JOÃO LOURO
oão Louro (1963) vive e trabalha em Lisboa. Estudou
Arquitectura na Faculdade de Lisboa e Pintura na Escola de Arte
e Comunicação.
O corpo de trabalho de João Louro engloba pintura, escultura,
fotografia e video. Natural descendente da arte conceptual e
minimal, João Louro procura ultrapassar o paradigma romântico
dando protagonismo ao papel do espectador, que é a figura
chave para completar a obra de arte.
Um dos principais objectivos da sua obra é a reorganização do
universo visual e também a reflexão sobre o papel da linguagem,
nas suas potencialidades e aspectos.
A destacar a sua participação, a convite de Maria del Corral, na
51.ª Mostra Internacional de Arte da Bienal de Veneza, integrado
no Pavilhão Italiano e no projeto “A Experiência da Arte”.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006
2005
2004
2001
2000
1999
1998
1996
1994
1991
2011
2010
Exposições recentes:
(Abril): O Castelo em 3 partes: Assalto, Destruição e
Reconstrução, GUIMARÃES 2012 – Capital Europeia da Cultura,
En Obras, Arte y Arquitectura en la Coleccion Teixeira de Freitas,
Tenerife Espacio de las Artes (TEA), Canarias, Espanha
CONTESTED TERRITORIES, Dorsky Gallery, Nova Iorque, EUa
Exposições individuais (seleção):
Grand Prix, Galeria Fernando Santos, Porto, Portugal
In God We Trust, BES Arte & Finança, Lisboa, Portugal
If We Want Things to Stay as They Are, Things Will Have
To Change, Appleton Square, Lisboa, Portugal
Smoke and Mirrors, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa,
Portugal
My Dark Places, Museo d’Art Contemporanea Roma (MACRO),
Itália.
The Great Houdini, Centro de Arte Contemporânea Graça Morais,
Bragança, Portugal.
The Hustler, Centro Artes Visuais (CAV), Coimbra, Portugal.
Curadoria de Miguel Amado.
Running with Bonnie & Clyde, Museu do Caramulo, Portugal.
Johnny Cash, Roy Orbison e Elvis Presley, Galeria Fernando
Santos, Porto, Portugal.
LA Confidential, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles, USA.
Big Bang, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal.
Play, Rec and Pause, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles,
USA.
João Louro, La Nuova Pesa Gallery, Rome, Italy.
Naked Drawings, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa,
Portugal.
Blind Runner, Centro Cultural de Belém (CCB), Lisboa, Portugal.
Curadoria de Delfim Sardo.
Epicentro, Estudo sobre a Origem das Línguas, Cristina Guerra
Contemporary Art, Lisboa, Portugal.
La Pensée et l’Erreur, Fundació Joan Miró, Barcelona, Espanha.
Curadoria de Ferran Barenblit.
Love Scenes, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra,
Portugal.
Aplauso, Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência,
Fundação de Serralves / Espaço Silo Cultural, Porto, Portugal.
Runaway Car Crashed #2, Fundação de Serralves, Porto,
Portugal. Curadoria de João Fernandes.
Museu de Arte Contemporânea (MACS), Porto, Portugal.
Run Away Car Crashed #1, Centro Cultural de São Paulo (CCSP),
São Paulo, Brasil.
Eye of the Devil, Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha,
Portugal.
Air Bag, The Return of the Real, Museu Nacional de Arte
Contemporânea, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal.
Diamond Shine, Círculo Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra,
Portugal.
Ibiden. Xerox after Violent Death, Galeria Cesar, Lisboa, Portugal.
Tokyosony Wonder Museum, Galeria Graça Fonseca, Lisboa,
Portugal.
News Hound, Galeria Graça Fonseca, Lisboa, Portugal.
News Hound, Galerie Georges Verney-Carron, Lyon, France.
I do What Happens, Galeria Graça Fonseca, Lisboa, Portugal.
Sin Servir a su Majestad, Espai Pascual Lucas, Valência, Espanha.
King & Kong? O que aconteceu ao Niilismo? Biblioteca Nacional,
Lisboa, Portugal.
Exposições coletivas:
Stories of Material Life, Visual Arts of Cáceres, Helga de Alvear
Foundation, Espanha
Nul Si Découvert / Void If Removed, Le Plateau, Paris, França
O Museu em Ruínas, MACE – Museu Arte Contemporânea de
Elvas, Lisboa, Portugal
Look Up! Natural Porto Art Show: Olhares Mutilados, Atelier
Paulo Lobo, Porto, Portugal. Curadoria de David Barro.
Tudo o que é sólido dissolve-se no ar: o social na Coleção
Berardo, MCB – Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal.
Curadoria de Miguel Amado.
California Dreamin’ – PortugalArte10, Pavilhão Portugal – Parque
das Nações, Lisboa, Portugal. Curadoria de Fred Hoffmann.
Like Tears in Rain, Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, Porto,
Portugal.
2 de Copas, Vera Cortês Agência de Arte, Lisboa, Portugal.
Jogo de Espelhos, Museu Arte Contemporânea de Elvas,
Coleção António Cachola, Elvas, Portugal. Curadoria de João
Pinharanda.
2009
2008
2007
2006
2005
2003
2002
2001
2000
1999
1998
1997
1996
1995
1994
1993
1991
Art Los Angeles Contemporary, Pacific Design Centter, Santa
Monica, California, USA.
A Roll of the Dice, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa,
Portugal.
Coleção Serralves 2009, MACS – Museu de Arte Contemporânea
de Serralves, Porto, Portugal.
Group Show, Galeria Fernando Santos, Porto, Portugal.
A Beleza do Erro, Lx Factory, Lisboa, Portugal.
As Bright As The Sun – Entre o Céu e o Mar, Centro Cultural de
Lagos, Art Algarve, Portugal.
30th Anniversary Exhibition, Christopher Grimes Gallery, Santa
Monica, California, USA.
More Songs about Images, Voyeur Project View, Lisboa,
Portugal.
Garbage Pin Project, MCO Arte Contemporânea, Porto, Portugal.
Besart – Coleção Arte Banco Espírito – O presente: uma
dimensão infinita, Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal.
Curadoria de Maria de Corral e Lorena Martinez de Corral.
No Room, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles, USA.
Parangolé – Fragmentos desde os 90: Brasil, Portugal, Espanha
– Museu Patio Herreriano de Valladolid, Espanha.
Ponto de Vista: Obras da Coleção Fundação PLMJ, Lisboa,
Portugal.
Urban Festival, Zagreb, Croácia.
Entre a Palavra e a Imagem, Cultural Santander Foundation, Porto
Alegre, Brasil.
Personal Views: Regarding Private Art Collections in San Diego,
San Diego Museum of Art, San Diego, USA.
Raconte-Moi une Histoire..., Galerie Baumet Sultana, Paris,
França.
Entre a Palavra e a Imaxe, Fundación Luís Seoane, Corunha,
Espanha.
Entre a Palavra e a Imagem, City Museum, Lisboa, Portugal.
O Contrato Social, Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa, Portugal.
Romance [a novel], Cristina Guerra, Contemporary Art, Lisbon,
Portugal. Curadoria de Adriano Pedrosa.
Insite 05 – Art Practices in Public Domain, S. Diego/Tijuana,
Mexico.
51st International Art – La Biennale di Venezia, The Experience of
Art, Venice, Italy. Curadoria de Adriano Pedrosa.
Le Marathons des Mots, Toulouse, França.
Into the Breach, Smart Project Space, Amsterdão, Holanda.
Liste Basel 03, Smart Project Space, Basel, Suiça.
EAST International, Norwich Gallery, Norwich, Reino Unido.
Curadoria de Lawrence Weiner e Jack Wendler.
Confronto + Mistura, Freixo Power-Station, Porto, Portugal.
Curadoria de Ricardo Basbaun.
UrbanLab, Maia Bienial, Maia, Portugal. Curadoria de Paulo
Mendes.
Coleção Banco Privado, Museu de Arte Contemporânea de
Serralves (MACS), Porto, Portugal. Curadoria de João Fernandes.
More Works about Buildings and Food, Fundição de Oeiras,
Oeiras, Portugal. Curadoria de Pedro Lapa.
Portuguese Contemporary Art, Glasgow, Reino Unido.
XXVI Bienal de Pontevedra, Galicia, Espanha. Curadoria de Maria
Corral e Miguel Perez.
Ruído, Galeria Cesar, Lisboa, Portugal. Curadoria de Miguel Perez
Read my Lips all Guilty, Centro Cultural de Belém, Lisboa,
Portugal.
Read my Lips all Guilty, 6 ème Biennale International du Film sur
l’Art, Centre Georges Pompidou, Paris, França.
Ecos de la Materia, Museu Estremeño e Iberoamericano de Arte
Contemporânea (MEIAC), Badajoz, Espanha.
ICTM 97, Palácio Galveias, Lisboa, Portugal.
Ecos de la Matéria 2, Sala de las Atarazanas, Valência, Espanha.
Ex. Mater, Museu Estremeño e Iberoamericano, MEIAC, Badajoz,
Espanha.
Art Attack, Galeria ZDB, Lisboa, Portugal.
Manifesta 96, Rotterdam, Holanda.
Espetáculo, Disseminação, Deriva e Exílio? Um projeto em torno
de Guy Debord, Metalúrgica de Beja, Beja, Portugal.
Peninsulares, Galeria Tomas March, Valencia, Espanha.
Curadoria de João Fernandes.
Espai Antoni Estrany, Barcelona, Espanha. Curadoria de João
Fernandes.
40 ème Salon de Montrouge, Montrouge, Paris, França.
Curadoria de João Pinharanda.
Imagens para os anos 90, Museu de Arte Contemporânea de
Serralves (MACS), Porto e Culturgest, Lisboa, Portugal.
Fet a Europa, Portugal, Centre Cultural d’Alcoi, Espanha.
Made in Portugal, Galeria Graça Fonseca, Lisbon, Portugal.
V Bienal dos Jovens do Mediterrâneo, Marseille, France.
Representado por:
Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal.
Christopher Grimes Gallery, Los Angeles, E.U.A.
As suas obras integram várias coleções importantes:
Fudacion Arco, Madrid, Espanha
Margulies Collecion, Miami, EUA
FUNDACION/COLECCION JUMEX, Cidade do Mexico, México
Coleção Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Portugal
Coleção BES, Lisboa, Portugal
Coleção António Cachola, Elvas, Portugal
Coleção Centro de Arte Contemporânea de Bragança
Museu de Arte Contemporânea de Roma (MACRO), Roma, Italia
Aberdeen Collection, Escocia, Inglaterra
THE
RETURN
OF
THE REAL
CICLO DE EXPOSIÇÕES
DE ARTE CONTEMPORÂNEA
20
THE RETURN OF THE REAL 20
CURADORIA:
David Santos
PRODUÇÃO:
Lurdes Aleixo
Fernando Marques
JOÃO
LOURO
DESIGN GRÁFICO:
Rita Leite
Patrícia Victorino
2 DE NOVEMBRO’12 A 3 MARÇO’13
MUSEU DO NEO-REALISMO
PRODUÇÃO GRÁFICA:
VILA FRANCA DE XIRA
ADAPTAÇÃO GRÁFICA:
Santos & Oliveira, Lda
RUA ALVES REDOL, 45
2600-099 VILA FRANCA DE XIRA
TEL. 263 285 626
[email protected]
www.museudoneorealismo.pt
TERÇA A SEXTA – 10H00 ÀS 19H00
SÁBADOS – 12H00 ÀS 19H00
DOMINGOS – 11H00 ÀS 18H00
ENCERRA ÀS SEGUNDAS E FERIADOS
VISITAS GUIADAS. MARCAÇÕES 263 285 626
Câmara Municipal
de Vila Franca de Xira
Apoio:
Projetos para a
Exposição Sous
le trottoir la plage,
MNR, 2012
Revolution
neón
2009
THE
RETURN
OF
THE REAL
JOÃO
LOURO
Projetos da
exposição Sous
le Trottoir la Plage,
2012
Se juntar as letras certas faço magia,
impressão digital e pintura s/papel, 2012
Utopia, desenho e colagem s/papel,1995
O signo e a revolução
David Santos
Como efeito de despedida e sintoma de uma reflexão
atualíssima, a última exposição do ciclo de arte
contemporânea “The Return of the Real” fica assinalada,
desde logo, por uma insinuante peça de néon que
invade o espaço do átrio do Museu do Neo-Realismo.
“Revolution”, a palavra, resplandece a azul-turquesa,
como signo de uma intensa ambiguidade decetiva,
onde o sentido se esbate num caleidoscópio de ecos e
reminiscências. Será que comunica ainda um conceito
político, uma vontade de ação, um slogan, ou antes uma
ideia de consumo, uma marca registada? Aliás, esta
questão é obrigatória e incontornável, pois a palavra
“revolution”, com as letras desenhadas a lâmpadas
fluorescentes, remetendo assim para os painéis
publicitários do século passado, é ladeada não pelo “r”
de marca registada, mas pelo seu sucedâneo, esse “c”
minúsculo inserido num pequeno círculo que “garante”
os direitos de autoria, como se a ideia de “revolução”
pudesse ser atribuída a um só autor ou proibida a sua
propagação no tempo e no espaço.
O que um exímio manipulador de signos, como João Louro,
nos propõe com esta palavra simultaneamente flagrante,
estranha e familiar, é a experiência de interrogação sobre
a sua aparente mas paradoxal irrelevância, o seu atual
desgaste ao nível do significado, apesar do contexto
efervescente ditado pela crise económica da Europa e
do mundo ocidental. Será que a expressão “Revolution”
se converteu ao longo dos tempos num alvo macio e à
mercê de interpretações apropriacionistas de carácter
duvidoso, transformando-se por fim num território
verbal de exploração exaustiva, displicente ou mesmo
arbitrária? A resposta é complexa e exige uma reflexão
sem esperanças conclusivas. E se o artista parece aqui
usar o mesmo método de invasão e transformação abusiva
dos significados de uma palavra como “revolução” – para
alguns ainda “poderosa”, mobilizadora ou, pelo menos,
capaz de atear rastilhos – fá-lo com o objetivo de nos
questionar, de despertar uma necessidade específica, isto
é, de nos confrontar com o desvio desse sentido fundador
que hoje balouça entre a inócua integração no sistema
capitalista e o esgar de uma vontade de ação concreta,
determinada, como sempre acontece, pelo descontrolado
desencadear dos acontecimentos.
Porém, quando nos deixamos envolver pela “proposta”
de “revolution” assumida por João Louro, confirmamos
sobretudo um jogo de sedução visual e marketing, e
menos o seu hipotético conteúdo original, de apelo à
rebeldia ou à transformação política. Apesar da palavra
“revolution” não ter sido verdadeiramente obliterada,
mantendo-se completa na sua frontalidade comunicativa,
promove de imediato uma deceção inconveniente mais
inevitável, isto é, um distanciamento difuso entre o
significado e a sua manifestação estética e objetual.
Por outro lado, a ambiguidade da palavra apresenta-se
ou revela-se ainda em diversos outros níveis.
Repare-se como “revolution” assume a mesma grafia
em duas das línguas mais faladas no mundo ocidental
(inglês e francês, neste último caso sofrendo apenas
uma acentuação diferenciada). Ou seja, a expressão
internacional da palavra provavelmente mais importante
dos últimos duzentos anos, que evoca momentos tão
decisivos como a Revolução Francesa de 1789, paira hoje
na constelação do nosso universo comunicativo como
uma figura de estilo sem rumo nem orientação mínima,
deixando-se equivaler em muitos aspetos à palavra
qualquer, diluída na amálgama informe da “sociedade
do espetáculo” como alertou Guy Debord1. Hoje, já quase
não sabemos qual o lugar e o sentido possível de uma
palavra histórica como “revolução”, quando foi usada
e abusada em muitos outros contextos (ex: revolução
sexual; revolução cultural: revolução musical…) que lhe
trouxeram inevitavelmente novos significados, mas ao
mesmo tempo também o sentimento de que a força da
sua invocação original se perdeu com a sistematização
desse exercício parasita que envolve quase sempre a
maioria das palavras mais influentes.
É neste exercício de alteração deliberada dos diferentes
níveis de significação que a obra de João Louro, iniciada
no princípio dos anos 90, tem vindo a desenvolver-se com acuidade e desassombro, procurando
desestabilizar o sentido, as convenções imagéticas e
concetuais, como estratégia de provocação sobre a
passividade que nos rodeia. No essencial, o trabalho de
João Louro busca um observador capaz de aprofundar
o seu sentido crítico perante o mundo inebriante da
comunicação de massas e o seu tendencial efeito
anestésico. Recorde-se que o próprio artista assume
a sua estratégia de intervenção pós-moderna como
uma possibilidade apenas de confronto com o real,
de reequacionamento do lugar social da arte e da sua
recetividade. O título da exposição “Blind Runner –
Artist Under Surveillance”, apresentada em 2004 no
CCB, remete precisamente para essa autoconsciência.
Ou seja, o artista sabe situar o alcance residual da
comunicação artística, e com isso procura trabalhar o
paradoxo das pretensões do marketing, da política, da
teoria e das práticas sociais que nos caraterizam neste
início de milénio. Basta lembrar que para João Louro não
se trata nunca de encarar a “imagem como um facto”,
mas como “um pacto” ou um “combate”, ao mesmo
tempo que qualquer exercício de comunicação ganha
e perde significados no percurso que realiza, como
“erreur de transcription”, “lost in translation”, algo que
transforma e reenvia outros efeitos, outros contornos
de significação. As surpresas que daí advêm recolocam
esta arte no domínio da reflexão sobre os cruzamentos
entre palavra e imagem, símbolo e signo, significado
e significante. Muitas séries de trabalhos, produzidas
pelo artista desde os anos 90 até hoje, confirmam
este aspeto central, desde os desvios de sentido e
significado de uma série de palavras do nosso dicionário
(série “História do Crime”, 1995, ex: “ELITE, s.f.
(fr. élite). 1. Med. Enfermidade comum aos habitantes
de uma região”), passando pelas literárias pinturas
“Bridges, Ways and Crossroads” (2002) ou ainda pela
“filosófica subversão” de placas de informação de
trânsito, na série “Dead End” (2001-02), para terminar
nas muitas variantes da série “Blind Image”, iniciada
em 2003 e que tem na atual exposição uma das suas
mais recentes adaptações. Em todos esses trabalhos,
João Louro perscruta a capacidade de confrontação,
de matriz duchampiana, que existe entre o significado
original das palavras e a sua reconfiguração perante
outras associações iconográficas, ou mesmo perante o
vazio monocromático que nos devolve, a nós recetores,
a responsabilidade imagética da própria arte.
Sob o título de um lema soixante-huitarde, Sous le Trottoir
la Plage, a presente exposição explora visualmente os
dilemas gráficos da palavra “revolução”, o seu uso
titubeante, indiscriminado e quase indecoroso. Como
se de um modo subterrâneo se erguesse uma vontade
inaudita de revolver a ação, de voltar a uma situação
de conflito aberto entre poderosos e oprimidos. Resta
saber se as palavras, apesar do seu uso e desgaste
significacional, podem ainda manter-se como veículos de
comunicação e sentido. De Platão a Nietzsche, de Freud
a Wittgenstein, de Foucault a Derrida ou Chomsky, outra
coisa não fez a filosofia do que buscar uma confiança
na linguagem verbal, uma base que pudesse traduzir um
ponto de partida para edificar as relações entre o saber
e a humanidade. Ora, o que João Louro nos revela é,
antes de mais, a complexidade do roteiro de significados
e a sua estridente manipulação na atualidade, produzida
afinal por todos os intervenientes autorizados, isto é, os
poderes públicos e privados, os detentores do “laborioso”
domínio económico-financeiro e outros protagonistas que
exercem o controlo, ou a sua ilusão, sobre a máquina
significante que nos envolve.
Nesse sentido, o artista recorta e volta a colar novos
sentidos em torno da palavra “revolução”, sugerindo
ainda, para lá do néon da entrada do museu, um efeito
“explosivo” a partir de um rítmo particular de leitura, letra
a letra, com o trabalho “Se juntar as letras certas faço
magia”, 2012. São dez pequenas obras em papel onde
o alfabeto se repete de cada vez e de onde é retirada
(pintada a vermelho) apenas uma letra diferente em cada
uma dessas peças. Juntando todos os alfabetos pode
ler-se a palavra “Revolution”. Tal como a revelação
da leitura soletrada, progressivamente silabada pelas
crianças, Louro parece querer dizer-nos que, repetindo
o exercício de descoberta e leitura, podemos finalmente
recuperar o seu sentido primeiro e mais fecundo.
“One Ride with Yankee Papa 13”, 2012, é o título
específico de quatro trabalhos da série “Blind Image” que
resultam agora justapostos, constituindo um mosaico
compósito, muito formal e sedutor em termos estéticos.
Porém, as legendas, que antes apareciam nas próprias
imagens pictóricas, surgem desta vez mais discretas,
em tabela, promovendo todavia o mesmo efeito de
cruzamento radical com a monocromia, pois remetem
para a descrição de violentas fotografias de guerra
(Vietnam) publicadas numa revista de época.
O significado das palavras que em tabela se revela exerce
assim, mais uma vez, um poder de condução
do sentido, de reenvio à imagem que nos reflete o corpo
dos visitantes ou o espaço da galeria. Nesse turbilhão
de imagens que o nosso cérebro desenvolve a partir das
poderosas legendas, perdemos o prazer estético que
a exuberante monocromia pictórica nos comunicava.
Isto é, somos levados à “deceção” da imagem pelo poder
descritivo das palavras e dos seus significados sobre uma
violência que não se vê em termos visuais, mas que
se desenha em termos imagéticos no enquadramento
“pós-pictórico” desse conjunto. Poderemos por isso
continuar a afirmar a cegueira destas pinturas, como
o título sugere desde o início, ou que fornecem antes
as pistas para a nossa capacidade de decisão crítica
perante o jogo e o combate significacional?
Já “Utopia” (1995), apresenta um conjunto constituído
por oito obras, colagens em pequeno formato, onde
se cruza uma panóplia de logótipos com elegantes
grafias da palavra utopia, denunciando, uma vez mais,
a sua adaptação ao mundo da publicidade. Apesar de
produzidos em 1995 para a “Bienal da Utopia” (Cascais),
estes trabalhos nunca chegaram a ser apresentados,
aparecendo agora numa parede verde, inclinada, que
formata a sala de arte contemporânea de um modo
inesperado.
Por último, João Louro grafitou uma das paredes da galeria
com grandes letras que esmagam o espetador, tanto pela
sua escala como pelos escorridos de pintura revelados
na sua dimensão informe e aparentemente inadequada ao
espaço museológico. O que aí se lê é, afinal, a mensagem
que dá título à exposição: “Sous le Trottoir la Plage”, um
dos slogans mais reproduzidos durante as convulsões
do Maio de 68, em Paris. Na sua tradução para língua
portuguesa, “sob o pavimento, a praia”, podemos adivinhar
mais uma vez o sentido decetivo e ambíguo proposto por
João Louro.
Recordemos então que, no final da década de
60, muitas ruas do centro de Paris eram ainda
pavimentadas com paralelepípedos de face cúbica,
unidos uns aos outros apenas por uma fina camada de
areia, interpretando aí os contestatários uma promessa
de praia, soterrada pelo pavimento: “Sous les pavés, la
plage”. Com essa apropriação metafórica
procurava-se sublinhar que a praia está em todo o
lado, aos nossos pés, debaixo das edificações da
civilização.
Por outro lado, a praia era a expressão mais lúdica,
não-hierárquica e insurrecional, à mercê dos revoltosos
que respondessem ao apelo de retirar o pavimento
para ocupar esse espaço antes subterrâneo e agora
revelado no seu potencial lúdico e socializante. Não
esqueçamos, porém, que o pavimento representava
aí, precisamente, a França gaullista e o tédio asfixiante
dessa época.
Nesse contexto, muitas outras palavras de ordem
andaram de boca em boca: “É proibido proibir”,
“A imaginação ao poder”, “O sonho é realidade”,
“Numa sociedade que aboliu todas as aventuras, a única
aventura que resta é abolir a sociedade”, “A revolução
é incrível porque é real”, “Vamos banir o aplauso, o
espetáculo está por toda parte”, ou “Trabalhadores de
todo o mundo, divirtam-se”. O objetivo dessa marcha
de contestação era então unir radicalismo e criatividade,
o que levou à ruptura com espaços convencionais de
oposição (o Partido Comunista francês e os Sindicatos).
O que os estudantes do Maio de 68 exigiam sobretudo
era a definição de novas formas de organização política
e de ação coletiva.
O espírito coletivo desses tempos era o de suprimir a
separação e as fronteiras entre as esferas do “trabalho”
e do “lazer”, da “vida” e da “arte”, para dar relevo a uma
nova ideia de liberdade, autonomia pessoal
e internacionalismo.
O que ficou desse espírito ou o que se perdeu na sua
constante transformação até aos nossos dias é algo
que João Louro devolve a uma recetividade responsável
e necessariamente mais consciente da função da
arte mas também da sociedade e de cada um de nós
nestes “tempos sombrios”, parafraseando aqui uma
expressão de Hannah Arendt que volta a ressoar na nossa
contemporaneidade2.
1
2
Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, (1967), (trad. port. Francisco Alves
e Afonso Monteiro), Lisboa, Edições Mobilis in Mobile, 1991.
Ct. Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, (1968), (trad. port. Ana
Luísa Faria), Lisboa, Relógio D’Água, 1991.
Download

Mais informações - Câmara Municipal de Vila Franca de Xira