ASPECTOS HISTÓRICOS DE BELA VISTA DE GOIÁS ATRAVÉS DAS LENTES
DE ANTONIO FARIA NA PERSPECTIVA DE GÊNERO (1930 – 2000)
Neide de Souza Almeida Rodrigues 1
Este trabalho refere-se à fotografia como leitura de mundo, pois bem
sabemos que a presença da imagem nas organizações sociais é notória e que
grande parte da constituição das culturas humanas foram registradas a partir de
imagens. Está pesquisa tem por finalidade ampliar e aprofundar conhecimentos a
respeito das identidades da sociedade de Bela Vista de Goiás a partir das lentes de
Antonio Faria, entre os anos de 1930 a 2000.
Justifica-se também a escolha desse tema, a prática de preservação da
tradição frente às mudanças políticas, econômicas e sociais ocorridas em função do
processo de modernidade e como as relações de gênero, conseguiram promover um
avanço positivo em relação ao preconceito presente nas relações de sexo na cidade
a partir do período citado.
Porém esta pesquisa só será possível se remontarmos a alguns
acontecimentos históricos. É de suma importância analisar o processo de
desenvolvimento da cidade e consequentemente da população, a inserção das
transformações ocorridas no país que atingiram a cidade e uma análise
historiográfica sobre as categorias identidade, gênero, fotografia, tradição e
modernidade, temas discutidos com muita propriedade por diversos teóricos.
O fato de nos identificarmos com algo ou alguém passa a ser um processo
vital para qualquer indivíduo, no entanto, o ser humano vive em constante
transformação e essa mudança é ordenada pela ação consciente do meio em que
vivemos e pela vontade livre de cada pessoa.
TRADIÇÃO E MODERNIDADE NA PERSPECTIVA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO
Podemos considerar que a linguagem é um dos princípios do conhecimento,
pois está totalmente instituído em todas as nossas tentativas de perceber o mundo e
a realidade a nossa volta. A fotografia é uma das mais belas formas de linguagem e
leitura proporcionada a qualquer indivíduo, além de poder ser apreciada, é sem
dúvida uma fonte de aprendizado.
A imagem é capaz de levar conhecimento a qualquer indivíduo que dela
queira se apreender, para essa tarefa não existe regra e nem verbetes, basta
realizar uma interpretação crítica e criativa própria, levando em conta seu
entendimento de mundo e cultura. Assim, afirma Santos;
Para Kossoy, a fotografia é uma forma de expressão cultural, na qual
foram registrados do tempo, aspectos como religião, costumes,
habitação, enfim acontecimentos sociais de diversa natureza foram
objetos documentados através da imagem. Dessa maneira, mostra
que o fotógrafo, enquanto autor da imagem também, participa do
processo de representação, já que domina as técnicas de fotografar e
direciona essa forma de interação. O autor vai além, determina que no
1
Aluna do Programa de Mestrado em História Cultura e Poder da Pontifícia Universidade Católica de
Goiás.
contexto de produção, o fotógrafo age como filtro cultural. (2008, p.
141) 2
Através do estudo das imagens podemos chegar não só a conhecer, mas
temos a possibilidade de visualizar uma determinada época, além de desvendar e
compreender as práticas culturais, sociais, econômicas e políticas de um
determinado grupo ou até mesmo de uma sociedade, como é o caso de Bela Vista
de Goiás.
Utilizando algumas fotografias de Antonio Faria, podemos visualizar e
perceber a participação e a contribuição ativa de homens e mulheres na construção
e desenvolvimento da cidade em relação aos aspectos sociais, culturais, políticos,
econômicos, religiosos e educacionais. Com base nesta análise é intrigante pensar
que a fotografia é um registro “real” de um passado que não mais existe. Nesse
sentido Halbwachs coloca que;
Reconhecer por imagens, ao contrário, é ligar a imagem (vista ou
evocada) de um objeto a outras imagens que formam com ela um
conjunto e uma espécie de quadro, é reencontrar as ligações desse
objeto com outros que podem ser também pensamentos ou
sentimentos. (...) a lembrança corresponde a um acontecimento
distante no tempo, a um momento de nosso passado. (2006, p. 55) 3.
De acordo com a autora as fotografias nos contam histórias, revelam
costumes, práticas e cultura de um povo. Elas se confundem com a própria
memória, evitando o esquecimento, garantindo a sua duração no tempo. É bem
verdade que muitas vezes não nos recordamos dos fatos, mas o uso de imagens
ligadas a outras recordações corresponde a lembranças de acontecimentos
distantes.
2
SANTOS, Francieli Lunelli. KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
Edição revista. Revista de História Regional 13(1): 141-143, Verão, 2008
3
HALBWACHS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva/ Maurice Halbwachs: tradução de Beatriz
Sidou – São Paulo: Centauro, 2006, 224 p.
2
É nessa perspectiva que Antonio da Costa Faria, nascido no dia 26 de
dezembro de 1914 na cidade de Bela Vista de Goiás, tornou-se uma figura lendária
em todo município. Após a morte do pai resolveu se dedicar a sua verdadeira
paixão, a fotografia.
A partir dos 16 anos de idade saia de Bela Vista de Goiás para a cidade de
Anápolis de bicicleta para fazer seu primeiro curso profissionalizante. Nesta época, o
processo de revelação ainda era em preto e branco. Por volta de 1960, surgiu o
monóculo, cuja revelação já era colorida.
Com o surgimento das fotos coloridas impressas em papel, adquiriu um novo
equipamento, onde usava filmes especiais para impressões. Antonio Faria, mesmo
depois de se aposentar aos 70 anos de idade, continuou a exercer a profissão de
fotógrafo até os 87 anos. Chegando a falecer no ano de 2009, deixando assim, sua
história registrada nos negativos das fotos que tirara com tanta dedicação.
Constituiu no decorrer do seu trabalho, um riquíssimo acervo fotográfico não
só de pessoas, mas da construção e desenvolvimento da cidade. Como foi por muito
tempo o único fotógrafo na cidade sua arte contemplava inúmeras histórias como;
casamentos, aniversários, velórios, além de festas particulares em fazenda, as
quais, Antônio Faria era peça fundamental para registrar e agraciar o momento. Seu
meio de transporte por muitos anos foi o cavalo, mas ele não se importava. Além de
ser uma profissão, a qual deu condições de sustentar sua família, a fotografia
sempre foi sua paixão.
Seu patrimônio fotográfico construiu sem dúvida grande parte da história,
cultura e memória de um tempo que não se recupera jamais. Segundo Bosi (1992, p.
145), “Cada geração tem, de sua cidade, a memória de acontecimentos que são
pontos de amarração de sua história. O caudal de lembranças, correndo sobre o
mesmo o leito” 4.
Sabemos que cada geração constrói através do discurso a sociedade em que
vive e dela tem memória de acontecimentos que analisados individualmente são
pontos importantes de relação de sua história global.
Assim como ocorreu em Bela Vista aconteceu em outras regiões do Brasil, de
início houve a formação de um pequeno povoado, freguesia e em seguida a
formação de uma cidade com o povoamento cada vez maior. De porte pequeno e
localização interiorana, a origem da cidade remota a segunda metade do século XIX,
no entanto sua ocupação, é bem anterior, podemos destacar final do século XVIII,
quando as jazidas de ouro em Goiás deram sinal de esgotamento. Moradores de
Luziânia (antiga Santa Luzia) foram se espalhando em busca de lugares onde
poderiam se dedicar a atividade agropastoril.
O povoado ia crescendo gradualmente em torno de uma capela, de cultura
tradicional e emergentemente católica. As terras que deram origem a atual cidade de
Bela Vista de Goiás foram doadas pelo Senhor José Bernardo Pereira, sua esposa
Inocência Maria de Jesus e pelo senhor José Inocêncio Teles no ano de 1852.
Sendo uma sociedade de base patriarcal, a mulher nem sempre tinha participação
ativa, porém é notável a presença feminina na contribuição da fundação da cidade,
pois o arraial, surgiu com o trabalho de Dona Josepha Teles, esposa do Senhor
José Inocêncio Teles, que saia de sua fazenda chamada São Bento, situada a 12
km do arraial conhecido como Sussuapara, onde se reunia com os habitantes do
lugar para fazer orações nos dias de domingo e dias santos. Sua dedicação era tão
4
SÃO PAULO (cidade). Secretaria Municipal de Cultura. Departamento do Patrimônio Histórico. O
direito à memória: patrimônio histórico e cidadania/ DPH. São Paulo: DPH, 1992.
3
grande que mandou construir naquele local uma casa de oração e que homenageou
Nossa Senhora da Piedade.
Figura1: Foto Faria – 1942.
A imagem representa ao centro um
Obelisco construído em homenagem à
primeira capela erguida por dona
Josepha
Teles,
iniciando
aí
a
participação da mulher na construção da
cidade.
Em
volta
do
Obelisco
observamos um momento de devoção
religiosa missionária com os padres
redentoristas. Para tanto, podemos notar
homens, mulheres e crianças atentos ao
ritual
de
celebração.
Um povo que valorizava as comemorações religiosas, se preocupava em
produzir quase tudo aquilo de que necessitavam para sobreviver, se tornando
praticamente auto-suficiente, dependendo de pouquíssimos produtos, basicamente o
sal e o ferro, que era encontrados em cidades vizinhas.
Ao fixarem moradia em um determinado local, as pessoas fazem do tempo e
do espaço verdadeiras projeções de vida e história. Construindo não só bens
materiais, mas valores, costumes e cultura que são fundamentos importantes que
homens e mulheres vão moldando de acordo com sua visão de mundo de uma
determinada época e espaço.
Retornamos ao final do século XIX para caracterizar a sociedade
belavistense. Podemos então, observar que o povoado de Sussuapara cresceu em
torno de um conservadorismo específico da construção cultural das próprias
pessoas que aqui foram se fixando moradia.
Numa região onde se preserva os valores morais, o homem era o responsável
e o protetor do lar, aquele que impunha respeito e as ordens. Já a mulher, perdurava
a responsabilidade em ser prendada, além de preservar a virgindade, algo
extremamente valorizado, numa época em que ...”o homem vai para o casamento
com todas as experiências sexuais e a mulher, na mais absoluta pureza. Ele, via de
regra, já freqüentou bordéis, conheceu damas altamente experientes e a noiva é
pura fragrância de flor-de-laranjeira”. (TELES, 2006, p.16), pois os casamentos eram
combinados pelos pais e a partir dos treze anos de idade, a moça já estava
preparada para se casar. “Casamento sem que o par se conhecesse ou se gostasse
era muito comum naquela época dos casamentos arranjados”. (TELES, 2006, p.
15)5.
5
TELES, Celuta Mendonça. Minha vida de casada. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2006.
4
Figura 2: Foto Faria - 1942
A foto retrata o tradicional casamento
ocorrido em Bela Vista, este foi o enlace
matrimonial de Lica e Epaminondas
ocorrido dia oito de abril de 1942, Lica já
passava dos vinte anos e Epaminondas
tinha dezoito.
Como se percebe os noivos fogem um
pouco da regra até então estabelecida
naquela época, a moça era um pouco
mais velha do que o rapaz, o que não
era de costume. A fotografia também
deixa claro que em meio ao traje social
do casamento, a pose para foto é no
quintal, pois era costume naquele
período
a
realização
de grandes festas no quintal da casa em comemoração ao acontecimento.
No que diz respeito às sociedades desse período o arraial de Sussuapara,
não se diferenciava de outras regiões, pois em todo território brasileiro, os costumes
se assemelhavam muito, sendo o Brasil um país agrário e recém escravista, o
tradicionalismo e o patriarcado ainda prevalecia muito forte em nossa cultura.
Figura 3: Foto Faria – Produção de Fumo.
Figura 4: Foto Faria – Criação de gado.
Na imagem 3, destaca as grandes lavouras de fumo, que foi por muitas
décadas a riqueza econômica da cidade, hoje em dia, até pra comprar um pedaço
de fumo no rolo, é muito difícil. A frente da plantação observamos o orgulho do
trabalhador na sua mais pura simplicidade. Ao lado, na figura 4, podemos ver a
criação de gado, que além de servir de alimento também era um dos meios de
transporte, o boi era mais utilizado no carro de boi, enquanto o cavalo na carroça e
como transporte de um único passageiro.
Entretanto os belavistenses lutavam pela emancipação do seu território e há
muito trabalha em prol desse processo. Assim, Silva destaca;
Exemplos são encontrados nas iniciativas em prol da instrução
pública, organicidade religiosa, melhoria de condições de vida dos
concidadãos, facilidade de comunicação e posicionamento político.
Sopravam a favor da almejada autonomia o espírito de iniciativa e a
5
índole de não esperar que as coisas caíssem do céu. (2006 – 2007, p.
25) 6
Com características específicas essa sociedade empreendeu uma luta
pacífica, porém, com objetivos estabelecidos e definidos. Como afirma a autora, a
“iniciativa” deixa claro o que realmente o belavistense desejava. Com todo esse
esforço, em 1896 município foi emancipado, se tornando então cidade de Bela Vista
de Goiás.
Um fator significante no início do século XX e responsável por consideráveis
mudanças política, econômica, religiosa e social foi o fato de que no início, a
comunicação da região sul de Goiás com o Rio e São Paulo se fazia por Morrinhos e
Bonfim, no entanto, devido a hospitalidade e reciprocidade do povo belavistense,
seu clima agradável, seus abundantes recursos naturais e sua posição geográfica
favorável, o caminho desse percurso foi desviado para Bela Vista.
Devido esse fato, a cidade era bastante visitada por viajantes, o que acabou
movimentando e consequentemente proporcionando melhorias para a população,
porém, mesmo caminhando rumo ao progresso cultivava de uma forma singular a
tradição religiosa da cidade.
6
SILVA, Nancy Ribeiro de Araújo e. Fatos e pessoas da história de Bela Vista de Goiás. Perfil
Cultural, Bela Vista de Goiás, n. 2, p. 13-33, 2006/2007.
6
Figura 5: Foto Faria – Procissão: dia de festa.
Está imagem retrata a fé e a
preservação
da
tradição
do
belavistense. Vê-se ao centro da foto a
imagem de Nossa Senhora da
Piedade, a padroeira da cidade; à
esquerda,
notamos o Divino Pai
Eterno, simbolizado por uma pomba e
a direita, São Benedito, o santo preto.
Um aspecto interessante é o traje dos
homens que carregavam os andores
dos santos, para eles a festa
representava não só mais uma festa na
cidade, mas a fé nos santos festeiros,
a dedicação era tanta que, a particiapação era unanime.
Figura 6: Foto Faria - Cavalhada
Nesta imagem podemos apreciar um
das mais belas e antigas tradições e
costumes do povo belavistense, a tão
esperada cavalhada e é apresentada
com toda pompa; os cavalos sempre
bonitos e viçosos, os cavaleiros
trajados a vigor e com um público fiel,
mulheres, homens e crianças assistem
atenciosos, a beleza do desfile. Como
se observa, as ruas ainda não tinha
asfalto, porém, já se nota a presença
de muitas casas, uma grande
quantidade de coqueiros em meio a Avenida Pedro Ludovico Teixeira, isso mostra
que, além da preocupação das pessoas com a beleza, a preservação do meio
ambiente era visível.
A tradição da cavalhada continua existindo, porém, muitas mudanças
aconteceram, atualmente não é um desfile só de cavaleiros, tem a participação de
grande peso de motos, carros, carroças e outros tipos de transportes, e ao que se
parece não é só uma questão de costume.
Diante disso, propõe-se pensar tradição e modernidade na cidade de Bela
Vista a partir das práticas sociais, das vivências espaciais e conseqüentemente do
processo relacional ente todos e tudo, destaca-se fundamentalmente também as
ações praticadas por cada indivíduo, pois segundo Hobsbawm, tradição é;
... um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas
ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica,
visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da
repetição, o que implica automaticamente; uma continuidade em
relação ao passado. (1997, p. 9) 7.
7
HALBWACHS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva/ Maurice Halbwachs: tradução de Beatriz
Sidou – São Paulo: Centauro, 2006, 224 p.
7
Já o processo de modernidade Giddens entende que;
O dinamismo da modernidade deriva da separação do tempo e do
espaço e de sua recombinação em formas que permitem o
“zoneamento” dos sistemas sociais (um fenômeno intimamente
vinculado aos fatores envolvidos na separação tempo-espaço); e da
ordenação e reordenação reflexiva das relações sociais à luz das
contínuas entradas (imputs) de conhecimento afetando as ações de
indivíduos e grupos. (1991, p. 25) 8.
Assim, Bela Vista nasceu, cresceu e se expandiu valorizando os costumes
religiosos, porém, é certo afirmar que com novos adventos até mesmo os costumes
passam por uma dinâmica de transformação.
Dentre tantas mudanças consideráveis, destacamos aqui, dois marcos
históricos que foram responsáveis por mudanças essenciais decorrentes do passar
do tempo e ao mesmo tempo radicais e irreversíveis, de escala nacional e com
repercussões significativas no espaço e sociedade belavistense. Primeiro a
construção de Goiânia na década de 1930 e logo depois em 1960 a construção de
Brasília. Tais processos significaram progresso para Goiás, o que proporcionou
abertura de estradas, chegada de novos veículos de transporte e comunicação,
além do deslocamento de milhares de migrantes em busca de uma vida melhor, pois
a perspectiva com a construção das duas novas capitais era muito grande.
8
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade/ Anthony Giddens; tradução Raul Fiker. –
São Paulo: Editora UNESP, 1991
8
Figura 7: Foto Faria – Hotel Arante – 1940
A imagem nos dá uma visão privilegiada
da primeira praça da cidade, Praça
Getúlio Vargas, a preocupação com o
meio ambiente, mais uma vez é
perceptível, muita grama e árvores
recém plantadas pela praça, além de
observar mais uma vez o Obelisco no
centro.
Podemos
notar
crianças brincando, homens sentados e
mulheres conversando. As casas
aparecem bem estruturadas, com
janelas em vidro, muro representando
segurança
e
liberdade
dos
moradores, os postes de luz dá um charme e delicadeza nas ruas, o que mostra que
na cidade já havia luz elétrica.
No fundo podemos ver o Hotel Arantes, que pertenceu ao Seu Domingos e
Dona Margarida, com arquitetura simples, bastante janelas, o que proporcionava
claridade e arejamento, o hotel era grande e sendo um dos únicos na cidade
oferecia asseio e hospitalidade aos viajantes, mascates, compradores de fumo e
outros visitantes que rumo a São Paulo passavam por Bela Vista e muitos deles se
hospedavam por muitos dias.
Nas décadas seguintes outras mudanças surgiam, de forma direta ou indireta
acabava afetando a sociedade belavistense, que insistia em manter uma cultura
tradicional com características especificas do seu território.
9
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Jataí – Realização Cursos de História, Letras, Direito e
Psicologia – ISSN 2178-1281
Podemos destacar ainda a chegada da globalização, a facilidade de
informação e meios de comunicação cada vez mais acessíveis, Goiânia oferecia
oportunidades para a realização de curso superior, o que estava bem próximo de
Bela Vista, reformas educacionais que proporcionavam um conhecimento
interdisciplinar e vantagens de aprendizado cada vez mais inovadoras.
Tem-se, a partir daí, no alvorecer do século XXI, um período cada vez mais
rápido de transição do modo de vida tradicional para o modo de vida moderno,
principalmente para a população de Bela Vista de Goiás. Observa-se neste sentido,
uma remodelação de suas paisagens e inaugura-se uma nova fase e ritmos cada
vez mais acelerados. Assim sublima Brito “...é importante, no mundo, a preservação
do novo, sem rompimento com o passado e a tradição da cultura”. (2010, p. 20) 9.
De acordo com a autora, as mudanças são inevitáveis principalmente em uma
sociedade em que os indivíduos assumem atitudes de decisão naquilo que
realmente desejam. Diante disso, um fator relevante que exige destaque nessa
discussão, é a questão do homossexualismo dentro dessa sociedade, que nesses
últimos anos tem avançado bastante, porém, o fato de resistirem aos conceitos e
pré-conceitos de uma população ainda calcada em preconceitos, demonstra a
construção de identidades que antes não existia nessa sociedade.
Para compreendermos essas mudanças e resistências é necessário entender
o conceito de gênero. Por volta do século XX diferentes teóricas (os) passaram
analisar o termo gênero com mais propriedade. Neste trabalho utilizamos as
definições da categoria dadas por Joan Scott e Teresa de Lauretis. Com o intuito de
analisar com mais solicitude o conceito naturalizado de sexo, postulado no feminino
e masculino. Essa categoria passou a difundir a ideia da construção do sexo a partir
do gênero, resultando assim, em uma nova forma de compreender como se
constituía essas relações de poder. Assim, argumenta Scott;
No seu uso mais recente, “gênero” parece ter aparecido primeiro entre
as feministas americanas que queriam insistir na qualidade
fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra
indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de
termos como “sexo” ou “diferença sexual”. O “gênero” sublinhava
também o aspecto relacional das definições normativas de
feminilidade. As que estavam mais preocupadas com o fato de que a
produção dos estudos femininos centrava-se sobre as mulheres de
forma muito estreita e isolada, utilizaram o termo “gênero” para
introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário analítico.
Segundo esta opinião, as mulheres e os homens eram definidos em
termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um poderia
existir através de estudo inteiramente separado. (1995, p.1) 10
9
BRITO, Maria Helena de Oliveira. As manifestações do sagrado e do profano na cultura
belavistense: A Festa de Julho. Perfil Cultural, Bela Vista de Goiás, n. 2, p. 35-51, 2006/2007.
10
SCOTT, Joana. Gênero: uma categoria útil de análise. In Gênero e Educação. Educação e
Realidade, Porto Alegre, FAE: UFRGS, V. 20, n. 2 jul-dez, 1995.
Textos Completos: II Congresso Internacional de História da UFG/Jataí: História e Mídia – ISSN 2178-1281
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De fato, não existe uma determinação natural dos comportamentos de
homens e de mulheres, apesar das inúmeras regras sociais impostas numa suposta
determinação biológica diferencial dos sexos.
Nota-se de forma positiva a “aceitação” da população, em relação essa nova
mudança, dentro de uma sociedade que até então, conservava valores
biologicamente heterogêneos. Porém, essa conquista não foi de um dia para o outro,
a luta pacífica e isolada dos homossexuais foi resistente, impulsiva e persistente.
Portanto, o respeito para com nova representação é um luta constante e
progressiva, sendo que aos olhos de muitos parecem seres estranhos, mas que na
verdade não passa de puro preconceito e falta de orientação.
Mesmo o sexo sendo fator importante para o processo natural do indivíduo,
percebemos que é o gênero que constrói o sexo, pois este é construído no decorrer
do tempo e experiências vividas e por fim pautado no discurso que o próprio ser
humano se destina a ser, sua preferência sexual é que vai definir o sexo que se quer
assumir. Quando nos referimos a esta categoria nos reportamos ao que foi definido
por Luretis (1994, p. 211),
O termo “gênero” é, na verdade, a representação de uma relação, a
relação de pertencer a uma classe, um grupo, uma categoria. Assim,
gênero representa não um individuo e sim uma relação, uma relação
social; em outras palavras, representa um indivíduo por meio de uma
classe... 11.
Segundo Lauretis, gênero não é sexo, ainda que, as concepções culturais de
masculino e feminino sejam categorias complementares, ela afirma que por meio do
processo relacional, gênero é uma representação de cada indivíduo dentro da
sociedade em que vive.
Diante disso, um dos fatores de maior evidência é a mudança na produção da
própria subjetividade dos indivíduos. As questões de gênero, porém, têm estreita
relação com valores sociais que por sua vez norteiam a ótica do feminino e do
masculino. A identidade social de ambos está constituída por distintas
representações e atribuições, aos quais, precisamente a sociedade delimita.
Mas isso não acontece como aceitação simples e pura dos padrões
determinados, mas como forma de questionamento e reconstrução do que seja um e
outro. Dessa maneira, ao longo do processo de desenvolvimento as mudanças nas
instituições sociais produzem efeitos contundentes nas identidades dos sujeitos.
Podemos entender identidade nesse contexto a partir da analise de Costa e
Ávila no artigo “Glória Anzaldua, a consciência mestiça e o “feminismo da diferença”
(2005, p. 698); “Identidade não é um amontoado de cubículos estufados
11
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, H. B. de. Tendências e impasses.
O feminismo como crítico da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994
Textos Completos: II Congresso Internacional de História da UFG/Jataí: História e Mídia – ISSN 2178-1281
11
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respectivamente com intelecto, sexo, raça, classe, vocação, gênero. Identidade flui
entre, sobre, aspectos de cada pessoa. Identidade é um [...] processo”. 12
De acordo com Anzaldua, identidade é vista como produto social resultante
da interação entre indivíduo e o mundo social, entretanto, não é um conceito fixo,
pronto e acabado, ao contrário, é passível de mutações.
É indiscutível que o processo de mudanças históricas em Bela Vista tem seus
desdobramentos nas constantes mudanças na conjuntura social, cultural e,
consequentemente, na identidade social. Estas mudanças ocorreram para que se
agregassem à identidade dos indivíduos novas representações sociais, novos
valores, porém, é necessário e possível preservar a tradição da cultura local. Nessa
perspectiva Hall entende que;
A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é
uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de
significação e representação cultural se multiplicam, somos
confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de
identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos
identificar – ao menos temporariamente. (2007, p. 14) 13
Nesse sentido, podemos perceber que os indivíduos são seres extremamente
diferentes, pois são dotados de uma singularidade única, porém essa distinção não
se refere a algo negativo ou positivo, mas sim, naquilo que cada pessoa considera
importante, bom e correto para traçar o seu caminhar histórico. Assim, percebemos
que o gênero se materializa através das relações sociais paralelas a construção de
identidades. Destaca Navarro;
... identidades não passam de construções passageiras, fluídas, como
pousos esporádicos, lá onde o presente se torna passado; em
processo, eu sou apenas um projeto de mim, aquela que já passou e
que ainda não é. Que não será nunca, sendo. As marcas identitárias
são apenas pousos momentâneos que traçam meu perfil no passado.
Neste caso, a busca da identidade poderia ser substituída pela procura
da liberdade: livre de raízes, de coerções, de modelos, estou em
permanente fluxo.. (2004, p.49) 14
Postas essas considerações, podemos entender que tanto o espaço quanto a
sociedade belavistense, no processo de suas transformações, recebeu uma
significativa influência daquela cultura mais enraizada que só pode consolidar num
contexto de tradição. Já que a tradição e a modernidade se caracterizam, sobretudo,
12
COSTA, Claudia de Lima. ÁVILA, Eliana. Glória Anzaldua, a consciência mestiça e o “feminismo da
diferença”. Estudos Feministas, Florianopólis, 13(3), setembro-dezembro/2005.
13
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomáz Tadeu da Silva e Guacira
Lopes Louro. 7ª Ed. Rio de Janeiro: DP &A. 2003
14
SWAIN, Tânia N. Identidade, para que te quero? In: Gonçalves, Ana Teresa ET alli (orgs). Escritas
da história: intelectuais e poder. Goiânia: Editora da UCG, 2004
Textos Completos: II Congresso Internacional de História da UFG/Jataí: História e Mídia – ISSN 2178-1281
12
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Psicologia – ISSN 2178-1281
pela repetição e pela ruptura, ambas podem ser consideradas formas distintas dos
indivíduos viverem e conceberem sua identidade. Sendo que este é um processo de
contínua metamorfose, mas não rompe com todas as formas de tradição.
A partir da utilização de algumas imagens fotográficas de Antonio Faria
percebemos que não podemos estar desatentos às particularidades apresentadas
por estes documentos, pois seus registros contam história de um povo e de um
tempo que não volta jamais, e que só pode ser visto através dessas imagens.
Com base em tudo que foi apresentado, pretendeu-se fazer explanação
acerca de algumas reflexões sobre as mudanças políticas, econômicas, sociais e as
resistências ocorridas nas relações de gênero em Bela Vista de Goiás a partir das
lentes de Antonio Faria entre 1930 a 2000, em decorrência da tradição e
modernidade para a construção de identidades da sociedade belavistense.
Para tanto se considerou gênero como uma categoria importante para se
pensar e estabelecer os pontos relevantes para a construção dessa identidade, além
de ser um fator essencial para a transmissão e conservação dos valores culturais em
função da chegada de novas mudanças. Levou-se em conta que o espaço local é
um espaço criador de identidades e, por assim ser, a sociedade que ali se iniciou
serviu de base para a constituição cultural da cidade.
As transformações do território e seu processo de modernização incitaram
novos modos de vida e de relação com o espaço. Neste contexto, percebe-se uma
forte influência da tradição na urbanização da cidade. As reflexões sobre tradição e
modernidade levaram em consideração, que sua análise deve ser realizada numa
perspectiva das relações sociais.
Nesse sentido, vale ressaltar que representações sociais distintas para
homens e mulheres nem sempre levam às diferenças de gênero que deve ser
consideradas construções culturais, ou seja, imagem que a própria sociedade
constrói através da vida social, da educação e da socialização, na maioria das vezes
não define o que se acredita na realidade ser próprio dos homens e próprio das
mulheres.
Podemos concluir então, elucidando que a construção das identidades
ancora-se na noção de que o indivíduo, ao longo do seu desenvolvimento físico,
psíquico e emocional, com base nas mais diversas instituições e ações sociais, se
constituem como homens e mulheres, em etapas que não são sequenciais,
contínuas ou iguais e que também nunca serão concluídas, pois a identidade não é
algo fixo, estável, permante, homogêneo,
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