POTENCIAL DA PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE DA PECUÁRIA DE CORTE DO MATO GROSSO [email protected] APRESENTACAO ORAL-Economia e Gestão no Agronegócio THIAGO BERNARDINO DE CARVALHO1; LEONE VINICIUS FURLANETTO2; SERGIO DE ZEN3; GABRIELA GARCIA RIBEIRO4. 1,3,4.ESALQ/USP, PIRACICABA - SP - BRASIL; 2.UFRJ, RIO DE JANEIRO - RJ - BRASIL. POTENCIAL DA PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE DA PECUÁRIA DE CORTE DO MATO GROSSO PRODUCTIVITY AND PROFITABILITY POTENTIAL OF BEEF CATTLE FROM THE STATE OF MATO GROSSO Grupo de Pesquisa: Economia e Gestão no Agronegócio Resumo O Estado brasileiro Mato Grosso é um dos principais produtores brasileiros da pecuária bovina de corte, mesmo tendo um sistema caracterizado como pouco produtivo. Para acompanhar a crescente demanda de consumo de carne e contornar alguns dos problemas ambientais relacionadas ao setor, a solução apontada é a intensificação da produtividade. Através de simulações desenvolvidas pelo método Painel, chegou-se ao potencial da produtividade e rentabilidade da pecuária bovina de corte mato-grossense. Os resultados reafirmam a baixa produtividade e apontam que, mesmo não sendo uma atividade desfavorável, é pouco lucrativa (retorno de apenas 1,92% do capital investido). Comparando o Painel contendo a média estadual com aqueles apresentando maiores taxas de lotação e rebanho com índices zootécnicos ideais, torna-se evidente o ganho na produtividade e rentabilidade em sistemas com tecnologia avançada de produção. De acordo com as simulações, é possível dobrar a produção aumentando a taxa de lotação em pasto de 0,97 UA para 1,6 UA/ha, com um rebanho melhorado. Porém, o investimento desembolsado na reforma de pastagem só compensa se a intensificação da lotação desse mesmo rebanho for acima de 2,0 UA/ha, aumentando tanto a produtividade quanto a rentabilidade em 2,5 vezes. Com 2,5 UA/ha, lotação máxima estimada, a produção poderá triplicar, tornando o lucro do setor quatro vezes maior que a obtida atualmente. Palavras-chaves: Intensificação; Painel; Pecuária bovina Abstract The Brazilian State of Mato Grosso is one of the main producers of beef cattle, even though it has a production system characterized by low productivity. To accompany the growing 1 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural demand of meat comsumption and to avoid some of the environmental problems related to the sector, the solution suggested is productivity intensification. Through simulations developed by the Panel method, the productivity and profitability potential of beef cattle from the State of Mato Grosso has been shown. The results confirm low productivity and show that, although not being an unfavorable activity, beef cattle producer is low profit sector (return of only 1.92% invested capital). Comparing the Panel results containing the state average with those Panel presenting higher stocking rates and the herd with ideals zootecnics index, the gain in productivity and profitability in systems with high tech production becomes evident. According to the simulations, it is possible duplicate the production by increasing the stocking rate on pasture from 0.97 Animal Unit (AU)/ha to 1.6 AU/ha, with an improved herd. But, the investment paid in pasture reform is worthwhile only if stocking intensification of this same herd is above 2.0 AU/ha, increasing both productivity and profitability 2.5 times. With an estimated maximum stocking rate, 2.5 AU/ha, the production may triple, making the sector profit four times higher than that obtained currently. Key Words: Intensification; Panel; Bovine livestock. 1. INTRODUÇÃO A atividade de bovinocultura, em Mato Grosso, responde por diferentes etapas no processo histórico e do desenvolvimento econômico passando pela ocupação e manutenção do território. O núcleo pioneiro onde se fazia a “criação de gado” foi o Pantanal, seguido pela introdução da pecuária no Cerrado mato-grossense no século XVIII. Técnicas rudimentares permitiram, durante anos, a implantação e formação de pastagens chamadas genericamente, capoeira. Utilizando pastos naturais e pequenos capões de mata, essa forma extensiva de produzir promoveu o crescimento do rebanho desde o século XVI até os tempos atuais (BONJOUR et al., 2008). A modernização da pecuária de corte em Mato Grosso está apenas iniciando. No entanto, o Estado ocupa um lugar de destaque nacional, por possuir o maior rebanho brasileiro, grande capacidade de expansão produtiva e expressiva rede industrial. Nos últimos anos, os produtores passaram por momentos de dificuldade, principalmente pela desvalorização do preço do boi, motivo pela atividade ser considerada pouco lucrativa. Porém, de setembro de 2007 a novembro de 2008, com a boa recuperação da arroba do boi, a rentabilidade por hectare da pecuária de corte, esteve positiva, considerando-se os Custos Operacionais Totais (COT). Esse curto período – se comparado às dezenas de meses em que a conta era negativa – de ganho de fôlego, no entanto, acabou em dezembro, quando a atividade fechou a rentabilidade negativa (Figura 1). Em Mato Grosso, o Custo Operacional Efetivo (COE) teve aumento de 29,78% de jan‐dez/08 e o COT, de 25,55%, ao passo que o boi gordo valorizou apenas 15,3% (CEPEA, 2009). Alavancado pelo crescimento populacional mundial e aumento da renda per capita, principalmente dos países em desenvolvimento, a expectativa é que o consumo mundial de carne bovina cresça entre 12% a 14% até 2018 (SCOT, 2009). Somente a intensificação da 2 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural produtividade poderá suprir essa crescente demanda, destacando novamente os países emergentes, pelo potencial produtivo ainda pouco explorado. Figura 1 – Evolução da receita e do custo por hectare no Brasil de 2007 a 2008. 450 400 350 300 250 200 150 COT/hectare COE/hectare dez/08 nov/08 out/08 set/08 ago/08 jul/08 jun/08 mai/08 abr/08 mar/08 fev/08 jan/08 dez/07 nov/07 out/07 set/07 ago/07 jul/07 jun/07 mai/07 abr/07 mar/07 fev/07 jan/07 100 Receita/hectare Fonte: Cepea/CNA (2009) As projeções de produção de carne bovina para o Brasil mostram que o setor deve apresentar intenso dinamismo nos próximos anos, com crescimento de 3,5% ao ano no período de 2008/2009 a 2018/2019; a produção anual de carne bovina passará de 10,4 milhões de toneladas em 2008 para 15,5 milhões em 2019 (Figura 2), acréscimo de 49,4% (AGE/MAPA, 2009). Desse modo, para que Mato Grosso continue figurando entre as potências nacionais da pecuária de corte – acompanhando essa crescente demanda do mercado – torna-se necessário e iminente a efetiva modernização da atividade. Figura 2 – Projeção brasileira de produção de carnes. 3 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Fonte: AGE/MAPA (2009) A intensificação da produtividade também é considerada a melhor saída para contornar problemas ambientais atualmente relacionados à pecuária de corte, como: o desmatamento, para formação de novas pastagens; a degradação do solo, resultante do baixo investimento na manutenção de pastagens; e emissão de gases efeito estufa (GEE) pelo rebanho bovino. Apesar de grande emissora, a pecuária mostra ter um grande potencial de seqüestro de carbono, através de pastagens bem manejadas. O investimento em pastagem aumenta a produtividade animal (e conseqüentemente a rentabilidade da atividade), inibe aberturas de novas áreas, elimina o risco da erosão e compactação do solo, além reduzir a quantidade de GEE emitidos por quilo de carne produzida pelo aumento do seqüestro de carbono (DE ZEN et al., 2008). Perante todas as vantagens descritas e a necessidade de um setor mais produtivo, o presente estudo tem como objetivo apontar o potencial da produtividade e rentabilidade da pecuária bovina de corte no Estado de Mato Grosso. Para tanto, utilizou-se o método Painel, cujos dados zootécnicos e de custos operacionais foram atualizados com a média estadual no período de 2008, seguida de novas simulações, alterando os índices produtivos para os considerados ideais. 2. MATERIAL E MÉTODOS Para este trabalho, foram utilizados dados secundários sobre o custo da produção da pecuária de corte em Mato Grosso; produção animal e agrostológica; e inferências geográficas e estatísticas. Gil (2000) aponta como a maneira de se obter dados e informações a partir de materiais já elaborados. 2.1. Painel Existe grande heterogeneidade quando se trata de propriedades caracterizadas pela área física, tamanho do rebanho, sistema de produção, nível de tecnificação, etc. Para contornar essa questão e, ao mesmo tempo, aproximar a análise da realidade, torna-se necessária a definição de uma propriedade que melhor represente as existentes na região. Essas propriedades “típicas”, geralmente, possuem tamanhos médios e sistemas de produção não muito tecnificados e nem arcaicos, situando-se dentro de padrões modais do universo considerado (CEPEA, 2003). 4 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Embora seja difícil caracterizar uma única propriedade e um sistema de produção representativo da região em estudo, o método denominado Painel busca, através da experiência local dos produtores, caracterizar a propriedade que seja mais comumente encontrada. Com isso, os índices de produtividade, custos de implantação, custos fixos e variáveis, ou seja, todos os números resultantes do Painel, tendem a ser bastante próximos da realidade regional (CEPEA, 2003). 2.2. Simulação dos novos Painéis Para a realização de um único Painel que representasse toda a pecuária de corte de Mato Grosso, utilizou-se de informações dos Painéis já existentes, elaborados pela equipe de Custos de Produção da Pecuária de Corte/CEPEA/Esalq/USP, tendo como sistema de produção o Ciclo completo, das cidades de Alta Floresta (extremo norte de MT), Barra do Garças (sudeste) e Cáceres (sudoeste). A partir deles, chegou-se a um consenso quanto aos índices de produtividade do rebanho, insumos utilizados, mão-de-obra, inventário e área efetiva da propriedade projetada. Após, todos os valores (bens e insumos) foram atualizados com a média de preços pesquisados em MT, no período de Janeiro a Dezembro de 2008; e para o cálculo da movimentação do rebanho, também se utilizou a média 2008 dos Indicadores Esalq/BM&F da arroba do Boi Gordo e da Vaca, na praça de Cuiabá (venda a prazo), e para o Bezerro, os valores praticados no Mato Grosso do Sul. A partir desse primeiro painel projetado, chamado de “Média MT”, foram então originados outros sete, com variação da taxa de lotação e índices zootécnicos do rebanho: 1. “0,9UA IZ ideais”: índices zootécnicos melhorados, porém, com a mesma taxa de lotação do painel Média MT (0,97 Unidade Animal - UA/ha). 2. “1,6UA IZ iguais”: mesmos índices zootécnicos encontrados no painel Média MT, porém, com aumento da taxa de lotação para 1,6 UA/ha. 3. “1,6UA IZ ideais”: índices zootécnicos melhorados e com aumento da taxa de lotação para 1,6 UA/ha. 4. “2,0UA IZ iguais”: mesmos índices zootécnicos, porém, com aumento da taxa de lotação para 2,0 UA/ha. 5. “2,0UA IZ ideais”: índices zootécnicos melhorados e com aumento da taxa de lotação para 2,0 UA/ha. 6. “2,5UA IZ iguais”: mesmos índices zootécnicos, porém, com aumento da taxa de lotação para 2,5 UA/ha. 7. “2,5UA IZ ideais”: índices zootécnicos melhorados e com aumento da taxa de lotação para 2,5 UA/ha. Outra importante modificação realizada nestes Painéis (exceto no 0,9UA IZ ideais, pois manteve a taxa de lotação original), foi a implementação da Adubação no item Formação/Reforma das Pastagens, e da Calagem + Adubação no item Manutenção das Pastagens, assim como o aumento anual de 10% para 25% da área de manutenção. Essas alterações se fazem necessárias para compensar o acréscimo da taxa de lotação do rebanho, proporcionando assim, condições mínimas de pastagem para os animais manter o ganho de peso diário. Em relação à suplementação mineral, considerou-se o consumo diário/UA de 100gr para os Painéis em que os índices zootécnicos permaneceram iguais ao do Média MT, 5 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural enquanto que para os Painéis com os índices zootécnicos melhorados o consumo diário/UA foi aumentado para 150gr, pois, animais mais produtivos também possuem maiores exigências nutricionais. 2.3. Taxa de Lotação e Índices Zootécnicos A área encontrada em uma propriedade típica de ciclo completo em MT, segundo os painéis estudados, foi de 802 ha. É possível aproveitar melhor o espaço utilizado na atividade aumentando a taxa de lotação em pasto, que atualmente é de 0,97 UA/ha. De acordo com Oliveira et al. (2006), um sistema com tecnologia avançada de criação deve ter uma lotação de aproximadamente 1,6 UA/ha, objetivando alcançar ≥ 2,0 UA/ha. As mesmas modificações feitas no item Formação/Reforma das Pastagens dos Painéis, e seu conseqüente custo de implantação e capacidade máxima de lotação (2,5 UA/ha), foram utilizados em todas as simulações com taxa de lotação superior a 0,9 UA, baseado no cálculo do Anexo 1. Assim, o valor considerado na reforma do Painel 1,6UA IZ iguais, por exemplo, é o mesmo do Painel 2,5UA IZ ideais. Para as simulações dos Painéis com o rebanho apresentando índices zootécnicos melhorados, utilizaram-se como referência os índices proposto para sistemas tecnológicos mais evoluídos: Tabela 1 – Índices zootécnicos médios do rebanho brasileiro e em sistemas tecnológicos mais evoluídos. 1 Sistema com 1 1 Média Sistema 2 Índices tecnologia Meta Brasileira Melhorado avançada ≥ 90% 60% 70-80% > 80% Natalidade 8% 6% 4% 2% Mortalidade até a desmama 54% 65% 75% 88% Taxa de desmama 4% 3% 2% 1% Mortalidade pósdesmama 4 anos 3-4 anos 2-3 anos 1,7-2,6 Idade a 1ª cria 21 meses 18 meses 14 meses 12 Intervalo de partos 4 anos 3 anos 2,5 anos 1-2 Idade de abate 17% 20% 22% ≥ 35% Taxa de abate 200 kg 220 kg 230 kg 245 kg Peso de carcaça 53% 54% 55% 55% Rendimento de carcaça 0,9 an/ha 1,2 an/ha 1,6 an/ha ≥ 2 UA/ha Lotação 34 53 80 ≥ 200 Kg de carcaça/ha 15-20% Taxa de descarte de matrizes 1 Adaptado de Zimmer & Euclides Filho (1997). 2Proposto por Oliveira et al. (2006). Fonte: Oliveira et al. (2006) 6 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural A partir desses dados, foi feito uma revisão nos indicadores de produção encontrados no painel Média MT (Tabela 2), tendo como objetivo a “formação” de um rebanho aprimorado e ao mesmo tempo compatível com a realidade do Estado (Tabela 3). Tabela 2 – Média dos índices zootécnicos do rebanho bovino de corte de Mato Grosso, extraídos de Painéis de fazendas típicas de ciclo completo. Média Mato Grosso 3% Taxa de Mortalidade pré-desmama (%) 1% Taxa de Mortalidade pós-desmama (%) 31 Relação vaca/touro 17 Intervalo entre partos (meses) 36 Idade a primeira cria (meses) 5 Crias produzidas/vaca 10 anos Idade total da vaca 65% Taxa de natalidade (matrizes) 15% Tx Rep. Desc./matrizes 22% Tx Rep. Touros/ano 24,5% Tx de desfrute 33 meses Idade de abate do boi gordo 0,97 UA/ha Taxa de lotação em área de pasto Fonte: Custos de Produção da Pecuária de Corte/CEPEA/Esalq/USP Índices Iniciando pelos índices reprodutivos, idealiza-se obter um maior aproveitamento das matrizes pelo: aumento da Taxa de natalidade (65% para 75%), redução da Idade à primeira cria de 36 meses (3 anos) para 30 (2,5 anos), e o Intervalo entre Partos de 17 para 13 meses. Assim, as crias produzidas por matriz durante toda sua vida útil, subiriam de 5 para 8. Ainda com um correto manejo sanitário, nutricional e reprodutivo, a taxa de mortalidade no prédesmame poderia ser reduzida de 3 para 2,5%. A idade de abate do boi gordo também pode ser diminuída (de 33 para 29 meses) aumentando o ganho de peso diário para 550gr, 100 a mais do que o encontrado no painel original. Esse ganho pode ser facilmente alcançado pelas reformas de pastagem e suplementação proposta nos novos painéis. Tabela 3 – Indicadores de produção idealizados, utilizado na simulação dos Painéis com rebanho melhorado. Índices Taxa de Mortalidade pré-desmama (%) Taxa de Mortalidade pós-desmama (%) Relação vaca/touro Intervalo entre partos (meses) Proposto 2,5% 1% 31 13 7 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Idade a primeira cria (meses) Crias produzidas/vaca Idade total da vaca Taxa de natalidade (matrizes) Tx Rep. Desc./matrizes Tx Rep. Touros/ano Tx de desfrute Idade de abate do boi gordo Taxa de lotação em área de pasto 30 8 11 anos 75% 16% 23% 26% 29 meses 1,61 e UA/ha 2,0 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO O Painel Média MT, representante de uma propriedade típica de ciclo completo em Mato Grosso, apresenta um rebanho de 1.406 cabeças, com venda anual de 344 animais, incluindo bezerros, bezerras, novilhas, bois gordos, além de touros e vacas de descarte, totalizando 4.070 arrobas produzidas e uma Receita de R$ 327.342,72. Isso corresponde a 5,07 arrobas produzidas e R$ 408,16 por hectare. O COE foi de R$ 176.913,52 (R$ 220,59/ha), enquanto que a Depreciação custou R$ 51.879,45, gerando um COT de R$ 228.792,97 (R$ 285,28/ha). Nesse cenário, o produtor paga tanto os custos de produção quanto os de depreciação (ou seja, se mantém viável na atividade no curto e longo prazo, pois consegue investir e renovar sua estrutura de produção), tendo uma rentabilidade anual de R$ 98.549,75 (R$ 122,88/ha). Quando analisamos o Custo de Oportunidade de Capital (COC), representado aqui por 6% do total do Capital Investido (CI = R$ 5.128.412,14), chegamos a quantia de R$ 307.704,73. Isso somado ao COT, completa o Custo Total (CT) da atividade, que é de R$ 536.497,70. No balanço final, o produtor deixa de ganhar R$ 209.154,98 (R$ 260,79/ha), caso aplicasse seu capital em caderneta de poupança, por exemplo, demonstrando ser uma atividade com baixa lucratividade (1,92% do CI). A Tabela 4 mostra todos os resultados obtidos dos Painéis simulados. Comparando o Painel Média MT com o 0,9UA IZ ideais, podemos observar que, mesmo possuindo a mesma taxa de lotação (0,97 UA/ha), o rebanho total do segundo é maior. Uma das características do método Painel é a representação do rebanho de uma forma estática, ou seja, são considerados todos os animais presentes durante 1 ano completo, inclusive aqueles vendidos no decorrer deste ciclo. Ainda analisando esses dois Painéis, torna-se notável o ganho de produtividade e rentabilidade no qual o rebanho apresenta índices zootécnicos melhorados. Houve o aumento na venda anual de 344 para 415 animais (4.900 UA = 6,11 UA/ha), correspondendo um acréscimo em torno de 20%; porcentagem de ganho também repetida na Receita. Assim, no Balanço COT, aumentou-se o lucro para R$ 136.792,42 (R$ 171,56/ha), e houve redução do prejuízo no Balanço CT para R$ 179.942,28 (R$ 224,37/ha), reafirmando a vantagem econômica obtida em produções com rebanhos mais aprimorados. Em contrapartida, o Retorno do CI foi de apenas 2,00%, muito semelhante ao Painel original (1,92%). 8 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural No Painel 1,6UA IZ iguais, onde a simulação já apresenta a reforma de pastagem, o custo da Depreciação dobra (R$ 104.754,27), aumentando significantemente o COT. Mesmo com um acréscimo na Receita (R$ 543.686,96), o Balanço COT fecha em R$ 87.199,63 (R$ 108,73/ha), valor inferior ao painel original, assim como o Retorno do CI, que cai para 1,36 %, enquanto o prejuízo do Balanço CT aumenta para R$ 297.133,67 (R$ 370,49/ha). Quando os índices zootécnicos são melhorados, mantendo os mesmo 1,6 UA/ha, há uma pequena mudança nos resultados, fechando o Balanço COT em R$ 151.280,72 (R$ 188,63/ha). Porém, o prejuízo do Balanço CT, R$ 247.445,94 (R$ 308,54/ha), continua maior que o do Painel original, e o Retorno do CI têm um aumento pouco expressivo, subindo para 2,20%. Portanto, o valor desembolsado em uma reforma/manutenção de pastagem se mostra inviável quando o objetivo é intensificar a taxa de lotação apenas para 1,6 UA/ha. 9 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 10 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural No Painel 2,0UA IZ iguais a venda anual sobe para 706 cabeças (8.403 @ produzidas), rendendo uma receita de R$ 674.673,53 e fechando o Balanço COT em R$ 182.367,55, praticamente o dobro do lucro do primeiro Painel, mas o prejuízo do Balanço CT, de R$ 231.182,52, ainda permanece maior. No Painel 2,0UA IZ ideais, os resultados são mais favoráveis, destacando o aumento de aproximadamente 2,5 vezes tanto da produtividade (venda de 851 cabeças = 10.105 @ produzidas) quanto da rentabilidade (Balanço COT = R$ 261.460,17). Este também é o primeiro Painel, com a reforma de pastagem, em que o prejuízo do Balanço CT (R$ 170.290,17) é menor que o do Painel original. Isso aliado ao retorno do CI de 3,60%, um ponto percentual a mais que do Painel 2,0UA IZ iguais, demonstra que a pecuária de corte (juntamente com as reformas, índices zootécnicos melhorados e intensificação da lotação do rebanho) pode ser uma atividade mais lucrativa. As simulações com taxa de lotação de 2,5 UA/ha obtiveram os melhores resultados. A produtividade no Painel com os índices zootécnicos iguais foi de 885 cabeças, correspondente a 10.502 @ produzidas (13,09/ha) e no ideal de 1.066 cabeças – 12.626 @ produzidas (15,74/ha), aumentando a produção em 2,58 e 3,10 vezes, respectivamente, comparado ao Painel original. Mesmo com os altos custos, a rentabilidade do Balanço COT foi triplicada no Painel 2,5UA IZ iguais (R$ 302.365,40 = R$ 377,01/ha) e quadriplicada no 2,5UA IZ ideais (R$ 401.143,51 = R$ 500,18/ha). Destaca-se ainda que o último painel teve a metade do prejuízo no Balanço CT (R$ 72.342,82 = R$ 90,20/ha) apresentado no 2,5UA IZ iguais (R$ 148.774,74 = R$ 185,50/ha); e o retorno do CI foi de 5,00%, ou seja, próximo ao COC considerado (6,00%). Desta forma, podemos afirmar que, a lucratividade da pecuária de corte em MT se torna compensatória. Segundo o Censo Agropecuário de 2006 (IBGE, 2006), MT possui 22.809.021 hectares de pastagens naturais, revelando o potencial da produção extensiva do Estado. Se fizermos um simples cálculo com o efetivo de rebanho bovino, estimado em 25.683.031 cabeças (IBGE, 2007), temos uma lotação média estadual de 1,13 cab/ha. Considerando que parte do rebanho seja composto por animais jovens/abaixo do peso de 1 UA, podemos dizer que a lotação em UA fique muito próxima a encontrada em Média MT, 0,97 UA/ha, viabilizando os números utilizados nos Painéis. Essa taxa de lotação caracteriza a pecuária de corte atual como de baixa produtividade, além de induzir a ocupação de novas áreas, se o objetivo for aumentar a produção. Mato Grosso tem o maior rebanho bovino do país e é o maior produtor de grãos, ocupando 25% do território para a pecuária e apenas 7,8% à agricultura. 63% de sua extensão estão preservadas. Estratégias atuais do Governo do Estado defendem a transformação de parte da área da pecuária em agricultura como uma das saídas para reduzir o desmatamento, além inibir a abertura de novas áreas. O governador Blairo Maggi diz que “a exemplo da agricultura, que é muito bem estruturada e faz bom uso da tecnologia, é possível reduzir pela metade a terra ocupada pela pecuária investindo em mais tecnologia” (SECOM/MT, 2009). Na simulação da reforma de pastagem, em uma fazenda de 802 ha, o custo de implantação foi de R$ 653 mil (R$ 814,57/ha), incluindo gastos com as operações e insumos de roçada, gradagem, calagem (2,5 ton/ha), plantio (12 kg semente braquiarão/ha) e adubação (0,3 ton/ha), considerando uma depreciação de 9 anos. Assim, a reforma dos 22,8 milhões de hectares de pastagens do MT, representaria cerca de R$ 18,5 bilhões. Isso sem considerar as posteriores manutenções anual de 200 ha (25% da área total): R$ 98,3 mil. Tais valores são 11 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural intangíveis na ausência de incentivos de financiamento da atividade, como linhas de crédito com juros acessíveis, e subsídios diversos. Os resultados apontam que é possível dobrar a produção aumentando a taxa de lotação em pasto para 1,6 UA/ha, com um rebanho apresentando índices zootécnicos ideais. Porém, o investimento desembolsado na reforma de pastagem só compensa se a intensificação da lotação desse mesmo rebanho for acima de 2,0 UA/ha (o que deverá aumentar a produtividade e rentabilidade em 2,5 vezes). Com 2,5 UA/ha, lotação máxima estimada, a produção poderá triplicar, tornando a rentabilidade do setor quatro vezes maior. Assim, a proposta do Governo se torna viável, pois haveria o aumento da produção da pecuária mesmo reduzindo as áreas utilizadas pela atividade, disponibilizando espaço para o crescimento agrícola e inibindo o desmatamento, além de atenuar outros problemas ambientais relacionados à pecuária bovina de corte, como a emissão de GEE. Tais mudanças sugeridas e seus respectivos resultados, dificilmente serão alcançados em curto prazo, pois o retorno do investimento deve começar a ser sentido somente após alguns ciclos completos. Além disso, se hoje o setor fosse tão eficiente, não haveria onde colocar toda a oferta de carne e os preços cairiam. Porém, para acompanhar a crescente demanda de carne bovina, interna e mundial, dos próximos anos, é necessário que a pecuária de corte se modernize, investindo em tecnologias como: melhoramento genético, reforma de pastagens e implantação do sistema rotativo, integração lavoura-pecuária, entre outras ações que possam melhorar a baixa produtividade atual. É importante ressaltar que, por se tratar de simulações contendo algumas informações baseadas em dados genéricos, os valores expressos no presente trabalho podem ter uma grande variação prática, especialmente quanto ao potencial produtivo da pastagem e do rebanho, visto que cada microrregião possui peculiaridades inerentes e a produção animal depende de outros aspectos não abordados. Em relação aos resultados financeiros, o preço dos indicadores (@ Boi Gordo e Vaca; valor do Bezerro), responsável por gerar a Renda nos Painéis, foram os mais altos dos últimos anos, podendo tornar a simulação otimista, frente às presentes adversidades enfrentadas pelo setor; porém, se consideramos que os custos por hectare também acompanhou a alta dos indicadores no período estudado, a rentabilidade encontrada deve-se repetir em outros cenários. 12 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSESSORIA DE GESTÃO ESTRATÉGICA/MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO – AGE/MAPA. Projeções do agronegócio, Brasil 2008/09 a 2018/19. Brasília, fevereiro de 2009. Disponível em <http://www.agricultura.gov.br/pls/portal/url/ITEM/273CEBEFB92771DCE040A8C075023 94C > consultado em 02/10/2009. BENEDETTI, E. Medição do pasto define ocupação. Revista Balde Branco, 2003. 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Considerando a eficiência de pastejo de 50% (BENEDETTI, 2003), temos a produção de 1.000 kg MS/ha de B. brizantha por corte. *para a simulação da Reforma de Pastagem, utilizou-se 0,3 tonelada do adubo 20-05-20, ao invés de meia tonelada (equivalente aos 100 kg N/ha), pois, a fertilidade do solo foi considerada como mediana, além de também incluir a adubação na Manutenção Anual de Pastagem (25% da área total da propriedade = 200 ha). Consumo de MS O consumo diário de MS, que normalmente é expresso em percentagem do peso vivo, gira em torno de 2,0 a 2,5% (NRC, 1996). Assim, 1 Unidade Animal (UA = 450 kg de peso vivo) consome aproximadamente 10 kg MS/dia. Como o PO em cada piquete são 5 dias, então, cada UA consumiria 50 kg MS/piquete. Lotação máxima A disponibilidade de 1.000 kg MS/ha multiplicado por 100 ha/piquete corresponde a 100.000 kg MS/piquete/corte. Se dividirmos pelo consumo de cada UA durante o PO do piquete (50 kg MS) chegaremos a capacidade máxima de lotação, que é de 2.000 UA. Isso correspondente 2,5 UA/ha, considerando a área total de pastagem (8 piquetes de 100 ha, ou, 802 ha). 15 Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural