PROJETO CONSTRUÇÃO E TESTE DE UM SISTEMA PARA MEDIDAS DE PRECISÃO DE ÍNDICES DE REFRAÇÃO USANDO O MÉTODO DA PROFUNDIDADE APARENTE Caio Eduardo do Amaral Bittencourt* Luciana Reyes Pires Kassab ** Resumo Este trabalho tem como objetivo projetar, construir e testar um sistema mecatrônico para medidas de precisão de índices de refração de amostras sólidas e transparentes, usando o método da profundidade aparente. Este método baseia-se no cálculo do índice de refração pela relação entre a espessura física da amostra com sua profundidade aparente ou espessura óptica; a espessura óptica é medida com um microscópio, ajustando-se o foco da imagem do feixe de luz na amostra. O sistema aqui proposto fornecerá para estas medidas precisão de aproximadamente 0,001%. Será usado para medir os índices de refração das amostras de vidro confeccionadas em nosso laboratório (amostras com altos índices de 2,5, formadas por óxidos de metais pesados e óxido de gálio, e amostras de borato, com índices de 1,6). Este trabalho permitirá medir com alta precisão os índices de refração das amostras em estudo no nosso laboratório e dominar uma nova técnica de caracterização destas amostras. precisão das medidas dos índices de refração e não ficaremos limitados a amostras com espessuras de 3mm; será possível então medir com alta precisão os índices de refração das amostras em estudo no nosso laboratório e dominar uma nova técnica de caracterização. Poderá ser usado em escala industrial para medidas de várias amostras. Cabe ressaltar que não encontramos nenhum laboratório que atendesse nossas necessidades, daí o motivo deste projeto. O Método da Profundidade Aparente A Fig.1 apresenta a refração de um feixe de luz que incide em uma amostra de vidro com espessura AP. O método Duc de Chaules ou método da profundidade aparente, relaciona a espessura física (AP) de uma amostra sólida transparente com sua espessura óptica (espessura aparente ou AC). Introdução O método da profundidade aparente [1,2] é usado para medir o índice de refração de amostras sólidas pela relação entre a espessura física da amostra e sua profundidade aparente ou espessura óptica; a espessura óptica é medida com um microscópio, ajustando-se o foco da imagem do feixe de luz, na amostra. O projeto proposto usará o referido método associado a um sistema mecatrônico que permitirá precisão de 0,001%. Sem o sistema mecatrônico só é possível medir, com precisão da ordem de 1%, índices de amostras com no mínimo 3mm de espessura. Este equipamento será usado para medir os altos índices de refração das amostras de vidro confeccionadas no nosso laboratório, feitas com óxidos de metais pesados e óxido de chumbo [3,4,5,6,7,8] , com índices da ordem de 2,5. Para estas amostras os refratômetros, normalmente usados para vidros de sílica e borato, não servem pois só medem valores de até 1,7 daí o motivo do nosso interesse na construção deste sistema. Também servirá para medir índices de refração mais baixos, como os dos vidros de borato também confeccionados no nosso laboratório. Com este sistema aumentaremos de forma significativa a Fig.1: Representação esquemática da refração da luz em uma amostra sólida e transparente com espessura AP. tgα ≅ sen α e tg ≅ sen n´= AB tg AC ⇒ n´= AB ⋅AP ∴ n´= AP ⇒ n´= AB tgα AC AB AC AP A luz incidente no ponto P é refratada e forma um ângulo α com a normal PA; no ponto B a luz é refratada novamente e forma com a normal um ângulo (α≠ ). O índice de refração n´ do vidro é calculado através da lei de Snell, supondo α e suficientemente pequenos, isto é: onde AP é a espessura física e AC a espessura óptica. Descreveremos a seguir o procedimento para efetuar a medida AC: usando este método. * Aluno de Iniciação Científica do MPCE e bolsista da FAPESP ** Profa. Plena da FATEC, Doutora em Ciências pelo IFUSP. 13 A medida da espessura óptica é feita com microscópio conforme mostra a Figura 2. Inicialmente focalizamos a imagem do feixe de luz do microscópio (Fig. 2a onde D1 é a distância entre a objetiva e a mesa do microscópio na ausência da amostra de vidro). A amostra de vidro é então colocada no microscópio. Para que a imagem seja focalizada no vidro desloca-se a mesa do microscópio e mede-se a distância CP (Fig.2b onde D2 é a distância entre a objetiva e a mesa do microscópio na presença da amostra de vidro). Conhecendo CP e a espessura da amostra AP calculamos a espessura óptica AC, isto é: AC=APCP Fig.2a:Focalização da Fig.2b: Focalização da imagem sem a amostra de imagem com a amostra de vidro vidro A seguir descrevemos o sistema mecatrônico (Fig. 3) que será desenvolvido para medidas dos índices de refração pelo “método de profundidade aparente” explicado anteriormente. Tal procedimento aplica-se a amostras de vidros que tenham bom polimento e faces paralelas. 14 Descrição do Ajuste Conclusão O ajuste é feito através do procedimento que segue. Focaliza-se, manualmente a imagem do feixe de luz do microscópio deslocando-se verticalmente a base do microscópio. Esta imagem é digitalizada e gravada, por meio de uma placa digitalizadora. Esta posição da base do microscópio é usada como referência, isto é como “zero” do sistema mecatrônico. Uma placa microcontroladora (pic) aciona o motor de passo M1-A para deslocar a base móvel do microscópio para cima e tocar o terminal de contato (TC-1) a fim de registrar o deslocamento máximo possível na ausência da amostra (y). Em seguida o motor de passo M1-A é acionado para retornar a base do microscópio para a posição “zero”. Desta forma o sistema fica calibrado para efetuar a medida do Índice de Refração e da espessura da amostra em questão. Com a concretização deste trabalho será possível medir com alta precisão os índices de refração das amostras em estudo no nosso laboratório sobretudo aquelas que têm índices superiores a 1,7 e para as quais o refratômetro de Abbe não serve. Bibliografia 1. 2. 3. 4. Procedimento para Medidas do Índice de Refração e da Espessura da Amostra Coloca-se manualmente a amostra na posição inicial (conforme mostrado na Figura 3) e inicializa-se o sistema. O motor de passo M2-A aciona a esteira rolante e desloca a amostra até a 2a posição (Fig. 3) relativa ao terminal de contato (TC-1). O motor de passo M1-A desloca a base móvel do microscópio para cima até que a amostra toque o TC-1. Esta medida de deslocamento (x) é gravada e usada para calcular a espessura física da amostra (AP = y-x). Em seguida o motor pára e retorna a base do microscópio para a posição “zero”. O motor de passo M2-A aciona novamente a esteira rolante para deslocar agora a amostra para a 3a posição (Fig. 3) onde ocorrerá a focalização da imagem do feixe de luz. Descrevemos a seguir o procedimento usado para tal focalização. O motor de passo M1-A é acionado para mover a base do microscópio para baixo até que a imagem do feixe de luz, digitalizada, obtida na presença do vidro, seja equivalente a gravada na ausência do mesmo. Neste momento o motor pára e o programa calcula o deslocamento necessário para esta focalização (CP- Figura 2). O cálculo do índice de refração é feito utilizando os dados gravados anteriormente relativos a espessura física (AP) e a espessura óptica (AC=AP-CP), isto é, usando a equação deduzida na Introdução : n´ = AP / AP-CP = Espessura Física / Espessura Ótica. O programa aciona os motores de passo que retornam o sistema para as condições iniciais para que novas medidas sejam efetuadas. 5. 6. 7. 8. F. Donald Bloss, “An introduction to the methods of Optical Crystallography” (Holt, Rinehart and Winston, Inc, USA,1961). W.R.Dumbaugh, “Lead Bismuthate Glasses”, Physics and Chemistry of Glasses, 27, 119-123 (1986). C.M.S.P.Mendes, L.R.P.Kassab. “Interferência do neodímio em vidros de óxido de metais pesados e óxido de gálio” , VII Simpósio de Iniciação Científica da USP, novembro de 1999. J.G.Clemente, L.R.P.Kassab. “Estudo de amostras de vidros de óxido de metais pesados com óxido de gálio”, VII Simpósio de Iniciação Científica da USP, novembro de 1999. 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