 (Imagem 04). Utilizando-se da técnica de nanquim-com-aguada, Inimá aplica tons leves de cinzas sobre as linhas do desenho impresso como prova de estado da matriz gravada. O papel é do tipo velin da marca francesa “Arches” com alta gramatura para impressão de gravuras em metal, de excelente qualidade e próprio para a finalidade. É um tipo de esboço muito usado pelos gravadores de metal, com o objetivo de antever os resultados das águas tintas que pretendem aplicar nas suas matrizes. Não está assinado. O esboço nº 04 é um outro projeto de desenvolvimento da mesma água-forte da matriz c-4 com a diferença de que neste ele projetava realizar nova água-forte sobre a anterior, além de águas-tintas. Foi feito como o anterior e com o mesmo objetivo, sobre prova de estado da matriz gravada em papel da mesma marca e qualidade. A técnica utilizada foi a de aplicação de traços a caneta hidrocor sobre tons aquarelados. Não está assinado. O esboço nº 05 ainda trabalha sobre a mesma imagem, porém, sem utilizar-se de uma prova de estado da matriz gravada e fazendo-o por transferência do desenho de modo invertido para outro papel, este de qualidade inferior e não identificada. A técnica utilizada, aplicação de nanquim a pincel espesso, dá a entender que Inimá pretendia valer-se da imagem para realizar uma xilografia, uma vez que não contempla no projeto os meios tons comuns na gravura em metal. Porém, pode ser possível que tenha pensado em realizar uma máscara para água-tinta a ser aplicada na mesma matriz em metal, processo também muito usado entre gravadores. Não está assinado. O esboço de nº 06 foi, provavelmente, realizado como projeto xilográfico sobre papel idêntico em marca, cor, gramatura e formato do esboço nº 01, mas mais próprio para a técnica utilizada que foi a do desenho a lápis cera negro. Inimá valeu-se de curvas francesas para compor a estrutura do rosto desenhado, o que torna este esboço no mínimo sui generis, no contexto da sua obra. Não está assinado. 38 CURADORIA 4. Acervo O acervo conservado está intato desde 1985, época em que a Oficina Goeldi mudou-se para São Paulo. Compõe-se da seguinte relação de peças: Matrizes calcográficas: 4 Matrizes xilográficas em linóleo: 35 Matrizes xilográficas em madeira: 9 Exemplares de gravuras originais assinadas pelo artista: 70 Exemplares de gravuras originais não assinadas: 3 Prova de estado original não assinada: 1 Esboços para projetos gravurísticos: 5 Total: 127 peças, todas produzidas no ano de 1983. Constitui-se este acervo numa Coleção completa da obra gravurística do autor realizada na Oficina Goeldi durante o ano de 1983. Nela estão todas as matrizes gravadas e pelo menos um exemplar de cada imagem que foi editada na época, com numeração e assinatura. Acrescentam-se ainda cinco esboços feitos como projeto de gravuras que se conservaram em acervo. O estado geral de conservação das peças é excelente, com restrição apenas para os esboços de nº 03 e 04 cujos suportes em papel apresentam alguns sinais de fungos e mofos. No entanto os danos não afetam em nada as imagens e ainda não são preocupantes por serem restauráveis. Outra peça com restrição, mas não pelo estado de conservação, é um dos exemplares da tiragem da Imagem 13, numerada em duplicata como 85/250 para o Clube da Gravura. Poderia ter sido uma delas recusada por algum motivo não detectado nesta avaliação, pelo que assinou-se outra com o mesmo número ou, o que é mais provável, por mera distração durante o ato de chancelar tiragem tão elevada. Como foram conservados os dois exemplares, que são exatamente iguais, contamos ambos como diferentes peças do acervo. 39 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Não foram consideradas como restrições de estado as já citadas matrizes que não puderam ser aproveitadas por erros de gravação (x-3, x-18, x-27, x-34, x-38 e x-41), mas, pelo contrário, foram consideradas peças de igual valor original e constitutivo do acervo, por serem documentos valiosos do envolvimento do autor em pesquisas na linguagem da gravura. Agora agregamos, também, como peças do acervo, as quarenta e oito Provas de Estado Atual de todas as matrizes, recémimpressas pelo oficial de impressão Waldemar Gravura, o mesmo impressor responsável pelos exemplares e provas originalmente tirados. As quatro primeiras, calcográficas, foram tiradas em prensa de gravura em metal, graças à colaboração da gravadora Daisy Turrer que nos emprestou a sua prensa Topal, e as demais, xilográficas, tiveram suas provas tiradas a “colher-de-pau” sobre papel japonês. Com elas o acervo total, em outubro de 2000, é composto por 175 peças. Não arriscaremos uma avaliação monetária do valor deste acervo por não possuirmos qualificação para tal. Concluindo, este acervo é composto de peças que, isoladamente ou em conjunto, são de inestimável valor no contexto da obra de Inimá de Paula, obra esta que, com o falecimento do autor, é hoje um universo restrito às peças que se conservaram em acervos públicos e particulares. Se visto como um conjunto este acervo possui, também, uma qualidade especial e extraordinária de ser completo e único no que diz respeito a um profundo e ignorado envolvimento do artista com as linguagens calcográficas e xilográficas da gravura, sendo, portanto, de fundamental importância para a complementação da informação sobre o artista e sua obra. E por ser material desconhecido e raro, e que no nosso entender é também contribuição substancial e obrigatória ao Catálogo Geral definitivo (raisonné) das obras de Inimá de Paula, fizemos essa exposição - composta de memória, curadoria e catálogo, e realizada com os nossos minguados recursos - para que eventualmente possa ser apreciada pelos mais competentes e mais capazes de uma avaliação acurada da sua importância nos contextos mais amplos da arte brasileira e universal. 40 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI III CATÁLOGO III. Catálogo 1. Introdução Catalogam-se aqui todas as peças encontradas no acervo deste editor do que agora denomino “Ciclo Inimá de Paula na Oficina Goeldi”. Não se fez na época um registro que nos lembrasse a ordem cronológica de fatura das matrizes e imagens até porque não se previra tamanha prole, e também porque seria difícil estabelecer uma ordem assim, mesmo na época, uma vez que Inimá trabalhava simultaneamente várias matrizes com temas, linguagens e técnicas diversas. Mas a ordem dada neste Catálogo não está muito longe da verdade cronológica das faturas finais de cada imagem, porque vem da memória do editor que acompanhou os trabalhos com vistas à produção das suas tiragens. Dou uma numeração sequencial e cronológica, tanto quanto possível foi memorizá-las, às imagens compostas por Inimá desde a que apelidei “Retrato de Fernando Tavares” (Imagem 01), a primeira que foi feita em metal, até a “Igreja de São Francisco de Ouro Preto” (Imagem 37), feita mais tarde em linóleo, fora do ciclo, para cartão de natal daquele ano. As matrizes foram numeradas por divisão de técnica aplicada, sendo as de letra “c”, as calcográficas e as de letra “x” as xilográficas, ambas em ordem sequencial e subordinadas aos números das imagens que geram. Quanto aos exemplares impressos das matrizes, quase todos numerados e assinados pelo artista, mantive esta mesma numeração subordinando os exemplares às respectivas imagens como fiz com as matrizes. Dessa forma evito numerar coisa já numerada, o que, pelo menos neste caso, iria confundir muito mais do que organizar. Contudo, para satisfazer os exigentes, deixo ao final deste trabalho um inventário das 175 peças desta coleção em forma de lista na qual numero-as de 001 a 175, sendo que tais números ficam somente nesta lista; não serão aplicados fisicamente às respectivas peças. A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Os esboços foram numerados à parte de 01 a 06, como peças únicas e originais do artista, e que fazem parte desta coleção por terem sido todos eles feitos como projetos de edição de gravuras. Embora a praxe me permita, na qualidade de editor, titular as imagens caso o autor não o tenha feito, o que faço agora é somente apelidar aquelas muitas que ele não nomeou, a fim de facilitar o reconhecimento das imagens e a consulta de catálogo. Evidentemente que mantenho no catálogo, entre aspas, os nomes originais das poucas imagens por ele tituladas. Acrescentei a esse registro, como curiosidade, a numeração da época da Oficina Goeldi que ainda permanece afixada no verso de algumas das matrizes e está também anotada à lápis no verso de alguns exemplares impressos, de cuja letra reconheço a de Fernando Tavares, mas desconheço os critérios que teriam sido adotados por ele para dar estes registros. Parece-me que o objetivo seria apenas o de dar a ordem em que estavam guardadas as matrizes e os exemplares, a fim de que não se perdessem, mas percebe-se que foi tentada a aplicação de algum método de natureza organizacional, porém, sem sucesso. É evidente, por diversos motivos, que o critério adotado não fora o da ordenação sequencial ou cronológica. Marquei com asterisco (*) as matrizes xilográficas que trazem as letras “IP”, nelas gravadas em espelho. Originalmente era intenção de Inimá permitir, a exemplo dos gravadores de cordel, a edição ilimitada destas imagens, projeto que não se cumpriu já que foram também assinadas e numeradas as tiragens de algumas matrizes assim marcadas. Por fim acrescento um Catálogo Temático onde incluo também as imagens calcográficas e os esboços, adotando nomes semelhantes e os mesmos critérios descritos no item “II Curadoria”e aplicados às séries ali criadas para agrupar as imagens xilográficas. 44 CATÁLOGO 2. Catálogo das Imagens, Matrizes e Exemplares impressos 2.1 Calcografias IMAGEM 01: Retrato de Fernando Tavares Matriz: c-1 Formato da matriz: 300x406 mm Técnica: água-tinta Nº Oficina Goeldi: Exemplares em Acervo: PE s/ assinatura Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x700mm IMAGEM 02: Natureza Morta Matriz: c-2 Formato da matriz: 300x198 mm Técnica: água-tinta e relevo Nº Oficina Goeldi: - IMAGEM 03: Composição I Matriz: c-3 Formato da matriz: 300x200 mm Técnica: água-tinta Nº Oficina Goeldi: - IMAGEM 04: Prometeu acorrentado Matriz: c-4 Formato da matriz: 400x300 mm Técnica: água-forte Nº Oficina Goeldi: 45 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI 2.2 Xilografias IMAGEM 05: Paisagem I Matriz: x-1 (*) Formato da matriz: 174x115 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-30 IMAGEM 06: Mergulhador Matriz: x-2 (*) Formato da matriz: 230x168 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-39 IMAGEM 07: Marinha com píer Matriz: x-3 (*) Formato da matriz: 398x300 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-4 IMAGEM 08: Paisagem II Matriz: x-4 (*) Formato da matriz: 345x247 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: Matriz: x-5 Formato da matriz: 454x298 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: - 46 CATÁLOGO IMAGEM 09: Erínia Matriz: x-6 (*) Formato da matriz: 289x214 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V Matriz: x-7 Formato da matriz: 295x217 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-15 IMAGEM 10: Prostíbulo Matriz: x-8 (*) Formato da matriz: 187x156 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-12 (?) IMAGEM 11: Composição II Matriz: x-9 (*) Formato da matriz: 400x301mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-7B Matriz: x-10 Formato da matriz: 395x299 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-7 Tiragem: 15 ex. e 5 PAs a 1 cor, 1 HC e 1 PA a 2 cores. Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: (1 cor) PA I/V, II/V, 1/15 e 3/15; (2 cores) HC e PA - todos assinados e numerados. Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 700x500mm 47 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 12: Cavaleiro montando Matriz: x-11 (*) Formato da matriz: 190x297 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-18 Tiragem: 25 ex. e 6 PAs Exemplares em Acervo: PA II/VI e 6/25 - ambos numerados e assinados IMAGEM 13: Composição III Matriz: x-12 Formato da matriz: 398x297 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: Matriz: x-13 Formato da matriz: 350x255 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: Tiragem: 250 ex., 25 PAs e 5HCs (Clube da Gravura) Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: 31/250, 85/250, 85/250, 105/250, 106/ 250, 107/250, 109/250, 177/250, 179/250, 219/250, 221/250 e 222/ 250 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 700x500mm 48 CATÁLOGO IMAGEM 14: “Favela da Rosinha” (sic) Matriz: x-14 (*) Formato da matriz: 290x400 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-5 Tiragem: 20 ex. Título do autor: Favela da Rosinha Exemplares em Acervo: 1/20, 7/20 e 9/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x700mm IMAGEM 15: “Circo” Matriz: x-15 Formato da matriz: 398x294 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-8 Matriz x-16 Formato da matriz: 395x290mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: Tiragem: 35 ex. Título do autor: Circo Exemplares em Acervo: 16/35 - assinado e numerado Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 700x500mm 49 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 16: Cavaleiros Matriz: x-17 Formato da matriz: 190x331 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-21 (?) IMAGEM 17: Jagunço Matriz: x-18 Formato da matriz: 195x250 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-37 IMAGEM 18: Tropeiros Matriz: x-19 Formato da matriz: 250x195 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-34 Tiragem: 30 ex. Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, 3/30, 4/30, 5/30, 6/30 e 7/30 - todos assinados e numerados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm 50 CATÁLOGO IMAGEM 19: Mendigos Matriz: x-20 Formato da matriz: 249x195 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-40 Tiragem: 20 ex. e 10 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, 4/20, 5/20 e 8/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm IMAGEM 20: Bar Ás de Ouro Matriz: x-21 Formato da matriz: 293x218 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-25 Tiragem: 30 ex. e 10 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, PA II/X, PA III/X, PA V/X e 7/30 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm 51 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 21: Três Graças Matriz: x-22 Formato da matriz: 204x265 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-16 Tiragem: 25 ex. e 6 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, PA I/VI, 1/25 e 4/25 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 350x500mm IMAGEM 22: Marinha com aldeia Matriz: x-23 Formato da matriz: 250x195 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-35 IMAGEM 23: Marinha Matriz: x-24 Formato da matriz: 190x250 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-17 (?) Tiragem: 25 ex. Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, 7/20 e 9/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 350x500mm 52 CATÁLOGO IMAGEM 24: “Pesca ao guaiamum” Matriz: x-25 Formato da matriz: 295x220 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-26 Tiragem: 20 ex. Título do autor: Pesca ao guaiamum Exemplares em Acervo: 14/20, 16/20 e 18/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm IMAGEM 25: Cais de Pescadores I Matriz: x-26 Formato da matriz: 297x217 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-36 Tiragem: 25 ex. e 6 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, PA I/VI, PA III/VI e 1/25 todos assinados e numerados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm IMAGEM 26: Cais de Pescadores II Matriz: x-27 Formato da matriz: 292x218 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-27 53 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 27: “Barco pesqueiro” Matriz: x-28 Formato da matriz: 336x191 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-20 Tiragem: 20 ex. Título do autor: Barco pesqueiro Exemplares em Acervo: 7/20, 15/20, 17/20 e 19/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm IMAGEM 28: Marinha com jangada Matriz: x-29 Formato da matriz: 300x220 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-10 Tiragem: 25 ex. Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: HC e 6/25 - ambos assinados e numerados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm 54 CATÁLOGO IMAGEM 29: Repouso do Pescador Matriz: x-30 Formato da matriz: 250x195 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-38 Matriz: x-31 Formato da matriz: 250x190 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-32 IMAGEM 30: Lavadeira Matriz: x-32 Formato da matriz: 225x194 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-19 Tiragem: 25 ex. e 6 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: Bon à tirer, HC, HC, PA III/VI e 5/25 todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm 55 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 31: “Floresta” Matriz: x-33 Formato da matriz: 298x214 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-28 Tiragem: 20 ex. Título do autor: Floresta Exemplares em Acervo: 4/20, 6/20 e 12/20 - todos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm IMAGEM 32: Mulheres de Pescadores I Matriz: x-34 Formato da matriz: 250x195 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-33 IMAGEM 33: Mulheres de Pescadores II Matriz: x-35 Formato da matriz: 337x197 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-23 Tiragem: 25 ex. e 8 Pas Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: PA III/VIII e 3/25 - ambos numerados e assinados Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 500x350mm 56 CATÁLOGO IMAGEM 34: Índias embarcando Matriz: x-36 Formato da matriz: 398x292 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-6A Matriz: x-37 Formato da matriz: 395x295 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-6B Matriz: x-38 (não aproveitada) Formato da matriz: 400x295 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-6A Tiragem: 35 ex. Título do autor: s/ título Exemplares em Acervo: 1/35 - numerado e assinado Suporte: papel canson 240 g/m2 (esp. p/ gravura) cortado a 700x500mm IMAGEM 35: Pietá Cabocla Matriz: x-39 (*) Formato da matriz: 358x477 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: Matriz: x-40 Formato da matriz:357x475mm Técnica: Xilogravura. Nº Oficina Goeldi: OG-V-9 Matriz: x-41 (não aproveitada) Formato da matriz: 358x477 mm (verso da x-42) Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: - 57 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI IMAGEM 36: Auto-retrato Matriz: x-42 Formato da matriz: 273x280 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-41A Matriz: x-43 Formato da matriz: 270x278 mm Técnica: Xilogravura Nº Oficina Goeldi: OG-V-41B IMAGEM 37: Igreja de São Francisco de Ouro Preto Matriz: x-44 (*) Formato da matriz: 198x135 mm Técnica: Linoleogravura Nº Oficina Goeldi: Tiragem: 500 ex. (provável) para distribuição como cartão de natal do artista Exemplares em Acervo: 3 ex. s/ assinatura (*) Matrizes gravadas com as letras “IP”. 58 CATÁLOGO 3. Esboços Esboço 01 - Hommage a Goeldi - Projeto de xilografia Técnica: Aquarela com lápis cera Formato: 400X300 mm Suporte: Papel vergé, aprox. 90 g/m2, cor branca, cortado a 480x330 mm Assinado e datado pelo artista. Esboço 02 - Composição Técnica: Aquarela - Projeto de calcografia Formato: (?) Suporte: Papel vergé, aprox. 90 g/m2, cor branca, cortado a (?) (não pertence ao acervo) Esboço 03 - Prometeu acorrentado I - Projeto de calcografia Técnica: nanquim-com-aguada sobre PE de água-forte Formato: 400x300 mm Suporte: Papel Velin Arches, aprox. 240 g/m2, cor branca, cortado a 500x350 mm Esboço 04 - Prometeu acorrentado II - Projeto de calcografia Técnica: caneta esferográfica e nanquim sobre PE de água-forte Formato: 400x300 mm Suporte: Papel Velin Arches, aprox. 240 g/m2, cor branca, cortado a 500x350 mm 59 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Esboço 05 - Prometeu acorrentado III - Projeto de xilografia Técnica: nanquim a pincel espesso Formato: 400x300 mm Suporte: Papel cartão, aprox. 180 g/m2, cor branca, cortado a 390x330 mm Esboço 06 - Cristo - Projeto de xilografia Técnica: lápis cera Formato: 330x330 mm Suporte: Papel vergé, aprox. 90 g/m2, cor branca, cortado a 480x330 mm 60 CATÁLOGO 4. Catálogo Temático 4.1 Suite Sertaneja IMAGEM 05: Paisagem I IMAGEM 10: Prostíbulo IMAGEM 12: Cavaleiro montando IMAGEM 16: Cavaleiros IMAGEM 17: Jagunço IMAGEM 18: Tropeiros IMAGEM 19: Mendigos IMAGEM 20: Bar Ás de Ouro 4.2 Suite Praieira IMAGEM 07: Marinha com píer IMAGEM 22: Marinha com aldeia IMAGEM 23: Marinha IMAGEM 24: “Pesca ao guaiamum” IMAGEM 25: Cais de Pescadores I IMAGEM 26: Cais de Pescadores II IMAGEM 27: “Barco pesqueiro” IMAGEM 28: Marinha com jangada IMAGEM 29: Repouso do Pescador IMAGEM 30: Lavadeira 61 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI 4.3 Suite Amazônica IMAGEM 31: “Floresta” IMAGEM 32: Mulheres de Pescadores I IMAGEM 33: Mulheres de Pescadores II IMAGEM 34: Índias embarcando IMAGEM 35: Pietá Cabocla 4.4 Suite Mitológica IMAGEM 04: Prometeu acorrentado IMAGEM 09: Erínia IMAGEM 21: Três Graças Esboço 03 - Prometeu acorrentado I Esboço 04 - Prometeu acorrentado II Esboço 05 - Prometeu acorrentado III 4.5 Suite Abstrata IMAGEM 03: Composição I IMAGEM 08: Paisagem II IMAGEM 11: Composição II IMAGEM 13: Composição III Esboço 02 - Composição 62 CATÁLOGO 4.6 Divertimentos IMAGEM 02: Natureza Morta IMAGEM 06: Mergulhador IMAGEM 14: “Favela da Rosinha” (sic) IMAGEM 15: “Circo” IMAGEM 37: Igreja de São Francisco de Ouro Preto Esboço 01 - Hommage a Goeldi 4.7 Retratos IMAGEM 01: Retrato de Fernando Tavares IMAGEM 36: Auto-retrato Esboço 06 - Cristo 63 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI INVENTÁRIO CICLO INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI Acervo Izabel Costa e Mario Drumond INVENTÁRIO (Total de 175 peças) 1. Matrizes (48 peças) 1.1 Matrizes calcográficas (4 peças) 001 – Matriz c-1, Imagem 01 002 – Matriz c-2, Imagem 02 003 – Matriz c-3, Imagem 03 004 – Matriz c-4, Imagem 04 025 – Matriz x-21, Imagem 20 026 – Matriz x-22, Imagem 21 027 – Matriz x-23, Imagem 22 028 – Matriz x-24, Imagem 23 029 – Matriz x-25, Imagem 24 030 – Matriz x-26, Imagem 25 031 – Matriz x-27, Imagem 26 1.2 Matrizes Xilográficas (44 peças) 032 – Matriz x-28, Imagem 27 005 – Matriz x-1, Imagem 05 033 – Matriz x-29, Imagem 28 006 – Matriz x-2, Imagem 06 034 – Matriz x-30, Imagem 29 007 – Matriz x-3, Imagem 07 035 – Matriz x-31, Imagem 29 008 – Matriz x-4, Imagem 08 036 – Matriz x-32, Imagem 30 009 – Matriz x-5, Imagem 08 037 – Matriz x-33, Imagem 31 010 – Matriz x-6, Imagem 09 038 – Matriz x-34, Imagem 32 011 – Matriz x-7, Imagem 09 039 – Matriz x-35, Imagem 33 012 – Matriz x-8, Imagem 10 040 – Matriz x-36, Imagem 34 013 – Matriz x-9, Imagem 11 041 – Matriz x-37, Imagem 34 014 – Matriz x-10, Imagem 11 042 – Matriz x-38, Imagem 34 015 – Matriz x-11, Imagem 12 043 – Matriz x-39, Imagem 35 016 – Matriz x-12, Imagem 13 044 – Matriz x-40, Imagem 35 017 – Matriz x-13, Imagem 13 045 – Matriz x-41, Imagem 35 018 – Matriz x-14, Imagem 14. 046 – Matriz x-42, Imagem 36 019 – Matriz x-15, Imagem 15 047 – Matriz x-43, Imagem 36 020 – Matriz x-16, Imagem 15 048 – Matriz x-44, Imagem 37 021 – Matriz x-17, Imagem 16 022 – Matriz x-18, Imagem 17 023 – Matriz x-19, Imagem 18 024 – Matriz x-20, Imagem 19 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI 2. Exemplares tirados das matrizes (74 peças) 072 – Ex. 9/20, Imagem 14 2.1 Calcografias s/ assinatura do artista (1 peça) 074 – Bon a tiré, Imagem 18 073 – Ex. 16/35, Imagem 15 075 – Ex. 3/30, Imagem 18 049 – Prova de Estado (PE), Imagem 01 076 – Ex. 4/30, Imagem 18 077 – Ex. 5/30, Imagem 18 2.2 Xilografias assinadas pelo artista (70 peças) 078 – Ex. 6/30, Imagem 18 050 – PA I/V, Imagem 11 079 – Ex. 7/30, Imagem 18 051 – PA II/V, Imagem 11 080 – Bon a tiré, Imagem 19 052 - Ex. 1/15, Imagem 11 081 – Ex. 4/20, Imagem 19 053 – Ex. 3/15, Imagem 11 082 – Ex. 5/20, Imagem 19 054 – HC, Imagem 11 a 2 cores 083 – Ex. 8/20, Imagem 19 055 – PA, Imagem 11 a 2 cores 084 - Bon a tiré, Imagem 20 056 – PA II/VI, Imagem 12 085 – PA II/X, Imagem 20 057 - Ex. 6/25, Imagem 12 086 – PA III/X, Imagem 20 058 – Ex. 31/250, Imagem 13 087 – PA V/X, Imagem 20 059 – Ex. 85/250, Imagem 13 088 – Ex. 7/30, Imagem 20 060 – Ex. 85/250, Imagem 13 089 - Bon a tiré, Imagem 21 061 – Ex. 105/250, Imagem 13 090 – PA I/VI, Imagem 21 062 – Ex. 106/250, Imagem 13 091 – Ex. 1/25, Imagem 21 063 – Ex. 107/250, Imagem 13 092 – Ex. 4/25, Imagem 21 064 – Ex. 109/250, Imagem 13 093 - Bon a tiré, Imagem 23 065 – Ex. 177/250, Imagem 13 094 – Ex. 7/20, Imagem 23 066 – Ex. 179/250, Imagem 13 095 – Ex. 9/20, Imagem 23 067 – Ex. 219/250, Imagem 13 096 – Ex. 14/20, Imagem 24 068 – Ex. 221/250, Imagem 13 097 – Ex. 16/20, Imagem 24 069 – Ex. 222/250, Imagem 13 098 – Ex. 18/20, Imagem 24 070 – Ex. 1/20, Imagem 14 099 - Bon a tiré, Imagem 25 071 – Ex. 7/20, Imagem 14 100 – PA I/VI, Imagem 25 68 INVENTÁRIO 101 – PA III/VI, Imagem 25 3. Esboços (5 peças) 102 – Ex. 1/25, Imagem 25 3.1 Esboços assinados pelo artista (1 peça) 103 – Ex. 7/20, Imagem 27 123 – Esboço 01 104 – Ex. 15/20, Imagem 27 3.2 Esboços s/ assinatura do artista (4 peças) 105 – Ex. 17/20, Imagem 27 106 – Ex. 19/20, Imagem 27 124 – Esboço 03 107 – HC, Imagem 28 125 – Esboço 04 108 – Ex. 6/25, Imagem 28 126 – Esboço 05 109 - Bon a tiré, Imagem 30 127 – Esboço 06 110 – HC, Imagem 30 111 – HC, Imagem 30 112 – PA III/VI, Imagem 30 4. Provas de Estado Atual (PEA) das Matrizes do Acervo (48 peças) 113 – Ex. 5/25, Imagem 30 4.1 Calcografias (4 peças) 114 – Ex. 4/20, Imagem 31 128 – PEA, matriz c-1 115 – Ex. 6/20, Imagem 31 129 – PEA, matriz c-2 116 – Ex. 12/20, Imagem 31 130 – PEA, matriz c-3 117 – PA III/VIII, Imagem 33 131 – PEA, matriz c-4 118 – Ex. 3/25, Imagem 33 119 – Ex. 1/35, Imagem 34 2.2 Xilografias s/ assinatura do artista (3 peças) 120 – Ex. s/nº, Imagem 37 121 - Ex. s/nº, Imagem 37 122 - Ex. s/nº, Imagem 37 69 A GRAVURA DE INIMÁ DE PAULA NA OFICINA GOELDI 4.2 Xilografias (44 peças) 160 – PEA, matriz x-29 132 – PEA, matriz x-1 161 – PEA, matriz x-30 133 – PEA, matriz x-2 162 – PEA, matriz x-31 134 – PEA, matriz x-3 163 – PEA, matriz x-32 135 – PEA, matriz x-4 164 – PEA, matriz x-33 136 – PEA, matriz x-5 165 – PEA, matriz x-34 137 – PEA, matriz x-6 166 – PEA, matriz x-35 138 – PEA, matriz x-7 167 – PEA, matriz x-36 139 – PEA, matriz x-8 168 – PEA, matriz x-37 140 – PEA, matriz x-9 169 – PEA, matriz x-38 141 – PEA, matriz x-10 170 – PEA, matriz x-39 142 – PEA, matriz x-11 171 – PEA, matriz x-40 143 – PEA, matriz x-12 172 – PEA, matriz x-41 144 – PEA, matriz x-13 173 – PEA, matriz x-42 145 – PEA, matriz x-14 174 – PEA, matriz x-43 146 – PEA, matriz x-15 175 – PEA, matriz x-44 147 – PEA, matriz x-16 148 – PEA, matriz x-17 149 – PEA, matriz x-18 150 – PEA, matriz x-19 151 – PEA, matriz x-20 152 – PEA, matriz x-21 153 – PEA, matriz x-22 154 – PEA, matriz x-23 155 – PEA, matriz x-24 156 – PEA, matriz x-25 157 – PEA, matriz x-26 158 – PEA, matriz x-27 159 – PEA, matriz x-28 70 Notas 1 Para se ter idéia das atividades da Oficina Goeldi na época, simultaneamente às edições de Inimá e sob minha coordenação, desenvolvíamos as seguintes produções, que dou aqui de memória: - Carlos Scliar, álbum “Scliar/Desenhos”(Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Arte/ 1984); - Marco Antonio Araujo, álbum de música contemporânea “Entre um silêncio e outro” (brinde do Banco Credireal/1983); - José Sette, cenário de “Um Filme 100% Brazileiro” (Prêmio Melhor Cenografia do 1º Festival de Fortaleza/1985); - Izabel Costa, projeto de espetáculo de dança (realizado sob o nome “Dã Dá Corpo”, com Klauss Vianna, em São Paulo/1987); - Marcio Galdino, apoio editorial e projeto de capa do livro “Filmografia de Minas Gerais” (Prêmio Cidade de Belo Horizonte - Ensaio/1983), - Marlene Trindade, oficina de papéis artesanais (em parceria com a Escola de Belas Artes da UFMG), - e recebemos o Prêmio Secretaria de Cultura de MG pelo filme “Um Sorriso por Favor - O Mundo Gráfico de Goeldi”. - Na pauta interna editávamos as obras gráficas de tiragem limitada “Calco”, “Escapulário” e “Navegarbrasiliaterra” com gravuras de Fernando Tavares, “Semiologia Nativa” com gravuras de Paulo Giordano”, “Fôlego do Fogo” com xerogravuras de Oswaldo Medeiros e “Frestas” com gravuras de Daisy Turrer, além de outras peças gráficas dos respectivos autores. - Editávamos também gravuras isoladas de Marília Rodrigues, Yara Tupinambá, Marlene Trindade, Álvaro Apocalypse, Paulo Laender, Fernando Tavares, Daisy Turrer, Paulo Giordano, Oswaldo Medeiros, Gilberto de Abreu, Roberto Wagner, Eri Gomes e Jayme Reis, - e fazíamos os projetos das exposições “Navegarbrasiliaterra”, de pinturas e aquarelas de Fernando Tavares (realizada na Galeria Milan em São Paulo/ 1986) e “Gravura Brasileira no DCE” (realizada no DCE-UFMG/1984, v. nota 16). - Tínhamos ainda o Clube da Gravura já no seu terceiro ano de existência (v. nota 5). - Haviam também várias produções de encomenda e de natureza comercial que nos exigiam igual dedicação profissional e compromisso de qualidade. 2 Dela (a Pintura) possuía o domínio de diversas técnicas, mesmo as mais herméticas. Inimá conhecia o segredo de fórmulas de tintas e vernizes da nossa arte rupestre - feitas à base de clara de ovos de pássaros e pigmentos naturais - e declarava-se adepto das vanguardas: da Bauhaus, dos gênios de Kandinsky e Paul Klee, e dos modernistas brasileiros, entre os quais gostava de citar Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari. 3 Vivia só então, em seu atelier que ocupava mais da metade de uma residência modesta de bairro pobre, onde trabalhava quase sem descanso e, por sua bondade e benevolência, ainda encontrava tempo para dar aulas de graça a meninos de favela. 4 A imagem que gravei de Inimá de Paula, após aqueles breves meses de convivência, não é fotográfica, mas cinematográfica: um movimento que iniciase em plongé, com a câmera posta em meus olhos e com lente grande angular, de baixo para cima, enxergando-o como um gigante, com as barbas grisalhas saindolhe pelos queixos. Ele move-se e olha para mim, e, magicamente, eleva-me em estatura até que meus olhos fiquem no nível dos seus. Ao encontrarem-se os olhares, ambos estamos prontos para a trapaça: ele exibe-me um novo esboço - o novo plano diabólico! - e debatemos a sua exequibilidade. Ali ficamos cúmplices do abençoado momento da criação, em que o autor e o editor vivem aquele instante decisivo, no qual a idéia torna-se realidade. 5 Foram editados diversos artistas e neste registro cabe citar, em ordem alfabética, os mais atuantes na Oficina: Álvaro Apocalypse, Amílcar de Castro, Anna Letycia, Carlos Scliar, Inimá de Paula, Marília Rodrigues, Marlene Trindade, Yara Tupinambá, entre os veteranos; Daisy Turrer, Fernando Tavares, João Delpino, Jorge Luiz dos Anjos, José Alberto Nemer, Lotus Lobo, Paulo Laender, da geração intermediária; e Eri Gomes, Gilberto de Abreu, Jayme Reis, Benjamim, Oswaldo Medeiros, Paulo Giordano, Roberto Wagner entre os mais jovens. 6 O famigerado Plano Collor, de triste memória, que entre outras muitas e mais dolorosas desditas, roubou ao Brasil um mercado de arte em pleno crescimento. À Oficina roubou-lhe os clientes, a grande maioria dos associados do Clube da Gravura, e o dinheiro que a alicerçava - que tinha sido conseguido ao longo de toda uma década de suores e trabalhos, sem patrocínios mercantilistas ou favores de governos. 7 O seu acervo e espólio - que compreende exemplares de livros-arte, peças gráficas, gravuras, provas-de-artista, provas-de-estado, bon à tirers, hors commerce, protótipos, projetos gráficos, originais de textos e manuscritos, registros e cadernos de artistas, correspondências e autógrafos, esboços, ensaios gráficos, pinturas a óleo, acrílicas e de técnicas diversas, aquarelas, gouaches, desenhos, monotipias, matrizes calcográficas e xilográficas, além das suas máquinas e equipamentos estão na posse e domínio deste autor-editor que alocou os recursos para a fundação da Oficina, com a aquisição das máquinas e equipamentos e suas diversas instalações. Foi também o responsável pela produção e administração nos dez anos de sua existência, e pagou os prejuízos de encerramento. Este acervo está hoje em fase de cura e inventário e as máquinas e equipamentos, uma vez mantidos ao tempo, encontram-se em lamentável estado de conservação. Mas são passíveis de recuperação se houver recursos e interesse em reativá-los. 8 Deixou-me o encargo de conservar e curar um magnífico legado; a maior parte do que produziu. Guardo um número ainda não inventariado de imagens gráficas e pictóricas de todos os tipos e técnicas: pinturas, aquarelas, desenhos, gravuras, provas-de-estado, bon à tirers, provas-de-artista, hors commerce, peças gráficas, livros-arte, álbuns, protótipos, esboços, manuscritos, autógrafos, cadernos de notas, matrizes calcográficas e xilográficas. Uma outra parte da sua obra felizmente encontra-se abrigada em importantes coleções públicas e particulares, destacando-se as coleções Ernesto e Liuba Wolf, Guita e José Mindlin, Érico Stickel, Gilberto Chateaubriand, Erthos Albino de Souza, Funarte e Biblioteca Nacional. 9 O cineasta José Sette, que frequentava a Oficina por conta dos cenários que lá se produziam para seus filmes, participou desses encontros com Inimá e confidenciou-me que foram as lições ali recebidas que o levaram a buscar na pintura uma nova expressão da sua arte. Sette é hoje autor de aguarelas, gouaches e telas onde procura reinventar imagens e ícones do repertório primitivista e naive nacionais compondo alegorias ricas de colorido, sonoridade, movimentos e significados, como nos seus filmes. Recordo-me também das presenças da gravadora Daisy Turrer, de Roberto Wagner, versátil artista já falecido, do historiador Marcio Galdino, que também é pintor, e dos artistas-plásticos Gilberto de Abreu e Eri Gomes. 10 Alguns marchands começavam a arrepiar os cabelos com a possibilidade de Inimá começar a fazer o que eles costumam chamar jocosamente de “arte sobre papel”. Um deles chegou a interpelar-me: - quatro gravuras em vinte dias!? Neste período ele poderia ter feito vinte telas, cada uma valendo vinte vezes mais que as quatro gravuras juntas! Outro chegou a ameaçar-me por telefone: Você está querendo “furar o meu olho”, mas isso não vai ficar assim não! esbravejou. Imagine-se o que não estaria ouvindo Inimá dessas pessoas.... 11 Em paralelo, Inimá tinha feito acerto com um colecionador, que também era banqueiro, de uma venda de duzentas gravuras para brinde de fim-de-ano. E passara aos marchands a negociação financeira a fim de acalmá-los e poder trabalhar em paz. 12 O acerto, previamente feito entre o artista e o editor, tinha sido o de um reparte meio-a-meio das gravuras impressas, assinadas e numeradas por ele, ficando as matrizes, respectivas provas-de-estado e bon à tirers de posse da Oficina, como propriedade do seu acervo. 13 Era comum, naquela época, a comparação da Oficina a uma “gare”, verdadeira estação de criação e ponto de partida para os que se propunham ir longe nos seus trabalhos. Inspirado nessa imagem, Inimá desenhou, com as suas cores próprias e fortes, e traços do expressionismo goeldiano, esse esboço que é uma bela homenagem à Oficina e ao seu patrono. 14 Tal era o poder dessa nova e pequena aquarela que a Oficina não teve forças para conservá-la. Alguns anos depois um colecionador comprou-a, oferecendo em troca uma bagatela de tal ordem que uma Oficina como a nossa jamais dispensaria. 15 Os números são exatamente estes, e prefiro deixar aos numerologistas as especulações sobre suas coincidências. 16 Em abril/maio de 1984, a Oficina organizou uma exposição no Centro Cultural do DCE-UFMG em homenagem a Oswaldo Goeldi, com a participação de dez de suas gravuras históricas, e reunindo nove gravadores brasileiros, escolhidos entre os que foram seus alunos ou discípulos. A mostra foi aberta com a presença dos gravadores: Álvaro Apocalypse (xilogravura), Anna Letycia Quadros (gravura em metal), Antonio Grosso (litografia), Carlos Scliar (xilogravura), Inimá de Paula (xilogravura), Lotus Lobo (litografia), Marília Rodrigues (gravura em metal) e Yara Tupinambá (xilografia). Fernando Tavares (gravura em metal) representou a Oficina. Uma ala da exposição homenageou também a gravura de cordel, com dez xilogravuras. 17 Naquele ano haveria o lançamento do livro de Roberto Pontual sobre Inimá em diversas capitais do país, e o seu compromisso era o de estar presente nos eventos. Compareci a um deles, no Automóvel Clube de Belo Horizonte. Lá estava ele, em pé como uma estátua viva, a boina, o jaleco de pintor bem engomado (a dar realce às manchas do ofício). Ao seu lado o fiel cavalete, visivelmente deslocado numa nudez de pátina e mistérios expostos a estranhos. Era como se exibem as curiosidades arqueológicas, com focos de luzes e fundo escuro. Cada convidado que adquiria um exemplar podia dar uma bicadinha no “Prometeu” - então mais agrilhoado do que nunca - levando-lhe autógrafo com dedicatória. Não comprei o livro mas fui abraçá-lo e cumprimentá-lo, desculpando-me por não ficar para o coquetel. O sorriso maroto reapareceu e segredou-me ao ouvido: - ah, meu caro, como gostaria de ir com Você, mas veja só onde fui parar... 18 Descontando-se desse número os 280 exemplares do Clube da Gravura (a norma editorial era a seguinte: 250 exemplares a serem distribuídos para os sócios, 25 PAs, 15 das quais remunerava o artista e 5 HCs para colecionadores e sócios beneméritos), e as 18 bon à tirers da Oficina, tem-se de 512 exemplares que foi dividido entre o artista e o editor. Assim a Oficina resgatou o seu investimento com um número de 289 exemplares (256 do reparte, 18 bon à tirers, 10 PAs e 5 HCs do Clube), além dos 250 exemplares do Clube, e o artista o seu com 271 exemplares (256 do reparte e 15 PAs do Clube. São, é verdade, números aproximados uma vez que a Oficina, ao mesmo tempo super-atarefada e sem organização contábil, não produziu registros precisos das tiragens verificadas e das provas de artista, provas de estado e hors commerce que foram produzidas e assinadas por Inimá. O cálculo foi feito com dados obtidos nas próprias numerações dos exemplares assinados que são os únicos registros confiáveis existentes. Mas esses números demonstram com certeza que o empreendimento foi muito lucrativo do ponto de vista financeiro, e que o resultado foi um sucesso também de mercado, pela rapidez com que este absorveu essa produção. Para se ter uma idéia, o acervo hoje existente está sendo mantido intato, desde 1985, quando a Oficina mudou-se para São Paulo. Portanto, no período pós editorial até a mudança (cerca de um ano e meio), a Oficina vendeu perto de 230 exemplares de gravuras desta safra a um preço médio de U$ 300.00 (trezentos dólares) cada uma. Some-se-lhes os U$ 60.00 (sessenta dólares) que a Oficina recebia de cada sócio do seu Clube (U$ 20.00/mês) por gravura entregue (foram entregues 237 exemplares para o mesmo número de sócios em dia com suas mensalidades. Calcula-se que o artista, muito mais bem assessorado para o comércio do que a Oficina, tenha levado muito menor tempo para colocar os seus exemplares (200 dos quais já estavam previamente comprometidos) e a um preço bem mais elevado (uma gravura com tiragem restrita de um artista como Inimá estava cotada na época em pelo menos U$ 500.00). 19 Curiosidade que aqui é anotada não como erro ou defeito, mas apenas como gafe de idioma, é a maneira como Inimá chancelou suas bon à tirers, grafando-as “bone tiré”, como abaixo se vê na sua caligrafia, copiada de uma dessas provas. A grafia correta sempre escapa aos iniciantes da gravura brasileira por mais capazes e aplicados que sejam, como foi o caso de Inimá. Nota final As imagens estampadas na capa (Auto-retrato) e na última capa (Pietá Cabocla) foram obtidas pela reprodução das Provas de Estado Atual das respectivas matrizes em impressões a duas cores simuladas por computador. Como não chegaram a ser feitas as bon à tirers dessas imagens, que apesar de dadas como prontas ficaram inéditas, utilizei cores semelhantes àquelas que o artista na época estudava para a solução final de ambas as composições. Desta 2ª edição por mim preparada e terminada em outubro de 2002, utilizando-me do software Adobe PageMaker 6.5, imprimi 6 (seis) exemplares que numero e assino Exemplar nº Pietá Cabocla - Xilogravura a 2 cores - Inimá de Paula/1983 MDEditor Rua Pouso Alto, 240. 30240 180 Belo Horizonte MG Telefax 31 3281 8646 [email protected]