CONTROLE QUÍMICO DE TETRANYCHUS DESERTORUM NA CULTURA DA SOJA
J.V.C. Guedes*; S.B. Possebon**; R.T. Machado*; C.R. Perini*; D. Cagliari*; L.S. Stefanelo*
*Universidade Federal de Santa Maria, Departamento de Defesa Fitossanitária. Av. Roraima
1000, Camobi, Santa Maria - RS. Tel.(55-55)3220-8015 e-mail: [email protected]
**AGRUM Agrotecnologias Integradas Ltda. CP 2015 – 97110-970 Santa Maria – RS- Brasil.
Palavras chave: Tetranychidea, Voliam Targo, ácaro-praga, danos.
Introdução
A cultura da soja é uma das mais importantes atividades agrícolas do Brasil, e fonte de
divisas, através da exportação de seus grãos. A área cultivada com esta oleaginosa cresce
ano a ano e consequentemente a produção nacional, permitindo estimar que o Brasil será,
ainda nesta década, o maior produtor mundial de soja. O aumento da área cultivada, o uso de
cultivares semelhantes ou aparentadas e o uso indiscriminado e por vezes aleatório de
pesticidas têm favorecido a ocorrência de problemas fitossanitários; são exemplos desses
desequilíbrios, a ressurgência de pragas e a ocorrência de pragas secundárias, com
importância antes nunca verificada.
Dentre as pragas de importância crescente na cultura da soja, estão ácaros
tetraniquídeos e tarsenomídeos. No Brasil, as espécies dessas famílias eram de ocorrência
rara e sem importância na cultura da soja, todavia recentemente, em algumas regiões
produtoras da oleaginosa, seus níveis populacionais têm exigido a utilização de métodos
químicos de controle.
A ocorrência de ácaros, causando danos importantes em soja, foi verificada nas safras
2002/03 e 2003/04, em diferentes regiões produtoras desta oleaginosa, no Rio Grande do Sul,
especialmente em soja geneticamente modificada. Foram registradas a ocorrência de
Tetranychus urticae, Polyphagotarsonemus latus, Mononychellus planki, T. desertorum e T.
gigas (Guedes et al., 2004) Estas ocorrências eram inicialmente localizadas e atribuídas a
períodos secos (veranicos), entretanto, mais recentemente, foram verificadas de forma
generalizada no Rio Grande do Sul e em níveis que determinaram a utilização de tratamento
químico (Guedes et al., 2007; e Guedes et al., 2008).
Nos EUA as ocorrências de ácaros são comuns e importantes, exigindo o uso de
acaricidas. As ocorrências estão relacionadas aos baixos níveis de umidade relativa do ar
associadas às pulverizações antecipadas e desnecessárias de inseticidas-acaricidas que
fazem as populações de Tetranychus urticae, principalmente, atingem níveis que necessitam
controle. De modo semelhante, na Argentina, também têm sido registradas elevadas
populações de ácaros das duas famílias já referidas. No Brasil, os registros de ocorrências de
populações de T. urticae e Polyphagotarsonemus latus, além de outros Tetranychidae ainda
não identificados, têm surpreendido técnicos e produtores e determinado à aplicação de
acaricidas para a redução dessas populações a níveis tolerados pela cultura da soja,
entretanto, são raros os produtos registrados para ácaros na cultura, necessitando seu estudo
e desenvolvimento.
As INDICAÇÕES TÉCNICAS DA CULTURA DA SOJA DA REGIÃO SUL, não registram
nenhum produto para controle de ácaros na soja apesar da importância que este grupo de
pragas vem adquirindo na cultura. Deste modo, a identificação e avaliação de produtos
eficientes para o controle de ácaros é oportuna e indispensável à produção de soja. Portanto
o objetivo deste trabalho foi avaliar a eficiência agronômica de inseticidas-acaricidas no
controle de ácaros na cultura da soja.
Material e métodos
-1Producción Vegetal: Insectos
Visando o controle de ácaros, foi instalado um experimento, em 18/03/2008, na safra
agrícola 2008, no município de Santa Maria, RS, coordenadas 29° 42’ 59.50″ S e 53° 43’
59.77″ O, em uma lavoura comercial de soja (Cv. FUNDACEP 53), semeada na densidade de
14 plantas por metro linear, espaçamento de 45 cm entre linhas.
O delineamento experimental foi de blocos ao acaso, com oito tratamentos e quatro
repetições; cada parcela estava constituída de 10 linhas de 10 metros de extensão. Os
inseticidas-acaricidas foram aplicados no estádio R2 (FEHR et al., 1971) utilizando-se um
pulverizador costal, de pressão constante (CO2), equipado com pontas tipo XR 11002,
calibrado para 150 litros de calda/ha.
No momento da aplicação a temperatura ambiente era de 23°C, umidade relativa de
68%, ventos com orientação NO a 2.8 m/s.
Os tratamentos testados estão descritos no Quadro 1:
Quadro 1: Tratamentos e respectivas doses do produto comercial.
Produto
Tratamento
Concentração
Form.
VOLIAM
TARGO *
Chorantraniliprole: 45g/L + Abamectin 18g/L
VERTIMEC
Abamectina: 18g/L
CURYOM
Profenofós: 500g/L + Lufenuron: 50g/L
TAMARON BR Metamidophós: 600g/L
TESTEMUNHA
----
SC
CE
SC
SC
----
Doses ml/ha
i.a.
P.C.
3,375+1,35 75
4,5+1,8
100
6,75+2,7 150
9+3,6
200
3,6
200
150+15
300
300
500
-------
* Foi adicionado óleo mineral à calda na proporção 0,25%v/v.
As amostragens dos ácaros foram feitas aos 3, 7, 10, 14 e 21 dias após a aplicação dos
tratamentos, além de uma avaliação prévia da população. Para estas avaliações foram
contados os ácaros em 1 cm² de 10 (dez) folíolos de soja/parcela, do terço médio e superior
das plantas. Nas amostragens foram separados exemplares que foram identificados pela Dra.
Denise Navia (EMBRAPA/CENARGEM) como Tetranychus desertorum.
Os valores obtidos foram submetidos à análise da variância e as médias comparadas
pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. O controle do ácaro foi calculado pela fórmula de
ABBOTT (1925).
Resultados e discussão
As avaliações foram aos 3; 7, 10, 14 e 21 DAT e uma avaliação prévia, na qual se
verificou que a população de ácaros estava uniformemente distribuída nas unidades
experimentais, em razão de que não se verificou diferença estatística entre tratamentos. O
C.V. (%) variou de 38,61%, na pré-contagem, e 52,99% aos 21 DAT (Tabela 1).
Com relação à eficiência agronômica de VOLIAM TARGO, de modo geral, o aumento da
dose, correspondeu a um aumento dos percentuais de controle, independente da data de
avaliação. Constatou-se, também, para todos os tratamentos, que ao longo das avaliações, a
eficiência aumentou gradativamente, ficando evidenciado que alguns produtos apresentam
um período residual longo.
Aos 3 e 7 DAT nenhum tratamento testado apresentou eficiência acima de 80% sobre T.
desertorum. Estes resultados podem ser explicados em função dos ingredientes ativos
-2Producción Vegetal: Insectos
presentes nos tratamentos com produtos puros ou misturas que apresentam ação lenta sobre
os ácaros tetraniquídeos da soja.
Aos 10 DAT os produtos VOLIAM TARGO (Chorantraniliprole + Abamectin), na dose de
200 ml de P.C./ha e VERTIMEC (Abamectina), na dose de 200 ml de P.C./ha controlaram T.
desertorum com eficiência acima de 80%. Não ocorreu diferença significativa entre os dois
tratamentos eficientes, indicando uma ação exclusiva da Abamectina, cujo controle se elevou
lentamente até aos 10 DAT.
Tabela 1 – Número médio de ácaros (Tetranychus desertorum) por visada, na soja sob efeito de
diferentes acaricidas. Santa Maria, RS. Safra agrícola 2008.
Tratamentos
VOLIAM
TARGO
VOLIAM
TARGO
VOLIAM
TARGO
VOLIAM
TARGO
Doses
P.C.¹/
ha
Avaliação em 1cm²/10 trifólios/parcela
Précontagem
2
Média* PC
03 DAT
Média
PC
07 DAT
Média
10 DAT
PC
Média
**
14 DAT
PC
Média
21 DAT
PC
Média
PC
75
12,0 a -----
8,50 ab 24,8
4,5 b 54,5
4,1 bc 61,7
3,8 bcd 59,1
2,3 bc 68,0
100
11,7 a -----
7,70 ab 31,8
4,7 b 52,5
2,2 bc 79,4
1,9 cde 79,6
1,5 c 79,2
150
10,6 a -----
7,10 ab 37,2
3,9 b 60,6
2,5 bc 76,6
1,5 de 83,9
1,1 c 84,7
200
12,5 a -----
5,40 b 52,2
2,3 b 76,8
1,6 c 85,0
1,1 e 88,2
0,7 c 90,3
VERTIMEC
200
11,4 a -----
5,90 b 47,8
2,6 b 73,7
1,8 c 83,2
1,0 e 89,2
0,9 c 87,5
CURYOM
300
10,4 a -----
6,80 ab 39,8
5,2 b 47,7
4,9 b 54,2
4,7 b 49,5
3,7 b 48,6
TAMARON
500
12,8 a -----
4,70 b 58,4
2,9 b 70,7
3,8 bc 64,5
4,1 bc 55,9
4,1 b 43,0
12,2 a -----
11,30 a -----
9,9 a -----
10,7 a
4
TEST
-----
----
9,3 a
----
CV (%)
38,6
47,8
52,7
52,7
54,1
Produto comercial;
2
Porcentagem de controle (Fórmula de ABBOTT);
3
Dias após a aplicação dos tratamentos;
4
Testemunha;
* Médias, nas colunas, seguidas pela mesma letra, não diferem estatisticamente entre si (Tukey 5%);
** Contagem de ácaros em 1cm² em 10 trifólios/parcela, no terço médio e superior.
7,2 a
----
53,0
1
Aos 14 e 21 DAT os tratamentos VOLIAM TARGO 150 ml e 200 ml de P.C./ha e
VERTIMEC 200 ml de P.C./ha foram eficientes no controle do ácaro vermelho em soja. Entre
os 10 e 14 DAT elevou-se a eficiência de controle indicando claramente a ação lenta, porém
crescente destes acaricidas, esta elevação se manteve até 21 DAT. Entre os três tratamentos
eficientes não ocorreu diferença significativa indicando que qualquer dos tratamentos pode
ser recomendado para essa praga em soja.
CURYON e TAMARON nas doses de 300ml e 500ml de P.C./ha, respectivamente, não
lograram eficiência satisfatória (≥80%).
Conclusões
Em função dos resultados obtidos conclui-se que:
•
VOLIAM TARGO, na dose de 150 ml de P.C./ha, controlou a espécie alvo dessa
pesquisa, com um percentual de eficiência ≥80% entre 14 e 21 DAT;
•
VOLIAM TARGO, na dose de 200 ml de P.C./ha, controlou T. desertorum, na cultura da
soja, com um percentual de eficiência ≥80% entre os 10 e 21 DAT;
-3Producción Vegetal: Insectos
•
Dos produtos tomados como padrão nessa pesquisa, somente VERTIMEC, na dose de
200 ml de P.C./ha atingiu controle satisfatório (≥80%) a partir dos 10 DAT, enquanto
CURYON (300 ml de P.C./ha) e TAMARON (500 ml de P.C./ha) não lograram eficiência para
o controle do ácaro T. desertorum em nenhuma data de avaliação;
•
No período de avaliação dos tratamentos e respectivas dosagens, não foi observado
efeito fitotóxico.
Agradecimentos
Agradecemos a Dra. Denise Navia (EMBRAPA/CENARGEM) pela identificação da espécie
de ácaros. Agradecimentos também às empresas Syngenta e AGRUM Agrotecnologias
Integradas Ltda. pelo apoio na realização do trabalho.
Referências
ABBOTT, W.S. 1925. A method of computing the effectiveness of an inseticide. Journal Economic Entomology,
Maryland, v.18, n.1, p. 265-267.
CORRÊA-FERREIRA, B. S.; PANIZZI, A. R. Percevejos da soja e seu manejo. Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1999.
45p. (EMBRAPA-CNPSo. Circular Técnica, 24).
FEHR, W.R.; CAVINESS, C.E.; BURMWOOD, D.T.; PENNINGTON, J.S. 1971. Stage of development descriptions for
soybeans, Glycine max (L.) Merril. Crop Science, v.11, n.11, p. 929-931.
GUEDES, J.V.C., NAVIA, D.; LOFEGO, A.C.; DEQUECH, S.T.B. Ácaros associados à cultura da soja no Rio Grande
do Sul. 2007. Neotropical Entomology, Londrina, v.36, n.2, p. 288-293.
GUEDES, J.V.C.; ROGGIA, S.; STURMER, G.R. 2008. Ácaros da soja: ocorrência, reconhecimento e manejo.
Revista Plantio Direto, v. 107, p. 32-37, 93.
-4Producción Vegetal: Insectos
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