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SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO DO VALE DO IPOJUCA LTDA
FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA – FAVIP
COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA
CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
E DOS COMPLEXOS FAMILIARES
NA CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
BETANIA BARBOSA COSTA
MARIA JOSÉ QUIXABEIRA MACIEL
CARUARU
2011
III
BETANIA BARBOSA COSTA
MARIA JOSÉ QUIXABEIRA MACIEL
A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
E DOS COMPLEXOS FAMILIARES
NA CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
à Faculdade do Vale do Ipojuca – FAVIP,
como exigência final para obtenção do título
de Graduação em Psicologia sob a orientação
da Prof.ª Esp. Anna Carvalheira Chaves
CARUARU
2011
IV
Catalogação na fonte Biblioteca da Faculdade do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE
C837i
Costa, Betania Barbosa.
A importância do brincar e dos complexos familiares na
constituição do sujeito / Betania Barbosa Costa e Maria José
Quixabeira Maciel. -- Caruaru : FAVIP, 2010.
38 f.
Orientador(a) : Anna Cavalheira Chaves.
Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade do
Vale do Ipojuca.
1. O brincar. 2. Desenvolvimento psíquico infantil. 3. Formação
psicológica da criança. I. Maciel, Maria José Quixabeira Maciel. II.
Título.
CDU 159.9[11.2]
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367
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A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
E DOS COMPLEXOS FAMILIARES
NA CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado á Faculdade do Vale do
Ipojuca, como requisito final para a obtenção do titulo de Graduação no Curso de
Psicologia, sob os critérios da seguinte Banca Examinadora:
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________
Profª Anna Carvalheira Chaves
Orientadora
_____________________________________
Profª Jane Palmeira
______________________________________
Profª Getúlio Amaral Júnior
Aprovado em 22/06/2011.
CONCEITO FINAL: ________
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DEDICATÓRIA
Esse trabalho é dedicado a minha família.
Aos meus maravilhosos pais, Luiz Costa e Severina.
Aos meus adoráveis irmãos, Noeme, Daniel, Risía, Berenice e Mizia.
Ao meu amoroso esposo José Luiz.
Ao meu fantástico filho Luiz Benício.
Betania Barbosa Costa
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DEDICATÓRIA
Este trabalho é dedicado especialmente ao meu marido Roberval Maciel, por me
ter proporcionado, do melhor modo possível, as condições necessárias para que este
sonho fosse realizado. Juntos compartilhamos as inúmeras alegrias dessa realização. Eu o
amo muito e por ele me sinto amada, o que me torna muito feliz.
Casados há dezoito anos, juntos constituímos a nossa família, a quem também
dedico este trabalho, que são meus grandes amores, Lorenna Emanuelle e Roberval
Quixabeira. A eles dedico todo esforço da minha vida, AMO VOCÊS!
Maria José Q. Alves Maciel
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AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus por ser doador de minha vida, permitindo a
minha chegada ao mundo, sempre me cobrindo de sabedoria, saúde, muita
felicidade e disposição para correr em busca dos meus objetivos e sonhos.
Ao meu pai Luiz Costa, pela educação, paciência, amor e carinho que sempre
foi dedicado a mim ao longo desses anos vividos, sendo sempre muito presente me
orientando e me apoiando de maneira maravilhosa. Obrigado Painho!
A minha mãe e rainha do lar Severina, por ser minha fortaleza e apoio,
responsável direta na formação do meu caráter, mesmo sem ter conhecimento
científico me incentivou a nunca desistir, sempre acreditando em mim. Obrigado
mainha!
Ao meu esposo José Luiz, por ser compreensivo, amoroso, companheiro fiel
de todas as batalhas, me cobrindo as faltas onde não foi possível estar presente,
sorrimos e choramos juntos. Muitos foram os momentos vividos. Obrigado por
acreditar e investir em mim e sempre me incentivar, essa conquista é NOSSA.
Ao meu amado filho Luiz Benício, presente de Deus para encher meus dias
de muita alegria, você foi companheiro fiel em todas as aulas durante nove meses.
Você é o motivo da minha incansável busca pelo melhor. Pois é isso que você
merece o melhor de mim. Te amo!
A minha amiga e companheira de TCC, Maria José, por sua compreensão,
sabedoria e companheirismo. Juntas formamos uma dupla infalível. Difíceis foram os
momentos, mas, podemos dizer: até aqui nos ajudou o Senhor e por isso estamos
alegres. Obrigado amiga!
A minha professora do ABC e irmã, Noeme, que com dedicação me conduziu
ao mágico mundo das letras, o que antes eram apenas coisas sem sentido, através
de você foi possível juntar e dar forma, sentido e sentimento as palavras. Obrigado
Minha, você foi, é, e sempre será importante na minha vida.
A minha competentíssima orientadora, Ana Cavalheira Chaves, pelos
ensinamentos, orientações, critica e conselhos. Através de sua dedicação foi
possível a conclusão desse trabalho.
O Corpo Docente da FAVIP. Em especial o Professor Getulio Amaral Junior,
pelas maravilhosas aulas de supervisão, jamais será esquecido o que aprendemos,
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obrigado por não medir esforços para passar seus conhecimentos. Você nos encheu
de sabedoria.
A todos os meus colegas, que juntos comigo embarcaram nessa viagem com
destino tão desconhecido. Em especial ao amigo Carlos Silva que com sua
sabedoria, dedicação e paciência, nos auxiliou em todos os momentos difíceis. Para
todos a viagem teve tempo traçado e determinado de maneira subjetiva, diversos
foram os motivos das desistências, mas gostaria de destacar a morte que de forma
lamentável levou para distante de nós pessoas tão queridas nos deixando o
sentimento de eterna saudade.
Para os que concluíram a viagem descendo no ponto final, parabéns! Que
possamos viver intensamente cada momento com muita paz e esperança, pois a
vida é uma dádiva e cada instante é uma benção de Deus e que possamos cumprir
nossa parte como psicólogos que somos no sentido de caminhar juntos por um
mundo melhor. Valeu! Foi muito bom!
Betania Barbosa Costa
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AGRADECIMENTOS
Agradeço inicialmente ao bondoso e maravilhoso Deus que proporcionou
essa grande conquista em minha vida.
Aos meus amados pais, Manoel Alves e Maria José Quixabeira exemplo de
pais, amor e dedicação aos filhos.
A minha amada família de origem, e a amada família que gerei, minha maior
herança, minhas perolas preciosas!
A minha amiga e companheira de TCC Betania Costa, que juntas trabalhamos
para superar as dificuldades encontradas na concretização deste trabalho.
Ao meu grande colega e amigo de turma Carlos, por ter me ajudado com sua
presteza seus saberes e dedicação nos momentos difíceis.
Meu agradecimento a cada um dos professores, sem os quais não teria me
tornado Psicóloga. Contudo, meu agradecimento especial é reservado a minha
orientadora Anna Carvalheira Chaves, por me ajudar na construção do presente
trabalho, pela paciência, apoio atenção e dedicação que recebi durante este
tempo.
Aos professores com quem tanto aprendi ao longo da minha graduação. Em
especial ao professor Getúlio Amaral Junior. Seus ensinamentos nunca serão
esquecidos, eles estarão sempre presente.
Maria José Q. Alves Maciel
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EPÍGRAFE
"Para realizar grandes conquistas, devemos não apenas agir, mas também sonhar;
não apenas planejar, mas também acreditar.”
(Anatole France)
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RESUMO
Este estudo tem como objetivo principal trazer à luz a análise dos fatores que
envolvem o brincar e os complexos familiares sob a ótica das diversas teorias
psicológicas que tratam do assunto e a sua importância na formação psicológica da
criança. Este trabalho, portanto, foi desenvolvido por meio do método de revisão
bibliográfica, e traz em si a abordagem exploratória e retrospectiva acerca da
literatura sobre o tema aqui abordado, e publicada e/ou disponibilizada nos últimos
cinco anos. Deste modo, o presente trabalho teve como elementos de investigação
artigos científicos indexados e disponibilizados nos sites acadêmicos de pesquisas,
bem como em livros, manuais e trabalhos científicos. Sua relevância em sendo uma
revista literária, contudo, se evidencia pelo fato de analisar as diversas teorias
acerca da seriedade que se é brincar no que diz respeito aos desdobramentos
futuros que isso incorre ao pequeno ser brincante. Conclui-se, desta maneira,
mediante a pesquisa feita, que todo o aprendizado infantil e a eficiente preparação
do sujeito para a interação social perpassam, natural e necessariamente, pelo
brincar na sua época apropriada.
Palavras-chave: o Brincar. O Desenvolvimento Psíquico Infantil. Formação
Psicológica da Criança.
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ABSTRACT
This study has as main objective to bring to light the analysis of factors involving the
play and the complex family from the perspective of the various psychological
theories that deal with the subject and its importance in the psychological training of
the child. This work, therefore, was developed through the method of literature
review, and brings itself to exploratory approach and retrospective about literature on
the topic here approached, and published and/or made available over the past five
years. Thus, the present work had as elements of research scientific articles indexed
and made available on the websites of academic research, as well as books,
manuals, and scientific works. Its relevance in being a literary magazine, however, is
evidenced by the fact that analyze the various theories about the seriousness that if
you play as regards future developments that it incurs the small be cheerful cortege.
It is concluded, this way, through research, that all children's learning and the
efficient preparation of the subject to permeate social interaction and natural,
necessarily, by playing in its proper time.
Key words: the playground. Children's Physical Development. Psychological
training of the child.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 14
CAPITULO I: A IMPORTANCIA DO BRINCAR..........................................................17
CAPITULO II: COMPLEXOS FAMILIARES.............................................................. 26
CONCLUSÃO............................................................................................................ 35
REFERENCIAS........................................................................................................ 36
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1 INTRODUÇÃO
Busca-se, no presente trabalho, a compreensão do brincar enquanto
símbolo, uma vez que representa externamente algo que é puramente abstrato,
substituindo a intenção pela prática que se realiza.
Julga-se, portanto, tais conhecimentos como algo, ao menos, desejável para
aqueles que se debruçam sobre o entendimento das relações humanas em família
desde as suas primeiras vivencias, principalmente dentro do enfoque psicanalítico
de observação.
Este trabalho será dividido em três tópicos: o primeiro fala da importância do
brincar, e de um sujeito marcado pelo inconsciente e sua linguagem simbólica, tendo
como base referencial os conceitos e teorias formulados por diversos autores tais
como Sigmund Freud; Donald Winnicott; Françoise Dolto; Jaqueline C. Moreira;
Gisele M. Schwartz; Maria Luisa S. B. Salzberg; Serge Lebovici; René Diatikne;
Maria J. Porto Bugni; Elza Vera P. Susemihl; Audrey Setton L. de Souza; Adela S.
de Gueller e outros, todos oferecendo um olhar psicanalítico acerca do brincar.
O segundo tópico aborda os complexos familiares, buscando compreender a
interação do sujeito enquanto inserido no seu primeiro grupo social. Para tanto se
busca fazer uma leitura interpretativa de Jacques Lacan.
A relevância deste trabalho justifica-se em virtude de oferecer melhor
compreensão dos complexos familiares, a partir da idéia de que o brincar é um
símbolo que representa a constituição subjetiva do sujeito. Nessa simbolização das
primeiras relações objetais, o brincar é depositário de intenso significado e valor à
inscrição psíquica do ser, visto que lhe confere, juntamente com os complexos
familiares, a “significação inconsciente das produções psíquicas” (GUELLER;
SOUZA, 2008).
Um claro exemplo disso é um cabo de vassoura que, tomado por uma
criança, passa a ser um cavalinho no qual se faz longas viagens e por meio do qual
se pode chegar a tantos destinos. Nesse caso, a criança elabora psiquicamente a
criação não só de um novo objeto, conferindo-lhe o valor que queira, mas, concebe
também a história que deseja representar e pela qual se realiza.
Para Pitliuk (apud Gueller; Souza, 2008), o brincar constitui-se uma via, tal
como o sonho, por intermédio da qual, “tudo – literalmente tudo – pode se
transformar em outra coisa”, podendo ter diversas utilidades e variadas formas,
16
superando os limites constitutivos de originalidade dos objetos utilizados na forma
impar de exercício do sujeito que brinca.
É neste sentido, de ter a brincadeira uma dimensão de algo “em si” e capaz
de não apenas compor o trabalho terapêutico do psicanalista, mas, ser o próprio
brincar “terapêutico em si mesmo”, que Winnicott formula os seus principais
conceitos e pensamentos.
O objetivo deste trabalho é verificar a importância do brincar infantil e a
importância dos complexos familiares na formação identitária do sujeito, dentro da
perspectiva do olhar psicanalítico. Por ocasião deste estudo, portanto, se traz à
discussão o conhecimento acerca das mais recorrentes teorias relacionadas ao
brincar e às primeiras relações humanas de objetos, cujas marcas psíquicas se
tornam permanentes no ser que as vivenciam desde os primórdios de suas
existências.
O brincar, portanto, bem como os complexos familiares, tem importância
fundamental à formação psíquica do sujeito. Procura-se, então, neste estudo uma
melhor compreensão da temática proposta por meio de uma revisão da literatura,
17
Capitulo 1
A IMPORTANCIA DO BRINCAR
18
1 A IMPORTANCIA DO BRINCAR
A brincadeira, forma vivaz de atuação da criança nos seus primeiros
momentos, é caracterizada não somente pelo prazer, alegria e motivação, mas,
também pelos conflitos, situações angustiantes e relações interpessoais complexas,
como afirmado por Moreira; Schwartz, (2009); contendo em si não apenas as
fantasias e os desejos do ser que brinca, mas, circunstancias de perdas, frustrações
e toda a gama de angustia daí advindas, bem como a possibilidade de ganhos e
recompensas. Tal emaranhado próprio da brincadeira infantil envolve questões
vinculadas a angustia.
A criança, na sua tenra idade, encontra-se em pleno crescimento em todos
os aspectos da sua vida. Desde o perceptível aspecto biofisiológico, até a sua
constituição psíquica Neste sentido, o brincar pode desempenhar um papel
importante quanto ao crescimento da criança; tanto no que diz respeito ao seu
desenvolvimento biológico, como, também, no seu crescimento como sujeito
psíquico.
Acerca deste assunto Winnicott (1975) afirma que: “o brincar facilita o
crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais”.
Ora, o conceito winnicottiano da facilitação ao crescimento e à saúde produzidos
pelo brincar pertence ao campo daquilo que no ser é físico, enquanto que o seu
crescimento metafísico é representado pela sua capacidade de interação com os
relacionamentos grupais.
Visto deste modo, o brincar passa a ser uma experiência transicional na
constituição da subjetividade e, por inferência, no processo psicanalítico da clinica
infantil.
A transicionalidade acima dita, segundo Winnicott (1971), refere-se a “falha”
da mãe “suficientemente boa” em apresentar ao bebê o “principio de realidade”, uma
vez que o estado de fusão entre ambos, “constituindo uma unidade”, é agora
frustrado, ferindo a experiência onipotente do filho, em cuja identificação primária
(Freud, 1920), é aquele que “cria o mundo” e se sente “Deus” (OUTEIRAL, 2010).
Ora, esta privação da ilusória fusão mãe-filho, uma des-fusão, portanto, é
que vem a criar
Um espaço transicional, espaço paradoxal, superposição dos espaços da
mãe e do bebê, terceiro espaço, espaço potencial, espaço de criatividade,
espaço de amorfia, espaço das primeiras experiências não eu. Ainda não há
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uma percepção de um outro, apenas de um não eu [...]. Este é o espaço
dos objetos e dos fenômenos transicionais (OUTEIRAL, 2010 : 44).
Ao afirmar a superposição dos espaços da mãe e do filho, ou seja, a
existência sobreposta desses dois personagens, Winnicott fala de uma área
intermediária (espaço potencial) entre os dois na qual cada um dos envolvidos tem a
sua própria percepção dos objetos. Deste modo, segundo Outeiral (2010 : 44), o
fenômeno transicional ocorre em virtude de existirem “os objetos subjetivamente
concebidos e os objetos objetivamente percebidos”.
Logo, ao exercer e utilizar-se da brincadeira, como uma maneira individual
ou coletiva aquele que brinca disponibiliza-se efetivamente de concepções
propriamente suas, subjetivas, que lhe foram introjetadas a partir de sua própria
experiência transicional; bem como de percepções objetivas do real, aquilo que
vindo de um outro lhe é apresentado em um jogo de recíproca interação.
O exemplo do cabo de vassoura que se transforma em um cavalinho, ou de
qualquer outro objeto que se transforme em algo diferente do que originalmente se
concebe é aqui também oportuno citar, em vista de que perdendo a sua
originalidade, passa a representar aquilo que a produção psíquica da criança venha
a conceber. O brincar, portanto tem uma potencialidade simbolizante (WINNICOTT,
1975).
Posto que, os estudos winnicottianos até agora explorados apontam para
constituição psíquica do ser, uma vez que para Winnicott o brincar é algo terapêutico
em si mesmo, como dito anteriormente, Desta maneira, remete-se aqueles que pelo
brincar se interessam, ao conceito lacaniano de poder-se reescrever a história do
sujeito (LACAN, 1986).
Para Lacan este processo de o sujeito reescrever a sua própria história não
tem como essência aquilo que foi revivido em análise, mas, refere-se à reconstrução
no presente do passado, posto que “a história é apenas uma síntese presente do
passado”, segundo Lacan (1896 apud BATISTA, 2010).
Neste ponto, a questão que se coloca é se o brincar se presta ao serviço da
inscrição constitutiva do sujeito e/ou se, em havendo faltas constitucionais, se o
brincar possibilita a reescrita da história subjetiva do ser, tendo, neste caso, a clara
natureza de um brincar terapêutico.
Em seu processo constitutivo o sujeito é visto pela psicanálise enquanto
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Atravessado pelo inconsciente e, por isto mesmo, impossibilitado de se
reconhecer e de reconhecer o outro, já que é fragmentado, esfacelado,
emergido apenas pontualmente pela linguagem, lá onde se percebem
lapsos, atos falhos (CORACINI, 1995 apud STÜBE NETTO, 2007 : 130).
Uma vez que a atividade lúdica não se restrinja somente ao campo
mecânico e físico, como afirmado anteriormente, há de se convir que o brincar tenha
atuação decisiva no aparelho psíquico e seja uma forma de expressão de complexos
inconscientes. No que diz respeito ao inconsciente. é importante citar o capitulo VII
de “A Interpretação dos Sonhos” de 1900.
Neste texto Freud ressalta a importância dos sonhos. Na interpretação
psicanalítica feita pelo próprio pai da psicanálise, estes são “a estrada real que
conduz ao inconsciente” (FREUD, 1900, 1920). As manifestações oníricas, então,
têm como essência a realização de um desejo infantil recalcado e é produzido pelo
inconsciente de forma sempre intencional à sua realização, ainda que de forma
dissimulada, (FREUD, 1900, 1920)
A linguagem simbólica dos sonhos oculta desejos não aceitáveis para o
consciente, por isso, são derivados de desejos recalcados. O deslocamento dos
sonhos, Segundo Freud (1900, 1920), refere-se à obra da censura por meio da qual
elementos constituintes do sonho são substituídos por um dos seus fragmentos,
numa transferência de idéias completamente diferentes da apresentada.
Já na condensação as idéias são semelhantes e tem pontos em comum,
estabelecendo relação latente de conteúdos e manifestações comuns de imagens.
Neste ponto, é oportuno reportar ao “inconsciente freudiano e o nosso”,
como afirmado por Lacan no Seminário XI (LACAN, 1990). O inconsciente não é
somente o que não é consciente, ou seja, aquilo que se encontra à parte da
consciência. “O inconsciente não é perder a memória; é não se lembrar do que se
sabe” (LACAN, 2001, destaque do autor). E é por meio desta clivagem que o sujeito
é barrado e introduzido no registro da falta, promovendo a inauguração no campo da
linguagem; esta entidade simbólica que determina o sujeito enquanto o aliena do
seu objeto.
É deste modo que Lacan fala do “retorno do recalcado” (LACAN, 1975), ou
seja, acerca do processo de repetição dos conteúdos recalcados em um
inconsciente sabedor. O inconsciente é, portanto, um insciente ciente.
21
Convém salientar que a clivagem acima referida, de acordo com Mello;
Herzog (2009), diz respeito a:
Uma das principais conseqüências da vivência de uma “dor sem conteúdo
de representação” (FERENCZI, 1990 :.64). Trata-se de um mecanismo pelo
qual o indivíduo opera um corte na própria subjetividade, cujo intuito é
apartar a vivência traumática e conter uma dor insuportável. Ocorre,
portanto, um dilaceramento da vida subjetiva, uma espécie de sacrifício de
uma parte de si em prol da sobrevivência do eu, tal como explicitado por
Ferenczi (1926/1990 : 64) [...] Esse processo se refere à artimanha que
alguns seres vivos elementares possuem de subtrair partes do corpo, fonte
de desprazer ou ferimento, para permitir a salvaguarda do conjunto. Nesse
sentido, sob a ameaça de colapso do psiquismo e sem esperança de
respostas abonadoras, o sujeito se decompõe e, nessa medida, “divide-se
num ser psíquico de puro saber que observa os eventos a partir de fora, e
num corpo insensível” (FERENCZI, 1990 : 142). Instaura-se uma
dissociação entre um eu que tudo sabe e nada sente e um eu que sente e
nada sabe, ou ainda, uma cisão entre o afeto e a objetividade do mundo. É
importante realçar que estas partes cindidas do eu coexistem, mas não se
reconhecem e/ou se comunicam. Desse modo, uma nova organização da
subjetividade é formada a partir destes fragmentos. Nas palavras de
Ferenczi (1931/1992, p. 78 apud MELLO; HERZOG, 2009)
Diante do exposto, é facilmente notável que todo o processo de clivagem
simplesmente exprime “a própria medida da falha nas relações com os objetos”.
Falha esta, a priori, fundamentada em uma vivencia traumática, cujo “sofrimento não
desaparece misteriosamente da subjetividade, tornando-se apenas incomunicável
com o restante, ou melhor, clivado. Segundo Ferenczi” (1990).
Não obstante Ferenczi (1873-1933), apesar de discípulo de Freud seja
considerado de abordagem fenomenológica, seu conceito de clivagem é
grandemente pertinente à altura do grande psicanalista que foi, mesmo sabendo-se
que:
Não se trata da mesma clivagem evocada por Freud em 1937, a cisão de
um eu divididas entre duas cadeias representativas independentes e
opostas, uma capaz de acatar a realidade e outra que a nega radicalmente.
Aqui a clivagem se refere a modos de funcionamento subjetivo, um
simbolizado e outro não simbolizável (MELLO; HERZOG, 2009).
Ora, a terminologia Clivagem, como acima discutida, tem sua utilização em
várias possibilidades psicológicas, principalmente em psicanálise, posto que o
sujeito psicanalítico é um sujeito de falta.
Os importantes processos acima descritos não são, portanto, aleatórios ao
sujeito, fugindo-lhe á centralidade do ser, ou estando alienados a ele. São elementos
componentes da linguagem, uma vez que, segundo Coracinii, (1995 apud STÜBE
NETTO, 2007 : 131):
O sujeito emerge apenas na linguagem, precisamos considerar que a
linguagem é uma ordem simbólica, na qual as representações, os valores e
22
as práticas sociais encontram seus fundamentos. Ela é entendida como
efeito de sentidos entre locutores, imbricando conflitos, reconhecimentos,
relações de poder e constituição de identidades. Nessa direção, o sujeito
não tem o controle sobre a produção de sentidos: ele mobiliza um repetível
e o reatualiza em seu discurso (ressignificando-o).
A enfática expressão da citação acima de que “o sujeito emerge apenas na
linguagem”,
é
compartilhada
pelos
teóricos
norteados
pelo
pensamento
psicanalítico. O próprio Freud afirma em A Interpretação dos Sonhos (FREUD,
1987), que o inconsciente é uma linguagem.
Também para Lacan (1957-1958) “o inconsciente é estruturado como
linguagem”, uma vez que para além dos ditos, há um dizer que não é dito e que por
não se dizer se reveste de fantasia, em um modus operandi de exaustivo
cerceamento, relativo ao saber que não se sabe. É precisamente ai que a fantasia
se torna preponderante, desempenhando importante papel por meio da linguagem.
Françoise Dolto (1908-1988), uma das principais teóricas da psicanálise,
contemporânea e do circulo de amizade e de teorizações de Jacques Lacan (19011981), por exemplo, é especialmente conhecida pelo seu talento quanto à escuta
psicanalítica infantil. Seu trabalho mais divulgado, e pelo qual é quase sempre
referida é Tudo é Linguagem (DOLTO, 1999, destaque nosso). A respeito da
ligação indissociável que há entre linguagem e psicanálise, Dolto afirma que:
A psicanálise é e continua a ser o ponto de impacto de um humanismo que
vem enriquecendo desde Freud com a descoberta de processos
inconscientes, agindo sem que o sujeito saiba e limitando sua liberdade.
Esses processos inconscientes fortalecem-se muitas vezes porque criam
raízes em processos primordiais da eclosão da personalidade, ela mesma
sustentada pela função da linguagem [...] à organização da pessoa humana
(DOLTO, 2004 : 12)
Ao tratar do momento infantil do sujeito, onde lhe são inscritas as primeiras
relações de vivencias no mundo, o presente estudo jamais poderia se eximir das
conceituações mais aprofundadas do caráter e natureza do brincar, da brincadeira e
do lúdico na vida desse sujeito.
Em vista disso, o termo brincar, conforme Ferreira (1986) traz o sentido de
“divertir-se infantilmente, distrair-se em jogos de crianças”, “entreter-se”, “foliar,
saltar, pular”, “dizer ou fazer algo por brincadeira, [...], gracejar” e termos
semelhantes que apesar de traduzirem o aspecto físico da ludicidade, expressam,
certamente também, os motivos íntimos e processos inconscientes que respaldam
tais ações.
23
Evidencia-se, deste modo, em toda esta odisséia relacional, a principio
consigo mesmo e depois com o outro, o caráter inevitável do prazer-desprazer que
compõem o ato do brincar. É neste sentido que Freud (1976) menciona o brincar
como sendo a manifestação da necessidade que tem a criança de elaborar
situações que lhes foram traumáticas.
Foi a partir da observação do seu próprio neto que em um ato repetitivo de
brincar infantil revelara a experiência de prazer e desprazer ao lançar um carretel
para longe de si e esperando que alguém o trouxesse de volta, que o grande
psicanalista situou a “perda da mãe” vivenciada pelo afastamento do objeto (FREUD
1976).
Ora, a encenação do afastamento e aproximação do carretel era seguida de
uma sonorização feita pelo próprio neto de Freud, um garoto de apenas um ano e
meio de idade. Assim que ao lançar para longe o objeto com o qual se divertia, o
pequeno emitia o som “óóóó...”, algo interpretado pelos seus familiares como sendo
o advérbio fort que tem o significado de “longe”. Já ao puxar o carretel de volta o
som emitido era “aaaa...”, algo bem próximo do termo da, ou seja, “ai está”. O fort
da, portanto, significam longe e perto, o que se ausenta e reaparece, o que vai
embora e depois volta.
É desta maneira que Freud identifica a presença e a ausência da mãe,
sendo que, em nota de rodapé Freud esclarece que é em função do afastamento
materno que se inscreve a ausência no psiquismo da criança, isto é, “a presença de
uma falta”, nas palavras de Lyotard (apud Rivera, 2010). É assim que o jogo do
carretel, pela sua própria funcionalidade “nos apresenta [...] o funcionamento mínimo
de toda simbolização (RIVERA, 2010).
Freud acrescenta ainda que ao aparecer e desaparecer perante o espelho,
seu neto complementa o jogo de presença-ausência que vivenciara com a mãe,
passando ele mesmo a fazer parte como um objeto do próprio jogo. Gueller (2008),
em O Jogo do Jogo, sustenta que ao se perceber como objeto participante do jogo,
“a criança pôde situar-se como objeto de desejo da mãe, ou seja, como seu falo.
Está constituído, assim, o triângulo imaginário mãe-criança-falo” (GUELLER, 2008
apud GUELLER; SOUZA, 2008).
Pode-se, então, afirmar que “esses jogos que se produzem ao longo do
primeiro ano de vida da criança visam a construção do corpo libidinal do narcisismo
primário”. Para Rudolf (1984), esses jogos tão comuns e presentes nesse momento
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da constituição da subjetividade são denominados “jogos de fazer superfície, de
extrair-fabricar superfícies continuas, extensões e traçados sem solução de
continuidade entre o que virá a ser o eu e o Outro primordial” (GUELLER, 2008 apud
GUELLER; SOUZA, 2008 : 156).
É neste sentido que,
Para fazer superfície, o bebê também precisa encontrar buracos no corpo
materno e, para isso belisca-a, puxa-lhe os cabelos, enfia-lhe o dedo no
nariz, na boca ou nos olhos, tira-lhe os óculos, etc. o bebê precisa perfurar o
corpo materno para meter-se nele. É, pois, um tempo em que não há ainda
distinção interior/exterior, nem entre conteúdo e continente (GUELLER,
2008 apud GUELLER; SOUZA, 2008 : 156).
Ao ver sob o prisma do que acima foi colocado, pode-se, com maior clareza,
considerar no atendimento às crianças com graves perturbações psíquicas, buscarse encontrar nos jogos iniciais da constituição da subjetividade, material utilizável
para tal atendimento. Levando-se em conta que “por algum motivo, esses jogos não
lograram fazer uma inscrição significante no corpo da criança, que se vê
impossibilitada de simbolizar o real”, é, portanto, trabalho do psicanalista fazer com
que “o significante se possa inscrever no corpo erógeno” dessa criança em
atendimento (GUELLER, 2008 apud GUELLER; SOUZA, 2008).
Outra leitura oportuna de ser citada nesta parte do estudo que ora
impetramos diz respeito ao clássico caso Hans, um estudo do próprio Freud no texto
"O pequeno Hans", escrito em 1909. Hans sofria de fobia de cavalos, “uma fobia
com implicações muito graves para a época, visto que os eqüinos constituíam-se no
único meio de transporte de pessoas e objetos”, e foi levado ao consultório de Freud
quando contava apenas cinco anos de idade. Portanto, para Hans, sair à rua em
Viena, era-lhe uma experiência frustrante de completa restrição da sua mobilidade
em função da fobia que nele estava instalada.
Segundo o relato do pai de Hans, posto que o menino mesmo só foi visto por
Freud uma única vez e a análise era feita mesmo com o seu pai, o menino elaborara
conceitos segundo os quais “todos os seres animados possuem um faz-pipi”, numa
clara alusão aos órgãos genitais. Essa e outras “teorias” relatadas pelo menino
envolviam uma fantasia relacionada ao que era, simultaneamente, desejado e ao
que por ele era temido.
Hans entrava em pânico e ficava tomado de um medo incontrolado, quando
via uma carruagem, pois imaginava que os cavalos que puxavam a carruagem iriam
25
escorregar, cair e quebrar as pernas. A análise dessa fobia, segundo Freud, revelou
que Hans deslocava para os cavalos a sua própria destrutividade e temores sentidos
em relação ao seu próprio pai, uma vez que no seu mundo interno e inconsciente,
“os cavalos seriam o substituto simbólico de seu pai que, sadicamente, Hans um dia
desejou ver cair e quebrar as pernas, quando o via subir as escadas para ficar com
“sua mamãe”” (destaque do autor).
Freud descobriu, portanto, que a fobia de cavalos de Hans tinha uma relação
direta com o receio inconsciente de ser castrado pelo pai por causa do amor que
Hans sentia pela sua mãe, configurando-se tal receio, desta maneira, em uma
manifestação muito clara e brilhante do complexo de Édipo.
Ao curar o seu pequeno paciente, Freud nos presenteia com a importante
teoria de que “toda e qualquer fobia é manifestação de uma angústia mais profunda,
muitas vezes sem relação aparente com o objeto do medo” (FRUED, 1909).
26
Capitulo 2
COMPLEXOS FAMILIARES
27
3 COPLEXOS FAMILIARES
É no aspecto, de que a linguagem tem valor estruturante na formação
psíquica do ser, que a família tem uma fundamental participação, em virtude de
constituir-se o primeiro grupo social de acolhimento a este sujeito, do qual, aliás,
jamais se desassociará. A importância da família se dá pelo fato, inclusive, dela
influir e determinar o sujeito antes mesmo dele vir ao mundo, reservando-lhe o lugar
que ocupará no jogo das complexas relações humanas. Assim sendo, a criança já
tem um lugar antes mesmo de seu nascimento, isto é, o campo do Outro antecede e
determina o sujeito (Lacan, 1979).
A família efetuará as primeiras e duradouras inscrições na subjetividade do
sujeito, marcando-o definitivamente, uma vez que “entre todos os grupos humanos,
a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura” (LACAN,
1985, 2008 : 9).
No seu Os Complexos Familiares na Formação do Individuo, Lacan fala
exatamente desta estrutura cultural da família humana que desfruta do acesso à
observação e análise, os métodos da Psicologia concreta, por meio dos quais são
estabelecidas às gerações futuras uma continuidade psíquica, posto que os
complexos
“demonstram
desempenhar
um
papel
de
“organizadores”
no
desenvolvimento psíquico” do sujeito (LACAN, 1985, 2008 : 8, 18).
São três, portanto, os complexos identificados por Lacan na importante obra
acima citada: o Complexo do desmame; o complexo da Intrusão, ou Complexo
Fraterno e o Complexo de Édipo.
A definição de complexo, contudo, deve levar em consideração o fator
inconsciente, cuja representação é conhecida por Imago. Deste modo, Imago é um
termo tomado das conceituações de Jung e vem a ser
Um protótipo inconsciente de personagens que orienta seletivamente a
forma como o sujeito apreende o Outro; é elaborado a partir das primeiras
relações intersubjetivas reais e fantasísticas com o meio familiar
(LAPLANCHE, PONTALIS, 1980 : 234, 235).
Assim sendo, o Complexo do Desmame se constitui na maneira como este
sujeito, inventado pela família, se relaciona com o fator alimentação. Nele,
encontram-se fundamentados os sentimentos mais estáveis e arcaicos que unem o
individuo a instituição familiar, marcando um traço psíquico permanente na relação
biológica agora interrompida, segundo Lacan (1985; 2008 : 20). Além disso, somente
28
“no aleitamento, no abraço e na contemplação da criança, a mãe, ao mesmo tempo,
recebe e satisfaz o mais primitivo dos desejos”, produzindo no sujeito a forma,
também primordial, da Imago materna.
A cerca disso Lacan conclui: “apenas a imago que imprime no mais profundo
do psiquismo o desmame congênito do homem pode explicar a potencia, a riqueza e
a duração do sentimento materno”. (Lacan, 1985; 2008 : 24), implantado justamente
pelo exercício da lactação e do mamar, funções biológicas presentes em todos os
animais mamíferos, com uma intrigante constatação: enquanto nos demais animais
“o instinto materno pára de agir [...] quando o fim da amamentação é completado”,
na mulher este instinto permanece por toda a vida (LACAN, 1985; 2008 : 19).
Lacan pontua, então, que o desmame (ablactação propriamente dita),
denota “frequentemente um traumatismo psíquico cujos efeitos individuais” são as
desordens alimentares das mais diversas, como a anorexia, a bulimia e a compulsão
alimentar, incluindo as variadas formas de suicídios “não-violentos”, pelo modo oral
do complexo e “envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca”, tais como
o alcoolismo ou outras formas de drogadição oral, em função da fixação no peito
materno e a presentificação da onipotente Imago materna (LACAN, 1985; 2008 : 20).
A anorexia, por exemplo, pode ter inicio como uma inofensiva tentativa de
emagrecer através de uma dieta restritiva que em virtude de uma imagem corporal
distorcida poderá levar a um medo intenso de engordar, produzindo na pessoa
anoréxica cada vez mais a necessidade de emagrecer, podendo chegar ao ponto de
ser fatal, como em muitos casos já comprovados.
Além da distorção na imagem corporal, o que configuraria uma relação de
espelho consigo mesmo, naturalmente, a anoréxica pode sofrer traumaticamente no
próprio complexo do desmame, como bem colocado por Lacan, passando a ter uma
relação de resistência à comida e a saudável alimentação. Neste caso a questão
que em análise deve-se buscar é exatamente por que esse sujeito resiste à ingestão
(introjeção?) de alimentos. Será que se trata de privação alimentar no período
rudimentar da amamentação?
No caso da bulimia, procedimento por meio do qual após se alimentarem as
pessoas provocam vômitos para se livrarem da comida que ingeriram, percebe-se
igualmente uma distorção na relação com aquilo que do peito materno fora ingerido.
A negação à ablactação ou a resistência ao produto materno alimentar é aquilo que
29
de fato está em jogo, podendo tratar-se, também, do desequilíbrio causado pela
oferta excessiva de alimento por ocasião do complexo do desmame.
Quanto à compulsão alimentar, ou seja, ingerir grandes e significativas
quantidades de comida em um pequeno espaço de tempo, atitude geralmente
tomada e feita enquanto se está sozinho, percebe-se um particular modo de
ansiedade e voracidade à alimentação como algo de que se dispõe em curto espaço
de tempo e não se tem, portanto, à vontade. A encenação do fort da é aqui
oportunamente lembrado, no qual a criança deveria usufruir o quanto pudesse a
presença materna, principalmente se estivesse sendo amamentada, posto que logo,
logo não mais teria essa mãe mais presente, tendo que sofrer a dor da sua
inexplicável ausência.
À parte das desordens alimentares até agora trazidas à tona, o que se tem
“no processo interacional, mãe e bebê” nada mais é do que elementos de ambas as
partes que “propiciam uma alimentação recíproca”, por meio da qual
Estabelece-se, então, uma relação que transcende a ordem biológica e
encontra-se em uma dimensão rica de significados fornecidos inicialmente
pela mãe às manifestações de seu filho. A aquisição da capacidade
simbólica e a saúde do corpo, conforme Aryan (1993), dependerão do êxito
da relação estabelecida na primeira infância (OLIVEIRA, 2009 apud
OLIVEIRA; FERREIRA; BARRETO, 2009 : 20).
Para Molina (2001), a amamentação pode vir a revelar “o estilo da instalação
da função materna”, em cujo processo estão ligados “os fatores subjetivos,
sensoriais e afetivos, conscientes e inconscientes [...] e remetem a coisas muito
arcaicas concernentes à oralidade da própria mãe” que pode, neste caso, vir a viver
novamente a sua própria amamentação (OLIVEIRA, 2009 apud OLIVEIRA;
FERREIRA; BARRETO, 2009).
Uma vez que a amamentação se constitui no “veiculo de comunicação por
excelência na relação mãe e bebê”, o desmame cumpre um papel importante no
processo de individuação do sujeito, posto que “a amamentação situa-se em uma
etapa de indiferenciação da criança com o Outro primordial”, devendo, por ocasião
do desmame, começar o processo de diferenciação existente entre o que lhe é
interno e o que lhe é externo, o que é propriamente seu e o que é da sua mãe e é
apenas lhe é oferecido com certa regularidade e em ocasiões específicas, segundo
Molina (1997); Oliveira (2009 apud Oliveira; Ferreira; Barreto, 2009) e Freud
(1905/1972).
30
É absolutamente necessário que a criança possa fazer a passagem que lhe
possibilite “substituir o seio materno por outros representantes da cultura”, vindo a
ser o desmame, portanto, o apogeu da amamentação, que vem a cumprir, desta
maneira, a sua função simbólica (OLIVEIRA, 2009 apud OLIVEIRA; FERREIRA;
BARRETO, 2009 e FREUD, 1905/1972).
Para estas mesmas autoras, torna-se evidente que ao não se instalar a falta,
se estabelece uma relação de presença maciça e completamente alienante da mãe,
não permitindo que o sujeito psíquico possa então advir, provocando nesta criança
uma inibição na aquisição de sua própria identidade. A mãe, então, passa a ser para
o seu filho apenas um objeto amoroso que vale somente por sua presença,
tornando-se por ocasião da sua ausência apenas um agente simbólico (MANNONI,
1986).
Uma amamentação, cujos “limites necessários à sua finalização” não são
estabelecidos, perpetua a relação dual mãe-filho e resiste a relação triangular, na
qual a metáfora paterna deveria ser assinalada.
Ora, “o que se identifica nas dinâmicas psicossomáticas, como no caso da
asma, é que o espaço paterno se inscreve, porém, de forma fragilizada”, uma vez
que muitos teóricos da psicanálise afirmam que é justamente na falha da função
paterna que se “institui o fenômeno psicossomático” (OLIVEIRA, 2009 apud
OLIVEIRA; FERREIRA; BARRETO, 2009).
Deste modo, pode-se concluir que há entre a mãe e o seu bebê “uma linha
muito tênue e às vezes imprecisa”, vindo a ser muitas das vezes, conforme Oliveira
(2002), uma linha ao mesmo tempo tênue e tenaz, em virtude de não se elaborar
devidamente o desmame, configurando-se em uma situação relacional intrínseca de
psicossomatização materna e infantil e de duração totalmente imprevista, por
ocasião da qual a angustia materna toma o corpo como via representativa, em face
da precariedade constitutiva do filho (OLIVEIRA, 2009 apud OLIVEIRA; FERREIRA;
BARRETO, 2009).
Por sua vez, o Complexo da Intrusão (do Intruso, ou do Fraterno), ocorre
mediante a comprovação de que outros semelhantes têm efetiva participação,
juntamente com o sujeito, no ambiente e relação doméstica, ou seja, “ele se
reconhece como tendo irmãos”. É a partir dessa constatação e por meio de
ingredientes tais como a cultura familiar, as contingências individuais e o lugar de
cada um na ordem dos nascimentos na família que o sujeito vivenciará um conflito
31
predecessor: o de ser um abastardo ou de um usurpador, no ambiente e dinâmica
familiar (LACAN, 1985; 2008 : 20).
O primeiro e mais perceptível fator relacional entre essas figuras fraternas é
exatamente o ciúme, já evocado por santo Agostinho (354-430 d.C.; em suas
Confissões I, VII), no sentido de que há uma rivalidade mental representada pela
bipolaridade de “atitudes opostas e complementares” como o espetáculoobservação;
sedução-deslumbramento
e
dominação-submissão.
Nesse
jogo
interativo rudimentar das relações sociais humanas se realiza o paradoxo em que
“cada parceiro confunde a parte do outro com a sua própria e com ele se identifica”
(LACAN, 1985; 2008 : 29).
Desta maneira, o sujeito
Comprometido no ciúme por identificação, desemboca numa alternativa
nova em que a sorte da realidade está em jogo: ou ele reencontra o objeto
materno e vai se agarrar à recusa do real e a destruição do outro; ou [...] o
recebe [...] como objeto comunicável, já que concorrência implica ao mesmo
tempo rivalidade e concordância (LACAN, 1985; 2008 : 36).
Em vista disso, a formação do Eu, nessa parte do Complexo Familiar, se dá
pela intrusão deste Outro que, mesmo precedendo a identificação identitária, o
molda através da ação de que “se confunde com essa imagem que o forma, mas o
aliena primordialmente”. Ou seja, o Eu é forjado a partir da relação especular
fraterna e pela afirmação da identidade que recusa este intruso (LACAN, 1985; 2008
: 38).
A ambigüidade sugerida por Lacan é oportuna e até mesmo necessária,
posto que ser o irmão, principalmente o primogênito, que fornece “o modelo arcaica
do eu”, adquirindo pela assimilação do seu parceiro “sua personalidade e sua
objetividade”, embora a restauração à harmonia do seio materno se dê “a custa de
um fratricídio”, como dito logo acima (LACAN, 1985; 2008 : 38).
Em função de o outro irmão ser visto como intruso a nível inconsciente, mas,
também na própria consciência, demonstra “a luta pelo significado” de sua própria
existência pelo crescimento psíquico da individuação. Assim, utilizando-se da
fantasia a luta justifica-se por que:
Para dominar os problemas psicológicos do crescimento – superar
decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de
abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e
de autovalorização, e um sentido de obrigação moral - a criança necessita
entender o que está se passando dentro de seu eu inconsciente. Ela pode
atingir essa compreensão, e com isto a habilidade de lidar com as coisas,
não através da compreensão racional da natureza e conteúdo de seu
32
inconsciente, mas familiarizando- se com ele através de devaneios
prolongados - ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elementos
adequados da estória em resposta a pressões inconscientes. Com isto, a
criança adéqua o conteúdo inconsciente às fantasias conscientes, o que a
capacita a lidar com este conteúdo. (LACAN, 1985; 2008 : 38).
O terceiro e último complexo familiar na formação do indivíduo é o Complexo
de Édipo. Em Lacan, tal qual em Freud, são definidas as relações psíquicas do
sujeito na triangulação familiar: o sujeito, o progenitor do sexo oposto e o progenitor
do mesmo sexo. No primeiro desses progenitores (o do sexo oposto), o infante fixa o
seu desejo, enquanto que no último, (o progenitor do mesmo sexo),ele fixa a sua
frustração (Lacan,1985 : 40). Também, tal qual em Freud, a Imago paterna está
vinculada a castração, a guarda da Lei e a sua imposição, produzindo, “à medida
que domina”, as esperadas polarizações nos dois sexos filiais, como desejáveis
(“perfeitas”) formas “do ideal do eu [...], ou seja, o ideal viril no menino e o ideal
virginal na menina” (LACAN, 1985; 2008 : 52, 53).
Todo o processo, contudo, como já fora afirmada anteriormente, perpassa
pela linguagem, capaz que é de refletir toda a simbolização à formação do sujeito.
É assim que Bruce Fink em O Sujeito Lacaniano: Entre a Linguagem e o
Gozo, nos assegura que “o discurso nunca possui uma só dimensão”, quer dizer,
“um lapso de língua nos lembra imediatamente que vários discursos podem usar o
mesmo porta-voz ao mesmo tempo”. Fink demonstra então que o discurso é sempre
intencional, no sentido de que aquele que fala tenta dizer ou queria dizer aquilo que
fala e não intencional, ou sem intenção, na forma falada de uma palavra deformada
ou até mesmo truncada em um tipo de fusão ou trocadilho entre termos parecidos,
porém, divergentes ou que não significam a mesma coisa que está se tentando dizer
(FINK, 1998).
Fink identifica, para efeito de esclarecimento, dois diferentes tipos de fala: a
fala do eu e algum outro tipo de fala. A fala do eu diz respeito à “fala corriqueira
sobre o que conscientemente pensamos e acreditamos sobre nós mesmos”. É o
discurso do eu/self e, como agora afirmado, é consciente e intencional. Já o outro
tipo de fala caracteriza-se pelo discurso do Outro, identificado por Freud como sendo
o Inconsciente, é um discurso inconsciente e sempre involuntário, mesmo sabendo
que não há nada de acaso nestas involuntárias palavras (FINK, 1998).
A palavra assim, dita aparentemente de maneira aleatória, surge estranha a
nós mesmos e é excêntrica ao pensamento que originalmente se tinha.
33
Lacan explica a estranheza do discurso como sendo o resultado das
palavras que nos são conferidas por séculos de tradição, constituindo-se em o Outro
da linguagem, no sentido de que ao nascer a criança tem um “lugar preestabelecido
dentro do universo lingüístico dos pais, um espaço muitas vezes preparado muitos
meses, se não anos” antes do seu nascimento (FINK, 1998).
Os desejos da criança, no entanto, são moldados naquele mesmo processo
lingüístico, uma vez que a criança se utiliza das palavras que com os pais aprendera
para poder satisfazer as suas mais prementes necessidades como saciar-se da
fome; se aquecer perante o frio ou aliviar-se de uma dor. Tais saciedades infantis
eram conseguidas antes da fala propriamente dita, como um “vácuo entre o desejo
inarticulado [...] que nos capacita a revelar uns aos outros nossos desejos e a nos
comunicarmos” (FINK, 1998).
Assim é que
De acordo com a teoria lacaniana, todo ser humano que aprende a falar é,
dessa forma, um alienado - pois é a linguagem que, embora permita que o
desejo se realize, dá um nó nesse lugar, e nos faz de tal forma que
podemos desejar e não desejar a mesma coisa e nunca nos satisfazermos
quando conseguimos o que pensávamos desejar, e assim por diante (FINK,
1998 : 23).
O sujeito é deste modo, obrigado, por um principio de sobrevivência,
aprender a língua materna. E como “o inconsciente é estruturado como uma
linguagem”, Lacan fala exatamente da forma de operacionalização da linguagem a
nível do inconsciente, ainda que o discurso seja orientado pelas regras gramaticais,
embora muitas das vezes se transforme dissimuladamente e deslize dentro da
mesma gramática e tudo o mais que a palavra acerque, para cumprir o inconsciente
o seu propósito de se expressar.
Contudo, ao fazê-lo, para Lacan o inconsciente é o discurso do Outro, ou
seja,“O inconsciente está repleto da fala de outras pessoas, das conversas de outras
pessoas, e dos objetivos, aspirações, e fantasias de outras pessoas”, assumindo
“um tipo de existência independente dentro dos “nossos eus””, segundo Fink (1998).
A força do inconsciente, por sua vez, pode ser demonstrada no fato de que,
para Freud, os elementos inconscientes são indestrutíveis e embora inacessíveis à
consciência, retornam em uma cadeia de significantes à atuação em um eu que
sente, ainda que não saiba, visto que o corpo é escrito com significantes (FINK,
1998).
34
Embora este trabalho não se preste ao aprofundamento das teorias
lacanianas referentes ao Outro, pode-se concluir que para ele (Lacan) este Outro
pode ser concebido de diversos Outros, conforme analisados por Fink, quais sejam:
o Outro como linguagem, ou seja, como o conjunto de todos os significantes; o Outro
como demanda, atendendo as solicitações do sujeito implicado; o Outro como
desejo, objeto a aquele que deseja e o Outro como gozo, um gozo direcionado às
fantasias do sujeito desejante que, talvez, não sendo uma fantasia propriamente
sua, tem a sua própria implicação e intervenção própria, fazendo-se satisfazer na
realização do desejo (FINK, 1998).
É diante desta estrutura familiar que o presente estudo evoca a construção
do sujeito e considera o período de tal construção, a sua infantilidade.
35
CONCLUSÃO
36
4 CONCLUSÃO
Se o brincar enquanto símbolo representa externamente algo que é
puramente abstrato, tem, de fato uma significativa importância uma vez que
constitui um sujeito marcado pelo inconsciente e sua linguagem simbólica, tendo,
portanto, o brincar atuação decisiva no aparelho psíquico deste sujeito.
As conceituações lacanianas acerca da família, por sua vez, são de que ela
reflete o drama individual vivido no primeiro grupo social humano. E é exatamente
no exercício destas vivencias que o sujeito se depara com os traços existenciais
permanentes a toda sua vida.
Se o mamar é função biológica, não deixa de ser/ter uma função
estruturante à formação identitária do ser, uma vez que “o desmame deixa no
psiquismo um traço permanente da relação biológica que ele interrompe”, segundo
Reis (2010). E é justamente pela presença-ausencia materna que o sujeito se
individualiza em um complexo jogo do fort Da. Aquela que se presentifica e se
ausenta, sendo ela mesma a inesgotável fonte de prazer, acaba por causar um
enorme desprazer ao mesmo ponto em que torna possível o processo de
individuação, tão necessário ao ser em formação. Para Lebovici; Diatkine (1985),
“esse jogo [...] manifesta em seus traços radicais a determinação que o animal
humano recebe da ordem simbólica”.
É também no ambiente familiar que se vive as primeiras e permanentes
relações grupais fomentadas pelo ciúme fraterno e pelo exercício das mais variadas
brincadeiras. Neste sentido brincar é coisa séria e resulta em aprendizado que se
perpetua por toda a vida.
A fixação no seio materno é também a causa de tantas ameaças violentas
como a anorexia, bulimia e outros distúrbios alimentares e suicídios não violentos
como as toxicomanias pela boca, como o alcoolismo e outras drogadições, como
dito por Lacan (1986) e citado neste trabalho.
É desta maneira que percebemos a importância do brincar e dos conflitos
familiares na formação do sujeito.
37
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