Disponibilidade de nutrientes na cultura da soja fertilizados com farinha de osso de peixe(1) Eduardo Ariel Völz Leismann(2); Affonso Celso Gonçalves Jr.(3); Gustavo Ferreira Coelho(4), Marcelo Gonçalves dos Santos(5), Dionir Luiz Briesch Junior(6), Juliano Zimmermann(7). (1)Trabalho executado com recursos do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). (2)Estudante de Agronomia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná; Marechal Cândido Rondon, Paraná; e-mail: [email protected]; (3)Professor pesquisador na UNIOESTE; e-mail: [email protected]; (4)Professor do Centro Universitário Cataratas; e-mail: [email protected]; (5)Mestrando em agronomia pela UNIOESTE; e-mail: [email protected]; (6)Estudante de Agronomia na UNIOESTE; e-mail: [email protected]; (7)Estudante de Agronomia na UNIOESTE; e-mail: [email protected] RESUMO: A soja compõe a principal fonte de proteína para a indústria da alimentação animal, dentre os elementos que apresentam as maiores limitações nutricionais ao crescimento dessa cultura encontra-se o fósforo, desta forma torna se essencial suprirmos as necessidades nutricionais para alcançarmos bons índices de produtividade. Portanto o objetivo deste trabalho foi avaliar a disponibilidade de nutrientes para a cultura da soja até o final de seu ciclo reprodutivo, submetida à aplicação da farinha de osso de peixe (14% P2O5 solúvel, 37% P2O5 total e 22% de Ca) como adubação fosfatada, utilizando o Superfosfato triplo (SFT) (46% P2O5 solúvel e 16% de Ca) como referência. O experimento foi realizado em Marechal Cândido Rondon (PR), em Latossolo vermelho eutrófico. O Delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados, em esquema fatorial 2x6 sendo avaliados os parâmetros biométricos e componentes de produção para a cultura da soja submetida a duas fontes de P2O5 (Farinha de osso de peixe – FOP e superfosfato triplo – SFT) e seis doses (0, 30, 60, 90, 120 e 150 kg ha-1). Os tratamentos com farinha de osso de peixe disponibilizaram mais K, Zn e Mn para a cultura da soja. Já as plantas submetidas aos tratamentos com SFT obtiveram maiores médias para os nutrientes P, N, Ca e Mg. Termos de indexação: Fertilização, fosfatos, renováveis. INTRODUÇÃO A agricultura brasileira vem apresentando nas últimas décadas importantes avanços tecnológicos que proporcionam inúmeros benefícios e ganhos de produtividade. A soja compõe a principal fonte de proteína para a indústria da alimentação animal, assim como é matéria prima para milhares de subprodutos que surgem a partir desta. Segundo dados da Companhia nacional de abastecimento (CONAB), a estimativa em junho de 2015 é que a produção de soja no Brasil na safra 2014/2015 atinja a marca de 96 milhões de toneladas (CONAB, 2015). Desta forma dados apresentam que a expansão da produção da soja expandiu para diversos terrenos que de forma geral podem apresentar características como terrenos ácidos, lixiviados e pobres em nutrientes, especialmente em fósforo (P) (Piaia et al., 2002). A baixa disponibilidade de fósforo geralmente é a maior limitação no crescimento das plantas, sendo que para a cultura da soja, segundo Lima (1995) o fósforo e o cálcio encontram-se entre os nutrientes que apresentam maiores limitações nutricionais ao crescimento, e também estão relacionados com a maior parte das respostas significativas quanto ao rendimento das plantas. Desta maneira o P é indispensável na fisiologia da planta, fornecendo energia para reações biossintéticas e para o metabolismo vegetal. Ocorrendo deficiência, o P não metabolizado no vacúolo pode sair da célula, sendo direcionado para os órgãos mais novos da planta, e por este nutriente apresentar fácil mobilidade no interior da planta os sintomas de deficiência aparecem por primeiro em partes mais velhas, apresentando coloração verde azulada e redução do crescimento. Além dos baixos teores, o P ainda apresenta uma complexa dinâmica no solo, altas taxas de sorção fixam o nutriente ao solo, o P orgânico (Po) é quelatizado a matéria orgânica assim como o P inorgânico (Pi) está presente em várias combinações com íons de ferro, alumínio, cálcio, dentre outros elementos, conferindo assim ao P uma ampla estabilidade estrutural ocasionando a ausência do nutriente na forma solúvel dificultando a absorção do mesmo pelas plantas (Deith et al., 2005). Conhecendo as características dos solos brasileiros, verificou-se grande resposta da fertilização fosfatada na produtividade de grãos, de maneira que sua utilização tornou-se essencial para que se possa expressar todo o potencial produtivo das culturas, atingindo assim altas produtividades. A soja absorve cerca de 8,4 kg de P para cada tonelada de grãos produzida, sendo a cultura mais exigente em relação às culturas de trigo e milho (Malavolta, 1980). Portanto não basta somente atentarmos em suprir as necessidades nutricionais das culturas, mas também nos preocuparmos com a proveniência das nossas fontes minerais. Visto que nas últimas décadas, a crescente demanda por fertilizantes fosfatados, conciliada à grande expansão da agricultura mundial, resultou na diversificação das fontes fosfatadas produzidas. É considerável a preocupação dos aspectos estratégicos quanto a obtenção do nutriente a nível nacional e internacional visto que matérias primas utilizadas na produção dos fertilizantes fosfatados minerais são recursos naturais não-renováveis, escassos, tendo o Brasil apenas dois a três por cento das reservas mundiais de fósforo (Magalhães, 1993; Lopes et al., 1999). Desta maneira é importante buscarmos formas alternativas que venham suprir as necessidades de P para as plantas. Pesquisas já apontam para uma resposta positiva entre fertilização do solo com diferentes proveniências de fosfatos, como por exemplo Peruzzo et al. (1997) que obtiveram produção de grãos de soja com fosfatos naturais de Gafsa e Arad semelhantes à produção com superfosfato triplo no primeiro cultivo, buscando assim fontes diferentes de fosfato que possam vir a substituir o superfosfato triplo. Desta maneira o objetivo deste trabalho foi avaliar a disponibilidade de nutrientes da cultura da soja até o final de seu ciclo reprodutivo, submetida à aplicação da farinha de osso de peixe (14% P 2O5 solúvel, 37% P2O5 total e 22% de Ca) como adubação fosfatada, utilizando o Superfosfato triplo (SFT) (46% P 2O5 solúvel e 16% de Ca) como referência. MATERIAL E MÉTODOS O experimento foi conduzido em casa de vegetação pertencente à Universidade Estadual do Oeste do Paraná, localizada no município de Marechal Cândido Rondon na longitude 54º 22’ W, latitude 24º 46’ S e altitude média de 420 metros. O solo utilizado nos experimentos de acordo com a classificação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) (Santos et al., 2013) foi um Latossolo Vermelho Eutrófico (LVe) de textura argilosa. As amostras foram destorroadas, homogeneizadas e peneiradas. Antes da instalação do experimento, o solo foi analisado e as características químicas e físicas encontram-se apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 - Análise química e granulométrica do Latossolo Vermelho eutrófico (LVe) P mg dm-3 3,66 Cu MO g dm-3 8,2 Al3+ K+ Ca2+ H+Al --------------------------------------- cmolc dm-3 ----------------------------------------- 5,33 Fe 3,44 Zn - 0,12 Mn 3,32 Areia ---------------------------------------- mg dm-3 ----------------------------------- 13,00 Mg2+ pH CaCl2 0,0 1 mol L-1 38,3 1,5 55,1 1,15 SB 4,59 Silte CTC V % 8,03 57 Argila ----------------------- g kg-1--------------------- 51,42 325,58 623 Foram utilizados vasos com capacidade para 10 kg de solo. Os tratamentos foram arranjados em esquema fatorial (2x6) em blocos casualizados, sendo duas fontes de P 2O5 (farinha de osso de peixe – FOP – 14% P2O5 solúvel, 37% P2O5 total e 22% de Ca e superfosfato triplo – SFT – 46% P2O5 solúvel e 16% de Ca), e seis doses (0, 30, 60, 90, 120 e 150 kg ha-1). Foi realizada a calagem 30 dias antes da semeadura pelo método do IAC, para elevar o índice de saturação por base ao valor de 70%. Primeiramente foram semeados nos vasos o híbrido de milho 30F53 da Pionner, no dia 24 de outubro de 2014, e conduzido até o final de sua fase vegetativa. As fontes de N e K2O utilizadas foram ureia e cloreto de potássio respectivamente nas doses de 150 kg ha-1 (parceladas em três aplicações) e 100 kg ha-1. Após a colheita das plantas de milho foi semeada variedade de soja Intacta RR2 Pro da Monsanto no dia 19 de dezembro de 2014. Para a avalição da disponibilidade dos nutrientes foram coletadas as folhas coletadas do terço superior no início do florescimento como proposto pela EMBRAPA (2002). As amostras foliares foram lavadas com água destilada, e seca em estufa por 48 horas a 65 ºC. Posteriormente as amostras foram trituradas para a digestão sulfúrica, para determinação de N por destilação e digestão nitroperclórica para determinação de P em um espectrofotômetro de ultravioleta visível (UV-Vis) e K, Ca, Mg, Cu, Fe, Zn e Mn em um espectrometro de absorção atômica modalidade chama (EAA-chama). Os dados obtidos foram submetidos à análise estatística, utilizando teste Tukey a 5% de probabilidade e análise de regressão. RESULTADOS E DISCUSSÃO Na Tabela 2 pode se observar o resumo da análise de variância dos macros e micronutrientes no tecido foliar das plantas de soja submetidas a adubação com farinha de osso de peixe (FOP) e superfosfato triplo (SFT) como fertilizante mineral altamente solúvel para referência. Tabela 2 - Resumo da análise de variância dos macros e micronutrientes no tecido foliar das plantas de soja submetidos a adubação fosfatada com farinha de osso de peixe (FOP) e superfosfato triplo (SFT), com a médias dos tratamentos e seus respectivos valores de F -------------------------------------------------- Tecido Foliar -------------------------------------------Fonte P N K Ca Mg Cu Fe Zn Mn MSPA de P -1 -1 ------------------------- g kg ------------------------------------------- mg kg ------------------g/vaso FOP 0,20 b 46,4 b 14,24 a 12,89 b 6,39 b 4,78 54,80 43,36 a 48,3 a 13,6 b SFT 0,27 a 57,7 a 9,96 b 13,81 a 8,25 a 4,66 56,36 34,53 b 44,9 b 15,6 a 0,117ns 23,52* 4,56* 8,34* 31,91 18,11 13,48 18,00 Fcal 5,46* 8,59* 73,04* 10,87* 93,54* 0,076ns C.V. (%) 49,65 28,55 16,01 8,17 10,21 33,66 MSPA: massa seca de parte aérea; F.V. (fonte de variação), ** significativo a 1% de probabilidade pelo teste de Fisher, *significativo a 5% de probabilidade pelo teste de Fisher, ns - não significativo a 5% pelo teste de Fischer, C.V. (coeficiente de variação), letras diferentes na coluna diferem estatisticamente a 5% de probabilidade pelo teste Tukey. De acordo com a Tabela 2, os tratamentos submetidos a adubação com SFT apresentaram maiores médias para os nutrientes P, N, Ca e Mg, enquanto os tratamentos submetidos a adubação com FOP obtiveram médias maiores para os nutrientes K, Zn e Mn. Os teores de P absorvido para os tratamentos com FOP foram menores que aqueles encontrados para SFT. Ao se considerar a massa seca de parte aérea das plantas as plantas de soja apresentaram um conteúdo de P de 2,72 g kg-1 para FOP e 4,21 g kg-1 para SFT, ou seja, pode-se observar uma maior diferença entre o P-absorvido para os diferentes tratamentos. Mesmo a FOP apresentando menores médias, é importante destacar os teores dos micronutrientes Zn e Mn, foram maiores, tornando esta fonte uma ótima alternativa para suprir estes nutrientes quando em deficiência no solo. Na Figura 1 pode-se observa a quantidade de P absorvido pela soja em função das doses de P 2O5 provenientes da FOP e SFT. 0,44 -1 P-absorvido (g kg ) 0,40 FOP SFT 2 2 Y= 0,1268 - 0,6295x + 0,00000047x R = 0,87 2 2 Y= 0,1622 + 0,0053x - 0,000035x R =0,70 0,36 0,32 0,28 0,24 0,20 0,16 0,12 -20 0 20 40 60 80 100 120 140 160 -1 Doses (Kg ha ) Figura 1. P-absorvido em função das doses de P2O5 para farinha de osso de peixe (FOP) e superfosfato triplo (SFT) em um Latossolo Vermelho eutrófico. De acordo com a Figura 1, as doses de FOP e SFT obtiveram um bom ajuste para os teores de P absorvidos, entretanto pode-se observar uma crescente tendência para os tratamentos com FOP, sugerindo que se aumentar as doses desta fonte, a planta poderá aumentar seu rendimento. CONCLUSÕES Os tratamentos com farinha de osso de peixe disponibilizaram mais K, Zn e Mn para a cultura da soja, podendo ser alternativa para solos com a deficiência destes nutrientes. Já as plantas submetidas aos tratamentos com SFT obtiveram maiores médias para os nutrientes P, N, Ca e Mg. AGRADECIMENTOS Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal e Nível Superior (CAPES) REFERÊNCIAS ALMEIDA, Á.M.R.; MARIN, S.R.R.; VALENTIN, N.; BITTNECK, E.; NEPOMUCENO, A.L.; BENATO, L.C.; VLIET, H.V.D.; KITAJIMA, E.W.; PIUGA, F.F. Necrose da haste: uma nova virose da soja no Brasil. Londrina: Embrapa Soja, 2002. 11 p. (Embrapa Soja. Circular Técnica, 36). CAVALLARO J.; MARIO L. Fertilizantes orgânicos e minerais como fontes de N e de P para produção de rúcula e tomate. / Mario Luiz Cavallaro Júnior; Campinas, 2006. CAVALLARO JÚNIOR, M. L. 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