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Universidade Estadual de Campinas – 21 a 27 de junho de 2004
Fotografias feitas à beira da pista servem de suporte para dissertação de mestrado e para exposição
O engenheiro que fez a obra
em estrada virar obra de arte
MARIA ALICE DA CRUZ
`A
[email protected]
beira da pista, as coisas passam rapidamente pelos olhares apressados dos cidadãos obrigados a fazer quase todos
os dias o mesmo caminho. Montes
de areia em cores variadas, pedras
britadas, caminhos de terra no meio
da mata, marcas de rodas num chão
batido. Imagens que poucas pessoas se interessam em registrar, e muito menos profissionais da construção civil. Na verdade, são eles os
autores de obras de arte efêmeras
congeladas em fotos pelo professor
e engenheiro Ismar Curi durante
viagens por estradas paulistas. As
fotos foram suporte
sua dissertação
Objetivo é para
de mestrado, “Arte
estimular a pública e o problema
abordagem do lugar”, apresentada na exposição Strata,
estética
que vai até o dia 25 na
Galeria de Arte da
Unicamp. A pesquisa foi orientada
pela professora Anna Gouveia e coorientada por Maria de Fátima
Morethy Couto.
Num ir-e-vir rotineiro pelo asfalto que liga Campinas a São Paulo, Ismar conseguiu lançar um olhar poético para as obras de infraestrutura. A experiência, segundo
o pesquisador, já tem mais de cinco anos e permite fazer uma reflexão sobre os conceitos de especificidade do lugar em que a obra de
arte está instalada e também sobre
o trabalho artístico do engenheiro.
“Na estrada, são observadas com
amplitude e não têm o caráter de
belo, já que este conceito é dado a
peças com dimensão limitada. Mas,
ao ser levadas para o espaço da galeria, podem retomar o conceito de
beleza”, explica. Um exemplo foi a
caixa de vidro preenchida aleato-
Fotos: Divulgação
riamente com areia clara e escura
que, durante a exposição, chamou
a atenção dos observadores.
Efemeridade – A terraplanagem
feita simetricamente pelas rodas de
uma máquina dá acesso, hoje, ao
maior shopping da América Latina, o Parque Dom Pedro. Curi apressou-se em congelar, mas a estética do subterrâneo foi coberta por pedras e piches em pouco
tempo e só pode ser vista em fotos.
Essa efemeridade também é debatida na dissertação do engenheiro.
“Elas duram pouco tempo, às vezes. Duas semanas após fotografar
as obras do balão da Bosch, passei
por lá e a imagem já era outra.” Foi
registrada por ele também a abertura da nova entrada de Barão Geraldo.
O problema da estética efêmera,
porém, é compensado pela sua repetição, acredita o pesquisador. “As
obras de infra-estrutura são muito parecidas. São muito comuns
esses procedimentos em beira de
estrada”, diz. Mas, para ele, o pitoresco está justamente durante o
fazer, pois, depois do acabamento,
a arquitetura de beira de estrada é
muito comum.
Outro aspecto interessante abordado pelo autor é o olhar que
seus colegas de profissão conseguem dar para as obras de arte que
fazem diariamente. Ele pretende
chamar a atenção para a situação
do engenheiro, que constantemente realiza trabalhos criativos, mas
não tem licença para fazer um juízo estético de seu próprio projeto.
“Só os artistas e os arquitetos têm
essa concessão”. Ele explica que,
mesmo que não possa receber o
caráter de belo, há algo de pitoresco no trabalho dos engenheiros e
que, muitas vezes, eles não se dão
conta de que estão fazendo arte.
O que interessa para o capital,
segundo Curi, é que a estrada fique
pronta dentro de um prazo estabelecido, desta forma, trabalhadores
da construção civil não se preocupam em olhar para o que fazem no
dia-a-dia. A atenção deles está voltada ao cumprimento da data. Uma das expectativas em relação à
dissertação é estimular esses profissionais a fazerem uma abordagem estética do trabalho que realizam diariamente. “Só a constância e a sensibilidade poderão realizar uma descoberta importante,
pois o lugar especialmente escolhido depende do momento certo nessas obras em constante mutação”,
explica.
Há 12 anos, Ismar vive entre a
tecnologia e a arte. Ele foi um dos
responsáveis pelo restauro do Solar do Visconde, após o incêndio
ocorrido em meados da década de
1990. Além de assinar vários projetos arquitetônicos de Campinas,
ele projetou três lojas de São Paulo. Entre instalações e exposições, o
engenheiro montou instalações em
salões, museus e galerias de Cam-
O engenheiro Ismar Curi (no alto)
e uma de suas fotografias
expostas na Galeria de Arte
da Unicamp: paisagem árida
ganha dimensão poética
pinas e de outras cidades do Estado
de São Paulo. Atualmente, é assistente da professora Maria de Fátima Morethy Couto na disciplina
“Arte do século 20” e professor responsável pela matéria “Plástica
aplicada à arquitetura”, na Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura da Unicamp.
Tese investiga reestruturação da indústria nos anos 90
Foto: Antoninho Perri
LUIZ SUGIMOTO
[email protected]
A
reestruturação da indústria brasileira a partir da década de 1990 implicou na implantação de novas tecnologias e
conseqüente enxugamento dos
quadros de mão-de-obra, mas também foi seguida da adoção do conceito de grupos de trabalho em vários segmentos. Conceitualmente,
se propôs maior participação dos
empregados nas decisões da empresa, com uma horizontalização
dos níveis hierárquicos e de necessárias melhorias salariais e de condições de trabalho. Saber se tais propostas vêm se concretizando, ou se
o discurso do trabalho
Pesquisa em grupo serviu como
mostra se estratégia apenas para
dos trabalhao conceito controle
dores, diminuindo a avingou
tuação das representações sindicais, foi o objetivo da tese de doutorado que o cientista político e professor de administração Olavo Henrique Furtado
defendeu em fevereiro no Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas
(IFCH) da Unicamp.
A pesquisa sobre o trabalho em
grupo no chão da fábrica – por inserir apenas trabalhadores da linha de
montagem e não os administrativos,
por exemplo – foi orientada pela professora Angela Maria Carneiro de
Araújo. “Os maiores exemplos de
sucesso desta junção de avanços
tecnológicos com condições de trabalho estão nas empresas vinculadas ao modelo sueco. Inicialmente, eu pretendia observar a Scania
e a Volvo, mas diante da impossibilidade de novas visitas à segunda
Olavo Henrique Furtado: “Os sobreviventes é que estão usufruindo as novas condições”
montadora, acabei migrando para
a alemã Mercedes Benz”, afirma
Furtado. O pesquisador informa
que procurou, também, fazer uma
comparação com os círculos de
controle de qualidade (CCQ), grupos de trabalho que tiveram origem na indústria norte-americana mas acabaram reformulados e
potencializados no Japão, voltando depois a se disseminar no Ocidente.
Segundo Olavo Furtado, o modelo japonês de produção (ou Toyotismo) traz uma concepção mais técnica, pregando que um trabalhador operasse diferentes máquinas
simultaneamente. Era um sistema
coerente com um país financeiramente destruído pela guerra, com
um mercado interno pequeno e diferenciado, e que precisava aumentar sua produção sem pagar maior contingente de mão-de-obra.
“Enquanto isso, o chamado grupo
semi-autônomo, do modelo sueco,
está mais vinculado a questões como a democratização e a melhoria
nas condições de trabalho, salários
etc”, explica o engenheiro.
Na opinião de Furtado, no caso
específico da Mercedes Benz, a avaliação dos grupos de trabalho é
muito positiva, tendo trazido efetiva melhora nas relações e condições de trabalho. Empregados entrevistados por ele, que passaram
também pelo sistema antigo, não
titubeiam em afirmar que preferem o atual. “Mas é importante
lembrar que, antes, essas empresas realizaram um violento processo de reestruturação, com a adoção de tecnologias que provocaram muitas demissões. Os sobreviventes é que estão usufruindo as
novas condições”, observa.
O pesquisador ressalta ainda que
os grupos de trabalho na Mercedes
foram criados por força de acordo
coletivo, a partir da pressão sindical. “Quanto mais fortes as representações dos trabalhadores, melhor funcionam esses grupos. Dentro da Mercedes, os grupos de trabalho estão institucionalizados e
resolvem as pequenas crises internas, deixando para a comissão de
fábrica uma atuação efetivamente sindical”, informa Furtado. Na
Scania, diferentemente, não se vê
a mesma homogeneidade na implantação de grupos, visto que a
maior ou menor democratização
nos departamentos depende muito mais da postura das chefias. “A
comissão de fábrica adota uma atitude defensiva, havendo o risco de
que os grupos de trabalho se tornem grupos ‘multitarefa’, o que é o
temor dos sindicalistas”, acrescenta.
Olavo Furtado destaca, finalmente, a mudança verificada no
papel do trabalhador dentro da
fábrica. Se, no sistema antigo, com
o trabalho individualizado, o controle era exercido por um elemento externo como uma gerência, nota-se agora um controle não explícito dentro do próprio grupo de trabalho. “Na época de minha pesquisa, a Mercedes tinha 240 grupos implantados. Houve uma diminuição
dos níveis hierárquicos e a chefia
passou a tratar das questões com
maior cuidado, deixando apenas
de dar a ordem e fazer cumprir. O
grupo ganhou autonomia parcial
para negociar e promover mudanças mesmo de decisões vindas de
cima para baixo”, conclui.
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