AULA HOY
FUNDACIÓN VOCENTO
"Portugal-Espanha: contornos de um frente a frente ",
Ex-Presidente da República Portuguesa,
Dr. Jorge Sampaio
Badajoz
10 de Janeiro de 2007
Senhor Vicepresidente da Junta de Extremadura,
Dr. Ignacio Sánchez Amor
Senhora Delegada do Governo en Extremadura, Drª Carmen Pereira
Senhor Director-Geral do Periódico HOY, Dr. José Luis Pastor
Senhor Presidente da Academia Europea de Yuste,
Dr. Antonio Ventura
Senhor Comendador Dr. José Luis Joló
Senhor Director da AULA HOY, Dr. Alberto González
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Caros amigos
Antes de mais, gostaria de agradecer o amável convite que me foi
dirigido para fazer esta Conferência e a todos os que a tornaram possível.
E dado que estamos no início de um novo ano, aproveito também para
formular votos de um promissor 2007, não só no plano das vidas
individuais de cada um, mas também para o futuro do nosso frente a
frente bilateral, para a Europa e para o mundo. No plano internacional,
não sobrarão objectivamente muitas razões de optimismo, mas porventura
este novo ano vai ser um tempo forte para o projecto europeu e, se a
Europa se consolidar, os benefícios serão globais – com o progresso da
Europa, como diria o poeta português António Gedeão, também o mundo
2
pula e avança, e isso seria uma boa notícia. Resta-nos, neste início de ano,
desejar firmemente que assim seja.
*
Volto a Badajoz, à Estremadura espanhola, e volto sempre com o grato
sentimento de saber antecipadamente que vou reencontrar amigos e
velhos companheiros de anteriores jornadas de convívio e de debate sobre
o relacionamento peninsular e sobre os vários caminhos ainda abertos
para o seu continuado aprofundamento.
Aliás, como sabem talvez, a minha relação com Espanha não é de ontem
nem de hoje, nem sequer da idade adulta. Antes se entrelaça com algumas
das melhores memórias de infância que a espessura dos anos não apagou
- a minha Mãe falava castelhano porque se dedicara à aprendizagem das
línguas; o meu Pai iniciou-me no Ortega y Gasset – que pessoalmente
conheceu -, em Unamuno, em Gregório Marañon, em Salvador
Madariaga e em tantos outros… ; lembro-me ainda, com a nitidez das
imagens que o tempo não chamusca, das primeiras viagens em família a
Espanha, ao que hoje se chamam as comunidades autónomas. Logo, fuime formando numa visão de um frente-a-frente sem complexos, profícuo
e promissor. De resto, era também por Espanha que passavam os
caminhos da liberdade, aqueles que ajudei a trilhar aos perseguidos
políticos, colaborando na montagem de esquemas, que lhes permitiam
atravessar rapidamente a sinistra Espanha de Franco e chegar à larga
porta aberta e amiga de uma mítica e distante Europa que França então
representava….
*
3
É bem conhecido que, desde há alguns anos, a Extremadura se vem
notabilizando no contexto ibérico por ter sabido criar um exemplar
espaço de reflexão partilhado por espanhóis e portugueses para abordar
questões de interesse comum, seja no plano do presente, seja já numa
perspectiva de futuro. Vale sempre a pena sublinhá-lo. Até porque as
gerações anteriores à restauração democrática nos dois países guardam a
lembrança viva de um período, em que uma retórica oficial desfasada da
realidade não conseguia iludir - mau grado as similitudes ideológicas dos
dois regimes - a ausência de um quadro adequado de relacionamentos,
desde o campo dos simples contactos humanos aos domínios político,
económico e cultural de dois povos vizinhos, mas afinal distantes.
Talvez por isso ninguém melhor do que as populações da fronteira saiba
compreender o extenso progresso entretanto realizado de parte a parte
para abater barreiras, desfazer desconfianças, estabelecer cooperações.
Vivemos durante longos, demasiados anos, enleados num comum
isolamento intra-peninsular, decerto tributário de antigas memórias
históricas, mas que foi fortemente penalizador de uma desejável
normalidade de intercâmbios, contrariando até a própria geografia...
Essa foi a idade do afastamento, em que porventura nunca a palavra
"Raia", comum ao castelhano e ao português, terá assumido de forma tão
clara, e com a singulares severidade e aspereza de som que a caracteriza,
o seu sentido etimológico de linha de divisão e de apartamento.
Esse foi também um tempo em que os confins raianos eram território
quase sempre agreste, compondo uma extensa margem de pobrezas e
subdesenvolvimento, ou lugar de diversos medos para os que de cá
fugiam a perseguições politicas ou para os que, do nosso lado, iniciavam
emigrações forçadas ou clandestinas a caminho da Europa além Pirenéus,
4
em busca de liberdade ou de melhor vida.
*
2-É bem diferente hoje a realidade peninsular. Pode mesmo dizer-se que
o traçado da fronteira já não nos divide, mas aproxima, passando a ser
exemplo de saudáveis e diversificados intercâmbios, espaço tantas vezes
dinâmico de renovados convívios e colaborações. Nele, naturalmente se
projecta de forma particular a radical mudança qualitativa que agora
caracteriza o relacionamento dos dois países, tornada possível pelo mútuo
reencontro com a democracia e pela comum adesão ao projecto europeu.
Nunca será demais sublinhar esta dupla raiz - democrática e europeia das nossas presentes relações bilaterais. Na verdade, dela colhemos o
cimento para estabelecer afinidades, harmonizar interesses, afastar
anteriores divergências e pôr termo a uma penalizadora marginalização
diplomática na cena internacional contrária à história dos dois países.
Com efeito, os últimos anos têm revelado um consistente progresso nos
diversos domínios por onde se concretiza a relação entre os nossos países,
a saber:
- são estreitos os laços políticos, os quais se projectam na importância dos
contactos e entendimentos dos respectivos Governos, independentemente
de eventuais alinhamentos ou diferenças partidárias;
- as ligações económicas assumem hoje relevo e níveis de progresso
excepcionais;
- na área cultural, durante tanto tempo descurada, assiste-se a um
progressivo - embora ainda insuficiente - interesse pelo que cada um
neste plano tem a oferecer;
- registam-se inéditas cooperações, nomeadamente no campo da saúde, de
que aliás Badajoz é exemplo marcante;
5
- no âmbito transfronteiriço, multiplicam-se contactos e aprende-se uma
nova linguagem de colaboração quer directa, quer inserida em
instrumentos de desenvolvimento regional europeu;
- enfim, o turismo ibérico vem registando números expressivos, de parte a
parte, proporcionando úteis contactos humanos e pondo assim termo a
anteriores e repartidos distanciamentos.
*
3-Caberá agora passar da simples constatação da presente realidade do
nosso relacionamento para uma breve abordagem de alguns dos seus
aspectos que considero deverem merecer particular referência.
Desde logo, impõe-se falar da comum participação no projecto europeu, a
que em boa e oportuna hora nos acolhemos, após uma longa negociação,
porventura mais exigente do que as que iriam presidir às posteriores
adesões.
Partilhamos hoje, no seio da União Europeia, estratégias, objectivos e
inéditas cumplicidades que têm alargado o nosso mútuo espaço de
intervenção internacional e ajudado a reforçar concordâncias bilaterais.
Espanha e Portugal, inseridos num projecto garante de paz, estabilidade e
progresso para os Estados que o compõem, souberam desde o inicio
contribuir, com as mais valias das suas profundas identidades nacionais e
das suas multiformes experiências históricas, para o fortalecimento da
ideia integradora.
Em paralelo, através de uma rápida percepção de nela viverem uma
comunidade de destino, depressa fizeram seu o acervo de valores,
práticas e solidariedades, que constitui o cimento aglutinador e decisivo
da construção europeia.
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Pudemos juntos regressar à Europa, uma vez afastado, pela quase
coincidente conquista da democracia, o sombrio isolamento político de
varias décadas. Esta opção permitiu-nos ir buscar decisivos benefícios
para a consolidação do caminho de progresso tornado possível pelas
mudanças de regime ocorridas na Península. Mas poderemos igualmente
dizer que connosco levámos um património de ligações e sensibilidades
que ofereceu um renovado alimento ao processo de integração e também
à sua relação com outros Continentes, onde os nossos povos marcaram ao
longo de séculos encontro com a História.
É certo que toda a participação num projecto impõe responsabilidades
partilhadas, para além naturalmente do cumprimento do respectivo
quadro normativo em que assenta. Por isso, o percurso conjunto que nele
vimos fazendo tem revelado a firmeza da nossa convicção no acerto do
rumo europeu traçado por Monnet, bem como a vontade política dos dois
países em defendê-lo de eventuais hesitações que diluam a sua raiz
solidária e integradora ou diminuam o lugar de intervenção da Europa no
mundo instável dos nossos dias.
Ainda bem que assim tem sido, pois mostra a bondade do caminho a
seguir nos difíceis desafios que uma melindrosa conjuntura internacional
e os recentes processos de alargamento colocam à União.
*
4-A adesão de doze novos países constituiu uma decisão de evidente
importância politica que Portugal sempre apoiou, mesmo sabendo que
dela, num plano mais directo, seria o Estado Membro a colher menores
benefícios.
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Fê-lo pela consciência do simbolismo do seu significado histórico e pelo
reconhecimento de um dever moral a cumprir, mas também por
considerar estarmos perante uma opção de evidente valor geo-estratégico
para o futuro do nosso Continente.
Neste momento em que abundam os cepticismos quanto à evolução da
União Europeia, gosto de repetir que esta fase de alargamento agora
concluída com a entrada da Bulgária e da Roménia, configura um dever,
oferece oportunidades, responde a uma necessidade.
Pressinto que nem todos concordarão comigo, pois - não o esqueço - a
continuada expansão do território coberto pelo projecto europeu levanta
à União, como aliás algumas dissensões recentes o têm mostrado,
problemas novos e inevitáveis riscos para uma sólida coesão do seu
espaço político-económico, que seria insensato procurar minimizar ou
desatender.
Ganhou-se, sem dúvida, em espaço e número. Ainda procuramos, no
entanto, um fio condutor que reavive objectivos e desígnios, e ao mesmo
tempo harmonize novas culturas e experiências politicas. Convirá fazê-lo
sem prejuízo de saudáveis identidades, mas também sem dano dos
princípios essenciais de solidariedade e confiança mútua que têm
permitido até agora o regular processo concertador de interesses
nacionais em que se ampara o quotidiano triunfo da União.
Tão pouco se vem conseguindo - como a triste saga das ratificações na
França e na Holanda aí está para o mostrar - estabelecer um indispensável
vínculo de responsáveis empatias entre os cidadãos e o processo de
construção europeia, que leve aqueles a sentirem-se efectivamente
agentes de um projecto - dele colhendo direitos e benefícios, mas também
deveres mais claros de participação e intervenção.
E, se temos hoje mais europeus do que Europa, impõe-se um mais
empenhado esforço de todos para melhor defender as linhas essenciais
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que devem estruturar o projecto integrador e, a partir delas, definir
entendimentos
e
ambições
que
proporcionem
um
adequado
aprofundamento da União, respondam a expectativas e evitem os efeitos
debilitadores produzidos pelas varias assimetrias - políticas e económicas
- dos alargamentos.
Sublinho este ponto, pois estamos num momento de agudo melindre na
caminhada que se iniciou vai para cinquenta anos, quando a Europa importa sempre lembrá-lo, sobretudo às novas gerações que olham para a
paz como bem natural - era mais uma vez campo de ruínas e repetida
memória de barbárie. E isto, porque, numa altura em que se requereriam
estratégias face ao novo desenho do mundo, se vem perdendo tempo
excessivo sem resolver as perplexidades entretanto surgidas quanto ao
destino a dar ao Tratado Constitucional, afinal um bom embora
porventura demasiado prudente projecto para relançar o projecto europeu.
Temo que se esteja adiando uma oportunidade para reforçar algumas das
suas traves mestras, adequar certos traços institucionais à realidade da
nossa diferente dimensão, alargar caminhos que possam conduzir a uma
mais credível capacidade de intervir em áreas politicas fundamentais,
como a politica externa, a justiça e segurança dos cidadãos, o domínio
social, o emprego e a governação económica.
Naturalmente que os alargamentos recentes e os sentimentos paralelos
que suscitam tornam mais visível alguns problemas de crescimento do
nosso projecto comum, entre os quais avulta a definição das fronteiras
últimas da União. Mas não menos evidente é o continuado défice de
ambição dos responsáveis políticos que a vêm conduzindo e que
contraditoriamente adoptam retóricas e até decisões voluntaristas
desajustadas da mediocridade dos meios por eles próprios concedidos,
como ainda recentemente se viu no lamentável debate sobre as
perspectivas financeiras que irão governar durante os próximos sete anos
9
as diversas rubricas do seu orçamento. Ora mal anda a União se perante a
amplitude dos desafios que hoje defronta não conseguir dotar as suas
políticas da adequada suficiência de meios, como aliás Espanha e
Portugal vêm de há muito tempo alertando.
*
5-Por outro lado, vencida a batalha do Euro, momento emblemático do
processo integrador, importa agora corrigir uma omissão que vem
afectando uma desejável recuperação da economia europeia. Refiro-me a
uma necessária e efectiva coordenação das políticas macroeconómicas
dos Estados Membros que proporcione uma útil complementaridade às
disciplinas do Pacto de Estabilidade. Com efeito, como Jacques Delors
tem repetido com autoridade, o Euro protege, mas não dinamiza. Por isso,
torna-se urgente equilibrar através de um instrumento decisório adequado
as preocupações do Banco Central Europeu, centradas numa gestão talvez
excessivamente ortodoxa da saúde da moeda, complementando-as com
uma visão mais abrangente, tal como ocorre com o FED americano, dos
problemas da economia do nosso espaço e das imediatas soluções que
requerem.
Uma outra lacuna, que os dois países ibéricos têm denunciado, diz
respeito à débil capacidade de intervenção da União nos grandes
problemas que afectam a comunidade internacional, poucas vezes
sabendo utilizar o seu estatuto influente de potência económica e de
principal contribuidora mundial para a ajuda ao desenvolvimento.
Repetiu-se aliás, durante a negociação do Tratado Constitucional a
dificuldade de congregar uma verdadeira vontade política para atingir um
acordo razoável sobre o capítulo de politica externa já inscrito com
reconhecida cautela no texto do anterior Tratado de Maastricht. Ora,
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todos nós o sabemos, a União pode e deve contribuir com a soma de
sensibilidades históricas apuradas pelos seus membros e de princípios
essenciais por eles partilhados para um mundo mais estável e mais justo.
Isto na consciência de que se encontra em jogo não só a sua própria
credibilidade como vértice estruturante da comunidade internacional, mas
também a defesa e projecção dos seus interesses específicos e princípios
que a experiência mostra nem sempre serem coincidentes com os do
grande aliado além atlântico.
Trata-se de, com realismo, não entrar em qualquer insensato jogo de
rivalidade de poder com os EUA. Ao invés, trata-se de, em estreito e
transparente entendimento, credibilizar o papel da Europa no mundo,
estabelecendo para isso com a super potência americana uma diferente e
mais confiante idade de cooperações com vista a garantir uma
comunidade internacional mais segura, pacífica e estável. Assinalo este
ponto pois considero-o determinante para o desenvolvimento do projecto
europeu neste momento de ponderação sobre o desenho das suas
fronteiras finais, em que se torna mais evidente a necessidade de criar
condições para a definição de um coeso pensamento estratégico. Espanha
e Portugal bem o podem compreender e para ele contribuir.
Na verdade, só numa consistente projecção internacional europeia
encontrarão os dois Estados a rota certa para proteger no seu plano
externo
interesses
nacionais
herdados
pela
espessa
rede
de
relacionamentos que, ao longo de séculos, teceram em outros continentes
e com outros povos, e hoje lhes oferecem sensibilidades úteis para ajudar
a formatar as politicas europeias no complexo dialogo de culturas e
civilizações. Repito: importa defender a solidez do quadro de intervenção
que nos é proporcionado pela UE, porque, no tempo difícil deste nosso
imprevisível mundo, aprendemos todos os dias que os Estados se
descobrem subitamente desprotegidos e que não conseguem afrontar
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isoladamente, mesmo os mais poderosos, as insidiosas ameaças, riscos e
problemas que se lhes colocam a uma escala global ou mesmo regional.
Por isso, devemos procurar superar a actual crise que a vem
enfraquecendo e enredando em pessimismos e paralisias. Sabemos bem
que não se trata de tarefa fácil, designadamente no que respeita ao
Tratado Constitucional. Entendo, porém que importa conseguir
harmonizar a vontade já expressa por tantos países, lançando mão a
soluções de pendor possivelmente pragmático, que permitam repor o
impulso que se esperava da ratificação do Tratado Constitucional.
Para tanto, será imperioso evitar a tentação, que por vezes tem sido
aflorada, de cair num texto minimalista ou de proceder a um exercício
tendente a renegociar cirurgicamente, segundo os interesses de cada
Estado, alguns dos pontos que formam o seu corpo essencial. Uma ou
outra destas situações seria uma inevitável receita para o desastre, para
alem de favorecer uma penalizadora imagem de inevitáveis divisões
internas, num momento em que o espaço europeu tem de afrontar os
diversificados desafios de uma globalização que afinal o exigirá mais
coeso e determinado.
*
6-Compreenderão que me tenha demorado um pouco mais nesta, apesar
de tudo breve, abordagem europeia. Mas, como já tive ocasião de dizer
atrás, o projecto de integração que agora vai celebrar cinquenta anos,
constituiu uma opção decisiva para o destino dos nossos dois países e tem
sido o quadro propiciador de entendimentos tornados possíveis pelo
abatimento de barreiras físicas e psicológicas que durante décadas
separaram os dois lados da Península.
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É, no entanto, à Europa que o devemos, se vivemos hoje uma diferente
realidade, como é patente pela intensidade dos encontros políticos e pela
linguagem concreta dos números.
Vale a pena chamar a atenção para alguns deles: se a Espanha é o nosso
primeiro fornecedor e cliente, para onde seguem 25% das nossas
exportações, também Portugal é para a Espanha o seu terceiro cliente
mundial. Isto quer dizer que as vendas espanholas para Portugal são
superiores ao que coloca na totalidade da América Latina, nos novos
Estados da União, ou individualmente no Reino Unido, na Itália ou nos
EUA. Por seu turno, as nossas trocas com a Extremadura, Andaluzia,
Castela e Leão e a Galiza, praticamente sem significado antes da comum
adesão à EU, representam actualmente cerca de 41% das vendas
portuguesas para Espanha, com particular destaque para a Galiza, mas
também para a vossa Estremadura, de que somos o principal fornecedor.
Por outro lado, recorde-se que a Catalunha vende mais para Portugal do
que a Itália, a Comunidade de Madrid mais do que o Reino Unido ou os
Países Baixos, a Galiza mais do que a Bélgica ou os EUA, a Extremadura
mais do que a Dinamarca ou a Argentina.
Esta dinâmica, derivada da crescente integração económica dos dois
países no espaço europeu, tem-se mantido de forma sustentada,
nomeadamente para Portugal, que desde 2000 viu aumentar em 60% a
venda dos seus produtos ao mercado espanhol. Em paralelo, nos últimos
cinco anos os investimentos líquidos portugueses em Espanha quase
duplicaram os montantes espanhóis investidos em Portugal, atingindo 7,3
mil milhões de euros. E isto, porque tornando-se a Espanha o principal
parceiro económico e comercial de Portugal, os grandes grupos
empresariais portugueses assumiram opções estratégicas de presença no
vosso mercado, algumas vezes em aliança com congéneres espanhóis,
visando desafios e concorrências provenientes de parceiros europeus.
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Releve-se ainda que presentemente, cerca de 300 empresas portuguesas
se encontram instaladas deste lado da fronteira, ao passo que 2500
empresas espanholas operam em Portugal.
Estes números revelam uma dinâmica, mas também decerto um
desequilíbrio desfavorável a Portugal, que não é totalmente explicável
pela diferença de dimensão das economias dos dois países. Importa,
porém, registar, que a importância do mercado ibérico foi finalmente
percepcionada pelo sector empresarial português após anos de
desatenção, procurando-se hoje potenciar a proximidade geográfica, a
diversidade regional espanhola, e as complementaridades empresariais,
tanto no espaço peninsular, como no europeu, ou ainda em áreas
geográficas onde possuímos conjuntamente patrimónios de antigos
contactos humanos.
Decerto que tanto o diferente ordenamento político-administrativo
espanhol e algumas das especificidades no campo dos incentivos
económicos oferecidos pelas Autonomias, como a tradicional tendência
centralizadora portuguesa e as persistentes hesitações em fixarmos um
modelo adequado de descentralização regional (que nem sempre facilitam
a agilidade dos relacionamentos transfronteiriços), bem como ainda a
inelutável assimetria dos tecidos empresariais e financeiros, colocam por
vezes dificuldades à capacidade de penetração das nossas empresas no
diversificado mercado espanhol. Por outro lado, a espessura do tecido
empresarial favorável à Espanha projecta-se numa rápida e maciça
visibilidade das presenças dos seus agentes económicos em áreas ligadas
ao quotidiano do cidadão português, ressuscitando preconceitos antigos e
algumas reacções defensivas dos sectores atingidos por uma concorrência
a que não estavam habituados.
Considero que não devemos escamotear esta realidade, nem seguramente
dramatizá-la. Ao invés, tudo importa fazer para que o mercado ibérico se
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consolide como espaço de efectiva confiança e transparência, única forma
de responder às críticas que dos dois lados, embora sobretudo por parte
do empresariado português, se fazem a situações de encobertos
proteccionismos. Até porque este será o caminho a seguir para um mais
justo equilíbrio, proporcionalidade e equidade de oportunidades
empresariais neste espaço económico de cinquenta milhões de cidadãos.
*
7-A rápida expansão das relações económicas espelha afinal o bom
momento de entendimento político construído pelas autoridades dos dois
países.
Atingimos no plano bilateral uma rotina positiva, bem revelada pelos
resultados das cimeiras ibéricas, instrumento fundamental de concertação
estratégica e precioso exercício disciplinador do relacionamento comum.
Através delas definem-se objectivos, afastam-se eventuais contenciosos,
revisitam-se calendários de programações conjuntas.
Do lado português, e só dele compreensivelmente me cabe falar, tem-se
reafirmado ao mais alto nível, com ênfase e sem os complexos que
marcaram várias idades das nossas relações, a vontade política de alargar
os laços com Espanha, erigida em incontestável escolha prioritária no
domínio das relações bilaterais.
Este é um rumo que se vem seguindo com determinação e tem inspirado
um diálogo entre ambos os governos sem paralelo no quadro dos nossos
relacionamentos bilaterais. Trata-se de uma escolha que decerto se
projectará de modo muito positivo nas ligações e cooperações com as
entidades autonómicas espanholas, particularmente com aquelas que
connosco partilham a linha de fronteira.
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Tanto no contexto bilateral, como no âmbito europeu, muito resta ainda a
fazer, cabendo-nos proteger princípios de solidariedade e identificar
interesses mútuos que nos permitam melhor defrontar a agenda que o
novo século, tão mal começado entre guerras e atentados, nos imporá.
São vários os domínios que aconselham uma persistente articulação: a
questão demográfica e as pressões migratórias; os recursos hídricos e
energéticos; as questões globais de saúde e do ambiente; a luta contra o
terrorismo; a protecção civil; a cooperação no campo da investigação; as
diversas componentes de defesa e segurança europeias; a consolidação do
multilateralismo, como factor de paz e de diálogo internacional; a agenda
de Lisboa para a inovação tecnológica e competitividade.
Por outro lado, num momento em que o eixo da União se desloca para o
norte e para leste, Espanha e Portugal poderão em conjunto defender
politicas europeias que reponham equilíbrios e privilegiem atenções em
áreas onde a História e a língua nos legaram especiais relacionamentos,
como no subcontinente americano e em África; ou noutras em que a
proximidade geográfica nos favorece presenças, como é o caso do
Mediterrâneo. Digo isto porque um adequado aproveitamento das
extensas fachadas atlântica e mediterrânica da Península poderá,
amparado por uma coerente acção externa da União, moderar os efeitos
de periferia suscitados pelo seu actual desenho.
Neste contexto, o Continente Africano, que continua enleado na sua
perene imagem de infelicidade, deve merecer à Europa um cuidado
particular, não só por razões de responsabilidade histórica ou motivações
de ordem ética, mas também porque nele se joga alguma coisa da sua
segurança. As imagens insuportáveis do êxodo humano que busca as
costas de Espanha e de Itália requerem resposta pronta da União, pois
trata-se de um problema que a interpela quanto à capacidade dos seus
Estados Membros identificarem as raízes das questões e de procurar
16
politicas comuns e solidárias que os possam solucionar. Este é um
problema urgente que requer um diálogo aberto com os países africanos
para estabelecer bases de útil cooperação também neste domínio delicado
das migrações, razão pela qual Portugal vai procurar realizar durante a
sua próxima presidência da União a Cimeira com África, que vem sendo
adiada desde há anos com evidente prejuízo para uma adequada estratégia
politica.
*
8-O que atrás já tive oportunidade de dizer sobre o estado presente do
relacionamento ibérico é decerto motivo de regozijo para todos aqueles como eu - que consideram cumprir deste modo um dever de inteligência
na interpretação dos interesses fundamentais do seu povo. Mas
precisamente porque devemos ser exigentes na forma como o
executamos, importa observar que o caminho entretanto percorrido nos
planos político e económico ainda não teve um coincidente paralelo nas
relações entre as duas sociedades civis.
Decerto que sou o primeiro a reconhecer - e já atrás o referi - a profunda
diferença que separa o tempo de hoje do período sombrio atravessado por
varias gerações: pela natureza, a diversidade e a qualidade dos contactos
dos dois lados da fronteira. Mas o que desejo sublinhar prende-se com a
desejável possibilidade de fazermos melhor nos múltiplos campos por
onde se pode desdobrar um activo intercâmbio do que cada um dos países
tem a oferecer, nomeadamente nos diversos domínios do conhecimento.
Não há dúvida que se multiplicaram nos últimos anos as iniciativas de
mútua promoção cultural; de debate ibérico (como o Agora de Mérida) e
os diversos fóruns públicos e privados; de encontros universitários.
Igualmente tem crescido o número de leitores das duas ricas literaturas,
17
bem como a quantidade de traduções de autores contemporâneos dos dois
países; do mesmo modo, contam-se já por centenas as presenças de
estudantes portugueses em Espanha, a maioria é certo para fugir aos
severos e tantas vezes injustos constrangimentos do sistema universitário
do numerus clausus da sua pátria mas que constituem já um relevante
fermento para uma sã compreensão ibérica; habituámo-nos outrossim a
ver, sobretudo no sector da saúde, dezenas dos vossos competentes
profissionais a trabalhar lado a lado com os seus colegas portugueses;
enfim, o fluxo turístico intra-peninsular, que se cifra em milhões de
viagens, tem ajudado poderosamente na aproximação e conhecimento dos
dois povos.
Porém, existem ainda incompreensíveis alheamentos, mais vincados
seguramente do lado espanhol, sobre o amplo leque de realidades
politicas, sociais e culturais de ambos os países. Esta é uma negativa
situação, bem ilustrada pelo medíocre espaço que os respectivos meios de
comunicação lhes dedicam, numa tendência só eventualmente quebrada
por ocasião de tragédias ou eventos excepcionais. Tais desatenções
explicarão a ainda deficiente percepção, por parte de largos sectores,
tanto em Portugal como em Espanha, do que ocorre para lá da sua
fronteira comum, assim ajudando à sobrevivência de preconceitos
amadurecidos pela Historia.
Importará, por isso, fomentar programas de intercâmbio, agilizar e alargar
as cooperações entre Universidades e Centros científico-técnicos (a
recente criação do Laboratório Internacional de Nanotecnologia é o passo
certo a multiplicar em outros domínios), mostrar mais continuadamente o
que cada um dos países produz em termos literários e artísticos, ampliar
convivências e debates. Isto tudo para repetir que, se hoje nos
conhecemos mais, deveremos contudo continuar a fazer esforços para nos
conhecermos melhor.
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Estou à vontade para assinalar este caminho, pois sei, por experiência
adquirida, que a Extremadura tem compreendido bem a importância
deste objectivo para a defesa dos interesses peninsulares, neste mundo
globalizado em que se superam todos os dias barreiras e obstáculos para
uma adequada comunicação e entreajuda. Poderia citar vários exemplos
da exemplaridade do relacionamento entre os dois espaços estremenho e
alentejano que souberam transformar, no respeito das suas identidades, a
antiga linha divisória de fronteira em território de colaborações. Limitarme-ei, no entanto, a recordar que aqui, em Badajoz, se abateu um tabu
português, compreensivelmente melindroso, ao se acolher o acto de
maternidade de mulheres do meu país, na correcta percepção conjunta
dos responsáveis políticos, de um e outro lado, de que a Europa deve ser
cada vez mais uma pátria comum.
Tenho para mim, e sempre o afirmei, que, a par das necessárias decisões
de impulsão do poder central, a extensa zona transfronteiriça que
aproxima os dois Estados pode constituir uma resoluta alavanca para o
progresso sustentado das multimodais relações entre Portugal e Espanha.
Assim decerto o quiseram sublinhar os respectivos governos ao
realizarem recentemente a sua Cimeira em Badajoz, cidade que, ao
apresentar uma imagem clara de dinamismo, comprova pelo seu exemplo
que a interioridade pode ser domada e convertida em progresso.
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Caros Amigos
Por tudo isto, é bom estar convosco de novo, na certeza de que juntos
continuaremos a trilhar e a expandir o nosso caminho comum – neste
rumo de amizade, colaborações e sempre firmes solidariedades, na
certeza de que são as nossas diferenças mútuas que fortalecem as nossas
muito antigas e sólidas identidades e de que são também estas que se
entrelaçam no nosso continuado frente a frente intrapeninsular, tornandoo sempre mais frutífero, estimulante e equilibrado.
Muito obrigado a todos.
20
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Portugal-Espanha: contornos de um frente a frente