V Encontro Nacional da Anppas
4 a 7 de outubro de 2010
Florianópolis - SC – Brasil
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Sistema de Crédito Rural Solidário Cresol: autogestão e
sustentabilidade
Ana Paula Debastiani Vasco (UTFPR)
Administradora, Mestranda em Desenvolvimento Regional da UTFPR
[email protected]
Hieda Maria Pagliosa Corona (UTFPR)
Socióloga, Professora Doutora da UTFPR
[email protected]
Resumo – arrumar, diminuir
O presente trabalho busca discutir os modelos de gestão “convencional” das empresas privadas e da
“autogestão” nas organizações da economia solidária, e seus vínculos com os princípios e práticas
para o desenvolvimento sustentável. A Teoria da Administração, em suas diferentes matrizes, aponta
para os aspectos fundamentais de toda empresa privada: a busca constante pelo lucro na competição
no mercado e a centralização das decisões no processo de gestão. A economia solidária, sendo uma
proposta autogestionária, considera possível desenvolver a solidariedade e o trabalho conjunto, sem
fins lucrativos. Esse trabalho é resultado de uma pesquisa que se propôs fazer um estudo da
Cooperativa de Crédito Rural Cresol para identificar e analisar o seu processo de autogestão e as
suas contribuições para a sustentabilidade da agricultura familiar na Região Sudoeste do Paraná. A
opção foi pela abordagem qualitativa; os instrumentos utilizados foram análise documental, consulta a
materiais da organização e sobre ela, e também, entrevistas semi-estruturadas gravadas com
dirigentes e funcionários da cooperativa. Observou-se que a cooperativa preza pelo envolvimento de
seus cooperados através do desenvolvimento de atividades como, assembléias ordinárias, préassembléias, e de ações para integração do cooperado. No que se refere a sustentabilidade, a
organização discute a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento e busca promover a
sustentabilidade da agricultura familiar; no entanto, a necessidade de se manter no mercado de
crédito, acarretando na própria sobrevivência da organização dificulta a implantação de alternativas
ambientalmente sustentáveis.
1. INTRODUÇÃO
O atual cenário mundial coloca em tensão o modelo convencional de desenvolvimento, centrado na
competição e no crescimento econômico, e o modelo da sustentabilidade e da solidariedade. As
organizações, na busca pelos seus interesses motivados e estimulados pelo sistema vigente,
acumulam riquezas privadamente e agem sobre os recursos naturais sem vislumbrar o suprimento
das necessidades da atual e das futuras gerações. Essas questões têm provocado reflexões nas
esferas acadêmicas, organizacionais, entidades governamentais e não governamentais, entre outras.
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É neste contexto de preocupações que o presente artigo se situa. Ele visa apresentar uma
experiência concreta que, pode ser viável para os excluídos e marginalizados pelo sistema capitalista,
e ainda promove a sustentabilidade da agricultura familiar, a partir de uma perspectiva endógena. O
cooperativismo, em uma perspectiva solidária, tem procedimento econômico-social, o qual os
cooperados, homens e mulheres, devem participar ativamente das decisões da organização. Neste
modelo autogestionário, as decisões são determinados pelos próprios acionários da cooperativa, que
elegem uma direção e um conselho de gestão.
Tal proposta possibilita o desenvolvimento da solidariedade e do trabalho conjunto, contribuindo para
a equidade, bem como, preservando o meio em que atua. Nesta perspectiva, é que as cooperativas,
com regime de economia solidária, tornam-se a base organizativa de uma caminhada em busca da
sociedade justa e eqüitária (RECH, 2000). Tais organizações surgem como um meio alternativo ao
sistema, resultado da luta de trabalhadores, como tal, ela não precede o capitalismo, mas acompanha
em toda a sua evolução como uma sombra. (SINGER, 2000).
Portanto, este trabalho propõe apresentar um estudo da Cooperativa de Crédito Rural Cresol
(Cooperativa de Crédito Rural com Interação Solidária), - sendo esta organização um sistema de
crédito integrado de cooperativas de crédito rural com interação solidária, e é uma instituição
financeira amparada por lei, - analisando seu processo autogestionários e suas contribuições para o
desenvolvimento regional sustentável, tendo em vista que tal organização atende aos agricultores
familiares da região, em geral excluídos das fontes tradicionais do crédito, para atender as
necessidades destes produtores. Logo, se apresenta com tamanha importância no desenvolvimento
da região Sudoeste do Paraná considerando que a região tem uma estrutura fundiária
particularmente desconcentrada, com forte presença da agricultura familiar.
Desta forma, o presente artigo apresenta o resultado de uma pesquisa realizada através de
entrevistas semi-estruturadas com dirigentes e funcionários da cooperativa, bem como, através de
pesquisa documental. A pesquisa realizada se caracteriza como estudo de caso com abordagem
qualitativa. E por se tratar de um pesquisa de cunho quantitativo se buscou interpretar um fenômeno
social sob o ponto de vista crítico, o qual se remete a elementos metodológicos do materialismo
dialético. Deste modo, para análise das informações e dados coletados, este trabalho utilizou de
categorias que deram subsídios para analisar, em primeiro lugar, a relação entre a experiência
individual ou particular da Cresol na relação com o desenvolvimento convencional geral da
sociedade, a qual menciona as características gerais delineando o fenômeno até atingir as
peculiaridades específicas dele. A partir dessa referência, a análise das informações e dados deste
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trabalho, tratou do desenvolvimento a partir do sistema vigente de organização de mercado,
delineando a realidade pesquisada que faz parte, em tese, dos pressupostos de um modelo de
desenvolvimento solidário/sustentável. Em segundo lugar, a categoria refere-se à possibilidade
daquilo que pode surgir considerando a uniformidade do desenvolvimento, em contraposição a
realidade, ou seja, aquilo que já aconteceu ou está acontecendo. Assim, este trabalho pretende
abordar a realidade, como sendo o modelo atual de desenvolvimento, e a possibilidade, que consiste
em um modelo de desenvolvimento justo e eqüitativo, o desenvolvimento solidário, e ainda, desejouse confrontar a realidade da gestão convencional numa perspectiva capitalista, e a possibilidade da
autogestão, que é a gestão democratizada buscando beneficiar a todos.
2.0 DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO E SUSTENTÁVEL
Desde a primeira Revolução Industrial, o capitalismo esteve a frente do desenvolvimento ocidental,
contudo relatos mostram iniciativas solidárias na Grã Bretanha a partir do século XIX. Iniciativas que
permanecem até hoje sendo desenvolvidas por entidades de produção, cooperativas de compras e
de vendas, de crédito, de habitação e de seguro, ações que representam mais de um século de
desenvolvimento solidário.
O desenvolvimento solidário é, conforme Singer (2004), impulsionado por comunidades de pequenas
firmas, cooperativas de trabalhadores ou associações que são conduzidas por valores de cooperação
e ajuda mútua, mesmo que competindo entre si no mercado. Ainda conforme o autor, o
desenvolvimento solidário e o capitalista apóiam-se nos mesmos avanços do conhecimento e sua
aplicação aos empreendimentos humanos. Porém, diferenciam-se em seus propósitos, sendo que o
primeiro sustenta-se em um desenvolvimento justo e igualitário; já o segundo, embora não há como
negar que trouxe melhoras aos capitalistas e a uma parcela dos trabalhadores, apóia-se na
propriedade privada do capital, excluindo grande parte do povo trabalhador. E é neste sentido que
surge o desenvolvimento em uma perspectiva solidária. Ele é uma reação contra a injustiça e
exclusão, contra o modelo seletivo de desenvolvimento.
A reação de atores sociais contra esse paradigma social firmado na riqueza e no bem-estar material
revela a radicalidade contra os excessos da modernidade. Tal crítica atinge o modo como se
“trabalha e produz, mas também o modo como se descansa e vive; a pobreza e as assimetrias das
relações sociais,” (SANTOS, 1997) e ainda formas de opressão que atingem grupos sociais
transclassistas. Portanto, a reação desses sujeitos funcionou como uma alternativa de inserção como
atores sociais e agentes de desenvolvimento.
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Deste modo, a economia solidária pode ser uma alternativa para promover a sustentabilidade,
considerando que esta última requer uma inter-relação de diferentes dimensões para sua promoção,
são elas: econômica, social, ambiental, espacial e cultural (SACHS, 1993). O Congresso da Aliança
Cooperativa Internacional em Manchester1 (1995) estabeleceu os valores das organizações
solidárias, nos quais se considera as diferentes dimensões que, de forma sistêmica, podem promover
a sustentabilidade, são elas: ajuda mútua, responsabilidade, democracia, igualdade, solidariedade,
honestidade, transparência, responsabilidade social e preocupação pelos cooperados (RECH, 2000).
3.0 ECONOMIA SOLIDÁRIA - COOPERATIVISMO
O cooperativismo no Brasil é amparado pela Lei 5.764 de 16 de dezembro de 1971, conforme a
Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), e este regulamento exige um número mínimo de 20
sócios para sua constituição formal. O artigo quatro desta lei define cooperativa como “sociedades de
pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência,
constituídas para prestar serviços aos associados”. Essa formalização e institucionalização do
cooperativismo vinculado ao Estado brasileiro e as suas políticas de desenvolvimento, acabaram
distanciando-se dos princípios originários do cooperativismo solidário. O processo de modernização
do campo brasileiro, promovido pelo Estado via financiamento subsidiado e inserção forte do
agricultor no mercado, promoveu uma significativa ampliação do cooperativismo desta natureza
(CORONA, 1999).
O cooperativismo entrou em um importante momento, resultando no estímulo da produção do
binômio soja/trigo, a qual fomentou a “modernização” agrícola, somando-se ao acesso ao crédito
subsidiado. Porém, nos anos oitenta, com a queda do preço do soja no mercado internacional, as
cooperativas tiveram que buscar outras alternativas de renda, já que o Estado brasileiro, afetado com
a crise, dificultou o financiamento subsidiado. A principal alternativa foi a agroindustrialização a qual
agregou valor aos produtos. Em um primeiro momento, elas impulsionaram as cooperativas, mas não
foram suficientes para enfrentar um mercado mais competitivo. Com isso, o cenário do
cooperativismo na década de noventa foi o endividamento, ameaças de fechamento e ainda as
dificuldades dos agricultores familiares (CORONA, 1999).
1
Os Congressos da Aliança Cooperativa Internacional em Paris (1932), Viena (1966), Tóquio (1992), e de Manchester (1995) formularam os princípios de
funcionamento das cooperativas.
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As transformações socioeconômicas ocorridas durante nas décadas de 70-90 faz-nos compreender
como o cooperativismo ganhou força. A década de setenta é marcada pela transição do modelo
Keynesiano (Estado de Bem estar Social), endividamento do estado, para o modelo econômico
neoliberal e caracteriza-se pelo início de uma nova crise econômica mundial, a chamada crise do
petrodólar. A década de oitenta é marcada pelo liberalismo econômico, na qual há mudanças
profundas na estrutura econômicas e políticas de países em desenvolvimento. Na década de
noventa, a integração econômica e a globalização são os pontos fortes, a formação de blocos
econômicos, a integração monetária, o rompimento de barreiras políticas através do avanço da
tecnologia (RAS, 2009). Portanto, em decorrência da crise, o número de desempregados aumentou,
formando um exército de reserva, porém, com a posterior redemocratização, o associativismo e o
cooperativismo ganham forças, especialmente no sudoeste do Paraná onde os agricultores familiares
se mobilizam para se engajarem no processo de desenvolvimento da região. E nessa perspectiva a
Cooperativa de Crédito Rural Cresol foi a resposta da insistência destes agricultores.
4.0 AUTOGESTÃO E GESTÃO CONVENCIONAL
As organizações na perspectiva solidária são autogestionárias, ou seja, os sócios são os
trabalhadores e também participam das decisões da gestão da organização. A autogestão não é
entendida como um processo empresarial, mas, como um procedimento econômico-social, o qual os
cooperados, homens e mulheres, devem participar ativamente das decisões. Portanto, na gestão de
uma cooperativa de economia solidária efetivamente deve-se considerar a participação dos
trabalhadores, a transparência administrativa, as relações comunitárias, as atividades sociais e ainda
o quadro social dos envolvidos no empreendimento. Contrariando os dois fatores fundamentais da
empresa privada: a centralidade do processo decisório e a busca constante do lucro através da
competitividade no mercado. Tais fatores encontram referência nas teorias da administração.
Na situação de organizações empresarias em que trabalhadores e empregadores compõem o capital
acionário - a co-gestão -, estes não podem ter mais de 49% da participação acionária. No sistema de
autogestão, por sua vez, os trabalhadores detêm, no mínimo, 51% do capital acionário da
organização e ainda participam do processo decisório. Assim, as organizações solidárias, com os
trabalhadores participando da gestão, podem manter seus empregos e diminuir a diferença de
remuneração entre os trabalhadores (MANCE, 1999).
O processo de autogestão requer um processo democrático e as decisões devem ser tomadas
levando em conta todos os envolvidos, diferente da empresa privada. Nessa, os processos decisórios
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são centralizados e recebem influência de quatro fatores: dos proprietários, dos clientes, dos
funcionários e, ainda, dos fornecedores, visando manter-se competindo no mercado para obter lucro.
Tais fatores claramente distinguem uma organização com os moldes do sistema vigente de uma
cooperativa com perspectiva solidária.
Em uma sociedade mercantil há um interesse do proprietário nos resultados da organização, o lucro,
e não, necessariamente, naquilo que ela produz. Já em uma cooperativa o cooperado/proprietário
fortalece a organização com a capitalização necessária para ser beneficiado com os serviços
prestados por ela, é uma ação dupla, pois o proprietário também é o usuário dos serviços. Enquanto
em uma sociedade mercantil a relação dos três fatores, funcionários, clientes e fornecedores são
decididos pelo proprietário, em uma organização cooperativa o cooperado, que é proprietário e
usuário dos serviços da cooperativa, pode decidir o direcionamento que lhe interessa pertinentes aos
destinos da sociedade. Por esta razão que as organizações cooperativas são autogestionárias.
Da Administração Científica de Frederic W. Taylor (1856 - 1915) à Administração por Objetivos de
Peter Drucker (1909 - 2005) deu-se ênfase na produção, mesmo que nesta evolução alguns aspectos
humanos foram levantados, como na Teoria das Relações Humanas com Elton Mayo (1880 - 1949),
ou mesmo a Teoria Comportamental de Herbert Simon (1919 – 2001). No entanto, sempre estiveram
preocupadas com a gestão centralizada e com a melhoria na produção para atingir o objetivo maior
de aumentar a lucratividade da organização. Sendo este paradigma resultado do sistema de mercado
vigente.
A Teoria da Administração mostrou grande avanço desde seus primórdios. Uma abordagem que é
considerada um dos itens de grande importância para o perfeito funcionamento do tripé da
administração (competitividade, qualidade e produtividade) é a administração estratégica (OLIVEIRA,
1999). E aqui pode-se lembrar do conceito de estratégia de Bourdieu (1990), o qual define como
praticada por atores que dentro do “jogo social” estabelecem as estratégias que estão condicionadas,
mas devem estar abertas para inovações no contexto do jogo. As estratégias estabelecidas dentro da
administração podem condicionar o jogo e pressionar os atores sociais, muito embora estes tenham
suas escolhas e interpretações. Portanto, a administração estratégica embora preconize uma
administração
participativa,
as
decisões
tomadas
estrategicamente
permanecem
sob
a
responsabilidade de alguns apenas, pois, quando instituído metas e estas não são cumpridas os
tomadores de decisão devem reajustar ou corrigir esse desempenho ou as funções do processo
administrativo, garantindo o cumprimento dos planos e metas previamente estabelecidos.
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5.0 COOPERATIVA DE CRÉDITO RURAL CRESOL
A Cooperativa de Crédito Rural Cresol que faz parte da Associação Nacional do Cooperativismo de
Crédito da Economia Familiar e Solidária – ANCOSOL - nasceu para atender as necessidades dos
agricultores familiares da região Sudoeste do Paraná. Este espaço é o locus de uma estrutura
fundiária caracterizada pela pequena e média propriedade, onde 93% dos estabelecimentos possuem
menos de 50 hectares, os quais ocupam 58% da área e, ainda, 87% dos estabelecimentos rurais são
de agricultura familiar, segundo dados do INCRA de 2008. Os produtores da região dedicam-se ao
binômio soja/milho, à criação de suínos e aves, à produção leiteira e, mais recentemente é
introduzida a cultura do fumo. Aliada a uma importante produção para mercado a agricultura familiar
da região produz também para o auto-consumo. Parte desta produção é processada através das
cooperativas leiteiras, de suínos e aves ou cooperativas agrícolas (IPARDES apud LIONÇO, 2007).
A CRESOL é fruto da luta de agricultores familiares que se uniram com o objetivo de encontrar
alternativas para a parcela da agricultura familiar que foi excluída parcial ou totalmente do projeto de
modernização e de suas linhas de crédito. Como atores sociais buscam acessar o crédito solidário
para participar ativamente do processo de desenvolvimento local e regional em bases sustentáveis.
Na década de 80, foi estruturado um fundo de financiamento para a agricultura familiar – o Fundo de
Crédito Rotativo (FCR) com fins de financiar experiências alternativas da agricultura e dos
assentados da reforma agrária nas regiões Sudoeste e Centro-Oeste do Paraná. Fundo administrado
por entidades/movimentos pastorais, sindicais, organizações não governamentais, associativas e sem
terras, destas regiões. Desde então, sentiram a necessidade de uma instituição que atendesse as
necessidades de crédito rural aos produtores da região. Após discussões, em 1995/1996, foram
criadas as primeiras Cooperativas do sistema Cresol em vários municípios do sudoeste do Paraná e
em seguida uma base de serviços - Cresol Baser - que cinco anos depois, resultado do
desenvolvimento destas organizações e por orientação do Banco Central, tornou-se a cooperativa
central, com sede em Francisco Beltrão. Posteriormente, em 2004, conforme princípio de
descentralização e crescimento horizontal foi criada a segunda cooperativa central em Chapecó –
SC, a qual atende o Estado do Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina (CRESOL, 2008).
A Cooperativa de Credito Rural Cresol é uma organização popular e é constituída e administrada por
agricultores familiares. Sua diretoria é eleita por seus cooperados com estatuto e regimento próprio.
Neste sistema, os recursos captados não ficam centralizados na Cresol-Baser, como normalmente
ocorre nas cooperativas de crédito, mas ficam no município de origem do cooperado para melhor se
relacionar com o sistema bancário local. Deste modo, cada Cresol consegue maior articulação com
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as fontes de financiamento do município, evita a concentração de poder em uma instituição apenas
(BITTENCOURT, 2000) e permite uma maior aproximação com os cooperados.
O sistema Cresol funciona através de Cooperativas Singulares, Bases Regionais de Serviços e a
Cooperativa Central. A Cresol Baser - cooperativa central – reúne as Bases Regionais de Serviços e
as Cooperativas Singulares. O quadro social da cooperativa é composto exclusivamente por
agricultores familiares, que também são responsáveis pela administração das cooperativas
(CRESOL, 2009).
A estrutura da Cresol é, em tese, descentralizada justamente por articular pequenas cooperativas
municipais. Tal estratégia faz jus a legislação quando regula que a “área de admissão de associados
limitada às possibilidades de reunião, controle, operações e prestação de serviços” (artigo 4º da Lei
nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971).
O Sistema Cresol oferece diferentes produtos e serviços aos agricultores familiares, como: conta
corrente e talão de cheques, depósitos à vista e a prazo (valores em conta-corrente e aplicações dos
associados no chamado depósito cooperativo, semelhante à poupança convencional), seguros e
pagamentos de tarifas públicas e impostos. Há também, a disponibilidade de crédito com recursos
oficiais, como o Pronaf, e recursos próprios, financiando capital de giro, investimentos nas estruturas
produtivas, oportunidades de negócio, emergências de saúde e construção ou reforma da casa. Tais
financiamentos são concedidos para atividades produtivas na região. A taxa de juros cobrada nos
financiamentos leva em conta as condições do público da cooperativa, o que permite a mesma ter um
índice de inadimplência baixo, numa média de 2,8%, se comparado a média nacional de
inadimplência do Pronaf, por exemplo, que conforme dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA) é de 14%. Isso também pode ser reflexo da histórica caminhada do crédito da agricultura
familiar, que conforme dados do sistema, grande parte dos agricultores familiares, 85,2%, nunca
havia obtido o crédito antes de se associarem a uma cooperativa do Sistema Cresol, ou mesmo um
contato de depósito em uma agência bancária (49,8% não tinham conta corrente) (SCHRÖDER,
2005), ao contrário do que acontece agora, na vasta oferta de crédito ao agricultor.
Abaixo segue um quadro com informações gerais a respeito da evolução da organização nos últimos
três anos:
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Tabela 1: Indicadores da Cresol (2006, 2007 e 2008)
Fonte: Dados da Cresol/Paraná.
Nota-se que organização tem um crescimento bastante expressivo em todos os últimos anos,
considerando que iniciou suas atividades com 1.639 associados, distribuídos somente no Estado do
Paraná e que dois anos depois já estava ampliando seus serviços para o Rio Grande do Sul e Santa
Catarina. Esse pode ser resultado da fácil acessibilidade do agricultor ao sistema Cresol, já que este
sistema procura distribuir-se nos mais diversos municípios seja através de PACs ou de cooperativas
singulares.
Abaixo explanamos alguns dados relevantes da organização desde seu nascimento:
Ano
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
Associados
1.639
2.674
5.898
11.316
15.175
20.540
29.990
Cooperativas
5
7
15
28
31
46
71
PACs
-
-
-
-
-
-
-
Resultado Final
R$ 12.330
- R$ 38.950
R$ -78.349
R$ 37.830
R$ 69.250
R$ 282.298
R$ 451.286
Ano
2003
2004
2005
2006
2007
2008
Associados
42.375
50.450
34.340
41.040
50.885
62.474
Cooperativas
75
80
59
65
73
75
PACs
-
-
-
22
40
58
Resultado Final
R$ 543.000
R$ 1.682.000
R$ 1.280.450
R$ 3.112.348
R$ 3.385.000
R$ 3.802.000
Tabela 2: Indicadores de crescimento da Cresol
Fonte: Quadro elaborado a partir da pesquisa realizada.
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Vê-se o crescimento da Cresol nesses anos de existência. Destaca-se a evidente diferença que há
entre os anos de 2004 e 2005, nos quais houve uma diminuição dos números, a exemplo do número
de associados e de cooperativas, em que o primeiro terminou 2004 com 50.450 e 2005 com 34.340,
da mesma forma o segundo que terminou 2004 com 80 cooperativa e 2005 com 59. Esse biênio
justifica-se pois a Cresol Baser separou-se das cooperativas do estado de Santa Catarina. Desde
2003 foram desencadeada discussões para elaboração de um novo organograma do sistema
prevendo a criação de duas centrais. A necessidade desse novo organograma foi resultado da
expansão do sistema Cresol e do cumprimento do seu princípio de descentralização, como uma
forma de melhorar o acesso do associado a cooperativa. Portanto, essa nova estratégia seria
implantada a partir de 2006 ou 2007, porém, essa separação foi realizada em 2004, motivo que em
termos formais parece por questões geográficas. Mas houve alguns choques de idéias a respeito do
cooperativismo solidário, bem como seu processo de gestão, fato que resultou na separação
antecipada da Cresol Baser com a Central de Santa Catarina (BÚRIGO, 2006).
Nesse processo ficou claro que a separação da cooperativa ocorria por motivos geográficos e
diferenças ideológicas. Conforme Búrigo (2006) é evidente que um grupo, o qual formaria a nova
central, desejava manter laços mais estreito com a Fetraf – uma das correntes sindicais que articula
grupos de agricultores familiares que emergiram em oposição aos sindicatos “pelegos” e as
federações sindicais tradicionais do Sul. Por outro lado, estava um grupo que defendia que a
organização deveria preservar a autonomia com relação as correntes sindicais. Com essa divisão
então, as cooperativas do Rio Grande do Sul migraram para a nova central em Santa Catarina.
5.1 Autogestão e Sustentabilidade
Entende-se que a gestão de uma cooperativa deve integrar todos os cooperados, já que todos são
considerados donos da organização. Alguns resultados da pesquisa realizada fazem-nos concluir
sobre aspectos relevantes para este trabalho no que tange a autogestão da Cooperativa de Crédito
Cresol.
Desde a formação da Cresol esta preocupou-se com a integração dos agricultores familiares, trouxe
um modelo diferenciado de cooperativismo na visão brasileira. Portanto, para manter os valores que
fundaram a cooperativa, e depois de ocorrer alguns desentendimentos com gerentes contratados, a
cooperativa decidiu que a gestão do sistema seria realizada por agricultores cooperados. Motivo que
faz com que a organização invista em cursos de profissionalização, os quais serão abordados mais
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adiante. Desde então, agricultores cooperados administram a organização, os quais são eleitos em
assembléias ordinárias.
O Cooperativismo de natureza solidária não se difere legalmente do cooperativismo tradicional,
incluído as normas para realização das assembléias. Porém, a diferença está na prática desse
cooperativismo, em que o primeiro promove a participação e a prática de todos os valores e princípios
de natureza solidária, já o segundo mantém-se como uma empresa privada que goza dos benefícios
legais desse modelo de organização.
Legalmente, para se realizar uma assembléia, são necessárias no mínimo dez pessoas, motivo que
torna algumas cooperativas centralizadoras de decisões. Na Cooperativa de Crédito Cresol, conforme
dados da organização, mais de cinqüenta por cento participam das assembléias. Para garantir a
maior participação dos cooperados são feitas, uma vez por ano, antes da Assembléia ordinária, pré
assembléias que são realizadas pela central nas regionais, onde as cooperativas singulares se
encontram, e pelas cooperativas singulares nas comunidades. Nessas pré assembléias é
apresentado o balanço do exercício, discutidas as necessidades no nível de cooperativa singular e de
comunidade/cooperado, questões que depois de avaliadas podem ser levadas em discussão em
assembléia, conforme afirma o cooperado da Cresol:
na pré assembléia os associados já levantam os principais questionamentos daquilo
que a cooperativa tem e deve melhorar no atendimento, novas linhas de crédito que
tem que ser constituídas, criadas, né? (...) talvez surgiram novas demandas para o
crédito a partir das pré assembléias (entrevistado1).
Nas assembléias são tratadas questões como: prestação de contas do exercício, destinação das
sobras ou rateio das perdas, eleição dos componentes da administração e do conselho fiscal, fixação
de honorários da administração e do conselho fiscal. Esses assuntos cabem a assembléia ordinária e
de interesse social, a qual deve debater e decidir, por isso a importância da participação.
No que refere-se a destinação das sobras, conforme dados coletados na organização, na maioria das
vezes são incorporadas ao capital dos cooperados, conforme a quantidade de movimentação na
cooperativa. Portanto, a cooperativa sai ganhando, pois, quando ela busca recursos fora, tais
recursos são medidos na proporção de seu capital social, e o cooperado também passa a ganhar, já
que aumenta seu capital.
Quanto a eleição da administração e do conselho fiscal, a composição desses grupos é por membros
associados. No caso da administração o mandato nunca pode ser superior a quatro anos e do
conselho fiscal um ano. Quanto aos candidatos a assumirem tais responsabilidades, percebeu-se que
para galgar tais posições deve-se ter uma caminhada dentro da cooperativa. Conforme afirmação de
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um dos dirigentes, iniciar como agente comunitário de desenvolvimento e crédito – cooperados
representantes da cooperativa em sua comunidade, os quais têm reuniões mensais na cooperativa
para receberem informações e repassarem nas suas comunidades para os cooperados – pode ser
uma oportunidade de alcançar cargos maiores na cooperativa.
Os agentes de crédito (...) esses são os futuros conselheiro fiscais, administrativos da
cooperativa, então, eles já vão se destacando dentro do grupo é esses que a gente
vai trazendo pra dentro da cooperativa pra auxiliar na gestão. Uma das ferramenta
importante pra ser os futuros gestores, então eles já participam de cursos, então a
gente já vai nominando, né? Nós tamos tentando colocar gente nova assim, porque
geralmente as cooperativas, elas era administrada pelas pessoas que fundaram. Elas
queriam ter na mão ainda um pouco, hoje não, quer dizer, hoje é aberto um pouquinho
daí que a visão é um pouco diferente. (Entrevistado 3)
Quando questionado, um colaborador da Cresol, sobre o processo histórico de gestão da
cooperativa, este afirmou:
no início a gestão era feita por pessoas que já estavam há muito tempo no cargo, né?
Pessoas mais idosas que tavam na administração, então de maneira alguma
autorizavam isso (autonomia nas decisões – grifo meu), centralizavam, mas depois
que teve a mudança de presidente de gestor, de conselho, aí começou a ter uma nova
visão. Depois disso que começou a mudança, né? Aí começou a conhecer o quadro
de funcionário, aí foi melhorando. (entrevistado 5)
Diante de tais afirmações nota-se que a organização está em processo de democratização. Vê-se
que a instituição de agentes de crédito nas comunidades, que, conforme a organização, desde 2006
buscam fomentar discussões sobre o papel do crédito como instrumento para a construção de um
sistema de produção sustentável para as unidades familiares de produção e estão em constante
processo de capacitação, já é uma forma de promover a participação, já que o cooperado está
continuamente em contato com a cooperativa, e também de revelar novas potencialidades lideranças
para direção da organização. Além disso, preza-se para que os gestores da cooperativa residam no
município da sua atuação como dirigente, fato que diminuirá o risco de haver desvios financeiros e
aumentará a capacidade de relacionamento com o cliente.
Quando os diretores e funcionários foram questionados sobre a tomada de decisão na organização,
as respostas foram muito semelhantes, todos afirmaram que se sentiam autônomos na tomada de
decisão, porém, decisões no nível macro, naturalmente, são tomadas pelo conselho administrativo.
Esse é composto de modo a garantir a heterogeneidade na sua formação, portanto, preza-se para a
diversidade de comunidades representadas neste grupo. Não obstante, antes das questões serem
levadas ao executivo, passam por grupos de trabalho, os quais eles chamam de fóruns das mais
diversas especialidades, como por exemplo, fórum de contabilidade, de técnico, ou de gestores.
Depois de ser socializada a questão e optado pela melhor alternativa, que na perspectiva do fórum é
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a correta, então sim é submetido à executiva, e levado ao conselho administrativo. Conforme
afirmação de um dos funcionários responsável pelas assembléias.
Nós estamos muito presentes no sistema Cresol nessa questão de descentralização
das decisões, mesmo antes de ir pra executiva nós temos alguns grupos de trabalhos,
que nós chamamos de fórum, fórum da carteira, fórum dos contadores, fórum dos
técnicos, fórum dos gestores. Então dependendo do assunto, se for contabilidade, os
contadores informalmente debatem, se for carteiras os técnicos informalmente
debatem, remetem pra executiva, a executiva avalia e aí leva pro conselho e o
conselho é que toma a decisão né? (Entrevistado 7)
Conforme mostra a afirmação do funcionário, segundo ele a organização preza pela
descentralização das decisões, declaração que ele justifica sendo verdadeira através dos fóruns. Os
integrantes dos fóruns são funcionários da organização, os quais são contratados através de testes
seletivos. Um dos diretores da cooperativa afirmou que são evitadas contratações de pessoas com
grau de parentesco com a diretoria, conforme explicitado abaixo:
apresenta-se os currículos e a partir disso faz-se uma entrevista com a definição de
perfil e lógica a capacidade de preparo, habilidade pra, analisa o candidato pelo viés
mais de perfil, enquadramento ao trabalho, mas também, vê-se se ele está habituado
ou habilitado pra trabalhar com nosso tipo de público, ou seja, o agricultor familiar tem
uma característica importante, você pra conhecer a realidade dele, pra você conviver,
trabalhar, falar a mesma linguagem, então tudo isso é analisado na hora da gente
definir pela contratação. Então analisamos sobre dois aspectos: ele é feito através
de... de teste seletivos e geralmente temos muito cuidado de não contratar pessoas
que tenham um grau de parentesco muito próximo aos diretores. De preferência a
gente não contrata ninguém assim... a gente tem justamente pra evitar que, que, que
tenha esse vinculo muito próximo de relação, trabalho, família, essa coisa né? Mas
claro a gente tem muitos funcionários filhos de agricultores, isso ajuda muito (...).
(entrevistado 1)
Porém, afirma a necessidade de se ter funcionários que entendam a realidade do agricultor familiar,
conforme fala também dois funcionários da Cresol.
Ele (agricultor familiar – grifo meu) é diferente do foco de pessoas, ele gosta de ser
chamado, ser tratado com mais atenção, conversa bastante, então é tranqüilo a
relação, a gente vai falando a mesma linguagem dele. (entrevistado 6)
Uma coisa interessante é chegar alguém você nunca, nunca ir chegado e ir direto ao
que o cara precisa, né? Sempre perguntar: como é que você vai, aí quebra o gelo,
né? (entrevistado 5)
Por essa razão, algumas vezes é optado pela contratação de filhos de cooperados, dos quais se
espera que tenham maior facilidade de atendimento a esse público diferenciado. E nesse processo
de seleção, as bases regionais têm auxílio da central, já que é ela que lança os editais de abertura de
vagas.
A organização também promove cursos de qualificação para os colaboradores através da
Cooperativa Escola. Então, os colaboradores têm disciplinas por módulos, com temas a respeito de
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gestão do cooperativismo. Há também um curso de pós-graduação em Gestão do Cooperativismo
Solidário que é realizado em parceria com a Unioeste. Conforme afirma um dos dirigentes da Cresol,
a formação é algo que eles investem bastante:
É... outra coisa que a gente discute muito e fala muito é na formação para conhecer o
que é o sistema financeiro, como que, o que é uma resolução do banco central, é o
nosso gestor compete a ele que tem que tomar essa ou aquela medida, então, essa
sustentabilidade depende de ele conhecer o meio em que ele vive, ou seja, o que é o
sistema financeiro e qual a relação que nós temos (...). (entrevistado 1)
A Cresol tem o Instituto de Formação do Cooperativismo Solidário - Infocus, o qual promove os
cursos citados acima e há também capacitação para novos diretores e diretores de novas
cooperativas, formação para os agentes comunitários de desenvolvimento e crédito, e ainda, um
curso de capacitação profissional em gestão com ênfase no cooperativismo para diretores,
funcionários, associados e parceiros.
É de fato importante ressaltar a inter-relação, troca de informações, que há entre os três níveis do
sistema: Central, regionais e singulares. Quando os dirigentes e funcionários foram questionados
sobre a sua relação com a supervisão, todos afirmaram que era harmoniosa, porém, destaca-se a
fala do diretor de uma Base Regional:
nós não podemos chegar lá no município e falar: “oh nós temo que direcionar por esse
ou por aquele lado”. Ou quando acontece cooperativas com problema a gente tem,
nós não temo o poder de dizer assim pros diretores: “oh, nós temo que afastar esse
conselho por um período e tal”. A gente consegue fazer a orientação, a responsável, a
responsabilidade maior é da central. Quem tem poder perante as regionais ou as
singulares é a nossa central. (entrevistado 2)
Diante dessa fala, nota-se que a Base Regional fornece orientação as cooperativas singulares
quando estas se encontram em dificuldades, mas quando elas estão com problemas de resultados
financeiros, há uma interferência da Central na decisão de sobrevivência dessa cooperativa. Essa
parece ser uma estratégia eficiente, pois, a Base Regional que conhece a realidade daquela
cooperativa intervém com o propósito de ajudar a cooperativa singular, caso isso não seja possível há
então a interferência da Central.
Com relação ao exposto nota-se que há uma preocupação com o envolvimento de todos os
cooperados, desde o nível dos agentes comunitários até o conselho administrativo. Para que esse
envolvimento seja viabilizado há a formação do cooperado e do colaborador, para que assim possa
contribuir ainda mais com as decisões da organização. Esse é uma forma de organização que sem
dúvida põe em tensão o modelo convencional de gestão, e remete-se a acreditar na possibilidade de
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se ter uma organização que preze pela participação dos seus trabalhadores e também de seus
clientes – os cooperados.
Os cooperados não têm uma relação passiva com a organização, somente como beneficiado pelo
seu produto, que nesse caso é o crédito, mas como participante das decisões. Participante na medida
em que a organização se coloca perante o seu cliente, ou cooperado, não apenas como uma
trocadora de benefícios, já que o cliente é beneficiado porque recebe o crédito e a cooperativa porque
terá a devolução do dinheiro tributariamente corrigido, mas como auxiliadora para que os clientes
sejam atores de desenvolvimento.
Na percepção que se pode ter a partir da pesquisa entende-se que a cooperativa preza pelo
envolvimento de todos na gestão, e que para isso investe na educação dos cooperados. A fala de um
dos dirigentes e de um dos funcionários deu-se o entendimento que a cooperativa passa por um
processo de democratização, fato que não nos permite generalizar a situação em todo o sistema, já
que esses entrevistados referiram-se a uma cooperativa singular. Há uma relação muito estreita entre
os diferentes níveis da organização – Central, Bases Regionais e Cooperativas Singulares –
conforme os entrevistados mesmo citaram.
Lembrando dos princípios da autogestão tratados nesse trabalho, os quais contemplam um
procedimento participativo decisório que engloba aspectos econômico-social. Portanto, considera a
gestão participativa dos trabalhadores, a transparência administrativa, as relações comunitárias, as
atividades sociais. Nesta última pode-se destacar a realização da Copa Cresol, onde todos os
cooperados podem participar de um campeonato dos mais diversos esportes, e ainda as próprias préassembléias e assembléias, que muitas vezes são realizadas com almoços de confraternização.
Não há dúvida que a gestão apresentada nesse trabalho questiona o processo de gestão
convencional.
A
administração
da
cooperativa,
na
medida
em
que
é
feita
pelos
agricultores/cooperados beneficia, o cliente, que também é o cooperado, o gestor, que também é
cooperado, e ainda o fornecedor, que nesse caso capitaliza a organização com os produtos gerados
pelo cooperado. Portanto, os três fatores (funcionários, clientes e fornecedores) de uma organização
privada, na qual as decisões são centralizadas pelos gestores, são claramente questionados nesse
procedimento solidário. Em suma, observa-se que é possível gerir de forma conjunta, beneficiando
todos os envolvidos.
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Dentro da perspectiva de desenvolvimento em bases sustentáveis, o qual a Cooperativa de Crédito
Cresol afirma promover na região em que atua, algumas considerações foram realizadas a partir dos
dados e informações levantadas na pesquisa.
Na percepção dos dirigentes e colaboradores da Cresol sobre o que é a sustentabilidade e quais as
ações que a organização realiza para promoção desta, nota-se uma relativa diversidade de conceitos
que, conforme as dimensões da sustentabilidade consideradas nesse trabalho, alguns são
incompletos. Porém destaca-se que a maioria das falas concentrou-se na dimensão econômica,
afirmando a necessidade de manter a sustentabilidade econômica do agricultor e consequentemente
da cooperativa. A Cresol se propõe resgatar a percepção de agricultura familiar. Porém, as
circunstâncias econômicas de mercado pressionam para a adoção dos pacotes tecnológicos e coloca
limites para a viabilidade da organização. Uma das falas que pode ser ilustrativas nesse processo é
do entrevistado 2 que, quando questionado sobre seu entendimento da sustentabilidade, respondeu:
(..) quando a gente iniciou a cooperativa a gente tinha uma facilidade um pouco maior
de ter sobra, e hoje a gente sabe que cada vez mais aumenta, diminui a receita, então
a sustentabilidade enquanto cooperativa, e além de competir, é ruim usar dessa forma
né? mas é dessa forma na verdade né? hoje existe oferta de recursos em qualquer
esquina né? então a gente tem que estar sempre apresentando outros produtos né?
inovação, a gente sabe que a linha do Pronaf hoje não é mais viável para as nossas
cooperativas. (...) tem algumas linhas de crédito com número diferenciado, por
exemplo, as pessoas que querem fazer uma nova atividade ou uma diversificação lá
na propriedade, para quem vai trabalhar o agroecológico, a gente tem linhas
diferenciadas para isso né? Então a gente tem que manter os tradicionais, porque se
nós não fizermos isso para o nosso associado ele sai e vai para outra agencia. Mas a
gente apresenta outras alternativas, a gente faz o diferencial. (entrevistado 2)
Sob a percepção desse entrevistado não há como uma cooperativa que se propõe financiar somente
projetos que tenham cunho ambientalmente responsável sobreviver. E de fato, não há possibilidade,
por isso que se apresentam alternativas, sejam elas de cunho sociais, como seguros, habitação.
Porém, aquelas propostas que se referem às múltiplas dimensões da sustentabilidade, como é o caso
dos “agroecológicos”, aparecem como secundárias no depoimento acima, inclusive como uma das
dificuldades para competir no mercado. . Justifica ele dizendo que a organização tem que se manter
competitiva, e essa afirmação pode ser entendida como a posição da cooperativa frente ao mercado
no qual ela está inserida.
nós temos uma visão, uma leitura de que no cooperativismo não precisam e não
devem acumular grande sobras, quando eu to acumulando muita sobra é porque eu to
tirando do meu cooperado que é dono, então não tem porque eu acumular, é claro
que eu não posso ter prejuízo, então manter esse equilíbrio é essencial, eu diria em
todo o cooperativismo, mas no cooperativismo solidário é muito mais. (Entrevistado 1)
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Pelo que se observou entende-se que a cooperativa não se preocupa apenas com a lucratividade, até
porque, conforme afirma um dos entrevistados, seria até um fator de desconfiança para o cooperado
na medida em que se questionaria onde estaria sendo aplicados os recursos. Porém, ela preocupa-se
sim com a sobrevivência, é por essa razão que se pode chegar a uma consideração: a Cresol discute
as questões da sustentabilidade da agricultura familiar, e fornece ao agricultor subsídios para a
efetuação da mesma, no entanto, o agricultor está em busca de outras alternativas,
consequentemente, a cooperativa deve submeter-se a demanda desse agricultor, e indiretamente ao
sistema de mercado, caso contrário ela não sobreviverá.
A organização desde sua fundação preocupou-se com a inclusão dos agricultores familiares, que
parcialmente foram excluídos do crédito oriundo da modernização do campo brasileiro, no entanto,
não consegue fazer frente ao modelo convencional de agricultura seja porque pode perder
cooperados, ou porque não consegue fazer frente ao modelo dominante de mercado. Isso remete a
reflexão sobre as possibilidades de promoção de um desenvolvimento equitativo e sustentável na
região.
A preocupação com a inclusão social se reflete na concessão de crédito que faz com que a
cooperativa diferencie-se das outras instituições financeiras, pois ela concede crédito a arrendatários,
posseiros e para assentados da reforma agrária, mesmo, conforme afirma um dos entrevistados, sem
ter garantia real da devolução do financiamento. Diz ele que são feitos avais solidários, ou seja,
quando financiado a um, o vizinho deste financiador, também pode desfrutar desse benefício. Então,
com essa estratégia mais pessoas têm acesso ao crédito, e como outras pessoas podem se
beneficiar, essa liberação de crédito torna-se auto fiscalizadora, já que os beneficiados podem
fiscalizar.
Dentro dessa perspectiva também se pode considerar os cursos promovidos pela Cresol para o
agricultor. Com o Infocus há o desenvolvimento de atividades de formação para os associados,
colaboradores e diretores da Cresol, incluindo a pós-graduação para diretores e funcionários, curso
para agentes de desenvolvimento e crédito, curso de iniciação profissional de gestão com ênfase em
cooperativismo. A cooperativa realizou um curso sobre produção em parceria com a Universidade
Federal do Paraná para os agricultores, o qual possibilitou o agricultor aprender sobre modelo de
produção sustentável, discutir em sala e aplicar na propriedade dele. Portanto, mais uma vez através
dessas ações percebe-se a responsabilidade da cooperativa com o desenvolvimento, com os
agricultores, para que esses não só recebam o crédito, mas saibam como e onde aplicá-lo.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na percepção que se pode ter com os dados e informações apresentados neste trabalho, a gestão da
Cresol – Cooperativa de Crédito Rural com Interação Solidária – busca a integração de todos os
agentes envolvidos nas suas atividades, sejam eles cooperados ou colaboradores. E esse modelo de
gestão pode ser uma das contribuições para o vasto crescimento da cooperativa, já que o
envolvimento das pessoas nos processos de gestão pode motivá-las para desempenharem suas
funções com mais entusiasmo, e portanto, irão influenciar outros, colaboradores ou cooperados, a se
tornar parte da cooperativa, confirmando a TRH de Mayo, quando trata a influência como um
fenômeno social, o qual ocorre em grupos sociais, influenciando tais grupos a desempenharem seu
trabalho de forma a atingir um determinado objetivo.
Nota-se que a Cresol faz um trabalho intenso para a integração do agricultor familiar no processo de
desenvolvimento, seja através de cursos ou da participação nas atividades da cooperativa, seja
através da concessão de crédito. Quando se fala em sustentabilidade, observa-se que a inclusão
social e a luta pelo desenvolvimento equitativo está presente, mesmo com destaque na questão
econômica. Muito embora o produto da organização seja o crédito, há uma preocupação por parte da
cooperativa para que os agricultores consigam se sustentar, sem depender fortemente de
financiamento. A questão ambiental é debatida na cooperativa e entre os cooperados, embora se
perceba que a concessão de crédito para novos financiamentos não consegue garantir que sejam
ambientalmente sustentáveis.
A Cresol preocupa-se que o agricultor familiar mantenha sua cultura, e que não seja submetido
apenas a competição no mercado, por isso, investe na discussão sobre a agricultura de autoconsumo e no estímulo a atividades tradicionais. Há, também, uma preocupação com o
desenvolvimento praticado na região, pois a cooperativa discute alternativas para os problemas
encontrados no contexto do modelo hegemônico e estimula estratégias ambientais, produtivas e
técnicas sustentáveis. No entanto, algumas alternativas levantadas como sustentáveis não têm o
êxito de procura como esperado pela cooperativa, pois, como se pode ver, há uma forte competição
no mercado, incluindo o de crédito, que coloca pressões para a sobrevivência da organização, o que
acaba dificultando as opções alternativas a esse modelo.
Por fim, a Cresol confirma a afirmação de Singer (2004) quanto ao desenvolvimento solidário e
capitalista, asseverando que tais modelos apóiam-se nos mesmos avanços do conhecimento e sua
aplicação aos empreendimentos humanos, no entanto, a diferença está em seus propósitos: o
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primeiro sustenta-se em um desenvolvimento justo e equitativo; já o segundo, apóia-se na
propriedade privada do capital, excluindo grande parte do povo trabalhador. Entendeu-se que essa
proposta, ainda não pode ser considerada como um modelo de superação do modelo capitalista,
conforme afirmavam alguns teóricos do século XIX; no entanto, é uma reação de pessoas que foram
excluídas em parte ou totalmente do sistema hegemônico. Conforme a afirmação desse mesmo
autor, essa proposta não precede o capitalismo, mas o acompanha em toda a sua evolução como
uma sombra.
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