POSSIBILIDADES DE APROVEITAMENTO TURÍSTICO DA ÁREA RURAL DE CRUZ ALTA - RS Paulo Ricardo Machado WEISSBACH Manoel Baldomero Rolando BERRIOS Godoy Introdução Devido ao seu intenso crescimento no final do século passado e início deste, o turismo apresenta-se como um vetor de desenvolvimento econômico e social. Além disso, o intenso processo de urbanização pelo qual passa a humanidade, faz com que os habitantes das cidades rumem para locais ermos, com muita natureza, distante da atribulação do dia-a-dia. Uma opção que se apresenta em termos de lazer é o turismo rural. Forma alternativa de turismo e de contato direto com o verde, o turismo rural (TR) cresce como atividade econômica em todo o mundo, representando uma possibilidade de desenvolvimento em áreas com potencialidades específicas. O município de Cruz Alta, por apresentar tais peculiaridades, mostra uma configuração natural e humana apta para desenvolver essa modalidade turística. Turismo em espaço rural Retornar à vida bucólica. Esta, com certeza, faz-se a razão primeira do turismo em espaço rural. A urbanização massiva, associada ao estímulo dos meios de comunicação, conduziram para uma fuga dos ambientes urbanizados. Dessa forma, ao empreender no turismo rural, o turista busca serviços para recreação em espaço aberto, junto à natureza. (TROPIA, 2000, p. 9). Várias são as sub-modalidades de turismo rural surgidas da imprecisão da definição (PORTUGUEZ, 1999, p. 82), entre elas: turismo verde, turismo naturalista, de habitação, de retorno, de estância, de montanha, agroturismo, responsável, leve, da terra. Ou em função das práticas, pode o turismo realizado em espaço rural ser chamado de turismo ambiental, de eventos, de saúde, esportivo, náutico, eqüestre, gastronômico, histórico, cultural, de pesca, científico, educativo e de aventura (onde se encontram atividades como o caiaque, rafting, off road, mountain bike e caminhada, entre tantas). Em razão disso, fica mais prudente assumir a expressão “turismo em espaço rural”, justamente por sua amplitude, do que “turismo rural”, menos abrangente e por vezes ambígua. Distingue-se o turismo em espaço rural e o turismo rural, conforme o conjunto da população usufrua dos rendimentos da atividade, ou seja, no primeiro, os empreendedores não necessitam ser pessoas que vivam exclusivamente do e no campo, ao passo que o segundo compreende àqueles que além de tirar seu sustento da área rural, vivem nela e reinvestem em melhoria na propriedade localizada no meio rural Almeida; Blós (1997, p. 41), prefere empregar a expressão turismo em espaço rural (TER) para a totalidade dos movimentos turísticos efetuados no espaço rural, reservando ao TR (turismo rural) as atividades que 24 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) mais se identificam com a especificidade da vida rural, a economia e sua cultura. Assim o TR estaria correlacionado às atividades agrárias, que emprestam à paisagem sua fisionomia rural, diferente das áreas onde a natureza é predominante. (RODRIGUES, 2000, p. 54). Na atualidade, a EMBRATUR (Instituto Brasileiro de Turismo), com uma preocupação maior sob o ponto de vista dos empreendedores, tem trabalhado com a seguinte definição para o Turismo Rural, segundo Graziano da Silva et al (1998, p. 14): Atividade multidisciplinar que se realiza no meio ambiente, fora das áreas intensamente urbanizadas. Caracteriza-se por empresas turísticas de pequeno porte, que tem no uso da terra a atividade econômica predominante, voltada para práticas agrícolas e pecuárias. O turismo rural, conforme Groulleau citado por Almeida; Blós (1997, p. 43), tem por característica marcante o fato de ser um turismo local, de território restrito, gerido pelos próprios residentes em cinco níveis: “a) de iniciativa local; b) de gestão local; c) de impacto local; d) marcado pelas paisagens locais e e) valorizador da cultura local.” Há de se considerar que o TR apresenta duas marcas importantes: a primeira diz respeito a que o seu desenvolvimento pode dar-se em zonas que não disponham de recursos turísticos extraordinários de grande significado, e a segunda, de que a criação de postos de trabalho não necessita de grande volume de investimento. Desde o ponto de vista da atividade econômica, o TR apresenta-se como viabilidade para o desenvolvimento em zonas rurais desfavorecidas. A conciliação entre a atividade produtiva e a possibilidade de complementar a renda com a recepção de turistas, traz novo alento aos produtores rurais. O comércio diversifica-se e dinamiza-se, a infra-estrutura ajusta-se e melhora-se, a cultura local valoriza-se, sendo respeitadas suas bases tradicionais. A produção caseira e artesanal, além de valorizada, traz retorno financeiro. Almeida; Blós (1997, p. 43) complementam: Como fator de desenvolvimento econômico-social, esta atividade promove a geração de novos empregos, a construção de instalações receptivas apropriadas, o incentivo a pequenas e médias empresas direta ou indiretamente relacionadas com o setor. Assim, cabe relembrar que a crise urbana voltou os olhares para o ambiente rural, não só como pólo antagônico à vida na cidade, mas como possibilidade de uma vida saudável. Nesse sentido, vê-se uma re-valorização do rural. Seja pela visão idílica que o meio rural proporciona ou pela necessidade de manter e conservar os recursos naturais, o meio rural apresenta-se, hoje, como o locus que não se restringe à produção econômica voltada para a geração de gêneros alimentícios e matéria-prima, mas, de mesma sorte, como o espaço de moradia (segunda residência) e de lazer. Dessa maneira, o turismo rural traduz-se, além da vertente econômica, sob a vertente social, em que a diversificação das atividades, no meio rural, propicia benefícios às comunidades locais, preservando a cultura e integrando a economia, tudo isso dentro de uma perspectiva de desenvolvimento endógeno e sustentável. Ambientes estudos de Geografia 25 O Município de Cruz Alta e sua inserção no contexto regional No século XVII os bandeirantes que objetivavam expulsar os jesuítas das terras a leste do rio Uruguai, encontraram, próximo as nascentes do rio Jacuí, uma redução próspera, Santa Teresa, que chegou a abrigar 8.000 indígenas. Destruída a aldeia em 1637, localizada aproximadamente a duas léguas da atual cidade de Cruz Alta, um pequeno grupo se instala no alto de uma coxilha próximo de uma capela na frente da qual havia uma enorme cruz de madeira. A localização e a cruz forneceram os elementos para a denominação do lugar. Cruz Alta localiza-se aproximadamente a 341 Km de Porto Alegre, na Região Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Com superfície de 2.432,6 Km2, sendo 79,2 Km2 na área urbana, goza de uma relativa centralidade em relação a área estadual. A cidade situa-se a 28° 36' 20” S e 53° 36' 34” W, assentando-se sobre a unidade geomorfológica do Planalto arenito-basáltico. Em Cruz Alta as altitudes variam de 300 a 600 metros (média de 452 m), sendo seu relevo composto, basicamente, por uma topografia suave, com ondulações, sob a forma de coxilhas. (MOREIRA; COSTA,1995, p. 27). Com clima mesotérmico super-úmido temperado, a cidade insere-se em uma faixa com temperaturas médias de 18° a 20º C, sendo que as precipitações situam-se entre 1.500 e 1.600 mm ao ano. A localidade apresenta a alternância entre campos e mata subtropical, onde é freqüente a presença de matas galerias (capões de mato) que estão ligadas à maior presença de umidade. (VIEIRA,1984, p. 94; MOREIRA; COSTA, 1995 , p. 38-39). O sítio urbano situa-se no divisor de água das bacias hidrográficas dos rios Jacuí (a leste) e Uruguai (a oeste), entretanto o município não apresenta rios de importância, com exceção do rio Jacuí na fronteira leste, que possui elevado potencial hidroelétrico que já vem sendo devidamente explorado. Cidade com vocação agrícola, Cruz Alta tem no comércio e na agro-indústria a base de sustentação econômica, com destaque na produção de soja, milho, trigo, bovinos de corte e de leite e de suínos. Acompanhando a modernização agrícola do país, o município incorporou novas técnicas que possibilitaram o cultivo da soja. Antes disso, o trigo já figurava como destaque agrícola, chegando a emprestar à cidade o título de “Capital Nacional do Trigo”. Mais recentemente, o milho vem ganhando espaço em virtude da retração do preço da soja no mercado mundial. Segundo levantamento estatístico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 1996, a população do município encontrava-se em 71.135 habitantes. No censo de 2.000 o contingente populacional apresenta 71.236 habitantes, sendo a sua densidade demográfica de 29,28 hab/ km2. Na área urbana, que representa 3,5% da área do município, vivem 91,73% da população total. Cruz Alta foi fundada oficialmente em 18 de agosto de 1821 (originalmente denominada de Espírito Santo de Cruz Alta). Durante muito tempo foi um local de passagem de tropeiros. De 1821 até 1940, já completara a ligação ferroviária com os principais pontos do estado. Na atualidade, o município de Cruz Alta ainda representa um dos maiores entrocamentos rodo-ferroviários do sul do país, com acesso pelas BR 158, BR 377 e RS 342, todas pavimentadas. 26 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) A SETUR (Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Sul) propõe o zoneamento turístico do estado, onde o município de Cruz Alta vem compor a região central. Esta área aparece marcada pelas influências alemãs, italianas e pela tradição gaúcha, evidenciando uma cultura potencialmente aproveitável em termos turísticos. Adotando-se uma outra regionalização, pode-se afirmar que o município enquadra-se dentro da unidade regional do Planalto Médio. Cruz Alta, como centro urbano de expressão regional, detém uma boa infra-estrutura para o turismo receptivo, o que não impede que as demais cidades com seus potenciais venham a dotar seus atrativos com um aparato mais compatível ao desenvolvimento da atividade. Além disso, o desenvolvimento regional, como fruto do desenvolvimento endógeno, surge como uma possibilidade para a região em que Cruz Alta está localizada, pois conforme Wanderley (1998, p. 34): O turismo é a opção que mais se aproxima do paradigma do desenvolvimento endógeno sustentado, na medida em que consegue conjugar vários elementos importantes para o desenvolvimento local e regional, como forças sócio-econômica, institucionais e culturas locais, grande número de pequenas e médias empresas locais ramificadas por diversos setores e subsetores, flexibilização, alto grau de multiplicação de renda local, indústria limpa e globalização da economia local através do fluxo de valores [...]. Atingir uma situação desejável de progresso econômico e justiça social para todos não é tarefa fácil ou de resposta imediata no município de Cruz Alta como em todo o mundo. Sobretudo se levarmos em consideração a estrutura sócio-econômica desequilibrada em que se encontra o Estado, como parte de um contexto maior de um mundo subdesenvolvido, onde as atividades agropecuárias como suporte econômico mantiveram-se alheias às inovações da revolução científica e técnica e o processo de industrialização com tecnologia avançada foi tardio e lento. Entrementes, em caminho oposto à falta de dinamismo, as potencialidades naturais abrem-se como possibilidades se inseridas em um processo planejado de desenvolvimento. De certo modo, Cruz Alta ressente-se no cenário estadual da falta de uma representatividade política. Há muito tempo o município não vem sendo atendido por verbas estaduais que fomentem o desenvolvimento em função de sua fraca participação no cenário político do estado, seja no parlamento quanto no poder executivo. Em razão disso o município sofre de um relativo “isolamento” que priva a população de usufruir de benefícios sociais alcançáveis a outros municípios. Há de se reconhecer, também, que falta planejamento municipal que reforce a sua autonomia, permitindo a sua livre associação com outros municípios no sentido de, baseados em suas peculiaridades, fazer crescer sua economia. O turismo em Cruz Alta Embora possua uma razoável infra-estrutura, o turismo não apresenta uma boa demanda em Cruz Alta. Inúmeros fatores são apontados para a retração dessa atividade. Zamberlan et al (1989, p. 157) apontam: [...] falta em Cruz Alta um organismo que conjugue esforços no sentido Ambientes estudos de Geografia 27 de dinamizar as atuais fontes de turismo que são inúmeras, pois Cruz Alta possui tradição muito grande, desde tempos remotos, que a destaca dentro do contexto regional. Historicamente, a cultura e o lazer do município sempre foram destaque no cenário estadual. Sua condição de liderança político-religiosa na região do Alto-Jacuí facilitaram este desempenho. A instalação precoce de sedes administrativas da religião católica, criação de unidades militares, jornais e escolas, fizeram de Cruz Alta, comparativamente a outros municípios, uma célula emanadora de poder político e prestígio. Entrementes, na atualidade, aquela posição outrora ocupada, perde espaço e cede lugar a uma reflexão que tenha por meta a retomada do status perdido. Entre as iniciativas que visam a estimular a atividade turística no município, o poder executivo, através de lei n° 428/97, sancionou medidas para a participação no Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Região Planalto/Rota das Terras. O poder municipal, através da Secretaria de Cultura, Desporto e Turismo (SETUR), procura fazer o chamamento aos turistas e visitantes através do rótulo de “Terra de Érico Veríssimo”, pelo fato do escritor ser natural do município. Aproveita, também, uma lenda local – Lenda da Panelinha –para apregoar que “quem bebe da água da panelinha, retorna sempre a Cruz Alta,” em referência à possibilidade de volta do visitante. Nota-se, no entanto, que a demanda – entendida como o total de pessoas que visitam uma região e os recursos financeiros que geram – tanto para os atrativos quanto para os eventos do município, apresentam-se em baixa. O município está desenvolvendo plenamente o Plano Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), que em linhas gerais, descentraliza a gestão do turismo, fomentando a atividade com base na sustentabilidade econômica, social, cultural, ambiental e política. No sentido de integrar a comunidade em prol da implementação, verifica-se que a Comissão Municipal de Turismo, sugerida pelo PNMT, ficou estabelecida através de lei municipal de 12 de janeiro de 2000 (0692/00), tomando a denominação de CONTUR. Através desta lei, o CONTUR constitui-se em um órgão consultivo no auxílio da administração pública municipal para a promoção do turismo. Por meio do CONTUR, será criado o FMTCA (Fundo Municipal de Turismo de Cruz Alta) que captará recursos para as ações do próprio órgão. Possibilidades para um turismo rural em Cruz Alta Infra-estrutura de acesso Em qualquer economia, principalmente a de mercado, os sistemas viários são fatores importantes para a circulação de pessoas, mercadorias e informação, refletindo, inclusive, o grau de desenvolvimento econômico em determinados casos. O sistema viário de Cruz Alta passou, conforme o momento histórico-econômico, por ciclos, que se iniciaram com os caminhos das tropas de gado – estradas rústicas de chão – passaram pelas ferrovias – que transportavam pessoas e um grande volume de carga -, até chegar nas ágeis rodovias que 28 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) interligam vários pontos. Devido à ausência de corpos d’água consideráveis, os transportes lacustre e fluvial nunca foram possíveis. Através das rodovias dá-se a ligação do município com o restante do estado e do país. Dessa maneira considera-se que Cruz Alta está bem servida de rodovias, permitindo que o seu acesso seja fácil em todas as direções. Entretanto, considerando os fluxos mais freqüentes de mercadorias e de pessoas, há um certo isolamento. Quanto à malha viária urbana, nota-se que é deficiente. São poucas as ruas e avenidas asfaltadas em relação a área urbana. Além disso, o capeamento existente apresenta problemas de durabilidade, já que foi realizado tendo por base o calçamento pré-existente, o que exige periódicos reparos. No entanto, de modo geral, a circulação é boa, não havendo dificuldades na locomoção. As estradas vicinais, porém, que levam às áreas rurais, são todas de chão batido, e, agravado pelo clima úmido e chuvoso, obrigam a freqüentes obras de reparação durante o inverno, período em que a pluviosidade se intensifica Com respeito ao transporte aéreo, a cidade dispõe de um aeroporto com pista de 1.300 metros e de um aeroclube com três pistas de 800, 600 e 500 metros, todas de grama. O aeroporto está desativado, enquanto o aeroclube opera somente com aviões agrícolas. O acesso aéreo mais próximo localiza-se em Santo Ângelo a 92 Km. Equipamentos turísticos Como parte do atual equipamento turístico, o município apresenta os seguintes hotéis e pousadas: Hotel Santa Helena, Pousada Santa Helena, Hotel Fazenda, Hotel Steibrenner, Hotel Califórnia, Hotel Linassi, Hotel dos Viajantes, Hotel Cerezer, Rosmer Palace e Pousada do Estudante os quais perfazem um total de 437 leitos. Quanto as agências de turismo, vê-se que o município é bem servido por essas empresas no que tange a quantidade. No aspecto qualitativo deixam muito a desejar, pois na maioria dos casos, limitam-se a ofertar excursões. As agências de turismo do município são as seguintes: Luciane turismo, Viagens Dantour, Águia Sul Turismo, Beto Turismo, Cruz Alta Turismo, Guia de Luz, Porto Brasil, Ruwer e Cia Ltda, Mano Tour, Merlo Bus, Pampa Turismo, Neto Turismo, Varig-Rio Sul, Discovery Tour, Salvaturi. Verifica-se que em sua maioria as agências turísticas desconhecem ou ressentem-se de uma maior divulgação do consórcio Rota das Terras, revelando que o projeto necessita angariar uma maior participação dos agentes turísticos do município (poder público, comunidade e empresas turísticas) mesmo porque são as agências que “vendem” os atrativos turísticos. Equipamentos de apoio O município possui 08 agências bancárias, um bom número de restaurantes, em geral acolhedores, confortáveis e limpos. Destaque para o fornecimento de massas (cozinha italiana) e o tradicional churrasco. A noite de Cruz Alta carece de ambientes de qualidade e diversificados em termos de bares e boates, o que provoca a fuga de muitas pessoas para Ambientes estudos de Geografia 29 cidades vizinhas como Ijuí e Panambi, relativamente próximas (em torno de quarenta quilômetros). Recursos turísticos A seguir relacionam-se alguns recursos turísticos do ambiente rural de Cruz Alta, não sem antes enfatizar que embora os elementos naturais sejam marcantes, estes não são os únicos levados em consideração na avaliação de um recurso turístico, visto que a ação antrópica dota as áreas rurais de várias manifestações culturais que, via de regra, atraem visitantes em razão de sua singularidade. - Lageado da Cruz, Balneário Novo Horizonte, Propriedade do Sr Joceli Jappe, Complexo turístico Fazenda do Pilão, Parque holístico São Francisco, Propriedade do Sr Francisco Knipoff, Propriedade do Sr Sadi Santana e o Hotel-fazenda. Estes recursos não esgotam o sem-número de estabelecimentos onde o turismo rural pode ser realizado. Avaliação das potencialidades turísticas Após as considerações sobre a infra-estrutura turística existente, os recursos e os equipamentos, e tomando-se por referência as orientações de Ferreira Mendes (1994,p.37), propomos a seguinte avaliação das potencialidades de Cruz Alta, em termos de Turismo Rural, conforme tabela 1. O turismo, na atualidade, não pode ser visto como algo isolado territorialmente. Assim a sua regionalização através de rotas integradas, fazem com que o turista tenha diversificação nos atrativos. Neste sentido a Rota das Terras torna-se um exemplo positivo, pois mais de vinte municípios, enfrentando as adversidades em conjunto, potencializam possibilidades. Sendo a instância executiva mais próxima do povo, a prefeitura torna-se mais sensível aos anseios imediatos populares, de forma que as ações do poder público responderão diretamente à parte interessada, tornando clara a relevância do município na tarefa executiva. Coelho (1997, p. 47), expõe: O município é, hoje, uma subdivisão territorial com funções políticoadministrativas para fins de desempenhar funções próprias de governo e da gestão pública local. Com sua capacidade de autogoverno (como entidade administrativa que se orienta por si mesma respeitando os preceitos constitucionais), o município traz, no contexto geral, uma nova visão que está se inserindo radicalmente no debate municipal, isto é, uma vertente municipalista (movimento que visa ampliar a autonomia municipal através do fortalecimento do poder político da comuna e da revitalização da vida financeira local) que prega necessariamente um novo perfil para o município. Esse fortalecimento do poder decisório, em termos turísticos, encontra respaldo através do PNMT. Com o PNMT todo o município que desejar ter atividade turística como um vetor de desenvolvimento deverá municipalizá-la, criar um órgão específico para tal – Conselho Municipal de Turismo – com o apoio técnico dos governos estadual e federal. 30 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) Tabela 1 - Avaliação das potencialidades turísticas de Cruz Alta Organizada por Paulo Ricardo Weissbach Turismo, desenvolvimento e integração regional O turismo pode ter papel positivo no desenvolvimento e na diversificação da economia em áreas rurais, onde as atividades tradicionais como a agricultura estão em declínio, a população está diminuindo e os salários são baixos. Sendo considerado um criador de renda Ambientes estudos de Geografia 31 e de ocupações, um promotor de infra-estrutura e um meio de intercâmbio entre o rural e o urbano, o turismo mostra-se como a chave do desenvolvimento local. O desenvolvimento via turismo, com a finalidade de que não seja restrito ou circunscrito a uma pequena parcela do espaço, deve procurar a integração regional. A região, atuando complementarmente e em conjunto, ganha força para enfrentar seus desafios. Através do oferecimento de produtos diferenciados, próprios do local, caminha-se em direção contrária à homogeneização – prática usual no turismo de massa em tempos de globalização. Enquanto o turismo em termos globais procurar homogeinizar formas de consumo, o turismo com base local afirma-se por sua singularidade e unicidade. Isto quer dizer que a relação turismo rural e desenvolvimento local pressupõe a utilização plena dos recursos endógenos da localidade e de acordo com a realidade regional. Atrativos no turismo rural Nada mais peculiar no TR do que oferecer refeições compostas de pratos típicos. Um churrasco de carne bovina ou ovina, lingüiça caseira, queijo colonial, salame, arroz de carreteiro com polenta frita ou mandioca frita, são algumas das variedades gastronômicas que podem ser ofertadas. A variedade e a qualidade, o esmero no preparo e a apresentação são pontos a considerar. A refeição será mais apreciada se em sua elaboração forem utilizados produtos da região e se, preferencialmente, forem originários do próprio local de visitação. Então é de se prever a existência de hortas, pomares e criação de animais que servirão de matéria-prima às refeições. O turista, em geral oriundo do meio urbano, valoriza os produtos naturais e feitos em pequena escala, que fogem da produção em massa tão característica dos meios altamente urbanizados. Uma comida caseira feita em um fogão a lenha utilizandose panela de barro ou de ferro terá a sua singularidade e sabor apreciados pelos visitantes. A venda de produtos fabricados artesanalmente são outro atrativo. Durante a visitação, ou mesmo antes de ir embora, o turista poderá querer levar uma lembrança para casa. Além de se constituir em outra fonte de renda para o empreendedor, o ‘souvenir’ cumpre o papel de realizar um marketing velado da propriedade ou atrativo. Desta maneira, alguns cuidados são necessários, como a oferta de produtos comestíveis naturais e saudáveis (no caso de alimentos – mel, charque, rapaduras, queijos, salames, leite e derivados, carnes, frutas, compotas, cucas, sucos, melado, etc.) e lembranças elaboradas de forma caseira e artesanal. Preferência deve ser dada para objetos de uso local (tais como arreios ou selaria, cuias, bombas de chimarrão, ponchos, etc), confeccionados com matéria-prima da região e por pessoas da comunidade. Cobertores de lã, utensílios de barro ou de couro, artefatos de pedra ou madeira, utensílios usados na vida diária, podem servir para uso próprio do turista ou usados como objetos de decoração. Outra viabilidade no tocante a atrativos no ambiente rural remete à instalação de museus ao ar livre. A reunião de objetos e a sua disposição de maneira a dar um aspecto de realidade chama a atenção dos visitantes. O importante é que os museus sejam compostos por peças que não sejam fruto dos avanços tecnológicos recentes, ou seja, devem guardar um aspecto “retrô”. Na implementação de museus ao ar livre são necessários guias bem 32 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) informados e/ou placas esclarecedoras quanto à utilidade e destinação das peças, podendo fazer referência a sua capacidade produtiva em relação aos instrumentos atuais. No entanto, os museus tradicionais, com a exposição de peças em ambientes fechados, também são possíveis. Nesse caso a ordenação e identificação das peças deve ser mais rigorosa, com maiores detalhes e expostas em locais adaptados como antigos galpões, estábulos ou casarões. Em Cruz Alta esses tipos de atrativos apresentam uma boa possibilidade pois existe farto acervo em fazendas, sítios ou estabelecimentos rurais do município. Um outro atrativo a explorar pode constituir-se no local de hospedagem do turista. Desde os tradicionais hotéis-fazenda (semelhantes aos hotéis tradicionais com a diferença de estarem localizados na zona rural), aos fazenda-hotéis (estabelecimentos localizados em uma propriedade que continua as suas atividades produtivas), passando pela hospedagem domiciliar (onde o visitante pernoita e faz as refeições na casa da família rural), camping, pousadas rurais (a habitação é alugada nos finais de semana ou pelo período desejado pelo turista). Alguns atrativos podem ser agrupados em determinadas propriedades onde a variedade seja um fator de atenção para o turista, ou oferecidos, isoladamente, conforme seja a demanda. Cita-se, por exemplo: Trato de animais (dar de comer, banho, tosa, tosquia, vacinação, marcação); ordenha; coleta de ovos; colheita, plantio, adubação (que pode ser caracterizado por uma modalidade turística desenvolvida em espaço rural, o agroturismo); manejo de horta; fabricação de queijos, salame, lingüiça, vinho colonial, manteiga; confecção de comidas e doces; pescaria (seja aquela feita em riachos ou córregos, quanto aquela realizada em criatórios, e que habitualmente são denominados de pesque-pague e tem demonstrado significativa agregação de renda ao proprietário) ; passeio a cavalo, charrete, carroça, carro de boi; passeio de caiaque, pedalinho ou barco; trilhas a pé, a cavalo, de bicicleta (guardam o conveniente de se realizarem ao ar livre, em contato com a natureza, porém requerem utilização racional); banho em riachos, açudes, piscinas naturais (o turista tem predileção por locais que disponham de massas líquidas para banho ou atividades de lazer); soltar pipa; brincadeiras e jogos infantis (da cultura local); curso de artesanato e de culinária; apresentação de grupos folclóricos (danças regionais como a chula, o pezinho, a cana-verde, o balaio, o tatu, etc). Destaca-se, ainda, a importância de valorizar e estimular os talentos locais, tais como músicos, dançarinos, trovadores, pintores, escultores, etc. Artistas nativos poderão ser utilizados como atração e enriquecimento do negócio turístico, além de empregar a mão-de-obra local. Vale apontar que a rentabilidade de um empreendimento turístico rural está na razão direta do grau de satisfação que o turista terá ao visitar um local. Satisfeito, o visitante representará um agente multiplicador na divulgação do local, de maneira que, qualidade, variedade e originalidade são objetivos a serem perseguidos obstinadamente. Então o planejamento turístico para o aproveitamento da área rural de Cruz Alta deve prever várias etapas, como o diagnóstico (exame dos componentes do turismo, tanto dos existentes quando dos possíveis); estabelecimento de objetivos e metas (determinação do que se quer atingir e os meios para atingi-lo); implantação do plano; acompanhamento dos resultados. Ambientes estudos de Geografia 33 Nesse planejamento há de se prever a participação ativa do poder público, principalmente da secretaria de turismo do município. Turismo rural em Cruz Alta Se a crescente valorização do ambiente, da paisagem, do rústico, da história, da tradição e do sossego sustenta oportunidades de turismo e de lazer no espaço rural, da montanha à planície, do interior ao litoral, a sua concretização está condicionada pela presença de população permanente, garantia da tradição e da preservação do meio e prestadora dos serviços requeridos. (CAVACO, 2000, p. 89). A promoção do turismo rural está sendo considerada pelos planos de desenvolvimento rural como uma das oportunidades mais destacadas entre as diversas alternativas de diversificação produtiva. Entretanto, apesar do interesse que tem despertado, o turismo rural não pode ser considerado como a solução geral para todos os espaços rurais, não devendo ser tratado como as zonas litorâneas, onde a massificação tem sido a chave do modelo de exploração. No TR a oferta não deve limitar-se à mera restauração dos ambientes e alojamento dos visitantes, mas aproveitar os recursos naturais e paisagísticos existentes e a riqueza do patrimônio rural/cultural, que constituem-se em seu fator de diferenciação, pois as pessoas que procuram pelo TR buscam originalidade e genuinidade, serviços diversos que propiciem repouso e produção local de vários gêneros. Para que esta atividade logre sucesso em Cruz Alta , julga-se importante atentar para que as características a seguir sejam adotadas ou preservadas: - Atenção personalizada; - Convívio com a população local; - Empreendimento delimitado em um entorno natural e/ou produtivo; - Participação nas tarefas rurais; - Passeios com guias; - Reconhecimento da flora, fauna, e demais particularidades do estabelecimento; - Gastronomia típica; - Atividades ligadas ao meio rural (cavalgada, caça, pesca, etc). Os empreendedores, público e privado, do TR em Cruz Alta poderão verificar que através do estabelecimento deste, embora aumente a oferta de destinos turísticos, a rede de serviço não necessita de muitos investimentos, mesmo porque a rede de infra-estrutura turística já serve a outros atrativos existentes. A geração de emprego torna-se um dos fatores de atratividade para as comunidades rurais. Considerando-se que os empregos diretos normalmente não exigem mão-de-obra com grande qualificação e a remuneração não é alta, as populações rurais podem ser amplamente empregadas, evitando-se, assim, a saída de pessoas do meio rural. A população rural pode se beneficiar de sua tradicional hospitalidade para melhor 34 Lúcia Helena de O. Gerardi (org.) acolher o turista, considerando-se que o tratamento é um dos quesitos mais considerados no serviço turístico. O aspecto do contato direto com o proprietário e o meio físico faz com que o TR seja viável, especialmente, para pequenas empresas, nas quais se percebem nitidamente os valores culturais rurais, em contraposição aos urbanos e às expectativas dos rurícolas em relação ao constante processo de modernização. Um dos aspectos do TR que tem encontrado boa receptividade por parte dos turistas diz respeito ao atendimento familiar no atrativo. Esse quesito pode ser viabilizado em pequenos estabelecimentos e gozar de amplo prestígio como fruto da costumeira hospitalidade do homem rural. Considerações conclusivas O turismo está sendo apontado por muitos especialistas como a grande solução para o desemprego que vinga em dias atuais. Exagero a parte, a atividade tem significado uma fonte alternativa de emprego de mão-de-obra, na medida que induz a criação de novos postos de trabalho diretos na área de lazer e, indiretos, em outras atividades subsidiárias ao turismo, como o transporte, o comércio, etc. Afora isso, os meios de comunicação, aproximando mais as pessoas e os lugares, têm oportunizado a criação de novas necessidades em razão do contato com povos de hábitos diferentes. Viajar, dessa forma, tem sido encarado como uma necessidade. Eis porque, dentro do rol das motivações turísticas, ao desejo de evasão acresceu-se a necessidade de evasão, associada ao espírito de aventura do ser humano, aquisição de status, aquisição de cultura e motivos comerciais. Como um segmento do turismo, o turismo rural apresenta inúmeras vantagens e que o colocam como uma boa perspectiva em municípios com áreas rurais que disponham de algum atrativo (mesmo porque o TR não exige atrativos significativos). Verificou-se que o município de Cruz Alta tem amplas chances de empreender no TR. Sua diversidade paisagística e cultural remetem a atividade para um quadro de possibilidades verificáveis a médio e longo prazos. Autores que estudaram o Rio Grande do Sul e a região noroeste do Estado também são unânimes em apontar o potencial do município. A situação da atividade turística no município é razoável, pois prevalece o turismo emissivo e os atrativos existentes carecem de uma maior divulgação. No entanto, vários passos já foram dados para a implementação turística, entre eles o cadastramento junto a EMBRATUR, a criação do Conselho Municipal de Turismo e a própria municipalização do turismo. Cruz Alta, não obstante as várias propriedades aptas a desenvolver o TR, já manifesta uma incipiente incursão pela modalidade turística. Convém enfatizar que, com a finalidade de ser implantado em Cruz Alta, o TR deve reafirmar certos aspectos que permeiam a existência da atividade como: - O TR não é destinado ao turismo de massa, sendo o atendimento personalizado em um ambiente tranqüilo uma de suas marcas; - O TR sofre com a questão da alta e baixa temporadas, o que faz nascer uma preocupação adicional com a demanda; O turismo rural apresenta-se como uma maneira inteligente de divulgar e preservar Ambientes estudos de Geografia 35 as belezas e riquezas locais. Se bem estruturado pode ser decisivo para o desenvolvimento econômico e social, bastando uma ação planejada e com objetivos bem definidos. Sabe-se que o turismo, precedido de um planejamento, proporciona receitas fiscais, redistribuição de renda, geração de empregos, incremento industrial e de serviços, além de fixar o homem ao seu meio, isso sem contar a integração e divulgação cultural, o acréscimo de atividades de lazer, a valorização do patrimônio histórico e a proteção ambiental. A observância da infraestrutura necessária, os impactos positivos e negativos e o futuro da atividade são pontos de passagem obrigatória dos planejadores. Significa pensar o espaço segundo Milton Santos, onde a psicosfera antecipa-se à tecnosfera, ou seja, raciocinar primeiramente em termos de valorização simbólica dos lugares. Em outras palavras é administrar os ambientes, recursos e a comunidade receptora com a finalidade de atender às necessidades econômicas e sociais, preservando a cultura e o meio ambiente. Finalmente, podemos afirmar que a criação de estratégias de atração de investimentos turísticos fortalecerá e dinamizará o setor no município. Com este fim, campanhas de divulgação de imagem e medidas de incentivo podem ser adotadas. Para que vingue tal propósito, urge que a imagem de desenvolvimento integrado seja aceita pelos investidores, no que um plano regional de turismo, seria um excelente motivador para os empresários do setor turístico. Referências ALMEIDA, Joaquim A.; BLÓS, Wladimir. Turismo e desenvolvimento em espaço rural. Revista Ciência e Ambiente, Santa Maria, n. 15, p.31-49,1997. CAVACO, Carminda. Turismo, comércio e desenvolvimento rural. In ALMEIDA, Joaquim A. e RIEDL, Mário (Orgs). Turismo rural: Ecologia, lazer e desenvolvimento. Bauru: EDUCS, 2000, p. 69-94. COELHO, João É. L. 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