O CORPO ENTRE O RISO E O RISCO UUM ESTUDO SOBRE A ESCOLA NACIONAL DE CIRCO FÁBIO HENRIQUE BARTOLOMEU ANGELO E ROMUALDO DIAS ©2012 Fábio Henrique Bartolomeu Angelo e Romulaldo Dias Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. An437 Angelo, Fábio Henrique Bartolomeu e Romualdo Dias O corpo entre o riso e o risco: um estudo sobre a Escola Nacional de Circo/Fábio Henrique Bartolomeu Angelo; Romualdo Dias Jundiaí, Paco Editorial: 2012. 172 p. ISBN: 978-85-8148-009-1 1. Riso 2. Risco 3. Escola Nacional de Circo 4. Circo Fabio Henrique Bartolomeu Angelo e Romualdo Dias CDD: 507 Índices para catálogo sistemático: Divertimento Púbico Circo Educação IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal Rua 23 de Maio, 550 Vianelo - Jundiaí-SP - 13207-070 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] 791 791.3 370 À vida Agradeço à mãe Terra Sumário UMESTUDO Prefácio...............................................................................7 Introdução Entre o riso e o risco: um estudo sobre os processos de subjetivação......................................11 “Respeitável Público! O espetáculo vai começar!”...............12 Corpo e devir....................................................................16 Por uma “escultura de si” a partir do corpo em devir..........18 Capítulo 1 1. Percursos do circo na cultura........................................25 2. O circo no Brasil............................................................42 3 . A Escola Nacional de Circo...........................................47 Capítulo 2 1. O projeto pedagógico e o processo educacional da Escola Nacional de Circo/FUNARTE...........................51 Capítulo 3 1. O Corpo entre o Riso e o Risco....................................127 Considerações finais........................................................149 Referências.....................................................................161 PREFÁCIO O encontro com O corpo entre o riso e o risco foi um movimento de me deixar ser afetada pelas palavras que Fábio e Romualdo disponibilizaram para nós. Este prefácio, assim como o livro, está em processo de gestação... Uma vez iniciado um processo de criação de um texto ele vai ganhando vida... Foi um prazer ler “Entre o riso e o risco”, ele tocou meu “corpo vibrátil” (Rolnik, 2003) e como num passe de mágica... lá estava eu... no meu tempo de menina! Sentindo sensações que há muito tempo não sentia... As palavras transportaram-me para a alegria de ver o circo chegando... O prazer de acompanhar a sua instalação naquele terreno baldio, que ficava praticamente no centro do bairro de periferia que eu, criança, morava em São Paulo... Durante alguns poucos dias (um ou dois, não me lembro bem...) entre dia e noite, assistíamos ao espetáculo dos circenses, de criação do circo. Cheios de “vontade de vida”, os trabalhadores artistas realizavam um trabalho de escultura do circo e ele ia se constituindo... como no poema da Roseana Murray (1985): “Atrás dos sonhos, atrás das luzes, atrás da lona, os operários fabricam o circo: Batendo pregos, fincando estacas, costurando e remendando, como a aranha fabrica a teia, como a noite fabrica o dia”. Enquanto fabricavam e criavam o circo, nós, crianças, brincávamos e acompanhávamos todo o movimento de instalação do circo. Da chegada dos carros de divulgação ao jogar a lona... Esperávamos... mas não era uma espera vã, a espera já era movimento, era um tempo de “quefazer” (FREIRE, 2000), enquanto esperávamos, pacientemente e acompanhávamos a chegada do riso, meu corpo ganhava uma energia nova, um desejo de cantar, de brincar, de fazer graça... de sair anunciando a novidade!!! 7 Fábio Henrique Bartolomeu Angelo e Romualdo Dias A aproximação ia acontecendo sem palavras... Nossa presença era sinal de acolhida... Somente agora, na vida adulta, ao ler este livro, pude compreender o quanto a farra que fazíamos, o alvoroço e rebuliço das crianças são elementos importantes para a cultura circense. “Se quando o caminhão ou o carro de divulgação chegar à praça e não juntar crianças, esta praça não é boa, não levam pessoas ao circo” (depoimento da nota de rodapé 16). Mas, nona filha de uma escada de dez, vivendo situações de pobreza, mesmo sonhando com a magia do universo do riso, não poderia ir ao circo. Como comprar ingresso? Por uma questão econômica estava impedida de assistir aos espetáculos, mas pelo desejo do riso, eu, juntamente com outras crianças, criava brechas e num movimento de resistência, meu corpo se lançava no risco e “furava a lona” (expressão que usávamos quando combinávamos que iríamos passar por debaixo da lona na hora que as luzes internas se apagassem para o início do espetáculo). Num instante, como num passe de mágica, estava do lado de dentro do circo! Ainda debaixo das arquibancadas, com o coração palpitando de alegria e medo, meus olhos podiam ver as luzes do picadeiro brilhando, eram cores compondo um mundo capaz de mobilizar meu desejo de viver o riso! O risco era o que me possibilitava habitar um território existencial do circo, uma maneira de ser e estar no mundo. O jeito artista de ser do palhaço, do trapezista, do mágico, a bailarina, o domador de leões eram motivos suficientes para convocar em mim o desejo de romper com o instituído. A experiência de furar a lona tem me ajudado muito nesta experiência de educadora que é ao mesmo tempo aprendiz da cartografia. Tenho ficado atenta às sensações que percorrem meu corpo, enquanto atuo no ensino, na pesquisa e na extensão tenho procurado ficar atenta à presença viva do outro e do mundo. Sinto a cada dia a necessidade que 8 O corpo entre o riso e o risco: um estudo sobre a Escola Nacional de Circo Nietzsche aponta, em Crepúsculo dos Ídolos, de sair ao sol a todo instante e sacudir do meu corpo uma seriedade pesada. Ao ler O corpo entre o riso e o risco, tenho a sensação de que as chegadas do circo que acompanhei durante a infância, assim como a atuação do palhaço, do trapezista hoje, nos habilita a para roçar a dimensão trágica da vida. A ensaiarmos outros modos de viver. Vivemos um tempo “à beira da exasperação”, muitas pessoas estão adoecendo por não encontrar sentido nesta vida movida pelo consumo. Percebem a falta de graça e acabam se entregando a uma visão fatalista da história, outros caem na depressão ou síndrome de “burnout”. Este livro ao trabalhar com estas duas categorias, “mapeia a tensão entre a vida e a morte”. Como afirma o texto, esta tensão acompanha a todos nós. É como se estivéssemos vivendo na corda bamba, onde nossos corpos são impulsionados a se movimentar para não morrer. O corpo entre o riso e o risco traz este potencial de tocar o “corpo vibrátil em coma” (Rolnik, 2003) e convocar as forças de resistência e de invenção. “O corpo situado entre o risco e o riso expressa uma condição de agir que considera o aspecto ético, este nos habilita para roçar a dimensão trágica da vida, e o aspecto estético, este que nos auxilia na experiência de permanentes movimentos de criação.” Precisamos desacelerar, habitar outros modos de viver isto implica em suspender os ordenadores simbólicos que configuram o viver em grupo contemporâneo, este vinculado às forças do biopoder, para que assim possamos nos elaborar (...)a partir de uma tradução das possíveis experiências que emergem neste mundo. Interessa-nos o movimento de criação, a vida como obra de arte... Reconhecendo o aspecto interminável desta obra carrego comigo várias inquietações: Como podemos escapar aos pro9 Fábio Henrique Bartolomeu Angelo e Romualdo Dias cessos de disciplinamento e de controle nas escolas, nas famílias, nas comunidades? Como recuperar o gosto e a graça por conhecer? Como levar para dentro das escolas a leveza, a alegria? Necessitamos do riso, da festa, do modo de ser escancarado do palhaço, do sublime, do mágico do circo para “escapar ao encarceramento” dos nossos corpos. Nas linhas deste livro encontro “o caroço duro e germinativo” ele está reverberando em mim como possibilidade de acordamos o nosso “corpo vibrátil em coma” (Rolnik, 2003) criar zonas de contato “linhas de fuga”. Como nas aberturas dos espetáculos circenses da minha infância o livro nos mobiliza!!! Como os palhaços e trapezistas, semeia devires. Hoje tem marmelada? Tem sim senhor... Este é o convite! Dulcinéia de Fátima Ferreira Pereira 10 Introdução Entre o risco e o riso: um estudo sobre os processos de subjetivação Entre o riso e o risco demarcamos uma fronteira, linha traçada na qual se constitui o território por onde transitamos neste nosso livro sobre as relações entre os processos de criação e as práticas educacionais. Este espaço demarcado entre o “riso” e o “risco” se refere a um campo empírico de observação, a Escola Nacional de Circo, situada na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Neste lugar formulamos a nossa pergunta, uma expressão de nossas inquietações e, ao mesmo tempo, o eixo temático orientador de nossos esforços de análise em todo o decorrer desta obra. Que relações podemos estabelecer entre os processos de criação e as práticas educacionais em geral? Como a Escola Nacional de Circo pode se constituir em um campo de observação destas relações? Quais são os aspectos mais específicos, implicados nestas práticas educacionais, que nos auxiliam na compreensão dos problemas emergentes na escola em nossa sociedade? Há uma compreensão sobre a dinâmica do poder, assumida por nós, alinhavando as leituras, o trabalho com documentos de arquivos e a organização de dados recolhidos nas observações empíricas. Identificamos, de início, relações tensas, por isso mesmo, modo de funcionamento do poder, que ora sustenta movimentos de criação ora os interdita. É neste campo tenso de relações de poder que pensamos alguns desafios e impasses da escola na sociedade contemporânea. 11 Fábio Henrique Bartolomeu Angelo e Romualdo Dias “Respeitável Público! O espetáculo vai começar!” As vozes do Circo já entram em nosso texto. Sob o ecoar deste anúncio, convidamos o leitor a entrar em contato com a sua sensibilidade como condição de nos acompanhar em nosso percurso por meio da experiência de se deixar afetar pelas paisagens descortinadas na cartografia realizada por este livro. O corpo está no núcleo de nossa concepção metodológica. Assim, ele também oferece as condições para operarmos deslocamentos nos esforços de pensar sobre o objeto observado. Por isso convocamos o “corpo vibrátil”1, o nosso e o do leitor. Esta convocação ocorre, de entrada, na escuta deste anúncio de algo a se iniciar, no campo próprio do espetáculo circense. Um cuidado se faz necessário como alerta para o cartógrafo aventureiro, incorporado por nós, investigadores, a respeito das marcas da intervenção do poder, tanto nos processos de criação quanto nas práticas educacionais. A Escola Nacional de Circo forma profissionais do entretenimento, artistas cujo campo de trabalho, mais tarde, se faz mesmo como o lugar próprio do espetáculo. Não é o caso da escola regular, esta que se encarrega da formação geral do indivíduo para qualificar a sua pertença e os seus trânsitos pela sociedade. Por isso, nos preocupa muito quando nos deparamos com as marcas de um discurso do espetáculo, se Recolhemos este termo em Suely Rolnik, Cartografia Sentimental transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Editora da UFRGS, 2006, p. 31. Entendemos o corpo vibrátil como o recurso a nos auxiliar na captação dos sinais produzidos no campo do invisível, este lugar feito no movimento de afetar e ser afetado, experimentado por cada indivíduo face ao estranho de si mesmo ou do outro, seja ele humano ou não humano. Aproveitamos esta nota para reconhecer uma grande dívida que temos para com esta instigante pesquisadora. Recorremos aos seus diversos estudos durante toda a nossa pesquisa. Seus textos foram disponibilizados para nós pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil. 1 12 O corpo entre o riso e o risco: um estudo sobre a Escola Nacional de Circo deslocando do seu campo específico, este que é do entretenimento, e entrando sorrateiramente nas escolas e nos discursos dos educadores. Estamos atentos a estes aspectos para sustentarmos algumas diferenças. Mesmo assim, julgamos a Escola Nacional de Circo como um campo privilegiado para observarmos o cruzamento entre movimentos criativos e o trabalho educacional. Desejamos operar um deslocamento neste esforço de compreensão sobre o espetáculo, recusando uma denúncia limitada, e observando aspectos materiais de uma ideologia que vem se firmando no âmbito das escolas em geral. Reafirmamos o sentido do espetáculo em seu campo próprio e desconfiamos de seu uso no interior das escolas no âmbito do ensino regular. Tomamos como foco de nossa análise o projeto pedagógico elaborado pela Escola Nacional de Circo, bem como o processo educacional ali desenvolvido desde o ano de 2003. Este é o campo empírico para o qual dirigimos a atenção. Neste lugar colocamos em funcionamento as duas categorias centrais por nós assumidas em todo o livro: o corpo entre o “riso” e o “risco”. Dentro dos limites de nosso texto formulamos os objetivos de nossa obra em articulação com os pressupostos teóricos sustentadores de nossas inquietações recolhidas naqueles momentos em que experimentamos algum mal-estar com o que vem acontecendo no interior da escola em geral. Lembramos os nossos objetivos como uma forma de favorecer ao leitor as condições de nos acompanhar neste livro. Portanto, pretendemos identificar as marcas de uma política de subjetivação em curso na sociedade através de seus desdobramentos em um campo muito peculiar de observação, justamente pelo fato de que o corpo está necessariamente implicado em todos os atos educacionais. Os estudos de Michel Foucault sobre o “biopoder” e sobre a “biopolítica” sensibilizaram o nosso olhar para escolhermos esta experiência realizada no Brasil. As categorias “riso” e 13 Fábio Henrique Bartolomeu Angelo e Romualdo Dias “risco” apresentam de forma intensiva a disputa do poder, seja na interdição dos movimentos de criação, seja na sustentação de experiências inéditas de reinvenção de si por parte dos “artistas-educandos”. Identificamos, então, neste campo estabelecido entre o “riso” e o “risco”, o lugar de convocação da potência de criação de cada indivíduo, com o qual esta escola pode garantir o seu exercício educacional. Aos estudos de Michel Foucault acrescentamos reflexões elaboradas por Gilles Deleuze. Registramos que na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle se multiplicam os sinais do funcionamento de um “biopoder”, este modo de administrar os corpos em seus mais diversos trânsitos, pelos tempos e espaços no meio urbano. Entretanto, diante da captura pela vida em função de ganhos propiciados pelas inovações do mercado, o corpo reage. A vida é capturada na administração dos corpos, mas estes não se deixam abater. Aqui, cabe a pergunta sobre as condições e as possibilidades da escola compreender e aproveitar os gestos dos corpos, dos educadores e dos educandos, que, aos fragmentos, se esforçam para alcançar formas possíveis de sobrevivência. A Escola Nacional de Circo, situada na cidade do Rio de Janeiro, à Praça da Bandeira, nº 4, é uma instituição que desde 1982 presta-se à formação de técnicos em atividades circenses. Ela é a única escola do país que obteve o reconhecimento institucional do Ministério da Educação quanto à regulamentação e execução de sua atividade pedagógica. A descrição da estrutura da Escola Nacional de Circo nos auxilia neste percurso pelas marcas encontradas em um plano de combinação entre algo instituído e elementos promotores de uma dinâmica instituinte. A escola surgiu para atender a antigas reivindicações dos profissionais de circo de todo o país que constatavam, a exemplo de outros, ser a melhor forma de se preservar a tradição milenar desta arte, cujo ensino e transmissão estavam restritos, aqui em terras “tupiniquins”, aos 14 O corpo entre o riso e o risco: um estudo sobre a Escola Nacional de Circo núcleos familiares. O nosso contato inicial com a estrutura da escola, propiciado por uma visita de observação, ocorreu com uma surpresa de caráter especial para nós, justamente por reforçar a escolha de nossas categorias de análise. As marcas de um movimento realizado nesta fronteira entre o “riso” e o “risco” estavam evidentes no caráter tão precário presente na estrutura da escola. Não há nada de fantástico em uma escola alojada ao lado de um viaduto e que realiza o processo educacional com seus parcos instrumentos. O lugar que deveria primar pelas condições favoráveis à concentração está tomado permanentemente pelos ruídos. Para nós, importa muito observar que, de uma pobreza de recursos, emerge uma riqueza de possibilidades em outra dinâmica de constituição de artistas, sobretudo quando o nosso foco de atenção busca reconhecer os processos de subjetivação. Não apontamos a precariedade das estruturas como uma crítica. Mas perguntamos sobre as condições de aproveitamento desta precariedade por parte dos educadores. Em nosso lugar de observação cabe reconhecer uma dimensão política da precariedade, algo de extremo valor para explorarmos nossas categorias de interpretação das práticas educacionais. Atualmente, a escola é mantida pela Fundação Nacional das Artes, mais conhecida como FUNARTE, um órgão vinculado ao Ministério da Cultura do Brasil. Artistas das mais diversas procedências frequentam esta escola em função de sua excelência e de seu trabalho. Os artistas encontram nela a possibilidade de formação profissional nas mais variadas áreas e técnicas que, ao longo dos séculos, se agruparam em torno do espetáculo circense. Nos últimos anos, esta escola tem recebido apoio de programas de fomento da Petrobrás, para que assim possa desenvolver um trabalho ainda mais apurado. Em duas décadas, esta escola já formou profissionais do picadeiro que, empregados nos maiores circos do Brasil e do exterior, vêm fazendo sucesso e contribuindo para a renova15