A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFISSIONALIZANTE: o duplo desafio para o adulto afastado da escola Luciene Lima de Assis Pires¹, Mara Sandra de Almeida 1. [email protected] Resumo Este artigo é resultado de pesquisa realizada sobre as dificuldades apresentadas pelo adulto, já afastado da escola há alguns anos, que retorna a ela em um curso na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), profissionalizante – Técnico em Edificações área que exige conhecimentos sólidos em ciências exatas. Realizou-se acompanhamento de uma aluna durante um semestre letivo. Verificou-se que as dificuldades apresentadas por um aluno de EJA nas disciplinas na área das ciências exatas são potencializadas quando este aluno frequenta um curso técnico profissionalizante que exige conhecimentos matemáticos como é o caso do curso Técnico em Edificações. Palavras-Chave: Educação de Jovens e Adultos. Educação Profissional. Ensino Aprendizagem Abstract This article is the result of a research done about the difficulties shown by adults, away from school for a couple of years that starts studying again in the Youth and Adults Education Professionalizing Course (EJA in Portuguese) - Buildings Technician Course. An area that demands solid knowledges in the Exact Science. A follow up of a student was done during the semester. The research showed that the difficulties that an EJA student has in the Exact Science area are potentialized when this student frequents a Technician Course, which demands high math knowledges, like the Buildings Technician Course. Keywords: Education for Youth and Adults. Professional Education. Education Learning Introdução A pesquisa realizou-se no primeiro semestre de 2013 e constituiu-se de observação de aulas e acompanhamento de uma aluna matriculada no segundo período do Curso Técnico em Edificações Modalidade ProEja, do Instituto Federal de Goiás (IFG), Câmpus Jataí, por um período de seis meses. A observação tinha como objetivo detectar quais as dificuldades apresentadas pela aluna na disciplina de Matemática e o acompanhamento objetivava, com base nos resultados obtidos, elaborar uma proposta metodológica visando a superação das dificuldades pela aluna. O acompanhamento da aluna em relação ao curso e aos conteúdos Ao entrevistarmos a aluna, indagamos sobre suas expectativas em relação ao curso e percebemos que, antes de começá-lo, ela não imaginava como seria o curso e que tipo de profissional seria o técnico em edificações. No entanto, ela afirmou gostar muito do curso, embora demonstrasse ainda não ter uma ideia clara do que seja a profissão de Técnico em Edificações e qual o seu campo de atuação. Percebemos que a aluna ainda não concebia o curso em sua totalidade e percebia as disciplinas que compõem o curso de maneira fragmentada. Ao questionarmos sobre o que menos gostava no curso, ela se mostrou preocupada com a falta de professores, e consequentemente com o atraso dos conteúdos. Ela relatou que, durante o primeiro bimestre, tiveram os seguintes problemas: Física começou com um mês de atraso; Informática, após um mês e meio de aulas ainda não tinham professor; Química e Português também começaram com um mês de aulas em atraso. Quanto aos conteúdos estudados durante o bimestre, na disciplina de Matemática, a aluna não soube identificá-los, tentou descrevê-los e percebemos que eles trabalharam com conteúdos de geometria, mas não foi possível identificá-los e, consequentemente, não conseguimos descobrir em quais conteúdos ela encontrou maiores dificuldades. Sobre a relação destes conteúdos com sua realidade, ela afirmou que não os usa no seu dia a dia, mas acredita que, no futuro, ao atuar em sua profissão, eles serão úteis. Sobre os instrumentos de avaliação utilizados pelos professores, a aluna afirmou que foram realizados trabalhos e provas escritas. Ela relatou que, na prática, os professores trabalham os conteúdos, fazem uma revisão e depois dão uma prova. Apenas em Química eles tiveram aula prática e fizeram relatório. Para ela, o processo de avaliação utilizado é bom e pontua que, em casa, estuda resolvendo as atividades que os professores passam e lendo os conteúdos trabalhados. Entrevistamos também a professora da disciplina de Matemática na turma da aluna pesquisada, buscando conhecer melhor a realidade da turma e o seu desenvolvimento na disciplina de Matemática e, mais especificamente da aluna por nós acompanhada na pesquisa. A professora nos informou que trabalha com duas turmas de ProEja, o segundo e o quarto períodos e que tem doze anos de experiência em Educação de Jovens e Adultos. Ela também trabalha com o ensino médio regular e já trabalhou com o ensino fundamental regular. Ela considera que a única diferença que há entre o ensino regular e a EJA, está na linguagem, pois, nesta, “muitos alunos não têm uma leitura frequente”. Com os alunos da EJA, ela usa um linguajar mais simples e no ensino regular o “linguajar é o matemático mesmo”. Ela afirma que o planejamento é o mesmo, eles têm carga horária equivalentes e ela trabalha todo o conteúdo previsto, tanto no ProEja, quanto no médio regular. Para ela isto é fundamental, para que eles prossigam nos estudos. De acordo com a professora, os alunos do ProEja, chegam no curso com uma defasagem muito grande nos conteúdos de Matemática e, para superá-la, ela afirma que, ao explicar o conteúdo matemático o faz pelo processo longo, desenvolvendo passo a passo cada etapa do exercício, assim o aluno consegue perceber todo o processo, bem como obtém os pré-requisitos que lhe faltam. Para a professora, a turma de segundo período de ProEja é uma turma que “ainda precisa ser lapidada”, pois os alunos ainda não têm foco na pesquisa e no estudo de grupo. Eles ainda não têm um entrosamento de equipe. A turma é heterogênea, alguns não apresentam dificuldades, e outros já apresentam muita dificuldade. Os alunos ainda estão imaturos, não sabem realmente o que é curso Técnico em Edificações, só no quinto período eles terão essa noção. Por enquanto eles ainda têm muitos conteúdos do núcleo comum. Indagamos à professora sobre os conteúdos ministrados no primeiro bimestre, a fim de verificar se a aluna havia incorporado os conteúdos como foram ministrados. A professora afirmou que havia trabalhado as três unidades do plano de ensino: introdução à geometria plana, ângulos e polígonos. E disse que a metodologia usada foi aulas expositivas, com exemplos práticos do dia a dia dos alunos, exercícios em grupos, em sala, com “atendimento mais personalizado”. Ela relatou que fez uso de projetos de casa, mapas da cidade mostrando as ruas transversais (“esgueiadas”, como dizem os alunos). A professora afirmou também que os conteúdos trabalhados são compostos de muita teoria e que a parte prática começará a partir de uma visita técnica em Brasília, programada para acontecer em breve. A professora considera que, na prática, as dificuldades aparecerão devido à “coordenação motora que alguns já perderam”. Para ela, na prática ocorre um aprendizado diferente. Segundo a professora, o trabalho com a turma é muito tranquilo e ela não encontra dificuldades, sendo que as situações que se apresentam são resolvidas em sala com os alunos. Ela ressalta que é muito feliz por ter a oportunidade de trabalhar com a EJA, sendo que “quer fazer seu doutorado nesta linha de pesquisa”, pois considera que os educadores ainda não sabem lidar com as dificuldades que estão aparecendo. Ela afirma que está sempre em busca de fazer algo melhor e que a escola precisa mudar radicalmente para acompanhar as mudanças que se apresentam. Tanto na fala da aluna quanto na fala da professora, percebemos uma concepção de educação, na qual o professor, detentor do saber, é o sujeito do processo ensino-aprendizagem e o aluno é um ser passivo neste processo. Esta concepção está bem distante de uma educação democrática que “[...] compreende este ser inacabado que somos, que é capaz de ser sujeito do seu processo de aprendizagem e é possuidor de uma história de vida única e uma forma de desejar, de pensar e de estar no mundo também única (DOWBOR, 2008, p.59).” Segundo Freire (2005, p. 100), “será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar conteúdo programático da educação ou da ação política.” No entanto, percebemos, neste acompanhamento, que isso não ocorre, na prática, realizada com esta turma de segundo período de ProEja em Edificações, mais especificamente na disciplina de Matemática, cujo planejamento é o mesmo do ensino médio regular, previamente estabelecido. Tomando a aluna acompanhada como exemplo, consideramos que nossos alunos também não estão preparados para expor sua realidade e seus anseios. Em nossa conversa com a aluna, ao perguntarmos sobre suas expectativas em relação ao curso ela não manifestou-se, colocando-se em uma situação de passividade diante de uma educação pré-estabelecida, pronta e acabada, que lhe é repassada. Percebemos, nesta etapa de acompanhamento, que se faz necessário o debate sobre a EJA dentro das salas de jovens e adultos, a fim de dar aos alunos a oportunidade de falar sobre suas necessidades e seus anseios, com o objetivo de que eles desenvolvam a capacidade de falar, argumentar, e se posicionar diante das situações educacionais por ele vivenciadas. Vale ressaltar que este debate, para promover mudanças efetivas, não deverá ocorrer apenas no início do período letivo, mas em todo o período, num processo contínuo de formação do educando autônomo. O processo ensino-aprendizagem: a relação teoria/prática Em uma segunda etapa, desenvolvemos nosso acompanhamento com o objetivo de verificar se houve alterações quanto ao desenvolvimento da aluna em relação ao primeiro bimestre, bem como a avaliação que a aluna faz em relação à disciplina e ao curso. Como última etapa da observação, realizou-se mais uma entrevista com a aluna e mais uma vez ela afirmou que está indo muito bem, tanto no curso, quanto na disciplina de Matemática. Ela alegou que está muito satisfeita com o curso e que em nenhum momento pensou em desistir. Quanto aos estudos extraclasse, ela reafirmou que dispõe de tempo para estudar em casa, usa computador próprio, usa o laboratório para acessar internet, e tira as dúvidas com os professores. No segundo bimestre, a turma realizou, juntamente com a professora de Matemática, uma visita a Pirenópolis (cidade histórica do estado de Goiás) e a Brasília objetivando analisar e comparar as arquiteturas presentes nas duas cidades e relacioná-la com os conteúdos matemáticos e com o curso Técnico em Edificações. Segundo a aluna, em Pirenópolis, eles tiveram contato com uma arquitetura antiga, bem como com a cultura regional, sendo que assistiram à cavalhada, festa que achou “muito estranha”, pois as pessoas estavam mascaradas. Já em Brasília eles observaram uma arquitetura moderna, composta por monumentos, sendo que ela destacou a visita à explanada, onde observaram formas e ângulos que relacionaram aos conteúdos de geometria vistos em Matemática. Também visitaram a obra de um estádio, onde entrevistaram profissionais da construção civil, sobre a duração das obras, prevenção de acidentes e “outros”. De acordo com a aluna, antes de viajarem, a professora de Matemática pediu que eles, durante a visita, observassem tudo com atenção, pois, ao retornarem deveriam fazer um relatório. Ao ser questionada sobre a relevância da visita para a sua formação, a aluna ponderou que foi uma experiência muito rica para ela, pois teve a oportunidade de conhecer de perto duas realidades tão distintas, uma arquitetura antiga e uma moderna e que tudo era novidade para ela. A aluna afirmou que foi possível articular os conteúdos de Matemática, estudados em sala, com aspectos observados na visita, mas, assim como nas entrevistas anteriores , ela demonstrou dificuldades em falar sobre os conteúdos estudados, em Matemática, neste semestre, alegando que “não assistira as últimas aulas, e por isso, não se lembra dos conteúdos”, inclusive não conseguiu dizer em quais os conteúdos vistos no semestre, teve maior ou menor dificuldade. Perguntamos a aluna se houve alguma mudança na metodologia usada em Matemática depois da visita e a aluna disse que assistiu apenas a uma aula depois da visita, e que, portanto, não sabe dizer qual metodologia foi utilizada nas aulas e se foram aproveitadas as observações feitas por eles na visita. Sobre o ensino de Matemática para a EJA, segundo Oliveira, et. all (2010), existe um consenso em apontar a Matemática como uma das disciplinas na qual os alunos apresentam muitas dificuldades. Para as autoras, A matemática faz parte da vida de todas as pessoas, desde as experiências mais simples, como contar, comparar e operar sobre quantidades. Nos cálculos relativos a salários, pagamentos e consumo bem como na organização de atividades como agricultura e pesca, a matemática se apresenta como um conhecimento de aplicabilidade. Também é um instrumento importante para diferentes áreas do conhecimento, por ser utilizada em estudos ligados tanto às ciências da natureza como às ciências sociais e por estar presente na composição musical, na coreografia, na arte e nos esportes. Os adultos que chegam à escola muitas vezes já têm esse conhecimento empírico, sabem fazer “contas de cabeça”, mas, quando são solicitados a que representem o que fazem mentalmente, não conseguem obter êxito. Esses alunos vêm para a aula de matemática procurando o elo entre o que eles conhecem e o que lhes falta (p. 160). Sobre o seu desenvolvimento na disciplina de Matemática, neste semestre, a aluna considera que foi muito bom, que a disciplina superou suas expectativas e relata que a turma encontra dificuldades na disciplina de Física, na qual houve uma avaliação na semana anterior e os alunos não se saíram bem. Sabe-se que para melhor aprendizagem na física, O ensino de Física na Educação de Jovens e Adultos (EJA) requer estratégias diferenciadas das utilizadas no ensino regular, pois alem das características peculiares dos estudantes dessa modalidade, o período de tempo disponível e muito reduzido, havendo também a necessidade de revisar conhecimentos básicos do ensino fundamental (KRUMMENAUER; COSTA; SILVEIRA, 2010, p. 70). A aluna afirmou que ficar muito tempo fora da escola, e dos conteúdos de Matemática e de Física, dificultam muito, pois o curso Técnico em Edificações exige bastante conhecimento nestas duas áreas. Ela considera que este curso – ProEja é diferente da EJA, que ela cursava antes. Sobre a EJA, ela afirma que havia um aligeiramento nos conteúdos, enquanto que no ProEja há uma preocupação com a aprendizagem dos alunos, e os professores os apoiam mais. Porém ela não sabe se esta é uma característica do curso ou da escola. Sobre a EJA e a educação profissional Machado e Oliveira (2010) afirmam que: Os dois subcampos da educação, EJA e EP, além das disputas naturais que são inerentes à sua constituição histórica, terão que superar as tensões e conflitos decorrentes dessa intersecção formativa, o que deve resultar em projeto políticopedagógico integrador e em práticas educativas que possam superar diferentes formas de preconceito. Essa fase inicial do processo de integração desses dois subcampos indica a necessidade de acompanhamento, de análise, de formação e de diálogo permanente entre os agentes que atuam na gestão e nas instituições formativas desses dois subcampos, uma vez que tal integração implicará paulatinamente mudanças na natureza, no caráter, nos valores, nas finalidades, nos projetos pedagógicos e nas práticas de formação no interior das instituições formativas (p. 13-14). Realizamos uma nova entrevista com a professora que ministra a disciplina de Matemática na turma. Ela afirmou que, no geral a visita foi boa e que a participação da aluna foi muito positiva. Segundo a professora, a aluna e seu esposo, também aluno da turma, fizeram um vídeo, como relatório da viagem. Sobre os objetivos da viagem, na disciplina de Matemática a professora relatou que eles deveriam observar as obras tanto de Pirenópolis quanto de Brasília, para estabelecer uma comparação entre uma obra mais antiga e uma obra mais moderna. Ela destacou que a arquitetura de Pirenópolis é mais simples, onde predominam as figuras planas, enquanto que em Brasília predominam formas mais circulares. A professora relatou que, após a visita, trabalhou o conteúdo de medidas de superfície (área), explorando a percepção dos alunos sobre as obras observadas e que agora eles terão uma parte mais prática, em que trabalharão com material concreto, confeccionando as formas espaciais. Segundo a professora, todo o conteúdo planejado para o semestre será ministrado, para esta turma. Sobre as avaliações de Matemática no segundo bimestre, a professora disse que foi aplicada uma avaliação escrita, eles fizeram o relatório e a terceira nota será a avaliação do trabalho de confecção das formas espaciais. Sobre o aproveitamento da aluna pesquisada, na disciplina de Matemática, a professora destacou que a mesma se desenvolveu bem na disciplina e que houve um progresso considerável em vários alunos, mas ainda há alunos que não avançaram, por falta de estudos extraclasse e informou que alguns alunos desistiram, sendo que apenas 12 alunos da turma permaneceram no curso até aquele momento. Para a professora, grande parte dos alunos jovens ou adultos abandona o curso por problemas pessoais, sendo que ao encontrarem algum obstáculo, os alunos preferem abandonar a escola a tentar conciliá-los com os estudos. Ela afirmou que quando algum aluno desiste, ela repassa o nome do aluno para os setores de assistência estudantil e pedagógico, que procuram entrar em contato com os alunos, mas nem sempre há um retorno e informou que ela mesma já tentou falar com alunos, mas que é muito difícil, pois nem sempre eles atendem. Para Saraiva (2004) O fato de o adulto enfrentar uma cansativa jornada de trabalho durante o dia, a pouca disponibilidade de tempo para tarefas complementares, a ausência da aplicação do conhecimento escolar nas atividades de trabalho seriam a causa da grande evasão, dos problemas de aprendizagem e do precário rendimento na educação de jovens e adultos (p. 76) Indagamos à professora sobre a dificuldade que aluna pesquisada tem em descrever os conteúdos vistos em Matemática e ela respondeu que, é muito comum os alunos apresentarem dificuldade de associar os conteúdos vistos com a nomenclatura Matemática usada neles e que isso não é uma característica só dos alunos jovens e adultos, embora apareça com mais frequência entre eles. Consideramos que esta dificuldade apresentada pela aluna seja o indício de que os conteúdos trabalhados não foram significativos para ela. Compreendemos que a linguagem Matemática é uma linguagem diferente da linguagem utilizada no dia-a-dia dos alunos, e por isso acreditamos que a introdução de um novo conteúdo matemático deve ser precedida de uma avaliação diagnóstica, por meio da qual o professor poderá verificar quais conhecimentos seus alunos já possuem e que podem auxiliá-los na compreensão do novo conteúdo. Ou seja, o professor deve adotar uma “prática pedagógica que fomente uma efetiva relação dialógica entre conhecimento construído e conhecimento transmitido” (PICONEZ, 2009, p. 50). Considerando que os alunos desta modalidade de ensino são jovens ou adultos, em sua maioria, já inseridos no mundo do trabalho, e que trazem uma bagagem de conhecimentos adquiridos ao longo da vida, sugerimos que a professora inicie seu trabalho a partir da geometria espacial, trabalhando seus conceitos por meio da exploração de embalagens de produtos consumidos pelos próprios alunos, bem como confeccionando as formas espaciais com eles. Assim, os alunos depois de familiarizados com conceitos da geometria espacial, estarão mais preparados para trabalhar a geometria plana que é mais abstrata. Considerando ainda, que este ProEja é um curso técnico profissionalizante da área de construção civil, sugerimos o uso de maquetes, mapas e projetos arquitetônicos para trabalhar a geometria, bem como visitas técnicas na própria cidade, a fim de tornar os conceitos trabalhados mais significativos para os alunos. Em entrevista, uma pedagoga da instituição nos informou não haver uma política de combate a evasão dos alunos no IFG – Câmpus Jataí. Segundo ela, em anos anteriores, foi desenvolvido um projeto sob a orientação de uma outra professora de Matemática que também atua no ProEja, com o objetivo de auxiliar os alunos do curso que apresentavam defasagem de conteúdos em Matemática, mas neste ano o projeto não está em desenvolvimento, embora os alunos ainda disponham do auxílio das monitorias , nas quais alunos de séries mais avançadas recebem bolsas para auxiliarem alunos de séries iniciais, em algumas disciplinas, dentre elas, a Matemática. Estas monitorias disponíveis não são específicas para alunos de ProEja. Sobre o Projeto, citado pela pedagoga, conversamos com a professora responsável pelo mesmo e ela nos disse que aquele projeto tinha um tempo de duração que era de dois anos e que este tempo expirou em 2012, sendo que não foi possível mantê-lo porque as bolsas que eram pagas aos monitores que o desenvolviam cessaram. Segundo a professora, os alunos do ProEja quase não frequentavam as aulas do projeto alegando não terem tempo, por isso, várias vezes eles alteraram os horários das aulas, mas não obtiveram sucesso com relação ao aumento da frequência dos alunos. A pedagoga nos informou que não há um trabalho pedagógico específico, destinado aos alunos do ProEja e nem um trabalho de acompanhamento e orientação aos docentes que atuam neste curso. Segundo ela, muitas ações, que existiam nos primeiros anos de implantação do ProEja no IFG – Câmpus Jataí, foram se perdendo ao longo do tempo. Como exemplo ela citou o “Diálogo ProEja”, evento regional que reúne a rede para pensar esta modalidade de ensino, do qual o Câmpus foi excluído por não cumprir metas estabelecidas, em tempo hábil, como apresentação de trabalhos, por exemplo. Ela também informou que havia um acompanhamento ao ProEja feito por uma equipe do MEC/Setec, mas que não ocorre mais. Em entrevista, a servidora, responsável pelo setor de Assistência Estudantil do Câmpus Jataí, nos informou que não há programas e/ou projetos locais de acompanhamento e apoio aos alunos do ProEja, com o objetivo de combater a evasão e a repetência e que já houve algumas ações isoladas de apoio, como a realização de consultas oftalmológicas e aquisição de óculos, há alguns anos e disponibilização de monitores para ministrar curso de Autocad (programa essencial à formação do Técnico em Edificações). Segundo ela, o apoio que os alunos do ProEja recebem atualmente, é um auxílio mensal no valor de cento e vinte reais, sendo que estes alunos podem ainda pleitear outros auxílios (permanência, alimentação e transporte) que são disponibilizados aos alunos, independente da modalidade de ensino, e para os quais é feita uma seleção levando-se em consideração suas condições socioeconômicas. Durante este semestre, acompanhando esta aluna de ProEja, percebemos que os professores do curso trabalham de forma muito isolada, ou seja, não há uma integração entre eles, principalmente entre professores do núcleo comum e do núcleo profissionalizante, prejudicando assim, a formação integral do aluno. Também notamos que falta um projeto de acompanhamento pedagógico tanto aos alunos, quanto aos professores. Neste sentido propomos que seja construída uma política interna de acompanhamento e apoio ao ProEja, com a participação de toda a comunidade envolvida, direta ou indiretamente, nesta modalidade de ensino. Onde, a partir do diagnóstico da realidade vivenciada no ProEja, sejam levantadas suas fraquezas e potencialidades, estabelecidas metas e ações, bem como mecanismos de acompanhamento e avaliação, tendo em vista as necessidades e os anseios de toda a comunidade. Ressaltamos que este trabalho só fará sentido se for resultado do diálogo entre os diversos sujeitos deste processo, pois [...] se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a num ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes (FREIRE, 2005, p. 91). A participação efetiva de todos neste processo é fundamental para que os dados levantados retratem com maior fidelidade a realidade analisada, bem como para que as necessidades e os anseios de toda a comunidade sejam considerados. Os momentos de debate, troca de experiências, análise de dados e de construção de tal política, certamente constituir-se-ão em ricos espaços nos quais os sujeitos do processo poderão refletir sobre a prática pedagógica desenvolvida no curso, vislumbrando a oferta de uma formação, ao jovem e adulto, que extrapole a simples transmissão do conhecimento, rumo a uma formação para a autonomia. Conclusão Concluímos, com a pesquisa, que a criação de espaços dentro da escola para o debate sobre os caminhos que a educação de jovens e adultos deve seguir é fundamental, e que a participação dos alunos nestes debates é indispensável para que eles se vejam como sujeitos neste processo, pois, ao se conceberem como sujeitos do processo ensino-aprendizagem, os alunos têm mais chance de alcançarem resultados positivos – apreensão dos conteúdos e aprovação. No que se refere aos alunos verificou-se que, pelas exigências de um curso profissionalizante – Técnico em Edificações – que necessita de domínio da área das ciências exatas, necessário se faz que a instituição busque uma forma de acompanhamento paralelo com os alunos para que superem as dificuldades que possuem. Outro elemento essencial é a criação de projetos de formação continuada para os profissionais que atuam nesta modalidade de ensino, a fim de prepará-los para vencerem o desafio de formar jovens e adultos autônomos, profissionais capazes de participar efetivamente no mundo do trabalho. Referências DOWBOR, Fátima Freire. Quem educa marca o corpo do outro. Sonia Lúcia de Carvalho e Deise Aparecida Luppi (Orgs.). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 46. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. KRUMMENAUER, Wilson Leandro; COSTA, Sayonara Salvador Cabral da; SILVEIRA, Fernando Lang da. Uma experiência de ensino de física contextualizada para a educação de jovens e adultos. Revista Ensaio, Belo Horizonte, v.12, n.02, p.69-82, mai-ago, 2010. Disponível em: http://www.portal.fae.ufmg.br/seer/index.php/ensaio/article/view/197/438 acesso em. 13/dez./2012. MACHADO, Maria Margarida e OLIVEIRA, João Ferreira. A educação de jovens e adultos integrada à educação profissional: embates, experiências e perspectivas de um campo em construção. In.: A formação integrada do trabalhador: desafios de um campo em construção. São Paulo: Xamã, 2010. OLIVEIRA, Fernanda Ribeiro Queiroz de. Et. all. As particularidades do ensino de adultos: experiências na arte e na matemática. In.: A formação integrada do trabalhador: desafios de um campo em construção. São Paulo: Xamã, 2010. PICONEZ, Stela C. Bertholo. Educação escolar de jovens e adultos: das competências sociais dos conteúdos aos desafios da cidadania. 7. ed. São Pulo: Papirus, 2009. (Coleção Papirus Educação). SARAIVA, Irene Skorpuski. Educação de jovens e adultos: dialogando sobre aprender e ensinar. Passo Fundo: UPF, 2004. (p. 47-81) VIERO, Anezia. Educação de jovens e adultos: da perspectiva da ordem social capitalista à solução para emancipação humana. In.: GUSTSACK, Felipe; VIEGAS, Moacir Fernando e BARCELOS, Valdo (Orgs.). 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