CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE – UNI-BH Vanessa Barbosa Figueiredo EQUILÍBRIO DE PODER: A China Como Potência Balanceadora Do Poder Norte-Americano. Belo Horizonte 2010 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE – UNI-BH Vanessa Barbosa Figueiredo EQUILÍBRIO DE PODER: A China Como Potência Balanceadora do Poder Norte-Americano. Monografia apresentada ao Centro Universitário de Belo Horizonte como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Relações Internacionais. Orientadora: Geraldine Rosas Belo Horizonte 2010 RESUMO Este artigo tem como foco a análise de que se juntamente com seu crescimento econômico, a China consegue desenvolver ferramentas que possibilitem um balanceamento de poder com a potência regional do continente americano, os Estados Unidos. Baseada em teorias realistas e neo-realistas, esta pesquisa busca identificar quais decisões políticas e econômicas chinesas facilitam a busca da nação pela posição de país balanceador do poder norte-americano. Palavras chave: China, Estados Unidos da América, poder, economia, balança de poder. ABSTRACT This article focuses on analyzing it along with its economic growth, China can develop tools that provide a balance of power with the regional power of the American continent, the Unites States. Based on realistic and neo-realistic theories, this research seeks to identify which political and economic decisions are carrying China to the position of nation capable to balance the north American power. Keywords: China, Unites States of America, power, economy, balance of power. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO……………………………………………………………….......04 2. PANORAMA MUNDIAL ............................................................................05 3. TEORIAS: REALISMO E NEO-REALISMO................................................14 3.1. Waltz e a balança de poder......................................................................15 3.2. Equilíbrio de poder através da visão de Mearsheimer...............................17 3.3. Hans Morgenthau e o realismo defensivo..................................................22 4. AS CARACTERÍSTICAS BALANCEADORES DE PODER...........................24 5. ANÁLISE CONCLUSIVA...............................................................................30 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................31 4 1. INTRODUÇÃO O sistema internacional é anárquico. Detalhando essa definição através de uma visão realista propagada por Waltz (1979), é possível dizer que os atores estatais que compõem essa estrutura são soberanos, racionais, dotados de capacidades e poder de barganha. Através destes aspectos, o mundo consegue distinguir quem são os Estados mais fortes do cenário mundial. O pós-Guerra Fria foi o ambiente ideal para a criação da imagem de um soberano mais forte que qualquer outra potência, Estado esse chamado Estados Unidos da América. Após a queda da União Soviética e seus ideais comunistas, o capitalismo se propagou, juntamente com os Estados Unidos, como o novo sistema, contrariando teóricos como Karl Marx (1977). A vantagem de poder norte-americana em relação a outras nações foi mantida durante longo tempo, porém recentemente a China vem apresentando intenso crescimento econômico, industrial e bélico, demonstrando assim, capacidade de desenvolver um balanceamento de poder. Essa pesquisa se baseia nos alicerces do crescimento chinês para concluir se há elementos capazes de balancear essas duas potências, mas também procura compreender como as recentes crises abalaram a estrutura norte-americana e assim propiciaram um ambiente que sugere a discussão sobre o equilíbrio de poder entre essas nações, como os ataques terroristas sofridos em 2001, a recessão econômica, esta ocorrida em 2008, decorrente das bolhas de crédito, e o rumo político pelo qual o país está enveredando através das decisões tomadas por seus governantes. Dessa forma, este artigo fará um panorama de ambos os Estados, debatendo seus pontos fortes e fracos, além de concluir se o cenário atual é propício para um balanceamento de poder efetivo por parte da China, ou se o poder norte-americano continua intacto. Tendo como principal objetivo a análise do equilíbrio de poder, esta pesquisa se baseia nas teorias realista e neo-realista utilizando como referência teóricos analistas da balança de poder, como John Mearsheimer (2001), Kennethy Waltz (1979) e Hans Morgenthau (2003). Além destes, esta pesquisa também se utilizará da visão de cientistas políticos como Joseph Nye (2002), com a intenção de identificar fatores influentes na alteração da divisão de poder 5 mundial. Utilizando como embasamento estas vertentes, o período de investigação deste artigo será dado a partir do cenário do pós-Guerra Fria até o período presente. O artigo será estruturado no histórico da ascensão chinesa complementado pelas políticas que fomentaram seu veloz crescimento nos últimos anos, sendo seguido pelo poder exercido no pós-Guerra Fria pelos Estados Unidos e suas crises. Após este panorama, a pesquisa desenvolverá as teorias que servirão de base para a análise do balanceamento de poder, podendo assim ser feita a conclusão acerca do poder chinês e norte-americano. As informações dadas por esta pesquisa são retiradas das correntes teóricas mencionadas, assim como os dados geográficos, políticos, econômicos e sociais foram extraídos de textos acadêmicos que contam com dados específicos, facilitando assim a precisão da análise que este artigo busca fazer. Esta pesquisa se torna relevante aos estudos das Relações Internacionais por buscar entender um equilíbrio de poder dentro do sistema internacional, onde se forem caracterizados elementos capazes de comprovar um balanceamento de poder por parte da China, muitas das influências globais referente aos Estados Unidos podem ser alteradas. 2. PANORAMA MUNDIAL A China é o maior país da Ásia Oriental, possuindo um território de 9.6 milhões de quilômetros quadrados e uma população de aproximadamente 1.300 bilhão de habitantes, dados estes extraídos do IBGE Países de 2010. Com sua capital situada em Pequim, a República Popular da China segue sob um governo socialista de partido único regido pelo Partido Comunista da China, sendo Hu Jintao seu atual presidente. Como uma das mais antigas civilizações do mundo, a China apresenta farta bagagem histórica que a levou ao ponto do constante crescimento em que se encontra atualmente. O cientista político que levanta este hitórico, Zakaria (2008) apresenta que o sistema político chinês foi durante longo período pertencente a dinastias e após o encerramento do último governo deste modelo, se deu a fundação da República da China pelo Partido Nacionalista Kuomintang, em 1911. Sempre seguindo um molde de sociedade fechada, a China enveredou por sérias crises que culminaram em guerras e divisão política interna no início do século XX, divisão esta que 6 gerou dois grandes partidos na disputa pelo poder do Estado: os representantes do Partido Comunista e os representantes do partido Kuomintang. Somente em 1949 as disputas se encerraram com a vitória dos comunistas sobre o Kuomintang e assim se fundou a República Popular da China, com o poder do partido concorrente restringido à região de Taiwan. Neste momento o governante do Estado chinês era Mao Tsé-Tung, que deixou o cargo em 1959, após grandes fracassos ligados principalmente aos aspectos econômicos que ocorreram no período do Grande Salto1. Este movimento político era uma tentativa de Tsé-Tung de transformar a China em um Estado desenvolvido, onde visava um aumento da produção agrícola utilizando mais terras produtivas, além de uma maior industrialização em perímetros urbanos, porém a iniciativa instaurou o caos econômico e o aumento latente do índice de pobreza. O primeiro plano qüinqüenal, analisado por Bianco (1971), foi implementado na China durante o período de 1954 a 1957. O plano estreitou as relações chinesas com a URSS, que neste período se encontrava sob o comando do presidente Nikita Kruchov, aproximação que gerou um aumento da exportação de tecnologia soviética para a China. Durante o período da Guerra Fria, Kruchov buscou contatos com os Estados Unidos, o que resultou em um rompimento de relações com Tsé-Tung e afastou o Estado chinês, de forma definitiva, do modelo socialista soviético. Mao Tsé-Tung manteve influência dentro do partido chinês mesmo após deixar o cargo de presidente e optou por divulgar a idéia da Revolução Cultural2 em 1966. A principal motivação da revolução eram os temores provocados com a posição soviética e apesar de buscar maior segurança para a nação, acabou por gerar diversos conflitos dentro da sociedade chinesa. A China só viu como encerrada a Revolução Cultural em 1976, com a morte do expresidente, Mao Tsé-Tung. 1 O Grande Salto pode ser definido, de acordo com Zakaria (2008), como uma política liderada pelo ex-líder chinês Mao Tsé-Tung, a qual almejava o desenvolvimento da China de forma rápida. O primeiro plano desta política focou no aumento das áreas de cultivo e conseqüentemente, no aumento da produção agrícola nacional, tendo a segunda etapa com intenções de incentivo à industrialização. 2 A Revolução Cultural Chinesa foi um período, entre 1966 e 1976, de transformações do modelo soviético de comunismo, no qual a China se encontrava. O então presidente chinês Mao Tsé-Tung apresentou quatro principais metas: corrigir o foco das políticas adotadas pelo partido comunista chinês, alterar seus principais governantes por políticos com mentalidades mais próximas da sua, assegurar uma experiência revolucionária à juventude chinesa e tornar os sistemas básicos do país, como educação, saúde e cultura, em menos elitistas. Esse movimento foi definido como uma luta contra uma classe intelectual separada da massa por Kenneth Lieberthal (1989) 7 Após a morte de Tsé-Tung, Deng Xiaoping tomou o poder e buscou reformas políticas e econômicas com foco no estabelecimento de uma economia de mercado e liberalização política. Para militares [chineses] com paciência para ver concluídas as reformas [econômicas] haverá uma compensação. Se os planos do Sr. Deng para a economia como um todo puderem ser levados a cabo, e o valor do produto chinês quadruplicar, como se planeja, entre 1980 e 2000 (uma questão reconhecidamente difícil), então dentro de 10 a 15 anos a economia civil terá conseguido ímpeto suficiente para realizar mais rapidamente as reformas militares. É então que o exército chinês, os seus vizinhos e as grandes potências terão no que pensar. (KENNEDY, 1989, p. 435) Os objetivos, muito distantes das vontades de Mao, acabaram por gerar insatisfação em duas pontas importantes da sociedade. Estudantes e intelectuais tinham em mente que as reformas não alteravam a estrutura chinesa e o que o estado realmente precisava era de uma mudança em seu sistema político. Os trabalhadores de indústrias não concordavam com o distanciamento da lógica de Mao e viam que as reformas começavam a gerar desemprego e alta na inflação. O resultou destas insatisfações resultou nos protestos da Praça da Paz Celestial3. Mesmo com o período de turbulência no país, o presidente Deng Xiaoping forçou a massa conservadora política a aceitar empresas vindas de outros países, para que estas pudessem aplicar seu capital na economia chinesa e assim acelerar o processo de modernização. Zakaria (2008) defende que após essa aceitação por parte do governo, a China passou a investir em políticas pró-empresas, facilitando sua entrada no país e apresentando recursos atrativos para investimentos. Após este período, quem liderou o governo chinês foi Jiang Zemin durante a década de 1990, e a partir deste momento a China começou a identificar um constante crescimento, já que as políticas econômicas do novo presidente conseguiram diminuir o índice de pobreza, assim gerando um crescimento constante do PIB, em torno de 11% ao ano. Foi percebido então que a China deveria adotar formas de consolidar sua economia. 3 Movimento de protestos, ocorrido em 1989, liderado por grupos que acreditavam que o Partido Comunista era corrupto e repressivo, além de que todas as reformas chinesas eram executadas de forma lenta, levando os índices de inflação e desemprego a níveis muito altos. 8 Atualmente, Hu Jintau preside a China através de um modelo de ascensão pacífica, no qual busca através da abertura da economia um fortalecimento da influência chinesa sobre outros Estados. De forma mais aprofundada, o governo chinês desenvolve metas para que seu crescimento anual continue acima dos 10%, entendendo que além do aumento no ritmo de suas exportações, é importante a consolidação do consumo no mercado interno. Para que esta estratégia obtenha sucesso, o Partido Comunista Chinês está implementando medidas para que parte de sua população rural se mude para as capitais, uma vez que o consumo de um trabalhador urbano é 1,6 vezes maior do que o de um trabalhador rural. Além destas medidas, o governo atual adotou uma posição protecionista em relação às empresas estrangeiras, que até então vinham dando lucratividade à nação. O partido chinês entendeu que a presença de instituições empresariais democráticas no país poderia vir a ameaçar seu regime, de forma que como a China se encontra devidamente fortalecida economicamente, o governo optou por endurecer sua posição perante as empresas estrangeiras e adotar investimentos preferenciais para as empresas nacionais, aspecto este ressaltado por Fogel (2010). Além da ameaça ao regime, o governo possui outro argumento forte para subsidiar certos setores de produção nacional, principalmente ao se tratar de empresas estatais. O interesse governamental de controlar este setor é ter facilidade de acesso recursos e utilizá-los da forma que entenderem melhor, além de que, obter o controle do setor mais lucrativo do país garante que seus governantes continuem no comando das decisões chinesas. Dentro desta perspectiva de análise empresarial na China, Fogel (2010) acredita ser correto afirmar que os Estados Unidos facilitaram o crescimento e desenvolvimento da economia desta potência asiática. A nação norte-americana tentou alavancar seu crescimento baseandose em exportações, inclusive de suas próprias indústrias para o território chinês, projeto este que foi concretizado de forma satisfatória a ponto de inundar a China, como alguns outros países asiáticos, de investimentos, auxiliando o processo de industrialização. Em contraponto, muitos investimentos internos que deveriam ser feitos nos Estados Unidos foram deixados de lado, fato este que, somado à parcela de produção industrial absorvida pela China, somente serviu para aumentar o déficit comercial norte-americano. Os Estados Unidos não desfrutam atualmente de um ápice econômico, de forma contrária, vem apresentando cada vez mais patologias que enfraquecem seu Estado. Os anos dourados, de acordo com Pieterse (2009), do capitalismo norte-americano tiveram sua alta entre 1955 e 9 1980, quando a classe média cresceu rapidamente diminuindo a desigualdade de rendas. Esse período foi marcado por uma explosão econômica no pós-guerra, uma política moderada e facilitação na cooperação entre democratas e republicanos. Esse momento pode ser entendido como uma prévia da estabilização dos Estados Unidos como uma potência com poder superior às outras nações após o fim da Guerra Fria. Apesar da afirmação de Waltz (2000), em sua teoria neo-realista, de que o cenário no momento da vitória capitalista era unipolar, é através da definição de poder de Nye (2002) que se torna possível entender que os Estados Unidos tinham vantagem de poder sobre todas as outras nações, mas não podiam se encarados como hegêmona global. O cientista político Nye (2002) entende que poder “é a capacidade de obter os resultados desejados e, se necessário, mudar o comportamento dos outros para detê-lo” (2000, pg. 30), mas conjuga esta idéia com a utilização dos conceitos de soft-power 4 e hard-power5, já que acredita que o domínio destes dois tipos de poder facilita o alcance da posição de potência mais poderosa no sistema internacional. Para desenvolver melhor este conceito, Nye (2002) explica que um Estado precisa possuir forças militares de grande escala a ponto de poder forçar outro Estado a se comportar de acordo com seus interesses, mas também deve conseguir obter tal comportamento através de relações diplomáticas. De acordo com essa definição, Nye (2002) menciona que é importante entender o conceito de hegemonia para definir se nesse período pós-Guerra Fria, os Estados Unidos poderiam ser considerados como nação hegemônica. O cientista então pontua que para que um país seja hegemônico é necessário dominar as regras que conduzem o sistema ou alterar a ordem do comércio internacional, nesse caso os Estados Unidos não podem ser considerados como hegêmona global. 4 Termo desenvolvido pelo porfessor Josph Nye, em 2004, o conceito implica na idéia de que é possível influenciar nações a agirem de acordo com o interesse de outras nações sem o uso da força, utilizando-se apenas de meios políticos e diplomáticos. O sucesso da utilização desse tipo de poder depende em larga escala da reputação do ator que o empregará. 5 Este conceito está diretamente ligado ao uso da força ou do constrangimento para obtenção de resultados por parte das nações. Atitudes de força bruta, punição e recompensa são consideradas opções dos Estados para alterar decisões tomadas por nações rivais. 10 Esse pensamento pode ser complementado pela teoria da estabilidade hegemônica, de Robert Keohane (1986), uma vez que este prega que um sistema econômico internacional relativamente aberto e estável tem mais chances de sobreviver na presença de um Estado hegemônico, porém o teórico assume que este Estado deve apresentar certas características, como a posse de recursos financeiros necessários para o exercício da liderança, assim como a vontade para implementar políticas necessárias para a criação e manutenção da ordem econômica liberal. Essa potência maior deve servir então como um orientador do sistema internacional, utilizando-se de solidez para garantir o fluxo positivo dos outros Estados. Dessa forma, os Estados Unidos precisariam apresentar injeção de liquidez financeira para resolver crises no sistema, servir como mercado em momentos de recessão na economia de outros países, demonstrar responsabilidade para com a preservação da paz e pré-disposição para cumprir sacrifícios em nome da preservação do sistema. Em resposta, os Estados Unidos se apresentam como o maior Estado devedor no cenário internacional, portador de índices de importação muito superior aos de exportação, em início de processo de desindustrialização e queda nos níveis de emprego, além do fomento à guerra. A soma dessas exigências de Keohane (1986), com a definição de hegemonia dada por Nye (2002), colocam os Estados Unidos como uma potência de poder superior às outras, mas não como hegêmona global. Utilizando-se da informação de que na teoria realista de equilíbrio de poder, de Mearsheimer (2001), sempre que uma potência desponta no sistema internacional haverá uma tentativa de balanceamento, este artigo continuará a focar nas características da China como país em constante crescimento de forma a concluir se os fatores apresentados poderão ou não embasar esse equilíbrio de poder sino-americano. O tamanho do território chinês deve ser destacado para a análise da China como uma potência balanceadora. De acordo com Hessler (2010), em 1920 a China iniciou o primeiro programa de impulso para a construção de estradas como medida paliativa para a seca que assolava o país e que provocou uma escassez de alimentos. Mais tarde o governo entendeu que não somente para solucionar crises a construção de rodovias era interessante, mas a melhoria de transportes em si seria uma alternativa para a escassez de recursos naturais que a China apresenta. Somente em rodovias, a China projeta superar os Estados Unidos em quilometragens construídas até 2020, segundo a pesquisa feita por Hessler (2010). O motivo real para um debate acerca da melhoria de transportes na China deriva da chamada rota da 11 seda6, uma vez que esse projeto visa o abastecimento do território chinês com recursos naturais que servirão para sustentar a produção em larga escala nas fábricas. De forma pacífica, a China está utilizando-se deste projeto para diminuir a influência russa no continente asiático e instaurar maior importância em seu território, já que o modelo escolhido para a construção das linhas ferroviárias chinesas são os mesmos que o europeu, incluindo as bitolas7 dos trens, deixando o modelo da ferrovia transiberiana obsoleto. Além disso, a lacuna deixada pela ex-URSS possibilitou que o mercado chinês se prolongasse até os árabes, fazendo com que a China se adapte à produção de diversos padrões de produtos para atender variados consumidores e assim aumentando sua influência dentro do Oriente. O problema de escassez de recursos naturais é um problema que preocupa o governo chinês, porém este encontrou nas alianças formas de amenizar essa dificuldade. Dambisa Moyo (2010) destaca que a China é atualmente o maior investidor na África e defende que essa presença é benéfica, uma vez que o governo chinês não interfere nas vontades do governo africano e nem é arbitrário em relação aos gastos de capitais, porém essas alianças podem ser vistas como investimentos futuros, uma vez que a China deseja propagar ao máximo seus ideais e recrutar aliados. Neste caso, muitos autores defensores da teoria neo-realista, como Mearsheimer (2001), irão acreditar que as alianças buscadas pela China têm como objetivo não somente de garantir sobrevivência, mas também uma tentativa de fazer com que a balança de poder mundial penda para seu lado. Segundo a visão de Zakaria (2008), a China viu a necessidade de sua participação em instituições internacionais como a OMC (Organização Mundial do Comércio), FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial, além da participação de tratados, como o próprio Protocolo de Kyoto8. O foco principal não era moldar seu comportamento de acordo com os padrões estabelecidos por estas organizações, mas sim auxiliar na abertura de sua economia e propagar sua imagem para outros países, porém as regras estabelecidas por estas instituições no ato da adesão chinesa não estão sendo cumpridas pela nação asiática. Apesar de buscar alternativas para a diminuição de sua parcela de emissão de gases prejudiciais ao meioambiente, a China se utiliza do conceito de país em desenvolvimento para evitar uma 6 Projeto de implementação de vias ferroviárias com trens de alta velocidade, ligando 17 países ao território chinês, incluindo Mianmar, Tailândia, Singapura e Vietnã. 7 Largura da via - férrea. 8 Tem como objetivo firmar acordos de redução na emissão de gases-estufa na atmosfera, com foco nos países industrializados. O tratado também busca criar formas de desenvolvimento para os países em pleno desenvolvimento que sejam menos impactantes ao meio-ambiente. 12 diminuição em sua industrialização, o que conseqüentemente, diminuiria sua produção e desaceleraria sua economia. Fato este que se ocorrer diminuirá as chances de um balanceamento de poder por parte da China. Mas a China não burla somente as orientações do Protocolo de Kyoto, mas também atua de forma negligente com outras organizações, mantendo sua posição diante da Guerra Cambial. A Guerra Cambial é definida pela desvalorização da moeda nacional chinesa, Yuan, com propósito de ganhos na competição de produtos produzidos internamente sobre os produtos importados, além de aumentar sua parcela de exportações, uma vez os produtos chineses permanecem mais baratos que os de qualquer outro Estado. Essa definição é dada por Bergsten (2010), assim como a explicação do mecanismo utilizado pelo governo para manter a moeda inferiormente valorizada em relação ao dólar. O governo chinês autoriza a compra de aproximadamente 1 bilhão de dólares por dia no mercado de câmbio, o que atualmente faz com que a China ocupe o lugar de país detentor da maior quantia de reservas cambiais do sistema internacional. Essa medida artificial contraria as normas das instituições citadas anteriormente, já que para a OMC, além de protecionista, essa ação pode ser traduzida como um subsídio para os produtores nacionais, o que é estritamente condenado pela organização. Além desta, o FMI também defende a valorização do Yuan perante o dólar, entendendo que além de agravar a crise americana, aumentando seu déficit na balança comercial, o desemprego desencadeado dentro dos Estados Unidos também é uma conseqüência desta medida artificial. A crise ocorrida em 2008 e que culminou na recessão da economia norte-americana foi causada por um estímulo ao crédito, de acordo com a definição de Pieterse (2009). O banco central americano, Federal Reserve, agravou o cenário da economia americana ao permanecer com as taxas de juros muito baixas e dessa forma, incentivando o crédito, aumentando a liquidez e permitindo a aquisição de empresas por outras companhias que não possuíam a quantia necessária de capital disponível. Junto deste panorama, a crise do mercado imobiliário foi agravada pelo refinanciamento da hipoteca por parte de muitos cidadãos norteamericanos com intuito de pagarem suas dívidas, renovação esta que não foi suportada pelo sistema. A crise levantou a questão de interdependência das economias norte-americana e chinesa, ponto este debatido por Zakaria (2008), pois em 1995, 5% dos produtos vendidos nas redes de varejo americanas eram chineses e atualmente esse índice subiu para 50%. Grande parte do dinheiro gasto pelos americanos em suas compras volta aos cofres americanos através da compra dos títulos do Tesouro Americano pelo governo chinês. Sendo assim, essa 13 dinâmica opera com a China necessitando dos Estados Unidos por serem seus maiores importadores enquanto a nação norte-americana entende que a potência asiática auxilia no financiamento de sua dívida externa. Um ponto importante levantado por Bremmer (2010), em relação à crise de 2008, é que a China se reergueu de forma rápida e estruturada, demonstrando a validade do sistema chinês, que rejeita o livre mercado de acordo com os princípios norte-americanos, mas é adepto de um capitalismo de Estado. A China passou a focar no fortalecimento do consumo interno para diminuir a dependência de sua economia, ato este que deve ser feito com cautela, não somente para evitar desequilíbrios na economia mundial, mas também porque a estrutura de produção chinesa ainda precisa se organizar o suficiente para atender o consumo de sua população. Não só economicamente o governo chinês busca a estruturação, mas também na área da segurança. A China apresenta atualmente um investimento militar equivalente a 13% do capital total investido pelos Estados Unidos em seu exército. Segundo Bremmer (2010), o valor é diminuto, além de que as tecnologias e treinamentos empregados pelos norte-americanos são muito superiores, fazendo com que um embate real entre esses exércitos não represente uma estatística favorável em relação à frente militar chinesa, porém a potência asiática conta com o Exército de Libertação Popular, o maior do mundo em número de integrantes, além de possuir um arsenal de armamentos nucleares. De acordo com as teorias realistas a serem discutidas, os conceitos de território, dimensão populacional e armamentos nucleares são fatores que contribuem para que um país seja considerado poderoso no sistema internacional, e que assim seja visto como um possível balanceador de poder. O fato de se estabelecerem em continentes diferentes, separados por oceanos, dificulta a idéia de um embate direto, mas as capacidades militares chinesas, juntamente com sua influência sobre as nações aliadas no Oriente dificulta qualquer pressão feita por parte dos Estados Unidos contra a China dentro do continente asiático. Mesmo com todo este investimento, certos aspectos da segurança norte-americana não podem ser cobertos, como os atentados de 11 de setembro de 2001. Perante os danos sofridos devido à violência das organizações terroristas, a política americana se desestabilizou, culminando na Guerra do Afeganistão, fato que afetou a imagem dos Estados Unidos no cenário internacional, além de tornar turbulentas alianças estabelecidas pelos norte-americanos, devido à divergência de opiniões. É importante atentar para o fato de que a invasão ao território afegão foi contra os princípios da Organização das Nações Unidas, já que esta prega 14 medidas que estabeleçam a paz no sistema internacional. Para certos autores, como Stein (2002), a realidade do terrorismo está ligada ao fenômeno da globalização. Essa lógica se deve ao fato de que as redes de terror são independentes do funcionamento dos Estados e das instituições, se beneficiando através da facilidade de locomoção, comunicação e do desenvolvimento tecnológico. O fenômeno da globalização se contextualiza com a dinâmica de disputa pelo poder contemporânea. Para Huntington (1997), “o mundo está se tornando um lugar pequeno e, portanto, a interação entre as civilizações está aumentando, elevando também a consciência das diferenças civilizatórias e impulsionando a animosidade entre grupos” (1997, pg. 54). Dessa forma, o mundo sempre precisará optar por um dos lados combatentes quando diferentes ideais se chocarem, ou então a nação mais poderosa irá impor sua vontade sobre todas as outras. Esse fenômeno pode atingir várias esferas do sistema, situação essa defendida por Landau (2001), que pontua o fenômeno como multifacetado, multidimensional e diretamente ligado às esferas econômica, política e cultural, influenciando pessoas, assuntos, organizações e empresas para além das fronteiras nacionais. Dentro desta discussão é possível perceber a necessidade de balanceamento de poder por parte das nações que não desejam ter seus ideais destituídos por potências mais fortes, mas para que essa dominação seja evitada é preciso dispor de todos os recursos de poder possível, como os anteriormente citados neste artigo. 3. TEORIAS: REALISMO E NEO-REALISMO A análise do balanceamento de poder entre China e Estados Unidos será relacionada às teorias realista e neo-realista, uma vez que estas poderão demonstrar a dinâmica da divisão de poder mundial através do comportamento racional dos Estados. Dentre as teorias trabalhadas, a principal a ser abordada será a do equilíbrio de poder através da perspectiva neo-realista apresentada por John Mearsheimer (2001), a qual será complementada pela visão do também neo-realista Kennethy Waltz (1979) e do teórico realista Hans Morgenthau (2003). O analista Sarfati (2005) acredita ser importante destacar que para os autores defensores das visões realista e neo-realista, o poder é o elemento central de análise e este pode ser identificado pela 15 soma das capacidades políticas, econômicas, tecnológicas e militares de um Estado ou através de uma comparação com o poder de outras nações. Dada a definição de quais teorias serão relacionadas com esse artigo, se torna importante diferenciar a linha de raciocínio realista, de Hans Morgenthau (2003), dos neo-realistas Kennethy Waltz (1979) e John Mearsheimer (2001). Para os realistas, o Estado é um ator único no sistema internacional, visto com unitário e racional, dessa forma se compreende que nenhum ator internacional não-estatal tem valor no cenário mundial, além de que os Estados se manifestam através de sua política externa sem preocupações com a opinião doméstica e todas as suas ações visam fins lucrativos. Para os defensores da visão realista, a segurança é o principal assunto na agenda internacional, mas sempre tendo em vista de que as ações das nações são motivadas pelos interesses nacionais com foco no aumento de poder. A teoria se baseia na tentativa de explicar a realidade como ela realmente é e não com deveria ser e por isso busca razões para as causas e conseqüências dos conflitos. A teoria neo-realista, que surgiu posteriormente, defende que no sistema internacional não há espaço para cooperação por livre vontade dos Estados, mas que a prioridade destes é a sobrevivência dentro do sistema internacional. O cenário mundial mantém o perfil de não possuir um agente regulador superior a todos os outros Estados. Essa teoria também prega que o sistema internacional é o resultado das interações entre atores estatais e não-estatais, sendo este segundo tipo não tão relevante quanto as nações, enquanto estas têm suas funções estabelecidas de acordo com seus recursos e capacidades disponíveis, e dessa forma é possível determinar o patamar de importância de cada Estado dentro do cenário mundial. 3.1. Waltz e a Balança de Poder. Para este artigo, a questão principal das teorias escolhidas é a discussão acerca do balanceamento de poder, assunto este que foi analisado por Waltz (1979). O teórico neorealista entende que o cenário internacional é anárquico e descentralizado e que esta dinâmica produz um ambiente competitivo entre os Estados, classificados como atores racionais, que além de desejarem sua sobrevivência, podem agir com objetivo de eliminação de nações rivais. Por ter uma visão com foco na segurança dos Estados, Waltz (1979) acredita que o importante para identificar a força de um ator estatal seja a análise da distribuição de suas 16 capacidades, enfatizando na qualidade de liderança do exército, treinamento, soldados, capacidade bélica, tecnológica e econômica, porém estas devem ser analisadas em conjunto e de forma comparativa com outras nações do sistema internacional. Um dos pontos concluídos por Kennethy Waltz (1979) em sua teoria é de que em um ambiente anárquico, os Estados vêem a guerra como resultado de sua natureza, já que por serem todos soberanos os mais poderosos definem se farão uso da força contra os Estados mais fracos, e como o teórico entende que a vontade mínima de todo Estado é a preservação de si próprio, estratégias militares e econômicas são utilizadas para gerar um balanço de poder. O teórico acredita que alianças também são instrumentos facilitadores desse balanço, já que podem auxiliar na maximização do poder ou para evitar sua perda, dessa forma, Waltz (1979) defende que o balanceamento não é realizado de forma automática, como acredita Hans Morgenthau (2003), pois os Estados analisam se o mais vantajoso não seria uma união com uma potência mais bem colocada dentro do sistema internacional, união esta classificada como bandwagon. Para que o bandwagon ocorra, na visão de Waltz (1979), é necessário que uma potência, mesmo que regional, já esteja estabelecida e assim os outros Estados sem força para um balanceamento de poder se unam a esta para atingir o máximo de benefícios possíveis, sendo esta estratégia uma alternativa para os Estados secundários, principalmente quando há Estados fortes de coalizões próximas às suas no sistema internacional. Ao discutir um agrupamento de Estados causado pelo bandwagon, Waltz (1979) levanta a questão da divisão de poder no cenário internacional, explicando os ambientes de multipolaridade, bipolaridade e unipolaridade, onde o teórico acredita que em um cenário unipolar, os Estados tendem a balancear entre si de forma a diminuir a força da potência mundial e que no ambiente multipolar, os agrupamentos em torno dos Estados mais fortes irão se balancear, criando vários pólos de poder no sistema internacional. Se as nações eram de fato as unidades imutáveis sem vínculos permanentes entre si, e se todas foram motivadas principalmente por uma unidade de maximizar o seu poder, com exceção de um balanceador único, cujo objetivo era impedir qualquer nação de alcançar o poder preponderante, talvez pudesse resultar em um equilíbrio de poder. (WALTZ, 1979, p.119) Waltz (1979) traduz a definição de poder como algo medido pelas capacidades conjugadas que os Estados têm em seus setores políticos, econômicos e militares, explicitando a importância do desenvolvimento da capacidade econômica para a segurança de uma nação. O neo-realista entende que o sistema anárquico por si só já é estável, uma vez que leva a uma 17 ordem natural dos Estados, porém ele considera que a divisão de poder mais equilibrada seja a bipolar, pois a balança dificilmente penderá de forma desproporcional para o lado de um Estado, já que estes terão um mesmo nível de poder. Já a ordem da multipolaridade é enquadrada como um distúrbio no balanço do poder, uma vez que várias nações tentando utilizar-se de barganha para atingir seus objetivos podem trazer instabilidade para o sistema internacional, ao passo que somente uma potência retendo a maior parcela de poder diminuiria a soberania dos outros Estados, fazendo com que esta superpotência se tornasse a única reguladora, além de que nesta divisão os outros Estados tenderiam a continuar tentando balancear o poder desta potência única. 3.2. Equilíbrio de poder através da visão de Mearsheimer Outra teoria neo-realista é apresentada por John Mearsheimer, em A Tragédia da Política das Grandes Potências (2001), e se resume na incessante busca das grandes potências por oportunidades de conquista de maior poder, tendo a hegemonia como foco principal. Dessa forma o teórico é levado a classificá-las, em sua maioria, como potências revisionistas, ou seja, com intenção de alteração no status quo. Para ele, a justificativa do comportamento das grandes potências pode ser encontrada na combinação de cinco elementos. O primeiro ponto levantado por Mearsheimer (2001) é a anarquia do sistema internacional, uma vez que a soberania dos Estados se justifica pela ausência de um agente regulador superior à autoridade de qualquer nação, o que, para a visão neo-realista não corresponde a um ambiente desordenado. Um segundo aspecto é o fato de que toda grande potência apresenta uma considerável capacidade militar ofensiva, comprovação esta que leva a conclusão de que um Estado pode vir a atacar seu inimigo. Logo após essa consideração, o teórico destaca que as nações podem ser instáveis e imprevisíveis, fazendo com que seja difícil para um Estado estar seguro em relação às intenções de outro. Este terceiro aspecto está diretamente ligado à capacidade militar, uma vez que a imprevisibilidade só é temida se o inimigo possui armas para atacar. Uma quarta hipótese levantada no texto é a de que todo Estado busca sua sobrevivência no sistema internacional, onde para todo ator internacional soberano, a primazia é a integridade territorial e a independência de sua política interna. Sendo assim, os Estados baseiam ações 18 em suas vontades, aumentando a insegurança de outras nações. O quinto elemento se apresenta como a racionalidade dos Estados, com a qual se manifestam de diferentes formas para garantir sua sobrevivência no ambiente externo, sendo que este último elemento deixa explícito que as ações dos Estados no ambiente internacional impactam diretamente no comportamento dos outros atores internacionais soberanos, seja este ofensivo ou defensivo. John Mearsheimer (2001) afirma que estas hipóteses só apresentam caráter ofensivo se forem analisadas em conjunto. A análise do teórico apresenta o conceito da auto-ajuda, uma vez que os Estados, priorizando sua sobrevivência, buscam fazer alianças temporárias. Entende-se que estas alianças são feitas baseadas em interesses comuns momentâneos e não haverá obrigação de continuidade desta relação em um futuro próximo, já que cada Estado optará pelo seu interesse próprio. Simulando a insegurança dos Estados, esta teoria entende que os Estados compreendem que a melhor maneira de assegurar sua sobrevivência é se tornando a potência mais poderosa do cenário internacional e que para obter essa maximização de poder, deve-se utilizar de diversos campos como o econômico, militar e até mesmo diplomático. Sobre a dinâmica da busca pelo poder, Mearsheimer (2001) afirma que a única forma de uma potência parar de lutar por poder é se tornando a hegêmona do sistema. Essa afirmação é feita sob a condição de que não é possível mensurar o exato poder de outra potência, além da dificuldade de prever de que forma serão aplicados os recursos de um Estado em um tempo futuro. Dentro da questão de hegemonia global, esta teoria neo-realista acredita que mesmo que uma potência não possua recursos suficientes para alcançar o domínio sobre todos os outros Estados, esta deve sempre focar na maximização de poder, evitando assim que um número maior de Estados possa vir a ameaçá-la. Um ponto comum nas teorias neo-realistas é o fato de que os Estados vão sempre se preocupar com os ganhos relativos. Este conceito se baseia no fato de que mesmo que uma nação conquiste determinado poder, esta deve se preocupar com o ganho de seus inimigos, buscando sempre a lógica do equilíbrio de poder dentro do sistema internacional. Portanto, esse Estado deve renunciar a ganhos exorbitantes de poder caso a alteração das capacidades de seu inimigo seja ameaçadora. Neste modelo de análise, uma potência que possua uma quantidade superior de poder em relação à outras nações pode ter seu comportamento agressivo justificado já que não precisa temer retaliações por parte de outras potências. Ao contrário desta, as potências com quantidade inferior de capacidades preferem buscar defender o equilíbrio de poder instaurado, 19 já que ao se lançar em disputa com um Estado mais poderoso, a potência menos favorecida pode perder ainda mais seu status quo. Nesta ótica, nenhuma potência deve se lançar a uma disputa caso julgue maiores as chances de prejuízo. Sendo assim, cada vez que a oportunidade de galgar uma melhor posição no sistema internacional surgir, o Estado deve analisar se seus benefícios são superiores às possíveis perdas. A definição de um Estado hegemônico pode ser compreendida como uma nação tão poderosa capaz de dominar todos os outros atores soberanos, sendo assim representada como a única grande potência, já que se esta nação for somente mais forte que as demais, ainda podendo ser balanceada, não poderá ser considerada como hegemônica. O autor Mearsheimer (2001) conceitua que “hegemonia significa dominação do sistema, o qual é geralmente interpretado como significando o mundo inteiro” (2001, pg. 53). Dentro da classificação de hegemonia, o teórico apresenta as divisões dos hegêmonas regionais e global, no qual o primeiro deve ter total dominação regional o e o segundo deve comandar por completo todos os Estados do Sistema Internacional. O empecilho ao hegêmona global deve-se ao poder parador das águas, onde Mearsheimer (2001) discute sobre a dificuldade de expansão de poder imposta pela existência dos oceanos, somente podendo servir como exceção a nação dotada de grande vantagem em relação aos armamentos nucleares, mas então esta não precisaria demonstrar sua força, uma vez que todos os outros Estados a considerariam um hegêmona global. Dentro desta discussão de armas nucleares e sua influência sobre o poder exercido pelos Estados detentores, Waltz (2000) desenvolveu a lógica de que se mais de uma nação possui tecnologia nuclear, isso dificulta o uso desse tipo de armamento. Essa dificuldade é dada a partir do momento em que não é possível garantir que o ataque de um Estado irá destruir todo o arsenal de ogivas de seu rival, ao passo que o Estado vitimado provavelmente reagiria com o mesmo uso de armamento nuclear. Portanto, somente uma nação detentora de quantidade muito superior de tecnologia nuclear poderia exercer domínio através do amedrontamento das outras potências. Já sobre os hegêmonas regionais, seu foco maior é impossibilitar que outras nações façam frente ao seu poder mesmo que localizadas em continentes distintos, preferindo então a existência de duas potências equivalentes em um mesmo bloco, uma vez que elas se balancearão e se manterão preocupadas em disputar entre si ao invés de tentar se equilibrar com o outro hegêmona regional. A situação ideal colocada pelo teórico é que um Estado com hegemonia regional se tornaria uma potência situacionista, mas assim que houvesse um rival à 20 sua altura, esta potência assim deixaria de ser classificada e passaria a buscar todas as formas de enfraquecer a outra potência regional, significando que sempre que ocorresse uma equiparação de forças, esta se tornaria uma competição pelo poder. Pertinente à discussão desta pesquisa, um dos pontos levantados por John Mearsheimer (2001), é de que um Estado acuado irá buscar um aumento de sua segurança, mesmo que tenha que se fazer valer de políticas arriscadas e este medo de um Estado justifica o início de um período de tensões que pode levar à guerra, uma vez que as nações envolvidas podem utilizar suas capacidades militares umas contra as outras. Para compreender quão ameaçador pode ser o uso do poder, o teórico neo-realista pontuou dois tópicos baseando a capacidade de poder de uma nação na dimensão de sua população e em seu nível de riqueza, já que estes elementos compõem uma possível grande força militar. Em contraponto, a teoria acredita que potências separadas por oceanos não temam umas as outras de forma exagerada, uma vez que o embate direto, através de invasões territoriais, é dificultado pelo acesso limitado. O poder potencial de um estado tem por base a dimensão da sua população e o nível de sua riqueza. Estes dois ativos são os principais alicerces do poder militar. Rivais ricos com grandes populações são geralmente capazes de construir forças militares terríveis. O poder real de um estado assenta fundamentalmente no seu exército e nas forças aéreas e navais que o apóiam diretamente. Os exércitos são o ingrediente central do poder militar, uma vez que constituem o principal instrumento de conquista e domínio de território. (MEARSHEIMER, 2001, p. 56) As dinâmicas de divisão do poder mundial também afetam diretamente no medo e insegurança das potências. Para John Mearsheimer (2001), a divisão da bipolaridade entre as potências é a que gera menor nível de insegurança entendendo-se que a proximidade de capacidades de poder entre estas é maior do que em um sistema multipolar. Neste sistema multipolar, as disparidades de poder entre nações podem ser menos drásticas caso não haja um Estado hegemônico em ascensão, classificando-se como multipolaridade equilibrada, mas caso uma potência desponte, esse será o ambiente que proporcionará maior insegurança entre os envolvidos, sendo chamando de mulitpolaridade desequilibrada. Potências, como já mencionado anteriormente, são Estados racionais dotados de recursos abundantes, que primam pela maximização de seus ganhos, o que corresponde à sua parcela de poder no cenário internacional. Sendo assim, estes não têm interesse de estabelecer rígidos critérios ao formarem alianças em situações de tensão, não focando em regimes de governo ou visões futuras semelhantes, mas somente em criar uma união motivada pelo desejo de combater ou conquistar determinado fim que só poderá ser obtido através de junção das capacidades. Com a mesma lógica egoísta, pode-se afirmar dentro da teoria neo-realista que 21 as potências não estão preocupadas em manter um ambiente internacional estável, mas sua busca por poder acaba gerando equilíbrio entre as forças, resultando assim em um ambiente de ordem. O fator da cooperação é também um ponto especulado na teoria de Mearsheimer (2001), pois para o neo-realista, as maiores dificuldades de operar um sistema de cooperação são os ganhos relativos e o medo de armadilhas. Caso os Estados foquem nos ganhos relativos ao invés dos absolutos, a cooperação fica dependente da concordância de ambos os Estados, já que primeiramente eles devem analisar se o ganho do outro afetará seu próprio status quo futuro. Através dessa lógica é possível pensar na Balança de Poder, onde o sistema internacional será organizado pelos próprios Estados de modo a evitar grandes alterações inesperadas no nível de poder de seus participantes. As armadilhas também são enquadradas como um obstáculo para a cooperação, já que ao se acordar tratados de cooperação, os Estados sempre estarão sujeitos à possível deserção da outra nação e esta última pode assim se comportar com objetivo de conseguir algum tipo de vantagem, especialmente em casos baseados em acordos militares, os quais proporcionam uma virada imediata de capacidade de poder e conseqüentemente, na alteração do status quo das potências. O debate realista da teoria de John Mearsheimer (2001) sobre equilíbrio de poder precisa de uma conexão com os fatores que contribuem para a formação de uma potência no sistema internacional. Sendo assim, um Estado, para o teórico, precisa ser dotado de poder latente e militar para ser entendido como potência. A definição de poder latente compreende os fatores sócio-econômicos que auxiliam na obtenção do poder militar, como a dimensão de sua população e seu nível de capital e recursos disponíveis para utilização. Portanto, o poder latente é uma exigência para a manutenção do poder militar. Já o poder militar puramente analisado, compreende as forças militares do Estado e de que forma estas se comportam se comparadas a outros Estados, destacando que ao se falar de poderio militar, a questão principal é o peso e impacto do exército de cada nação, uma vez que as forças complementares, como aéreas e navais, servem como suporte. A lógica que esta teoria abrange é de que apenas potências com grandes populações podem vir a se tornar referência em poder militar, já que não somente os recursos financeiros aplicados são importantes, mas também o tamanho do seu exército frente aos outros. Além deste ponto, Mearsheimer (2001) argumenta que somente grandes populações podem vir a gerar riqueza abundante e que é através desta que se ergue uma frente militar de impacto. Para 22 analisar essas proporções de população, geração de recursos e suas aplicações, o neo-realista busca medidores para averiguar quais potências tem maior impacto no cenário internacional, como o PIB. 3.3. Hans Morgenthau e o realismo defensivo A visão realista focando na explicação da divisão de poder mundial é contemplada por um teórico que apresenta pontos especificamente relevantes para esta pesquisa. Hans Morgenthau (1948) acredita que o próprio desejo de alcançar cada vez mais poder por parte das potências leva ao conceito de equilíbrio de poder. A segurança é um ponto-chave na análise deste autor que é classificado como defensivo, assim como Waltz (2000) e se diferenciando de Mearsheimer (2001), que é classificado com ofensivo. A diferença entre estes dois termos está nas atitudes tomadas pelos atores para maximizar sua segurança, pois enquanto os defensivos crêem em uma preservação do equilíbrio já existente de poder, os ofensivos optam pela maximização de sua parcela do poder mundial. Para este autor, as formas mais propícias para que o equilíbrio de forças ocorra são as de oposição direta e o ambiente de competição. Em um contexto de oposição direta, um Estado mede forças com outro Estado de forma direta, onde este segundo pode optar por defender o status quo já estabelecido ou tentar uma ação expansionista, em resposta ao comportamento agressivo da primeira nação. Como mencionado na teoria de John Mearsheimer (2001), uma potência deve analisar principalmente suas capacidades ofensivas antes de se lançar a uma tentativa de domínio de um Estado rival, uma vez que um erro de cálculo pode alterar por completo sua posição global. Já em um ambiente de competição, um mesmo Estado pode sofrer pressão de diversos outros Estados, uma vez que uma potência não se preocupa somente com um rival, mas sim com qualquer outra nação que possa interferir em seus objetivos de alcance de poder. Morgenthau (2003) acredita que, mesmo fora do conceito de equilíbrio natural, seja possível obter influência através de outros métodos. Suas explicações mais clássicas são dadas através das alianças e dos armamentos, onde é possível fazer uma ponte com os esclarecimentos da teoria de Mearsheimer (2001). Para ambos os teóricos, as alianças são opções de exercer um balanceamento, mesmo que estas não sejam duradouras e sirvam apenas para se conquistar 23 um objetivo próximo que só pode ser alcançado através de um acúmulo de poder. Sendo assim, as potências precisam somente de um objetivo em comum e não exatamente um perfil semelhante, uma vez que podem se tornar inimigos futuros. Uma segunda escolha seria o acúmulo de armamentos, significando um aumento das capacidades militares de um Estado, visão esta também compartilhada por ambos os realistas. Na esfera das teorias realistas, um Estado só garante sua sobrevivência através do aumento vantajoso de poder em relação às outras potências, evitando assim ameaças ou incertezas. Esta alternativa, proposta por Morgenthau, pode assegurar um Estado não somente de garantir sua sobrevivência, mas também de equilibrar as forças dentro do sistema internacional. Todos os pontos utilizados por Hans Morgenthau (1948) para consolidar as teorias da balança de poder são justificados pelo fato de que as ações de um Estado são guiadas pelas decisões de seu estadista, que buscará de forma racional a defesa dos interesses nacionais, sendo este interesse traduzido por maior quantidade de poder e, portanto, segurança. A prudência deve ser levada em consideração pelo tomador de decisão de um Estado, evitando assim que seus atos sejam guiados pelo ímpeto da conquista, uma vez que as teorias realista e neo-realista julgam a racionalidade como elemento essencial para a segurança de uma nação. Como os demais autores, Waltz (1979) não se difere ao acreditar que mesmo em um sistema anárquico, as decisões dos Estados motivadas por seus interesses nacionais provocam uma diminuição do nível de segurança internacional, levantando assim a hipótese de que a única forma de melhorar a previsibilidade de ações de nações rivais é através do estudo da distribuição das capacidades de poder, unindo-se ao conceito de John Mearsheimer (2001), que observa o poder latente e militar antes de atacar. Além desta premissa, o teórico defende que o ator que deve sempre reter o poder é o Estado, entendendo que este é o único soberano de fato e também o único tomador de decisão de real influência. Para as visões realista e neo-realista, a vivência em um ambiente anárquico e racional mantém os Estados com comportamento padronizado através do interesse nos ganhos. Esta entende que o conceito de auto-ajuda auxilia na manutenção da segurança, onde o Estado deve focar em suas perdas e ganhos. Waltz (1979) defende dessa forma, que os Estados devem ter seus comportamentos flexíveis durante a participação na Balança de Poder, uma vez que suas ações irão variar em caso de perda de poder ou fortalecimento deste, sempre focando nos ganhos relativos, onde a variação do poder do outro também é levada em consideração. 24 Para o teórico John Mearsheimer (2001), a questão do dilema de segurança, desenvolvida por John Herz (1950), faz parte da explicação do balanceamento de poder através da ótica ofensiva do realismo. O dilema de segurança pode ser encarado como a situação estabelecida no sistema internacional sempre que um determinado Estado põe em prática alguma ação para aumentar seu nível de segurança. Isto ocorre porque, como já explicado anteriormente, o nível de segurança está diretamente ligado ao nível de poder de uma potência, significando que quanto maior este poder, seja ele somente militar ou também latente, mais os outros Estados ficam vulneráveis e, portanto, mais inseguros. A visão realista e racional dos Estados faz com que estes busquem sempre um aumento de seu poder, mas não há formas de se medir a quantidade de poder que um determinado Estado precisa obter para se proteger, dessa forma, outros Estados se tornam inseguros e temem por sua sobrevivência, focando cada vez mais no aumento de suas capacidades, principalmente militares. Somando este fator à dificuldade de previsibilidade do comportamento dos atores internacionais, cria-se uma corrida armamentista. Para a análise do balanceamento de poder entre China e Estados Unidos, a teoria neo-realista ofensiva de Mearsheimer (2001) será a utilizada, uma vez que esta compreende que o cenário internacional suporta a existência de duas potências regionais em continentes diferentes e que estas irão se balancear através de suas capacidades e alianças com outras nações. Além disso, Mearsheimer (2001) como um neo-realista ofensivo, acredita que a maximização de poder é a chave para garantir uma maior segurança para os Estados, e que para esta maximização é necessário desenvolvimento bélico, militar e econômico, contando também com extenso território e grande índice populacional, fatores estes que compõem o perfil de uma potência capaz de balancear o poder de outra. O autor neo-realista, através do desenvolvimento da teoria do poder parador das águas e da questão dos armamentos nucleares, embasará o debate que busca definir quais são as ferramentas válidas utilizadas pela China em sua tentativa de balanceamento de poder com os Estados Unidos. 4. AS CARACTERÍSTICAS BALANCEADORAS DE PODER Baseando-se no panorama chinês e norte-americano demonstrado anteriormente por este artigo, juntamente com a teoria neo-realista, do autor John Mearsheimer (2001), esta análise 25 visa investigar se a China dispõe de fatores que a levem a um equilíbrio de poder com os Estados Unidos, facilitando assim o desenvolvimento de fatores conclusivos para esta pesquisa. O ambiente internacional atual é anárquico, portanto não há nenhum ator regulador acima dos Estados, dessa forma não há como distinguir níveis de poder entre os atores estatais senão a análise de suas capacidades. Como Mearsheimer (2001) apresentou em sua teoria, os Estados que buscam conquistar maior parcela de poder são classificados como potências revisionistas, e assim a China pode ser classificada. A explicação é baseada no fato de que a China continua a investir constantemente no aumento de sua produção, aquecimento de sua economia, aumento do investimento no setor militar e desenvolvimento de tecnologia nuclear, galgando através dessas melhorias uma parcela maior de poder no sistema internacional. O governo chinês entende que o aumento de sua influência no cenário mundial corresponde a uma menor possibilidade de dominação por parte dos Estados Unidos e, dessa forma, mais chances de alcançar seus objetivos. Como já antes apresentado, de acordo com a teoria do cientista político, Nye (2002), somada às características da teoria de Mearsheimer (2001), é possível entender os Estados Unidos como uma potência regional. Classificação esta embasada através dos investimentos feitos no âmbito militar, da influência exercida na economia mundial, fato verificado pelo impacto da recessão de sua economia no setor econômico de outros Estados, do desenvolvimento de tecnologia e principalmente pela referência exercida dentro do continente americano. Após essa definição clara da posição dos Estados Unidos da América, essa pesquisa ressalta que a teoria do equilíbrio de poder apresenta um fator chamado conceito da auto-ajuda, significando que os Estados, cientes de que a sobrevivência é tida como foco principal, se utilizam de comportamentos egoístas e alianças de curto prazo com intuito de maximizar seu poder. A China então entende que para se proteger dentro deste sistema internacional é necessário se aliar a outros Estados, como os do Oriente, visando um aumento de poder e de sua segurança. É importante destacar que para este artigo, os Estados Unidos da América não são tidos como hegêmona global, pois, baseando-se na teoria neo-realista, não há uma dominação do sistema internacional por parte da potência norte-americana, uma vez que essa dominação é dificultada pelo poder parador das águas, onde Mearsheimer (2001) identifica ser muito complexo o avanço de poder de um Estado através dos oceanos. Além desta dificuldade, os Estados Unidos não possuem arsenal nuclear tão superior às outras potências do cenário 26 internacional, o que significa que não pode haver uma dominação por amedrontamento de outros Estados por parte dos norte-americanos. Através dessa ótica, é possível estabelecer uma conexão com os armamentos chineses, uma vez que a China também possui ogivas nucleares, mas estas serão anuladas perante os Estados Unidos. Essa nulidade se dá através de uma lógica desenvolvida por Waltz (2002), conectada à teoria de Mearsheimer (2001), onde o teórico prega que arsenais nucleares não têm finalidade se forem equivalentes, já que uma vez utilizados com intuito de destruir o oponente, podem gerar o efeito contrário e fazer com que o Estado vitimado também bombardeie a potência agressora. Como definido na análise das teorias realista e neo-realista, toda potência deve ter capacidades militares ofensivas, e essas capacidades militares recebem influência de outros setores. Mearsheimer (2001) entende que potências dotadas de extensos territórios e grandes populações podem, além de criar grandes exércitos, produzir riquezas que serão a base do investimento no poder militar. Todos os fatores sócio-econômicos são considerados, para o teórico, como um poder latente, mas que influi tanto quanto o militar no equilíbrio de poder no sistema internacional. Neste caso, a China pode ser enquadrada como uma potência dotada de poder militar, mesmo que inferior aos Estados Unidos, mas também de poder latente, dada suas características demográficas, analisadas no panorama dos dois Estados. O poder militar dos Estados Unidos recebe grande destaque em relação aos investimentos feitos pelo país na área, porém a China não possui grande desvantagem neste aspecto, pois está localizada em outro continente, separada da potência norte-americana por oceanos. De acordo com a teoria do equilíbrio de poder, potências regionais separadas pela água dificilmente irão entrar em choque direto. A explicação do panorama atual das duas potências apresenta um Estados Unidos fragilizado por constantes instabilidades em sua política e economia, porém, segundo Pieterse (2009), essa debilidade não afetou a potência norte-americana a ponto de levar sua influência sobre outros Estados ou seu poder econômico à posição de irrelevante. Sendo assim, a potência regional americana deve ser temida, porém a China é capaz de analisar suas possíveis perdas e ganhos, caso um combate, mesmo que não físico, seja iniciado por ambas as potências. Como toda potência revisionista, a China precisa pesar o tempo todo se os custos de provocar uma disputa acirrada por poder pode de fato alavancar seu status quo no sistema internacional. Essa questão deve ser relacionada com o aspecto trabalhado anteriormente sobre a interdependência da economia de ambos os Estados. Essa interdependência não deve ser 27 encarada como uma aliança, mas sim como um fator inerente à manutenção do nível de desenvolvimento econômico de ambas as potências. Nesse caso, a China deve se preocupar com outros fatores além dos atos de violência por parte dos Estados Unidos, já que uma ameaça da parte chinesa pode gerar conseqüências como a quebra deste relacionamento, desestabilizando sua economia que ficaria sem seu maior importador. Um ponto interessante desta visão é que os Estados Unidos também dependem da relação com a China para manter o ritmo de sua economia, uma vez que estes são os financiadores de sua dívida externa e os maiores comprados dos títulos do Tesouro Americano. Essa interdependência entre as economias, apesar de forçada, acaba por gerar certa estabilidade entre o relacionamento destas duas potências. Um aspecto importante no equilíbrio de poder é o de que os Estados são instáveis e imprevisíveis ao ponto de que, caso se sintam ameaçados, podem buscar aumento de suas capacidades. O medo é o maior estimulante para o desenvolvimento de formas de proteção por parte de um Estado e como a teoria utilizada nesta análise é neo-realista ofensiva, essa proteção se dá através de investimentos em armamentos, ou seja, formas de atacar o oponente. Nesse caso, tanto a China quanto os Estados Unidos possuem formas de se proteger, mas como já frisado neste artigo, o exército norte-americano, assim como seus investimentos em tecnologia e armamentos são bastante superiores aos chineses. Sendo assim, a China deve se utilizar da maior premissa neo-realista, fazendo uso da racionalidade e evitando atitudes baseadas no ímpeto da conquista, ou seja, os cálculos de ataque devem ser bem feitos, priorizando a prudência. Ao se falar em racionalidade e prudência, Mearsheimer (2001) destaca que o Estado atua de acordo com as vontades de seus governantes e são estes que devem ser dotados de distinção na hora da tomada de decisão, uma vez que essa racionalidade pode assegurar a sobrevivência do Estado. Outro conceito apresentado pela teoria neo-realista, conceito este do cientista político Nye (2002), é a distinção entre hard-power e soft-power e seu uso na propagação da influência de uma potência. Baseando-se em fatos já apresentados e nas teorias neo-realistas, os Estados Unidos são muito bem dotados de hard-power, com o qual conseguem obter seus objetivos, seja através de combate direto ou somente ameaça do uso da força. Em relação ao soft-power, esta potência vem apresentando menor credibilidade, uma vez que alianças foram desfeitas devido às guerras promovidas nos últimos anos, assim como as duras políticas impostas pelos recentes governos. Mesmo com certa dificuldade, a influência norte-americana muito é 28 facilitada pelo histórico de grande potência do pós-Guerra Fria e da relação de dominação com muitos outros Estados. Do outro lado deste balanceamento, a China apresenta características fortes de hard-power, uma vez que também consegue alcançar seus objetivos pelo amedrontamento de outras nações através do uso da força e de suas capacidades bélicas, inclusive nucleares, mas o soft-power propagado pela potência chinesa se diverge do feito pelos Estados Unidos. A influência pacífica da China é dada através do contato com a sua cultura, língua e produtos, mas também através das alianças constituídas com base nos investimentos financeiros feitos pela potência chinesa, como os que estão sendo realizados no continente africano. Através dessa comparação, ambas as potências são dotadas de poder pela força física e pela diplomacia, porém como já determinado, esse artigo acredita que o poder de ambos os Estados não serão utilizados um contra o outro, já que dessa forma é provável que haja uma desestabilização na ordem instaurada entre as nações em discussão. A influência destes poderes deve continuar a ser utilizada de forma a recrutar países aliados, na tentativa que estes entendam o bandwagon como uma alternativa de fortalecimento. Um dos temas discutidos neste artigo foi a participação da China em instituições internacionais. Para a visão neo-realista, esses agentes não-estatais existem, porém não tem igual relevância dos Estados, já que o principal objetivo destas organizações é a cooperação, dinâmica esta dificultada pelo comportamento dos Estados, uma vez que estes pesam os ganhos relativos e vêem grandes probabilidades de serem lesados em acordos que envolvam possibilidades de prejuízo em relação à sua posição no sistema internacional. A China, assim como os Estados Unidos, aderiu a instituições como a OMC e o FMI, porém suas políticas e comportamentos não foram completamente alterados de acordo com as normas por estas estabelecidas. A guerra cambial é o maior comprovante de que a inserção chinesa no ambiente das organizações internacionais só serviu para maximizar seus lucros, já que através destas a China pode ganhar maior visibilidade no cenário internacional, assim como garantir uma abertura econômica amparada pelas normas de mercado da Organização Mundial do Comércio. Os Estados Unidos não se distanciam muito desta lógica, pois ao fomentar guerras, está indo contra os ideais da Organização das Nações Unidas, mas como estas instituições somente podem aplicar sanções, os Estados ricos não vêem a necessidade do cumprimento das normas, a não ser pelo possível constrangimento moral. 29 A guerra cambial é compreendida dentro destas limitações das organizações internacionais, uma vez que o máximo que pode ser feito é a aplicação de multas ou penalidades envolvendo os produtos comercializados pela China, mas não há nenhum agente poderoso o suficiente para alterar a política econômica do país sem o consentimento do governo. Os Estados Unidos entendem a necessidade de alteração na política cambial chinesa, mas cientes de que sanções são a punição máxima das instituições, apelam para o recurso do comportamento moral correto, porém para este constrangimento surtir efeito é necessária a participação de outras nações, como o Japão, por exemplo. A lacuna deste dilema é que ao se tentar envolver outras nações, estas podem temer a reação do país retaliado, neste caso a China, sendo assim, vemos um claro cenário onde o balanço de poder poderia funcionar para se obter certos objetivos se a balança pendesse para o lado norte-americano. Muitas vezes a disputa de poder pode ser justificada pelo fato de que os Estados entendem que, apenas se tornando a nação mais poderosa do sistema internacional, poderão assegurar sua sobrevivência. A tentativa de maximização de poder pelas nações constituintes da dinâmica de equilíbrio de poder instaura a ordem involuntária, mesmo que esta ordem não seja a prioridade para os Estados. Essa lógica definida por Mearsheimer (2001) também pode ser aplicada na disputa de poder entre China e Estados Unidos, uma vez que não somente o medo da desestabilização econômica irá manter a ordem inabalada, mas também a constante luta pelo poder. Essa visão pode ser concretizada através da lógica do dilema de segurança, apresentado por Herz (1950), onde não é possível medir claramente o poder militar chinês ou norte-americano, o que significa que ambos os Estados medem o poder rival através de pesquisas inexatas para se armar de forma mais intensa que seu componente. Essa corrida por armas e poder mantém o rival receoso de atacar. O balanceamento no sistema internacional sempre irá existir, seja pela divisão unipolar, bipolar ou multipolar. O balanceamento serve como uma tentativa de equilíbrio ou equiparação de forças para evitar grandes perdas ou grandes ganhos por parte de apenas alguns Estados no cenário mundial. Nesse caso, independentemente da divisão de poder instaurada, é possível identificar uma nação ou uma aliança de nações buscando se aproximar do poder outro Estado. 30 5. ANÁLISE CONCLUSIVA O equilíbrio de poder é uma questão inerente para a compreensão da divisão de poder atual. Além desta compreensão é importante a identificação dos atores que buscam esse equilíbrio. Este artigo conclui que a China pode ser entendida como um agente balanceador do poder de hegêmona regional dos Estados Unidos, uma vez que além de dotada de recursos econômicos e militares é também dotada de vantagens geográficas e de racionalidade, que fazem com que este Estado possa medir seus ganhos e perdas, evitando um combate com grandes chances de prejuízo em seus status quo. A China atualmente é inferior aos Estados Unidos se a comparação for feita através de seu exército ou seus investimentos militares, porém, como explorado na análise, possui grande vantagem devido à sua posição geográfica, uma vez que esta dificulta o embate com as tropas norte-americanas. Apesar disso, devido à suas alianças e até mesmo seu exército, a China pode apresentar grandes chances de vitória sobre os Estados Unidos, caso estes decidam eventualmente por atacá-la em território oriental. A potência chinesa ainda está de fato se moldando e consolidando, tanto em termos econômicos, como sociais e militares, mas certas vantagens, como a interdependência da economia norte-americana, sua dimensão territorial e sua enorme população são fatores que já garantem que a China possa exercer um equilíbrio de poder. Esse artigo não busca prever se a China conseguirá superar a potência norte-americana ou se em algum momento dominará o sistema internacional, alcançando o status de hegêmona global e assim alterar a divisão de poder instaurada, mas busca simplesmente compreender se esta potência em ascensão já possui características que permitam um crescimento sem grandes amedrontamentos originados de um espírito competitivo dos Estados Unidos. Ao final desta pesquisa, é possível concluir que ambas as potências irão continuar a investir em melhorias em seus Estados, mantendo o posto de potências revisionistas, porém não é identificada nenhuma grande probabilidade de choque direto entre as duas nações no presente momento, já que é possível detectar que uma quebra de relacionamento entre estas políticas e economias resultaria em grande perda para os dois lados. 31 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O sistema político dos EUA e suas repercussões externas. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2005. STEIN, Arthur. Coordination and Collaboration: regimes in an anarchic world. Cornell Univ. Press, 2002. FOGEL, Robert. Como se explica o milagre chinês?. Exame, julho, 2010. HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. KENNEDY, Paul. Ascensão e queda das grandes potências. Campus, 1989. KEOHANE, Robert. Neorealism and its critics. 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