Projecto, Construção e Comissionamento de uma Unidade Laboratorial de Valorização de Biomassa João Nuno Branco Correia Pina Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Engenharia Mecânica Orientadores: Professor Doutor Viriato Sérgio de Almeida Semião Professor Doutor Mário Manuel Gonçalves da Costa Júri Presidente: Professor Doutor João Rogério Caldas Pinto Orientador: Professor Doutor Viriato Sérgio de Almeida Semião Vogal: Professor Doutor António Luís Nobre Moreira Maio de 2014 i Resumo O presente trabalho centrou-se no projecto, construção, montagem e comissionamento de um reactor experimental, adequado para o estudo das emissões de poluentes resultantes da queima de diferentes tipos de biomassa, em condições de operação distintas. Realizaram-se dois tipos de ensaios, onde se analisaram as emissões de O2, CO2, CO, NOx e HC. Os primeiros ensaios, de comissionamento, visaram a preparação do reactor e o estudo dos efeitos do aumento da sua altura. Os segundos, onde se estudou a influência do estagiamento de ar, basearam-se na investigação do seu efeito nas emissões referidas. As principais conclusões deste trabalho foram as seguintes: 1) A estrutura modular revelou-se adequada em termos da flexibilidade de configuração do reactor; 2) Constatou-se que o aumento da altura do reactor maximiza em 53% o tempo de residência dos gases, reduzindo as emissões de CO em cerca de 60%; 3) Verificou-se que o aumento do ar secundário é acompanhado do aumento da concentração de O2 nos gases de exaustão; 4) Os resultados parecem indicar que o aumento do ar secundário parece provocar um congelamento da reacção de conversão de CO em CO2, resultando num aumento das emissões de CO e, consequentemente, na redução de CO2; 5) Observou-se uma redução de cerca de 20% nas emissões de NOx, para valores de ar secundário entre os 25 e 55%. Isto confirma a eficiência do estagiamento de ar na redução deste poluente; 6) Para a carga térmica mais elevada, é possível estender a percentagem de ar secundário até valores superiores, sem o detrimento da combustão. Palavras-chave: Biomassa, reactor experimental, comissionamento, estagiamento de ar, swirl, poluentes ii Abstract The present work focuses on planning, constructing, assembling and commissioning of an experimental reactor with the objective of developing a laboratorial appliance where different biomasses types in different operational conditions can be studied. Two types of measurements were performed, where the emissions of O2, CO2, CO, NOx e HC were evaluated. The first measurements, of commissioning, were carried out to prepare the reactor and to study the effects of increasing its height. The second measurements, the influence of air staging, were based on the analysis of this technology in the emissions of the referred gases. The main conclusions of this work were the following: 1) The modular structure has proved suitable in terms of flexibility of the reactor configuration; 2) It was found that the reactor height increasing leads to gas residence time growth in 53%, reducing CO emissions in about 60%; 3) The increasing of secondary air percentage is followed by the increasing of O2 concentration in flue gases; 4) It was found that the increasing of secondary air causes the quenching of conversion reactions of CO in CO2; 5) With secondary air values between 25 and 55% it was observed a reduction of NOx emissions in about 20%. Confirming that air staging is a good technology to control NOx emissions; 6) For the thermal load of 34 kW, it was verified that is possible to extend the secondary air percentages to higher values, without the detriment of combustion. Key-words: Biomass, experimental reactor, commissioning, air staging, swirl, pollutants iii Agradecimentos Em primeiro lugar gostaria de agradecer aos meus orientadores, Professor Viriato Semião e Professor Mário Costa, pela orientação séria, exigência e disponibilidade. Gostaria ainda de agradecer-lhes pela compreensão e amizade demonstrada ao longo da elaboração da dissertação. Agradeço ao Sr. Pratas pela pronta ajuda e sugestões dadas ao longo da campanha experimental. Aos Sr. Frade e Sr. Pedro pelo excelente trabalho na produção do reactor experimental, bem como a disponibilidade e frontalidade. Aos meus colegas e amigos do laboratório, Bruno Bernardes, Francisco Portela, António Silva, Isabel Ferreiro, Mafalda Henriques, Ricardo Máximino, João Pires, Wang Gongliang e Ulisses Fernandes, pelo apoio, espirito de entreajuda e amizade. Um especial agradecimento ao meu colega e amigo Tiago Brito pela ajuda incansável no laboratório e também pela amizade. Aos meus amigos e companheiros de curso, Ricardo Mimoso, João Mascarenhas, Ricardo Mesquita, Cristóvão Soares, André Silvério, Gonçalo Luís e Pedro Nunes, pela partilha de experiências, ideias e dificuldades, que em muito contribuíram para o meu crescimento pessoal e intelectual. À minha família pelo enorme apoio e carinho revelados ao longo de todo o meu percurso de vida. Finalmente, mas com igual importância, um enorme obrigado à Joana pelo apoio, compreensão, carinho e paciência que demonstrou ao longo do meu curso. iv Índice de Geral 1. Introdução ................................................................................................................................... 1 1.1. Motivação e Objectivos ........................................................................................................... 1 1.2. Revisão bibliográfica................................................................................................................ 6 1.2.1. Biomassa para energia .................................................................................................... 6 1.2.2. Tecnologias de conversão de biomassa ........................................................................ 10 1.2.3. Combustão em grelha fixa............................................................................................. 12 1.2.4. Estudos anteriores......................................................................................................... 17 1.3. Contribuição da presente dissertação................................................................................... 23 1.4. Organização da dissertação................................................................................................... 23 2. Projecto do reactor experimental ............................................................................................. 24 2.1. Introdução ............................................................................................................................. 24 2.2. Corpo do reactor ................................................................................................................... 24 2.3. Grelha fixa ............................................................................................................................. 27 2.4. Sistema de alimentação de ar ............................................................................................... 28 2.4.1. Ar primário .................................................................................................................... 28 2.4.2. Ar secundário ................................................................................................................ 28 2.5. Sistema de alimentação de sólidos ....................................................................................... 29 2.6. Sistema de exaustão.............................................................................................................. 31 2.7. Sistema de ignição ................................................................................................................. 32 2.8. Instrumentação ..................................................................................................................... 33 2.9. Operação do reactor ............................................................................................................. 34 2.9.1. Arranque ........................................................................................................................ 35 2.9.2. Condições de operação ................................................................................................. 35 2.10. Segurança e manutenção do reactor ................................................................................ 37 2.11. Técnicas de medida e incertezas experimentais ............................................................... 38 2.11.1. Espécies químicas .......................................................................................................... 38 2.11.2. Temperatura.................................................................................................................. 40 2.11.3. Pressão .......................................................................................................................... 40 2.12. 3. Valor acrescentado pelo reactor experimental................................................................. 41 Resultados e Discussão.............................................................................................................. 42 3.1. Introdução ............................................................................................................................. 42 3.2. Comissionamento e influência da configuração do reactor.................................................. 42 v 3.3. 4. 5. Influência do estagiamento de ar.......................................................................................... 48 Fecho ......................................................................................................................................... 54 4.1. Conclusões............................................................................................................................. 54 4.2. Trabalhos Futuros.................................................................................................................. 55 Referências ................................................................................................................................ 56 vi Anexo A Desenhos técnicos Anexo B Caldeira comercial wodtke Anexo C Conversão de unidades dos poluentes vii Índice de Figuras Figura 1.1- Comparação entre as emissões de CO2 resultantes da combustão nos anos de 1973 e 2011 [1] ................................................................................................................................................... 1 Figura 1.2- Cotação do barril de crude em USD [1]................................................................................. 1 Figura 1.3- Cotação da tonelada de carvão em USD [1].......................................................................... 1 Figura 1.4- Cotação do gás natural em USD por MBtu [1] ...................................................................... 2 Figura 1.5- Previsões do fim dos stocks de combustíveis fósseis dada actual extracção [2] .................. 2 Figura 1.6- Consumo energético mundial [3] .......................................................................................... 2 Figura 1.7- Fontes de energia renovável na EU-27 e na zona Euro em 2010 [6] .................................... 3 Figura 1.8- Grande escala [12]................................................................................................................. 5 Figura 1.9- Média escala [12] .................................................................................................................. 5 Figura 1.10- Escala doméstica [12] ......................................................................................................... 5 Figura 1.11- Preço dos combustíveis domésticos típicos em libras [12]................................................. 5 Figura 1.12- Influência da humidade no PCI [9] ...................................................................................... 7 Figura 1.13- Conversão termoquímica [25]........................................................................................... 10 Figura 1.14- Tecnologias de combustão directa [9] .............................................................................. 11 Figura 1.15- Zonas de térmicas [30] ...................................................................................................... 14 Figura 1.16- Redução mássica temporal de uma partícula de madeira com 100mg [32] .................... 14 Figura 1.17- Redução mássica em função da temperatura de uma partícula de madeira com 50mg [32] ........................................................................................................................................................ 15 Figura 1.18- Fases da combustão de sólidos e respectivos produtos [28]............................................ 16 Figura 2.1- Propriedades dos aços inoxidáveis [51] .............................................................................. 25 Figura 2.2- Configurações do reactor com dois e três módulos ........................................................... 25 Figura 2.3- Compilação de imagens do corpo do reactor: a) modulo1, b) configuração de dois módulos sem isolamento, c) imagem da instalação experimental, d) janela de observação............... 26 Figura 2.4- Grelha fixa ........................................................................................................................... 27 Figura 2.5- Ilustração em 3D da grelha fixa ........................................................................................... 27 Figura 2.6- Esquema do sistema de alimentação de ar: a) rotâmetro ar secundário, b) rotâmetro ar primário, c) entradas de ar, d) ilustração 3D das entradas de ar, e) zoom das entradas de ar ............ 29 Figura 2.7- Esquema do funcionamento do sistema de alimentação em mola .................................... 29 Figura 2.8- Compilação de imagens do sistema de alimentação de combustível: a) depósito e motor, b) funil metálico e tubo de alimentação, c) base do depósito e mola, d) reóstato, f) sistema de alimentação ........................................................................................................................................... 31 Figura 2.9- Válvula de exaustão: a) vista lateral, b) vista interior ......................................................... 32 Figura 2.10- Compilação de imagens do sistema de ignição: a) forno eléctrico, b) resistência eléctricas, c) termopar do forno, d) dispositivo de controlo P.I.D ........................................................ 32 Figura 2.11- Esquema resumo do reactor experimental....................................................................... 33 Figura 2.12- Valores dos caudais mássicos para as velocidades de rotação 0 e 1 ................................ 36 Figura 2.13- Ar primário com rotâmetro a 60% da sua capacidade: arrastamento de partículas, assinaladas a vermelho ......................................................................................................................... 37 Figura 2.14- Sonda em aço inox com arrefecimento indirecto a água ................................................. 38 Figura 2.15- Esquema do sistema de amostragem ............................................................................... 39 Figura 2.16- Esquema da constituição do termopar ............................................................................. 40 viii Figura 3.1- Configuração do reactor com dois e três módulos ............................................................. 43 Figura 3.2- Posicionamento da sonda e do termopar para o ensaio de comissionamento com três módulos: ar primário e secundário de 150 e 50 l/min. ......................................................................... 43 Figura 3.3- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de dois módulos-Porta2 ............... 43 Figura 3.4- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de dois módulos-Porta2 ............... 44 Figura 3.5- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta2................. 45 Figura 3.6- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta2 ................ 45 Figura 3.7- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta1................. 47 Figura 3.8- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta1 ............... 47 Figura 3.9- Temperatura no queimador para os testes de comissionamento ...................................... 48 Figura 3.10- Imagem da chama com 75% de ar secundário: presença de fumos negros ..................... 49 Figura 3.11- Imagem da chama com 55% de ar secundário ................................................................. 49 Figura 3.12- Emissões de O2 e CO2 em função do % de ar secundário para 14kW ............................... 50 Figura 3.13- Emissões de NOx e CO em função do % de ar secundário para 14kW .............................. 50 Figura 3.14- Temperatura no queimador e porta1 em função do % de ar secundário para 14kW ...... 51 Figura 3.15- Emissões de O2 e CO2 em função do % de ar secundário para 34kW ............................... 52 Figura 3.16- Emissões de NOx e CO em função do % de ar secundário para 34kW .............................. 52 Figura 3.17- Temperatura no queimador e porta1 em função do % de ar secundário para 34Kw ...... 53 ix Índice de Tabelas Tabela 1.1- Comparação entre as características da biomassa e carvão [18] ........................................ 8 Tabela 1.2- Índice de formação de depósitos e incrustações [21] .......................................................... 9 Tabela 1.3- Poluentes emitidos na combustão da biomassa [23]......................................................... 15 Tabela 2.1- Propriedades das pellets de pinho ..................................................................................... 34 Tabela 2.2- Média e desvio padrão dos caudais mássicos para as velocidades de rotação 0 e 1 ........ 36 Tabela 2.3- Tipo e método de análise dos analisadores ....................................................................... 39 Tabela 3.1- Tempos de residência mínimos para as duas configurações ............................................. 46 x Nomenclatura Abreviaturas ar: as received b.h. base húmida b.s.: base seca CDR: Combustível Derivado de Resíduo COV: Compostos Orgânicos Voláteis da: diâmetro aerodinâmico daf: dry ash free db: dry basis HC: Hidrocarbonetos PAH: Polycyclic Aromatic Hydrocarbons PM: Particle Matter PMtot: Particle Matter, total PM1: Particle Matter with aerodynamic diameter less than 1µm PCI: Poder Calorífico Inferior PCS: Poder Calorífico Superior PCDD: Policlorodibenzeno-p-dioxinas PCDF: Policlorodibenzenofuranos RSU: Resíduos Sólidos Urbanos UE: União Europeia xi 1. Introdução 1.1. Motivação e Objectivos No mundo industrializado e desenvolvido em que vivemos, é impensável viver sem energia. Nos últimos anos, assistiu-se ao aumento das preocupações a nível ambiental e da sustentabilidade energética. Assim, é importante explorar novas fontes de energia, como é o caso das energias renováveis em vez do uso de combustíveis fósseis. Para além das emissões de poluentes resultantes da queima de combustíveis fósseis (ver Figura 1.1), a crescente escalada de preços (ver Figura 1.2, Figura 1.3 e Figura 1.4), a sua escassez de reservas (ver Figura 1.5) e a elevada procura energética mundial (ver Figura 1.6), levam a que a segurança e sustentabilidade energética estejam no topo da agenda política internacional. Figura 1.1- Comparação entre as emissões de CO2 resultantes da combustão nos anos de 1973 e 2011 [1] Figura 1.2- Cotação do barril de crude em USD [1] Figura 1.3- Cotação da tonelada de carvão em USD [1] 1 Figura 1.4- Cotação do gás natural em USD por MBtu [1] Figura 1.5- Previsões do fim dos stocks de combustíveis fósseis dada actual extracção [2] Figura 1.6- Consumo energético mundial [3] No seguimento dessas preocupações a Comissão Europeia, em Março de 2007, definiu três objectivos para o ano de 2020, objectivos estes apelidados como “20-20-20”, que a seguir se apresentam: Reduzir em 20% as emissões de gases com efeito de estufa na UE, relativamente aos níveis de 1990; Aumentar a contribuição de energia de fonte renovável na UE em 20%; Melhorar a eficiência energética na UE em 20%. 2 De entre os gases com efeito de estufa, podem salientar-se o CO2 e o CH4, representando cerca de 63% e 19% do total das emissões [4], respectivamente, sendo o CH4 vinte e uma vezes mais prejudicial que o CO2 [5]. De acordo com a Figura 1.7, no ano de 2010, a biomassa foi a fonte de energia renovável com uma maior contribuição para o total da energia primária de origem renovável na Europa a 27. Figura 1.7- Fontes de energia renovável na EU-27 e na zona Euro em 2010 [6] Biomassa é o nome dado a toda a matéria viva existente e está entre os recursos mais preciosos e versáteis do planeta. A energia proveniente do sol é a sua fonte energética, sendo armazenada quimicamente nas plantas e animais [7]. Segundo a Directiva Europeia de 23 de Abril de 2009, 2009/28/CE, a biomassa é “a fracção biodegradável de produtos, desperdícios e resíduos de origem biológica provenientes da agricultura (incluindo substâncias vegetais e animais), da silvicultura e indústrias conexas, incluindo a pesqueira e aquacultura, bem como a fracção biodegradável de resíduos industriais e sólidos urbanos ”. Dado que durante o seu crescimento a biomassa consome a mesma quantidade de CO2 atmosférico que é emitida durante a sua combustão [8], pode considerar-se neutra do ponto de vista das emissões desse gás. Desta forma poderá considerar-se a sua queima como uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis. É de salientar que os processos de recolha e transporte da biomassa também conduzem a emissões de CO2, pelo que a neutralidade referida diz somente respeito à sua combustão. Como tal, para o balanço das emissões de CO2, a relação entre a proximidade da fonte e o seu local de utilização apresenta um papel crucial. De entre todas as tecnologias de conversão de biomassa, a combustão é a dominante, mais simples e melhor estabelecida, representando cerca de 90% da contribuição da bioenergia a nível global [9]. Por este motivo a presente dissertação focaliza a atenção nesta tecnologia. A principal vantagem do uso da biomassa face às outras fontes de energia renovável é a possibilidade de esta ser aplicada num curto prazo. Os equipamentos originalmente concebidos para a queima de combustíveis fósseis são facilmente convertíveis, com pequenas ou nenhumas modificações. Outra grande vantagem do uso da biomassa é a menor dependência de factores externos, como por exemplo, a falta de vento ou de sol para as energias eólica e solar, respectivamente. Para além disso, a biomassa pode ser armazenada com relativa facilidade, ao 3 contrário das energias anteriores. Quando comparada com a energia hídrica, a biomassa também ganha vantagem no que diz respeito à sua possível utilização, pois enquanto grande parte dos recursos hídricos existentes já se encontrarem explorados, a disponibilidade da biomassa é ainda muito vasta. O cultivo de terrenos baldios (com culturas energéticas de rápido crescimento), a produção de biocombustíveis líquidos (biodiesel) e gasosos (biogás) e a produção de pellets dos mais variados tipos de biomassa (como, por exemplo, resíduos agrícolas e florestais), poderão ser factores de crescimento e aproveitamento económico a nível regional e nacional. No entanto, caso as possibilidades anteriores se tornem uma realidade em larga escala, há que salvaguardar certos aspectos sociais como, por exemplo, a competição de terrenos e recursos para a produção de biomassa em detrimento da produção de alimentos, e aspectos ambientais como, por exemplo, o cultivo de biomassa em áreas florestais, para que a produção de biomassa se torne sustentável. Por outro lado, a grande desvantagem da utilização da biomassa é a emissão de poluentes sólidos e gasosos resultantes da sua combustão, com repercussões para a saúde, ambiente e operacionalidade dos equipamentos. As tecnologias de combustão de biomassa acarretam um elevado custo de investimento em equipamento de limpeza dos gases e filtros de partículas, onde, de acordo com [10], cerca de 35% do custo de uma central eléctrica está directamente ligada com as limitações de emissões para o ar. Mais, a utilização de biomassa requer geralmente a implementação de boas práticas de manuseamento e pré-tratamento (físico, térmico ou químico), devido à possibilidade da presença de sílica e metais alcalinos que podem danificar os equipamentos [11]. A energia proveniente da biomassa pode ser gerada em grande, média e pequena (ou doméstica) escala. Na grande escala é valorizada individualmente ou em co combustão com o carvão em centrais termoeléctricas. Normalmente, neste tipo de instalações, a biomassa é alimentada na sua forma bruta (ver Figura 1.8), isto é, sem qualquer tipo de processamento. As biomassas mais utilizadas são os desperdícios de madeira (proveniente de resíduos florestais ou de industrias madeireiras), as culturas energéticas de curta rotação e os RSU. Na média escala, como nos casos dos apartamentos, escritórios e unidades industriais, é utilizada em sistemas de cogeração ou simplesmente em sistemas de aquecimento centralizado (ver Figura 1.9). Nesta escala, a biomassa é normalmente valorizada sob a forma de chips ou pellets. Finalmente, no sector doméstico, a biomassa é utilizada exclusivamente para aquecimento em caldeiras e fornos a pellets (ver Figura 1.10), competindo com o gás natural, o GPL e o petróleo liquido (ver Figura 1.11) [12]. No futuro, pretende-se utilizar estas caldeiras para a micro-geração de electricidade. No entanto, neste sector os pellets ainda não rivalizam com os restantes combustíveis [13]. 4 Figura 1.8- Grande escala [12] Figura 1.9- Média escala [12] Figura 1.10- Escala doméstica [12] Figura 1.11- Preço dos combustíveis domésticos típicos em libras [12] 5 No sector doméstico, a maioria das unidades de combustão não está dotada de uma eficiente limpeza/tratamento de gases, resultando em elevadas emissões de poluentes. A ausência de um sistema de limpeza é verificada para instalações com capacidade inferior a 1 MW térmico e a explicação deve-se à sua inviabilidade económica [14]. A esta escala, é necessário um maior controlo ao nível da combustão, de forma a mitigar as emissões de poluentes. É no âmbito da utilização da biomassa à escala doméstica que o presente trabalho se insere. De facto, tendo em conta todas as condicionantes e desafios da utilização da biomassa enquanto alternativa energética, a presente dissertação apresenta o projecto, construção e os ensaios de um reactor experimental, com o intuito de estudar e compreender os mais variados fenómenos decorrentes da combustão de diferentes tipos de biomassa, em particular, as emissões de espécies químicas e partículas, resultantes da sua queima. 1.2. Revisão bibliográfica 1.2.1. Biomassa para energia A biomassa pode ser agrupada em culturas energéticas ou resíduos. As culturas energéticas incluem culturas lenhosas e agrícolas, enquanto os resíduos contemplam os desperdícios florestais, animais e de indústrias madeireiras, águas residuais e RSU [15]. Compete principalmente com o carvão, por se tratarem ambos de combustíveis sólidos. Será importante comparar estes dois combustíveis para uma melhor compreensão do comportamento da combustão da biomassa. A grande diferença entre a biomassa e os combustíveis de origem fóssil reside na escala temporal da sua formação. Para efeitos de queima, o combustível é geralmente analisado a nível imediato, elementar e em termos de poder calorífico. A análise imediata determina a fracção mássica de voláteis, carbono fixo, humidade e cinzas presentes no combustível, enquanto a análise elementar fornece as fracções mássicas de C, S, H, N, Cl e O [16]. Embora as características dos combustíveis derivados de biomassa tenham uma grande variabilidade, dependendo da origem da matéria-prima, colheita, transporte, pré-tratamento e armazenamento, existem propriedades que os fazem consideravelmente diferentes dos combustíveis fósseis. Estas diferenças têm um papel importante no que diz respeito à emissão de poluentes. Comparativamente com o carvão, onde as cinzas são dominadas por minerais inclusivos (formados na mesma escala temporal que o carvão), como o Silício (Si), Alumínio (Al) e Ferro (Fe), os combustíveis derivados de biomassa são ricos em nutrientes essenciais ao seu crescimento, como Cálcio (Ca), Potássio (K), Sódio (Na) e Fósforo (P) [8]. Os principais elementos constituintes da biomassa, por ordem decrescente de abundância, são geralmente C, O, H, N, Ca, K, Si, Mg, Al, S, 6 Fe, P, Cl e Na, mais Mn, Ti e outros metais de transição. Em comparação com o carvão, a biomassa é normalmente: (1) altamente enriquecida em Mn> K> P> Cl> Ca> (Mg, Na)> O> humidade> material volátil; (2) ligeiramente enriquecida em H; (3) tem menor conteúdo de Al, C, Fe, N, S, Si e Ti. [17]. Um dos parâmetros que definem a qualidade do combustível é o poder calorífico, que expressa a quantidade de calor libertada pela combustão completa de uma unidade de combustível (massa ou volume). Estão consagrados na literatura dois tipos de poder calorífico: o Poder Calorífico Superior (PCS) e Poder Calorífico Inferior (PCI). A diferença entre ambos reside no estado físico em que se encontra a água nos produtos de combustão. Quanto menor for o teor de humidade no combustível maior será o seu poder calorífico (ver Figura 1.12). Figura 1.12- Influência da humidade no PCI [9] O poder calorífico superior de um combustível sólido (em base seca) pode ser calculado pela seguinte relação empírica [9], em que = 0,3491. + 1,1783. é a fracção mássica do componente : + 0,1005. − 0,0151 − 0,1034 − 0,0211 [ ] Um aumento das fracções mássicas de C, H e S induz um aumento do PCS, enquanto que para as fracções mássicas de N,O e cinzas, a tendência é a oposta. Com base na Tabela 1.1, a relação empírica anterior permite constatar que o PCS do carvão é superior ao da biomassa. 7 Tabela 1.1- Comparação entre as características da biomassa e carvão [18] Análise Biomassa Carvão betuminoso 17– 23% biomassa lenhosa; Carbono fixo (b.s.) 12– 23% culturas energéticas. 55% 77–83% biomassa lenhosa; Voláteis (b.s.) 69–82% culturas energéticas. 39% <2.5% biomassa lenhosa; Cinzas (b.s.) 2– 14% culturas energéticas. 1– 12% 30–60% biomassa lenhosa; Humidade (b.h.) 8–30% culturas energéticas. 2– 15% 49–55% biomassa lenhosa; Carbono (b.s.) 43–49% culturas energéticas. 76% Hidrogénio (b.s.) 5– 7% biomassa lenhosa e culturas energéticas. 4,4% Oxigénio (b.s.) 35– 45% biomassa lenhosa e culturas energéticas. 5,7% < 0,7% biomassa lenhosa; Azoto (b.s.) 0,2–1,54% culturas energéticas. 1,4% < 0,07% biomassa lenhosa; Enxofre (b.s.) 0,07–0,16% culturas energéticas. 0,5– 1,5% <0,1% biomassa lenhosa; Cloro (b.s.) 0,07– 0,18% culturas energéticas. 0,1% (exemplo: palha e erva). <0,04% biomassa lenhosa; Potássio (b.s.) <1% for culturas energéticas. 3 Massa volúmica (kg/m ) PCS (MJ/kg) 0,06– 0,15% 100– 700 biomassa lenhosa e culturas energéticas (700– 1000 para pellets) 850– 1200 14– 19 MJ/kg (ar seco) culturas energéticas; 15– 20 MJ/kg (ar seco) biomassa lenhosa. 28 Devido ao seu menor poder calorífico, a biomassa tem uma temperatura adiabática de chama menor e uma pior estabilidade de chama [8]. A composição das cinzas (material inorgânico presente no combustível) na biomassa é dominada por metais alcalinos com baixo ponto de fusão [19], contrariamente às cinzas do carvão. Por esse motivo, na combustão da biomassa são emitidas mais cinzas volantes finas [20]. De facto, Miles et al. [21] estabeleceram um índice de formação de depósitos e incrustações, que relaciona a quantidade de óxidos de metais alcalinos e o poder calorífico, em GJ (ver Tabela 1.2). A explicação para escolha destes compostos deve-se ao facto destes metais alcalinos se encontrarem na biomassa sob a forma de óxidos. 8 Tabela 1.2- Índice de formação de depósitos e incrustações [21] Formação de depósitos e Kg (K2O + Na2O) / GJ incrustações <0,17 Pouco significativo 0,17;0,34 Significativo >0,34 Grave Para a generalidade dos carvões, o referido índice é inferior a 0,1 kg/GJ, enquanto que para culturas de rápido crescimento é superior a 1 kg/GJ. A biomassa, mesmo que densificada, tem menor densidade e friabilidade do que o carvão [8], correspondendo esta última característica à capacidade de o combustível se degradar, sendo deveras importante no que diz respeito à formação de partículas. No sector doméstico, a forma mais comum da utilização de biomassa é sob a forma de pellets (combustível densificado). Esta foi uma maneira encontrada para fazer face à baixa densidade com que a biomassa se encontra na natureza. Os pellets, comparativamente com a biomassa no seu estado original, têm inúmeras vantagens [13], [22] e [23]: Facilitam a utilização de certos tipos de biomassa que não poderiam ser queimados em grelha fixa, como por exemplo a casca de arroz; Têm menor teor de humidade, pelo que a combustão se dará em melhores condições e a degradação do combustível armazenado será menor; Têm maior densidade energética, maior rendimento térmico e portanto, o custo por unidade de energia é mais reduzido; Exibem maior facilidade de armazenamento e transporte; Permitem uma combustão uniforme; Asseguram uma alimentação mais eficiente; Garantem maior segurança no armazenamento, com menor risco de combustão espontânea; Dão origem a uma menor emissão de partículas. Resumidamente, as propriedades da biomassa que mais afectam a combustão podem ser agrupadas em propriedades físicas, químicas e térmicas. As propriedades físicas incluem a porosidade, área de superfície interna, dimensão, forma e densidade. As propriedades químicas englobam as análises elementar e imediata, análise dos produtos da pirólise, poder calorífico do combustível, calor de pirólise, poder calorífico dos voláteis e do resíduo carbonoso. As propriedades térmicas incluem o calor específico, condutibilidade térmica e emissividade, que variam com o teor de humidade, temperatura e degradação térmica [8]. 9 Apresentadas as principais características da biomassa, a secção seguinte expõe as tecnologias actualmente usadas para a sua valorização. Em particular, as tecnologias que se dedicam à sua queima. 1.2.2. Tecnologias de conversão de biomassa As tecnologias de conversão de biomassa podem ser divididas em dois grandes grupos: conversão bioquímica e conversão termoquímica. Na conversão bioquímica são utilizadas bactérias que decompõem a matéria orgânica, libertando gases com potencial energético. Dois exemplos deste tipo de conversão são a produção de biogás e de etanol [24]. Na conversão termoquímica são utilizados processos que utilizam calor. Neste processo estão presentes a pirólise, gaseificação, liquefacção e a combustão directa (ver Figura 1.13). Figura 1.13- Conversão termoquímica [25] Nos primeiros três processos a conversão termoquímica é indirecta, uma vez que o calor é armazenado quimicamente sob a forma de combustível (gasoso, sólido e líquido), podendo ser utilizado quando necessário (e não imediatamente) como no caso da combustão directa [26]. A presente dissertação focaliza a atenção na combustão directa por ser a tecnologia dominante, mais simples e melhor estabelecida. Tecnologias de combustão directa Existem diferentes tecnologias para a combustão directa de sólidos [9] (ver Figura 1.14): Combustão em grelha fixa; Combustão em leito fluidizado; Combustão com combustível pulverizado (ou combustão em suspensão). 10 Figura 1.14- Tecnologias de combustão directa [9] Na combustão em grelha fixa estão englobadas diferentes tipos de grelhas, tais como as fixas, móveis, de deslocamento, rotativas e vibrantes [9]. Nesta tecnologia, o ar primário é insuflado sob a grelha e na maioria destes sistemas a insuflação de ar é efectuada em duas ou mais zonas, de modo a melhorar a oxidação dos gases e partículas provenientes da zona primária de combustão. O transporte de combustível é assegurado por efeito gravítico, dada a inclinação da grelha ou do alimentador. A combustão ocorre sobre a grelha. Na combustão em leito fluidizado o combustível é misturado com uma massa de material inerte, geralmente areia, que é fluidizada pela passagem de gases (geralmente ar) através do leito. Dependendo da velocidade com que os gases são insuflados sob o leito (velocidade de fluidização), assim se pode distinguir, respectivamente para menores ou maiores velocidades, a combustão em leito fluidizado borbulhante ou circulante. No leito circulante é necessário a incorporação de um ou mais ciclones, com o intuito de captar o material inerte arrastado pelo gás de fluidização. A combustão ocorre em suspensão numa mistura de gás e material constituinte do leito [9]. Na combustão com combustível pulverizado, este tem de ter dimensões reduzidas, tipicamente diâmetros médios inferiores a 2 mm, e baixo teor de humidade. O combustível é admitido na caldeira por intermédio de queimadores e a combustão ocorre em suspensão, geralmente após a insuflação de ar secundário [9]. À escala doméstica a tecnologia de combustão dominante é a grelha fixa [5] e dado que a presente dissertação se foca na combustão a esta escala, esta tecnologia será aprofundada. As fornalhas com tecnologia de combustão em grelha fixa têm as seguintes vantagens: conseguem lidar com uma grande variedade de combustíveis de diferentes dimensões, formas e teores de humidade (até 60%) [9]; o custo de investimento e manutenção, para instalações até 10 MW térmicos, é inferior às restantes tecnologias de combustão [27]; têm uma menor quantidade de poeiras nos 11 efluentes gasosos; são menos sensíveis a depósitos (slag) e aglomerações, quando comparadas com a combustão em leito fluidizado [27]. Como desvantagens, na tecnologia de combustão em grelha fixa, podem enumerar-se as seguintes: existe a necessidade de utilização de tecnologia especial para reduzir de maneira eficiente as emissões de NOx (combinação entre a relação ar primário-ar secundário); a combustão é heterogénea, ao contrário da combustão em leito fluidizado (o facto de não haver controlo sobre a alimentação e sua distribuição faz com que a mistura ar-combustível não seja homogénea em toda a superfície da grelha); não é permitida a mistura entre combustíveis lenhosos e herbáceos, devido às diferenças relativas à própria combustão, ao teor de humidade e ao teor de metais com baixo ponto de fusão dos combustíveis em questão; a operação a carga parcial requer tecnologia especial, de modo a garantir uma baixa emissão de poluentes [9]; requer um elevado excesso de ar e, consequentemente, tem uma menor eficiência energética [27]; as cinzas volantes têm um elevado conteúdo de fuligem [5]. 1.2.3. Combustão em grelha fixa A combustão de biomassa contempla uma série de reacções químicas em que o carbono é oxidado em dióxido de carbono e o hidrogénio é oxidado em água. Estas reacções químicas, complexas, podem ser agrupadas em três fases: aquecimento e secagem, volatilização e combustão do resíduo carbonoso (ou char). Em aplicações de pequena escala, a alimentação do combustível pode ser continua ou por lotes (batch combustion). Nesta última existe uma separação distinta entre a volatilização e a combustão do resíduo carbonoso, no tempo e no espaço [9], enquanto na primeira as três fases podem ocorrer em simultâneo no leito de combustível [28]. O aquecimento e secagem são sempre a primeira fase da conversão do sólido. O sólido é aquecido por convecção oriunda da envolvente quente e por radiação proveniente da chama de partículas vizinhas e das paredes da câmara de combustão. O calor recebido é transferido para o interior do sólido por condução e quando a temperatura de 100 °C é atingida este começa a secar, libertando vapor de água pelos seus poros, o que vai arrefecer a sua superfície e a envolvente. Devido ao seu carácter endotérmico, esta primeira fase necessita de fornecimento de calor até ao seu término. O teor de humidade tem como limite o valor de 60% da massa do sólido [9], a partir do qual a energia requerida para evaporar a humidade e aquecer os reagentes é superior à energia da própria combustão, resultando na extinção do processo de combustão. Comparando com o carvão, Tillman [29] concluiu que a biomassa liberta significativamente mais voláteis durante o processo de secagem. A volatilização é caracterizada pela libertação de voláteis [30], englobando a pirólise e a gaseificação. A pirólise e a gaseificação são processos de degradação térmica causados pelo fornecimento de calor. A pirólise ocorre na ausência de um agente oxidante externo, enquanto a gaseificação ocorre no seio de um agente oxidante (ar, oxigénio, vapor de água ou dióxido de carbono) em quantidades 12 insuficientes para que a oxidação seja completa, isto é, existir uma combustão sob a forma de chama de difusão [9]. Os produtos da volatilização consistem principalmente em H2O, CO2, CO, H2, hidrocarbonetos leves (principalmente CH4), hidrocarbonetos pesados (alcatrões) e resíduo carbonoso [9]. À medida que a temperatura aumenta, as emissões de CO2 diminuem e aumentam as de CO e H2 [23]. A quantidade destes produtos depende do tipo de biomassa e das condições de operação. A volatilização desempenha um papel importante na combustão da biomassa, dado a sua elevada percentagem de voláteis ver Tabela 1.1 (tipicamente 80%). A volatilização da biomassa inicia-se a uma temperatura compreendida entre os valores de 160-250 °C, contrastando com os 350 °C para o carvão betuminoso [14]. Os voláteis são libertados através dos poros e fissuras e, uma vez atingindo a superfície, reagem com o ar envolvente criando uma chama de difusão nas imediações do sólido. O calor libertado pela chama é transferido para a partícula, auxiliando os processos de secagem e de volatilização. A quantidade e o tipo de espécies formadas dependem principalmente da temperatura, pressão, taxa de aquecimento e tempo de reacção [9]. A madeira volatiliza a uma gama de temperaturas compreendida entre 200-500 °C. Caso a temperatura seja inferior a 500 °C, alguns voláteis permanecem no combustível, resultando num resíduo carbonoso de boa qualidade. Se, pelo contrário, a temperatura for superior a 500 °C, a volatilização torna-se completa, restando um resíduo carbonoso isento de voláteis e cinzas [25]. Durante a volatilização, devido à corrente de voláteis que é libertada, o oxigénio envolvente não consegue alcançar a superfície do sólido. Esta fase termina quando se dá a extinção da chama de difusão na envolvente do sólido. As moléculas de oxigénio conseguem então difundir-se para o interior do sólido e inicia-se a combustão do resíduo carbonoso. O resíduo carbonoso tem na sua composição essencialmente carbono, cinzas e pequenas quantidades de hidrogénio, oxigénio, azoto e enxofre [30], e representa entre 10-30% do peso total da biomassa. No entanto, na sua combustão são emitidos vários poluentes, especialmente CO e CO2 (dado que o C é o principal constituinte), NOx e material inorgânico que não volatilizou [14]. Esta fase é a mais lenta e o processo de oxidação é heterogéneo, contrariamente à combustão dos voláteis. Esta heterogeneidade é explicada pelo facto da oxidação do resíduo carbonoso se dar em fissuras e poros resultantes da libertação dos voláteis [31]. A combustão do resíduo carbonoso pode ser controlada por processos químicos (cinética química) ou físicos (difusão). Existem três zonas térmicas que determinam qual o processo dominante na combustão do resíduo carbonoso [30], ver Figura 1.15: I. Zona de baixas temperaturas e taxa de reacção lenta. A difusão de oxigénio no interior do sólido é constante, atingindo um limite de concentração. A taxa de reacção é controlada pela cinética química. 13 II. Nesta zona de temperaturas intermédias, devido ao aumento da temperatura, em relação à zona I, a reacção entre o carbono e o oxigénio é mais rápida. A taxa de reacção é controlada simultaneamente pela cinética química e difusão das moléculas oxigénio nos poros da estrutura. III. Nesta zona de elevadas temperaturas e reacções intensas na superfície, o oxigénio é todo consumido. A taxa de reacção é limitada pela difusão de moléculas de oxigénio. Figura 1.15- Zonas de térmicas [30] A título ilustrativo, na Figura 1.16, podem identificar-se as diferentes fases e sua duração, bem como a redução mássica em função do tempo para uma partícula de madeira (faia), com uma massa inicial (m0) de 100mg. Figura 1.16- Redução mássica temporal de uma partícula de madeira com 100mg [32] Já na Figura 1.17, podem identificar-se as três fases e respectiva gama de temperaturas, bem como a influência da temperatura na redução mássica, para uma partícula do mesmo tipo de madeira e massa inicial de 50mg. 14 Figura 1.17- Redução mássica em função da temperatura de uma partícula de madeira com 50mg [32] Emissão de poluentes A emissão de poluentes durante o processo de combustão da biomassa pode ser dividida em dois grupos. No primeiro grupo incluem-se os poluentes resultantes da combustão incompleta, como o monóxido de carbono, hidrocarbonetos, alcatrões, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e fuligem, e ainda os poluentes resultantes da oxidação do azoto presente na atmosfera, como os óxidos de azoto e óxido nitroso. No segundo grupo estão presentes os poluentes cuja formação e emissão dependem das propriedades do combustível. Na Tabela 1.3 estão sintetizadas as diferentes emissões de poluentes e a respectiva fonte, o tipo de biomassa que lhes dá origem e o grupo a que pertencem. Tabela 1.3- Poluentes emitidos na combustão da biomassa [23] Fonte Biomassa Emissões Grupo Todas CO, HC, alcatrões, PAH, fuligem 1 Todas NOx, N2O 1 Todas NOx, N2O 2 HCl, SO2, KCl, K2SO4, NH4Cl 2 Partículas (PM) 2 Pb, Zn, Cd, Cu, Cr, Hg etc. 2 Dioxinas, Furanos 2 Combustão incompleta Oxidação do azoto atmosférico Oxidação do azoto do combustível Madeiras urbanas, Biomassas contendo Cl e S palha, ervas, culturas energéticas Cinza Todas Biomassas contendo Madeiras urbanas, metais pesados lamas Biomassas contendo altos teores de Cl Madeiras urbanas, RSU (com plásticos), palha, cereais 15 A Figura 1.18 representa a emissão dos principais poluentes resultantes da combustão da biomassa nas diferentes fases. Figura 1.18- Fases da combustão de sólidos e respectivos produtos [28] Os poluentes emitidos durante a combustão incompleta são, em grande medida, afectados pelo tipo de equipamento e condições de operação e a sua formação/emissão deve-se às seguintes condições: Inadequada mistura ar-combustível (causando localmente zonas de misturas ricas e pobres); Fornecimento insuficiente de ar à chama; Tempo insuficiente de permanência dos reagentes na chama (impedindo que reacção de combustão se complete); Contacto da chama com uma superfície fria (extinção das reacções de combustão); Temperatura de chama demasiado baixa, como, por exemplo, uma combustão com elevado teor de humidade. NOx- Influência da temperatura A emissão deste poluente tem origem em quatro mecanismos de formação, que resultam da oxidação do azoto atmosférico (mecanismos (1), (2) e (3)) ou do azoto presente no combustível (mecanismo (4)). Estes quatro mecanismos consistem em: (1) mecanismo térmico - oxidação do azoto atmosférico a altas temperaturas (T> 1300 °C); (2) mecanismo imediato - reacção dos radicais de hidrocarbonetos com o azoto atmosférico, em condições de baixo oxigénio e temperaturas inferiores a 1300 °C [33]; (3) mecanismo intermédio de N2O (oxido nitroso) - é relevante em chamas de pré-mistura pobres caracterizadas por terem baixas temperaturas; (4) mecanismo do combustível - oxidação do azoto quimicamente ligado ao combustível, ocorre entre os 800 e 1100 °C [9]. 16 Devido às baixas temperaturas resultantes da combustão de biomassa, tipicamente entre 800 e 1200 °C, o mecanismo do combustível é o mais relevante, correspondendo a cerca de 70% do total das emissões de NOx [33]. De acordo com [27], a tecnologia de estagiamento de ar é uma solução para o controlo destes óxidos. Partículas De seguida apresenta-se uma breve introdução sobre partículas, com o intuito de expor certos conceitos necessários para a compreensão dos estudos anteriores. As partículas podem ser constituídas por fuligem, matéria orgânica e inorgânicos, sendo os primeiros dois resultantes da combustão incompleta. Quanto mais completa a combustão, mais os inorgânicos dominam a composição das partículas, e quanto mais incompleta a combustão, mais a sua composição é dominada pela fuligem e matéria orgânica [34],[35]. Na combustão de sólidos são gerados aerossóis, que são partículas sólidas ou líquidas em suspensão num seio gasoso com dimensões entre 1 nm e 100 µm [28]. Convém salientar que existem diferentes definições que caracterizam as dimensões da partícula, sendo a mais utilizada na bibliografia o diâmetro aerodinâmico (da). Este é definido como o diâmetro de uma partícula esférica 3 com densidade padrão de 1000 Kg/m e que tem a mesma velocidade de sedimentação que a da partícula em estudo. Segundo Suriyawong et al. [36] e Fernandes e Costa [37], as partículas são classificadas em ultrafinas (da <100 nm), submicrométricas (da entre 100 nm e 1 µm), finas (da na gama de 1 µm a 2,5 µm) e grosseiras (valores de da superiores a 2,5 µm). As partículas ultrafinas e submicrométricas são as mais prejudiciais para a saúde humana, devido à facilidade com que conseguem entrar no sistema respiratório [28]. Na literatura existem dois modos de formação de partículas, o modo fino (da <1 µm) e o modo grosseiro (da >1 µm) [20]. Para uma melhor contextualização do reactor experimental projectado, para além do estagiamento de ar, na secção 1.2.4. apresentam-se os estudos mais importantes em relação à queima da biomassa, bem como a tendência do estado da arte. 1.2.4. Estudos anteriores Visto que à escala doméstica não é viável o uso de um sistema de limpeza de gases, mitigar a emissão de poluentes tornou-se uma questão central. Para além disso, existe a vontade de aumentar o leque das biomassas a valorizar, de forma a tornar esta fonte renovável ainda mais vasta, versátil e rentável. Assim, no âmbito da queima/valorização da biomassa à escala doméstica, o estado da arte segue duas tendências claras: a formação/emissão de poluentes influenciados pelo tipo de equipamento e condições de operação; e a formação/emissão de poluentes resultantes das 17 propriedades do combustível. Neste sentido, o estado da arte é apresentado a dois níveis, influência do equipamento e condições de operação, e influência das propriedades do combustível. Para uma melhor compreensão dos estudos prévios realizados, é relevante mencionar os tipos de nomenclaturas e unidades presentes nos artigos analisados. Assim, as unidades mais comuns para 3 as concentrações de gases são a % para O2 e CO2 e ppm, mg/Nm ou mg/ MJ para as emissões de CO, HC, COV, NOx, entre outros. Na literatura, a emissão de partículas é geralmente caracterizada de três formas: concentração e distribuição mássica, concentração e distribuição em número, e composição química [38]. As primeiras duas são propriedades físicas das partículas. A concentração mássica é definida como a massa de partículas por unidade de volume de gás de exaustão, e a distribuição mássica é a concentração mássica ordenada pela gama de dimensões das partículas (geralmente da). A concentração em número é caracterizada pelo número de partículas por unidade de volume de gás de exaustão, e a distribuição em número é a concentração numérica ordenada pela gama de dimensões das partículas (geralmente da). As unidades da concentração mássica e em número são 3 -3 mg/Nm e Ncm , respectivamente. Antes de particularizar os dois níveis do estado da arte, é importante salientar as condições que influenciam a amostragem. Boman et al. [39], investigaram a influência das condições de diluição na amostragem de espécies gasosas e partículas. As condições estudadas foram a taxa de diluição (rácio entre o CO2 presente nos gases de exaustão e o CO2 medido à saída do túnel de diluição), a temperatura de amostragem e o tempo de residência no túnel de diluição (dispositivo onde é realizada a diluição das espécies químicas, após a exaustão da unidade de combustão). Verificaram que: A variação das condições de diluição não teve influência na concentração e diâmetros médios do PMtot bem como nas emissões de CO e NO; A variação das variáveis de estudo teve influência em 12 dos 37 PAH estudados, no entanto os PAH dominantes não são afectados pela temperatura de amostragem; A variação do tempo de residência no túnel de diluição não teve influência nas emissões estudadas. A amostragem de partículas é acompanhada por um aquecimento controlado de modo a evitar a condensação e crescimento da partícula depois de recolhida. Deve ser isocinética (a velocidade de entrada no bocal da sonda deverá ser igual à dos gases de exaustão) para que não haja a perturbação das linhas de corrente, uma vez que se pretende evitar a colisão entre partículas. A amostragem é geralmente realizada no tubo de exaustão. Todos os estudos indicados nesta secção obedecem a esta especificidade, excepto o estudo realizado por Wiinikka e Gebart [40]. 18 Influência das propriedades do combustível Composição química e influência do teor de cinzas Boman et al. [41] e Johansson et al. [38], verificaram que a emissão de partículas é dominada pelo modo fino (da < 1 µm). Juntamente com estes dois autores, Sippula et al. [35] e Wiinikka e Gebart [34], avaliaram a composição química das partículas finas resultantes da combustão de pellets de diferentes tipos de madeira, concluindo que estas são compostas predominantemente por K, Cl e S, e pequenas quantidades de Na e Zn. Boman et al. [41], acrescentaram que o domínio de metais alcalinos indica que a conversão gás-partícula, seguida de processos de coagulação, é o principal mecanismo de formação no modo fino. Fernandes e Costa [37] caracterizaram a composição química dos aglomerados de partículas finas e grosseiras, resultantes da combustão de pellets de pinho, verificando que as primeiras são formadas, maioritariamente por fuligem, sendo constituídas principalmente por C, O2, Ca, Mg K e P. As partículas grosseiras têm na sua composição C e O2 e pequenas quantidades de Ca e Mg. Sippula et al. [35], concluíram que o teor de cinzas afecta as condições de combustão e a emissão de gases e partículas, à excepção do CO2. Acrescentaram ainda, que quanto maior o seu teor, maior a dureza das pellets, sugerindo que esta afecta a taxa de combustão, devido à menor fragmentação das pellets durante a sua queima. Já Wiinikka e Gebart [34] concluíram que quanto maior o teor de cinzas no combustível, maior o será número de partículas nos gases de exaustão. Teor de cloro e enxofre Segundo Wiliams et al. [14], o Cl facilita a mobilidade de alguns compostos inorgânicos, em particular os metais alcalinos, tendo maior expressão o K, por se tratar do metal alcalino mais abundante na biomassa. Sippula et al. [42], investigaram a influência do Cl e S na formação de partículas num reactor laboratorial. Avaliaram a combustão de pó de madeira (com dimensões inferiores a 63 µm) num reactor experimental com dois tipos de aditivos, HCl e SO2, variarando a sua concentração em intervalos de 0-650 ppm e 0-200 ppm, respectivamente. Concluíram que: (1) a adição de HCl aumenta o número, a dimensão e a massa das partículas finas, por unidade de volume de gás de exaustão; (2) a adição de SO2 tem um efeito pouco significativo quando não é acompanhada pela adição de HCl; (3) quando ambos os aditivos são adicionados a formação de partículas parece relacionada com o rácio de S/Cl. Teor de azoto Winter et al. [43], Wiinikka et al. [34] e Rabaçal et al. [44], investigaram as emissões de NOx durante a combustão de diferentes tipos de pellets de biomassa. Verificaram que o mecanismo do combustível é a principal fonte da emissão destes óxidos. Winter et al. [43], acrescentaram que a maior parte do azoto do combustível é libertada durante a volatilização, na forma de azoto volátil (66-75%), e que a combustão do resíduo carbonoso tem uma importância marginal na formação de NO. 19 Novas fontes de biomassa M. Kratzeisen e Müller [45] avaliaram a possibilidade de utilização da casca de sementes de jatropha como combustível à escala doméstica, procedendo à caracterização física e química das sementes, e à análise das suas cinzas. A investigação foi efectuada numa unidade experimental em grelha fixa, com alimentação de combustível contínua, por intermédio de um sem fim, com cargas térmicas mínima e máxima de 11 e 37 kW, respectivamente. Concluíram que: (1) a capacidade térmica aumenta de forma linear com o aumento do caudal mássico de combustível, para as condições ensaiadas; (2) comparativamente ao pinho, as sementes de jatropha têm alto teor de N, Cl e S, também menor matéria volátil, maior carbono fixo e teor de cinzas; (3) a combustão das sementes de jatropha é bem conseguida sem a necessidade de densificação, pelo que o seu custo é reduzido; (4) as sementes de jatropha têm um elevado conteúdo de metais pesados, sendo os mais relevantes o Cr e o Ni. Rabaçal et al. [44], estudaram as emissões resultantes da combustão de três tipos de pellets, pinho, resíduos lenhosos e caroço de pêssego, numa caldeira doméstica com alimentação (contínua) pelo topo, cuja carga térmica mínima e máxima foi de 11 e 21 kW, respectivamente. Verificaram que o tipo de pellet afecta significativamente a eficiência da caldeira, em particular as emissões, e os desperdícios lenhosos e o caroço de pêssego têm um potencial de utilização no sector de aquecimento doméstico. Finalmente, Elmay et al. [46], investigaram as emissões de gases provenientes da combustão de resíduos de tamareira, num reactor experimental de corpo cilíndrico, com alimentação por lotes. Os resíduos de tamareira utilizados foram a folhagem, caule, tronco, caroço de tâmara e a haste que suporta os frutos. A sua combustão foi comparada à da serradura de pinho, por se tratar de uma biomassa tradicionalmente utilizada em aplicações domésticas. Concluíram que: (1) dentro dos resíduos avaliados, os caroços de tâmara têm as melhores propriedades enquanto combustível. Têm maior densidade, poder calorífico e matéria volátil, e menor teor de cinzas (cerca de 1,2% em b.s.), sendo a sua densidade energética quatro vezes superior aos restantes resíduos; (2) o resíduo com maior poder calorifico é a folhagem, mas devido ao seu elevado teor de cinzas (15,2%, em b.s.) e ao seu potencial corrosivo, este resíduo não figura como uma opção viável; (3) os restantes resíduos possuem elevados teores de Cl, o que apresenta sérios problemas de corrosão; (4) uma mistura adequada de caroço de tâmara e tronco de tamareira pode ser uma alternativa interessante em aplicações domésticas e industriais; (5) a emissão de COVs, CO e NOx, na combustão de caroço de tâmara, é demasiado elevada, tornando necessária a implementação de ar secundário no projecto de uma fornalha para a valorização deste resíduo. A utilização de ar secundário é uma condição que permite mitigar a emissão de poluentes resultantes da combustão incompleta. Na subsecção seguinte, são apresentados estudos que caracterizam esta e outras condições operacionais. 20 Influência do equipamento e condições de operação Excesso de ar Johansson et al. [47], investigaram a combustão de toros e pellets de madeira em diferentes caldeiras domésticas (duas antigas, duas modernas a lenha e três modernas a pellets), verificando que as caldeiras antigas a lenha emitem mais partículas e poluentes não oxidados, e têm menor eficiência. Tal como no referido estudo, Wiinikka et al. [40] e Nussbaumer [32] relacionaram a influência do excesso de ar com as emissões de CO, concluindo que um aumento das suas emissões é verificado para o aumento do excesso de ar. Johansson et al. [47], acrescentam que esta constatação, provavelmente, resulta do efeito de arrefecimento de câmara de combustão, causado pelo maior fornecimento de ar. Fernandes e Costa [37] investigaram as emissões de CO e PM na caldeira doméstica a pellets (descrita anteriormente) em condições estacionárias com diferentes cargas térmicas, sendo a mínima de 11 kW e máxima de 21 kW. Verificaram que as emissões de CO e PM apresentam uma evolução semelhante para diferentes cargas térmicas, sugerindo que a emissão de CO é um bom indicador da eficiência da caldeira, em termos da emissão de partículas. Estagiamento de ar Lamberg et al. [48], estudaram os efeitos do estagiamento de ar e da carga térmica nas emissões de gases e partículas finas, numa caldeira doméstica alimentada a pellets de madeira, cuja carga térmica máxima e mínima foi de 7 e 12,5 kW, respectivamente. Para os autores a relação ar primárioar secundário está correlacionada com a emissão de fuligem, metais alcalinos, partículas finas e CO. Esta relação parece ser o factor operacional mais importante, no que diz respeito às emissões de poluentes relacionadas com as condições de operação. Na instalação ensaiada e para o mesmo caudal de ar, um aumento do ar secundário (e consequentemente uma redução do ar primário), provoca uma diminuição de CO e PM1 (evolução consistente com a verificada por Fernandes e Costa [37]) e um ligeiro aumento das emissões de NOx. Wiinikka e Gebart [49] acrescentaram que o aumento da zona de mistura leva a uma menor formação de partículas. Wiinikka e Gebart [40] [49] [50] estudaram a influência de diferentes parâmetros de operação na emissão de gases e partículas, num reactor experimental em grelha fixa de corpo cilíndrico, com alimentação de combustível pelo topo e admissão de ar primário e secundário, podendo no último caso, ser ajustado o ângulo de injecção de entrada (ajuste da quantidade de swirl). Mantendo as quantidades de ar primário e secundário, e variando apenas a quantidade de swirl, constataram uma diminuição de CO de 4,2 para 0,6 mg/MJ, enquanto o NOx se manteve aproximadamente constante [40]. Verificaram, que a distribuição de ar afecta a emissão de partículas grosseiras e finas [50] e, para um elevado valor de ar primário, o aumento de partículas de grandes dimensões (da entre 1-4 mm), que são arrastadas do leito de combustível [40]. 21 Wiinikka e Gebart [50] verificaram ainda, que a emissão de partículas finas diminui quando a admissão de ar primário se reduz. Segundo os autores, provavelmente a baixa concentração de oxigénio que passa através do leito, faz com que a combustão do resíduo carbonoso se dê a uma temperatura inferior e, consequentemente, volatilizam menos inorgânicos. Noutro estudo, Wiinikka Gebart [40] acrescentaram que a altura da zona primária, parece também ter feito na emissão de partículas. Finalmente, Wiinikka e Gebart [49] concluíram que as emissões de partículas, em sistemas com grelha fixa, podem ser reduzidas, minimizando as temperaturas de combustão na zona primária e maximizando-as na zona secundária. Carga térmica Lamberg et al. [48], investigaram a relação entre a carga térmica e as emissões de gases e partículas. Verificaram que a composição das PM1 é constituída principalmente por K e SO4, e para as diferentes condições de funcionamento, o aumento das suas emissões é causado pelo aumento das emissões de fuligem (tal como verificado por Johansson et al. [47]). À carga total, com um reduzido caudal de ar primário, as PM1 são principalmente compostas por material inorgânico, verificando-se uma baixa emissão de fuligem e CO. A baixas cargas, verificaram um ligeiro aumento das PM1 e, principalmente, um aumento significativo de CO. De encontro com esta constatação, Sippula et al.[35] e Wiinikka et al. [34], associaram a composição das partículas às características da combustão. Quanto mais completa a combustão, mais os inorgânicos dominam a sua composição. E quanto mais incompleta a combustão, mais a composição das partículas é dominada pela fuligem e matéria orgânica. Posteriormente à pesquisa elaborada nesta secção e escolhida a tecnologia de estagiamento de ar, encontrou-se uma lacuna na bibliografia, que diz respeito ao estudo dos efeitos da combustão estagiada com swirl nas emissões de poluentes gasosos. Assim, para além do projecto e construção do reactor experimental, investigou-se a influência do estagiamento de ar nas emissões de poluentes gasosos. 22 1.3. Contribuição da presente dissertação Dado que à escala doméstica não é viável um sistema de limpeza de gases, é necessário um controlo mais eficiente da combustão, de forma a mitigar as emissões de poluentes. Deste modo, projectou-se de raiz e comissionou-se um reactor laboratorial de queima de biomassa que permite estudar as emissões de gases e partículas, para diferentes tipos de biomassa e condições de operação. Desenvolveu-se um novo sistema de alimentação de pellets, que conserva as suas propriedades e permite a sua utilização com diferentes durezas. Estas duas características de funcionamento são vantajosas quando comparadas ao sistema de alimentação em parafuso, que é o sistema mais comum nas instalações comerciais. Estudaram-se os efeitos da variação da altura do reactor experimental nos perfis radiais das emissões de O2, CO2, CO, NOx e HC no reactor, de forma a garantir que a amostragem de espécies químicas possa ser realizada no centro do reactor e, a recolha de partículas seja efectuada em condições idênticas à da exaustão. Investigou-se a influência do estagiamento de ar com swirl nas emissões acima referidas e nas temperaturas do queimador e do interior do reactor, preenchendo e completando assim as lacunas bibliográficas encontradas. Finalmente, recomendam-se vários estudos que podem ser efectuados nesta instalação laboratorial. 1.4. Organização da dissertação A presente dissertação encontra-se estruturada em quatro capítulos, dos quais este constitui a introdução. Efectua-se o enquadramento do tema, descrevem-se as principais propriedades da biomassa e os diferentes poluentes assim como os respectivos mecanismos de formação. Apresentam-se ainda os estudos mais recentes para contextualizar o reactor experimental construído. O capítulo termina com as contribuições e organização da dissertação. No capítulo 2 são caracterizados os diferentes constituintes do reactor, assim como os critérios e especificações tidos em consideração durante o seu projecto. O capítulo contempla ainda as condições de operação e as limitações da instalação experimental. No capítulo 3 apresentam-se os resultados e faz-se a discussão dos ensaios de comissionamento e de estagiamento de ar. No capítulo 4 sintetizam-se as principais conclusões e recomendam-se futuros trabalhos possíveis a realizar. 23 2. Projecto do reactor experimental 2.1. Introdução A eficiência do funcionamento de uma unidade de combustão depende em larga escala, da forma como o fornecimento de ar e combustível é efectuado, sendo o objectivo garantir uma boa mistura e distribuição entre ambos. Essa foi uma das preocupações no projecto do reactor experimental construído no âmbito deste trabalho. Neste capítulo são caracterizados os diferentes constituintes desse reactor, assim como os critérios e especificações tidos em consideração durante o seu projecto. O reactor é de corpo vertical, tem forma cilíndrica e utiliza a tecnologia de combustão em grelha fixa. Nos primeiros 500 mm acima da grelha, a parede do reactor está envolvida por um forno eléctrico refractário, que serve também de fonte de ignição. A restante parede está isolada por uma manta térmica. A grelha fixa é constituída por um queimador com um cinzeiro na sua periferia. O ar é admitido em duas zonas (primária e secundária). Utilizam-se pellets como combustível, sendo alimentados continuamente por um sistema de alimentação em mola, que foi projectado e desenvolvido especificamente para este trabalho. No topo do reactor existe uma janela para observar a chama e o interior do reactor. Neste capítulo é também descrita a instrumentação de medida associada ao reactor que fornece os valores das variáveis que se pretendem medir. É feita a descrição do seu funcionamento, que sintetiza os procedimentos e a forma do arranque da instalação, bem como as condições normais de operação em regime estacionário. O capítulo contempla ainda os requisitos de segurança e manutenção do reactor, uma descrição das técnicas de medida e incertezas experimentais, terminando com uma síntese comparativa do valor acrescentado pelo reactor concebido. 2.2. Corpo do reactor O reactor experimental tem uma estrutura modular, podendo a sua configuração (a altura) ser ajustada conforme a finalidade pretendida. Este tipo de construção permite um controlo adaptativo que não se efectuaria, caso o reactor fosse constituído exclusivamente por um só corpo. A sua manutenção é mais simples, devido à possibilidade da substituição apenas dos módulos desejados. Por estas razões, a produção/utilização de uma estrutura modular é mais prática e económica. O material escolhido para a construção do reactor foi o aço inox, por se tratar de um metal resistente à corrosão e à fractura a elevadas temperaturas [51]. Este metal é utilizado para aplicações em caldeiras, fornos e peças para meio ambiente corrosivo e quente [52]. Dentro dos aços inoxidáveis distinguem-se os martensíticos, ferríticos, austeno-ferríticos e austeníticos. O quadro da Figura 2.1 apresenta as diferentes propriedades destes aços inox [51]. 24 Figura 2.1- Propriedades dos aços inoxidáveis [51] O aço escolhido deve ser dúctil, resistente a elevadas temperaturas e à corrosão. Com base no quadro referido, poder-se-á concluir que os austeníticos são os que melhor satisfazem estes requisitos. Neste sentido, o aço austenítico escolhido foi o AISI 304 L, representando o L um baixo conteúdo de carbono (Low Carbon), o que garante uma maior resistência a elevadas temperaturas devido à menor tendência a originar precipitados de carbono [53]. Finalmente o AISI 304L é um aço que, economicamente, é atractivo. O reactor pode ter configurações distintas que comportam a junção de dois ou três módulos cilíndricos, com diâmetros exteriores e espessuras de 168,3 e 3 mm, respectivamente. Os módulos são numerados de 1 a 3, sendo a altura do primeiro 760 mm e dos restantes 400 mm (ver Figura 2.2). Figura 2.2- Configurações do reactor com dois e três módulos Sendo o cilindro uma geometria axissimétrica, e desde que essa simetria axial não seja quebrada intencionalmente, é possível tirar partido dessa característica, na medida em que os fenómenos 25 decorrentes no seu interior têm um caracter bidimensional (com variação radial e axial). Esta geometria é a que melhor permite estudar os fenómenos físicos separadamente dos efeitos geométricos. O módulo1 está envolvido pelo forno eléctrico refractário em cerca de dois terços da sua altura. É no interior deste módulo que se insere a grelha e se descarrega o combustível. Dada a importância do estagiamento de ar e a necessidade de uma boa mistura de gases, o módulo1 possui quatro entradas de ar secundário, com a mesma cota e igualmente espaçadas na direcção tangencial, com um ângulo de 90° (ver Figura 2.3 e Anexo A). O ar secundário é admitido tangencialmente no reactor, a cerca de 150 mm acima da grelha. Esta altura de injecção do ar secundário foi escolhida de forma a tentar minimizar a altura da zona primária de combustão, uma vez que esta parece ter influência na emissão de partículas (Wiinikka e Gebart [40]). O módulo2 é utilizado para aumentar o volume do reactor, o tempo de residência dos gases e partículas e as perdas térmicas. Finalmente, o módulo3 possui uma bifurcação onde é realizada a extracção. No lado oposto existem duas portas (1 e 2), espaçadas de 100 mm, com uma tomada de pressão a meio (ver Figura 2.2). No topo do módulo existe ainda uma janela de observação, em quartzo, para auxiliar o controlo da queima por visualização de chama e das actividades experimentais (ver Figura 2.2 alínea d)). Figura 2.3- Compilação de imagens do corpo do reactor: a) modulo1, b) configuração de dois módulos sem isolamento, c) imagem da instalação experimental, d) janela de observação 26 2.3. Grelha fixa A grelha fixa dispõe de um cinzeiro com um queimador ao centro. A grelha tem 140 mm de diâmetro e está isolada por uma manta térmica de modo a prevenir entradas e fugas pela base do reactor. A maioria dos modelos de caldeiras domésticas a pellets utiliza queimadores cilíndricos ou cónicos, com diâmetros a rondar os 90 mm (ver em Anexo B). A profundidade do queimador é projectada em função da carga térmica pretendida, isto é, da capacidade máxima de pellets que se pretendam descarregar. O queimador projectado e construído nesta dissertação é cilíndrico, com diâmetro de 84,9 mm, sendo a sua base perfurada com 45 furos circulares de 3 mm de diâmetro, representando uma área de perfuração de 5,6% (ver Figura 2.4 e Figura 2.5). Através dos furos é insuflado o ar primário. O queimador tem paredes com altura de 50 mm de modo a evitar que as pellets caiam para o cinzeiro durante a alimentação (ver Figura 2.5). As cinzas que ficam sobre o queimador (cinzas de fundo) são sopradas pelo ar, ficando depositadas no cinzeiro. Os furos têm 3 mm de modo a que a velocidade de insuflação do ar primário, mesmo para baixos caudais de ar, seja suficiente para garantir a penetração no leito, conseguir depositar as cinzas no cinzeiro e evitar obstruções dos furos. Figura 2.4- Grelha fixa Figura 2.5- Ilustração em 3D da grelha fixa Na limpeza da grelha (procedimento mencionado na secção 2.11) constatou-se que a quantidade de cinzas no cinzeiro era elevada. Ora, dado o baixo teor de cinzas das pellets utilizadas (ver Tabela 2.1) isso significa que deposição das cinzas no cinzeiro é eficaz, pelo que não foi necessária efectuar uma sopragem periódica para a limpeza do queimador, procedimento frequente em caldeiras domésticas. A ausência da sopragem evidencia que o estudo realizado durante o projecto se mostrou acertado. 27 2.4. Sistema de alimentação de ar O ar comburente utilizado nesta instalação foi fornecido pela linha de ar existente no Laboratório de Combustão do IDMEC/IST. O controlo dos seus caudais volumétricos efectuou-se por intermédio de dois rotâmetros, calibrados para um fluxo de ar à pressão atmosférica, ambos dotados de manómetros à saída. A temperatura do ar, no sistema de alimentação, foi praticamente constante, sendo o seu valor 20 °C. Dado que para o conjunto dos ensaios realizados a pressão verificada à saída dos manómetros foi de 0 bar, tal significa que não existe um aumento da mesma no interior dos rotâmetros, pelo que o caudal volumétrico observado nestes é o correcto. Portanto, não foi necessário corrigir o seu valor. 2.4.1. Ar primário O ar primário é insuflado sob a grelha e o seu controlo é efectuado através de um rotâmetro com uma capacidade máxima de 300 l/min. A escala do rotâmetro é percentual, marcada de 1 em 1%, com uma precisão de ± 2%. 2.4.2. Ar secundário A entrada do ar secundário é tangencial de forma a assegurar a sua rotação (swirl) optimizada. O swirl constitui uma rotação do escoamento de eixo coincidente com o do reactor, que promove a eficiência da mistura, aumenta o tempo de residência dos produtos de combustão e distribui de forma mais uniforme a temperatura na zona de combustão [5]. A entrada de ar tangencial reduz ainda a formação de depósitos e consequentemente a corrosão nas paredes do reactor, devido às condições localmente oxidativas e à cortina protectora de ar formada junto às paredes [54]. A admissão do ar secundário com swirl, face à adição puramente radial, é benéfica do ponto de vista das emissões de CO [40], ou seja, da combustão completa. Quanto mais eficiente for a mistura na zona secundária, menor será o excesso de ar necessário para que a combustão seja completa e, por conseguinte, maior será a eficiência do reactor [19]. Para efeitos de poupança de combustível, a combustão deverá ser o mais completa possível, caso contrário, estar-se-á a desperdiçar combustível (não queimado) pela exaustão. A quantidade de ar secundário é controlada por um rotâmetro com capacidade máxima de 900 l/min. O rotâmetro tem uma escala em l/min, marcada de 10 em 10 l/min contrariamente ao do ar primário (que é percentual). A sua precisão é de ±4 l/min. Na Figura 2.6 é apresentado um esquema do sistema de alimentação de ar. 28 Figura 2.6- Esquema do sistema de alimentação de ar: a) rotâmetro ar secundário, b) rotâmetro ar primário, c) entradas de ar, d) ilustração 3D das entradas de ar, e) zoom das entradas de ar 2.5. Sistema de alimentação de sólidos Existem três tipos de sistemas de alimentação de sólidos de acordo com o local do reactor onde essa alimentação se efectua: pelo topo, pela base e horizontalmente. A alimentação pelo topo é a que mais uniformemente distribui o combustível pela grelha, consegue usar resíduos com maior teor de humidade [18] e é a mais segura, uma vez que o depósito está separado da câmara de combustão. Somando a tendência do mercado de aquecimento doméstico e a simplicidade de construção, optouse pela alimentação pelo topo. A alimentação de pellets é efectuada por intermédio de um sistema novo desenvolvido no âmbito desta dissertação. A Figura 2.7 esquematiza o funcionamento desse sistema de alimentação. Figura 2.7- Esquema do funcionamento do sistema de alimentação em mola 29 O sistema de alimentação funciona por efeitos gravíticos e a alimentação é contínua (ver Figura 2.7). É constituído por um depósito com base cónica (com uma capacidade de 1,2 kg), uma mola e um motor de velocidade variável. O cone é truncado por um tubo com diâmetro interior de 33 mm, por onde caem as pellets. Concentricamente com o depósito, está instalada a mola que se encontra ligada ao motor, por intermédio de um veio. A presença da mola impede o deslizamento das pellets nas paredes inclinadas do depósito. Ao accionar-se o motor, vai efectuar-se um movimento de revolução que leva a que as espiras da mola desimpeçam, de forma controlada, o deslizamento das pellets. Estas são encaminhadas para um funil metálico que as conduz para um tubo metálico (tubo de alimentação), que finalmente as descarrega sobre o queimador. O movimento de revolução é efectuado no sentido horário, para que a mola não exerça forças ascendentes sobre o motor e instabilize o sistema. O espaçamento entre as espiras da mola é de 10 mm, dimensão ligeiramente superior ao diâmetro das pellets (6 mm), garantindo assim a entrada de uma pellet por espira, evitando que estas fiquem bloqueadas. O motor tinha originalmente uma função diferente (accionava um limpa-pára-brisas), tendo sido adaptado para este efeito. A velocidade é controlada por intermédio de um reóstato, que regula a potência eléctrica fornecida ao motor (ver alínea d) da Figura 2.8) O sistema de alimentação em mola compete com o sistema em parafuso. Neste último, as pellets vão sendo arrastadas umas contra as outras e contra as paredes do alimentador, o que as degrada e fractura. A grande vantagem da alimentação em mola é, precisamente, a conservação das propriedades do combustível durante o seu percurso. Outra vantagem é a possibilidade se utilizar pellets com diferentes durezas, o que no sistema de alimentação por parafuso provoca problemas de bloqueamento. O tubo de alimentação é fabricado em aço inox do tipo AISI 316L e tem um diâmetro interior de 24 mm. Este tipo de aço inoxidável tem uma boa resistência a elevadas temperaturas e à corrosão, superiores às do aço AISI 304L. A escolha deste aço deve-se ao contacto permanente do tubo com a chama. Idealmente, o comprimento das pellets deverá ser inferior ao diâmetro interior do tubo, impedindo deste modo um eventual atravessamento no seu interior, e consequente bloqueio. O ângulo de inclinação do tubo de alimentação com a horizontal e o posicionamento da saída do mesmo em relação ao queimador são dois parâmetros de extrema importância no sistema de alimentação. Segundo a referência [10], acima dos 30° as pellets começam a rolar/deslizar. No entanto, foi necessário um ângulo ligeiramente superior a 40° para que se verificasse o rolamento/deslizamento das mesmas, evitando a sua acumulação e posterior entupimento do tubo. 30 A saída do tubo está alinhada com o início do queimador, garantindo-se assim a ausência de pellets no cinzeiro e a não afectação do escoamento na zona primária de combustão. Idealmente o ângulo e a posição da saída do tubo deverão ser tais que as pellets sejam distribuídas uniformemente na grelha. Em geral e após uma exaustiva regulação experimental destes dois parâmetros, foi conseguida uma boa distribuição, sem entupimentos. O topo do funil metálico é parcialmente isolado por uma manta térmica, evitando-se a entrada não controlada de ar. No entanto, o reactor funciona a uma pressão ligeiramente acima da atmosférica, pelo que a entrada de ar pelo funil é desprezável. A Figura 2.8 mostra um conjunto ilustrativo do sistema de alimentação de combustível em mola. Figura 2.8- Compilação de imagens do sistema de alimentação de combustível: a) depósito e motor, b) funil metálico e tubo de alimentação, c) base do depósito e mola, d) reóstato, f) sistema de alimentação 2.6. Sistema de exaustão A exaustão correcta dos gases resultantes da combustão é de extrema importância, para garantir uma atmosfera segura no laboratório. Os efluentes gasosos deixam o reactor através de um tubo lateral presente no módulo3 (tubo de exaustão) com diâmetro e comprimento de 88,9 e 166 mm, respectivamente. O tubo de exaustão contém uma válvula do tipo borboleta (válvula de exaustão), que permite manter e regular a pressão no interior do reactor durante os ensaios (ver Figura 2.9). 31 Figura 2.9- Válvula de exaustão: a) vista lateral, b) vista interior 2.7. Sistema de ignição A ignição da biomassa é realizada com o auxílio da energia de activação providenciada por um forno eléctrico com duas meias luas, cada uma com seis resistências. O forno tem uma altura de 500 mm e o seu isolamento é constituído por um cimento refractário com uma espessura de 330 mm na base e no topo. Junto às resistências o isolamento é feito por lã de vidro (ver Figura 2.10). O controlo da temperatura do forno é efectuado num dispositivo de controlo (P.I.D.) onde se lê a temperatura no interior do mesmo e se indica o setpoint de temperatura a atingir. Existem duas botoneiras de energia e de potência, de cor verde e vermelha, respectivamente. Figura 2.10- Compilação de imagens do sistema de ignição: a) forno eléctrico, b) resistência eléctricas, c) termopar do forno, d) dispositivo de controlo P.I.D 32 2.8. Instrumentação O reactor experimental tem associados a si vários instrumentos de medida, que podem ser divididos em dois tipos: fixos e móveis. Os instrumentos fixos incluem dois termopares do tipo K com cobertura protectora de aço inoxidável e uma tomada de pressão estática. O primeiro termopar está incorporado no centro do queimador, a uma altura aproximadamente de 20 mm e mede a temperatura no leito. O segundo está instalado a 400 mm da base do forno e mede a temperatura na parede exterior do reactor (ver Figura 2.10). A tomada de pressão é efectuada a 150 mm acima da base do módulo3 (ver Figura 2.11). Nos instrumentos móveis estão presentes um termopar, também com protecção e do tipo K, e uma sonda de medição de concentração de espécies químicas, com arrefecimento indirecto a água. Tanto o termopar como a sonda podem ser inseridos nas duas portas do módulo3 (ver Figura 2.11). Para auxiliar no registo dos dados, utilizou-se um espelho para se visualizar a chama do local onde se procede à aquisição dos dados, isto é, em frente ao computador. Figura 2.11- Esquema resumo do reactor experimental 33 2.9. Operação do reactor Foram utilizadas pellets com 6 mm de diâmetro com comprimento máximo igual a 20 mm. No entanto, não foi assegurado a 100% este comprimento, dada a complexidade de averiguar esta dimensão em todas as pellets. A Tabela 2.1 apresenta as propriedades das pellets. Tabela 2.1- Propriedades das pellets de pinho Parâmetro Valor Análise Elementar (% wt, daf) Carbono 46,0 Hidrogénio 6,2 Azoto 0,5 Enxofre <0,01 Oxigénio 47,3 Análise Imediata (% wt, ar) Voláteis 80,5 Carbono fixo 10,9 Humidade 7,3 Cinzas 1,3 Análise às cinzas (wt%, db) SiO2 20,9 Al2O3 6,2 Fe2O3 21,6 CaO 26,2 SO3 0,3 MgO 4,3 P2O5 4,2 K2O 11,5 Na2O 2,5 Cl 0,04 Outros óxidos 2,3 PCl (MJ/Kg) 17,28 Dimensões médias dos pellets (mm) Diâmetro 6 Comprimento 20 34 2.9.1. Arranque O arranque do reactor efectua-se com a ignição e trata-se, obviamente, de uma fase transiente. A ignição é realizada com a válvula de exaustão praticamente fechada, para que o calor e, posteriormente, os voláteis não escapem. O forno eléctrico é aquecido até à temperatura do setpoint: 800 °C. Quando a temperatura na grelha ronda os 400 °C, é introduzida uma pequena quantidade de pellets no queimador. Os pellets vão libertando matéria volátil que, ao entrar em contacto com o ar quente circundante se auto-inflama, iniciando o processo de combustão. Nesta fase, desliga-se a botoneira de potência e começa a alimentar-se o combustível de forma contínua, insuflando-se simultaneamente o ar primário. Decorridos poucos minutos, as temperaturas na grelha e no centro do módulo3 (com o termopar móvel colocado na primeira porta) começam a estabilizar. No entanto, os seus valores sofrem constantemente oscilações (da ordem das dezenas de °C) durante os ensaios, dada a complexidade da queima de combustíveis sólidos. Já a temperatura na parede do forno mantém-se praticamente constante, dada a grande inércia térmica do forno. Estabilizadas as temperaturas, termina a fase transiente e considera-se que, em termos médios, o reactor atingiu o regime estacionário. 2.9.2. Condições de operação A definição das condições de operação reporta-se ao regime estacionário. Estabeleceu-se uma pressão relativa de operação (na tomada de pressão do módulo3) entre 1 e 2 Pa acima da pressão atmosférica, de modo a não existirem entradas de ar indesejadas. Uma vez que a pressão na base do reactor é superior à registada na tomada de pressão, a entrada de ar pelo tubo de alimentação é desprezável. Testaram-se duas velocidades de rotação do motor (média e alta), correspondendo à posição 0 e 1 do reóstato (Figura 2.8). Substituiu-se a grelha por um recipiente, onde foram descarregadas as pellets, sendo pesadas numa balança de alta precisão (Denver Instrument Company, modelo TC 403), de capacidade máxima de 410 g, com um erro associado de ±0,001 g. Dado que o período de uma amostragem (30 segundos) e registo dos valores é sensivelmente de um minuto, os testes tiveram esta duração temporal e foram realizados quinze vezes para cada velocidade. Na Figura 2.12 podem observar-se os valores registados. 35 Caudais mássicos (g/min) Velocidade 0 118 126 114 115 58 54 53 39 1 2 4 128 112 56 5 6 7 8 116 53 48 42 39 3 130 125 Velocidade 1 9 124 50 10 11 132 112 109 43 12 50 13 108 101 57 38 14 47 15 Número da repetição Figura 2.12- Valores dos caudais mássicos para as velocidades de rotação 0 e 1 Para as velocidades 0 e 1 verificou-se, respectivamente, um caudal médio e um desvio padrão de 48,5 e 6,6 g/min, e 118,0 e 8,8 g/min (Tabela 2.2). O facto do desvio padrão ser baixo, indica os valores do caudal mássico se afastam pouco da média. Para as pellets de pinho referidas, as cargas térmicas para estes caudais são 14 e 34 kW, respectivamente. Tabela 2.2- Média e desvio padrão dos caudais mássicos para as velocidades de rotação 0 e 1 Caudal mássico (g/min) Média 48,5 118,0 Desvio padrão 6,6 8,8 Nos ensaios de comissionamento (secção 3.2) foi utilizada apenas a velocidade de rotação do motor 0, por se tratar da velocidade que fornece um caudal mássico mais uniforme (menor desvio padrão) e comum à escala doméstica (a carga térmica de 14 kW é mais frequente em caldeiras comerciais). Já no estudo da influência do estagiamento de ar foram utilizadas as duas velocidades acima referidas. Os caudais de ar totais (primário e secundário) utilizados para as duas cargas térmicas acima referidas foram 200 e 300 l/min, respectivamente. A gama de caudais de ar primário utilizada foi 180 e 70 l/min (60% e 23% na escala do rotâmetro), correspondendo a velocidades à saída dos furos do queimador de 9,4 e 3,7 m/s, respectivamente. Verificou-se que para caudais de ar primários acima dos 60% da capacidade do rotâmetro, ocorria o arrastamento de partículas incandescentes (resíduo carbonoso) do leito, tal como se pode observar na Figura 2.13. Por esta razão, este foi o caudal máximo definido para os ensaios. 36 Figura 2.13- Ar primário com rotâmetro a 60% da sua capacidade: arrastamento de partículas, assinaladas a vermelho Em termos de caudal mínimo de ar primário, não foi restringido nenhum valor devido à combustão poder ocorrer somente com ar secundário, ainda que com alguma dificuldade. O caudal mínimo de ar secundário utilizado é de 50 l/min, por limitação do rotâmetro do ar secundário em debitar menos caudal. O depósito de pellets tem de estar, no mínimo, a dois terços da sua capacidade para que não haja alteração da pressão exercida pelas pellets cimeiras junto à mola. 2.10. Segurança e manutenção do reactor Existem diversos factores a ter em consideração durante o funcionamento do reactor, para que este decorra em segurança. Uma das condições mais importantes é garantir uma sobrepressão entre 1 e 2 Pa, de modo a prevenir a fuga de gases, em especial de CO. Sempre que se varia o caudal de ar, é necessário regular a abertura da válvula de exaustão para manter o valor da pressão. É importante garantir um isolamento eficaz da grelha, de modo a prevenir entradas de ar e fugas de gases resultantes da combustão pela base do reactor. É necessário observar de forma permanente a chama, para se assegurar que não ocorrem bloqueios no fornecimento de combustível (sistema de alimentação). Não se deve ultrapassar a velocidade 1 do motor, devido ao total preenchimento do queimador e às elevadas temperaturas que se atingem no interior do reactor para velocidades superiores a essa, além de haver ainda a possibilidade de detrimento do aço. 37 É importante manter o perímetro em redor da instalação limpo e desimpedido. Quando se pretende parar definitivamente a alimentação do combustível, deve desligar-se o reóstato no botão on/off, evitando assim qualquer movimentação do motor. Após a conclusão dos ensaios, já sem a admissão de combustível, deve abrir-se por completo a válvula de exaustão e aumentar as quantidades de ar fornecidas, de modo a arrefecer o reactor até uma temperatura na parede do forno de aproximadamente 300 °C e soprar o queimador, desobstruindo eventuais entupimentos dos seus furos. Previamente ao início dos ensaios, é necessário proceder à limpeza da grelha e da janela de observação. Deve retirar-se a mola, e verificar se existe alguma obstrução das espiras. Deve inserirse um arame no tubo de alimentação para desobstruir um eventual atravessamento e, finalmente, deve verificar-se o posicionamento da saída deste em relação ao início do queimador. 2.11. Técnicas de medida e incertezas experimentais 2.11.1. Espécies químicas A amostragem de gases é realizada por uma sonda em aço inox, com arrefecimento convectivo indirecto a água, com as dimensões especificadas na Figura 2.14. O arrefecimento garante o congelamento das reacções químicas, conservando-se a composição química da amostra. Figura 2.14- Sonda em aço inox com arrefecimento indirecto a água A saída da sonda está conectada a uma linha de PTFE (polytetrafluoretileno), que é um material quimicamente inerte, que conduz a amostra até um sistema de amostragem. Neste sistema a amostra passa por um condensador de serpentina e um reservatório com sílica gel, onde esta é seca, e, finalmente, passa através de filtros de algodão, chegando aos analisadores, seca e livre de impurezas. A Figura 2.15 esquematiza a amostragem das espécies químicas. 38 Figura 2.15- Esquema do sistema de amostragem Os analisadores são calibrados antes do início dos ensaios, em zero e referência, recorrendo a misturas padrão, e utilizam diferentes métodos de análise. As espécies químicas analisadas são o O2, CO2, CO, NOx e o HC. A Tabela 2.3 apresenta o modelo do analisador e o método de análise utilizado para a cada espécie. Tabela 2.3- Tipo e método de análise dos analisadores Espécie química O2 CO2 CO NOx HC Analisador Método de análise Incerteza instrumental Paramagnetismo ± 2% Horiba Modelo CMA-311 A Horiba Não dispersivo de Modelo CMA-311 A infravermelhos Horiba Não dispersivo de Modelo CMA-311 A infravermelhos Horiba Quimiluminescência Modelo CLA-510 SS Amluk Detecção por ionização de Modelo FID E 2020 chama ± 2% ± 2% ± 2% ± 1% A utilização de sondas arrefecidas a água induz certas incertezas experimentais que se podem relacionar com os seguintes aspectos: (1) eficiência do congelamento imediato das reacções químicas; (2) dissolução de algumas espécies químicas (CO2, NO2 e HC) na água condensada ao longo da linha [55]; (3) perturbações aerodinâmicas, trocas de calor entre a sonda e a envolvente e (4) amostragem não isocinética. 39 À gama de temperaturas a que se realizou a amostragem, entre os 550 e 750 °C, e dada a quantidade de combustível utilizado, é de esperar que os efeitos de congelamento das reacções e de condensação sejam os mais relevantes para as incertezas experimentais. 2.11.2. Temperatura Na medição de temperaturas foram utilizados dois termopares do tipo K com protecção de aço inoxidável (com emissividade de 0,67, dado que está altamente oxidado), constituídos por uma liga de Ni-Cr e Ni-Al e com uma precisão de ±2,5°C. Este tipo de termopar é utilizado para temperaturas inferiores a 1000 °C e os sinais analógicos provenientes dos mesmos são convertidos numa placa A/D, que os transmite para um computador que regista o seu valor a cada segundo (ver Figura 2.16). Segundo Wang et al. [56], a temperatura lida pelo termopar é a temperatura do gás adicionada aos efeitos de radiação emitida pelas paredes do reactor. A temperatura corrigida do gás pode ser estimada com base no balanço de energia na cabeça do termopar, dado pela seguinte equação, em que representa o termopar: − á + Ɛ − =0 Este balanço despreza os efeitos de condução e, segundo os autores, a temperatura lida no termopar é influenciada, no máximo, por 14% da diferença entre a temperatura do gás e das paredes do reactor, pelo que neste trabalho foram desprezados os efeitos radiactivos. Figura 2.16- Esquema da constituição do termopar 2.11.3. Pressão A pressão estática é lida num manómetro de coluna de água, com escala de 0 a 200 Pa com uma precisão de ±2%. 40 2.12. Valor acrescentado pelo reactor experimental Comparativamente a outras instalações laboratoriais, dada a geometria cilíndrica do reactor concebido, é possível tratar os fenómenos físicos de forma bidimensional, o que simplificará por sua vez, a análise dos estudos realizados nesta instalação. Outra vantagem é a estrutura modular, que permite ajustar a altura do reactor consoante a finalidade pretendida, aumentando assim a variedade dos estudos que podem ser efectuados. O sistema de alimentação em mola permite utilizar pellets com diferentes durezas e conserva as suas propriedades ao longo do seu percurso. O facto de se visualizar a chama e o interior do reactor, enquanto se procede à amostragem, aumenta por, um lado, a fiabilidade dos resultados e, por outro, a segurança da própria instalação experimental. Poder-se-á dar um exemplo verídico, em que ocorreu uma obstrução parcial dos furos do queimador, devido à presença acidental de um pedaço de manta térmica sobre o mesmo. No entanto, a combustão não se extinguiu e caso não existisse a janela de observação, ter-se-iam registado os valores de forma negligente. O reactor possui a tecnologia de estagiamento do ar de combustão, tendo uma entrada de ar secundário tangencial, que promove de forma eficiente a mistura do ar com os produtos de combustão. A válvula de exaustão permite regular a pressão no interior do reactor, sendo mais uma possível variável de estudo. 41 3. Resultados e Discussão 3.1. Introdução O presente capítulo divide-se em duas partes: ensaios de comissionamento, onde se preparou a instalação laboratorial para estudos futuros; e ensaios de estagiamento de ar, onde se investigaram os seus efeitos na emissão de poluentes resultantes da queima da biomassa. Para os ensaios realizados, os valores de HC foram da ordem dos 3 ppm, pelo que se desprezou a sua contribuição para os respectivos estudos. Nos testes de comissionamento, mediram-se os perfis radiais das emissões de O2, CO2, CO e NOx no reactor, com dois e três módulos, para uma dada carga térmica e condições de operação constantes (distribuição e caudais de ar). Investigou-se também o efeito da adição do módulo2 nas emissões destas espécies químicas. Depois de comissionada a instalação experimental, foram efectuados ensaios específicos para avaliar a influência do estagiamento de ar nas emissões das espécies químicas referidas, para duas cargas térmicas distintas. Definiram-se duas zonas de combustão, a primária e a secundária, sendo a última iniciada aquando da injecção do ar secundário. A evolução das temperaturas na zona primária com a variação do caudal de ar primário pode ser analisada, tendo por base as temperaturas no queimador. Salienta-se que em todos os gráficos de espécies químicas incluídos nesta dissertação, cada valor apresentado dispõe de uma barra de incerteza, que indica o valor máximo e mínimo registado durante a sua amostragem. Foram realizadas, no mínimo, seis medições por valor. 3.2. Comissionamento e influência da configuração do reactor Analisaram-se duas configurações da altura do reactor com dois e três módulos (ver Figura 3.1), para a carga térmica de 14,0 kW, utilizando os caudais de ar primário e secundário de 150 e 50 l/min, respectivamente. A escolha dos caudais de ar foi realizada em testes preliminares. Visto que um dos objectivos desta dissertação é investigar os efeitos do estagiamento de ar, o começo óbvio é iniciar os ensaios com elevada quantidade de ar primário. No entanto, verificou-se que bastava uma pequena quantidade de ar secundário para auxiliar a estabilidade da chama, pelo que se optou por injectar o mínimo possível de ar secundário, isto é 50 l/min. Inicialmente, realizou-se um varrimento radial da sonda das espécies químicas na porta2, com o intuito de avaliar a sua estabilização ao longo do raio (ver Figura 3.2). Uma vez estabilizadas as distribuições radiais das espécies químicas na porta2, procedeu-se de igual forma para a porta1, desta vez com o objectivo de verificar a extinção das reacções de combustão. A extinção das reacções é uma condição essencial para se efectuar a recolha de partículas na porta2, em condições 42 idênticas às da exaustão (chaminé). A vantagem da recolha se efectuar na porta2 e não na tubagem de exaustão, deve-se ao facto de, na porta2, não ocorrer a convergência das linhas de corrente (situação que se verifica na bifurcação do módulo3), evitando-se assim a colisão entre partículas, mantendo estas as suas dimensões originais. A estabilização radial das espécies químicas permite que a amostragem das mesmas possa ser executada no centro do reactor. Figura 3.1- Configuração do reactor com dois e três módulos Figura 3.2- Posicionamento da sonda e do termopar para o ensaio de comissionamento com três módulos: ar primário e secundário de 150 e 50 l/min. No primeiro teste de comissionamento utilizou-se a configuração de dois módulos, tendo-se observado um perfil radial de espécies químicas não desenvolvido (ver Figura 3.3 e Figura 3.4). Neste ensaio as temperaturas medidas na porta2 foram sempre inferiores a 800 °C. Verifica-se que na zona central do reactor a concentração de O2 e as emissões de CO, são superiores às da zona periférica, contrariamente às emissões de NOx e o CO2, que atingem os seus máximos junto das paredes do reactor (ver Figura 3.3 e Figura 3.4). 16 O2 e CO2 (%) 14 12 10 8 O2 CO2 6 4 2 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.3- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de dois módulos-Porta2 43 CO 50 40 30 20 CO (mg/Nm3) NOx (mg/Nm3) NOx 240 220 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 10 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.4- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de dois módulos-Porta2 Uma possível explicação para este comportamento reside no facto da disponibilidade de oxidante (O2) ser superior no centro do reactor (a alimentação de ar primário representa 75% do total de ar), aumentando a temperatura do leito e, por conseguinte, da taxa de reacção do combustível. Assim é consumido mais resíduo carbonoso e libertados mais CO. Em relação às emissões de NOx, estudos anteriores provaram que o mecanismo do combustível é o que mais contribui para a formação deste poluente (cerca de 70%). Por não estarem reunidas as condições necessárias para o mecanismo térmico, isto é temperaturas superiores a 1300 °C, a restante contribuição dever-se-á ao mecanismo imediato, dadas as menores concentrações de O2 na zona periférica. Relembra-se que este mecanismo ocorre para temperaturas inferiores a 1300 °C e em condições de baixa concentração de oxigénio. Uma vez que o perfil radial das espécies químicas não está desenvolvido na porta2, não o estará também seguramente na porta1, que está montante da porta2, pelo que não se mediu nesta. No segundo teste de comissionamento utilizou-se a configuração de três módulos. O procedimento foi igual ao teste anterior. Na Figura 3.5 e Figura 3.6 podem observar-se os resultados. 44 16 O2 e CO2 (%) 14 12 10 8 O2 6 CO2 4 2 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.5- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta2 CO 60 160 140 50 120 100 40 30 80 60 40 20 CO (mg/Nm3) NOx (mg/Nm3) NOx 180 10 20 0 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.6- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta2 Verifica-se que os perfis radiais das espécies químicas estão desenvolvidos, significando que o escoamento no interior do reactor já se encontra completamente desenvolvido. Assim, para futuros ensaios nas mesmas condições de operação e caudais mássicos de pellets, é possível recolher amostras de espécies químicas no centro do reactor. Comparando os valores apresentados com os obtidos na configuração de dois módulos, verifica-se que incorporando o módulo2, as emissões relativas à combustão incompleta diminuem, especialmente as de CO, reduzindo-se em 60%. Esta diminuição deve-se essencialmente ao aumento do tempo de residência causado pela adição do módulo2. Assim, o CO vai permanecer mais tempo em regiões de elevadas temperaturas, o que aliado à presença de O2, conduz à sua melhor oxidação e consequente, redução nos gases de exaustão. 45 O tempo de residência dos produtos de combustão, pode ser estimado pela seguinte equação [57], ê = (ℎ ∗ )/( ) ∗ (273/ é ) onde ℎ(m) é a altura no interior do reactor desde a última admissão de ar (ar secundário) até à porta2 (local de amostragem), volumétrico e é 2 (m ) é a área de secção transversal do reactor, 3 (m /s) é o caudal (K) é a temperatura média no interior do reactor. O último coeficiente pondera a influência da temperatura na massa volúmica do ar. Este tempo de residência corresponde ao valor mínimo, dado que não é contabilizado o movimento de rotação dos gases induzido pelo swirl. A temperatura medida pelo termopar na grelha rondou os 850 °C, enquanto a temperatura medida pelo termopar colocado na porta1, para a configuração de dois e três módulos, foi aproximadamente de 700 e 650 °C, respectivamente. Já a temperatura no termopar do forno teve uma variação insignificante durante os ensaios, dada a elevada inércia térmica do mesmo, por este motivo, não se avaliou a sua temperatura nos ensaios realizados. Desprezando o efeito do arrefecimento causado pela adição do módulo2, assumiu-se como temperatura média no interior do reactor, 800 °C. Para o valor do caudal de ar total utilizado de 200 l/min, obtiveram-se os seguintes tempos de residência para as duas configurações analisadas (ver Tabela 3.1). Tabela 3.1- Tempos de residência mínimos para as duas configurações Tempos de residência mínimos (segundos) Dois módulos Três módulos 1,16 1,77 Ou seja, no mínimo (sem contabilizar a rotação do escoamento e o arrefecimento causado pelo módulo2), incorporando o módulo2, incrementa-se o tempo de residência em 53%. Uma vez estabilizadas as espécies químicas na porta2, analisou-se o seu comportamento na porta1, com o objectivo de verificar que os valores das suas emissões são semelhantes. Na Figura 3.7 e na Figura 3.8 são apresentados os resultados obtidos. 46 16 O2 e CO2 (%) 14 12 10 8 O2 6 CO2 4 2 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.7- Emissões de O2 e CO2 ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta1 NOx CO 180 60 160 NOx (mg/Nm3) 120 40 100 30 80 60 20 40 CO (mg/Nm3) 50 140 10 20 0 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância à parede (mm) Figura 3.8- Emissões de NOx e CO ao longo do raio: Configuração de três módulos-Porta1 Também na porta1 os perfis radiais das espécies químicas estão desenvolvidos e os valores médios correspondentes são praticamente os mesmos que na porta2, salvo pequenas oscilações, devido à variação do caudal de biomassa fornecido. Sendo os perfis iguais para ambas as portas, confirma-se a extinção das reacções de combustão entre estas, podendo efectuar-se a captura de partículas em condições de exaustão. A composição modular do reactor revelou-se uma mais-valia, pela flexibilidade de configuração que aufere. Para os três testes de comissionamento observou-se que as temperaturas médias no queimador, durante os ensaios de comissionamento, foram sensivelmente iguais (ver Figura 3.9), o que demonstra que o fornecimento de pellets pelo sistema de alimentação em mola é suficientemente regular. 47 Temperaturas médias no queimador 950 900 T (°C) 850 800 750 700 650 600 2 Módulos /Porta2 3 Módulos/Porta2 3 Módulos /Porta1 Configuração/Porta Figura 3.9- Temperatura no queimador para os testes de comissionamento Dado que para a configuração de três módulos, se verificou um perfil radial de espécies químicas desenvolvido, no estudo da influência do estagiamento de ar, foi possível recolher espécies químicas no centro do reactor. Assim, posicionaram-se ao centro do reactor, a sonda e o termopar móvel, nas portas 2 e 1, respectivamente. 3.3. Influência do estagiamento de ar Investigou-se a influência do estagiamento de ar nas emissões de O2, CO2, CO e NOx para as duas cargas térmicas testadas, 14 e 34 kW. Conservou-se a quantidade de ar fornecida ao reactor, variando apenas a razão entre o ar primário e secundário. Utilizou-se um caudal volumétrico de ar de 200 (igual ao dos testes de comissionamento) e 300 l/min para as cargas térmicas 14 e 34 kW, respectivamente. Nestes ensaios, inseriu-se um termopar na porta1 do módulo3, para analisar os efeitos do estagiamento de ar na temperatura do reactor. Os valores das emissões de CO e NOx foram normalizados para o valor de referência de 13% de O2, valor estipulado por lei para a apresentação dos resultados em unidades de combustão de pequena escala. Os ensaios de 14 kW iniciaram-se pela distribuição de ar adoptada nos testes de comissionamento, 25% de ar secundário, sendo esta percentagem incrementada (e consequentemente reduzida a de ar primário) progressivamente em intervalos de 10% até se atingir o valor de 65%, a partir do qual se observou uma combustão muito incompleta, isto é, verificou-se o aparecimento de fumo negro (ver Figura 3.10). Possivelmente, este efeito resultou da baixa volatilização causada pela redução da 48 temperatura na zona primária de combustão, consequência do menor fornecimento de oxigénio à chama, e do arrefecimento induzido pela admissão de ar secundário. Figura 3.10- Imagem da chama com 75% de ar secundário: presença de fumos negros A Figura 3.11 contrasta com a anterior e exibe a rotação do escoamento induzida pela admissão do ar secundário. Figura 3.11- Imagem da chama com 55% de ar secundário 49 Os efeitos da combustão estagiada podem ser analisados nas Figura 3.12 e Figura 3.13. Relembrase que somente a razão ar primário-ar secundário foi alterada, mantendo-se a quantidade total de ar fornecida ao reactor. 18 O2 e CO2 (%) 16 14 12 10 O2 8 CO2 6 4 2 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.12- Emissões de O2 e CO2 em função do % de ar secundário para 14kW Valores corrigidos @ 13% O2 CO NOx 160 CO e NOx (mg/Nm3) 140 120 100 80 60 40 20 0 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.13- Emissões de NOx e CO em função do % de ar secundário para 14kW Observa-se que o aumento da concentração de O2 nos gases de exaustão está correlacionado com o aumento do ar secundário. Este aumento deveu-se ao facto do oxigénio fornecido pelo ar secundário não estar a alimentar directamente o leito, o que leva à menor participação nas reacções de combustão, elevando portanto a sua concentração nos gases de exaustão. 50 Existem três parâmetros que influenciam a emissão de CO, ou seja, a combustão incompleta: (1) a eficiência da mistura (intensidade do swirl); (2) o arrefecimento provocado pela insuflação do ar secundário; (3) diminuição da temperatura na zona primária. Os últimos dois aumentam a emissão destes poluentes e tornam-se mais gravosos para caudais de ar secundário superiores. Na Figura 3.13 observa-se que, para o intervalo de ar secundário entre os 25 e 55%, existe um ligeiro aumento dos valores de CO, havendo um quase equilíbrio entre os parâmetros indicados. Para o mesmo intervalo, as emissões de NOx reduziram-se em cerca de 20%, indicando que a tecnologia de estagiamento de ar na combustão em grelha fixa é uma alternativa válida para o controlo deste poluente. As emissões de NOx decresceram monotonamente com o aumento do ar secundário (ver Figura 3.13). Possivelmente, o aumento do ar secundário reduz a disponibilidade de oxigénio no queimador, minorando a oxidação do azoto quimicamente ligado ao combustível (principal mecanismo de formação). Para além disso, a redução da concentração de oxigénio leva à diminuição da temperatura na zona primária, o que também auxilia à mitigação deste poluente, dada a menor taxa de reacção (ver Figura 3.14). Constata-se que as evoluções das emissões de O2 e CO são simétricas às de CO2. Possivelmente o aumento do ar secundário provoca um congelamento da reacção de conversão de CO em CO2 e, consequente, resulta num aumento de CO e diminuição de CO2 (ver Figura 3.12 e Figura 3.13). Observa-se que na Figura 3.13, para o valor de 65% de ar secundário, existe um aumento de cerca de 80% das emissões de CO, relativamente ao ponto anterior (55%), que possivelmente se deve ao facto do arrefecimento provocado pela entrada do ar secundário, se tornar preponderante face à mistura de ar e gases de combustão, que a mesma promove. 900 850 800 T (°C) 750 700 Tqueimador 650 Tporta1 600 550 500 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.14- Temperatura no queimador e porta1 em função do % de ar secundário para 14kW 51 Na Figura 3.14 estão presentes as temperaturas médias no centro do queimador e na porta1. Ressalva-se que os pontos deste gráfico não se podem relacionar directamente com os dos gráficos das espécies químicas, devido à discrepância de tempos de amostragem de espécies e de aquisição de temperaturas, no entanto fornece uma visão global dos processos. Para a carga térmica de 34 kW, o caudal de ar total utilizado foi de 300 l/min. Escolheu-se este caudal de ar com o intuito de utilizar a menor quantidade de ar secundário possível. O seu incremento foi realizado do mesmo modo. No entanto, dada a elevada carga térmica e a limitação dos 60% de caudal de ar primário (explicado na secção 2.10.), só foi possível estabilizar a chama com 40% de ar secundário. A Figura 3.16 e a Figura 3.17 apresentam os valores registados no ensaio de estagiamento de ar para a carga térmica mencionada. 18 O2 e CO2 (%) 16 14 12 10 O2 8 CO2 6 4 2 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.15- Emissões de O2 e CO2 em função do % de ar secundário para 34kW Valores corrigidos @ 13% O2 CO NOx 160 CO e NOx (mg/Nm3) 140 120 100 80 60 40 20 0 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.16- Emissões de NOx e CO em função do % de ar secundário para 34kW 52 Embora a relação entre a quantidade de ar e combustível seja inferior, tal como na carga térmica de 14 kW, verificou-se um aumento da concentração de O2 e CO e uma diminuição das emissões de CO2 e NOx para caudais de ar secundário crescentes, o que reforça as considerações anteriores sobre o estagiamento de ar na combustão em grelha fixa. Para a carga térmica de 34 kW, o estagiamento de ar pode ser estendido até percentagens de ar secundário superiores. Observa-se que na Figura 3.15 e Figura 3.16, para o valor de 65% de ar secundário, não se verifica o aumento brusco da concentração de O2 e CO nos gases de exaustão, tal como se constatou para a carga térmica de 14 kW. Tal, deve-se ao menor excesso de ar e à maior carga térmica deste ensaio, que têm como consequência o aumento da temperatura no interior do reactor e, por conseguinte, o aumento da taxa de reacção do CO, resultando numa menor concentração deste poluente. Contudo, para esta carga térmica, à medida que se aumentou o ar secundário, verifica-se um arrefecimento mais acentuado no interior do reactor (porta1), comparativamente com a carga térmica de 14 kW (ver Figura 3.17). Este efeito deve-se à entrada de um maior caudal de ar secundário, que vai requerer mais calor à chama. Devido à temperatura no queimador ser semelhante para as mesmas percentagens de ar secundário, ao baixo teor de azoto do combustível (ver Tabela 2.1) e ao aumento da temperatura no interior do reactor ser insuficiente para o mecanismo térmico se tornar significativo (ver Figura 3.17), os valores das emissões de NOx, não se alteraram significativamente para ambos os ensaios de estagiamento de ar. 900 850 T (°C) 800 750 700 Tqueimador 650 Tporta1 600 550 500 35 40 45 50 55 60 65 70 % Ar secundário Figura 3.17- Temperatura no queimador e porta1 em função do % de ar secundário para 34Kw 53 4. Fecho 4.1. Conclusões Para além de todo o trabalho aferido de concepção do reactor experimental, e posterior construção e montagem, o presente trabalho engloba ainda mais duas tarefas: ensaios de comissionamento da instalação laboratorial; e ensaios onde se investigou a influência do estagiamento de ar na emissão de poluentes resultantes da combustão da biomassa. Os resultados permitiram extrair as seguintes conclusões: A estrutura modular é adequada em termos da flexibilidade de configuração do reactor. A incorporação do terceiro módulo conduz à estabilização dos perfis radiais das espécies químicas, permitindo a amostragem no centro do reactor e à extinção das reacções de combustão na zona de amostragem, possibilitando a recolha de partículas na porta2 em condições idênticas às de exaustão. O aumento da altura do reactor, para uma carga de 14 kW (temperatura média do reactor de 800 °C) e um caudal de ar total de 200 l/min, permite maximizar em 53% o tempo de residência dos gases. Comparativamente com a configuração de dois módulos, as emissões de CO reduziram-se em cerca de 60%. Verificou-se que o aumento do ar secundário é acompanhado pelo aumento da concentração de O2 nos gases de exaustão. Esta constatação parece estar relacionada com a menor participação do oxigénio insuflado na zona secundária nas reacções de combustão. Constatou-se que as evoluções das emissões de O2 e CO são simétricas às de CO2. O aumento do ar secundário parece provocar um congelamento da reacção de conversão de CO em CO2, resultando num aumento de CO e diminuição de CO2. No ensaio à carga térmica de 14 kW, para a gama de valores de ar secundário entre os 25 e 55%, existe um ligeiro aumento dos valores de CO e uma redução de cerca de 20% nas emissões de NOx. Desta constatação pode inferir-se que a tecnologia de estagiamento de ar é adequada para minorar as emissões de NOx. Esta redução, resulta da menor oxidação do azoto quimicamente ligado ao combustível. Para a carga térmica de 34 kW, verificou-se que é possível estender a percentagem de ar secundário para valores superiores, sem a existência de um aumento brusco das emissões de CO. Tal, deve-se ao menor excesso de ar e à maior carga térmica deste ensaio, que têm como consequência o aumento da temperatura no interior do reactor e, por conseguinte, a taxa de reacção de CO, resultando numa menor concentração deste poluente. 54 4.2. Trabalhos Futuros Uma vez que se investiu muito tempo na concepção do reactor experimental e o seu projecto teve como finalidade ser o mais genérico possível, existe uma grande variedade de estudos que podem ser realizados. Assim, na presente secção recomendam-se alguns estudos possíveis de ser executados nesta instalação laboratorial: Investigar a influência do estagiamento de ar nas emissões de partículas, incluindo a sua composição química, especialmente nas finas (da <2,5 µm), por serem as que têm efeitos mais severos para a saúde humana e equipamentos. Estudar os efeitos da pressão no interior do reactor nas emissões de gases e partículas. Caracterizar a emissão de gases e partículas para a queima de pellets de novas fontes de biomassa, como por exemplo, CDR, acácia, caroços de frutos, casca de arroz, etc. Avaliar a diferença da recolha de partículas no reactor e no tubo de exaustão, com o intuito de verificar, ou não, os efeitos da convergência das linhas de corrente nas suas dimensões. Uma vez que o reactor está envolvido por um forno eléctrico, pode investigar-se a influência da temperatura do reactor na formação/emissão de espécies químicas e partículas. Estudar a relação da formação de NOx com a emissão/formação de partículas, dado que se verificou uma carência de conclusões sobre esta relação na bibliografia. Analisar a formação de depósitos em diferentes zonas do reactor, para diversas distribuições de ar primário/secundário. 55 5. Referências [1] Internacional Energy Agency (IEA). ENERGY STATS 2013. [2] knoema. World Reserves of Fossil Fuels. [3] BP Statistical. BP Statistical Review 2013. 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