AULA HOY FUNDACIÓN VOCENTO "Portugal-Espanha: contornos de um frente a frente ", Ex-Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio Badajoz 10 de Janeiro de 2007 Senhor Vicepresidente da Junta de Extremadura, Dr. Ignacio Sánchez Amor Senhora Delegada do Governo en Extremadura, Drª Carmen Pereira Senhor Director-Geral do Periódico HOY, Dr. José Luis Pastor Senhor Presidente da Academia Europea de Yuste, Dr. Antonio Ventura Senhor Comendador Dr. José Luis Joló Senhor Director da AULA HOY, Dr. Alberto González Minhas Senhoras e Meus Senhores Caros amigos Antes de mais, gostaria de agradecer o amável convite que me foi dirigido para fazer esta Conferência e a todos os que a tornaram possível. E dado que estamos no início de um novo ano, aproveito também para formular votos de um promissor 2007, não só no plano das vidas individuais de cada um, mas também para o futuro do nosso frente a frente bilateral, para a Europa e para o mundo. No plano internacional, não sobrarão objectivamente muitas razões de optimismo, mas porventura este novo ano vai ser um tempo forte para o projecto europeu e, se a Europa se consolidar, os benefícios serão globais – com o progresso da Europa, como diria o poeta português António Gedeão, também o mundo 2 pula e avança, e isso seria uma boa notícia. Resta-nos, neste início de ano, desejar firmemente que assim seja. * Volto a Badajoz, à Estremadura espanhola, e volto sempre com o grato sentimento de saber antecipadamente que vou reencontrar amigos e velhos companheiros de anteriores jornadas de convívio e de debate sobre o relacionamento peninsular e sobre os vários caminhos ainda abertos para o seu continuado aprofundamento. Aliás, como sabem talvez, a minha relação com Espanha não é de ontem nem de hoje, nem sequer da idade adulta. Antes se entrelaça com algumas das melhores memórias de infância que a espessura dos anos não apagou - a minha Mãe falava castelhano porque se dedicara à aprendizagem das línguas; o meu Pai iniciou-me no Ortega y Gasset – que pessoalmente conheceu -, em Unamuno, em Gregório Marañon, em Salvador Madariaga e em tantos outros… ; lembro-me ainda, com a nitidez das imagens que o tempo não chamusca, das primeiras viagens em família a Espanha, ao que hoje se chamam as comunidades autónomas. Logo, fuime formando numa visão de um frente-a-frente sem complexos, profícuo e promissor. De resto, era também por Espanha que passavam os caminhos da liberdade, aqueles que ajudei a trilhar aos perseguidos políticos, colaborando na montagem de esquemas, que lhes permitiam atravessar rapidamente a sinistra Espanha de Franco e chegar à larga porta aberta e amiga de uma mítica e distante Europa que França então representava…. * 3 É bem conhecido que, desde há alguns anos, a Extremadura se vem notabilizando no contexto ibérico por ter sabido criar um exemplar espaço de reflexão partilhado por espanhóis e portugueses para abordar questões de interesse comum, seja no plano do presente, seja já numa perspectiva de futuro. Vale sempre a pena sublinhá-lo. Até porque as gerações anteriores à restauração democrática nos dois países guardam a lembrança viva de um período, em que uma retórica oficial desfasada da realidade não conseguia iludir - mau grado as similitudes ideológicas dos dois regimes - a ausência de um quadro adequado de relacionamentos, desde o campo dos simples contactos humanos aos domínios político, económico e cultural de dois povos vizinhos, mas afinal distantes. Talvez por isso ninguém melhor do que as populações da fronteira saiba compreender o extenso progresso entretanto realizado de parte a parte para abater barreiras, desfazer desconfianças, estabelecer cooperações. Vivemos durante longos, demasiados anos, enleados num comum isolamento intra-peninsular, decerto tributário de antigas memórias históricas, mas que foi fortemente penalizador de uma desejável normalidade de intercâmbios, contrariando até a própria geografia... Essa foi a idade do afastamento, em que porventura nunca a palavra "Raia", comum ao castelhano e ao português, terá assumido de forma tão clara, e com a singulares severidade e aspereza de som que a caracteriza, o seu sentido etimológico de linha de divisão e de apartamento. Esse foi também um tempo em que os confins raianos eram território quase sempre agreste, compondo uma extensa margem de pobrezas e subdesenvolvimento, ou lugar de diversos medos para os que de cá fugiam a perseguições politicas ou para os que, do nosso lado, iniciavam emigrações forçadas ou clandestinas a caminho da Europa além Pirenéus, 4 em busca de liberdade ou de melhor vida. * 2-É bem diferente hoje a realidade peninsular. Pode mesmo dizer-se que o traçado da fronteira já não nos divide, mas aproxima, passando a ser exemplo de saudáveis e diversificados intercâmbios, espaço tantas vezes dinâmico de renovados convívios e colaborações. Nele, naturalmente se projecta de forma particular a radical mudança qualitativa que agora caracteriza o relacionamento dos dois países, tornada possível pelo mútuo reencontro com a democracia e pela comum adesão ao projecto europeu. Nunca será demais sublinhar esta dupla raiz - democrática e europeia das nossas presentes relações bilaterais. Na verdade, dela colhemos o cimento para estabelecer afinidades, harmonizar interesses, afastar anteriores divergências e pôr termo a uma penalizadora marginalização diplomática na cena internacional contrária à história dos dois países. Com efeito, os últimos anos têm revelado um consistente progresso nos diversos domínios por onde se concretiza a relação entre os nossos países, a saber: - são estreitos os laços políticos, os quais se projectam na importância dos contactos e entendimentos dos respectivos Governos, independentemente de eventuais alinhamentos ou diferenças partidárias; - as ligações económicas assumem hoje relevo e níveis de progresso excepcionais; - na área cultural, durante tanto tempo descurada, assiste-se a um progressivo - embora ainda insuficiente - interesse pelo que cada um neste plano tem a oferecer; - registam-se inéditas cooperações, nomeadamente no campo da saúde, de que aliás Badajoz é exemplo marcante; 5 - no âmbito transfronteiriço, multiplicam-se contactos e aprende-se uma nova linguagem de colaboração quer directa, quer inserida em instrumentos de desenvolvimento regional europeu; - enfim, o turismo ibérico vem registando números expressivos, de parte a parte, proporcionando úteis contactos humanos e pondo assim termo a anteriores e repartidos distanciamentos. * 3-Caberá agora passar da simples constatação da presente realidade do nosso relacionamento para uma breve abordagem de alguns dos seus aspectos que considero deverem merecer particular referência. Desde logo, impõe-se falar da comum participação no projecto europeu, a que em boa e oportuna hora nos acolhemos, após uma longa negociação, porventura mais exigente do que as que iriam presidir às posteriores adesões. Partilhamos hoje, no seio da União Europeia, estratégias, objectivos e inéditas cumplicidades que têm alargado o nosso mútuo espaço de intervenção internacional e ajudado a reforçar concordâncias bilaterais. Espanha e Portugal, inseridos num projecto garante de paz, estabilidade e progresso para os Estados que o compõem, souberam desde o inicio contribuir, com as mais valias das suas profundas identidades nacionais e das suas multiformes experiências históricas, para o fortalecimento da ideia integradora. Em paralelo, através de uma rápida percepção de nela viverem uma comunidade de destino, depressa fizeram seu o acervo de valores, práticas e solidariedades, que constitui o cimento aglutinador e decisivo da construção europeia. 6 Pudemos juntos regressar à Europa, uma vez afastado, pela quase coincidente conquista da democracia, o sombrio isolamento político de varias décadas. Esta opção permitiu-nos ir buscar decisivos benefícios para a consolidação do caminho de progresso tornado possível pelas mudanças de regime ocorridas na Península. Mas poderemos igualmente dizer que connosco levámos um património de ligações e sensibilidades que ofereceu um renovado alimento ao processo de integração e também à sua relação com outros Continentes, onde os nossos povos marcaram ao longo de séculos encontro com a História. É certo que toda a participação num projecto impõe responsabilidades partilhadas, para além naturalmente do cumprimento do respectivo quadro normativo em que assenta. Por isso, o percurso conjunto que nele vimos fazendo tem revelado a firmeza da nossa convicção no acerto do rumo europeu traçado por Monnet, bem como a vontade política dos dois países em defendê-lo de eventuais hesitações que diluam a sua raiz solidária e integradora ou diminuam o lugar de intervenção da Europa no mundo instável dos nossos dias. Ainda bem que assim tem sido, pois mostra a bondade do caminho a seguir nos difíceis desafios que uma melindrosa conjuntura internacional e os recentes processos de alargamento colocam à União. * 4-A adesão de doze novos países constituiu uma decisão de evidente importância politica que Portugal sempre apoiou, mesmo sabendo que dela, num plano mais directo, seria o Estado Membro a colher menores benefícios. 7 Fê-lo pela consciência do simbolismo do seu significado histórico e pelo reconhecimento de um dever moral a cumprir, mas também por considerar estarmos perante uma opção de evidente valor geo-estratégico para o futuro do nosso Continente. Neste momento em que abundam os cepticismos quanto à evolução da União Europeia, gosto de repetir que esta fase de alargamento agora concluída com a entrada da Bulgária e da Roménia, configura um dever, oferece oportunidades, responde a uma necessidade. Pressinto que nem todos concordarão comigo, pois - não o esqueço - a continuada expansão do território coberto pelo projecto europeu levanta à União, como aliás algumas dissensões recentes o têm mostrado, problemas novos e inevitáveis riscos para uma sólida coesão do seu espaço político-económico, que seria insensato procurar minimizar ou desatender. Ganhou-se, sem dúvida, em espaço e número. Ainda procuramos, no entanto, um fio condutor que reavive objectivos e desígnios, e ao mesmo tempo harmonize novas culturas e experiências politicas. Convirá fazê-lo sem prejuízo de saudáveis identidades, mas também sem dano dos princípios essenciais de solidariedade e confiança mútua que têm permitido até agora o regular processo concertador de interesses nacionais em que se ampara o quotidiano triunfo da União. Tão pouco se vem conseguindo - como a triste saga das ratificações na França e na Holanda aí está para o mostrar - estabelecer um indispensável vínculo de responsáveis empatias entre os cidadãos e o processo de construção europeia, que leve aqueles a sentirem-se efectivamente agentes de um projecto - dele colhendo direitos e benefícios, mas também deveres mais claros de participação e intervenção. E, se temos hoje mais europeus do que Europa, impõe-se um mais empenhado esforço de todos para melhor defender as linhas essenciais 8 que devem estruturar o projecto integrador e, a partir delas, definir entendimentos e ambições que proporcionem um adequado aprofundamento da União, respondam a expectativas e evitem os efeitos debilitadores produzidos pelas varias assimetrias - políticas e económicas - dos alargamentos. Sublinho este ponto, pois estamos num momento de agudo melindre na caminhada que se iniciou vai para cinquenta anos, quando a Europa importa sempre lembrá-lo, sobretudo às novas gerações que olham para a paz como bem natural - era mais uma vez campo de ruínas e repetida memória de barbárie. E isto, porque, numa altura em que se requereriam estratégias face ao novo desenho do mundo, se vem perdendo tempo excessivo sem resolver as perplexidades entretanto surgidas quanto ao destino a dar ao Tratado Constitucional, afinal um bom embora porventura demasiado prudente projecto para relançar o projecto europeu. Temo que se esteja adiando uma oportunidade para reforçar algumas das suas traves mestras, adequar certos traços institucionais à realidade da nossa diferente dimensão, alargar caminhos que possam conduzir a uma mais credível capacidade de intervir em áreas politicas fundamentais, como a politica externa, a justiça e segurança dos cidadãos, o domínio social, o emprego e a governação económica. Naturalmente que os alargamentos recentes e os sentimentos paralelos que suscitam tornam mais visível alguns problemas de crescimento do nosso projecto comum, entre os quais avulta a definição das fronteiras últimas da União. Mas não menos evidente é o continuado défice de ambição dos responsáveis políticos que a vêm conduzindo e que contraditoriamente adoptam retóricas e até decisões voluntaristas desajustadas da mediocridade dos meios por eles próprios concedidos, como ainda recentemente se viu no lamentável debate sobre as perspectivas financeiras que irão governar durante os próximos sete anos 9 as diversas rubricas do seu orçamento. Ora mal anda a União se perante a amplitude dos desafios que hoje defronta não conseguir dotar as suas políticas da adequada suficiência de meios, como aliás Espanha e Portugal vêm de há muito tempo alertando. * 5-Por outro lado, vencida a batalha do Euro, momento emblemático do processo integrador, importa agora corrigir uma omissão que vem afectando uma desejável recuperação da economia europeia. Refiro-me a uma necessária e efectiva coordenação das políticas macroeconómicas dos Estados Membros que proporcione uma útil complementaridade às disciplinas do Pacto de Estabilidade. Com efeito, como Jacques Delors tem repetido com autoridade, o Euro protege, mas não dinamiza. Por isso, torna-se urgente equilibrar através de um instrumento decisório adequado as preocupações do Banco Central Europeu, centradas numa gestão talvez excessivamente ortodoxa da saúde da moeda, complementando-as com uma visão mais abrangente, tal como ocorre com o FED americano, dos problemas da economia do nosso espaço e das imediatas soluções que requerem. Uma outra lacuna, que os dois países ibéricos têm denunciado, diz respeito à débil capacidade de intervenção da União nos grandes problemas que afectam a comunidade internacional, poucas vezes sabendo utilizar o seu estatuto influente de potência económica e de principal contribuidora mundial para a ajuda ao desenvolvimento. Repetiu-se aliás, durante a negociação do Tratado Constitucional a dificuldade de congregar uma verdadeira vontade política para atingir um acordo razoável sobre o capítulo de politica externa já inscrito com reconhecida cautela no texto do anterior Tratado de Maastricht. Ora, 10 todos nós o sabemos, a União pode e deve contribuir com a soma de sensibilidades históricas apuradas pelos seus membros e de princípios essenciais por eles partilhados para um mundo mais estável e mais justo. Isto na consciência de que se encontra em jogo não só a sua própria credibilidade como vértice estruturante da comunidade internacional, mas também a defesa e projecção dos seus interesses específicos e princípios que a experiência mostra nem sempre serem coincidentes com os do grande aliado além atlântico. Trata-se de, com realismo, não entrar em qualquer insensato jogo de rivalidade de poder com os EUA. Ao invés, trata-se de, em estreito e transparente entendimento, credibilizar o papel da Europa no mundo, estabelecendo para isso com a super potência americana uma diferente e mais confiante idade de cooperações com vista a garantir uma comunidade internacional mais segura, pacífica e estável. Assinalo este ponto pois considero-o determinante para o desenvolvimento do projecto europeu neste momento de ponderação sobre o desenho das suas fronteiras finais, em que se torna mais evidente a necessidade de criar condições para a definição de um coeso pensamento estratégico. Espanha e Portugal bem o podem compreender e para ele contribuir. Na verdade, só numa consistente projecção internacional europeia encontrarão os dois Estados a rota certa para proteger no seu plano externo interesses nacionais herdados pela espessa rede de relacionamentos que, ao longo de séculos, teceram em outros continentes e com outros povos, e hoje lhes oferecem sensibilidades úteis para ajudar a formatar as politicas europeias no complexo dialogo de culturas e civilizações. Repito: importa defender a solidez do quadro de intervenção que nos é proporcionado pela UE, porque, no tempo difícil deste nosso imprevisível mundo, aprendemos todos os dias que os Estados se descobrem subitamente desprotegidos e que não conseguem afrontar 11 isoladamente, mesmo os mais poderosos, as insidiosas ameaças, riscos e problemas que se lhes colocam a uma escala global ou mesmo regional. Por isso, devemos procurar superar a actual crise que a vem enfraquecendo e enredando em pessimismos e paralisias. Sabemos bem que não se trata de tarefa fácil, designadamente no que respeita ao Tratado Constitucional. Entendo, porém que importa conseguir harmonizar a vontade já expressa por tantos países, lançando mão a soluções de pendor possivelmente pragmático, que permitam repor o impulso que se esperava da ratificação do Tratado Constitucional. Para tanto, será imperioso evitar a tentação, que por vezes tem sido aflorada, de cair num texto minimalista ou de proceder a um exercício tendente a renegociar cirurgicamente, segundo os interesses de cada Estado, alguns dos pontos que formam o seu corpo essencial. Uma ou outra destas situações seria uma inevitável receita para o desastre, para alem de favorecer uma penalizadora imagem de inevitáveis divisões internas, num momento em que o espaço europeu tem de afrontar os diversificados desafios de uma globalização que afinal o exigirá mais coeso e determinado. * 6-Compreenderão que me tenha demorado um pouco mais nesta, apesar de tudo breve, abordagem europeia. Mas, como já tive ocasião de dizer atrás, o projecto de integração que agora vai celebrar cinquenta anos, constituiu uma opção decisiva para o destino dos nossos dois países e tem sido o quadro propiciador de entendimentos tornados possíveis pelo abatimento de barreiras físicas e psicológicas que durante décadas separaram os dois lados da Península. 12 É, no entanto, à Europa que o devemos, se vivemos hoje uma diferente realidade, como é patente pela intensidade dos encontros políticos e pela linguagem concreta dos números. Vale a pena chamar a atenção para alguns deles: se a Espanha é o nosso primeiro fornecedor e cliente, para onde seguem 25% das nossas exportações, também Portugal é para a Espanha o seu terceiro cliente mundial. Isto quer dizer que as vendas espanholas para Portugal são superiores ao que coloca na totalidade da América Latina, nos novos Estados da União, ou individualmente no Reino Unido, na Itália ou nos EUA. Por seu turno, as nossas trocas com a Extremadura, Andaluzia, Castela e Leão e a Galiza, praticamente sem significado antes da comum adesão à EU, representam actualmente cerca de 41% das vendas portuguesas para Espanha, com particular destaque para a Galiza, mas também para a vossa Estremadura, de que somos o principal fornecedor. Por outro lado, recorde-se que a Catalunha vende mais para Portugal do que a Itália, a Comunidade de Madrid mais do que o Reino Unido ou os Países Baixos, a Galiza mais do que a Bélgica ou os EUA, a Extremadura mais do que a Dinamarca ou a Argentina. Esta dinâmica, derivada da crescente integração económica dos dois países no espaço europeu, tem-se mantido de forma sustentada, nomeadamente para Portugal, que desde 2000 viu aumentar em 60% a venda dos seus produtos ao mercado espanhol. Em paralelo, nos últimos cinco anos os investimentos líquidos portugueses em Espanha quase duplicaram os montantes espanhóis investidos em Portugal, atingindo 7,3 mil milhões de euros. E isto, porque tornando-se a Espanha o principal parceiro económico e comercial de Portugal, os grandes grupos empresariais portugueses assumiram opções estratégicas de presença no vosso mercado, algumas vezes em aliança com congéneres espanhóis, visando desafios e concorrências provenientes de parceiros europeus. 13 Releve-se ainda que presentemente, cerca de 300 empresas portuguesas se encontram instaladas deste lado da fronteira, ao passo que 2500 empresas espanholas operam em Portugal. Estes números revelam uma dinâmica, mas também decerto um desequilíbrio desfavorável a Portugal, que não é totalmente explicável pela diferença de dimensão das economias dos dois países. Importa, porém, registar, que a importância do mercado ibérico foi finalmente percepcionada pelo sector empresarial português após anos de desatenção, procurando-se hoje potenciar a proximidade geográfica, a diversidade regional espanhola, e as complementaridades empresariais, tanto no espaço peninsular, como no europeu, ou ainda em áreas geográficas onde possuímos conjuntamente patrimónios de antigos contactos humanos. Decerto que tanto o diferente ordenamento político-administrativo espanhol e algumas das especificidades no campo dos incentivos económicos oferecidos pelas Autonomias, como a tradicional tendência centralizadora portuguesa e as persistentes hesitações em fixarmos um modelo adequado de descentralização regional (que nem sempre facilitam a agilidade dos relacionamentos transfronteiriços), bem como ainda a inelutável assimetria dos tecidos empresariais e financeiros, colocam por vezes dificuldades à capacidade de penetração das nossas empresas no diversificado mercado espanhol. Por outro lado, a espessura do tecido empresarial favorável à Espanha projecta-se numa rápida e maciça visibilidade das presenças dos seus agentes económicos em áreas ligadas ao quotidiano do cidadão português, ressuscitando preconceitos antigos e algumas reacções defensivas dos sectores atingidos por uma concorrência a que não estavam habituados. Considero que não devemos escamotear esta realidade, nem seguramente dramatizá-la. Ao invés, tudo importa fazer para que o mercado ibérico se 14 consolide como espaço de efectiva confiança e transparência, única forma de responder às críticas que dos dois lados, embora sobretudo por parte do empresariado português, se fazem a situações de encobertos proteccionismos. Até porque este será o caminho a seguir para um mais justo equilíbrio, proporcionalidade e equidade de oportunidades empresariais neste espaço económico de cinquenta milhões de cidadãos. * 7-A rápida expansão das relações económicas espelha afinal o bom momento de entendimento político construído pelas autoridades dos dois países. Atingimos no plano bilateral uma rotina positiva, bem revelada pelos resultados das cimeiras ibéricas, instrumento fundamental de concertação estratégica e precioso exercício disciplinador do relacionamento comum. Através delas definem-se objectivos, afastam-se eventuais contenciosos, revisitam-se calendários de programações conjuntas. Do lado português, e só dele compreensivelmente me cabe falar, tem-se reafirmado ao mais alto nível, com ênfase e sem os complexos que marcaram várias idades das nossas relações, a vontade política de alargar os laços com Espanha, erigida em incontestável escolha prioritária no domínio das relações bilaterais. Este é um rumo que se vem seguindo com determinação e tem inspirado um diálogo entre ambos os governos sem paralelo no quadro dos nossos relacionamentos bilaterais. Trata-se de uma escolha que decerto se projectará de modo muito positivo nas ligações e cooperações com as entidades autonómicas espanholas, particularmente com aquelas que connosco partilham a linha de fronteira. 15 Tanto no contexto bilateral, como no âmbito europeu, muito resta ainda a fazer, cabendo-nos proteger princípios de solidariedade e identificar interesses mútuos que nos permitam melhor defrontar a agenda que o novo século, tão mal começado entre guerras e atentados, nos imporá. São vários os domínios que aconselham uma persistente articulação: a questão demográfica e as pressões migratórias; os recursos hídricos e energéticos; as questões globais de saúde e do ambiente; a luta contra o terrorismo; a protecção civil; a cooperação no campo da investigação; as diversas componentes de defesa e segurança europeias; a consolidação do multilateralismo, como factor de paz e de diálogo internacional; a agenda de Lisboa para a inovação tecnológica e competitividade. Por outro lado, num momento em que o eixo da União se desloca para o norte e para leste, Espanha e Portugal poderão em conjunto defender politicas europeias que reponham equilíbrios e privilegiem atenções em áreas onde a História e a língua nos legaram especiais relacionamentos, como no subcontinente americano e em África; ou noutras em que a proximidade geográfica nos favorece presenças, como é o caso do Mediterrâneo. Digo isto porque um adequado aproveitamento das extensas fachadas atlântica e mediterrânica da Península poderá, amparado por uma coerente acção externa da União, moderar os efeitos de periferia suscitados pelo seu actual desenho. Neste contexto, o Continente Africano, que continua enleado na sua perene imagem de infelicidade, deve merecer à Europa um cuidado particular, não só por razões de responsabilidade histórica ou motivações de ordem ética, mas também porque nele se joga alguma coisa da sua segurança. As imagens insuportáveis do êxodo humano que busca as costas de Espanha e de Itália requerem resposta pronta da União, pois trata-se de um problema que a interpela quanto à capacidade dos seus Estados Membros identificarem as raízes das questões e de procurar 16 politicas comuns e solidárias que os possam solucionar. Este é um problema urgente que requer um diálogo aberto com os países africanos para estabelecer bases de útil cooperação também neste domínio delicado das migrações, razão pela qual Portugal vai procurar realizar durante a sua próxima presidência da União a Cimeira com África, que vem sendo adiada desde há anos com evidente prejuízo para uma adequada estratégia politica. * 8-O que atrás já tive oportunidade de dizer sobre o estado presente do relacionamento ibérico é decerto motivo de regozijo para todos aqueles como eu - que consideram cumprir deste modo um dever de inteligência na interpretação dos interesses fundamentais do seu povo. Mas precisamente porque devemos ser exigentes na forma como o executamos, importa observar que o caminho entretanto percorrido nos planos político e económico ainda não teve um coincidente paralelo nas relações entre as duas sociedades civis. Decerto que sou o primeiro a reconhecer - e já atrás o referi - a profunda diferença que separa o tempo de hoje do período sombrio atravessado por varias gerações: pela natureza, a diversidade e a qualidade dos contactos dos dois lados da fronteira. Mas o que desejo sublinhar prende-se com a desejável possibilidade de fazermos melhor nos múltiplos campos por onde se pode desdobrar um activo intercâmbio do que cada um dos países tem a oferecer, nomeadamente nos diversos domínios do conhecimento. Não há dúvida que se multiplicaram nos últimos anos as iniciativas de mútua promoção cultural; de debate ibérico (como o Agora de Mérida) e os diversos fóruns públicos e privados; de encontros universitários. Igualmente tem crescido o número de leitores das duas ricas literaturas, 17 bem como a quantidade de traduções de autores contemporâneos dos dois países; do mesmo modo, contam-se já por centenas as presenças de estudantes portugueses em Espanha, a maioria é certo para fugir aos severos e tantas vezes injustos constrangimentos do sistema universitário do numerus clausus da sua pátria mas que constituem já um relevante fermento para uma sã compreensão ibérica; habituámo-nos outrossim a ver, sobretudo no sector da saúde, dezenas dos vossos competentes profissionais a trabalhar lado a lado com os seus colegas portugueses; enfim, o fluxo turístico intra-peninsular, que se cifra em milhões de viagens, tem ajudado poderosamente na aproximação e conhecimento dos dois povos. Porém, existem ainda incompreensíveis alheamentos, mais vincados seguramente do lado espanhol, sobre o amplo leque de realidades politicas, sociais e culturais de ambos os países. Esta é uma negativa situação, bem ilustrada pelo medíocre espaço que os respectivos meios de comunicação lhes dedicam, numa tendência só eventualmente quebrada por ocasião de tragédias ou eventos excepcionais. Tais desatenções explicarão a ainda deficiente percepção, por parte de largos sectores, tanto em Portugal como em Espanha, do que ocorre para lá da sua fronteira comum, assim ajudando à sobrevivência de preconceitos amadurecidos pela Historia. Importará, por isso, fomentar programas de intercâmbio, agilizar e alargar as cooperações entre Universidades e Centros científico-técnicos (a recente criação do Laboratório Internacional de Nanotecnologia é o passo certo a multiplicar em outros domínios), mostrar mais continuadamente o que cada um dos países produz em termos literários e artísticos, ampliar convivências e debates. Isto tudo para repetir que, se hoje nos conhecemos mais, deveremos contudo continuar a fazer esforços para nos conhecermos melhor. 18 Estou à vontade para assinalar este caminho, pois sei, por experiência adquirida, que a Extremadura tem compreendido bem a importância deste objectivo para a defesa dos interesses peninsulares, neste mundo globalizado em que se superam todos os dias barreiras e obstáculos para uma adequada comunicação e entreajuda. Poderia citar vários exemplos da exemplaridade do relacionamento entre os dois espaços estremenho e alentejano que souberam transformar, no respeito das suas identidades, a antiga linha divisória de fronteira em território de colaborações. Limitarme-ei, no entanto, a recordar que aqui, em Badajoz, se abateu um tabu português, compreensivelmente melindroso, ao se acolher o acto de maternidade de mulheres do meu país, na correcta percepção conjunta dos responsáveis políticos, de um e outro lado, de que a Europa deve ser cada vez mais uma pátria comum. Tenho para mim, e sempre o afirmei, que, a par das necessárias decisões de impulsão do poder central, a extensa zona transfronteiriça que aproxima os dois Estados pode constituir uma resoluta alavanca para o progresso sustentado das multimodais relações entre Portugal e Espanha. Assim decerto o quiseram sublinhar os respectivos governos ao realizarem recentemente a sua Cimeira em Badajoz, cidade que, ao apresentar uma imagem clara de dinamismo, comprova pelo seu exemplo que a interioridade pode ser domada e convertida em progresso. 19 Caros Amigos Por tudo isto, é bom estar convosco de novo, na certeza de que juntos continuaremos a trilhar e a expandir o nosso caminho comum – neste rumo de amizade, colaborações e sempre firmes solidariedades, na certeza de que são as nossas diferenças mútuas que fortalecem as nossas muito antigas e sólidas identidades e de que são também estas que se entrelaçam no nosso continuado frente a frente intrapeninsular, tornandoo sempre mais frutífero, estimulante e equilibrado. Muito obrigado a todos. 20