PROPOSTA DE CRIAÇÃO DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO MARINHA NO ESTADO DE PERNAMBUCO Recife, fevereiro de 2014 1 GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO SECRETARIA DE MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE – SEMAS AGENCIA ESTADUAL DE MEIO AMBIENTE - CPRH Governador: Eduardo Henrique Accioly Campos Vice – Governador: João Soares Lyra Neto Sérgio Luis de Carvalho Xavier Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade – SEMAS Hélvio Polito Lopes Filho Secretário Executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade – SEMAS Carlos André Cavalcanti Diretor Presidente da Agência Estadual de Meio Ambiente – CPRH Paulo Teixeira de Farias Diretor de Recursos Florestais e Biodiversidade – CPRH Paulo Camaroti Diretor Técnico Ambiental – CPRH Samanta Della Bella Gerente da Unidade de Gestão de Unidades de Conservação – CPRH EQUIPE TÉCNICA Assis Lacerda Jóice Brito Marcos Lacerda Samanta Della Bella CPRH CPRH CPRH CPRH PARTICIPAÇÃO Moacyr Araujo UFPE 2 SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO ....................................................................................... 4 2. CONTEXTO ................................................................................................. 5 3. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA PROPOSTA .............................................. 6 I. Localização e Abrangência da Unidade de Conservação .......................... 9 II. Aspectos Biológicos ................................................................................. 10 4. JUSTIFICATIVA PARA CRIAÇÃO DA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO ... 15 5. OBJETIVOS DA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO ..................................... 17 6. PROPOSIÇÃO DE CATEGORIA DE MANEJO ......................................... 18 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................... 21 8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ................................................................ 22 9. ANEXO I .................................................................................................... 24 3 1. APRESENTAÇÃO A presente proposta foi elaborada pela equipe técnica da Agência Estadual de Meio Ambiente – CPRH, com a participação do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, visando embasar a criação de Unidade de Conservação marinha no litoral pernambucano em ambientes estuarinos e marinhos de águas rasas, a fim de conservar a biodiversidade de forma a garantir o uso sustentável dos recursos naturais. 4 2. CONTEXTO A conservação da biodiversidade se constitui uma das diretrizes do governo estadual. Em junho de 2007, o Plano Estratégico Ambiental de Pernambuco, endossado pelo Governador Eduardo Campos, definiu seis programas, dentre eles, o Programa de Conservação da Biodiversidade que estabelece como ação prioritária, a criação do Sistema Estadual de Unidade de Conservação – SEUC. Em 2009, após discussões com a sociedade civil e aprovação no Conselho Estadual de Meio Ambiente – CONSEMA, o referido programa foi instituído por meio da Lei Estadual nº 13.787 de 08 de junho deste ano. Este ato significa um marco para a estruturação de ações mais efetivas por parte do governo de Pernambuco, no que se refere à proteção de seu patrimônio natural. O SEUC definiu, dentre outras diretrizes, que “no conjunto das Unidades de Conservação, estejam representadas amostras significativas e ecologicamente viáveis das diferentes populações, habitats e ecossistemas do Estado de Pernambuco e das suas águas jurisdicionais, salvaguardando o patrimônio biológico, geológico, geomorfológico, espeleológico, arqueológico, paleontológico e, quando couber, histórico e cultural” (Artigo V, inciso I). O Programa de Conservação da Biodiversidade, estabelecido no artigo 49 do SEUC, define uma série de metas e atividades voltadas à promoção da proteção in situ dos biomas e ecossistemas existentes em Pernambuco. Este Programa está estruturado a partir de oito componentes, destacando-se a “Identificação de Áreas Prioritárias para Criação de Unidades de Conservação Estaduais” e “Criação de Novas Unidades de Conservação Estaduais”. O estabelecimento do SEUC e do Programa de Conservação da Biodiversidade reflete o compromisso com uma política pública voltada para a sustentabilidade socioambiental, com uma visão de futuro onde o desenvolvimento equilibrado e a melhoria da qualidade de vida do povo pernambucano é a meta a ser atingida. O estabelecimento de um sistema representativo e efetivo de áreas marinhas protegidas também faz parte da estratégia global de conservação de 5 biodiversidade, sendo inclusive pactuado como meta a ser cumprida pelos países signatários da Convenção de Diversidade Biológica – CDB (CBD, 2002). O Brasil inclusive foi o primeiro país signatário da CDB, compromisso assumido durante a Eco’92, realizada na cidade do Rio de Janeiro. No Brasil, o Plano Nacional de Áreas Protegidas (PNAP) prevê a implantação de unidades de conservação marinhas como uma ferramenta importante para a conservação da biodiversidade, além da gestão e recuperação dos estoques pesqueiros. Entre as metas do Plano se inclui o estabelecimento de um sistema efetivo e representativo de áreas costeiras e marinhas protegidas; e até o ano de 2015, a meta de que todas as áreas e sistemas de áreas protegidas até então existentes, sejam integradas mediante a utilização da abordagem ecossistêmica, levando-se em consideração a conectividade ecológica e o conceito das redes ecológicas (MMA, 2006). 3. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA PROPOSTA A zona costeira brasileira possui uma extensão aproximada de 8,5 mil Km, sendo uma área ocupada desde o período da colonização e de acordo com dados do IBGE, concentra cerca de 22% da população brasileira (JUNIOR, 2005). A Zona Costeira de Pernambuco estende-se do município de Goiana, ao norte, no limite com o Estado da Paraíba, até o município de São José da Coroa Grande, ao sul, na divisa com o Estado de Alagoas. Corresponde a uma faixa de 187 km de extensão e abrange vinte e um municípios, constituindo-se no mais importante aglomerado populacional do Estado, onde se concentra cerca de 44% de sua população. (CPRH, 2001). O litoral pernambucano está situado na província sedimentar da costa brasileira que se estende desde Fortaleza (CE) até Cabo Frio (RJ). Esta plataforma apresenta como característica principal a presença de bioclastos. Segundo sua origem, estes sedimentos são classificados como do tipo biogênico, ou seja, compostos por materiais produzidos por organismos, sendo formados a partir da fragmentação de partes duras da biota, tais como conchas, ossos, dentes e tecas e incluem elevados teores de carbonato de 6 cálcio (CaCO3). A abundância de sedimentos biogênicos se deve à localização da área na porção da plataforma continental brasileira na qual predominam as algas calcárias verdes (Halimeda) seguidas das algas coralíneas ramificadas e dos briozoários e foraminíferos (COSTA et al, 2010). A Plataforma Continental de Pernambuco se caracteriza por sua reduzida largura, pouca profundidade, declive suave, águas relativamente quentes, elevada salinidade e por apresentar-se, quase inteiramente, coberta por sedimentos carbonáticos biogênicos. Sua largura varia de 42 km, no litoral norte, a 30 km em frente ao Cabo de Santo Agostinho, litoral sul, abrangendo um valor médio de 35 km. A declividade média é de 1:660 (1,5 m/km), e a profundidade de quebra da plataforma, apresentada na literatura, está em torno de 50±10 m (ASSIS, 2007). Ao longo da costa Pernambucana existem diversos Estuários, ocupados pela vegetação de mangue, este ambiente tem grande relevância para conservação da biodiversidade, além de servir de berçário da vida silvestre, funcionando como local de reprodução para muitas espécies, inclusive espécies de importância econômica. Os principais estuários do Estado de Pernambuco estão inseridos nas APAs Estuarinas, criadas pela Lei Estadual n° 9.931 de 1986, a saber: APA Estuaria dos Rios Goiana e Megaó, APA Estuarina do Rio Itapessoca, APA Estuarina do Canal de Santa Cruz, APA Estuarina do Rio Jaguaribe, APA Estuarina do Rio Timbó, APA Estuarina do Rio Paratibe, APA Estuarina do Rio Beberibe, APA Estuarina do Rio Capibaribe, APA Estuarina dos Rios Jaboatão e Pirapama, APA Estuariana dos Rios Sirinhaém e Maracaípe, APA Estuarina do Rio Formoso, APA Estuarina do Rio Carro Quebrado e APA Estuarina do Rio Una. Segundo definição de Cameron e Pritchard (1963), os estuários são um corpo de água semi-fechado que tem uma livre conexão com o mar aberto e dentro a água marinha sofre diluição pelo aporte de água continental. Portanto a característica mais fundamental de um estuário é a interação que ocorre em 7 seu interior entre a água salgada e doce (AMORIM, 2012). Sendo a faixa de transição entre os ambientes terrestre e marinho. Essa mistura forma um solo alagado, salino, rico em nutrientes e em matéria orgânica, a partir dos quais surgem os manguezais, ecossistema que portam comunidades vegetais típicas de ambientes alagados, resistentes à alta salinidade da água e do solo. Os estuários em condições naturais são biologicamente mais produtivos do que os rios e os oceanos que os formam, pois, apresentam altas concentrações de nutrientes devido à descarga de água doce na parte interna e a entrada de água do mar e também aos transportes de sedimentos em suspensão e nutrientes orgânicos e inorgânicos (DAMATTO, 2010). Os estuários também apresentam, de maneira geral, inúmeras funções vitais, como ecossistemas complexos, sendo o habitat natural de aves, mamíferos e peixes, além de serem rotas migratórias propícias a diversos peixes com valores comerciais (DAMATTO, 2010). Tornando este ambiente importante para a conservação destas espécies, além de atuar juntamente com os recifes costeiros na manutenção da biodiversidade e dos recursos pesqueiros do estado de Pernambuco. Devido a proximidade com faixa de praia, a maioria dos recifes costeiros foi pesadamente explorada tanto para pesca artesanal como comercial. Mais recentemente, o turismo descontrolado e o desenvolvimento urbano ao longo de toda a costa setentrional brasileira figuram como as maiores ameaças (FERREIRA & MAIDA, 2006). Os recifes de coral e os arrecifes, recifes de arenito ou arenitos de praia são formações que abrigam grande biodiversidade, tanto de vertebrados quanto de invertebrados, e estão distribuídos ao longo da costa pernambucana. Os Recifes de coral são ecossistemas altamente diversificados, ricos em recursos naturais e de grande importância ecológica, econômica e social. Estes 8 ecossistemas abrigam recursos pesqueiros importantes, atuam na proteção da orla marítima e contribuem com seus recursos na economia de várias comunidades costeiras (MAIDA & FERREIRA, 2006). Os arenitos de praia desempenham as mesmas funções dos recifes de coral, porém diferente dos recifes de coral, que são formados por organismos vivos, os recifes de arenito são formados pela cimentação inorgânica ocasionada provavelmente pela supersaturação de carbonato de cálcio (CaCO3) provocado pela temperatura da água elevada e o regime de mesomaré (variação de 2-4m) que gera um ciclo de ambiente seco e úmido (FERREIRA JÚNIOR, 2011). No Estado de Pernambuco os arenitos de praia encontram-se dispostos paralelamente à linha de costa na forma de faixas longas e estreitas, separadas umas das outras por depressões onde são depositadas areias ou lamas, podendo ficar com os topos emersos quando das preamares. (FERREIRA JÚNIOR, 2011). Além da função de conservação da biodiversidade os recifes submersos agem como obstáculos naturais à passagem das ondas, pois reduzem a altura da onda antes e após a sua passagem pelos recifes, em função do local e do estágio de maré, ressaltando claramente a importância dessas estruturas como defensores naturais da linha de costa submetida ao aumento do nível do mar (COSTA, 2010). I. Localização e Abrangência da Unidade de Conservação A APA Marinha Pernambuco possui aproximadamente 148.000ha, está localizada em ambientes estuarinos e marinhos de águas rasas da costa pernambucana, engloba diversos estuários, os arenitos de praia, os recifes de coral e os recifes artificiais, formados pelo naufrágio de diversas embarcações. Limita-se com os Estados de Alagoas (ao sul) e Paraíba (ao norte). Nesta APA estão os estuários dos Rios Goiana e Megaó, Rio Itapessoca, Canal de Santa Cruz, Rio Jaguaribe, Rio Timbó, Rios Jaboatão e Pirapama, Rios Ipojuca e Merepe, Rios Sirinhaém e Maracaípe, Rio Formoso, Rio Carro Quebrado e Rio 9 Uma (Anexo: Mapa da área proposta para criação da Unidade de Conservação). Fazem parte desta Unidade de Conservação os municípios de Goiana, Itapissuma, Itamaracá, Igarassú, Abreu e Lima, Paulista, Olinda, Recife, Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca, Sirinhaém, Rio Formoso, Tamandaré, Barreiros e São José da Coroa Grande. Os principais critérios que nortearam a definição do perímetro para criação da Unidade de Conservação levou em consideração a fragilidade dos ambientes estuarinos e marinhos de águas rasas e a pressão antrópica sofrida por estes ambientes, a APA engloba a maioria dos recifes artificiais, novos ambientes ricos em biodiversidade, formados pela grande quantidade de naufrágios concentrados na área de influência do Porto do Recife. II. Aspectos Biológicos A Unidade de Conservação será composta por ambientes estuarinos e marinhos de águas rasas, estes possuem grande biodiversidade e relevância ambiental para conservação. A flora destes ambientes é composta principalmente pela vegetação de mangue, no estuário; bancos de fanerógamas, no ambiente marinho e fitoplancton, que circula nestes ambientes. A vegetação característica do mangue possui baixa diversidade de espécies, sendo formada principalmente por bosques ora mistos ora monoespecíficos, que abrigam tanto a fauna terrestre quando aquática. Servindo de habitat e/ou berçário para diversas espécies. As árvores típicas deste ecossistema são: Rhizophora mangle (mangue-vermelho); Laguncularia racemosa (mangue-branco); Conocarpus erectus (mangue-de-botão) e Avicennia schaueriana (mangue-preto, canoé). Apesar da baixa diversidade do manguezal com relação à flora, o estuário possui grande diversidade quanto à fauna, principalmente com relação 10 a diversas espécies de peixes, moluscos e crustáceos, além de servirem de habitat para determinadas espécies de aves e mamíferos. As fanerógamas marinhas (gramas marinhas) formam um importante e diverso habitat na zona costeira, sendo utilizadas por diversos organismos. Seus bancos extensos provêm valiosos recursos em águas costeiras rasas em todo o mundo, sendo muitas vezes reconhecidas como habitats, com abundância, riqueza e diversidade de fauna ou flora maior que sedimentos não vegetados (MARQUES & CREED, 2008). As espécies de gramas marinhas brasileiras pertencem a três gêneros: Halodule (Família: Cymodoceaceae), Halophila (Hydrocharitaceae) e Ruppia (Ruppiaceae), englobando apenas cinco espécies, estas tendo forte afinidade com a flora do Caribe (MARQUES & CREED, 2008). Na costa brasileira foram identificadas cinco espécies de grama marinha, sendo quatro no Estado de Pernambuco, destas, Halophila baillonii é restrita a uma localidade próxima à cidade do Recife e ao Caribe, encontra-se a cerca de 30m de profundidade, porém é considerada extremamente rara, principalmente após a realização de tentativas, sem sucesso, de localização entre a Ilha de Itamaracá e o continente; Halophila decipiens possui maior distribuição, ocorrendo entre os Estados do Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro e atingido a profundidade de até 22m; Ruppia maritima possui uma distribuição mais ampla, além de Pernambuco está presente nos Estados do Piauí, Ceará, Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo encontrada sempre em estuários de águas salobras até hipersalinas e profundidades rasas de até 3m de profundidade; Halodule wrightii também possui ampla distribuição na costa brasileira, sendo mais abundante nordeste, crescem em áreas da costa que variam de abrigadas a moderadamente abrigadas até cerca de 10m de profundidade, formando extensivos bancos entre os recifes e o continente (MARQUES & CREED, 2008). Com fauna e flora bastante rica e variada, diversos organismos foram descritos ocorrendo associados às pradarias de grama marinha em 11 Pernambuco e na Paraíba, tais como diatomáceas, algas (Chlorophyta e Rhodophyta), hidrozoários, ascídias, ouriços-do-mar, crustáceos e foraminíferos, além disso, muitos animais vágeis, especialmente indivíduos pequenos ou juvenis de peixes e crustáceos, encontram abrigo entre as folhas. Outra evidência da relevância ambiental destas pradarias de grama marinha foi observado na alimentação de tartarugas verdes (Chelonia mydas) através do consumo de angiospermas marinhas, Creed (2003) observou a espécie se alimentando em um banco de H. wrightii no Arquipélago dos Abrolhos a uma taxa de 32 mordidas.min-1 (MARQUES & CREED, 2008). Creed (2003) também identificou que a ocorrência do peixe-boi marinho (Trichechus manatus manatus) parece ter grande relação com a disponibilidade de alimento. Ao longo do litoral nordestino, os valores da média de peixes-boi em áreas onde há a disponibilidade de alimento (macroalgas, fanerógamas marinhas, mangue e outros) tiveram diferença significativa para outras onde não se registrou a disponibilidade de alimento, corroborando com resultados de estudos realizados por Luna e Passavente (2010). A distribuição dos sirênios seria claramente paralela à distribuição dos bancos de fanerógamas marinhas nas regiões tropicais e subtropicais, sendo o capim-agulha (Halodule sp. e Halophila sp.) o principal alimento encontrado no trato intestinal dos peixes-boi mortos por caçadoresi. Na região de Itamaracá, estado de Pernambuco, o Projeto Peixe-Boi coleta 12t·ano-1 de H. wrightii (capim agulha) como a principal fonte de alimento para os animais em cativeiro (MARQUES & CREED, 2008). O peixe-boi marinho (Trichechus manatus manatus), espécies de mamífero aquático herbívoro, pertence à Ordem Sirenia, possuem reprodução demorada (um filhote a cada três anos), os indivíduos adultos podem medir entre 2,5 e 4,0 metros e pesar de 200 a 600kg e o animal mais velho teve sua idade estimada como maior que 50 anos (LUNA et al., 2011). A caça predatória diminuiu severamente a abundância do peixe-boi marinho e hoje a espécie é classificada na categoria “vulnerável” à extinção 12 pela IUCN (2010), ou seja, apresentam alto risco de extinção na natureza a médio prazo (LUNA & PASSAVANTE, 2010). Por serem herbívoros os peixes-bois precisam ingerir grande quantidade de alimento, comendo todo dia 8 a 13% do seu peso corporal, por isso os animais passam de seis a oito horas diárias se alimentando. No Brasil a espécie se alimenta principalmente de algas (Gracilaria cornea, Soliera sp. e Hypnea musciformes), capim marinho Halodule wrightii, folhas de mangue sendo as espécies Avicennia nitida, Rhizophora mangle e Laguncularia racemosa, ninga (Montrichardia arborescens), paturá (Spartina brasiliensis), mururé (Eichhornia crassipes) e junco (Eleocharis interstincta) (LUNA et al., 2011). Atualmente o peixe-boi marinho vive em águas costeiras entre os Estados de Alagoas ao Amapá, porém com duas descontinuidades no nordeste, sendo uma entre Barra de Camaragibe/AL e Recife/PE, com extensão aproximada de 200Km, e outra entre Iguapé/CE e Jericoacoara/CE, com extensão aproximada de 300Km (LUNA & PASSAVANTE, 2010). Segundo Luna e Passavante (2010), entre os Estados de Alagoas e Pernambuco a descontinuidade provavelmente não se caracteriza pela existência de barreira ecológica, já que a existência de estuários e áreas costeiras protegidas por recifes de coral e arenitos de praia são propícios à presença desta espécie, diferentemente da descontinuidade no Estado do Ceará, devido a condições desfavoráveis a sua presença. Desta forma é evidente que a criação da Unidade de Conservação pode contribuir de forma prática nos esforços para a conservação in situ do peixe-boi marinho, já que diversos estuários do estado podem ser potencialmente locais para reintrodução da espécie. Outra espécie integrante da lista de animais ameaçados a extinção é o mero (Epinephelus itajara), peixe marinho com longevidade maior que 35 anos, chegando a ultrapassar os 300 kg, o que lhe torna o maior representante da Família Serranidae. Os juvenis abrigam-se em mangues nos primeiros 6-7 13 anos de vida, chegando à fase adulta quando atingem cerca de um metro e passam a levar uma vida solitária junto a recifes na plataforma continental. Na época da reprodução, eles migram para próximo a manguezais, formando agregações reprodutivas. Durante este período o mero torna-se extremamente vulnerável à pesca e caça submarina. A causa para o declínio nas populações de mero reside em características inerentes à espécie, tais como: comportamento reprodutivo gregário, crescimento lento, indivíduos longevos e maturação tardia, além da ausência de comportamento de fuga perante o homem. Somam-se a esses fatores a degradação de habitats de criação, alimentação e reprodução, como mangues e recifes costeiros (REUSSSTRENZEL & ASSUNÇÃO, 2008). Os recifes constituem a base de uma comunidade marinha costeira imensamente complexa e de grande valor ecológico, sendo um dos ecossistemas marinhos mais produtivos do mundo, além de formar uma estrutura com funções ecológicas que suportam uma alta diversidade de espécies. Quando em equilíbrio, são produtivos e auto-suficientes, beneficiando não apenas seus habitantes permanentes, mas também outras espécies, que vêm se reproduzir e alimentar, uma vez que as águas tropicais circundantes são tipicamente oligotróficas. Em diferentes graus, a área recifal se constitui um armazenador de energia e de nutrientes, onde esses últimos são reciclados e consumidos rapidamente. Os recifes de coral possuem ainda grande importância como defesa costeira natural, além de fonte alimentar e de renda, através do turismo, para as comunidades costeiras (MAIDA & FERREIRA, 2006). Outro componente muito importante para manutenção do equilíbrio ecológico é a comunidade fitoplanctônica, que representa a base da teia alimentar dos ambientes aquáticos, sendo considerada como um dos principais produtores desses ecossistemas. Tal afirmativa decorre do papel exercido pelos organismos fitoplanctônicos ao produzir a matéria orgânica inicial que permitirá o funcionamento da quase totalidade das teias alimentares, sustentando, assim, os demais níveis tróficos. Nos ecossistemas estuarinos, esta comunidade é influenciada pela combinação dos fatores biológicos, 14 climatológicos e hidrológicos, sendo afetada pelas variações sazonais e diárias do ambiente, como pluviosidade, profundidade da zona eufótica, alterações do padrão de circulação da água e mudanças na sua composição química, sendo as alterações na composição do fitoplâncton refletidas em toda a biota estuarina (CPRH, 2010). A comunidade fitoplanctônica na região da APA de Guadalupe, inserida na proposta de criação desta Unidade de Conservação, possui representante distribuídos em Bacillariophyta, oito classes Dinophyta, taxonômicas: Cyanophyta, Coscinodiscophyceae, Chlorophyta, Euglenophyta, Rhodophyta e Chrysophyta, com predomínio de espécies marinhas neríticas e/ou oceânicas. No inventário florístico da região da APA de Guadalupe observa-se a predominância das diatomáceas no complexo costeiro. Os demais grupos de microalgas possuem uma menor representatividade, porém de grande relevância para o incremento da flora local (CPRH, 2010). 4. JUSTIFICATIVA PARA CRIAÇÃO DA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO O Estado de Pernambuco possui Unidades de Conservação no âmbito Federal, Estadual e Municipal, distribuídas nos Biomas Caatinga, Mata Atlântica e Aquático, destas, 71 Unidades foram criadas a nível estadual. Várias destas Unidades de Conservação estão em ambientes costeiros, por vezes sobrepostas, porém poucas englobam ambientes costeiros e marinhos. As Unidades de Conservação que possuem o ambiente marinho estão concentradas nos extremos do litoral norte e sul do Estado, além do distrito de Fernando de Noronha. No Litoral Sul, a Área de Proteção Ambiental – APA Costa dos Corais – PE/AL (Gestão Federal – ICMBio), o Parque Natural Municipal – PNM Forte de Tamandaré (Gestão Municipal – Prefeitura de Tamandaré) e a APA de Guadalupe (Gestão Estadual – CPRH) possuem áreas marinhas sobrepostas, cuja gestão é realizada de forma participativa e integrada entre as Unidades de Conservação. No Litoral Norte, a APA de Santa Cruz (Gestão Estadual – CPRH) e a Reserva Extrativista – RESEX Acaú-Goiana – PE/PB (Gestão 15 Federal – ICMBio) possuem áreas marinhas contiguas, podendo haver gestão integrada deste ambiente. Pernambuco, por sua concentração de ecossistemas ricos e diversos, tem sido palco, há vários séculos, de degradação ambiental intensa causada pelos processos de desenvolvimento. As maiores ameaças à biodiversidade marinha e costeira são a degradação e/ou descaracterização de habitats, sobreexplotação para consumo e fontes de poluição de origem terrestre. As alterações causadas pelo homem têm descaracterizado, degradado e destruído os ecossistemas costeiros e marinhos em larga escala, levando muitas espécies, e até mesmo comunidades inteiras à extinção. Um exemplo disso é a vertiginosa queda de abundância de recursos pesqueiros e conseqüente queda na produção de pescados na costa brasileira de norte a sul. Neste contexto, a proteção desses ambientes pode garantir a manutenção e conservação de populações de diversas espécies da fauna e flora, além do estabelecimento de estratégias para ações de proteção, manejo e monitoramento dos mesmos, principalmente com relação à existência de espécies ameaçadas de extinção, a exemplo das espécies de tartarugas marinhas, o peixe-boi (Trichechus manatus manatus) e o mero (Epinephelus itajara). Neste sentido, a criação da APA Marinha Pernambuco pretende contribuir de forma geral para a conservação, preservação, recuperação e restauração desses ecossistemas, bem como ampliar a representatividade dos mesmos através da criação de ambientes protegidos legalmente, com enfoque no uso sustentável e conservação dos ambientes estuarinos e marinhos de águas rasas, que estão mais suscetíveis à pressão antrópica direta e indireta, ocasionada principalmente pelo turismo desordenado nos recifes de coral e arenitos de praia, pesca predatória, sobrepesca, degradação ambiental dos rios e estuários que influenciam diretamente o ambiente marinho. 16 5. OBJETIVOS DA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO A especificação dos objetivos de conservação e manejo da área é o primeiro passo para a definição da categoria de UC que melhor se adéqua a estes objetivos. Assim, foi definido como função primordial para a criação da unidade de conservação o seguinte: Favorecer o uso sustentável dos recursos naturais; Proteger as espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção; Promover e apoiar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental, articulando com diversas instituições superiores de ensino e pesquisa; Favorecer condições para realização das atividades de ecoturismo e turismo de aventura de forma sustentável; Possibilitar a formação de Corredores de biodiversidade com demais áreas protegidas; Garantir a conservação dos recifes coralígenos e de arenito, com sua fauna e flora; Ordenar o turismo ecológico, científico e cultural, e demais atividades econômicas compatíveis com a conservação ambiental; Ordenar a atividade de pesca comercial artesanal, de subsistência e amadora de forma sustentável; Preservar as áreas de reprodução, desenvolvimento e alimentação da fauna e flora marinha e estuarina, especialmente para as espécies ameaçadas; Incentivar a prática de atividades de baixo impacto; Mapear zonas de uso restrito a fim de: - Recuperar a estrutura populacional natural de espécies exploradas (idade, crescimento, gênero, e diversidade genética); - Proteger a biodiversidade em todos os níveis e todos os taxa; 17 - Eliminar os impactos dos aparelhos de pesca e da pesca acidental; - Oferecer locais livres de distúrbios para desova, alimentação, refúgio e assentamento; - Permitir a obtenção de dados essenciais para o manejo pesqueiro (p. ex. mortalidade natural); - Fornecer locais para monitoramento de longo termo que sirvam como referência e controle, e onde Projetos de Pesquisa específicos possam ser desenvolvidos sem serem afetados por atividades humanas. - Criar oportunidades para a população vivenciar momentos em áreas sem distúrbios ou modificações, e assim desfrutar de uma experiência natural genuína; - Permitir que a sociedade perceba e compreenda os efeitos da ação humana e os benefícios do manejo. 6. PROPOSIÇÃO DE CATEGORIA DE MANEJO O Sistema Estadual de Unidades de Conservação – SEUC foi instituído por meio da Lei Estadual nº 13.787 de 8 de junho de 2009, entendendo-se por unidade de conservação - UC o “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. Dentre seus objetivos, destacam-se: Contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais estaduais; Promover a utilização dos princípios e práticas de conservação da natureza no processo de desenvolvimento sustentável estadual; Proteger, no âmbito estadual, as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e, quando couber, histórica e cultural; Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; 18 Ampliar a representatividade dos ecossistemas estaduais em áreas protegidas por Unidades de Conservação; Proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa científica, estudos e monitoramento ambiental; Favorecer condições e promover a educação e interpretação ambiental, a recreação em contato com a natureza e o ecoturismo; Priorizar os ecossistemas que se encontrem mais ameaçados de alteração, degradação ou extinção. As unidades de conservação – UCs integrantes do Sistema Estadual de Unidades de Conservação – SEUC dividem-se em dois grupos, com características específicas: Unidade de Proteção Integral – Com o objetivo básico de preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais. Unidade de Uso Sustentável – Com o objetivo básico de compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela de seus recursos naturais. As categorias de manejo das UCs do grupo de Proteção Integral são: Reserva Biológica – REBIO, Estação Ecológica – ESEC, Parque Estadual – PE, Monumento Natural – MONA, e Refúgio de Vida Silvestre – RVS. As categorias de manejo das UCs do grupo de Uso Sustentável são: Área de Proteção Ambiental – APA, Área de Relevante Interesse Ecológico – ARIE, Reserva de Fauna, Floresta Estadual – FLOE, 19 Reserva Extrativista – RESEX, Reserva de Desenvolvimento Sustentável – RDS, Reserva de Floresta Urbana – FURB, e Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN. O Sistema Estadual de Unidades de Conservação – SEUC define categorias de UCs de Proteção Integral e de Uso Sustentável. A definição de uma categoria de manejo deve estar relacionada aos objetivos de conservação que se deseja alcançar para uma determinada área, considerando para isso além da significância ecológica da sua fauna e flora, os atributos naturais e inserção no contexto nacional e regional. A criação da Unidade de Conservação na costa pernambucana além de aumentar a representatividade de proteção dos ambientes estuarinos e marinhos de água rasa, legalmente protegidos no Estado de Pernambuco, deve compatibilizar a conservação da biodiversidade com o uso sustentável dos recursos naturais. Tendo em vista que a área proposta para criação da Unidade de Conservação abrange uma região onde já estão consolidados diversos uso, tais como pesqueiros, turísticos e de lazer, entende-se que a categoria da presente Unidade de Conservação deva ser de USO SUSTENTÁVEL a fim de garantir o USO DIRETO dos recursos naturais. O uso direto é definido como aquele no qual a obtenção de serviços e benefícios da natureza pelo homem se dá com apropriação e/ou consumo dos recursos naturais, e não é permitido nas Unidades de Conservação de proteção integral. Dentre as categorias de Uso Sustentável, a que se mostrou mais adequada a presente proposta foi a APA – Área de Proteção Ambiental. A APA é uma área em geral extensa, com certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. 20 O principal objetivo desta Unidade de Conservação será promover o ordenamento das atividades e usos através de seu zoneamento, assim como propor medidas mitigadoras para as pressões antrópicas que causam degradação ambiental e consequentemente criar mecanismos para garantir a conservarão da biodiversidade. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com essa proposta pretende-se embasar o projeto de criação da APA Marinha Pernambuco, Unidade de Conservação de uso sustentável, com aproximadamente 148.000ha, englobando áreas estuarinas e marinha de águas rasas da zona costeira do Estado de Pernambuco, incluindo dentro de seus limites os principais estuários pernambucanos, recifes artificiais, arenitos de praia e recifes de coral, onde está inserida grande parte da biodiversidade associada aos ambientes costeiros. 21 8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ASSIS, H. M.B.; Influência da hidrodinâmica das ondas no zoneamento litorâneo e na faixa costeira emersa, entre Olinda e Porto de Galinhas, Pernambuco; Tese de Doutorado, UFPE; Recife/PE; 2007. DAMATTO, S.R.; Radionucleídeos naturais das séries do 238 U e 232 Th, elementos traço e maiores determinados em perfis de sedimento da Baixada Santista para avaliação de áreas impactadas; Tese de Doutorado; IPEN/USP; São Paulo/SP; 2010. 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