O Corpo
ISSN: 2236-8221
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04.08.2013
ISSN: 2236-8221
Jornal de popularização científica
Edição n. 38, de Novembro
Vitória da Conquista, Bahia.
EXPEDIENTE DE O CORPO
Editores
[email protected]
http://www.marcadefantasia.com/o-corpo-e-discurso.htm
Nilton Milanez
George Lima
O corpo é discurso
Nesta edição, O Corpo é discurso apresenta uma entrevista com o diretor de cinema e
roteirista Edson Bastos, realizada por Ricardo Amaral, Psicólogo Clínico integrante do
Labedisco. Além disso, o Corpo traz um artigo de Alexandre Filordi de Carvalho, pela Universidade Federal de São Paulo, e um artigo de Francisco Vieira da Silva, pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Ainda, o Corpo traz um conto de Antonio Felipe
Cechi Neto, da Universidade de Franca, e o curta-metragem “Caminho Encantado” realizado pelo Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo (Labedisco). O Corpo é Discurso traz também um Pocket Comix por Renato Lima e notícias ligadas ao universo acadêmico e da Análise do Discurso, no Brasil.
Organizador
Nilton Milanez
George Lima
Editoração eletrônica
(MARCA DE FANTASIA)
Henrique Magalhães
CONSELHO EDITORIAL
Dr. Elmo José dos Santos
(UFBA)
Dra. Flávia Zanutto
(UEM)
Dra. Ivânia Neves
(UFPA)
Dra. Ivone Tavares Lucena
(UFPB)
Dra. Mônica da Silva Cruz
(UFMA)
Dr. Nilton Milanez
(UESB)
Dra. Simone Hashiguti
(UFU))
Acesse o site do Labedisco: www2.uesb.br/labedisco
Esta entrevista foi realizada na
(Universidade Estadual de Santa Cruz). Isto
gens ou sobre fatos que aconteceram na
UESB, no dia 15 de outubro de 2014. Ela
é, a minha ligação com Ipiaú é por ser de lá
nossa cidade de Ipiaú. E o curta foi filma-
teve como objetivo criar mais uma materi-
e, por gostar de pesquisar um pouco sobre
do em três lugares diferentes. Foi filmado
alidade para compor o corpus de pesquisa
a minha história, acabei conhecendo a
em Salvador, em Simões Filho e em Ipiaú.
do projeto intitulado ―Foucault, a transexu-
história da Joelma. Enfim, acabei aden-
A maior parte inclusive foi filmada em
alidade e as metamorfoses: políticas do
trando no universo dessa personagem. Eu
Salvador e em Simões Filho porque estava
corpo no curta-metragem ‗Joelma‘, de
tinha um histórico de pesquisar esses
muito próximo. Em Ipiaú, a gente filmou as
Edson Bastos‖ desenvolvido no Labedisco,
personagens, de realizar trabalhos sobre
cenas externas e as cenas da igreja, pois
de autoria do psicólogo Ricardo Amaral,
esses personagens de lá da minha cidade,
era preciso contextualizar mesmo a cida-
sob orientação do Prof. Dr. Nilton Milanez,
como ―Veras‖, que foi uma figura muito
de. A gente infelizmente não conseguiu
e é apenas um fragmento de um todo.
conhecida. Ele falava quatro línguas, era
filmar tudo em Ipiaú porque o dinheiro
conhecido internacionalmente por pessoas
não era suficiente. O curta foi financiado
famosas, como Elisabeth Taylor, Janes
pelo primeiro edital de Cultura LGBT que
Joplin, Amália Rodrigues, Pelé, Fernanda
foi promovido pela Fundação Pedro Cal-
Montenegro, etc. Ele acabava fazendo fes-
mon em parceria com a Secretaria de
tas numa fazenda no interior da Bahia, em
Cultura do Governo do Estado da Bahia.
Ricardo Amaral: A maioria das cenas do
Barra do Rocha, levando todas essas pes-
curta metragem Joelma foram filmadas
soas. Era um fazendeiro muito rico, e que
na cidade de Ipiaú. Qual a sua ligação
acabou gastando todo o dinheiro, empo-
com a cidade?
breceu e perdeu tudo com a vassoura de
Edson Bastos: Sou de Ipiaú, nasci lá e
morei até os 17 anos de idade. Foi quando
me mudei para salvador para estudar Ci-
nema e Vídeo. Terminei o curso em 2007 e
fui fazer uma pós-graduação na UESC
bruxa também. Esse foi o primeiro trabalho que eu fiz. A partir daí, teve um trabalho sobre a minha vó que é rezadeira, e
surgiu o Joelma na sequência.
A maior parte dos trabalhos que
a gente realiza são sobre esses persona-
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Edson Bastos - Diretor do curtametragem “Joelma”
Era uma verba muito pequena, R$
49.600,00.
O Corpo
bre ela e informações dela também. Poste-
ro em diversos outros editais e não tinha
riormente, apresentei o roteiro; ela só
sido aprovado). Quando surgiu esse pri-
descobriu sobre o roteiro depois que o
meiro edital de Cultura LGBT em 2008, a
projeto já tinha sido aprovado. Ela foi muito
gente inscreveu o curta. Em 2009 saiu o
resistente, inclusive: ―Não quero... não
resultado da aprovação, em 2010 saiu o
quero contato com jornalista, não quero
dinheiro e em 2011 a gente filmou. Foram
Para você ter uma noção, um
contato com nada disso‖. Porque, como a
quatro anos esperando para concretizar o
curta, como o Joelma, está orçado em no
história dela tem um assassinato, então
projeto.
mínimo de cem a cento e cinquenta mil.
ela tem essa resistência, ela tem medo que
Ricardo Amaral: A escolha do tema da
Então, teve um déficit muito grande. A
aconteça novamente ou que sofra algum
transexualidade está ligada com as
história retratada nas cenas, que foram
tipo de retaliação da sociedade ou que
novas possibilidades de poder falar,
gravadas em Salvador e no filme, se pas-
tentem fazer isso novamente com ela. En-
nas últimas décadas, de múltiplas prá-
sa em Salvador. Na verdade, deveria se
tão, essa pesquisa foi baseada nisso. Ao
ticas para os afetos e as sexualidades?
passar em São Paulo porque ela (Joelma)
mesmo tempo comecei a fazer uma pós-
se mudou para São Paulo, e não para
graduação em audiovisual na UESC e tive
Salvador. Então, acabamos fazendo adap-
acesso a um conhecimento de Foucault, de
tações da própria narrativa por conta
Derrida, que eu não tinha tido na gradua-
das limitações orçamentarias. E o curta
ção. Isso foi muito interessante porque
na verdade tem muita coisa que foi cria-
consegui pensar esse curta de acordo com
da. O mote dele foi pegar essa persona-
esses assuntos, com esses teóricos que
gem, a história dela, alguns pontos espe-
estavam na universidade e com a realidade
cíficos, o modo dela interagir com o mun-
que eu estava vivendo. Então, tem coisas
do, o modo dela pensar, o modo dela falar
pessoais, tem coisas de outras pessoas,
também e criar uma fábula sobre a inte-
tem muita coisa de criação também, no
ração entre o ser humano e a sociedade.
próprio espetáculo a gente acaba revelan-
Ricardo Amaral: Como se deu a cons-
do o que a gente criou e o que é mentira, a
trução do roteiro?
própria cirurgia de Redesignação Sexual
Joelma - Curta-Metragem
Edson Bastos: Comecei a conhecer um
pouco a história da Joelma a partir de
2006. Eu ainda estava estudando. Come-
não é feita daquela forma. Então, de certa
forma, é uma metáfora da castração. Enfim, foi pensado dessa forma.
cei a elaborar o roteiro e me baseava em
Desde de 2006, comecei a pen-
informações que a sociedade falava so-
sar o roteiro. Em 2008, a gente inscreveu
Edson Bastos: Acredito que sim. Não
lembro antes de Joelma. Quer dizer, existem produções antes de Joelma como o
Joelma - Teatro
curta baiano que fala sobre uma travesti,
―No Coração de Shirley‖ da cineasta Edyala Iglesias, que eu tive como referência
também, mas havia uma produção, só que
uma produção tímida. A gente percebe
que de uns tempos para cá tem acontecido uma grande quantidade de produções
com essa temática de sexualidade. Inclusive diversos festivais abordando essa
esse roteiro (já havíamos inscrito o roteiPágina 3
O Corpo
temática de sexualidade e a proposta do
tanta propriedade no curta por ser curta,
curta era muito mais de pesquisar esses
por ter 20 minutos. E acho que veio a ca-
personagens. Não era nem tanto de po-
lhar porque é um tema que é muito impor-
der desabafar por conta da minha pró-
tante, muito interessante debater nesse
pria sexualidade também. Não tinha pen-
mundo contemporâneo que a gente vive
sado sobre isso. Inclusive antes de fazer
com a diversidade tão grande de pessoas,
Joelma - Inspiração para o curtametragem
o curta, eu pensava que debates ou dis-
com a diversidade de sexualidades também
meiro projetos, o vermelho estava sem-
cussões sobre a sexualidade eram coisas
tão grande, para gente não ficar acredi-
pre presente. E aí veio a música ―Moça
desnecessárias e com o passar do tempo
tando que só existe um modelo, que só
Bonita‖, que a Ângela Maria canta e a Rita
eu fui percebendo que realmente preci-
deve ser feito dessa forma. Então, ele foi
Ribeiro, hoje Rita Benneditto, também
sava haver uma militância para se con-
um processo de pesquisa, principalmente
canta, fala de vermelho e negro, é uma
quistar direitos. A gente não poderia ficar
uma pesquisa sobre linguagem porque o
música que tem a ver com o Candomblé,
em cima do muro, esperando que as pes-
curta fala um pouco sobre a fragmentação
com a Umbanda, que fala sobre esse exú
soas se auto educassem pra essa ques-
desse sujeito, a fragmentação da narrativa
que tem também essas cores do vermelho
tão.
também, e pesquisar a menor unidade de
e negro. Então, foi uma tentativa de mistu-
Com o passar do tempo, a gente
fragmentação da ação dramática que é a
rar, de trazer esses elementos e de ter
inclusive foi tomando mais partido sobre
cena e que as vezes a gente acaba frag-
essa cor padrão no filme, o vermelho foi
esses determinados assuntos. A gente
mentando. Foi essa a necessidade de pes-
muito forte. E a gente utilizou câmeras
acabava falando muito mais no espetácu-
quisar mesmo um pouco da linguagem
DSLR, então os desfoques não foram tão
lo também, defendendo mais a pauta,
interligado com esse tema que era a sexu-
premeditados assim, porque essas câme-
falando sobre os casos de homofobia que
alidade... a transexualidade.
ras realmente precisam de um ajuste
na Bahia é o pior do Brasil em índices, a
Ricardo Amaral: Quando assistimos ao
muito preciso pra você poder fazer um
gente acaba dando esses dados para as
curta, a coloração vermelho e amarelo,
plano bem detalhado, ter uma estabilidade
pessoas. Então, o curta foi levado para
profundidade de campo e um desfoca-
legal da imagem. A cor foi mais pensada. A
essa parte do teatro que foi aperfeiçoan-
mento em algumas cenas chamam nos-
gente filmou com três câmeras inclusive,
do e inclusive foi pegando elementos que
sa atenção. O que motivou o uso desses
então não teve uma câmera fixa o tempo
a gente não conseguiu trabalhar com
tipos de recursos?
inteiro. Tinha uma câmera principal e
Edson Bastos: O vermelho principalmente
porque era uma cor muito viva. A gente
pensava o vermelho a todo momento, desde o início quando eu pensei o curta, pensei o roteiro e comecei a elaborar os priJoelma - Curta-Metragem
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outras duas pegando mais detalhes, porque era um curta grande, foram nove dias
de filmagem, então precisava agilizar para
equipe não se cansar também, então teve
essas escolhas. Mas a cor do vermelho
era porque a gente acreditava que ela
O Corpo
tinha muito haver com o curta, com es-
car uma vida digna. Então, a proposta foi
transexual, das pessoas que não tem uma
ses elementos que a gente foi agregando,
justamente de fragmentar essa narrativa
sexualidade dominante, como é o caso da
como essa música, com elementos que a
para que o próprio expectador pensasse
heterossexualidade. Então, foi o ponto de
Joelma ia falando pra gente também, e
por si só e conseguisse criar a sua refe-
vista da rádio.
acabou que o vermelho do sangue tam-
rência, a sua justificativa, as suas relações
Ricardo Amaral: Gostaria de te agrade-
bém, o assassinato, esses elementos
sobre a interação dessas cenas também.
cer, Edson, pela disponibilidade para a
foram se interligando e o vermelho ficou
Elas acabam se interagindo. Tem coisas
entrevista. Foi muito interessante, tenho
bem mais forte.
interessantes também durante a pré-
certeza que irá contribuir bastante para a
Ricardo Amaral: Observamos também
produção do projeto. Pensando como faría-
minha pesquisa e para o trabalho do La-
uma descontinuidade temporal em seu
mos os planos, decidimos que em momento
bedisco. Muito Obrigado!
curta, com três momentos diferentes:
algum iríamos colocar uma câmera subje-
Edson Bastos: Eu que agradeço você,
em Salvador, depois Ipiaú e Salvador
tiva, que é a câmera do ponto de vista da
novamente. Porque essa descontinui-
Joelma, porque ninguém da equipe era
dade?
transexual. Então, a gente não tinha propri-
Edson Bastos: O curta se passa em quatro décadas distintas: décadas de 1960,
1970, 1980 e 1990. A ideia é mostrar fases distintas da vida da Joelma e não
necessariamente se contrapor, mas se
complementando, passando a informação
do que ela passou em todo esse período
que sofreu. Na verdade, para ter e bus-
Edson Bastos é
edade de se colocar no olhar dela, de se
colocar no corpo dela e poder falar o discurso da própria Joelma. Então, em nenhum momento há uma câmera subjetiva.
O único momento que tem subjetivo, é o
subjetivo da rádio, justamente pela busca
de passar uma mensagem de um espetá-
Ricardo, ao professor Nilton e ao Labedisco também. A gente vai estar sempre à
disposição, sempre que vocês precisarem
de material, porque a ideia é essa. Foi um
filme feito com recursos públicos. A gente
também precisa popularizar, fazer com
que ele seja pesquisado, seja estudado e,
na verdade, é uma honra ter esse filme
sendo pesquisado, sendo estudado por
vocês. A gente que agradece!
culo, da espetacularização do corpo do
Especialista em Audiovisual pela UESC e Graduado em Comunicação Social com
habilitação em Cinema e Vídeo pela FTC. É Produtor Executivo e Curador do FECIBA Festival de Cinema
Baiano, realizado por três anos consecutivos na cidade de Ilhéus e da MUSA Mostra Universitária Sulamericana de Audiovisual. Currículo Lattes: Clique Aqui!
Ricardo Amaral é Especialista em Saúde Mental Coletiva pela Faculdade Ruy Barbosa e graduado
em Psicologia pela mesma Instituição. Atualmente, atua como Psicólogo Clínico em Vitória da Conquista BA e é integrante do Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo - Labedisco/UESB, sob orientação
do Prof. Dr. Nilton Milanez. Currículo Lattes: Clique Aqui!
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O Corpo
Renato Lima
é graduado em Pintura pela Escola de Belas Artes - UFRJ. Para saber mais sobre o autor e
suas produções, acesse também o site Pockets - Histórias de Bolso ou a página de Facebook Pocketscomics.
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O Corpo
Por um tempo, a única coisa que conseguia ouvir era um som abafado de agua caindo, como uma
pequena cachoeira no final de um túnel. O som incessante, monótono e surdo ribombava em seus ouvidos
como uma estranha melodia triste.
Não sabia quanto tempo havia passado. O tempo, memórias e sensações se misturaram num turbilhão vazio, onde nada mais importava. Sabia apenas que estava deitado.
Por um fugaz momento, uma fagulha de consciência emergiu daquele estupor gélido. Mais por instinto, tentou se levantar e entender o que estava acontecendo. Tudo era um borrão em sua mente, e o barulho da água começava a incomoda-lo.
Tentou, mas não conseguiu se erguer; muito menos conseguiu se mexer mais do que alguns centímetros. Seu corpo estava enclausurado e, agora que finalmente abrira os olhos, a única imagem que contemplava era o breu absoluto.
Mais uma vez tentou se mexer, mais consciente do que antes. Seus joelhos se chocaram contra o
teto, tão baixo. Tentou esticar os braços, mas estavam confinados, bem próximos ao seu corpo. A cabeça foi
erguida, apenas para bater em algo maciço na escuridão. Com perplexidade e desespero, a imagem mental
do que lhe acontecera finalmente se formou. Fora enterrado vivo.
Uma ânsia de vômito o tomou por solavanco, incessante. Seu corpo queria expelir o que possuía no
estômago, sem sucesso. A tosse, rouca, abafada pelo desespero, soava como um uivo de mau agouro, a
quem quer que escutasse (mas não havia ninguém).
Sua mente, como de se esperar, foi tomada pelo pânico cru e selvagem. O instinto de sobrevivência,
tão inerente a todos, o domou por completo. Suas mãos e unhas arranhavam o teto (ou seria a tampa) com
a ferocidade de um felino. Chutava com toda a força que o espaço confinado lhe permitia. E os gritos. Como queria gritar a plenos pulmões, mas apenas a tosse rouca saia por seus lábios.
O tempo passou. Seus dedos agora não possuíam mais as unhas, que agora jaziam presas no vazio.
Não conseguia mais mexer as pernas, alguma coisa havia se quebrado. E não havia mais voz (se é que um
dia existiu). Não havia mais saída. Aos poucos, a conformidade e tristeza apaziguaram a besta que lutava para viver. Não havia mais saída.
Por que?
A pergunta começara a ecoar no fundo do cérebro, insistente como gato. Por que estava ali? O que
teria acontecido? Quem poderia ter feito algo tão cruel?
Visões embaçadas, lembranças desconexas começaram a vir à tona, bolhas de imagens e sons, que
pareciam a muito se perdido. Estava caminhando para o pub local, como sempre fazia todo final de tarde.
Era seu escape da vida dura e cruel de advogado (era um advogado). Nada acontecia naquela parte da cidade, e a vida era simples, da sua própria maneira.
Mas alguma coisa naquele dia fora diferente. Sua memória tentava agarrar os fragmentos desesperadamente, numa fútil empreitada de fazer daquela situação algo aceitável. Várias imagens se formaram: o
pub, Jack, seu companheiro de bebedeiras; Louis, sempre a contar suas viagens pelo mundo... E o cheiro
suave de almíscar.
Ah, o cheiro... Carregado de suor, paixão, desejo.
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O Corpo
Uma mulher. Uma linda e sensual mulher. Como pudera esquecer de sua face, tão límpida e suave
quanto algodão. Tinha olhos castanhos profundos como o céu, e sua boca, vermelha e carnuda, um verdadeiro convite para o prazer.
Conseguia se lembrar dela no pub, do seu cheiro, sua presença. Não havia nenhum homem que não
estivesse olhando para aquele anjo em forma mulher. Estava tomando um drink, sozinha em um canto mais
afastado, mas não afastado o suficiente. O cheiro era intoxicante.
Não sabia como, mas lembrava de, alguma forma, estar conversando com a deusa. Uma deusa de
fala suave, firme e gentil. As palavras (se é que existiam palavras) não importavam, não mesmo. Apenas ouvi
-la falar era o suficiente para levar qualquer homem a guerra, a arrancar o próprio coração e oferece-lo, ainda sangrando, a aquela divindade terrena.
-- Tens certeza de que é isso que quer, cavalheiro?
As palavras lhe apareceram claras como o dia. A musa lhe perguntara aquilo, com a imensidão de
seus olhos completamente focada, decidida.
Lembrara-se de responder. O que tinha respondido? Não conseguia trazer de volta as palavras, apenas o sentimento de orgulho, de robustez. Faria o que fosse preciso.
Saíram do pub, a lembrança era clara. Saíram e correram como crianças nas ruas molhadas da cidade. E, como dois amantes, se beijaram apaixonadamente, cada um tomando da paixão do outro, alimentando as bestas vorazes do desejo.
Foram a um lugar mais privado, mais escuro e tranquilo. Seu desejo seria consumado ali, não poderia perder mais tempo. Seu sangue fervia como lava, e as batidas do coração entoavam uma marcha viril e
sem controle.
Sem pudores, começou a despir a jovem deusa, desnudando a perfeição em forma de mulher naquele beco fétido (fora em um beco?). Sua pele, branca como o luar, parecia emanar um brilho pálido, fosco.
As mãos, desesperadas pelo toque, percorreram as imensidões desnudas da musa, como se tentassem atingir cada ponto daquele corpo divino. A boca, sem controle, beijava e lambia cada centímetro do
pescoço carnudo e frio.
Só então a lembrança, clara como sol, iluminou algo que, no momento, não importava. Ela era fria
como gelo.
Talvez tenha sido isso que o tenha despertado do furor carnal. Talvez tenha sido a dor lancinante em seu pescoço, tão aguda que perdera o
equilíbrio. Talvez o desespero de ver sua vida escoar lentamente rumo a escuridão.
Ficou parado na escuridão de seu cárcere
(não que tivesse escolha), refletindo sobre as memórias recém adquiridas.
Tentaram lhe assassinar a sangue frio. Muito provavelmente, estava jazendo no túmulo da família, enterrado a dois palmos de profundidade. E
estava vivo.
Uma lágrima tentou rolar pelos seus olhos
secos, mas encontrou apenas terra e poeira. Fora
condenado duas vezes a morte, sem chance de reação, sem chance de resposta ou mesmo lamúria.
Morreria sozinho, confinado a seu próprio
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O Corpo
caixão.
O som abafado da cachoeira (a fonte em frente ao jazigo da família) foi sumindo, à medida que passos apressados ressoavam pela terra. Dezenas de pés. Haviam pessoas ali.
Tentou mais uma vez se levantar, fazer o maior barulho que conseguia, mas seu corpo parecia mais
duro e rígido do que nunca. Talvez todo aquele tempo imobilizado tenha lhe tirado o pouco de coordenação que possuía, mas não importava. Aqueles sons, aquelas pessoas, estavam ali para salvá-lo.
Começou a ouvir o som de terra sendo removida. Ah, que doce
som1! Conseguia ouvir as conversas das pessoas, mas não entendia o significado. Conseguia compreender, entretanto, que estavam nervosas, temorosas.
Mas isso não importava, pois seria salvo. Conseguia se imaginar
correndo para sua noiva, em prantos. Todos na família o recebiam de braços abertos, agradecendo aos céus pelo milagre. Estava vivo.
Pode perceber quando a última pá de terra fora removida e, com
um aperto no coração, viu os primeiros raios de luz passando pela tampa
recém aberta. Queria gritar para eles de alegria, abraça-los pelo resgate,
mas seu corpo continuava rígido como um defunto.
Três pessoas estavam de pé, acima de seu túmulo. O padre, sua
noiva, e um homem de chapéu preto, carregando uma tocha.
-- Como lhe disse, Van, morto.
Eu não estou morto, pensava. Queria gritar, mas não se movia. Por
que não se movia?
-- Pode até ser padre, mas não gosto de arriscar. A dama está na cidade, e
esse daqui parece ser mais uma vítima dela.
Seu pensamento (estava pensando, vivo) galopava em cada palavra
dita pelo homem. Dama? Que diabos, me ajudem! Me salvem! Eleonor? Eleonor?
-- Minha dama, seu amado foi tirado de você pelas forças das trevas. Pelo amor que sentiu por ele, livre sua
alma para Deus.
A jovem mulher, entre lágrimas secas cobrindo a maçã do rosto, pega o objeto da mão do homem
soturno. Parecia uma faca, ou um bastão pequeno e pontudo.
-- Me perdoe, amado. Logo nos encontraremos ao lado do nosso Senhor.
A ponta do bastão afiado (uma estaca?) deslizou vagarosa e vacilantemente (Eleonor? Não faça isso!)
até chegar no em seu peito. As lágrimas corriam livres novamente no rosto da mulher.
-- O liberte.
Entre as preces do padre, os murmúrios das outras pessoas (que outras pessoas?) e o sorriso cínico
do homem, a jovem mulher levantou a pequena marreta aos céus (não faça isso, por favor).
A batida seguinte foi aguda, intensa, cruel, e vazia.
Antonio Felipe Cechi Neto é Graduado em Ciência da Computação pela Universidade de Franca
(2004). Atualmente é analista de sistemas - Travel Technology Interactive do Brasil. Tem experiência na
área de Ciência da Computação, com ênfase em Arquitetura de Sistemas de Computação . Currículo
Lattes: Clique Aqui!
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O Corpo
Um desconserto para o pensa-
uma das notas mais elevadas da partitura
derem as linhas demarcatórias para tudo
mento é o que Nietzsche faz ao elevar o
do pensamento nietzschiano. No que a filo-
aquilo que foge dos limites humanos, al-
corpo à condição de concertmaster da
sofia não privilegiou está, agora, o sentido
gumas correntes filosóficas, mas não
própria Razão. Esse novo ponto modal irá
de ser para o pensador. O corpo está aí
somente elas, depositaram fora de cada
compor uma melodia que poucos ousarão
para isso. E, então, o concerto pode come-
um de nós as forças com as quais a vida
se esquecer ao seu embalo. Aliás, muito
çar.
pudesse ganhar todo o seu centro, ou
ainda se ouvirá a respeito daquilo que des-
O que fizeram os entendidos com
melhor, o seu peso. Ironicamente, foi daí
de certas antigas orquestrações filosófi-
a verdade sobre o corpo? Inventaram-na.
que surgiu a vida. E o seu sentido não
cas sempre se buscou, por distintos ar-
Depositaram naquilo que não tinha a me-
pode mais ser encontrado no que lhe dava
ranjos e ensaios, a executar com tamanha
nor condição de abrigá-la a sua confiança.
guarida. O corpo, pois, tornou-se cinza,
maestria. Ou já não nos soam mais, com
Naquilo que existe de mais fugaz e imateri-
combustível para um alvo posto além de
seu eco límpido, os acordes da razão sobe-
al: nuvens do pensamento, ou simplesmen-
si mesmo. Esse é um cálculo que procu-
rana; do Eu colado àquilo que se pensa; os
te nas nuvens; eis o depositário fiel do
rou não conceder margens para erros.
gritos mais fortes que sempre cruzaram
sentido da existência do corpo. Ao esten-
Seria mais preciso dizer, para mais er-
os séculos, gritos advindos da alma e do
espírito? Alguém ousaria a dizer que lê
este texto com o corpo? Que busca entende-lo por meio da extensão de sua epiderme, deixando-se afetar com as suas sensações? Ora, isso não seria demasiadamente jocoso? Talvez sim; mas, ao mesmo
tempo, não seria um indício de que nos
falta algo? Ou de que nos sobra em demasia? Pois é justamente daquilo que se tornou derrisório aos homens da razão, ao
espirituais também, que vai se consagrar
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Fotografia de Henri Cartier-Bresson
O Corpo
a sua gravidade. Como caminhar sobre a
terra? ―Se se põe o centro da gravidade
da vida, não na vida, mas no ―além‖ – no
nada – tirou-se da vida toda gravidade‖ (1983, p.353), é Nietzsche quem o diz
em O Anticristo. Mas como assim? Não
somente foi a fé cristã, tendo a certeza de
que o paraíso é extraterreno, e que o
corpo é imprestável por ser corruptível —
por ter desejos confessos e não confes-
“La Danza de Aldeanos”, de Pedro Pablo Rubens
sos, por vezes incontroláveis. Mas todos
os que transportaram o sentido da vida
para um ―além‖, que buscaram um outro
ros. Não é sem sentido que a afirmação
que passa a ser o corpo. E é a partir daí
―mundo-verdade‖, que voltaram-se para a
de que ―em todo filosofar até agora nun-
que certas perspectivas poderão ser aqui-
―alma‖ e o ―espírito‖, aliás, com perfeitos
ca se tratou de verdade‖, como diz Ni-
latadas como problematização de um tema
e corretos sistemas lógico-racionais; e
etzsche, encontrará respaldo na aterro-
que não pode mais ser desperdiçado, pois
aos que tentaram pavimentar, na expres-
rizante constatação: ―calculando por alto,
ao contrário, tornar-se-á central para o
são de Zaratustra, ―caminhos celestes
a filosofia até agora não foi em geral
pensamento ocidental.
para nos infiltrarmos numa outra existên-
somente uma interpretação do corpo e
Tenhamos em vista o que sepul-
cia e felicidade!‖ (NIETZSCHE, 1983,
um mal-entendido sobre o corpo. Por
tou o corpo, deixando-o inerme a si pró-
p.230), todos esses devem ser desmasca-
trás dos mais altos juízos de valor, pelos
prio. Não nos referimos, aqui, somente a
rados. Tanto é, que Nietzsche não vai se
quais até agora a história do pensamento
um simples desprezo por ele. Se assim o
resignar e nem poupar esforços para
foi guiada, estão escondidos mal-
fosse melhor seria, pois o próprio corpo,
deslindar essas máscaras milenares.
entendidos sobre a índole corporal, seja
plenamente esquecido, trataria de encon-
Numa outra expressão, certos vícios:
de indivíduos, seja de classes, ou de ra-
trar, por suas próprias forças, um cami-
ças inteiras‖ (NIETZSCHE, 2001, p.11). Mas
nho para o seu ressurgimento. Mas não. As
as margens ainda estão aí, e é de dentro
suas forças não estão mais nos limites de
do mal-entendido que o próprio corpo
sua pele: estão em um celestial nada. Isso
aguarda uma boa compreensão. Portanto,
quer dizer: a vida arraigada à própria tem-
o que aqui desejamos é apresentar algu-
poralidade, ao seus ciclos, ao chão que faz
mas questões que podem nos ajudar a
erguer acima de si mesmo todo doce fruto
compor essa nova tessitura conceitual
A idéia do ‗além‘, do ‗mundo-verdade‘ , foi
inventada apenas para depreciar o único
mundo que existe — para destituir a
nossa realidade terrestre de todo o fim,
razão e propósito! A idéia de ‗alma‘ e
‗espírito‘ e, ao fim e ao cabo, ainda a de
‗alma imortal‘, foi inventada para desprezar o corpo, para o tornar doente —
‗sagrado‘— para tratar todas as coisa
que merecem atenção na vida — as
questões de alimentação, habitação,
regime intelectual, cuidados com os
doentes, higiene, temperatura — com a
ao que o homem deverá saborear, perdeu
mais espantosa incúria! (2004, p.116)
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O Corpo
fundamental com respeito à linguagem
empregada pela tradição filosófica para
referir-se ao corpo. De saída, Nietzsche
impõe ao portal da herança de tudo o que
se tem por compreensão a esse respeito,
novas condições e critérios de como o
pensamento pode, de agora em diante,
pensar o corpo. E também trazê-lo à realidade. Assim, o corpo não mais estará a
serviço de uma alma que deve se aperfeiçoar; muito menos será o veículo de uma
“Benefits Supervisor Sleeping “, de Lucian Freud
razão que pretende dominá-lo. Ironicamente, isso cabe a um pensamento ainda
Eis, assim, os que sepultaram o
dentro da sepultura, que podemos buscar
infantil, ainda que de trato filosófico: ―Eu
corpo. E da sepultura forjada brotou a
uma boa compreensão. Pois, por bem ou
sou corpo e alma‖, assim fala a crian-
renúncia pela vida, ou melhor aquele tipo
por mal, o corpo é inegável: dói, fere-se,
ça‖ (NIETZSCHE, 2011, p.35). O corpo por
de moral que assume como verdade tudo
agita-se, esgota-se, vem e vai, modifica-se,
inteiro circunscreve-se à uma nova ima-
o que é contra a natureza do corpo: as
transforma-se. E isso não é uma parte: é o
gem. Nela, é inevitável o rompimento com
leis, o triunfo dos valores de serventia
jogo total. Que sejam, então, esquecidos os
o dentro e o fora; o sujeito e o objeto; a
universal, a polarização entre corpo e
seguintes termos redutores: corpo é má-
interioridade da consciência e a exteriori-
alma. Em uma idéia: o homem que satis-
quina; é soma; é matéria orgânica; é corpo
dade do mundo, a imanência e a transcen-
faz-se com o homem atual.
-alma, corpo-espírito, corpo-mente, corpo-
dência.
Que o corpo agora seja um pre-
psique; para quê tudo isso? O que importa?
Eis, nas palavras de Zaratustra,
posto doente de si mesmo, não há como
Tomemos parte na linguagem que
a nova condição para uma nova imagem
negar. Mas isso não é um acontecimento
pode nos desorientar ainda mais. Já não
do corpo: ―O corpo é uma grande razão,
exterior a ele. Pois até no erro, não ence-
fizemos isso com o corpo? Então, talvez
uma multiplicidade com um só sentido,
tados por um juízo de valor, claro, mas
esteja justamente aí o indício necessário
uma guerra e uma paz, um rebanho e um
pelo que o corpo foi longamente conju-
para a sua boa compreensão. Encontramos
pastor‖ (NIETZSCHE, 2011, p.35). Essa
gando para si, pois ―foi o corpo que de-
algo de valioso no Zaratustra: Dos Despre-
grande razão é uma sede de uma vontade.
sesperou do corpo, que desesperou da
zadores do Corpo. Uma voz é anunciada
Por sua vez, é uma configuração de um
terra‖ (NIETZSCHE, 1983, p.230), até nisso
por ele. Pertence a um homem consciente,
jogo de forças constitutivas do corpo.
ele foi preponderante. Então, como não
que diz: ―Eu sou por inteiro corpo e nada
Pulsos que ativam e desativam um cons-
haveria de ser, também é por ele, de
mais.‖ Essa voz traz para nós a distância
tante compasso; que agitam-se num ir e
Página 12
O Corpo
vir incansável: afetos, sentimentos, ins-
mais a tela central. E isso é muito caro
vel; ou, ainda, no sentido lógico e crítico,
tintos — emaranhado de relações entre
para todos nós: ―Instrumento do teu corpo
sujeito pensante, cuja unidade e identida-
si de acordo com um fluxo e refluxo de
é também a tua pequena razão, meu irmão,
de estão subsumidas pelo que é dado na
suas ações. Aí está a multiplicidade com
a que tu chamas ‗espírito‘, um pequeno
intuição e pela ligação das representa-
um só sentido, configurar o breve fenô-
instrumento e um brinquedo da tua grande
ções numa consciência, enfim, o Eu; é a
meno vida. Incansavelmente, o jogo se faz
razão. ‗Eu‘, dizes tu e orgulhas-te dessa
transfiguração diversa, intensa, dinâmica,
e se refaz em guerra e paz, no que ainda
palavra. Mas maior é aquilo em que não
pulsional, efetivar-se, porém no plural –
não é, e no que já é; numa ordem e sub-
queres acreditar: o teu corpo é a sua
múltiplos eus – que transfundem, lutam e
grande razão, que não diz Eu, mas faz
configuram um Eu que não é aquele do
Eu‖ (NIETZSCHE, 2011, p.36). O corpo está
domínio do meu falar ou do escrever.
instrumentalizado, nada mais. Mas ao afir-
Muito menos é permanente. É corpo que
marmos isso como é que fica o surgimento
se compõe e se descompõe, rotina, aliás,
desse Eu?
circular, que se afina e se desafina: conju-
“É corpo que se
compõe e se descompõe, rotina,
aliás, circular,
que se afina e se
desafina: conjuga-se em todas
as vozes”
O homem ainda não aprender a
ga-se em todas as vozes. Aí está o que
esquecer aquilo que não serve para justifi-
Zaratustra não ousou nomear. Ou o que é
cá-lo. A voz que outrora pretendia dar
existência ao homem, voz pensante, converte-se, em Nietzsche, numa função a
missão, ou melhor, constante execução. O
serviço do corpo. As obras que os homens
que segue disso é que, tomados por esse
pensavam colher como fruto de um de-
novo canto, temos um abandono do corpo
sempenho arquitetado, fazendo que a ra-
como instância de um conhecimento, isto
zão pudesse se orgulhar de todo o seu
é, como juízo ontológico sobre o homem.
feito e de si própria, são as vias úteis que
Ora, foi justamente isso, resguardadas as
o teatro oculto do corpo, algo ainda não
proporções, que produziu, ao longo dos
nomeado, lança mão para que o próprio
fios históricos, uma má compreensão do
corpo prolongasse a sua existência. São
corpo, conduzindo o homem ao extravio
brinquedos para a sua diversão, o que não
de si próprio.
deixa de ser coisa séria. Onde está aquele
O logocentrismo racional, o
telos de outrora? Está posto na travessia;
toque magistral da distinção entre o raci-
é meio. Portanto, o Eu, e aí vale a sua di-
onal e o irracional, como se isso fosse
mensão de individualidade empírica; cons-
grande vantagem, saem, em Nietzsche, de
ciência individual; ego; ou no sentido onto-
sua moldura. Melhor seria dizer, não é
lógico de realidade permanente e invariá-
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“O rapto de Persérfone
por Plutão”, de Bernini
O Corpo
designado de Si Próprio. “O Si Próprio...
tação maior fora de si — D(eu)s. Assim, ele
articulado? São medidas que tentam tocar
reina e é igualmente o soberano do
soterra aquele corpo potencialmente em-
um fundo inefável. A ilusão de dominar a si
Eu‖ (NIETZSCHE, 2011, p.36). Assim, o cor-
bevecido numa dança incansável que ja-
mesmo em decorrência de uma identidade
po é um Si Próprio, efetivado em toda
mais se representava de um modo fixo.
forjada a ferro e fogo, como tentativa de
esta configuração tonal de pulsões, que é
Mas o corpo, pulverizado, anuncia
tornar o corpo um tipo de ego é uma des-
o fundo soberano de tudo aquilo que cada
a imagem por ser ainda reconfigurada
mesura, quando o homem é possuído por
um é.
para não mais se petrificar. Ele estará
toda expressão que foge do seu controle.
Todo aquele fundo não dimensi-
para além de qualquer linguagem. Onde
É quando o corpo, tomando as rédeas
onado de impulsos que era temporaria-
encontraremos a sua consciência? Ou
sobre si, é cólera, esquecimento, fantasia,
mente reconciliado pelo próprio corpo,
inconsciência? A sua consistência? Ou
loucura, gozo desmedido, razão de si mes-
passou a ser invariavelmente conciliado
inconsistência? O que pode ser dito sobre
mo, monstruosidade, experimento, pintura
pelo o homem. ―Dono‖ de um corpo, ele
o corpo e que não pode ser (des)
inacabada, dança frenética.
vai poder planejar, dimensionar, aquila-
Referências
tar, predizer as suas ações. Ele tentará
KLOSSOWSKI, P. Nietzsche e o círculo
dominar toda a sua selvageria. O corpo,
vicioso. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000.
este que passamos a compreender, nasce de sua perda, ou melhor, nasce porque
a fixação de seus impulsos forja uma
personalidade para si, antes não pensada,
requisitada ou necessária. Pierre Klossowski: ―é quando os recursos de renovação do corpo se empobrecem que a
pessoa se fixa, a ‗personalidade se afirma‘‖. (2000, 49). O corpo ganha uma
“ Mas o corpo,
pulverizado,
anuncia a imagem por ser ainda reconfigurada para não mais
se petrificar”
NIETZSCHE, F.W. ―Os Pensadores‖. In:
Obras incompletas. São Paulo: Abril,
1983.
NIETZSCHE, F.W. Assim falou Zaratustra.
São Paulo: Cia das Letras, 2011.
NIETZSCHE, F.W. Ecce Homo: como alguém
torna o que é. São Paulo: Cia das Letras,
2004.
coesão. Aquele Si Próprio, que antes era
NIETZSCHE, F.W. A gaia ciência. São Paulo:
―uma extremidade prolongada do Ca-
Cia das Letras, 2001.
os‖ (KLOSSOWSKI, 2000, p.49), torna-se
em uma extensão capturada, preenchida
por uma organização exterior a si, que,
além de tudo, possui um dono: um pretenso Eu. O orgulho do homem, designandose a si mesmo, ironicamente ao menos
Alexandre Filordi de Carvalho
é Pós-Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Doutor em Filosofia
pela Universidade de São Paulo e Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professor de
Filosofia da Educação na Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP) e de seu Programa de Pós-Graduação em Educação, na linha de pesquisa Saberes, Sujeitos e Processos Educativos. Currículo Lattes: Clique Aqui!
em português, encontra a sua represenPágina 14
O Corpo
Ao clicar na imagem do vídeo a baixo, você poderá assistir no Youtube o
documentário de curta-metragem "Caminho Encantado", que apresenta o desenvolvimento da disciplina ministrada pelo Prof. Nilton Milanez para a turma de
Pedagogia da UESB 2014 na cidade de Maetinga. Os alunos do curso se tornam
os narradores da própria trajetória.
Realização: Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo (Labedisco)
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O Corpo
2º SILTED
SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LINGUÍSTICA E
TECNOLOGIAS EDUCATIVAS
Para mais informações Clique Aqui!
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O Corpo
Partindo da observação foucau-
estampado em manchetes de vários sítios
das celebridades atribuídas, conforme
ltiana, segundo o qual o corpo é uma su-
eletrônicos, na confluência com as redes
propõe Rojek (2008).
perfície de inscrição de acontecimentos
sociais de compartilhamento de fotos. De
Nessa lógica, numa rápida
(FOUCAULT, 2008), alicerçamo-nos na
fato, não é de maneira fortuita que o corpo
busca no site Ego, foi possível constatar
possibilidade de pensarmos o corpo mas-
de Jonas discursiviza-se na mídia. Adepto
que, em notícias publicadas num curto
culino na conjunção com a fama e com o
de práticas bioascéticas (ORTEGA, 2005), o
espaço de tempo, a referência ao corpo
desejo. Para isso, centremos nosso olhar
modelo-celebridade, participante de con-
de Jonas constitui a regularidade que
sobre o corpo de um sujeito específico,
permite a emergência de um discurso
bem como sobre os discursos que (des)
sobre esse sujeito no referido site. Assim,
constroem esse corpo, na interface com a
notícias como: Tira, tira! Jonas Sulzbach
cultura do mostrar-se, atualmente em
fica quase sem roupa em evento (Ego,
voga (BAUMAN, 2013). Desse corpo que
08/09/14); Ex-BBB Jonas exibe músculos
atrai olhares dissimulados, comentários
em ensaio de sunga na praia (Ego,
insidiosos e propostas inscritas nos nós da
19/08/14); Ex-BBB Jonas mostra corpo
rede digital, importa-nos extrair a espes-
cursos de beleza masculina, exibe uma
musculoso em ensaio quente (Ego,
sura histórica que delineia uma apologia
aparência apolínea. Loiro, forte e alto, Jo-
09/08/14); Ex-BBB Jonas Sulzbach mos-
ao corpo malhado, um apelo ao fitness, de
nas carrega consigo todos os requisitos
tra seu corpo sarado em campanha de
modo a conferir o status de celebridade
básicos de certo padrão de beleza. Tudo
cueca (Ego, 24/09/14); Ex-BBB Jonas
aos sujeitos os quais ostentam um corpo
isso aliado a um trabalho meticuloso sobre
exibe tanquinho durante corrida num par-
torneado conforme prega esse saber.
o corpo (FOUCAULT, 1999), no sentido de
que, em SP (Ego, 21/04/14), dentre ou-
É sobre Jonas que especula-
moldá-lo de maneira incessante, numa
tras, escancaram a ênfase no corpo em
mos. É em torno do corpo-Jonas que resi-
espécie de marketing do discurso da boa
forma como uma prerrogativa que permi-
de nosso olhar analítico. O corpo desse ex-
forma e do bem-estar. Essas característi-
te a inserção de determinados sujeitos
participante de um reality show, que pode-
cas podem corroborar as constantes apa-
sob o campo da visibilidade midiática. É
ria perder-se no abismo do esquecimento
rições de Jonas nas vitrines midiáticas,
sob o espectro do corpo de Jonas
midiático, desponta, tal qual uma Fênix,
configurando a manutenção do espectro
(“sarado”, “musculoso”) que gravita o
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O Corpo
foco da ordem discursiva de Ego, retar-
fato de o corpo tornar-se um lugar de
de sujeito infame da qual ele não poderia
dando, assim, o ostracismo previsível dos
sensação e sedução (LE BRETON, 2007),
se furtar, caso não tivesse os atributos
participantes de realities shows.
para o qual um regime de práticas e dis-
corporais que esbanja. São esses atribu-
Outro aspecto relativo às
cursos são demandados. Os comentários
tos que mascaram a falta de uma habili-
frequentes aparições deste ex-BBB, su-
enfatizem, na materialidade significante,
dade ou talento os quais justificariam de
jeito infame (FOUCAULT, 2000) alçado ao
determinadas condutas, como o uso do ai,
modo convincente a transformação de
posto de celebridade, diz respeito a uma
empregado em situações de gozo. Nesse
Jonas numa personalidade midiática, para
ligação do corpo com o desejo, alimenta-
caso, o corpo de Jonas imbui-se de um
além de sua participação num reality
do fortemente por uma remissão a uma
fetiche, personificado, por exemplo, no
show. Com efeito, o caso de Jonas, na
virilidade deste sujeito, na conformidade
comentário que alude ao suposto tamanho
relação com inúmeros outros (ver, por
com uma performance sexual de acordo
do órgão sexual do modelo, exibido por
exemplo, a imersão meteórica e atípica de
com a forma física, insistentemente alar-
este num vídeo íntimo na web.
Geisy Arruda nos holofotes midiáticos, a
deada nas manchetes das notícias publi-
partir da análise de FILHO & LANA, 2014),
cadas por Ego. Nos comentários que
denunciam modificações pontuais na
acompanham as notícias, cujas tags con-
constituição do sujeito celebridade na
tém o nome do Ex-BBB, é possível notar a
sociedade contemporânea.
recorrência de efeitos de sentido concer-
Ao teorizar sobre a celebri-
nentes a um dado fascínio exercido pelo
dade, Bauman (2007) discorre acerca de
corpo de Jonas nos leitores(a) navegado-
uma certa evanescência inerente à cons-
res(a). Tais comentários ratificam a mo-
tituição desse sujeito e assinala que tal
ral da boa forma, do corpo sarado, de
É importante ressaltar, por
característica está em consonância com
modo a compor aquilo que Ortega (2005)
outro lado, que o fato de o corpo de Jonas
as peculiaridades da modernidade líquida.
denomina de bioidentidades, isto é, identi-
constituir-se como um objeto de desejo dá
Segundo esse autor, a notoriedade das
dades pautadas essencialmente pelo
margem a outros discursos, os quais sina-
celebridades encontra lugar num tempo
culto ao corpo. Nos comentários posta-
lizam para a relativização de sua condição
histórico marcado prioritariamente pela
dos pelos leitores(a), podemos evidenciar
de celebridade. Vejamos o comentário a
efemeridade e fugacidade. Assim, ―a ca-
essas constatações, quais sejam: ―Ô, lá
seguir: Agora me diz se ele não tivesse
valgada das celebridades, cada qual apa-
em casa‖, ―Heita, hj n dormia e nem dei-
esse corpo e esse rosto, ele ia fazer o que
recendo do nada só para cair no esqueci-
xava essa coisa gostosa dormir kkkkk‖,
da vida? Pq é um bobo, só abre a boca pra
mento é eminentemente adequada à mar-
―Eu só consigo lembrar dos 21 cm! Ai que
dar explicações de aparições dele pelado
cante sucessão de episódios de existên-
delícia!‖, ―aii tô passando mal, que lindo‖,
na web. A posição sujeito deste comentário
cias fatiadas‖ (BAUMAN, 2007, p.68).
―Deveria avisar que tem cenas fortes,
problematiza a inserção de Jonas no uni-
Ainda nessa linha de raciocí-
infartei‖. Esses dizeres corroboram o
verso midiático, ao questionar a condição
nio, acreditamos que numa era caracteri-
Página 18
O Corpo
bre literatura e história da cultura. Trad.
Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras Escolhidas, v.1).
zada pela cultura à moda mídia
coca é fanta; Acho ele lindo, mas é uma
(LIPOVETSKY, 1989), o sujeito celebridade
Andressa Urach de cuecas (só que ela não
vive na iminência de ser rapidamente
é linda). Se fosse mulher, a gente chamaria
substituído por outro, daí a necessidade
de p‘oota. Como se faz pra chamar ele de
de lançar mão das mais variadas estraté-
p‘oota?. Desde especulações acerca da
gias para retardar o espectro do ostra-
orientação sexual de Jonas ou da possibili-
cismo. Tais técnicas, a nosso ver, tam-
dade de ele se prostituir (clientes, p‘ooto),
bém se configuram como modos de cons-
entrevemos a discursivização de Jonas
tituição desse sujeito. É nessa perspecti-
atrelada a diferentes lugares. Como regu-
va que situamos esses sujeitos no cerne
laridade desse discurso, flagra-se o en-
da exposição midiática a que estão inex-
troncamento do corpo malhado com o de-
tricavelmente atrelados. A produção inin-
sejo e a fama, como um modo de inscrição
terrupta de discursos sobre a vida ínti-
na ordem discursiva midiática. Conforme
ma, (no caso de Jonas, um vídeo na web
diagnosticou Benjamin (1994, p.183): ―cada
foi o suficiente para mantê-lo em cartaz),
pessoa, hoje em dia [anos de 1940], pode
principalmente na rede digital, assinala
reivindicar o direito de ser filmado‖. Toda-
uma das formas por meio das quais tal
via, não basta somente aparecer na tela, é
sujeito é dado a ver, além de uma ênfase
preciso criar estratégias que permitam a
na espetacularização do corpo, sob a
manutenção da visibilidade na mídia. Um
ótica da bioascese. Desse pacto de visibi-
corpo em forma, uma câmera... E os cli-
lidade que o sujeito celebridade necessita
ques se multiplicam indefinidamente...
ROJEK, C. Celebridade. Rio de Janeiro:
Rocco, 2008.
manter, deriva a premência de estar com
Referências
ORTEGA, F. Práticas de ascese corporal e
o corpo em forma. Porém, isso não impli-
BAUMAN, Z. Vida líquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 2007.
constituição de bioidentidades, Cadernos
______. Vigilância líquida. Trad. Carlos
Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 2013.
2003.
ca considerar que a celebridade não seja
alvo de comentários mordazes.
Os comentários postados
nas notícias veiculadas sobre Jonas no
site Ego denunciam determinados posicionamentos sobre a hiperexposição da
celebridade. Assim, são frequentes dizeres do tipo: Os clientes endinheirados
piram nesse corpinho; Os gay pira: ele
devia se assumir logo; Eu acho que essa
Página 19
BENJAMIN, W. A obra de arte na era de sua
reprodutibilidade técnica. In: ______. Magia, técnica, arte e política: ensaios so-
FILHO, J. F.; LANA, L. Pacto de visibilidade:
mídias, celebridade e humilhação, Contracampo, Niterói, v.30, n.2, ed.
ago.nov./2014. Disponível em: http://
www.uff.br/contracampo/index.php/
revista/article/view/682. Acesso em: 13.
out. 2014.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento
da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1999.
______. A vida dos homens infames. In:
_____. O que um autor? Trad. António
Fernando Cascais & Eduardo Cordeiro.
Lisboa: Passagens, 2000.
_______. Microfísica do poder. 25. ed.
Trad. Roberto Machado. São Paulo: Graal
Edições, 2008.
LE BRETON, D. A sociologia do corpo. 2
ed. Trad. S. M. F. Fuhrmann. Petrópolis:
Vozes, 2007.
LIPOVETSKY, G. O império do efêmero: a
moda e o seu destino nas sociedades modernas. Trad. Maria Lucia Machado. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, n.11,
Disponível
em:
http://
www.iesc.ufrj.br/cadernos/images/
csc/2003_1/artigos/2003_1%
20FOrtega.pdf. Acesso em 10. jan. 2014.
Francisco Vieira da Silva é Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutorando em
Linguística pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Membro
do Círculo de Discussões em Análise do Discurso (CIDADI). Currículo Lattes: Clique Aqui!
O Corpo
Dica de O Corpo
Leitura do livro “Imagens Submersas”, escrito por Shirley Penaforte
Aqui, quase respiramos água, sentimos o cheiro de chuva com muita
frequência, comemos os melhores peixes de água doce do planeta,
escrevemos narrativas de água... Grande parte de nossa memória
molhada se atravessa pelo clima úmido, pelos rios e pelas chuvas.
Nesta complexidade que é a região, são muitos interesses em disputa e a experiência humana, por vezes, desenha caminhos tortuosos.
Alteram-se o curso do rio e o curso da história, sem muito pudor,
em nome de um já tão duvidoso modelo de desenvolvimento. Numa
região em que muitos habitantes fazem dos rios suas ruas, condição
social tão recorrente na literatura de expressão amazônica, a construção de hidrelétricas agride o meio ambiente e interfere danosamente nas práticas sociais. Pessoas comuns foram obrigadas a
abandonar suas casas, em troca de indenizações duvidosas e em
nome do "progresso". A área afetada e seus antigos moradores,
hoje, constituem-se em um novo espaço de significação da memória,
com uma luz turva, difusa, que pouco permite aos olhos. Como sempre acontece com as pessoas que vivem estas experiências, a água
ocupou outros espaços e agora elas também são atravessadas por
memórias submersas.
Algumas das fotos que compõem o Livro
Colaboradores
O Corpo é Discurso
é o primeiro jornal
eletrônico de
popularização
científica da Bahia.
Popularização da Ciência
A pesquisa científica gera conhecimentos, tecnologias e inovações que beneficiam toda a sociedade. No entanto, muitas pessoas não conseguem compreender a
linguagem utilizada pelos pesquisadores. Neste contexto, a grande mídia e as novas
tecnologias de comunicação cumprem o papel de facilitadores do acesso ao conhecimento científico. Para contribuir com esse processo, em sintonia com o espírito
que anima o Comitê de Assessoramento de Divulgação Científica do CNPq, criamos
esta seção no portal do CNPq. Seja bem-vindo ao nosso espaço de popularização da
ciência e aproveite para conhecer as pesquisas dos cientistas brasileiros e os benefícios provenientes do desenvolvimento científico-tecnológico.
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