O Corpo ISSN: 2236-8221 Página 1 04.08.2013 ISSN: 2236-8221 Jornal de popularização científica Edição n. 38, de Novembro Vitória da Conquista, Bahia. EXPEDIENTE DE O CORPO Editores [email protected] http://www.marcadefantasia.com/o-corpo-e-discurso.htm Nilton Milanez George Lima O corpo é discurso Nesta edição, O Corpo é discurso apresenta uma entrevista com o diretor de cinema e roteirista Edson Bastos, realizada por Ricardo Amaral, Psicólogo Clínico integrante do Labedisco. Além disso, o Corpo traz um artigo de Alexandre Filordi de Carvalho, pela Universidade Federal de São Paulo, e um artigo de Francisco Vieira da Silva, pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Ainda, o Corpo traz um conto de Antonio Felipe Cechi Neto, da Universidade de Franca, e o curta-metragem “Caminho Encantado” realizado pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo (Labedisco). O Corpo é Discurso traz também um Pocket Comix por Renato Lima e notícias ligadas ao universo acadêmico e da Análise do Discurso, no Brasil. Organizador Nilton Milanez George Lima Editoração eletrônica (MARCA DE FANTASIA) Henrique Magalhães CONSELHO EDITORIAL Dr. Elmo José dos Santos (UFBA) Dra. Flávia Zanutto (UEM) Dra. Ivânia Neves (UFPA) Dra. Ivone Tavares Lucena (UFPB) Dra. Mônica da Silva Cruz (UFMA) Dr. Nilton Milanez (UESB) Dra. Simone Hashiguti (UFU)) Acesse o site do Labedisco: www2.uesb.br/labedisco Esta entrevista foi realizada na (Universidade Estadual de Santa Cruz). Isto gens ou sobre fatos que aconteceram na UESB, no dia 15 de outubro de 2014. Ela é, a minha ligação com Ipiaú é por ser de lá nossa cidade de Ipiaú. E o curta foi filma- teve como objetivo criar mais uma materi- e, por gostar de pesquisar um pouco sobre do em três lugares diferentes. Foi filmado alidade para compor o corpus de pesquisa a minha história, acabei conhecendo a em Salvador, em Simões Filho e em Ipiaú. do projeto intitulado ―Foucault, a transexu- história da Joelma. Enfim, acabei aden- A maior parte inclusive foi filmada em alidade e as metamorfoses: políticas do trando no universo dessa personagem. Eu Salvador e em Simões Filho porque estava corpo no curta-metragem ‗Joelma‘, de tinha um histórico de pesquisar esses muito próximo. Em Ipiaú, a gente filmou as Edson Bastos‖ desenvolvido no Labedisco, personagens, de realizar trabalhos sobre cenas externas e as cenas da igreja, pois de autoria do psicólogo Ricardo Amaral, esses personagens de lá da minha cidade, era preciso contextualizar mesmo a cida- sob orientação do Prof. Dr. Nilton Milanez, como ―Veras‖, que foi uma figura muito de. A gente infelizmente não conseguiu e é apenas um fragmento de um todo. conhecida. Ele falava quatro línguas, era filmar tudo em Ipiaú porque o dinheiro conhecido internacionalmente por pessoas não era suficiente. O curta foi financiado famosas, como Elisabeth Taylor, Janes pelo primeiro edital de Cultura LGBT que Joplin, Amália Rodrigues, Pelé, Fernanda foi promovido pela Fundação Pedro Cal- Montenegro, etc. Ele acabava fazendo fes- mon em parceria com a Secretaria de tas numa fazenda no interior da Bahia, em Cultura do Governo do Estado da Bahia. Ricardo Amaral: A maioria das cenas do Barra do Rocha, levando todas essas pes- curta metragem Joelma foram filmadas soas. Era um fazendeiro muito rico, e que na cidade de Ipiaú. Qual a sua ligação acabou gastando todo o dinheiro, empo- com a cidade? breceu e perdeu tudo com a vassoura de Edson Bastos: Sou de Ipiaú, nasci lá e morei até os 17 anos de idade. Foi quando me mudei para salvador para estudar Ci- nema e Vídeo. Terminei o curso em 2007 e fui fazer uma pós-graduação na UESC bruxa também. Esse foi o primeiro trabalho que eu fiz. A partir daí, teve um trabalho sobre a minha vó que é rezadeira, e surgiu o Joelma na sequência. A maior parte dos trabalhos que a gente realiza são sobre esses persona- Página 2 Edson Bastos - Diretor do curtametragem “Joelma” Era uma verba muito pequena, R$ 49.600,00. O Corpo bre ela e informações dela também. Poste- ro em diversos outros editais e não tinha riormente, apresentei o roteiro; ela só sido aprovado). Quando surgiu esse pri- descobriu sobre o roteiro depois que o meiro edital de Cultura LGBT em 2008, a projeto já tinha sido aprovado. Ela foi muito gente inscreveu o curta. Em 2009 saiu o resistente, inclusive: ―Não quero... não resultado da aprovação, em 2010 saiu o quero contato com jornalista, não quero dinheiro e em 2011 a gente filmou. Foram Para você ter uma noção, um contato com nada disso‖. Porque, como a quatro anos esperando para concretizar o curta, como o Joelma, está orçado em no história dela tem um assassinato, então projeto. mínimo de cem a cento e cinquenta mil. ela tem essa resistência, ela tem medo que Ricardo Amaral: A escolha do tema da Então, teve um déficit muito grande. A aconteça novamente ou que sofra algum transexualidade está ligada com as história retratada nas cenas, que foram tipo de retaliação da sociedade ou que novas possibilidades de poder falar, gravadas em Salvador e no filme, se pas- tentem fazer isso novamente com ela. En- nas últimas décadas, de múltiplas prá- sa em Salvador. Na verdade, deveria se tão, essa pesquisa foi baseada nisso. Ao ticas para os afetos e as sexualidades? passar em São Paulo porque ela (Joelma) mesmo tempo comecei a fazer uma pós- se mudou para São Paulo, e não para graduação em audiovisual na UESC e tive Salvador. Então, acabamos fazendo adap- acesso a um conhecimento de Foucault, de tações da própria narrativa por conta Derrida, que eu não tinha tido na gradua- das limitações orçamentarias. E o curta ção. Isso foi muito interessante porque na verdade tem muita coisa que foi cria- consegui pensar esse curta de acordo com da. O mote dele foi pegar essa persona- esses assuntos, com esses teóricos que gem, a história dela, alguns pontos espe- estavam na universidade e com a realidade cíficos, o modo dela interagir com o mun- que eu estava vivendo. Então, tem coisas do, o modo dela pensar, o modo dela falar pessoais, tem coisas de outras pessoas, também e criar uma fábula sobre a inte- tem muita coisa de criação também, no ração entre o ser humano e a sociedade. próprio espetáculo a gente acaba revelan- Ricardo Amaral: Como se deu a cons- do o que a gente criou e o que é mentira, a trução do roteiro? própria cirurgia de Redesignação Sexual Joelma - Curta-Metragem Edson Bastos: Comecei a conhecer um pouco a história da Joelma a partir de 2006. Eu ainda estava estudando. Come- não é feita daquela forma. Então, de certa forma, é uma metáfora da castração. Enfim, foi pensado dessa forma. cei a elaborar o roteiro e me baseava em Desde de 2006, comecei a pen- informações que a sociedade falava so- sar o roteiro. Em 2008, a gente inscreveu Edson Bastos: Acredito que sim. Não lembro antes de Joelma. Quer dizer, existem produções antes de Joelma como o Joelma - Teatro curta baiano que fala sobre uma travesti, ―No Coração de Shirley‖ da cineasta Edyala Iglesias, que eu tive como referência também, mas havia uma produção, só que uma produção tímida. A gente percebe que de uns tempos para cá tem acontecido uma grande quantidade de produções com essa temática de sexualidade. Inclusive diversos festivais abordando essa esse roteiro (já havíamos inscrito o roteiPágina 3 O Corpo temática de sexualidade e a proposta do tanta propriedade no curta por ser curta, curta era muito mais de pesquisar esses por ter 20 minutos. E acho que veio a ca- personagens. Não era nem tanto de po- lhar porque é um tema que é muito impor- der desabafar por conta da minha pró- tante, muito interessante debater nesse pria sexualidade também. Não tinha pen- mundo contemporâneo que a gente vive sado sobre isso. Inclusive antes de fazer com a diversidade tão grande de pessoas, Joelma - Inspiração para o curtametragem o curta, eu pensava que debates ou dis- com a diversidade de sexualidades também meiro projetos, o vermelho estava sem- cussões sobre a sexualidade eram coisas tão grande, para gente não ficar acredi- pre presente. E aí veio a música ―Moça desnecessárias e com o passar do tempo tando que só existe um modelo, que só Bonita‖, que a Ângela Maria canta e a Rita eu fui percebendo que realmente preci- deve ser feito dessa forma. Então, ele foi Ribeiro, hoje Rita Benneditto, também sava haver uma militância para se con- um processo de pesquisa, principalmente canta, fala de vermelho e negro, é uma quistar direitos. A gente não poderia ficar uma pesquisa sobre linguagem porque o música que tem a ver com o Candomblé, em cima do muro, esperando que as pes- curta fala um pouco sobre a fragmentação com a Umbanda, que fala sobre esse exú soas se auto educassem pra essa ques- desse sujeito, a fragmentação da narrativa que tem também essas cores do vermelho tão. também, e pesquisar a menor unidade de e negro. Então, foi uma tentativa de mistu- Com o passar do tempo, a gente fragmentação da ação dramática que é a rar, de trazer esses elementos e de ter inclusive foi tomando mais partido sobre cena e que as vezes a gente acaba frag- essa cor padrão no filme, o vermelho foi esses determinados assuntos. A gente mentando. Foi essa a necessidade de pes- muito forte. E a gente utilizou câmeras acabava falando muito mais no espetácu- quisar mesmo um pouco da linguagem DSLR, então os desfoques não foram tão lo também, defendendo mais a pauta, interligado com esse tema que era a sexu- premeditados assim, porque essas câme- falando sobre os casos de homofobia que alidade... a transexualidade. ras realmente precisam de um ajuste na Bahia é o pior do Brasil em índices, a Ricardo Amaral: Quando assistimos ao muito preciso pra você poder fazer um gente acaba dando esses dados para as curta, a coloração vermelho e amarelo, plano bem detalhado, ter uma estabilidade pessoas. Então, o curta foi levado para profundidade de campo e um desfoca- legal da imagem. A cor foi mais pensada. A essa parte do teatro que foi aperfeiçoan- mento em algumas cenas chamam nos- gente filmou com três câmeras inclusive, do e inclusive foi pegando elementos que sa atenção. O que motivou o uso desses então não teve uma câmera fixa o tempo a gente não conseguiu trabalhar com tipos de recursos? inteiro. Tinha uma câmera principal e Edson Bastos: O vermelho principalmente porque era uma cor muito viva. A gente pensava o vermelho a todo momento, desde o início quando eu pensei o curta, pensei o roteiro e comecei a elaborar os priJoelma - Curta-Metragem Página 4 outras duas pegando mais detalhes, porque era um curta grande, foram nove dias de filmagem, então precisava agilizar para equipe não se cansar também, então teve essas escolhas. Mas a cor do vermelho era porque a gente acreditava que ela O Corpo tinha muito haver com o curta, com es- car uma vida digna. Então, a proposta foi transexual, das pessoas que não tem uma ses elementos que a gente foi agregando, justamente de fragmentar essa narrativa sexualidade dominante, como é o caso da como essa música, com elementos que a para que o próprio expectador pensasse heterossexualidade. Então, foi o ponto de Joelma ia falando pra gente também, e por si só e conseguisse criar a sua refe- vista da rádio. acabou que o vermelho do sangue tam- rência, a sua justificativa, as suas relações Ricardo Amaral: Gostaria de te agrade- bém, o assassinato, esses elementos sobre a interação dessas cenas também. cer, Edson, pela disponibilidade para a foram se interligando e o vermelho ficou Elas acabam se interagindo. Tem coisas entrevista. Foi muito interessante, tenho bem mais forte. interessantes também durante a pré- certeza que irá contribuir bastante para a Ricardo Amaral: Observamos também produção do projeto. Pensando como faría- minha pesquisa e para o trabalho do La- uma descontinuidade temporal em seu mos os planos, decidimos que em momento bedisco. Muito Obrigado! curta, com três momentos diferentes: algum iríamos colocar uma câmera subje- Edson Bastos: Eu que agradeço você, em Salvador, depois Ipiaú e Salvador tiva, que é a câmera do ponto de vista da novamente. Porque essa descontinui- Joelma, porque ninguém da equipe era dade? transexual. Então, a gente não tinha propri- Edson Bastos: O curta se passa em quatro décadas distintas: décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990. A ideia é mostrar fases distintas da vida da Joelma e não necessariamente se contrapor, mas se complementando, passando a informação do que ela passou em todo esse período que sofreu. Na verdade, para ter e bus- Edson Bastos é edade de se colocar no olhar dela, de se colocar no corpo dela e poder falar o discurso da própria Joelma. Então, em nenhum momento há uma câmera subjetiva. O único momento que tem subjetivo, é o subjetivo da rádio, justamente pela busca de passar uma mensagem de um espetá- Ricardo, ao professor Nilton e ao Labedisco também. A gente vai estar sempre à disposição, sempre que vocês precisarem de material, porque a ideia é essa. Foi um filme feito com recursos públicos. A gente também precisa popularizar, fazer com que ele seja pesquisado, seja estudado e, na verdade, é uma honra ter esse filme sendo pesquisado, sendo estudado por vocês. A gente que agradece! culo, da espetacularização do corpo do Especialista em Audiovisual pela UESC e Graduado em Comunicação Social com habilitação em Cinema e Vídeo pela FTC. É Produtor Executivo e Curador do FECIBA Festival de Cinema Baiano, realizado por três anos consecutivos na cidade de Ilhéus e da MUSA Mostra Universitária Sulamericana de Audiovisual. Currículo Lattes: Clique Aqui! Ricardo Amaral é Especialista em Saúde Mental Coletiva pela Faculdade Ruy Barbosa e graduado em Psicologia pela mesma Instituição. Atualmente, atua como Psicólogo Clínico em Vitória da Conquista BA e é integrante do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo - Labedisco/UESB, sob orientação do Prof. Dr. Nilton Milanez. Currículo Lattes: Clique Aqui! Página 5 O Corpo Renato Lima é graduado em Pintura pela Escola de Belas Artes - UFRJ. Para saber mais sobre o autor e suas produções, acesse também o site Pockets - Histórias de Bolso ou a página de Facebook Pocketscomics. Página 6 O Corpo Por um tempo, a única coisa que conseguia ouvir era um som abafado de agua caindo, como uma pequena cachoeira no final de um túnel. O som incessante, monótono e surdo ribombava em seus ouvidos como uma estranha melodia triste. Não sabia quanto tempo havia passado. O tempo, memórias e sensações se misturaram num turbilhão vazio, onde nada mais importava. Sabia apenas que estava deitado. Por um fugaz momento, uma fagulha de consciência emergiu daquele estupor gélido. Mais por instinto, tentou se levantar e entender o que estava acontecendo. Tudo era um borrão em sua mente, e o barulho da água começava a incomoda-lo. Tentou, mas não conseguiu se erguer; muito menos conseguiu se mexer mais do que alguns centímetros. Seu corpo estava enclausurado e, agora que finalmente abrira os olhos, a única imagem que contemplava era o breu absoluto. Mais uma vez tentou se mexer, mais consciente do que antes. Seus joelhos se chocaram contra o teto, tão baixo. Tentou esticar os braços, mas estavam confinados, bem próximos ao seu corpo. A cabeça foi erguida, apenas para bater em algo maciço na escuridão. Com perplexidade e desespero, a imagem mental do que lhe acontecera finalmente se formou. Fora enterrado vivo. Uma ânsia de vômito o tomou por solavanco, incessante. Seu corpo queria expelir o que possuía no estômago, sem sucesso. A tosse, rouca, abafada pelo desespero, soava como um uivo de mau agouro, a quem quer que escutasse (mas não havia ninguém). Sua mente, como de se esperar, foi tomada pelo pânico cru e selvagem. O instinto de sobrevivência, tão inerente a todos, o domou por completo. Suas mãos e unhas arranhavam o teto (ou seria a tampa) com a ferocidade de um felino. Chutava com toda a força que o espaço confinado lhe permitia. E os gritos. Como queria gritar a plenos pulmões, mas apenas a tosse rouca saia por seus lábios. O tempo passou. Seus dedos agora não possuíam mais as unhas, que agora jaziam presas no vazio. Não conseguia mais mexer as pernas, alguma coisa havia se quebrado. E não havia mais voz (se é que um dia existiu). Não havia mais saída. Aos poucos, a conformidade e tristeza apaziguaram a besta que lutava para viver. Não havia mais saída. Por que? A pergunta começara a ecoar no fundo do cérebro, insistente como gato. Por que estava ali? O que teria acontecido? Quem poderia ter feito algo tão cruel? Visões embaçadas, lembranças desconexas começaram a vir à tona, bolhas de imagens e sons, que pareciam a muito se perdido. Estava caminhando para o pub local, como sempre fazia todo final de tarde. Era seu escape da vida dura e cruel de advogado (era um advogado). Nada acontecia naquela parte da cidade, e a vida era simples, da sua própria maneira. Mas alguma coisa naquele dia fora diferente. Sua memória tentava agarrar os fragmentos desesperadamente, numa fútil empreitada de fazer daquela situação algo aceitável. Várias imagens se formaram: o pub, Jack, seu companheiro de bebedeiras; Louis, sempre a contar suas viagens pelo mundo... E o cheiro suave de almíscar. Ah, o cheiro... Carregado de suor, paixão, desejo. Página 7 O Corpo Uma mulher. Uma linda e sensual mulher. Como pudera esquecer de sua face, tão límpida e suave quanto algodão. Tinha olhos castanhos profundos como o céu, e sua boca, vermelha e carnuda, um verdadeiro convite para o prazer. Conseguia se lembrar dela no pub, do seu cheiro, sua presença. Não havia nenhum homem que não estivesse olhando para aquele anjo em forma mulher. Estava tomando um drink, sozinha em um canto mais afastado, mas não afastado o suficiente. O cheiro era intoxicante. Não sabia como, mas lembrava de, alguma forma, estar conversando com a deusa. Uma deusa de fala suave, firme e gentil. As palavras (se é que existiam palavras) não importavam, não mesmo. Apenas ouvi -la falar era o suficiente para levar qualquer homem a guerra, a arrancar o próprio coração e oferece-lo, ainda sangrando, a aquela divindade terrena. -- Tens certeza de que é isso que quer, cavalheiro? As palavras lhe apareceram claras como o dia. A musa lhe perguntara aquilo, com a imensidão de seus olhos completamente focada, decidida. Lembrara-se de responder. O que tinha respondido? Não conseguia trazer de volta as palavras, apenas o sentimento de orgulho, de robustez. Faria o que fosse preciso. Saíram do pub, a lembrança era clara. Saíram e correram como crianças nas ruas molhadas da cidade. E, como dois amantes, se beijaram apaixonadamente, cada um tomando da paixão do outro, alimentando as bestas vorazes do desejo. Foram a um lugar mais privado, mais escuro e tranquilo. Seu desejo seria consumado ali, não poderia perder mais tempo. Seu sangue fervia como lava, e as batidas do coração entoavam uma marcha viril e sem controle. Sem pudores, começou a despir a jovem deusa, desnudando a perfeição em forma de mulher naquele beco fétido (fora em um beco?). Sua pele, branca como o luar, parecia emanar um brilho pálido, fosco. As mãos, desesperadas pelo toque, percorreram as imensidões desnudas da musa, como se tentassem atingir cada ponto daquele corpo divino. A boca, sem controle, beijava e lambia cada centímetro do pescoço carnudo e frio. Só então a lembrança, clara como sol, iluminou algo que, no momento, não importava. Ela era fria como gelo. Talvez tenha sido isso que o tenha despertado do furor carnal. Talvez tenha sido a dor lancinante em seu pescoço, tão aguda que perdera o equilíbrio. Talvez o desespero de ver sua vida escoar lentamente rumo a escuridão. Ficou parado na escuridão de seu cárcere (não que tivesse escolha), refletindo sobre as memórias recém adquiridas. Tentaram lhe assassinar a sangue frio. Muito provavelmente, estava jazendo no túmulo da família, enterrado a dois palmos de profundidade. E estava vivo. Uma lágrima tentou rolar pelos seus olhos secos, mas encontrou apenas terra e poeira. Fora condenado duas vezes a morte, sem chance de reação, sem chance de resposta ou mesmo lamúria. Morreria sozinho, confinado a seu próprio Página 8 O Corpo caixão. O som abafado da cachoeira (a fonte em frente ao jazigo da família) foi sumindo, à medida que passos apressados ressoavam pela terra. Dezenas de pés. Haviam pessoas ali. Tentou mais uma vez se levantar, fazer o maior barulho que conseguia, mas seu corpo parecia mais duro e rígido do que nunca. Talvez todo aquele tempo imobilizado tenha lhe tirado o pouco de coordenação que possuía, mas não importava. Aqueles sons, aquelas pessoas, estavam ali para salvá-lo. Começou a ouvir o som de terra sendo removida. Ah, que doce som1! Conseguia ouvir as conversas das pessoas, mas não entendia o significado. Conseguia compreender, entretanto, que estavam nervosas, temorosas. Mas isso não importava, pois seria salvo. Conseguia se imaginar correndo para sua noiva, em prantos. Todos na família o recebiam de braços abertos, agradecendo aos céus pelo milagre. Estava vivo. Pode perceber quando a última pá de terra fora removida e, com um aperto no coração, viu os primeiros raios de luz passando pela tampa recém aberta. Queria gritar para eles de alegria, abraça-los pelo resgate, mas seu corpo continuava rígido como um defunto. Três pessoas estavam de pé, acima de seu túmulo. O padre, sua noiva, e um homem de chapéu preto, carregando uma tocha. -- Como lhe disse, Van, morto. Eu não estou morto, pensava. Queria gritar, mas não se movia. Por que não se movia? -- Pode até ser padre, mas não gosto de arriscar. A dama está na cidade, e esse daqui parece ser mais uma vítima dela. Seu pensamento (estava pensando, vivo) galopava em cada palavra dita pelo homem. Dama? Que diabos, me ajudem! Me salvem! Eleonor? Eleonor? -- Minha dama, seu amado foi tirado de você pelas forças das trevas. Pelo amor que sentiu por ele, livre sua alma para Deus. A jovem mulher, entre lágrimas secas cobrindo a maçã do rosto, pega o objeto da mão do homem soturno. Parecia uma faca, ou um bastão pequeno e pontudo. -- Me perdoe, amado. Logo nos encontraremos ao lado do nosso Senhor. A ponta do bastão afiado (uma estaca?) deslizou vagarosa e vacilantemente (Eleonor? Não faça isso!) até chegar no em seu peito. As lágrimas corriam livres novamente no rosto da mulher. -- O liberte. Entre as preces do padre, os murmúrios das outras pessoas (que outras pessoas?) e o sorriso cínico do homem, a jovem mulher levantou a pequena marreta aos céus (não faça isso, por favor). A batida seguinte foi aguda, intensa, cruel, e vazia. Antonio Felipe Cechi Neto é Graduado em Ciência da Computação pela Universidade de Franca (2004). Atualmente é analista de sistemas - Travel Technology Interactive do Brasil. Tem experiência na área de Ciência da Computação, com ênfase em Arquitetura de Sistemas de Computação . Currículo Lattes: Clique Aqui! Página 9 O Corpo Um desconserto para o pensa- uma das notas mais elevadas da partitura derem as linhas demarcatórias para tudo mento é o que Nietzsche faz ao elevar o do pensamento nietzschiano. No que a filo- aquilo que foge dos limites humanos, al- corpo à condição de concertmaster da sofia não privilegiou está, agora, o sentido gumas correntes filosóficas, mas não própria Razão. Esse novo ponto modal irá de ser para o pensador. O corpo está aí somente elas, depositaram fora de cada compor uma melodia que poucos ousarão para isso. E, então, o concerto pode come- um de nós as forças com as quais a vida se esquecer ao seu embalo. Aliás, muito çar. pudesse ganhar todo o seu centro, ou ainda se ouvirá a respeito daquilo que des- O que fizeram os entendidos com melhor, o seu peso. Ironicamente, foi daí de certas antigas orquestrações filosófi- a verdade sobre o corpo? Inventaram-na. que surgiu a vida. E o seu sentido não cas sempre se buscou, por distintos ar- Depositaram naquilo que não tinha a me- pode mais ser encontrado no que lhe dava ranjos e ensaios, a executar com tamanha nor condição de abrigá-la a sua confiança. guarida. O corpo, pois, tornou-se cinza, maestria. Ou já não nos soam mais, com Naquilo que existe de mais fugaz e imateri- combustível para um alvo posto além de seu eco límpido, os acordes da razão sobe- al: nuvens do pensamento, ou simplesmen- si mesmo. Esse é um cálculo que procu- rana; do Eu colado àquilo que se pensa; os te nas nuvens; eis o depositário fiel do rou não conceder margens para erros. gritos mais fortes que sempre cruzaram sentido da existência do corpo. Ao esten- Seria mais preciso dizer, para mais er- os séculos, gritos advindos da alma e do espírito? Alguém ousaria a dizer que lê este texto com o corpo? Que busca entende-lo por meio da extensão de sua epiderme, deixando-se afetar com as suas sensações? Ora, isso não seria demasiadamente jocoso? Talvez sim; mas, ao mesmo tempo, não seria um indício de que nos falta algo? Ou de que nos sobra em demasia? Pois é justamente daquilo que se tornou derrisório aos homens da razão, ao espirituais também, que vai se consagrar Página 10 Fotografia de Henri Cartier-Bresson O Corpo a sua gravidade. Como caminhar sobre a terra? ―Se se põe o centro da gravidade da vida, não na vida, mas no ―além‖ – no nada – tirou-se da vida toda gravidade‖ (1983, p.353), é Nietzsche quem o diz em O Anticristo. Mas como assim? Não somente foi a fé cristã, tendo a certeza de que o paraíso é extraterreno, e que o corpo é imprestável por ser corruptível — por ter desejos confessos e não confes- “La Danza de Aldeanos”, de Pedro Pablo Rubens sos, por vezes incontroláveis. Mas todos os que transportaram o sentido da vida para um ―além‖, que buscaram um outro ros. Não é sem sentido que a afirmação que passa a ser o corpo. E é a partir daí ―mundo-verdade‖, que voltaram-se para a de que ―em todo filosofar até agora nun- que certas perspectivas poderão ser aqui- ―alma‖ e o ―espírito‖, aliás, com perfeitos ca se tratou de verdade‖, como diz Ni- latadas como problematização de um tema e corretos sistemas lógico-racionais; e etzsche, encontrará respaldo na aterro- que não pode mais ser desperdiçado, pois aos que tentaram pavimentar, na expres- rizante constatação: ―calculando por alto, ao contrário, tornar-se-á central para o são de Zaratustra, ―caminhos celestes a filosofia até agora não foi em geral pensamento ocidental. para nos infiltrarmos numa outra existên- somente uma interpretação do corpo e Tenhamos em vista o que sepul- cia e felicidade!‖ (NIETZSCHE, 1983, um mal-entendido sobre o corpo. Por tou o corpo, deixando-o inerme a si pró- p.230), todos esses devem ser desmasca- trás dos mais altos juízos de valor, pelos prio. Não nos referimos, aqui, somente a rados. Tanto é, que Nietzsche não vai se quais até agora a história do pensamento um simples desprezo por ele. Se assim o resignar e nem poupar esforços para foi guiada, estão escondidos mal- fosse melhor seria, pois o próprio corpo, deslindar essas máscaras milenares. entendidos sobre a índole corporal, seja plenamente esquecido, trataria de encon- Numa outra expressão, certos vícios: de indivíduos, seja de classes, ou de ra- trar, por suas próprias forças, um cami- ças inteiras‖ (NIETZSCHE, 2001, p.11). Mas nho para o seu ressurgimento. Mas não. As as margens ainda estão aí, e é de dentro suas forças não estão mais nos limites de do mal-entendido que o próprio corpo sua pele: estão em um celestial nada. Isso aguarda uma boa compreensão. Portanto, quer dizer: a vida arraigada à própria tem- o que aqui desejamos é apresentar algu- poralidade, ao seus ciclos, ao chão que faz mas questões que podem nos ajudar a erguer acima de si mesmo todo doce fruto compor essa nova tessitura conceitual A idéia do ‗além‘, do ‗mundo-verdade‘ , foi inventada apenas para depreciar o único mundo que existe — para destituir a nossa realidade terrestre de todo o fim, razão e propósito! A idéia de ‗alma‘ e ‗espírito‘ e, ao fim e ao cabo, ainda a de ‗alma imortal‘, foi inventada para desprezar o corpo, para o tornar doente — ‗sagrado‘— para tratar todas as coisa que merecem atenção na vida — as questões de alimentação, habitação, regime intelectual, cuidados com os doentes, higiene, temperatura — com a ao que o homem deverá saborear, perdeu mais espantosa incúria! (2004, p.116) Página 11 O Corpo fundamental com respeito à linguagem empregada pela tradição filosófica para referir-se ao corpo. De saída, Nietzsche impõe ao portal da herança de tudo o que se tem por compreensão a esse respeito, novas condições e critérios de como o pensamento pode, de agora em diante, pensar o corpo. E também trazê-lo à realidade. Assim, o corpo não mais estará a serviço de uma alma que deve se aperfeiçoar; muito menos será o veículo de uma “Benefits Supervisor Sleeping “, de Lucian Freud razão que pretende dominá-lo. Ironicamente, isso cabe a um pensamento ainda Eis, assim, os que sepultaram o dentro da sepultura, que podemos buscar infantil, ainda que de trato filosófico: ―Eu corpo. E da sepultura forjada brotou a uma boa compreensão. Pois, por bem ou sou corpo e alma‖, assim fala a crian- renúncia pela vida, ou melhor aquele tipo por mal, o corpo é inegável: dói, fere-se, ça‖ (NIETZSCHE, 2011, p.35). O corpo por de moral que assume como verdade tudo agita-se, esgota-se, vem e vai, modifica-se, inteiro circunscreve-se à uma nova ima- o que é contra a natureza do corpo: as transforma-se. E isso não é uma parte: é o gem. Nela, é inevitável o rompimento com leis, o triunfo dos valores de serventia jogo total. Que sejam, então, esquecidos os o dentro e o fora; o sujeito e o objeto; a universal, a polarização entre corpo e seguintes termos redutores: corpo é má- interioridade da consciência e a exteriori- alma. Em uma idéia: o homem que satis- quina; é soma; é matéria orgânica; é corpo dade do mundo, a imanência e a transcen- faz-se com o homem atual. -alma, corpo-espírito, corpo-mente, corpo- dência. Que o corpo agora seja um pre- psique; para quê tudo isso? O que importa? Eis, nas palavras de Zaratustra, posto doente de si mesmo, não há como Tomemos parte na linguagem que a nova condição para uma nova imagem negar. Mas isso não é um acontecimento pode nos desorientar ainda mais. Já não do corpo: ―O corpo é uma grande razão, exterior a ele. Pois até no erro, não ence- fizemos isso com o corpo? Então, talvez uma multiplicidade com um só sentido, tados por um juízo de valor, claro, mas esteja justamente aí o indício necessário uma guerra e uma paz, um rebanho e um pelo que o corpo foi longamente conju- para a sua boa compreensão. Encontramos pastor‖ (NIETZSCHE, 2011, p.35). Essa gando para si, pois ―foi o corpo que de- algo de valioso no Zaratustra: Dos Despre- grande razão é uma sede de uma vontade. sesperou do corpo, que desesperou da zadores do Corpo. Uma voz é anunciada Por sua vez, é uma configuração de um terra‖ (NIETZSCHE, 1983, p.230), até nisso por ele. Pertence a um homem consciente, jogo de forças constitutivas do corpo. ele foi preponderante. Então, como não que diz: ―Eu sou por inteiro corpo e nada Pulsos que ativam e desativam um cons- haveria de ser, também é por ele, de mais.‖ Essa voz traz para nós a distância tante compasso; que agitam-se num ir e Página 12 O Corpo vir incansável: afetos, sentimentos, ins- mais a tela central. E isso é muito caro vel; ou, ainda, no sentido lógico e crítico, tintos — emaranhado de relações entre para todos nós: ―Instrumento do teu corpo sujeito pensante, cuja unidade e identida- si de acordo com um fluxo e refluxo de é também a tua pequena razão, meu irmão, de estão subsumidas pelo que é dado na suas ações. Aí está a multiplicidade com a que tu chamas ‗espírito‘, um pequeno intuição e pela ligação das representa- um só sentido, configurar o breve fenô- instrumento e um brinquedo da tua grande ções numa consciência, enfim, o Eu; é a meno vida. Incansavelmente, o jogo se faz razão. ‗Eu‘, dizes tu e orgulhas-te dessa transfiguração diversa, intensa, dinâmica, e se refaz em guerra e paz, no que ainda palavra. Mas maior é aquilo em que não pulsional, efetivar-se, porém no plural – não é, e no que já é; numa ordem e sub- queres acreditar: o teu corpo é a sua múltiplos eus – que transfundem, lutam e grande razão, que não diz Eu, mas faz configuram um Eu que não é aquele do Eu‖ (NIETZSCHE, 2011, p.36). O corpo está domínio do meu falar ou do escrever. instrumentalizado, nada mais. Mas ao afir- Muito menos é permanente. É corpo que marmos isso como é que fica o surgimento se compõe e se descompõe, rotina, aliás, desse Eu? circular, que se afina e se desafina: conju- “É corpo que se compõe e se descompõe, rotina, aliás, circular, que se afina e se desafina: conjuga-se em todas as vozes” O homem ainda não aprender a ga-se em todas as vozes. Aí está o que esquecer aquilo que não serve para justifi- Zaratustra não ousou nomear. Ou o que é cá-lo. A voz que outrora pretendia dar existência ao homem, voz pensante, converte-se, em Nietzsche, numa função a missão, ou melhor, constante execução. O serviço do corpo. As obras que os homens que segue disso é que, tomados por esse pensavam colher como fruto de um de- novo canto, temos um abandono do corpo sempenho arquitetado, fazendo que a ra- como instância de um conhecimento, isto zão pudesse se orgulhar de todo o seu é, como juízo ontológico sobre o homem. feito e de si própria, são as vias úteis que Ora, foi justamente isso, resguardadas as o teatro oculto do corpo, algo ainda não proporções, que produziu, ao longo dos nomeado, lança mão para que o próprio fios históricos, uma má compreensão do corpo prolongasse a sua existência. São corpo, conduzindo o homem ao extravio brinquedos para a sua diversão, o que não de si próprio. deixa de ser coisa séria. Onde está aquele O logocentrismo racional, o telos de outrora? Está posto na travessia; toque magistral da distinção entre o raci- é meio. Portanto, o Eu, e aí vale a sua di- onal e o irracional, como se isso fosse mensão de individualidade empírica; cons- grande vantagem, saem, em Nietzsche, de ciência individual; ego; ou no sentido onto- sua moldura. Melhor seria dizer, não é lógico de realidade permanente e invariá- Página 13 “O rapto de Persérfone por Plutão”, de Bernini O Corpo designado de Si Próprio. “O Si Próprio... tação maior fora de si — D(eu)s. Assim, ele articulado? São medidas que tentam tocar reina e é igualmente o soberano do soterra aquele corpo potencialmente em- um fundo inefável. A ilusão de dominar a si Eu‖ (NIETZSCHE, 2011, p.36). Assim, o cor- bevecido numa dança incansável que ja- mesmo em decorrência de uma identidade po é um Si Próprio, efetivado em toda mais se representava de um modo fixo. forjada a ferro e fogo, como tentativa de esta configuração tonal de pulsões, que é Mas o corpo, pulverizado, anuncia tornar o corpo um tipo de ego é uma des- o fundo soberano de tudo aquilo que cada a imagem por ser ainda reconfigurada mesura, quando o homem é possuído por um é. para não mais se petrificar. Ele estará toda expressão que foge do seu controle. Todo aquele fundo não dimensi- para além de qualquer linguagem. Onde É quando o corpo, tomando as rédeas onado de impulsos que era temporaria- encontraremos a sua consciência? Ou sobre si, é cólera, esquecimento, fantasia, mente reconciliado pelo próprio corpo, inconsciência? A sua consistência? Ou loucura, gozo desmedido, razão de si mes- passou a ser invariavelmente conciliado inconsistência? O que pode ser dito sobre mo, monstruosidade, experimento, pintura pelo o homem. ―Dono‖ de um corpo, ele o corpo e que não pode ser (des) inacabada, dança frenética. vai poder planejar, dimensionar, aquila- Referências tar, predizer as suas ações. Ele tentará KLOSSOWSKI, P. Nietzsche e o círculo dominar toda a sua selvageria. O corpo, vicioso. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000. este que passamos a compreender, nasce de sua perda, ou melhor, nasce porque a fixação de seus impulsos forja uma personalidade para si, antes não pensada, requisitada ou necessária. Pierre Klossowski: ―é quando os recursos de renovação do corpo se empobrecem que a pessoa se fixa, a ‗personalidade se afirma‘‖. (2000, 49). O corpo ganha uma “ Mas o corpo, pulverizado, anuncia a imagem por ser ainda reconfigurada para não mais se petrificar” NIETZSCHE, F.W. ―Os Pensadores‖. In: Obras incompletas. São Paulo: Abril, 1983. NIETZSCHE, F.W. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Cia das Letras, 2011. NIETZSCHE, F.W. Ecce Homo: como alguém torna o que é. São Paulo: Cia das Letras, 2004. coesão. Aquele Si Próprio, que antes era NIETZSCHE, F.W. A gaia ciência. São Paulo: ―uma extremidade prolongada do Ca- Cia das Letras, 2001. os‖ (KLOSSOWSKI, 2000, p.49), torna-se em uma extensão capturada, preenchida por uma organização exterior a si, que, além de tudo, possui um dono: um pretenso Eu. O orgulho do homem, designandose a si mesmo, ironicamente ao menos Alexandre Filordi de Carvalho é Pós-Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professor de Filosofia da Educação na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e de seu Programa de Pós-Graduação em Educação, na linha de pesquisa Saberes, Sujeitos e Processos Educativos. Currículo Lattes: Clique Aqui! em português, encontra a sua represenPágina 14 O Corpo Ao clicar na imagem do vídeo a baixo, você poderá assistir no Youtube o documentário de curta-metragem "Caminho Encantado", que apresenta o desenvolvimento da disciplina ministrada pelo Prof. Nilton Milanez para a turma de Pedagogia da UESB 2014 na cidade de Maetinga. Os alunos do curso se tornam os narradores da própria trajetória. Realização: Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo (Labedisco) Página 15 O Corpo 2º SILTED SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LINGUÍSTICA E TECNOLOGIAS EDUCATIVAS Para mais informações Clique Aqui! Página 16 O Corpo Partindo da observação foucau- estampado em manchetes de vários sítios das celebridades atribuídas, conforme ltiana, segundo o qual o corpo é uma su- eletrônicos, na confluência com as redes propõe Rojek (2008). perfície de inscrição de acontecimentos sociais de compartilhamento de fotos. De Nessa lógica, numa rápida (FOUCAULT, 2008), alicerçamo-nos na fato, não é de maneira fortuita que o corpo busca no site Ego, foi possível constatar possibilidade de pensarmos o corpo mas- de Jonas discursiviza-se na mídia. Adepto que, em notícias publicadas num curto culino na conjunção com a fama e com o de práticas bioascéticas (ORTEGA, 2005), o espaço de tempo, a referência ao corpo desejo. Para isso, centremos nosso olhar modelo-celebridade, participante de con- de Jonas constitui a regularidade que sobre o corpo de um sujeito específico, permite a emergência de um discurso bem como sobre os discursos que (des) sobre esse sujeito no referido site. Assim, constroem esse corpo, na interface com a notícias como: Tira, tira! Jonas Sulzbach cultura do mostrar-se, atualmente em fica quase sem roupa em evento (Ego, voga (BAUMAN, 2013). Desse corpo que 08/09/14); Ex-BBB Jonas exibe músculos atrai olhares dissimulados, comentários em ensaio de sunga na praia (Ego, insidiosos e propostas inscritas nos nós da 19/08/14); Ex-BBB Jonas mostra corpo rede digital, importa-nos extrair a espes- cursos de beleza masculina, exibe uma musculoso em ensaio quente (Ego, sura histórica que delineia uma apologia aparência apolínea. Loiro, forte e alto, Jo- 09/08/14); Ex-BBB Jonas Sulzbach mos- ao corpo malhado, um apelo ao fitness, de nas carrega consigo todos os requisitos tra seu corpo sarado em campanha de modo a conferir o status de celebridade básicos de certo padrão de beleza. Tudo cueca (Ego, 24/09/14); Ex-BBB Jonas aos sujeitos os quais ostentam um corpo isso aliado a um trabalho meticuloso sobre exibe tanquinho durante corrida num par- torneado conforme prega esse saber. o corpo (FOUCAULT, 1999), no sentido de que, em SP (Ego, 21/04/14), dentre ou- É sobre Jonas que especula- moldá-lo de maneira incessante, numa tras, escancaram a ênfase no corpo em mos. É em torno do corpo-Jonas que resi- espécie de marketing do discurso da boa forma como uma prerrogativa que permi- de nosso olhar analítico. O corpo desse ex- forma e do bem-estar. Essas característi- te a inserção de determinados sujeitos participante de um reality show, que pode- cas podem corroborar as constantes apa- sob o campo da visibilidade midiática. É ria perder-se no abismo do esquecimento rições de Jonas nas vitrines midiáticas, sob o espectro do corpo de Jonas midiático, desponta, tal qual uma Fênix, configurando a manutenção do espectro (“sarado”, “musculoso”) que gravita o Página 17 O Corpo foco da ordem discursiva de Ego, retar- fato de o corpo tornar-se um lugar de de sujeito infame da qual ele não poderia dando, assim, o ostracismo previsível dos sensação e sedução (LE BRETON, 2007), se furtar, caso não tivesse os atributos participantes de realities shows. para o qual um regime de práticas e dis- corporais que esbanja. São esses atribu- Outro aspecto relativo às cursos são demandados. Os comentários tos que mascaram a falta de uma habili- frequentes aparições deste ex-BBB, su- enfatizem, na materialidade significante, dade ou talento os quais justificariam de jeito infame (FOUCAULT, 2000) alçado ao determinadas condutas, como o uso do ai, modo convincente a transformação de posto de celebridade, diz respeito a uma empregado em situações de gozo. Nesse Jonas numa personalidade midiática, para ligação do corpo com o desejo, alimenta- caso, o corpo de Jonas imbui-se de um além de sua participação num reality do fortemente por uma remissão a uma fetiche, personificado, por exemplo, no show. Com efeito, o caso de Jonas, na virilidade deste sujeito, na conformidade comentário que alude ao suposto tamanho relação com inúmeros outros (ver, por com uma performance sexual de acordo do órgão sexual do modelo, exibido por exemplo, a imersão meteórica e atípica de com a forma física, insistentemente alar- este num vídeo íntimo na web. Geisy Arruda nos holofotes midiáticos, a deada nas manchetes das notícias publi- partir da análise de FILHO & LANA, 2014), cadas por Ego. Nos comentários que denunciam modificações pontuais na acompanham as notícias, cujas tags con- constituição do sujeito celebridade na tém o nome do Ex-BBB, é possível notar a sociedade contemporânea. recorrência de efeitos de sentido concer- Ao teorizar sobre a celebri- nentes a um dado fascínio exercido pelo dade, Bauman (2007) discorre acerca de corpo de Jonas nos leitores(a) navegado- uma certa evanescência inerente à cons- res(a). Tais comentários ratificam a mo- tituição desse sujeito e assinala que tal ral da boa forma, do corpo sarado, de É importante ressaltar, por característica está em consonância com modo a compor aquilo que Ortega (2005) outro lado, que o fato de o corpo de Jonas as peculiaridades da modernidade líquida. denomina de bioidentidades, isto é, identi- constituir-se como um objeto de desejo dá Segundo esse autor, a notoriedade das dades pautadas essencialmente pelo margem a outros discursos, os quais sina- celebridades encontra lugar num tempo culto ao corpo. Nos comentários posta- lizam para a relativização de sua condição histórico marcado prioritariamente pela dos pelos leitores(a), podemos evidenciar de celebridade. Vejamos o comentário a efemeridade e fugacidade. Assim, ―a ca- essas constatações, quais sejam: ―Ô, lá seguir: Agora me diz se ele não tivesse valgada das celebridades, cada qual apa- em casa‖, ―Heita, hj n dormia e nem dei- esse corpo e esse rosto, ele ia fazer o que recendo do nada só para cair no esqueci- xava essa coisa gostosa dormir kkkkk‖, da vida? Pq é um bobo, só abre a boca pra mento é eminentemente adequada à mar- ―Eu só consigo lembrar dos 21 cm! Ai que dar explicações de aparições dele pelado cante sucessão de episódios de existên- delícia!‖, ―aii tô passando mal, que lindo‖, na web. A posição sujeito deste comentário cias fatiadas‖ (BAUMAN, 2007, p.68). ―Deveria avisar que tem cenas fortes, problematiza a inserção de Jonas no uni- Ainda nessa linha de raciocí- infartei‖. Esses dizeres corroboram o verso midiático, ao questionar a condição nio, acreditamos que numa era caracteri- Página 18 O Corpo bre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras Escolhidas, v.1). zada pela cultura à moda mídia coca é fanta; Acho ele lindo, mas é uma (LIPOVETSKY, 1989), o sujeito celebridade Andressa Urach de cuecas (só que ela não vive na iminência de ser rapidamente é linda). Se fosse mulher, a gente chamaria substituído por outro, daí a necessidade de p‘oota. Como se faz pra chamar ele de de lançar mão das mais variadas estraté- p‘oota?. Desde especulações acerca da gias para retardar o espectro do ostra- orientação sexual de Jonas ou da possibili- cismo. Tais técnicas, a nosso ver, tam- dade de ele se prostituir (clientes, p‘ooto), bém se configuram como modos de cons- entrevemos a discursivização de Jonas tituição desse sujeito. É nessa perspecti- atrelada a diferentes lugares. Como regu- va que situamos esses sujeitos no cerne laridade desse discurso, flagra-se o en- da exposição midiática a que estão inex- troncamento do corpo malhado com o de- tricavelmente atrelados. A produção inin- sejo e a fama, como um modo de inscrição terrupta de discursos sobre a vida ínti- na ordem discursiva midiática. Conforme ma, (no caso de Jonas, um vídeo na web diagnosticou Benjamin (1994, p.183): ―cada foi o suficiente para mantê-lo em cartaz), pessoa, hoje em dia [anos de 1940], pode principalmente na rede digital, assinala reivindicar o direito de ser filmado‖. Toda- uma das formas por meio das quais tal via, não basta somente aparecer na tela, é sujeito é dado a ver, além de uma ênfase preciso criar estratégias que permitam a na espetacularização do corpo, sob a manutenção da visibilidade na mídia. Um ótica da bioascese. Desse pacto de visibi- corpo em forma, uma câmera... E os cli- lidade que o sujeito celebridade necessita ques se multiplicam indefinidamente... ROJEK, C. Celebridade. Rio de Janeiro: Rocco, 2008. manter, deriva a premência de estar com Referências ORTEGA, F. Práticas de ascese corporal e o corpo em forma. Porém, isso não impli- BAUMAN, Z. Vida líquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. constituição de bioidentidades, Cadernos ______. Vigilância líquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2013. 2003. ca considerar que a celebridade não seja alvo de comentários mordazes. Os comentários postados nas notícias veiculadas sobre Jonas no site Ego denunciam determinados posicionamentos sobre a hiperexposição da celebridade. Assim, são frequentes dizeres do tipo: Os clientes endinheirados piram nesse corpinho; Os gay pira: ele devia se assumir logo; Eu acho que essa Página 19 BENJAMIN, W. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: ______. Magia, técnica, arte e política: ensaios so- FILHO, J. F.; LANA, L. Pacto de visibilidade: mídias, celebridade e humilhação, Contracampo, Niterói, v.30, n.2, ed. ago.nov./2014. Disponível em: http:// www.uff.br/contracampo/index.php/ revista/article/view/682. Acesso em: 13. out. 2014. FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1999. ______. A vida dos homens infames. In: _____. O que um autor? Trad. António Fernando Cascais & Eduardo Cordeiro. Lisboa: Passagens, 2000. _______. Microfísica do poder. 25. ed. Trad. Roberto Machado. São Paulo: Graal Edições, 2008. LE BRETON, D. A sociologia do corpo. 2 ed. Trad. S. M. F. Fuhrmann. Petrópolis: Vozes, 2007. LIPOVETSKY, G. O império do efêmero: a moda e o seu destino nas sociedades modernas. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, n.11, Disponível em: http:// www.iesc.ufrj.br/cadernos/images/ csc/2003_1/artigos/2003_1% 20FOrtega.pdf. Acesso em 10. jan. 2014. Francisco Vieira da Silva é Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutorando em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Membro do Círculo de Discussões em Análise do Discurso (CIDADI). Currículo Lattes: Clique Aqui! O Corpo Dica de O Corpo Leitura do livro “Imagens Submersas”, escrito por Shirley Penaforte Aqui, quase respiramos água, sentimos o cheiro de chuva com muita frequência, comemos os melhores peixes de água doce do planeta, escrevemos narrativas de água... Grande parte de nossa memória molhada se atravessa pelo clima úmido, pelos rios e pelas chuvas. Nesta complexidade que é a região, são muitos interesses em disputa e a experiência humana, por vezes, desenha caminhos tortuosos. Alteram-se o curso do rio e o curso da história, sem muito pudor, em nome de um já tão duvidoso modelo de desenvolvimento. Numa região em que muitos habitantes fazem dos rios suas ruas, condição social tão recorrente na literatura de expressão amazônica, a construção de hidrelétricas agride o meio ambiente e interfere danosamente nas práticas sociais. Pessoas comuns foram obrigadas a abandonar suas casas, em troca de indenizações duvidosas e em nome do "progresso". A área afetada e seus antigos moradores, hoje, constituem-se em um novo espaço de significação da memória, com uma luz turva, difusa, que pouco permite aos olhos. Como sempre acontece com as pessoas que vivem estas experiências, a água ocupou outros espaços e agora elas também são atravessadas por memórias submersas. Algumas das fotos que compõem o Livro Colaboradores O Corpo é Discurso é o primeiro jornal eletrônico de popularização científica da Bahia. Popularização da Ciência A pesquisa científica gera conhecimentos, tecnologias e inovações que beneficiam toda a sociedade. No entanto, muitas pessoas não conseguem compreender a linguagem utilizada pelos pesquisadores. Neste contexto, a grande mídia e as novas tecnologias de comunicação cumprem o papel de facilitadores do acesso ao conhecimento científico. Para contribuir com esse processo, em sintonia com o espírito que anima o Comitê de Assessoramento de Divulgação Científica do CNPq, criamos esta seção no portal do CNPq. Seja bem-vindo ao nosso espaço de popularização da ciência e aproveite para conhecer as pesquisas dos cientistas brasileiros e os benefícios provenientes do desenvolvimento científico-tecnológico.