JOÃO LOURO oão Louro (1963) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Arquitectura na Faculdade de Lisboa e Pintura na Escola de Arte e Comunicação. O corpo de trabalho de João Louro engloba pintura, escultura, fotografia e video. Natural descendente da arte conceptual e minimal, João Louro procura ultrapassar o paradigma romântico dando protagonismo ao papel do espectador, que é a figura chave para completar a obra de arte. Um dos principais objectivos da sua obra é a reorganização do universo visual e também a reflexão sobre o papel da linguagem, nas suas potencialidades e aspectos. A destacar a sua participação, a convite de Maria del Corral, na 51.ª Mostra Internacional de Arte da Bienal de Veneza, integrado no Pavilhão Italiano e no projeto “A Experiência da Arte”. 2012 2011 2010 2009 2008 2007 2006 2005 2004 2001 2000 1999 1998 1996 1994 1991 2011 2010 Exposições recentes: (Abril): O Castelo em 3 partes: Assalto, Destruição e Reconstrução, GUIMARÃES 2012 – Capital Europeia da Cultura, En Obras, Arte y Arquitectura en la Coleccion Teixeira de Freitas, Tenerife Espacio de las Artes (TEA), Canarias, Espanha CONTESTED TERRITORIES, Dorsky Gallery, Nova Iorque, EUa Exposições individuais (seleção): Grand Prix, Galeria Fernando Santos, Porto, Portugal In God We Trust, BES Arte & Finança, Lisboa, Portugal If We Want Things to Stay as They Are, Things Will Have To Change, Appleton Square, Lisboa, Portugal Smoke and Mirrors, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal My Dark Places, Museo d’Art Contemporanea Roma (MACRO), Itália. The Great Houdini, Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, Bragança, Portugal. The Hustler, Centro Artes Visuais (CAV), Coimbra, Portugal. Curadoria de Miguel Amado. Running with Bonnie & Clyde, Museu do Caramulo, Portugal. Johnny Cash, Roy Orbison e Elvis Presley, Galeria Fernando Santos, Porto, Portugal. LA Confidential, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles, USA. Big Bang, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal. Play, Rec and Pause, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles, USA. João Louro, La Nuova Pesa Gallery, Rome, Italy. Naked Drawings, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal. Blind Runner, Centro Cultural de Belém (CCB), Lisboa, Portugal. Curadoria de Delfim Sardo. Epicentro, Estudo sobre a Origem das Línguas, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal. La Pensée et l’Erreur, Fundació Joan Miró, Barcelona, Espanha. Curadoria de Ferran Barenblit. Love Scenes, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra, Portugal. Aplauso, Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência, Fundação de Serralves / Espaço Silo Cultural, Porto, Portugal. Runaway Car Crashed #2, Fundação de Serralves, Porto, Portugal. Curadoria de João Fernandes. Museu de Arte Contemporânea (MACS), Porto, Portugal. Run Away Car Crashed #1, Centro Cultural de São Paulo (CCSP), São Paulo, Brasil. Eye of the Devil, Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha, Portugal. Air Bag, The Return of the Real, Museu Nacional de Arte Contemporânea, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal. Diamond Shine, Círculo Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra, Portugal. Ibiden. Xerox after Violent Death, Galeria Cesar, Lisboa, Portugal. Tokyosony Wonder Museum, Galeria Graça Fonseca, Lisboa, Portugal. News Hound, Galeria Graça Fonseca, Lisboa, Portugal. News Hound, Galerie Georges Verney-Carron, Lyon, France. I do What Happens, Galeria Graça Fonseca, Lisboa, Portugal. Sin Servir a su Majestad, Espai Pascual Lucas, Valência, Espanha. King & Kong? O que aconteceu ao Niilismo? Biblioteca Nacional, Lisboa, Portugal. Exposições coletivas: Stories of Material Life, Visual Arts of Cáceres, Helga de Alvear Foundation, Espanha Nul Si Découvert / Void If Removed, Le Plateau, Paris, França O Museu em Ruínas, MACE – Museu Arte Contemporânea de Elvas, Lisboa, Portugal Look Up! Natural Porto Art Show: Olhares Mutilados, Atelier Paulo Lobo, Porto, Portugal. Curadoria de David Barro. Tudo o que é sólido dissolve-se no ar: o social na Coleção Berardo, MCB – Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal. Curadoria de Miguel Amado. California Dreamin’ – PortugalArte10, Pavilhão Portugal – Parque das Nações, Lisboa, Portugal. Curadoria de Fred Hoffmann. Like Tears in Rain, Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, Porto, Portugal. 2 de Copas, Vera Cortês Agência de Arte, Lisboa, Portugal. Jogo de Espelhos, Museu Arte Contemporânea de Elvas, Coleção António Cachola, Elvas, Portugal. Curadoria de João Pinharanda. 2009 2008 2007 2006 2005 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1991 Art Los Angeles Contemporary, Pacific Design Centter, Santa Monica, California, USA. A Roll of the Dice, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal. Coleção Serralves 2009, MACS – Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Portugal. Group Show, Galeria Fernando Santos, Porto, Portugal. A Beleza do Erro, Lx Factory, Lisboa, Portugal. As Bright As The Sun – Entre o Céu e o Mar, Centro Cultural de Lagos, Art Algarve, Portugal. 30th Anniversary Exhibition, Christopher Grimes Gallery, Santa Monica, California, USA. More Songs about Images, Voyeur Project View, Lisboa, Portugal. Garbage Pin Project, MCO Arte Contemporânea, Porto, Portugal. Besart – Coleção Arte Banco Espírito – O presente: uma dimensão infinita, Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal. Curadoria de Maria de Corral e Lorena Martinez de Corral. No Room, Gallery Christopher Grimes, Los Angeles, USA. Parangolé – Fragmentos desde os 90: Brasil, Portugal, Espanha – Museu Patio Herreriano de Valladolid, Espanha. Ponto de Vista: Obras da Coleção Fundação PLMJ, Lisboa, Portugal. Urban Festival, Zagreb, Croácia. Entre a Palavra e a Imagem, Cultural Santander Foundation, Porto Alegre, Brasil. Personal Views: Regarding Private Art Collections in San Diego, San Diego Museum of Art, San Diego, USA. Raconte-Moi une Histoire..., Galerie Baumet Sultana, Paris, França. Entre a Palavra e a Imaxe, Fundación Luís Seoane, Corunha, Espanha. Entre a Palavra e a Imagem, City Museum, Lisboa, Portugal. O Contrato Social, Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa, Portugal. Romance [a novel], Cristina Guerra, Contemporary Art, Lisbon, Portugal. Curadoria de Adriano Pedrosa. Insite 05 – Art Practices in Public Domain, S. Diego/Tijuana, Mexico. 51st International Art – La Biennale di Venezia, The Experience of Art, Venice, Italy. Curadoria de Adriano Pedrosa. Le Marathons des Mots, Toulouse, França. Into the Breach, Smart Project Space, Amsterdão, Holanda. Liste Basel 03, Smart Project Space, Basel, Suiça. EAST International, Norwich Gallery, Norwich, Reino Unido. Curadoria de Lawrence Weiner e Jack Wendler. Confronto + Mistura, Freixo Power-Station, Porto, Portugal. Curadoria de Ricardo Basbaun. UrbanLab, Maia Bienial, Maia, Portugal. Curadoria de Paulo Mendes. Coleção Banco Privado, Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), Porto, Portugal. Curadoria de João Fernandes. More Works about Buildings and Food, Fundição de Oeiras, Oeiras, Portugal. Curadoria de Pedro Lapa. Portuguese Contemporary Art, Glasgow, Reino Unido. XXVI Bienal de Pontevedra, Galicia, Espanha. Curadoria de Maria Corral e Miguel Perez. Ruído, Galeria Cesar, Lisboa, Portugal. Curadoria de Miguel Perez Read my Lips all Guilty, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal. Read my Lips all Guilty, 6 ème Biennale International du Film sur l’Art, Centre Georges Pompidou, Paris, França. Ecos de la Materia, Museu Estremeño e Iberoamericano de Arte Contemporânea (MEIAC), Badajoz, Espanha. ICTM 97, Palácio Galveias, Lisboa, Portugal. Ecos de la Matéria 2, Sala de las Atarazanas, Valência, Espanha. Ex. Mater, Museu Estremeño e Iberoamericano, MEIAC, Badajoz, Espanha. Art Attack, Galeria ZDB, Lisboa, Portugal. Manifesta 96, Rotterdam, Holanda. Espetáculo, Disseminação, Deriva e Exílio? Um projeto em torno de Guy Debord, Metalúrgica de Beja, Beja, Portugal. Peninsulares, Galeria Tomas March, Valencia, Espanha. Curadoria de João Fernandes. Espai Antoni Estrany, Barcelona, Espanha. Curadoria de João Fernandes. 40 ème Salon de Montrouge, Montrouge, Paris, França. Curadoria de João Pinharanda. Imagens para os anos 90, Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), Porto e Culturgest, Lisboa, Portugal. Fet a Europa, Portugal, Centre Cultural d’Alcoi, Espanha. Made in Portugal, Galeria Graça Fonseca, Lisbon, Portugal. V Bienal dos Jovens do Mediterrâneo, Marseille, France. Representado por: Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal. Christopher Grimes Gallery, Los Angeles, E.U.A. As suas obras integram várias coleções importantes: Fudacion Arco, Madrid, Espanha Margulies Collecion, Miami, EUA FUNDACION/COLECCION JUMEX, Cidade do Mexico, México Coleção Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Portugal Coleção BES, Lisboa, Portugal Coleção António Cachola, Elvas, Portugal Coleção Centro de Arte Contemporânea de Bragança Museu de Arte Contemporânea de Roma (MACRO), Roma, Italia Aberdeen Collection, Escocia, Inglaterra THE RETURN OF THE REAL CICLO DE EXPOSIÇÕES DE ARTE CONTEMPORÂNEA 20 THE RETURN OF THE REAL 20 CURADORIA: David Santos PRODUÇÃO: Lurdes Aleixo Fernando Marques JOÃO LOURO DESIGN GRÁFICO: Rita Leite Patrícia Victorino 2 DE NOVEMBRO’12 A 3 MARÇO’13 MUSEU DO NEO-REALISMO PRODUÇÃO GRÁFICA: VILA FRANCA DE XIRA ADAPTAÇÃO GRÁFICA: Santos & Oliveira, Lda RUA ALVES REDOL, 45 2600-099 VILA FRANCA DE XIRA TEL. 263 285 626 [email protected] www.museudoneorealismo.pt TERÇA A SEXTA – 10H00 ÀS 19H00 SÁBADOS – 12H00 ÀS 19H00 DOMINGOS – 11H00 ÀS 18H00 ENCERRA ÀS SEGUNDAS E FERIADOS VISITAS GUIADAS. MARCAÇÕES 263 285 626 Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoio: Projetos para a Exposição Sous le trottoir la plage, MNR, 2012 Revolution neón 2009 THE RETURN OF THE REAL JOÃO LOURO Projetos da exposição Sous le Trottoir la Plage, 2012 Se juntar as letras certas faço magia, impressão digital e pintura s/papel, 2012 Utopia, desenho e colagem s/papel,1995 O signo e a revolução David Santos Como efeito de despedida e sintoma de uma reflexão atualíssima, a última exposição do ciclo de arte contemporânea “The Return of the Real” fica assinalada, desde logo, por uma insinuante peça de néon que invade o espaço do átrio do Museu do Neo-Realismo. “Revolution”, a palavra, resplandece a azul-turquesa, como signo de uma intensa ambiguidade decetiva, onde o sentido se esbate num caleidoscópio de ecos e reminiscências. Será que comunica ainda um conceito político, uma vontade de ação, um slogan, ou antes uma ideia de consumo, uma marca registada? Aliás, esta questão é obrigatória e incontornável, pois a palavra “revolution”, com as letras desenhadas a lâmpadas fluorescentes, remetendo assim para os painéis publicitários do século passado, é ladeada não pelo “r” de marca registada, mas pelo seu sucedâneo, esse “c” minúsculo inserido num pequeno círculo que “garante” os direitos de autoria, como se a ideia de “revolução” pudesse ser atribuída a um só autor ou proibida a sua propagação no tempo e no espaço. O que um exímio manipulador de signos, como João Louro, nos propõe com esta palavra simultaneamente flagrante, estranha e familiar, é a experiência de interrogação sobre a sua aparente mas paradoxal irrelevância, o seu atual desgaste ao nível do significado, apesar do contexto efervescente ditado pela crise económica da Europa e do mundo ocidental. Será que a expressão “Revolution” se converteu ao longo dos tempos num alvo macio e à mercê de interpretações apropriacionistas de carácter duvidoso, transformando-se por fim num território verbal de exploração exaustiva, displicente ou mesmo arbitrária? A resposta é complexa e exige uma reflexão sem esperanças conclusivas. E se o artista parece aqui usar o mesmo método de invasão e transformação abusiva dos significados de uma palavra como “revolução” – para alguns ainda “poderosa”, mobilizadora ou, pelo menos, capaz de atear rastilhos – fá-lo com o objetivo de nos questionar, de despertar uma necessidade específica, isto é, de nos confrontar com o desvio desse sentido fundador que hoje balouça entre a inócua integração no sistema capitalista e o esgar de uma vontade de ação concreta, determinada, como sempre acontece, pelo descontrolado desencadear dos acontecimentos. Porém, quando nos deixamos envolver pela “proposta” de “revolution” assumida por João Louro, confirmamos sobretudo um jogo de sedução visual e marketing, e menos o seu hipotético conteúdo original, de apelo à rebeldia ou à transformação política. Apesar da palavra “revolution” não ter sido verdadeiramente obliterada, mantendo-se completa na sua frontalidade comunicativa, promove de imediato uma deceção inconveniente mais inevitável, isto é, um distanciamento difuso entre o significado e a sua manifestação estética e objetual. Por outro lado, a ambiguidade da palavra apresenta-se ou revela-se ainda em diversos outros níveis. Repare-se como “revolution” assume a mesma grafia em duas das línguas mais faladas no mundo ocidental (inglês e francês, neste último caso sofrendo apenas uma acentuação diferenciada). Ou seja, a expressão internacional da palavra provavelmente mais importante dos últimos duzentos anos, que evoca momentos tão decisivos como a Revolução Francesa de 1789, paira hoje na constelação do nosso universo comunicativo como uma figura de estilo sem rumo nem orientação mínima, deixando-se equivaler em muitos aspetos à palavra qualquer, diluída na amálgama informe da “sociedade do espetáculo” como alertou Guy Debord1. Hoje, já quase não sabemos qual o lugar e o sentido possível de uma palavra histórica como “revolução”, quando foi usada e abusada em muitos outros contextos (ex: revolução sexual; revolução cultural: revolução musical…) que lhe trouxeram inevitavelmente novos significados, mas ao mesmo tempo também o sentimento de que a força da sua invocação original se perdeu com a sistematização desse exercício parasita que envolve quase sempre a maioria das palavras mais influentes. É neste exercício de alteração deliberada dos diferentes níveis de significação que a obra de João Louro, iniciada no princípio dos anos 90, tem vindo a desenvolver-se com acuidade e desassombro, procurando desestabilizar o sentido, as convenções imagéticas e concetuais, como estratégia de provocação sobre a passividade que nos rodeia. No essencial, o trabalho de João Louro busca um observador capaz de aprofundar o seu sentido crítico perante o mundo inebriante da comunicação de massas e o seu tendencial efeito anestésico. Recorde-se que o próprio artista assume a sua estratégia de intervenção pós-moderna como uma possibilidade apenas de confronto com o real, de reequacionamento do lugar social da arte e da sua recetividade. O título da exposição “Blind Runner – Artist Under Surveillance”, apresentada em 2004 no CCB, remete precisamente para essa autoconsciência. Ou seja, o artista sabe situar o alcance residual da comunicação artística, e com isso procura trabalhar o paradoxo das pretensões do marketing, da política, da teoria e das práticas sociais que nos caraterizam neste início de milénio. Basta lembrar que para João Louro não se trata nunca de encarar a “imagem como um facto”, mas como “um pacto” ou um “combate”, ao mesmo tempo que qualquer exercício de comunicação ganha e perde significados no percurso que realiza, como “erreur de transcription”, “lost in translation”, algo que transforma e reenvia outros efeitos, outros contornos de significação. As surpresas que daí advêm recolocam esta arte no domínio da reflexão sobre os cruzamentos entre palavra e imagem, símbolo e signo, significado e significante. Muitas séries de trabalhos, produzidas pelo artista desde os anos 90 até hoje, confirmam este aspeto central, desde os desvios de sentido e significado de uma série de palavras do nosso dicionário (série “História do Crime”, 1995, ex: “ELITE, s.f. (fr. élite). 1. Med. Enfermidade comum aos habitantes de uma região”), passando pelas literárias pinturas “Bridges, Ways and Crossroads” (2002) ou ainda pela “filosófica subversão” de placas de informação de trânsito, na série “Dead End” (2001-02), para terminar nas muitas variantes da série “Blind Image”, iniciada em 2003 e que tem na atual exposição uma das suas mais recentes adaptações. Em todos esses trabalhos, João Louro perscruta a capacidade de confrontação, de matriz duchampiana, que existe entre o significado original das palavras e a sua reconfiguração perante outras associações iconográficas, ou mesmo perante o vazio monocromático que nos devolve, a nós recetores, a responsabilidade imagética da própria arte. Sob o título de um lema soixante-huitarde, Sous le Trottoir la Plage, a presente exposição explora visualmente os dilemas gráficos da palavra “revolução”, o seu uso titubeante, indiscriminado e quase indecoroso. Como se de um modo subterrâneo se erguesse uma vontade inaudita de revolver a ação, de voltar a uma situação de conflito aberto entre poderosos e oprimidos. Resta saber se as palavras, apesar do seu uso e desgaste significacional, podem ainda manter-se como veículos de comunicação e sentido. De Platão a Nietzsche, de Freud a Wittgenstein, de Foucault a Derrida ou Chomsky, outra coisa não fez a filosofia do que buscar uma confiança na linguagem verbal, uma base que pudesse traduzir um ponto de partida para edificar as relações entre o saber e a humanidade. Ora, o que João Louro nos revela é, antes de mais, a complexidade do roteiro de significados e a sua estridente manipulação na atualidade, produzida afinal por todos os intervenientes autorizados, isto é, os poderes públicos e privados, os detentores do “laborioso” domínio económico-financeiro e outros protagonistas que exercem o controlo, ou a sua ilusão, sobre a máquina significante que nos envolve. Nesse sentido, o artista recorta e volta a colar novos sentidos em torno da palavra “revolução”, sugerindo ainda, para lá do néon da entrada do museu, um efeito “explosivo” a partir de um rítmo particular de leitura, letra a letra, com o trabalho “Se juntar as letras certas faço magia”, 2012. São dez pequenas obras em papel onde o alfabeto se repete de cada vez e de onde é retirada (pintada a vermelho) apenas uma letra diferente em cada uma dessas peças. Juntando todos os alfabetos pode ler-se a palavra “Revolution”. Tal como a revelação da leitura soletrada, progressivamente silabada pelas crianças, Louro parece querer dizer-nos que, repetindo o exercício de descoberta e leitura, podemos finalmente recuperar o seu sentido primeiro e mais fecundo. “One Ride with Yankee Papa 13”, 2012, é o título específico de quatro trabalhos da série “Blind Image” que resultam agora justapostos, constituindo um mosaico compósito, muito formal e sedutor em termos estéticos. Porém, as legendas, que antes apareciam nas próprias imagens pictóricas, surgem desta vez mais discretas, em tabela, promovendo todavia o mesmo efeito de cruzamento radical com a monocromia, pois remetem para a descrição de violentas fotografias de guerra (Vietnam) publicadas numa revista de época. O significado das palavras que em tabela se revela exerce assim, mais uma vez, um poder de condução do sentido, de reenvio à imagem que nos reflete o corpo dos visitantes ou o espaço da galeria. Nesse turbilhão de imagens que o nosso cérebro desenvolve a partir das poderosas legendas, perdemos o prazer estético que a exuberante monocromia pictórica nos comunicava. Isto é, somos levados à “deceção” da imagem pelo poder descritivo das palavras e dos seus significados sobre uma violência que não se vê em termos visuais, mas que se desenha em termos imagéticos no enquadramento “pós-pictórico” desse conjunto. Poderemos por isso continuar a afirmar a cegueira destas pinturas, como o título sugere desde o início, ou que fornecem antes as pistas para a nossa capacidade de decisão crítica perante o jogo e o combate significacional? Já “Utopia” (1995), apresenta um conjunto constituído por oito obras, colagens em pequeno formato, onde se cruza uma panóplia de logótipos com elegantes grafias da palavra utopia, denunciando, uma vez mais, a sua adaptação ao mundo da publicidade. Apesar de produzidos em 1995 para a “Bienal da Utopia” (Cascais), estes trabalhos nunca chegaram a ser apresentados, aparecendo agora numa parede verde, inclinada, que formata a sala de arte contemporânea de um modo inesperado. Por último, João Louro grafitou uma das paredes da galeria com grandes letras que esmagam o espetador, tanto pela sua escala como pelos escorridos de pintura revelados na sua dimensão informe e aparentemente inadequada ao espaço museológico. O que aí se lê é, afinal, a mensagem que dá título à exposição: “Sous le Trottoir la Plage”, um dos slogans mais reproduzidos durante as convulsões do Maio de 68, em Paris. Na sua tradução para língua portuguesa, “sob o pavimento, a praia”, podemos adivinhar mais uma vez o sentido decetivo e ambíguo proposto por João Louro. Recordemos então que, no final da década de 60, muitas ruas do centro de Paris eram ainda pavimentadas com paralelepípedos de face cúbica, unidos uns aos outros apenas por uma fina camada de areia, interpretando aí os contestatários uma promessa de praia, soterrada pelo pavimento: “Sous les pavés, la plage”. Com essa apropriação metafórica procurava-se sublinhar que a praia está em todo o lado, aos nossos pés, debaixo das edificações da civilização. Por outro lado, a praia era a expressão mais lúdica, não-hierárquica e insurrecional, à mercê dos revoltosos que respondessem ao apelo de retirar o pavimento para ocupar esse espaço antes subterrâneo e agora revelado no seu potencial lúdico e socializante. Não esqueçamos, porém, que o pavimento representava aí, precisamente, a França gaullista e o tédio asfixiante dessa época. Nesse contexto, muitas outras palavras de ordem andaram de boca em boca: “É proibido proibir”, “A imaginação ao poder”, “O sonho é realidade”, “Numa sociedade que aboliu todas as aventuras, a única aventura que resta é abolir a sociedade”, “A revolução é incrível porque é real”, “Vamos banir o aplauso, o espetáculo está por toda parte”, ou “Trabalhadores de todo o mundo, divirtam-se”. O objetivo dessa marcha de contestação era então unir radicalismo e criatividade, o que levou à ruptura com espaços convencionais de oposição (o Partido Comunista francês e os Sindicatos). O que os estudantes do Maio de 68 exigiam sobretudo era a definição de novas formas de organização política e de ação coletiva. O espírito coletivo desses tempos era o de suprimir a separação e as fronteiras entre as esferas do “trabalho” e do “lazer”, da “vida” e da “arte”, para dar relevo a uma nova ideia de liberdade, autonomia pessoal e internacionalismo. O que ficou desse espírito ou o que se perdeu na sua constante transformação até aos nossos dias é algo que João Louro devolve a uma recetividade responsável e necessariamente mais consciente da função da arte mas também da sociedade e de cada um de nós nestes “tempos sombrios”, parafraseando aqui uma expressão de Hannah Arendt que volta a ressoar na nossa contemporaneidade2. 1 2 Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo, (1967), (trad. port. Francisco Alves e Afonso Monteiro), Lisboa, Edições Mobilis in Mobile, 1991. Ct. Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, (1968), (trad. port. Ana Luísa Faria), Lisboa, Relógio D’Água, 1991.