O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA DA SILVA – Bomdia a todos.
Em nome do Presidente da Assembléia Legislativa, Deputado Vieira da Cunha, damos nossas boas-vindas aos professores, alunos e acompanhantes que hoje
chegam a esta Casa para participar do evento Deputado por um Dia.
Registramos a presença da Escola Estadual de Ensino Fundamental Telmo
Motta - CIEP, do Município de Giruá, que representará na Sessão Plenária, à tarde, o
Partido Estudantil Telmo Motta. A Diretora da Escola é a Professora Rita Helena
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Mattei Fontana; sua Coordenadora Pedagógica é Solange Margarete Grassel Marques; a aluna líder é Juliéte Oliveira dos Santos; e os Professores Assessores são Maurício Butzen e Solange Margarete Grassel Marques. Convidamos os alunos Deputados por um Dia da Escola Estadual de Ensino Fundamental Telmo Motta para tomar
assento às bancadas.
Está presente também o Colégio Cidade das Hortênsias, do Município de
Canela, que representará o Partido dos Estudantes de Canela. Acompanha a delegação a Diretora Silvia Regina Petersen Schmidt; o Coordenador Pedagógico Magno
Eduardo Schuch; o aluno líder Vinícius Barbieri; e as Professores Assessoras Berenice
Maria Lied Felippetti e Léa Rodrigues Siqueira. Convidamos os alunos Deputados
por um Dia do Colégio Cidade das Hortênsias para tomar assento às bancadas.
Registramos a presença da Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton
Alves de Souza, do Município de Sarandi, que representará o Partido Democrático
Cultural. Acompanha a delegação a Diretora Docelina Cruz; a Coordenadora Pedagógica Márcia Adriana Martinelli; o aluno líder Douglas da Luz; e as Professores Assessoras Rudiane Lorenzzon Colet e Ieda Maria Pasqualotto. Convidamos os alunos
Deputados por um Dia da Escola Fundamental Milton Alves de Souza para tomar
assento às bancadas do plenário.
Registramos a presença nesta Casa da Secretária da Educação do Município
de Sarandi, Professora Edite Terezinha Ortolã.
Registramos a presença da Escola Municipal de Ensino Fundamental João
XXIII, do Município de Carazinho, que representará o Partido Totalmente Jovem. A
Diretora da Escola é a Professora Simone Fátima Fernandes Martins; a Coordenadora
Pedagógica é Marilisa Boeni Oliveira, a aluna líder é Juliana Gastring; e as Professoras Assessoras são Marlisa Boeni Oliveira e Sônia Regina Severgnini Finger. Convidamos os alunos Deputados por um Dia da Escola Municipal de Ensino Fundamental
João XXIII para tomar assento às bancadas.
Registramos a presença em plenário do Vereador Cláudio Santos, do Município de Carazinho, e da Professora Neila Krelling, representante da Secretaria da
Educação daquele Município.
Registramos também a presença da Escola Municipal de Ensino Fundamental
Rui Barbosa, do Município de Frederico Westphalen, que representará o Partido Estudantil Jovem. A delegação é acompanhada pela Diretora Jussara Jacomelli; a aluna
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líder é Ana Paula Sydiovski; e as Professoras Assessoras são Rosane Maria Sizdloski
Schorek e Claudia Karpinski. Convidamos os alunos Deputados por um Dia da Escola
Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa para tomar assento às bancadas.
Também registramos a presença no plenário do assessor do Deputado Vilson
Covatti, Leonir Fronza, de Frederico Westphalen.
No dia de hoje, ainda pela manhã, ouviremos à manifestação do Presidente
da União Gaúcha de Estudantes, Werner Franco, que falará a respeito da UGES. A
seguir, teremos a presença neste plenário do Deputado Vieira da Cunha, Presidente da
Assembléia Legislativa, e do Dr. Moacyr Scliar, palestrante da parte da manhã.
Às 11h30min, os alunos líderes e os diretores das escolas presentes participarão da reunião de líderes no Gabinete da Presidência desta Casa. Logo após, participarão do almoço no Theatro São Pedro. Os demais alunos, professores e acompanhantes estarão liberados a partir das 11h30min e retornarão para participar da Sessão
Plenária do Estudante que iniciará às 14 horas.
Na Sessão Plenária do Estudante de hoje teremos a apresentação de cinco
projetos. O Projeto de Lei nº 6, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton
Alves de Souza, do Município de Sarandi, institui oficinas sobre cultura gaúcha nas
escolas da rede pública estadual e municipal do Estado do Rio Grande do Sul e dá
outras providências. Ao Projeto foram apresentadas Emendas.
O Projeto de Lei nº 7, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa, de Frederico Westphalen, institui a inserção de oficinas de desenvolvimento de
habilidades técnicas no programa do ensino fundamental nas escolas do Estado do Rio
Grande do Sul.
O Projeto de Lei nº 8, da Escola Estadual de Ensino Fundamental Telmo
Motta - CIEP, do Município de Giruá, cria o Programa Estadual de Incentivo à Economia de Água Potável.
O Projeto de Lei nº 9 da Escola Fundamental de Ensino Fundamental João
XXIII, do Município de Carazinho, restringe a presença de menores em estabelecimentos de diversão eletrônica no Estado do Rio Grande do Sul.
Por fim, o Projeto de Lei nº 10, do Colégio Cidade das Hortênsias, do Município de Canela, institui a obrigatoriedade do trabalho do apenado.
Está com a palavra o Presidente da União Gaúcha de Estudantes, Werner
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Franco.
O SR. WERNER FRANCO – Bom-dia a todos.
Agradeço ao convite da Escola do Legislativo para participar deste evento.
Farei um breve relato sobre a formação do movimento estudantil desde a década de
20 até hoje, sobre os grêmios estudantis e a União Gaúcha de Estudantes.
Na década de 20, começou a formação dos grêmios estudantis, que eram
centros que tinham o objetivo de despertar a consciência cívica dos estudantes, o interesse pelos esportes e o patriotismo entre a juventude. Iniciou-se então a formação de
grupos de alunos nas escolas de ensino fundamental e médio que começaram a organizar os seus grêmios estudantis. Grupos de alunos que tinham a energia de poder
levar esse sentimento para a juventude reuniam-se, faziam discussões e organizavam
suas atividades, dentre as quais se destacaram as olimpíadas estudantis, formadas por
essas entidades.
Na época da Ditadura Militar, os grêmios estudantis tiveram um papel mais
importante na sociedade. Deixaram um pouco de lado as atividades estudantis para se
colocar inteiramente na discussão política do País, debatendo que contribuição os
estudantes dariam na luta pela democracia, na luta para que não somente os estudantes mas o povo tivessem liberdade de imprensa, liberdade de expressão e voltassem a
ter um País democrático.
Quando os estudantes começaram a fazer reuniões e a discutir a situação política, a discutir as atividades que fariam para derrotar aquele sistema implantado, começou a repressão sobre as entidades estudantis. Então, os grêmios foram fechados,
as entidades municipais de grande importância, inclusive a União Gaúcha dos Estudantes, passaram por uma intervenção militar e continuaram sendo cassadas aquelas
pessoas que continuavam fazendo manifestações. Pichações de muro, passeatas, qualquer protesto tinha a sua repressão.
Mas os grêmios estudantis foram vitoriosos. Por isso hoje se pode dizer que
a juventude é a banda de música, é o carro-chefe das mobilizações. Naquele momento
os estudantes não se intimidaram, tomaram as ruas, tiveram suas principais discussões, fizeram suas estratégias e enfrentaram a ditadura, que era muito agressiva naquele momento. E a enfrentaram com toda sua energia.
E em 1968 a juventude organiza seu primeiro movimento, a Passeata dos
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100 mil, no Rio de Janeiro, e dá o primeiro golpe na ditadura militar.
Logo em seguida, a população, os sindicatos, que também faziam intervenções, os trabalhadores, todos começaram a vir atrás dos estudantes. Por isso, a classe
estudantil é a banda de música, pois quem abre o desfile é sempre a banda. E quem
organizou as principais lutas, quem sempre esteve à frente foi a juventude. Ela abriu
caminho para que o restante do povo viesse junto e fortalecesse uma grande luta e
derrubasse aquele sistema.
Chegamos na década de 80, quando a juventude cumpriu outro papel importante na história do País, que foi conclamar toda a população para as Diretas Já, e
foi vitoriosa novamente. Em 1984, então, foi implantado o sistema de eleição direta
no nosso País. Mas um dos fatos em que a juventude gaúcha mais se destacou foi no
movimento Fora Collor. Em congresso, em 1992, a União Gaúcha de Estudantes, em
Cachoeira do Sul, foi a primeira entidade a decidir pelo Fora Collor.
Naquele ano, no mês de outubro, organizou-se a primeira passeata estudantil
do Brasil pelo Fora Collor em Porto Alegre, com 500 estudantes. Parecia meio ridículo 500 estudantes querendo derrubar o Presidente da República, mas no outro dia já
estavam na Rua dos Andradas, passando pela Esquina Democrática, mil alunos, logo
depois 2 mil, 5 mil, 10 mil. Até que chegamos ao dia em que havia 100 mil estudantes
nas ruas de Porto Alegre e mais de um milhão nas ruas de São Paulo. E conseguimos
também a aprovação do impeachment do Collor.
É nesse clima de mobilizações, é em toda a sua história de travar as principais batalhas em defesa da educação, de travar as principais lutas em defesa do Brasil,
que a juventude marcou a história do País. Não há um período a cada 10 anos da nossa história, no último século, em que a juventude não tenha feito uma grande transformação.
Assim é hoje em dia. Hoje nosso papel não é outro senão continuar uma luta
incessante, incansável para que a nossa educação seja de qualidade, para que os estudantes do ensino fundamental passem naturalmente para o ensino médio e depois consigam ingressar na faculdade, consigam ter uma profissão, ter o direito à cidadania, o
direito a sustentar sua família e seguir sua vida de forma feliz.
É esse o objetivo do movimento estudantil. Claro que, além de despertar a
cidadania, é seu objetivo fazer com que a juventude tenha esperança, tenha condições
de se formar, ter emprego, viver dignamente.
Esse é somente um relato da história do movimento estudantil. Hoje, a luta da
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UGES, do movimento estudantil no Brasil inteiro é pela retomada da meia-entrada. Temos
nos mais diversos Estados do País um sistema de meia-entrada que funciona. O Rio Grande do Sul e Minas Gerais são dois Estados em que a meia-entrada não funciona, mas há
uma grande luta para fazer com que ela volte nos locais públicos e privados.
No Estado do Rio Grande do Sul, apenas nos locais públicos ela é aceita
mediante apresentação da carteira estudantil. A carteirinha de meia-entrada, como é
chamada, que aqueles que estudaram um pouco antes da década de 80 conheceram –
havia meia-entrada nos cinemas, nos teatros, nos locais de lazer e cultura –, hoje ainda
é aceita em alguns locais, mas em um número reduzido deles. Os locais privados, que
hoje mais dominam na área da cultura, não aceitam a meia-entrada.
Meus amigos, quero discutir também a formação dos grêmios estudantis; temos ainda muitas dúvidas sobre como funcionam, qual a escola que ainda não tem.
Os grêmios estudantis – claro – surgiram nesse momento em que esta cidade
estava fervilhando com seus problemas sociais; e a União Gaúcha de Estudantes teve
muita importância desde sua formação até hoje, como há pouco demonstrei.
Hoje para a formação de um grêmio estudantil, primeiro, temos que ter a noção de que o grêmio estudantil é uma entidade representativa do estudante na escola.
Assim como, por exemplo, a fábrica têxtil tem seu sindicato, que representa seus funcionários, luta por melhores condições de salário, trabalho, pela carga horária, etc., na
escola a situação é a mesma. Na escola, o estudante tem muitos deveres, ou quer estar
na aula todo dia, se esforçar, tirar 10 na prova, passar de ano, mas, além disso, também tem seus direitos, que é o acesso à cultura, ao lazer, a uma biblioteca que funcione, com livros atualizados, acesso à informática, ter professores na sala de aula, recebendo um salário decente.
Os estudantes têm diversos direitos. E quem ajuda, quem lhe dá estrutura
para defender esses direitos é o grêmio estudantil. Esse, assim como o sindicato de
uma fábrica, é um poder representativo, é uma entidade dos estudantes. Não é um
órgão da escola, não é um organismo, é uma entidade; o estudante tem todo o poder
de não somente organizá-la mas dela participar.
É claro que a devida orientação dos professores sempre ajuda; um empurrãozinho não é ruim, mas com sua limitação. Quem tem que organizar as atividades,
com certeza, é o estudante; quem tem que elaborar, quem tem de levar isso para o
resto da moçada é a nossa gurizada.
Às vezes se tem a idéia de que o grêmio estudantil é um local em que a chapa
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que foi eleita ou o número de pessoas que participam é limitado. São aqueles 10, são
aqueles 15 estudantes que participam. Na verdade, é exatamente o contrário. Podemos fazer com que participem do grêmio todos que tenham aptidão ou que gostem de
alguma coisa, pois é dentro dele que é possível desenvolver as atividades de estudante, é possível desenvolver o sentimento que tem a juventude.
Então, se temos alguém que passa o dia inteiro vendo televisão em casa depois de assistir a sua aula, não tem problema, pode participar do grêmio estudantil
também. Essa é a melhor pessoa para organizar, por exemplo, a sala de vídeo, para se
encarregar do vídeo para a moçada assistir na hora do recreio. Não há outra pessoa
que conheça mais de filme, de novela, etc.
Se temos um menino que joga bola o dia interior, não tem pessoa melhor do
que ele para entrar no grêmio estudantil e organizar os mais diversos campeonatos,
seja de futebol, seja de vôlei, seja de handball, seja dos mais diversos esportes. Não
tem alguém que conheça mais esporte do que aquela pessoa que pratica.
Se temos uma menina ou um menino que adora participar das festas, que durante a semana não faz nada, mas no final de semana vai a todas as festas da cidade,
não existe pessoa melhor para participar do grêmio estudantil, organizar a festa do rei
e rainha, organizar a festa de formatura, organizar a festa da gincana, inventar diversas festas para a moçada se divertir.
E assim vai. Qualquer pessoa que goste de alguma coisa, que tenha uma aptidão, é dentro do grêmio estudantil que ela pode desenvolvê-la. Então, o grêmio não
é um local fechado, não é para poucas pessoas, não é para pessoas que adoram dar
discurso, como eu, aqui. Para você participar do grêmio não precisa dar discurso,
precisa somente gostar de algo. E para aquela pessoa que gosta de algo e quer passar
isso para os seus colegas não há espaço melhor.
Existem diversas atividades estudantis que é possível organizar para a juventude, para os estudantes. Agora, quando vamos passar por eleições municipais,
eleger os vereadores dos nossos municípios, os prefeitos, nada melhor do que organizar através dos grêmios estudantis debates nas escolas com candidatos a prefeito, a
vereador, nada melhor do que organizar uma campanha como a que fizemos recentemente para que o estudante votasse aos 16 anos, fizesse seu título e se utilizasse desse
direito, que embora facultativo é muito importante para desenvolver a cidadania.
Nada melhor também do que passar o sentimento que hoje estamos desenvolvendo. Hoje é um dia especial não somente para mim, não somente para a Assem-
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bléia, mas para todo o Estado. Conseguimos trazer nossos colegas – também sou estudante; é muito bom ver esta moçada jóia, embora um pouco cansada, com sono,
viajou algumas horas – vieram de Frederico Westphalen, de Giruá. Sei que é complicado sair de casa de madrugada para estar aqui de manhã cedo, mas temos toda uma
energia e vamos vencer o cansaço.
Gostaria de conclamar a todos para tirar esse ar de sono do rosto e colocar
um sorriso, pois hoje quem vai tomar conta da Assembléia é a juventude. Vamos
apresentar nossos projetos, a visão que temos dentro da escola, a visão que temos
como juventude do que é importante para o crescimento e desenvolvimento dos nossos Municípios, do nosso Estado e para o crescimento e a soberania do nosso País.
Esta é a preocupação da nossa juventude: se o Brasil tem hoje grande participação não só na política interna, mas também na política externa, demonstrando o
posicionamento do País diante das maiores dificuldades que existem no mundo, como
a guerra que está acontecendo no Iraque, a invasão do território palestino, o golpe na
Venezuela.
Em Porto Alegre acontece o Fórum Social Mundial e, no próximo mês, haverá o Fórum Mundial de Educação. Aqui acontecem as principais atividades de expressão internacional, nas quais nossa juventude tem grande participação.
A principal questão que temos de defender, e isso para qualquer povo, é a
paz. Não somente a paz por si própria, mas a paz com justiça, a paz sem invasão, a
paz com soberania, a paz com independência dos povos. É isso que colocamos hoje,
não somente para a juventude, mas como posição dos jovens para o mundo inteiro.
Assim tem sido, nessa última década, com toda a inspiração, com toda a
energia, com toda a adrenalina, com todo o espírito de alegria e irreverência que a
juventude pode ter.
Para a União Gaúcha de Estudantes é um privilégio estar aqui. É muito bom
ver essa moçada, com espírito e vontade de mudança, querendo adquirir cada vez
mais conhecimento. Todo esse conhecimento que estamos adquirindo aqui temos de
repassar ao nosso Município, a nossa escola, para todo mundo.
Podemos organizar em nosso Município o Vereador Jovem, o Vereador por
Um Dia. Essa não é a única forma, mas uma das principais para podermos ter esse
sentimento, esse conhecimento do que é a política hoje em nosso País, em nosso Estado; como funcionam as esferas do Poder Executivo, Poder Legislativo e do Poder
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Judiciário; qual a contribuição que podemos dar; qual a forma que podemos ter de
participação, pois isso é o principal.
Hoje, há uma informação que não é correta, de que a juventude não tem participado das decisões e discussões políticas. Tentam passar a idéia de que a juventude
é alienada, mas notamos exatamente o inverso. Se estamos aqui hoje é porque temos
o sentimento de querer participar, de querer estar por dentro. Vamos levar esse conhecimento para mostrar exatamente o inverso.
Tentam passar a idéia de que a juventude é alienada, só gosta de fazer festa,
só gosta de namorar, de paquerar, mas eu digo que não. Claro que a juventude gosta
de namorar, de ir a festas, mas é muito consciente: sabe o que quer e sabe o que faz.
Exemplo disso são nossos grêmios estudantis. O grêmio estudantil é a forma como os
estudantes se estão posicionando para levar a consciência para os demais colegas.
Nada melhor do que poder, ao retornarmos aos nossos Municípios, levar
nosso sentimento, o conhecimento que estamos adquirindo aqui. Um dos objetivos é
que possamos, depois do Deputado por um Dia, retornar e organizar as atividades
estudantis, dando um acompanhamento para a formação dos grêmios, para a confecção da carteira de identidade estudantil, para a organização das atividades estudantis
em cada Município e em cada região.
Esse é o objetivo da minha participação aqui hoje, além de trazer essas informações que a União Gaúcha de Estudantes não pode trazer normalmente. Não
falei antes, mas logo depois das Diretas houve uma grande fraude no sistema de carteiras de estudantes, e a União Gaúcha de Estudantes passou por um golpe e fechou
por cinco anos, até ser reconstruída em 1990. De lá para cá, ela vem se sustentando e
organizando o movimento estudantil.
No nosso Estado, temos mais de 10.500 escolas em 497 Municípios. É uma
dificuldade para a União Gaúcha de Estudantes estar em todas. Ela está mais presente
onde o Município está mais organizados através da União dos Grêmios Estudantis.
Dessa forma temos facilidade para levar as atividades estudantis.
Nos locais mais distantes e onde não temos a União dos Grêmios, sofremos
essa debilidade. Resolvemos isso fazendo um grande cadastro dos grêmios estudantis,
com uma cartilha de formação de grêmios – que logo estará chegando nas escolas de
vocês –, para formar os grêmios estudantis e organizar sua documentação e suas atividades. Quando tivermos esse cadastro atualizado, teremos condições de estar mais
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próximos das escolas. Por enquanto, temos ainda essa debilidade.
A partir de hoje, a partir desta atividade, vamos poder estar mais próximos
para acompanhar as atividades estudantis em cada Município.
Fico lisonjeado de estar aqui com essas novas e jovens lideranças estudantis,
e feliz de ver delegações de meninos e meninas. Hoje tentamos enfrentar esse preconceito, esse machismo que existe na sociedade. É bom ver a grande participação de
meninas no Deputado por um Dia.
Vou encerrar, mas, nesse período que me resta, gostaria de esclarecer as dúvidas que ficaram. Muito obrigado.
O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA DA SILVA – Vamos abrir oportunidade para perguntas, que poderão ser feitas dos microfones de
aparte – para que os Deputados e Deputadas por um Dia possam manifestar-se da
tribuna.
Saliento o privilégio de a UGES estar aqui conosco, privilégio da Assembléia
Legislativa, da Escola do Legislativo por recebê-los aqui na Casa.
Nesta madrugada, acordei e lembrei das escolas que saem de Municípios
distantes, como Frederico Westphalen – lembrei desta cidade porque já estive lá e
sei que é bem longe –, olhei para o relógio e pensei que naquela hora o pessoal
estava vindo para Porto Alegre. Nós ficamos na expectativa de atender esses estudantes muito bem, muito bem mesmo, porque são praticamente heróis, por saírem de madrugada e virem a Porto Alegre para passarem o dia conosco. Mas ao
chegar o pessoal de Giruá, soube que tinham saído às 23 horas de ontem. Imaginem viajar a noite toda para poder participar de uma atividade na Assembléia Legislativa!
Louvamos essa disposição, não só dos alunos, mas principalmente dos professores, da direção da escola, que se engajaram a este Projeto Deputado por um Dia
e estão trazendo os estudantes a esta Casa. Esperamos que, ao final, saiam satisfeito
com a nossa receptividade. Faremos, com certeza, o melhor. A Assembléia está empenhada em receber de forma eficaz os seus visitantes.
Vamos conceder um breve espaço para as questões que se apresentarem. Os
Deputados por um Dia podem manifestar-se, levantando o braço e dirigindo-se ao
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microfone de apartes para suas ponderações.
Enquanto não se apresentam interessados, quero salientar que nesta Legislatura – o período de quatro anos de um mandato parlamentar – temos quatro Deputadas. São quatro mulheres com assento no Parlamento do Rio Grande. Esse é um
número pequeno, porque são 55 Deputados no total.
No Deputado por um Dia, a Sessão de março é destinada apenas a meninas,
ocasião em que temos no plenário 55 Deputadas por um Dia.
Hoje, a presença das mulheres é significativa. Acredito que tenhamos aqui
bem mais de 50% de representação feminina. Isso é muito importante, porque estamos motivando, incentivando as meninas a participarem do processo democrático e
político.
Temos uma inscrição.
O SR. ALEXANDRE KURY PORT – Sou presidente do grêmio estudantil
da minha escola, em Canela. Gostaria de saber o que é preciso fazer para termos uma
palestra sobre a União Gaúcha de Estudantes. Muito obrigado.
O SR. WERNER FRANCO – Alexandre, podemos marcar uma reunião inclusive já para a próxima semana, de acordo com a organização da sua escola. Se
outras escolas tiverem interesse, poderemos marcar isso hoje também. Mas, quando
outras escolas tiverem interesse de marcar uma reunião conosco no seu Município, é
muito simples. Podem entrar em contato conosco pelo telefone 51-3019-1684 e 513019-1683. Esses telefones são da diretoria da UGES, e lá vocês serão muito bem
atendidos, podendo conversar conosco para agendar uma visita ou uma palestra. Não
usamos muito o termo palestra, porque essa palavra nos causa uma impressão de que
ficará uma pessoa falando e falando. Como se trata de algo de estudante para estudante, preferimos falar reunião ou assembléia. A UGES também possui um e-mail que
é [email protected].
Gostaria de fazer mais um pequeno relato aqui sobre duas coisas importantes,
que são as duas principais lutas da juventude hoje, manifestadas por meio da nossa entidade. Antes, porém, gostaria de saber se mais alguém deseja fazer alguma pergunta. (pausa)
A União Gaúcha de Estudantes, há mais de 50 anos, organiza a carteira de
identidade estudantil que possibilita o pagamento de meia-entrada em locais públicos
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e possui diversos convênios. São parcerias com empresas privadas como casas noturnas, livrarias, papelarias, lojas de esporte, confecção, enfim, diversos locais utilizados
pela juventude.
Esse papel expressivo da lei da meia-entrada com a carteira estudantil, infelizmente, em 2001, sofreu uma derrota com a Medida Provisória nº 2.208, expedida
pelo Ministro da Educação, na época, Paulo Renato. Essa Medida Provisória substitui
a carteira estudantil pelo documento de identidade ou RG, como preferirem, ou somente por um atestado da escola.
Com isso, o que acontece? A carteira estudantil tem um papel não somente
de poder dar acesso ao lazer, à cultura, ao esporte para o estudante, mas é também
um documento oficial de identificação do estudante. Aqui no Rio Grande do Sul, a
carteirinha tem o brasão do Estado, tem a assinatura do Presidente da UGES, é defendida pela Lei nº 9.080/90. Então, ela representa o documento oficial do estudante e
uma medida para fortalecer as entidades estudantis, porque no momento em que o
estudante confecciona a carteira, ela tem um custo, que é um investimento. Vou especificar: a carteira estudantil custa 5 reais, dos quais, 2 reais ficam no grêmio estudantil, 1 real fica na União Municipal e o restante vai para a UGES, para a confecção da
carteira e para dar à União condições de se manter com uma estrutura para organizar
as atividades estudantis.
Então, esse investimento retorna para o estudante, seja através de atividades
culturais, esportivas ou através de manifestações dos grêmios estudantis. Essa é a
importância histórica da carteirinha. Ela serviu para que a UGES chegasse até aqui,
para que os grêmios estudantis e uniões municipais, o movimento estudantil em si,
tivesse condições de fazer as mudanças que fez no País. A carteira estudantil representa tudo isso.
Devido à Medida Provisória, ela teve um grande enfraquecimento e hoje essa
é a principal luta da União Gaúcha de Estudantes. Inclusive estamos organizando para
o dia 11 de agosto, quando é comemorado o Dia do Estudante, uma grande manifestação no sentido de solicitar uma reunião com os Deputados Federais do nosso Estado, para exigir que essa Medida seja vetada na Câmara Federal, voltando a carteirinha
a ter o seu devido valor.
Outra preocupação no momento é com relação à decisão do Governo Federal, do Ministro Tarso Genro, de organizar quotas nas universidades para estudantes
oriundos de escolas públicas do País. Não consideramos ruim essa medida, mas é uma
medida emergencial para podermos garantir que os estudantes, tanto de escolas públi-
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cas como particulares, tenham acesso às universidades públicas. Hoje, as pessoas que
estudam em escolas particulares têm mais condições, mais estrutura para ingressarem
nas universidades públicas. Então, achamos que essa não é uma solução, mas, por
enquanto, ajuda.
O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA DA SILVA – Registramos a presença, neste plenário, do Deputado Elvino Bohn Gass, da região de
Giruá. O Deputado nos honra com sua presença nesta manhã.
Temos três manifestações ainda. Logo após, vamos encerrar os questionamentos, pois teremos a palestra do Dr. Moacyr Scliar.
A SRA. ANA PAULA SYDLOSKI – Bom-dia a todos.
Somos do Partido Estudantil Jovem, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa, de Frederico Westphalen. Não possuímos um grêmio e gostaríamos de saber o que é necessário para formarmos um.
O SR. WERNER FRANCO – Na verdade, como falei anteriormente, a burocracia não é uma característica da juventude. Vou citar o que é necessário para organizar o estatuto do grêmio estudantil, que é uma das coisas mais importantes. Podemos utilizar a mobilização dos estudantes, fazendo uma reunião com os representantes de turma e organizando uma assembléia geral para conversarmos com todos os
estudantes da escola. É preciso fazer mobilização, muita conversa, muita discussão
mas nada de burocracia. Se for necessário organizar algum documento do grêmio
estudantil, pode ser utilizada a forma democrática, que é através de assembléia geral
dos alunos. Se não quiserem organizar comissão eleitoral e todos os processos de um
grêmio estudantil, podem organizar uma comissão provisória que ficará responsável
por organizar toda essa questão democrática durante um ano. Assim, no próximo ano,
farão a eleição do grêmio estudantil.
Existem dois processos: um onde se faz a eleição do grêmio estudantil, onde
tem alguma burocracia. Outro processo é montar uma comissão provisória jogando-se
a eleição para o final do ano ou para o início do ano que vem. Estamos à disposição
para marcarem uma visita à escola a fim de organizarmos isso.
O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA DA SILVA – Vou
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ausentar-me por alguns minutos, para dirigir-me ao Gabinete da Presidência, e ficará
conduzindo os trabalhos a Sra. Maria Avelina, Coordenadora da Escola do Legislativo.
(Houve falha na gravação.)
A SRA. JULIANA GASTRING – Sou da Escola Municipal de Ensino
Fundamental João XXIII, de Carazinho. Gostaria de saber qual o primeiro passo para
montar um grêmio, tendo em vista que a minha escola ainda não tem. Obrigada.
O SR. WERNER FRANCO – Voltando a tratar da formação de um grêmio, vou explicar mais ou menos como funciona o processo de formação de um grêmio. Há dois processos. O primeiro é utilizado quando a escola não tem grêmio estudantil funcionando por um grande período. A melhor medida, nesse caso, é realizar
uma assembléia geral para montar o estatuto do grêmio e uma comissão provisória
que vai assumir o papel do grêmio estudantil por um determinado período, aprovado
pela assembléia. Essa alternativa é utilizada, primeiramente, pelo fato de o grêmio ter
ficado distante dos alunos durante um período. Essa é a forma que temos de explicar
o processo e fazer com que as pessoas que querem participar do grêmio façam parte
da comissão que vai organizar o grêmio estudantil.
Esse é o primeiro processo, utilizado quando a escola não tem um grêmio
estudantil funcionando na escola. Os alunos também podem optar por essa forma.
Logo após o final do mandato da comissão provisória, passaremos, então, por um
processo democrático, que é a eleição do grêmio estudantil. Para realizar a eleição do
grêmio precisamos formar uma comissão eleitoral responsável pela organização do
processo eleitoral do grêmio estudantil, por divulgar aos alunos sobre o que é o grêmio estudantil, como funcionam as chapas, as atividades. É aberto um período para
inscrição das chapas, os alunos se organizam em chapas com oito, nove, dez alunos
de acordo com o estatuto do grêmio e passam a fazer a campanha eleitoral.
Logo após a campanha, a chapa que fez a campanha mais de acordo com a
realidade e teve a preferência dos alunos vai para a eleição. Da eleição sai a chapa que
venceu o pleito. Essa chapa vai ser então o grêmio estudantil pelo período estabelecido no estatuto. Esse é um processo um pouco mais burocrático, pois é preciso haver
inscrição, comissão eleitoral e outros procedimentos.
Podemos utilizar qualquer um dos dois processos. As escolas que ainda não
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têm grêmio estudantil devem, preferencialmente, montar uma comissão eleitoral numa
assembléia geral na escola.
A SRA. TATIANE ADÉLIA TELLES – Pertenço ao Partido Estudantil
Jovem e gostaria de saber quando e onde surgiu o primeiro grêmio estudantil.
O SR. WERNER FRANCO – Uma boa pergunta. Como na década de 80 e
também no período da Ditadura boa parte da documentação da UGES foi queimada,
perdida, o grêmio estudantil mais antigo do Estado que temos registro é o centro de
alunos da Escola Técnica de Agricultura – ETA –, de Viamão. Esse grêmio estudantil
está completando neste ano 112 anos de formação. Não tenho conhecimento do grêmio mais antigo do Brasil, embora seja Diretor também da União Brasileira de Estudantes. Penso que seja de São Paulo ou da Bahia. Acredito que o grêmio estudantil
do ETA, no Estado do Rio Grande do Sul, que tem o movimento estudantil mais forte, mais atuante, onde houve as principais pressões, seja um dos mais antigos do Brasil também.
A SRA. COORDENADORA MARIA AVELINA FUHRO GASTAL –
Registro a presença do nosso palestrante, Dr. Moacyr Scliar.
O SR. ANDERSON CLEMENTE STEFFLER – Pertenço ao Partido
Estudantil Telmo Motta, de Giruá. Gostaria de saber qual o procedimento para a
aquisição da carteira estudantil. Obrigado.
O SR. WERNER FRANCO – A carteira estudantil é confeccionada em
Porto Alegre e em Santa Maria. O ideal é que a escola tenha o grêmio estudantil, pois
a carteira tem o objetivo de fortalecer os grêmios estudantis. O grêmio estudantil é
responsável pela arrecadação dos valores relativos à carteira e pelo envio da documentação para Porto Alegre. A União Gaúcha de Estudantes e responsável por informar a todos os grêmios estudantis os locais em que há desconto com a apresentação
da carteira, pelo envio do material publicitário, dos formulários e de todo o material
necessário para a confecção da carteira.
Cabe ao grêmio estudantil fazer a divulgação da carteira, organizar os pedi-
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dos e enviá-los a Porto Alegre pelo correio, por ônibus ou de outra forma. Estaremos
sempre em contato. A União Gaúcha de Estudantes recebe a documentação, confecciona as carteiras e as envia para as escolas.
Preferencialmente, o processo de confecção de carteiras deve ser feito através do grêmio estudantil, pois o objetivo da carteira é fortalecer os grêmios.
A SRA. COORDENADORA MARIA AVELINA FUHRO GASTAL –
Passaremos à ultima pergunta e, logo após, à palestra.
A SRA. LUCIELI FÁTIMA ZANON – Pertenço ao Partido Estudantil Jovem e gostaria de saber quem foi o incentivador do grêmio estudantil.
O SR. WERNER FRANCO – Quem incentiva os grêmios estudantis são os
próprios estudantes. É claro que hoje há muitos professores que dão um grande incentivo – a quem agradeço por isso. Há muitas pessoas que pensam que um grande
líder político também seja um incentivador, assim como os políticos que temos na
Assembléia Legislativa. Algumas pessoas entendem que Che Guevara, por exemplo,
foi um grande inspirador. Temos várias pessoas que nos inspiram, mas a formação do
grêmio do estudantil surgiu da inspiração dos próprios alunos e hoje se sustenta na
inspiração e na vontade da juventude. Talvez cada pessoa queira ser um líder semelhante ao que foi um determinado líder político ou líder da sociedade e se espelhe nele
para ser igual. No movimento estudantil não há uma pessoa específica, mas várias
pessoas, e os que comandam o nosso País hoje também são grandes incentivadores.
O SR. PRESIDENTE VIEIRA DA CUNHA (PDT) – É com muito prazer
que, em nome da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, damos as
boas-vindas aos alunos participantes do projeto Deputado por um Dia da Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton Alves de Souza, do Município de Sarandi; da
Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Barbosa, do Município de Frederico
Westphalen; da Escola Estadual de Ensino Fundamental Telmo Motta, do Município
de Giruá; da Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII, de Carazinho; e
do Colégio Cidade das Hortênsias, do Município de Canela.
Meu nome é Vieira da Cunha, sou Presidente da Assembléia Legislativa do
Estado do Rio Grande do Sul. É um prazer receber os Deputados por um Dia. Este
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projeto é desenvolvido pela Escola do Legislativo da Assembléia Legislativa para que
os nossos estudantes tenham oportunidade de vivenciar o que é um mandato parlamentar, a fim de que conheçam melhor o Legislativo e saibam das atividades que nós
Deputados desempenhamos.
É um projeto que deu tão certo que decidimos ampliá-lo. Neste ano estamos
fazendo a primeira experiência do Parlamento Juvenil, que é o Deputado por Um Dia
ampliado. Vamos ter aqui na última semana de julho 60 estudantes eleitos nas diversas
regiões do Estado pela sua comunidade escolar para aqui estarem como se deputado
fossem – não só por um dia, mas por três dias –, apresentando, discutindo e votando
matérias aqui na Assembléia Legislativa. Esta foi a primeira edição deste ano de um
projeto que se chama Parlamento Juvenil, que esperamos seja aperfeiçoado ao longo
dos anos e que mais escolas dele participem.
Desta primeira experiência, 105 escolas estão participando no Estado inteiro.
Estaremos divulgando, nesta semana, através da grande imprensa, o nome dos primeiros 60 Deputados juvenis do Estado do Rio Grande do Sul.
Queremos agradecer, pelo atendimento do nosso convite, a Moacyr Scliar,
que, para honra do Rio Grande do Sul, é nosso representante imortal na Academia
Brasileira de Letras e um dos grandes nomes da literatura não só nacional, mas internacional. Moacyr Scliar terá a oportunidade de interagir, a partir de agora, com vocês, trocando experiências nesta etapa do projeto Deputado por Um Dia.
Logo mais, às 14 horas, estarei aqui, abrindo a Sessão Plenária, ocasião em
que teremos oportunidade de conversar melhor acerca de alguns aspectos da nossa
atividade parlamentar.
Sejam muito bem-vindos, alunos do programa Deputado por Um Dia, professores e diretores que acompanham as diversas delegações. Registro uma saudação
especial à Secretária da Educação do Município de Sarandi, Edith Terezinha Ortolan;
à representante da Secretaria da Educação de Carazinho, Neila Trelin; ao Vereador
Cláudio dos Santos, do mesmo Município; e ao Leonir Fronza, que assessora nosso
ex-Presidente, Deputado Vilson Covatti, que está acompanhando a delegação de Frederico Westphalen. Sejam todos muito bem-vindos. Espero que tenham um profícuo
dia de atividades e de trabalho.
A partir de agora, com vocês, nosso imortal escritor Moacyr Scliar.
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O SR. MOACYR SCLIAR – Bom-dia a todos. Não sei se devo dizer bomdia, Excelências, mas creio que não. Estou aqui falando para Deputados por Um Dia,
mas, para mim, é uma grande honra falar a Deputados.
Desenvolverei aqui uma conversa – não pretendo fazer nenhuma conferência.
A idéia é expor algumas observações que fiz ao longo da minha trajetória como escritor, como médico e como participante da vida pública deste Estado.
Quero começar fazendo uma observação a respeito da maneira como o Presidente da Assembléia se apresentou aqui. Ele não disse: Sou S. Exa., o Presidente da
Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Ele disse apenas: Sou o Vieira da Cunha. Creio que, ao se apresentar dessa maneira, ele deu a vocês uma lição importantíssima, de que a atividade política, a atividade parlamentar, é feita, antes de mais
nada, por pessoas, por seres humanos, gente que tem emoções, que tem sentimentos,
que tem idéias e que envereda pela política em busca de respostas para as suas inqui-
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etações e em busca de respostas para os problemas da população como um todo.
Isso é importante referir porque vocês já devem ter ouvido muitas opiniões
não-elogiosas a respeito de políticos, e isso se reflete nas enquetes de opinião. Os
brasileiros têm uma péssima imagem da vida política do Brasil, mas devo dizer logo a
vocês que isso é um preconceito. Assim como se tem preconceito contra grupos,
como negros ou judeus, por exemplo, existe um preconceito contra os políticos que é
absolutamente injustificado.
Trata-se de um grupo humano e, como tal, possui pessoas das mais diferentes posturas.
O mesmo ocorre com os médicos e com os escritores, grupos dos quais faço
parte. Há quem diga que os escritores são horríveis, egoístas, que só pensam neles. É
verdade, há alguns escritores que só falam em si mesmos, mas essa não é a regra. E
quando começamos a falar do geral baseados em algumas observações particulares,
estamos sendo preconceituosos. Essa é uma das primeiras coisas que devemos evitar.
Portanto, o primeiro conselho que eu daria a vocês é o seguinte: quando vocês estiverem enfrentando um problema que envolve choque ou conflito entre grupos
humanos e estabelecerem um julgamento, devem se perguntar: Não estou manifestando um preconceito? Não estou partindo de uma idéia pré-concebida?
Isso é muito importante porque temos de partir do princípio de que as outras
pessoas são exatamente iguais a nós. Colocar-se no lugar das outras pessoas é fundamental – imaginar como as outras pessoas se sentem, imaginar o que elas pensam.
Vocês estão na Casa da democracia. Creio que, para vocês, é algo até natural vir aqui, participar de uma Sessão na Assembléia Legislativa, debater livremente.
Quando vocês pegam o jornal, lêem notícias, algumas criticando o Governo
Estadual, Municipal ou Federal, outras criticando a Assembléia Legislativa, outras
defendendo, enfim. Isso, para vocês, já deve até fazer parte da rotina. Mas nem sempre foi assim no Brasil.
Justamente neste ano de 2004 – e o Presidente desta Casa estava presente ao
evento – foi assinalado o 40º aniversário de um fato que foi muito importante para a
história deste País e que vocês, pela tenra idade, evidentemente não presenciaram.
Aliás, ainda bem que não presenciaram, ainda bem que não viveram aquela situação.
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Estou me referindo ao Golpe Militar de 1964. Naquela época, os grandes
problemas brasileiros começaram a ser objeto de uma discussão muito acalorada, com
manifestações de diferentes grupos que de repente começaram a alarmar alguns setores da população. E esse clima de alarme e de insegurança criou uma atmosfera propícia para a deflagração do Golpe Militar, ou seja, o Presidente, que havia sido eleito
democraticamente – embora eleito como Vice-Presidente, possuía o apoio da população –, foi deposto e teve de sair do País, e um Governo formado por militares assumiu o poder, nele permanecendo por 20 anos.
Pois esse Governo começou a administrar o País de uma maneira autoritária.
A partir disso, manifestar opiniões, como era feito até então, já não era mais um direito. As pessoas perderam o direito à liberdade de expressão, e isso se refletiu imediatamente nos jornais, que não podiam publicar nada contra o Governo.
Naquele período, ocorreram fatos bem interessantes que demonstram quais
são as conseqüências da supressão da liberdade de expressão. Os integrantes do Governo pensavam que, se eliminassem as críticas, seria mais fácil governar, mas estavam completamente enganados. Freqüentemente a intolerância caminha junto com a
burrice, e esse foi um exemplo clássico disso.
Considero que duas situações foram exemplares nesse sentido. Em primeiro
lugar, havia censura na imprensa, ou seja, cada um dos grandes jornais era monitorado por um censor, uma pessoa que ia até o jornal, lia com antecedência as matérias
que seriam publicadas, sacava uma caneta hidrográfica – que, desde então, passou a
ser odiada no Brasil por ser associada à censura – e riscava com um x o que não poderia ser publicado.
Ocorre que o jornal deveria ser impresso, processo que demandava algumas
horas, e quando alguma notícia era censurada, muitas vezes não havia tempo de
acrescentar outra. Assim, o jornal saía com espaços em branco.
O Governo, então, decretou outra ordem: não poderia haver espaços em
branco nos jornais. Ocorre que, quando o leitor via espaços vazios no jornal, imediatamente sabia que o texto havia sido censurado. O próprio Governo se denunciava,
porque apareciam espaços em branco no jornal. Então, disseram que não podia sair
nada em branco no jornal: Vocês têm que dar um jeito de preencher esses espaços em
branco com alguma coisa.
Daí, os jornais variavam. Alguns colocavam receitas culinárias, torta de chocolate à moda tal. Na primeira página, onde deveriam estar as notícias mais impor-
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tantes, vinha uma receita culinária. Ou, então, como é o caso, por exemplo, do jornal
O Estado de S. Paulo, saíam versos de Os Lusíadas, de Camões. Nunca se leu tanto
Os Lusíadas aqui no Brasil como naquela época.
Aliás, não sei por que, mas de alguma maneira Os Lusíadas aqui no Brasil
tem essa fama de ser uma obra de castigo. Quando eu freqüentava a escola, tinha menos idade ainda do que vocês, um dos castigos era copiar as vinte primeiras estrofes
de Os Lusíadas. Copiei várias vezes essas vinte estrofes, até as conheço de cor. Se
vocês quiserem, posso recitá-las, mas não recomendo.
Ninguém conhece Os Lusíadas como eu, podem ter certeza, e ninguém odeia
o livro tanto quanto eu, porque o pobre do Camões ficou associado à idéia de castigo,
e o mesmo aconteceu nos jornais daquela época.
Essa era uma das coisas que aconteciam. Outra coisa era que a supressão de
notícias apavorava e desorientava a população.
Em 1974, como médico, eu trabalhava na Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, e tivemos um problema de saúde muito grave, em todo o País e aqui no
Estado: uma epidemia de meningite meningocócica. Essa é uma doença para a qual
hoje existe vacina e tratamento, mas naquela época a vacina recém estava começando
a ser utilizada, e não se tinha muita certeza de que ela funcionaria.
A população estava apavorada, porque as pessoas não sabiam direito como é
que a meningite atacava. A idéia que as pessoas tinham é de que quem estava doente
passava a doença para os outros. Essa idéia está completamente errada. Na verdade, o
que acontecia é que, na época da epidemia, a maior parte das pessoas já estava com o
germe na garganta, mesmo as que não sentiam nada. Em algumas dessas pessoas, o
germe invadia o organismo e causava a doença, mas não eram essas pessoas que o
transmitiam. Na verdade, elas receberam o germe de outras pessoas.
Isso precisava ser explicado, porque as pessoas ficavam em pânico. Para vocês terem uma idéia, num colégio de Porto Alegre, nessa ocasião, faleceu uma criança
de meningite, e o velório aconteceu no colégio. As pessoas tinham tanto medo da
doença que nem chegavam perto do caixão da pobre criança, o que para os pais era
uma coisa ainda mais dolorosa. Além de terem perdido um filho, as pessoas não queriam chegar perto por medo.
Precisávamos explicar como a doença atacava, e a maneira mais lógica de fazer isso seria através do jornal, da televisão. Mas o governo proibiu que se dessem
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notícias sobre meningite. Não se podia dizer que havia meningite. Tinha que dizer que
no Brasil não havia meningite meningocócica, porque o governo achava que isso
prejudicaria a sua imagem. Resultado: as pessoas ficaram ainda mais desorientadas,
mais confusas, e isso só agravou a situação.
O mesmo acontecia com os livros, mas de forma um pouco mais branda,
porque o pessoal sabia que o que se lê mais é jornal. Então, a censura era mais intensa
nos jornais e na televisão, e menos intensa nos livros. Mas mesmo assim os livros
eram apreendidos, e eram apreendidos de uma maneira que hoje, quando a gente
conta, parece uma coisa fantástica, uma coisa que não se pode imaginar.
Por exemplo, saiu um livro de um grande escritor brasileiro chamado Rubem
Fonseca. Esse escritor, a propósito, está concorrendo ao Prêmio Jabuti, um dos mais
importantes prêmios literários do Brasil. É um escritor veterano, que eu conheço, um
grande escritor. E ele escreveu um livro chamado Feliz Ano Novo.
Nessa época, a maior parte dos governantes eram militares – sobretudo, generais. Acontece que a esposa de um dos generais ganhou de presente esse livro, leu e
não gostou. Achou-o imoral. Então ela telefonou para a censura e mandou recolher o
livro em todo o Brasil, e o livro, uma das grandes obras da literatura brasileira, foi de
fato recolhido em todo o Brasil porque essa senhora achou que os brasileiros não podiam lê-lo.
Como vocês vêem, naquela época, a simples vontade de uma pessoa podia
fazer com que a população brasileira ficasse privada de um instrumento cultural como
é um livro. Isso durou, como falei para vocês, vinte anos. Ao fim de vinte anos, retomamos a democracia.
Algumas pessoas criticam a democracia, dizem que é um regime imperfeito.
Lembro as palavras de um governante inglês, Winston Churchill, que disse uma vez
que a democracia é o regime mais imperfeito, com exceção de todos os outros. Quer
dizer, ela é imperfeita, mas qualquer outro regime é mais imperfeito do que ela.
O exercício da democracia é importante, mas requer algumas pré-condições.
A primeira delas é que a pessoa tenha uma visão equilibrada de como é a relação com
os outros, porque política é basicamente lidar com as outras pessoas. A gente pensa
que política é ser eleito Deputado, fazer discursos. Não.
Tem política em vários lugares: nas escolas tem a política estudantil, num
clube tem política, porque tem relacionamentos, até dentro de casa, na família, tem
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política. Muitos jovens consideram os pais ditadores e querem subverter o poder
dentro de casa; daí aprontam aquelas coisas que todo mundo sabe. Mas também dentro de casa é preciso saber dialogar, é preciso se colocar no lugar dos outros.
Certamente alguma vez já deve ter havido discussões, conflitos na casa de
vocês, e a solução para o conflito é, volto a dizer, entender o que o outro está pensando, entender o que o outro está sentindo.
Essa idéia que se tem de que pais são quadrados, estão sempre obrigando os
filhos a fazerem aquilo que não querem, será que é assim mesmo? Será que os pais
não têm alguma razão? Será que não se pode fazer um diálogo entre pais e filhos que
promova o bem-estar da família?
A primeira coisa, então, é vocês terem uma predisposição emocional em relação à democracia.
A segunda coisa que eu recomendaria é que estejam informados. Hoje em dia
há muitas fontes de informação, e vocês podem recorrer a elas. Eu escrevo para um
jornal, acho que o jornal é uma grande fonte de informação, assim como a televisão, a
rádio. Procurem saber o que as pessoas estão pensando, o que estão dizendo. Mas
não acreditem em tudo o que lerem.
Temos a tendência de achar que tudo o que está escrito no papel é verdade.
Será que é? Vou dar um exemplo de uma discussão que houve na imprensa da qual
participei como médico. Diz-se no Brasil que uma das causas da miséria, se não for a
principal, é que nascem crianças demais, é que as pessoas, sobretudo as pobres, são
ignorantes e por isso botam filhos demais no mundo.
Muita gente repete isso como se fosse verdade, mas não é. Como é que sabemos que não é verdade? Porque as estatísticas mostram isso, indicam que o número
de crianças por família não está crescendo, mas diminuindo. Daí alguém diz assim:
Ah, mas está diminuindo só entre os ricos, os pobres continuam botando filho no
mundo. Também não é verdade. Diminuiu mais entre os pobres do que entre os ricos.
Sabemos que, daqui a pouco, o problema não vai ser o excesso de crianças,
mas a falta de crianças. Isso já está acontecendo em muitos países. Esses tempos, saiu
uma notícia sobre uma cidade na Itália que paga para cada casal que tiver filho uma
quantia que, para nós, seria muito grande, em torno de 10 mil dólares, mais uma ajuda
mensal para essas famílias.
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A idéia de que excesso de filhos é um problema que resulta da ignorância ou
da perversidade das pessoas é completamente equivocada. Houve uma época, sim, em
que realmente os pais precisavam ter muitos filhos, porque morriam muitas crianças, e
eles sabiam disso. Os pais pensavam assim: E se eu perco meus filhos?
Por outro lado, freqüentemente essas pessoas trabalhavam na agricultura e
precisavam dos filhos para ajudar na lavoura. Era a mão-de-obra mais barata que eles
podiam conseguir. Mas essa época passou, ou está passando. Então, essa idéia que as
pessoas têm em relação ao número de filhos dos pobres é, como eu disse antes, um
preconceito, uma idéia que não se sustenta na realidade.
Como é que a gente avalia a realidade? Com números. Número é uma coisa
muito importante. Um cientista inglês muito famoso chamado Lorde Kelvin dizia assim: Tudo que é verdadeiro pode ser expresso em números. E é verdade, porque
muitas coisas da nossa vida se traduzem em números: salário é número, as notas que
vocês têm no colégio é número, os votos são números, a audiência da tevê é número,
o número de leitores do jornal é número também.
E assim a gente pode avaliar a situação da sociedade, da mesma maneira que
o médico avalia a situação de uma pessoa: ele vai ver a temperatura, que é um número; ele vai ver a pressão arterial, que é um número; ele vai contar os batimentos do
coração, que é um número. Existem números que também nos explicam como é que é
a sociedade.
Este é um conselho importante que eu dou para vocês: sempre que alguém
defender uma idéia, perguntem quais são os números que dão suporte a essa idéia,
como é que isso se expressa em cifras, como é que a gente avalia, na prática, isso que
a pessoa está dizendo.
Essas duas coisas são muito importantes, e eu acrescentaria uma terceira:
aprendam a expressar as idéias de vocês, inclusive por escrito. Aprendam a escrever,
aprendam a traduzir no texto escrito aquilo que vocês pensam. Como é que a gente
faz isso? O primeiro conselho que eu daria a vocês: leiam, porque lendo a gente
aprende a escrever. O colégio nos ensina muita coisa, mas a gente aprende muito mais
lendo os livros dos escritores com os quais nós temos afinidade.
Uma pergunta que sempre me fazem é: Qual é o livro que eu devo ler?
Os professores sempre dão uma lista de livros – e os professores sabem, têm experiência, e essa lista é importante –, mas, além da lista, descubram quais são os
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escritores que falam para a cabeça e para o coração de vocês e leiam esses escritores. Pratiquem escrever. Isso é uma coisa importante e hoje em dia faz parte da
rotina.
Muita gente está, graças à Internet, lendo e escrevendo de novo. Procurem a Internet, isso é uma coisa importante. A Internet é uma fonte muito
grande de informação. Eu sei que nem todo o mundo tem computador, mas a
escola tem computador, há lugares onde tem computador. Aprendam a entrar
na Internet, aprendam a pesquisar na Internet. Não colem da Internet, não
façam isso.
Uma coisa que se está generalizando cada vez mais é o seguinte: o professor
pede um trabalho, os alunos vão lá na Internet, descobrem um trabalho, imprimem e
entregam como se fosse deles. Não façam isso. Primeiro, porque é desonesto e, segundo, porque vocês não aprendem nada com isso e isso não acrescenta nada a vocês.
Mas usem a Internet para pesquisar e para se comunicar com outras pessoas.
Alguns vão dizer assim: Mas os jovens não sabem escrever, cometem erros. Não se preocupem com isso – quem está falando para vocês é um escritor –,
não se preocupem se no começo vocês vão escrever errado. Com o tempo, vocês
vão aprender a escrever certo, porque a gente aprende a escrever melhor lendo o
que os outros escrevem, comparando com o que a gente escreve.
Como é que a gente aprende palavras novas? Não é abrindo um dicionário e
decorando o dicionário. A gente lê um texto, no texto aparece uma palavra que a
gente não sabe e aí a gente pode ou ir para o dicionário ou deduzir o sentido da palavra lendo esse texto.
Todas essas coisas vão habilitar vocês a compreender melhor a cidade, o
Estado, o País onde vocês vivem. Vão habilitar vocês a escolher melhor os políticos
que representam vocês. E se vocês forem políticos – eu espero que muitos de vocês
sejam –, essas coisas vão habilitar vocês a serem melhores políticos.
Eu havia prometido que não ia fazer uma conferência aqui. Antes que eu me
prolongue, vou parar por aqui porque já vi que tem perguntas.
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ESCOLA DO LEGISLATIVO
Deputado por Um Dia
31 de maio de 2004 – Manhã
O SR. PRESIDENTE VIEIRA DA CUNHA (PDT) – Queremos agradecer
ao nosso Moacyr Scliar por esta primeira etapa. Antes de me retirar, porque tenho de
atender à agenda, quero dizer que o Moacyr Scliar vai continuar com vocês para responder a algumas perguntas. O nosso Diretor da Escola do Legislativo, Luís Antônio
Costa da Silva, coordenará a segunda etapa dois trabalhos.
Quero agradecer a participação do Werner Franco, Presidente da UGES,
União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas, e do Wremyr Scliar – irmão do Moacyr
–, que é o Diretor da Escola de Gestão e Controle Francisco Juruena, do Tribunal de
Contas do Estado do Rio Grande do Sul, entidade-irmã da nossa Escola do Legislativo.
Aliás, a nossa Escola do Legislativo, dentro de poucos dias, será batizada
com o nome de um ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado, recentemente
falecido: o Conselheiro Romildo Bolzan, que também foi Deputado desta Casa durante três legislaturas.
Agradeço a presença e a participação do Wremyr, bem como do nosso Presidente da União Gaúcha dos Estudantes, Werner Franco, e do escritor Moacyr Scliar, que ficará com vocês a partir de agora, para responder às perguntas que lhe desejem fazer.
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Deputado por Um Dia
31 de maio de 2004 – Manhã
Também está entre nós a Sra. Presidente do Círculo de Pais e Mestres da Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton Alves de Souza, do Município de Sarandi, Marisa de Domênico Fiorio. Nossos agradecimentos por sua participação.
Antes de me retirar, não poderia deixar de prestar uma homenagem ao Dr.
Moacyr Scliar. Fiz questão de lhe entregar uma placa que registra o agradecimento da
Assembléia Legislativa por sua participação neste nosso evento Deputado por um
Dia. Faço-o em nome dos Deputados Estaduais do Rio Grande do Sul, os quais,
como representantes do povo gaúcho, querem externar e reiterar o orgulho que sentimos por sua condição de membro da Academia Brasileira de Letras.
O Dr. Moacyr Scliar, a quem vocês acabaram de ouvir, é um dos principais
nomes da nossa Literatura. Orgulhamo-nos muito de tê-lo como conterrâneo que representa tão bem o nosso Rio Grande na Academia Brasileira de Letras.
Esta é uma modesta placa, Moacyr, mas que, de coração, expressa o agradecimento da Assembléia Legislativa não só por tua participação neste evento, mas pela
parceria que caracteriza tua relação com a Assembléia Legislativa do Estado. Muito
obrigado por tua contribuição ao Parlamento Gaúcho.
(Procede-se à entrega da placa.)
(palmas)
O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA DA SILVA – Vamos dar seguimento aos trabalhos, dizendo que os Deputados e Deputadas por um
Dia poder-se-ão manifestar e formular suas perguntas ao Dr. Moacyr Scliar. Para isso,
devem dirigir-se ao microfone dos apartes.
A SRA. VANESSA CRISTINE HOLLAS – Bom-dia.
Meu nome é Vanessa Cristine Hollas e represento a Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton Alves de Souza, de Sarandi.
Voltando ao assunto, gostaria de questionar se atualmente há repressão na
imprensa escrita. Caso haja, qual seria e com quem ela se tem dado.
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Deputado por Um Dia
31 de maio de 2004 – Manhã
O SR. MOACYR SCLIAR – É uma boa pergunta.
Ninguém vai dizer, neste País, que há censura ou que o Governo proíba de se
escrever qualquer coisa. Isso não existe.
O que existe – e vocês precisam ficar sabendo – é que as empresas jornalísticas são propriedade de pessoas. Os donos de jornal podem ter determinada visão da
política; podem apoiar um governo ou ser contra ele.
A suspeita sempre existe de que os donos do jornal mandam o jornalista escrever sobre determinados assuntos. Já ouvi isso muitas vezes. Quero dizer a vocês
que, na minha experiência – não sou jornalista, sou colaborador de jornal, o que é
diferente –, isso nunca aconteceu.
Nunca me disseram que não podia ou deveria escrever sobre qualquer assunto. E que eu saiba, isso não tem ocorrido.
A possibilidade naturalmente existe, mas nenhum jornalista é obrigado a
aceitar tal situação. Há várias empresas jornalísticas, e se a pessoa não está satisfeita
com o lugar onde trabalha, pode muito bem ir trabalhar em outro. O mesmo se pode
dizer de quem lê um determinado jornal; se não gosta daquela publicação, pode ler
outra.
Se o indivíduo não gosta de alguma emissora de TV, dispõe hoje de um
grande instrumento que é o controle remoto. Pode mudar de canal, e estamos conversados.
Os donos de jornal e de emissoras de rádio ou televisão sabem muito bem
disso. Sabem que, se começarem a interferir demais, se interferirem no que é escrito
no seu jornal ou no que é dito em seu canal de TV ou em sua emissora de rádio, as
pessoas vão perceber; e o cidadão vai em busca de quem é neutro ou isento em relação ao assunto.
A SRA. BÁRBARA ZAMBIASI MARTINELLI – Bom-dia.
Sou Bárbara Zambiasi Martinelli, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Milton Alves de Souza, de Sarandi. Gostaria de lhe perguntar como percebeu
que seu dom é o de escrever.
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Deputado por Um Dia
31 de maio de 2004 – Manhã
O SR. MOACYR SCLIAR – Escrevo desde criança. Não cheguei a perceber; quando vi, estava escrevendo.
Mas a pergunta que pode ser feita é se escrever é uma vocação que as pessoas possuem, como a de tocar instrumento musical. Há pessoas que sabem tocar um
instrumento, e outras não aprendem nunca a fazê-lo.
Escrever não é assim. Tu podes não ser uma grande escritora – e o critério
que define um grande escritor também muda de acordo com o tempo –, mas nada
impede que escrevas para um público que pode ser a tua escola, a tua cidade, o teu
Estado.
Alguns possuem o que chamas de dom, mas isso não impede que os outros
escrevam e também possam transmitir suas idéias.
Ter o dom não significa ter facilidade. Os escritores não são pessoas que necessariamente têm facilidade de escrever; às vezes, eles têm até dificuldade, porque
seu nível de exigência é muito maior.
Escrever, para os escritores, significa reescrever. Eles terminam o texto, escrevem de novo, não gostam, escrevem de novo. Há um escritor colombiano chamado
Gabriel Garcia Marquez que conta ter escrito 16 vezes o primeiro parágrafo de um de
seus livros.
Esse é um conselho importante que dou a vocês, na medida em que escrevem
no colégio e terão de escrever no Vestibular. Pensem bem. Ao terminar de escrever,
perguntem se aquilo era o melhor que poderiam fazer. Se não for o melhor, façam de
novo, porque sempre dá para melhorar.
O SR. LEANDRO WESCHENFELDER BATISTA – Bom-dia.
Meu nome é Leandro Weschenfelder Batista e pertenço à Escola Estadual de
Ensino Fundamental Telmo Motta, de Giruá.
As histórias das obras que o Senhor escreveu são reais ou fictícias?
O SR. MOACYR SCLIAR – A pergunta é muito boa.
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31 de maio de 2004 – Manhã
Quando escrevo para jornal, faço-o sobre situações reais. Comento fatos que
realmente acontecem ou aconteceram.
Quando escrevo ficção, ou seja, contos, romances, são coisas da imaginação,
as quais podem estar baseadas na realidade, em uma pessoa que conheci, em algum
episódio histórico; enfim, a realidade serve de ponto de partida para escrever ficção.
O SR. VINÍCIUS BARBIERI – Bom-dia.
Meu nome é Vinícius Barbieri. Sou do Colégio Cidade das Hortênsias, de
Canela.
Como o Senhor se sente ao fazer parte da Academia Brasileira de Letras, ao
ser um Imortal.
O SR. MOACYR SCLIAR – Imortal, não sei se sou; só vou descobrir na
hora do óbito. Mas a Academia é um órgão muito importante na vida deste País. Para
começar, é uma instituição com mais de 100 anos – portanto muito antiga – e que foi
fundada por uma pessoa muito importante na Literatura Brasileira, que foi o Escritor
Machado de Assis.
Sempre que se pergunta para os críticos e professores qual foi o maior escritor brasileiro, o nome de Machado de Assis é o que sempre está no topo da lista.
A Academia tem dois aspectos. Um deles é o tradicional. Por exemplo,
quando fui tomar posse, tive de usar um fardão, uma roupa que somente um alfaiate
sabe fazer, que é cheia de bordados. Há quem ache bonito; acho mais coisa de porteiro de hotel. Há também uns rituais sobre a votação na Academia, que é muito complicada. Tirando isso, que particularmente acho dispensável – mas estão aí há muito
tempo, e não irão mudar tão cedo –, a Academia é um órgão muito importante, porque, nela, há várias equipes de pessoas trabalhando, organizando cursos, seminários,
eventos, prêmios literários. Agora mesmo vamos ter uma premiação literária importante na Academia, que é o Prêmio Machado de Assis. Estamos escolhendo neste
momento os escritores que serão premiados com esse e com outros prêmios. A Academia é uma instituição importante.
O Rio Grande do Sul teve um candidato à Academia Brasileira de Letras que
foi Mário Quintana. Era um poeta que o Rio Grande do Sul inteiro apreciava: primei-
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ro, por ser um grande poeta e, segundo, porque era uma grande pessoa. Esse homem
candidatou-se duas vezes e, nessas duas vezes, foi derrotado. Ficou um trauma muito
grande para o Rio Grande do Sul. Em função disso, é que muitas pessoas pediram que
eu me candidatasse. As pessoas diziam que era preciso recuperar essa má imagem que
ficou da Academia no Rio Grande do Sul.
No começo até não aceitei a idéia de candidatar-me por não ser muito de fazer campanha eleitoral, e é preciso fazer campanha, falar com os acadêmicos, pedir
votos. Não precisei fazer isso porque pessoas lá me ajudaram. Para mim seria difícil
pelo fato de a Academia funcionar no Rio de Janeiro. Essas pessoas reuniram todos
os acadêmicos, e eu pude falar com todos eles de uma vez só. Fui muito ajudado para
entrar na Academia. O resultado foi que a eleição foi unânime praticamente. Para a
auto-estima do Rio Grande do Sul, isso foi algo bom. Tirando os prós e os contras,
essa eleição para a Academia foi altamente positiva.
O SR. DOUGLAS DA LUZ – Sou da Escola Municipal Milton Alves de
Souza, do Sarandi, e gostaria de saber qual livro o Senhor indica como nº 1 para iniciantes da literatura de Moacyr Scliar.
O SR. MOACYR SCLIAR – Que idade tens? Quatorze. Eu te indicaria os
livros que escrevo para público jovem. Muitos dos meus livros são considerados livros para adultos. Espero que leias um dia, mas, se é para começar, sugiro o meu
livro Um País chamado Infância ou, então, O Sertão vai virar Mar. São livros que
falam de gente jovem vivendo aventuras, inclusive aventuras literárias.
A SRA. JANAÍNA PIRES – Bom-dia. Represento o Município de Carazinho e a Escola João XXIII. Se, por um lado, não há repressão sobre a imprensa, por
outro, a imprensa não está muito livre em certos assuntos para falar já que tem tanto
poder sobre as pessoas?
O SR. MOACYR SCLIAR – Achas que há um excesso de liberdade da imprensa?
A SRA. JANAÍNA PIRES – Sim.
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O SR. MOACYR SCLIAR – Também acho que existe, sobretudo na televisão. Agora neste momento há uma campanha – não sei se estão acompanhando –
contra a baixaria na TV. Realmente há programas de televisão que, para uma pessoa
que tem um certo nível cultural, um certo nível de exigência, são bem deprimentes.
Acho especialmente ruins aqueles programas que humilham pessoas, que tratam pessoas como se fossem objetos, que apresentam pessoas para debocharem delas, para
explorar suas tragédias. Acho isso horrível. Vou te dizer que eu não faria censura,
porque, se começarmos a proibir isso ou aquilo, chega-se ao ponto de alguém dizer:
Eu, como representante da censura, acho isso de mau gosto e vou proibir. Uma outra pessoa poderá dizer: Isso não é de mau gosto, é uma visão artística.
É melhor a censura que as próprias pessoas fazem sobre os meios de comunicação. Quem não gosta de um programa pode mudar de programa. Dentro da programação da TV, podemos tomar providências. Há certos programas que para crianças, por exemplo, são impróprios. Como a criança ainda não tem bem o poder de decisão, é melhor que esses programas sejam colocados depois das 10 horas da noite,
que é o que fazem todos os países. Resumindo, diria que é pior a censura à imprensa
do que o excesso de liberdade. Não tenham dúvida em relação a isso.
O SR. PAULO ANDRÉ ASSUMPÇÃO – Primeiramente, bom-dia. Sou da
Escola Milton Alves de Souza, de Sarandi. Quantas obras o Senhor já escreveu e qual
considera a melhor? Alguma de suas obras já foi premiada fora do País?
O SR. MOACYR SCLIAR – Já escrevi 68 livros. Todo mundo acha isso bastante, mas alguns são bem fininhos, e foi mais fácil de escrevê-los. Vários deles foram
premiados e traduzidos, inclusive fora do País. O livro que me projetou, porque foi traduzido nuns 12 idiomas, e que é um livro que gosto muito chama-se O Centauro no Jardim.
Agora saiu uma nova edição. É um livro que gostei muito de escrever.
A SRA. VALÉRIA MARIA ZYTKOSKI – Bom-dia. Sou do Partido Estudantil Jovem, de Frederico Westphalen. Gostaria de saber qual o livro que você
escreveu que fez mais sucesso e com qual dos já publicados você mais se identifica.
O SR. MOACYR SCLIAR – O que fez mais sucesso fora do País foi O
Centauro no Jardim, e, no País, são os que escrevo para gente jovem da idade de
vocês. O livro que mais gosto para adultos é O Centauro no Jardim.
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A SRA. PATRÍCIA CHAVES – Bom-dia. Sou da Escola Municipal de Ensino Fundamental João XXIII. Quem são os responsáveis pela escolha dos escritores
que integram a Academia Brasileira de Letras e qual o ponto principal da avaliação?
O SR. MOACYR SCLIAR – Quem escolhe os membros da Academia Brasileira de Letras são os próprios acadêmicos. A avaliação é pessoal. Agora, por exemplo, haverá uma eleição. Há dois candidatos principais: um é um professor de Literatura, muito conhecido no Brasil inteiro; a outra candidata é uma arqueóloga – pessoa
que estuda antigüidade – muito conhecida na área dela. Aí se faz a escolha. Alguém
pode dizer que, por ser uma Academia Brasileira de Letras, prefere um professor de
Literatura. Outros dirão que é uma Academia de Letras, mas que tem de ter pessoas
de outras áreas também, e por isso irá escolher a arqueóloga. Não há nenhum critério
assim, não é como vestibular ou escolher, num concurso, um professor para universidade, em que são apresentados títulos, é feita uma prova. É uma escolha pessoal dos
acadêmicos.
O SR. EVANDRO DOMINGUES – Bom-dia. Sou da Escola Municipal de
Ensino Fundamental João XXIII, de Carazinho. Queria saber se as matérias publicadas em jornais são censuradas sem a permissão das pessoas.
O SR. MOACYR SCLIAR – Não, não há mais censura em jornais. Não há
censura governamental e, como eu disse antes, não há censura de diretor de jornal.
Pode acontecer que um diretor não goste de um jornalista e o mande embora, mas
isso faz parte da sociedade em que vivemos. Trata-se de uma empresa, e o dono dessa
empresa ou o seu diretor tem o direito de decidir sobre quem vai trabalhar ali e quem
não vai. Mas sempre há a possibilidade de trabalhar-se em outra empresa.
No caso dos jornalistas, freqüentemente, não satisfeitos com um lugar, vão
trabalhar em outro. Há muitos gaúchos trabalhando em jornais de São Paulo e do Rio
de Janeiro. As pessoas têm o direito de procurar o lugar onde se sentem melhor, e o
chefe tem o direito de dizer que não quer trabalhar com determinada pessoa, porque
não tem afinidade com ela, não gosta do que ela faz, acha ruim o seu trabalho. Portanto, essa liberdade existe.
O SR. LEANDRO WESCHENFELDER BATISTA – Bom-dia. Represento aqui a Escola Telmo Motta, de Giruá.
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Que mensagem o Senhor deixa aos jovens que demonstram o dom para ser
futuros escritores?
O SR. MOACYR SCLIAR – Boa pergunta. Eu daria alguns conselhos. O
primeiro é ler bastante. Como eu disse antes, a melhor forma para aprender a escrever
é ler bastante. Lê os escritores que tu achas fazem a tua cabeça. Há aqueles que os
professores recomendam, que são muito bons, e há também aqueles que tu vais descobrir sozinho. Portanto, lê tanto aqueles que te são recomendados quanto aqueles
que descobrires sozinho.
O segundo conselho é escrever bastante. Escrever é como praticar esporte:
tem que treinar, senão perde a forma física. E procurar mostrar os trabalhos para os
amigos, professores, pessoas conhecidas. Também é importante publicar os trabalhos.
Não um livro, logo de início, pois é melhor ir aos poucos. Primeiro, publica-se no
jornal da escola, depois, no jornal do bairro, da cidade.
Outro conselho é entrar em todos os concursos literários que se puder, porque ganhar um prêmio é uma coisa que ajuda muito. Digo isso porque publicar um
livro não é fácil, custa dinheiro. Quem paga o livro, em geral, é o editor. Ele bota o
dinheiro dele e depois vende o livro. E se é um escritor jovem, ele sabe que o livro
não venderá muito. Então, ele vacila em publicar obras de escritores jovens. Mas se
esse escritor jovem já publicou, já ganhou prêmio, o editor pode entender que vale a
pena arriscar.
O último conselho, que é o mais importante, é ter muita paciência. Não adianta afobar-se, angustiar-se. As coisas vão acontecendo como têm de acontecer. Não
é preciso forçar a barra, porque quem tem talento acaba sendo reconhecido.
Agradeço a vocês pelas inteligentes perguntas. Parabéns. Um encontro como
este realmente mostra que o Rio Grande do Sul tem um alto nível cultural e político.
É por isso que o nosso Estado tem a imagem de o mais politizado deste País, cujo
debate político é o mais sério e o mais conseqüente. Hoje vocês mostraram o porquê.
Espero que algum dia alguns de vocês estejam sentados nessas poltronas na qualidade
de deputados. Quando isso acontecer, lembrem-se da conversa tão agradável que tivemos nesta manhã. Muito obrigado.
O SR. COORDENADOR LUÍS ANTÔNIO COSTA SILVA – Registramos a presença do Sr. Presidente do Conselho da Escola de Ensino Fundamental Rui
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Barbosa, de Frederico Westphalen, Francisco Pavan.
Agradecemos o Dr. Moacyr Scliar pela bela exposição e o convidamos para
tirar fotos com os Deputados por Um Dia, junto às Bancadas.
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