Anais da Semana de Pedagogia da UEM ISSN Online: 2316-9435 XX Semana de Pedagogia da UEM VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor ESTUDO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA SOBRE O ENSINO DO NÚMERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL – 2002 A 2012 FURTUOSO, Patrícia [email protected] CALSA, Geiva Carolina (orientador) [email protected] Universidade Estadual de Maringá (UEM) Formação de professores e intervenção pedagógica INTRODUÇÃO Esse estudo teve por objetivo investigar a produção acadêmica sobre o ensino do número na Educação Infantil entre os anos de 2002 a 2012. Para isso foi necessário comparar e analisar a produção acadêmica produzida sobre a temática no banco de dados da CAPES cujo acervo abarca todas as dissertações e teses brasileiras. De acordo com os resultados do PISA, entre outros sistemas de avaliação que evidenciam o baixo desempenho em matemática, na Educação Básica brasileira menos de 11% dos estudantes dominam o conteúdo esperado em Matemática. Pela Educação Básica passa um dos maiores desafios da educação escolar que é a de reduzir as desigualdades culturais das crianças e adolescentes e, assim, fornecer uma base sólida no ensino de Matemática e Ciência, entre outras áreas. Segundo pesquisa do Anuário Brasileiro de Educação Básica do ano de 2009, o baixo desempenho no PISA é resultado da má formação em matemática nas salas de aula dos anos iniciais da escola. Buscando explicar esta lacuna Alexandre (2009) destaca a formação dos professores como uma das possíveis variáveis. O autor cita o estudo de Shlindwein e Cordeiro (2002) para lembrar que “o próprio professor [das séries iniciais] não raras vezes, faz o curso de pedagogia para fugir da matemática”. Alguns professores possuem uma formação superficial em matemática e, como consequência apresentam este conteúdo aos seus alunos de forma memorística e mecânica, dissociadas de seu contexto matemático. Em sua pesquisa Felicetti (2007) concluiu que a falta de compreensão do conceito de número nas séries iniciais é uma das molas propulsoras para que os alunos apresentem dificuldades na aprendizagem da matemática. Alunos chegam ao Ensino Médio sem ter construído o conceito de número, que deveria ser trabalhados nas séries iniciais. Anais da Semana de Pedagogia da UEM ISSN Online: 2316-9435 XX Semana de Pedagogia da UEM VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor O conhecimento sobre a construção do número pela criança é fundamental para que os educadores ensinem por meio de estratégias e atividades que proporcionem a construção e a transformação do número em um conceito significativo para o contexto matemático e de suas vidas cotidianas. As noções matemáticas contidas no sistema numérico podem ser construídas por meio de situações do dia-a-dia, sendo responsabilidade do educador encorajar o desenvolvimento do pensamento matemático com base em referenciais teóricos que obtiveram êxito no ensino do número para crianças. Este é o caso de Kamii (1986), educadora piagetiana que com apoio de professoras de classe realizou pesquisas em salas de aula e ampliou o campo da construção do pensamento numérico utilizando-se de jogos em grupos e situações do cotidiano. As atividades propostas pela autora buscavam desenvolver desde a base do conceito de número como as habilidades de classificar, seriar e ordenar, além de proporcionar às crianças encontrarem suas próprias soluções e justificativas para seus procedimentos. Frente a isso, e com apoio da teoria piagetiana, consideramos pertinente investigar a aprendizagem matemática nas primeiras séries escolares. Assim problematizamos: como a escola atual compreende a aprendizagem matemática nas primeiras séries escolares? A aprendizagem do conceito de número envolve outros aspectos além da escrita de algarismos e da contagem? Tendo em vista a relevância desse tema para a formação dos professores investigamos a produção acadêmica dos últimos dez anos sobre o ensino do número na Educação Infantil. CONSTRUÇÃO DO NÚMERO PELA CRIANÇA O conceito de número não é somente um conjunto de experiências de contagem adquirida no período da infância, mas essa síntese construída ao longo do desenvolvimento cognitivo da criança, de forma que o professor seja mediador desse processo e auxilie o aluno a enfrentar as dificuldades da matemática, pensando. Frequentemente, observamos nas escolas crianças que sabem contar perfeitamente os numerais, porém não compreender a sua inclusão hierárquica e nem sua ordem, assim, são submetidas a ensaios memorizados e não significativos, dissonante ao que Jean Piaget (1991) retrata em seus estudos. Segundo o autor, a criança compreende o que é número a partir do momento em que faz uma síntese entre inclusão hierárquica e ordem. 2 Costuma-se utilizar o número quando a criança pequena completa um ano de idade, de forma a ensiná-la a indicar o número 1 com o dedinho. Segundo estudos de Bôas(2007) amparada por Ifrah (1989), para a criança, esse sinal indica ela própria, faz parte dela. Se a criança mostrar três dedinhos, estes não significam quantidade para ela, mas é “ela própria”, como se fosse representação, espelho, dela mesma. Em outras situações usa-se o número como sinal de afeto, é quando o adulto diz “um, dois, três e....já!” como forma de obter a resposta desejada pela criança, ou mesmo, quando utilizamos da contagem de números para subir ou descer os degraus de uma escada, estes são gestos positivos que aproximam as crianças do número. Em seus estudos, Bôas (2007) relata que o número é uma invenção complexa, que possui um formato, um nome e diversos tipos de representações, e esses aspectos as crianças aprendem nas brincadeiras e interações com adultos. Socialmente as crianças vivenciam os adultos e outras crianças contando em diversas situações, desse modo ela vai se apropriando da sequência numérica, do gesto de apontar, e em seguida do ritmo. Recitar a sequência numérica, não significa que a criança compreende o significado e compreensão do que é número, e nem sua correspondência biunívoca. Enquanto a criança brinca de contar, ela precisa ser estimulada a situações desafiadoras, é dessa forma que inicia suas relações e construções da noção de número. A criança começa a observar números com significados e importância social, como por exemplo, o número da casa, o número do sapato, o número da roupa, o número do telefone, a placa do carro e do ônibus, entre outros. Ao observar, começa a indagar e construir um leque de hipóteses e perguntas que compõem seu repertório de significações. Para estabelecer a relação lógico-matemática, a criança precisa compreender a complexidade dos números, sendo que ora ele pode expressar quantidade, ora ele é um nome (número de um telefone ou placa), ora ele é uma medida (50km/h ou numeração de um sapato), ora ele agrupa informações (apartamento 31 que significa que é o 1º apartamento do 3º andar). O mesmo número 3 que a criança indica com o dedinho para representar sua idade, pode indicar três objetos diferentes. Para a criança contar de forma significativa e não somente recitar, é necessário que haja desafio. Para solucionar o problema indicado, é necessário tomar decisões e indicar um procedimento significativo: escolher por onde inicia a contagem, apontar um objeto, falar a palavra-número inicial da sequencia numérica, apontar o objeto seguinte, falar a palavra-número subsequente, entre outros. Será necessário ordenar os 3 objetos de forma que não conte duas vezes o mesmo. São detalhes necessários que a criança precisa coordenar com recursos disponíveis. A criança pequena, de três ou quatro anos, pode saber contar recitar corretamente os números de uma até dez e espalhar tampinhas, porém não sente vontade de organizá-los em uma determinada lógica. Mesmo obtendo uma ordenação mental, esta não é suficiente para se obter a conservação numérica. Segundo Kamii (1995), é necessário que se saiba quantificar os objetos como um grupo, colocando-os numa relação de “inclusão hierárquica”. Em seus estudos, afirma que a criança só constrói o conceito de número, que envolve as noções de conservação, seriação e classificação, quando é capaz de representar a quantia, ideia de número, ou com símbolos ou com signos (escrita numérica). Segundo pesquisas piagetianas, o conceito de número não pode ser ensinado, pois a criança deve construí-lo por intermédio de suas ações sobre o meio, cabendo ao educador incentivá-la a pensar ativamente. Todos os momentos devem ser apreciados para enriquecer o processo de construção desse conhecimento. Kamii (1986) exemplifica esse fato ao relatar que algumas crianças indicam as palavras “um, dois, três, quatro...” como elementos individuais de uma série, semelhante a nomes, como “João, Maria, Pedro... Bernadete”, desse modo se perguntassem quantos elementos há, a criança responderia que chega até Bernadete, porém não compreende que é um conjunto numérico. Para quantificar um objeto é necessário a criança colocá-los numa relação de inclusão hierárquica, de forma a incluir mentalmente um em dois, dois em três, três em quatro, assim em diante. A criança que tem construída a noção lógico-matemática, compreende a quantidade, não o último número, isto é, o processo e não o resultado final. Algumas atividades no ambiente escolar podem ser propostas de forma que a criança enfrente e resolva situações problemas envolvendo conceitos matemáticos e ideias sobre esses conceitos. O ambiente que possibilita oportunidades de reflexão e tomada de consciência auxilia na organização do raciocínio lógico da criança, por meio de descobertas que lhe parece significativas e tecendo relações que o fazer matemático pode proporcionar. Em sala de aula, como podemos começar com êxito o ensino de matemática? Inicia-se na percepção, noções entre grande/pequeno, maior/menor, grosso/fino, igual/diferente, entre outros. Situações que podem ser verbalizadas ou revisadas com diversas situações, desenhos, histórias, pessoas. Para que o professor tenha sucesso em sua prática em sala de aula, na mediação do ensino matemático, é necessário que ele tenha conhecimento dos setes processos 4 mentais básicos no ensino da matemática que são: correspondência, comparação, classificação, sequenciação, seriação, inclusão e conservação. A criança tem socialmente um leque de situações e vivências presenciadas com a utilização do número. É na necessidade de controlar quantidades e na criação de situações direcionadas na Educação Infantil, que a criança inicia a compreensão da noção numérica. Essa etapa de escolaridade pode investir nesse aspecto por meio de situações impostas às crianças na resolução de conflitos e desafios. Basta lembrar-nos do ensino de matemática na Educação Infantil e primeiros anos do Ensino Fundamental, sustentado pela crença de que o número é aprendido por meio de habilidades de contar, de ler e de escrever os numerais. Esta teoria origina-se no desconhecimento do professor, sobre a natureza do número e de como a criança constrói este conceito. Além disso, os próprios materiais didáticos ou livros pedagógicos apresentam a teoria anteriormente citada, de forma a contrapor a ideia de evolução da aprendizagem do número (segundo a teoria psicogenética de Jean Piaget) e os primeiros conceitos matemáticos por meio da atividade espontânea da criança dentro da instituição escolar. A criança não aprende conceitos numéricos apenas com elaboração de desenhos ou manipulação de objetos, contudo constroem esses conceitos pela abstração reflexiva à medida que atuam mentalmente sobre os objetos. Quando o professor possibilita situações de quantificação lógica que envolva o pensar da criança, está estimulando-a nas construções lógico-matemáticas. METODOLOGIA A presente investigação teve cunho bibliográfico com o sentido de identificar os estudos, relacioná-los, mapear e discutir qualitativamente as produções científicas encontradas na CAPES que tratam especificadamente da Educação Infantil e conceito de número. Buscamos a produção científica dos Programas de Pós-Graduação, mestrado e doutorado oferecidos no Brasil, tanto na rede pública como na rede privada. O período de abrangência da pesquisa refere-se a 2002 a 2012, disponibilizadas por meio eletrônico (internet), localizadas no site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A primeira etapa compreendeu o momento de levantamento e leitura exploratória da produção acadêmica (teses e dissertações) que se fundamenta no tema “número e educação infantil”, no período de dez anos (2002/2012) no banco de dados da CAPES. 5 Após a consulta, os dados foram organizados no quadro abaixo (Quadro 1) de forma que os trabalhos de Mestrado e Doutorado fossem classificados de acordo com seus respectivos anos de defesa. Quadro 1: Produção acadêmica brasileira envolvendo número e educação infantil entre os anos de 2002 e 2012. Ano da defesa Números de Números de teses Total de dissertações produções 2002 10 2 12 2003 14 5 19 2004 20 2 22 2005 7 3 10 2006 16 8 24 2007 23 6 29 2008 15 8 23 2009 26 8 34 2010 23 8 31 2011 28 5 33 2012 25 8 33 Fonte: a pesquisadora Nem todos os trabalhos encontrados neste primeiro momento foram utilizados na pesquisa, uma vez que muitos não eram compatíveis com a temática: número e educação infantil. Dessa forma, estabelecemos uma nova categorização dos trabalhos, de forma a identificar as pesquisas que se relacionassem diretamente com a temática de estudo. Para isso foi necessário uma nova organização dos trabalhos, dessa vez restringindo mais ao tema investigado como mostra o quadro seguinte (Quadro2): Quadro 2: Temas encontrados na produção acadêmica brasileira dos anos 2002 e 2012 com uso das palavras-chave número e educação infantil. Temas investigados Práticas Educativas: Dissertações processos e 40 Teses 17 6 problemas Políticas Públicas e Educação Educação Matemática 32 9 e Literatura 4 Educação pública e especial 4 Educação Especial 3 Educação e Saúde 42 19 Educação Infantil e ludicidade 24 5 Educação e mídia 1 Educação ambiental 1 Psicologia 1 1 Violência infantil 8 1 Educação Matemática 3 2 Formação do Professor 17 9 Educação Inclusiva 2 1 Construção do número pela criança 10 3 Infantil Fonte: a pesquisadora Como mostra o quadro acima, após este ultimo filtro foram encontrados treze trabalhos diretamente relacionados ao tema em foco: construção do número e educação infantil. Os trabalhos não foram filtrados a partir de seu referencial teórico-metodológico. Dentre esses estudos foram descartados os que não foram encontrados em sua versão integral – seis estudos. Restaram sete trabalhos lidos integralmente e discutidos pela pesquisadora. Esses trabalhos são apresentados e discutidos a seguir. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Para a apresentação dos resultados optamos por apresentar os sete estudos encontrados e analisados a partir de suas similaridades sejam relativos à metodologia de pesquisa, aos sujeitos ou ao método de ensino, entre outros. Dentre os trabalhos encontrados, Bôas (2007), Senna (2010) e Garcia (2006) destacam a importância da aprendizagem em grupo para a aprendizagem do conceito de número. Os estudos usam os grupos, porém, com metodologias diferenciadas. Bôas (2007) se utilizou de jogos em pequenos grupos como meio para que os alunos pensassem e agissem sobre alguns 7 aspectos do número, como a contagem, a correspondência e o cálculo. Garcia (2006) partiu do trabalho cooperativo em pequenos grupos para que professoras do ensino fundamental construíssem conhecimento sobre o número por meio de pesquisas, leituras, investigações e discussões. O estudo de Senna (2010) baseou-se na investigação etnográfica, em duas escolas diferentes: escola brasileira e escola italiana. Na escola brasileira participaram setenta e seis crianças, além de vinte e seis profissionais envolvidas direta ou indiretamente no ensino. Na escola italiana participaram vinte e três crianças, além de dez profissionais. Foram realizadas entrevistas com as crianças, com a família de uma das crianças das instituições, com professores regentes e alguns técnicos. A análise das situações encontradas buscou descrever os momentos nos quais aparece a expressão das primeiras quantificações nos grupos de crianças observadas. O objetivo do pesquisador foi reconhecer a dinâmica do processo de conceitos numéricos iniciais na interação entre adultos e crianças de dois a cinco anos de idade em dois ambientes escolares distintos. O autor concluiu que as interações entre alunoaluno, aluno-professor e os contextos escolares constituem alicerces para as situações de interação em função de algumas especificidades próprias a cada ambiente escolar, bem como a importância da troca de informações que completa a aprendizagem do colega. Esse conjunto de estudos corroboram as conclusões de Moro (1991) de que as atividades em grupo apresentam condições de favorecer a construção de conceitos matemáticos. Além disso, mostram quanto à atuação do professor influencia o funcionamento do grupo no sentido de promover independência intelectual e afetiva. Dependendo da maneira como o professor atua o grupo pode se constituir uma entidade cooperativa que possibilita o agir e as trocas interpessoais durante o processo de ensino-aprendizagem. O trabalho realizado em pequenos grupos oferece uma condição favorável à atividade intelectual construtiva dos sujeitos ao propiciar a cooperação, o confronto de hipóteses e a elaboração conjunta de conhecimentos. No grupo as coordenações entre os pensamentos dos alunos precedem suas operações individuais mostrando como o grupo favorece a elaboração de novas aprendizagens. Em contrapartida, os estudos de Ceríaco (2012), Senna (2010), Silva (2012), Burgo (2007) e Friederich (2010) são unânimes ao afirmar a fragilidade da formação dos professores para atuar no ensino da matemática. Nas entrevistas realizadas com educadores Senna (2010) constatou a fragilidade dos profissionais ao falar sobre conceitos e métodos de ensino de matemática. Ceríaco (2012) constatou também a precariedade da formação dos professores 8 que, de modo geral, não consegue integrar à prática docente uma razoável fundamentação conceitual em Matemática. Para o autor, seria necessário repensar a formação docente, uma vez que é significativa a dificuldade dos professores ao trabalharem com o ensino de Matemática. Em sua pesquisa Silva (2012) concluiu que o grupo de professoras investigadas não compreendia a diferença entre número e numeral. Essa confusão de conceitos resulta em um trabalho docente restrito à leitura e à escrita de numerais. Dessa forma, os professores podem supor que ler e escrever numerais significa dominar o conceito de número e que estão ensinando este conteúdo aos seus alunos. Chegando à mesma conclusão, Friederich (2010) destaca a superficialidade no domínio dos conteúdos por parte dos professores e, consequentemente, para os seus alunos. Garcia (2006) verificou que as professoras de sua pesquisa haviam apresentado dificuldades de aprender os conteúdos de Matemática como estudantes nos diversos graus de ensino. Burgo (2007) também destaca a confusão conceitual das professoras sobre número e numeral, assim como sobre as abordagens teóricas sobre a prática de ensino sobre o tema. Ao relatarem sua prática de ensino, os professores mostram não ter clara a abordagem teórica e metodológica que seguem em seu trabalho cotidiano. Os conceitos e a didática utilizada não são definidos. Os resultados da produção acadêmica dos últimos dez anos correspondem às conclusões de Kamii (1989) que alerta sobre a necessidade de que o número seja ensinado por profissionais adequadamente formados, tanto do ponto de vista conceitual como didático. Para ela a criança não constrói o número por si mesma, essa aprendizagem exige a intervenção do professor para que possa coordenar as variáveis matemáticas envolvidas neste conceito. Neste sentido, são necessários professores que encorajem a elaboração de hipóteses e estratégias de resolução de problemas que possibilitem a construção do número. Para a autora, quando a criança tiver construído a estrutura mental do número terá mais facilidade em assimilar os signos convencionais como os numerais à estrutura já construída. Estudos assinalam que a educação infantil é o momento fundamental para iniciar o aprendizado de conceitos e funções intelectuais complexas como a percepção, a memória, a atenção e o raciocínio lógico-matemático. Para isso faz urgente uma formação de professores que proporcione as conceituações necessárias ao ensino de matemática nas primeiras séries. Todavia, para a autora, a atual estrutura dos cursos de formação não atende às diversas necessidades dos futuros profissionais para atuarem como formadores de crianças. Acaba-se 9 esquecendo de que é preciso ensinar esses professores/educadores em formação a ensinar conceitos importantes para as crianças. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao retomar o objetivo de nosso trabalho podemos afirmar que a produção acadêmica brasileira dos últimos dez anos sobre conceito de número e educação infantil teve como sua preocupação principal a formação dos professores. A maioria dos trabalhos analisados aborda o domínio conceitual e didático dos professores das séries iniciais para o ensino deste conteúdo. Por meio de diferentes enfoques, as pesquisas concluem que essa formação é deficiente em ambas as perspectivas. A ênfase das pesquisas encontradas à formação dos professores confirma a relevância da preocupação de nosso estudo sobre o tema. Além disso, essa preocupação facilita a hipótese de que o problema atual do ensino de matemática não se refere mais ao que e como ensinar os conceitos envolvidos no número, mas em como preparar os futuros profissionais para esta tarefa. A formação de professores da Educação Infantil precisa ser repensada. Os dados mostram que são precisos educadores que compreendam os conceitos e propostas didáticas, tornando-se capaz de direcionar um trabalho alicerçado em conhecimentos fundamentados teoricamente e metodologicamente. Isso exige conhecimentos pedagógicos de ordem geral e didáticos de ordem específica, ou seja, uma didática para o ensino de matemática. Os resultados de nossa pesquisa indicam lacunas e deficiências em ambas. É impossível admitirmos que o ensino superficial fornecido por esses professores formação acadêmica questionável, possa continuar sacrificando o desenvolvimento do pensamento científico das crianças da Educação Infantil em relação aos conceitos e noções básicas da matemática. A faixa etária dos primeiros anos de escolarização constitui-se um momento fundamental para introdução de conceitos científicos. Nesse sentido, consideramos que as pesquisas realizadas por Piaget sobre a construção do número e de seus colaboradores sobre métodos de ensino desse conceito, continuam fecundas para repensar a formação dos professores da Educação Infantil. Dentro de uma pedagogia sustentada teoricamente pelo interacionismo de tipo construtivista o processo ensino-aprendizagem sustenta-se nas interações desafiadoras, questionadoras e problematizadoras entre professor e alunos e alunos-alunos. Nessa perspectiva, o trabalho realizado em grupos – grande grupo ou pequenos grupos – em um sentido de trocas e cooperação intelectual é considerado o caminho mais favorável à atividade construtiva dos 10 alunos. Uma atividade construtiva que na Educação Infantil favoreça ao levantamento e confronto de hipóteses e elaboração conjunta de conhecimentos. REFERÊNCIAS ARAUJO, Alexandre Ramos de. Prática Pedagógica em transformação: contribuições da interdisciplina Representação do Mundo pela Matemática no Curso de Pedagogia a Distância da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2009. Dissertação de mestrado – Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. BOAS, Maria Carolina Villas. Construção da noção de número na Educação Infantil: jogos como recurso metodológico. 2007. 1v. 129p. Mestrado (Educação) - Universidade Federal de São Paulo, São Paulo. 2007. BURGO, Ozília Geraldini. O ensino e a aprendizagem do conceito de número na perspectiva piagetiana: uma análise da concepção de professores da educação infantil. 2007. 1v. 181p. Mestrado (Educação para a Ciência e o Ensino de Matemática) - Universidade Estadual de Maringá, Maringá. 2007. CIRÍACO, Klinger Teodoro. Conhecimentos & Práticas de Professores que ensinam Matemática na infância e suas relações com a ampliação do Ensino Fundamental. 2012. 1v. 334p. 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