Feminismo e Luta das Mulheres: uma longa jornada pela igualdade
Nalu Faria – coordenadora da SOF Sempreviva Organização Feminista e da
Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres
Para recuperar a história da luta das mulheres é importante afirmar que a em todas
as experiências de lutas e resistência dos povos oprimidos elas estiveram presentes.
Embora essa presença ainda seja muito ocultada e as representações predominantes
sobre as mulheres são que na maior parte da história estiveram dentro de casa e sem
nenhuma participação pública. No caso da América Latina, aqui e acolá aparecem
algumas mulheres excepcionais. Na verdade, esses relatos ocultam que desde as luta
anti-coloniais e anti-escravidão as mulheres indígenas e negras de nossa região lutaram
ombro a ombro com os homens.
Em geral é bastante consensual a visão de que a participação na Revolução
Francesa marcou o inicio do movimento de mulheres como processo de autoorganização. Mas é a partir de 1850 que há uma ampliação do que se conhece como
movimento feminista enquanto a organização das mulheres reivindicando direitos e
igualdade. De forma genérica houve um movimento de mulheres burguesas e de classe
média, que são chamadas de sufragistas que lutaram pela igualdade que se concretizou
em reivindicações como o direito ao voto e a ser votada, o direito ao divórcio, o direito
a estudar e a exercer determinadas profissões. Ao mesmo tempo as trabalhadoras se
organizaram nos sindicatos e desde o inicio das organizações socialistas houve a
presença das mulheres, mesmo que elas tenham encontrado resistência e oposição de
vários homens. Essa oposição se dava por duas razões. A primeira a partir da visão que
o lugar adequado para as mulheres era a família e a segunda decorrente disso, mais
presente nos sindicatos, de que as mulheres eram ladras de emprego. Por outro lado é
importante ressaltar que a história está cheia de exemplos de homens que defenderam o
direito das mulheres a igualdade, inclusive participando dos embates poo exemplo
dentro da II Internacional.
Tanto na Europa como Estados Unidos ao mesmo tempo em que se desenvolveu
um forte movimento sufragista também houve um processo de debate dentro dos
partidos socialistas que influenciou a organização dentro dos sindicatos. Isso se deu em
um ambiente de crescente crítica ao capitalismo e forte processo de organização do
movimento socialista.
O fato de existir um forte e vigoroso movimento de mulheres sufragistas tensionou
positivamente, os partidos socialistas que estavam nascendo por volta de 1860/70
no
sentido de forçar o debate. Na Primeira Internacional Socialista o debate foi permanente
embora não necessariamente todos os socialistas tivessem uma mesma posição. No caso
de Marx e Engels, tiveram uma posição não só de defender o direito das mulheres ao
trabalho, como também de situar a questão da opressão das mulheres como uma questão
histórica e não como produto biologia. Tiveram forte crítica a familia patriarcal e
burguesa.
Embora
fosse
uma
avaliação
simplista,
influenciada
pelo
momento
conjuntural, pensavam que a grande produção industrial que tinha proletarizado as
mulheres levando-as para o espaço público havia criado as bases para a destruição da
família. No entanto, o capitalismo conseguiu reorganizar uma família burguesa para
seus interesses. August Bebel que escreveu um livro sobre a mulher e o socialismo, foi
o primeiro que sistematizou um ponto de vista do socialista a situação das mulheres e
tentou imaginar o que seria a vida das mulheres no socialismo.
Um dos debates mais fortes nesse período foi o do direito ao trabalho. No setor mais
marxista prevaleceu a crítica à família e ao trabalho doméstico, visto como algo pesado,
rotineiro e escravizante que deveria ser abolido. Mas eles queriam abolir o trabalho
doméstico, que por um lado é positivo, pelas creches, lavanderias, etc. Porém, com raras
exceções não colocaram o tema da responsabilidade masculina por parte do trabalho
doméstico e de cuidados.O debate era apenas que deveria haver a socialização para
liberar as mulheres. Nessa época eram absolutamente críticos à prostituição. A
prostituição era vista por dois pontos de vista: de que as mulheres se prostituíam por
falta de opção de trabalho, portanto uma questão econômica, mas também questionada
do ponto de vista da hipocrisia em relação à sexualidade, e com a questão da família.
Em todos os processos grevistas que se desenvolveram desde a última década do
século XIX até os anos de1920 (na Europa, EUA e alguns países da America Latina) era
expressiva a participação das mulheres. Inclusive muitas greves foram deflagradas pelas
mulheres e muitas a partir da denúncia da violência sexual.
A organização de um movimento de mulheres e do feminismo como corrente
teórica e prática marcou uma mudança nesse processo. Além de afirmar as mulheres
como sujeitos políticos permitiu recuperar partes da história sistematicamente ocultadas
para invisibilizar a sua presença e contribuição. Também foi fundamental para mostrar
que o debate sobre a igualdade entre os sexos é muito mais antigo que se imaginava.
Como afirma Alicia Puleo, “o estudo do discurso filosófico nos mostra que muitas
vezes – ou quase sempre-, quando há um discurso profundamente misógino é porque
paralelamente existe um discurso feminista, nessa mesma época” (Alicia Puleo, 2004).
O feminismo teve um papel fundamental para questionar as relações de opressão
e anunciar novas possibilidades. Ou seja, é uma radicalização da proposta de autonomia,
liberdade, auto-determinação, emancipação humana. Ao longo do século XX as
mulheres conquistaram vários direitos como frutos de sua luta organizada em várias
partes do mundo, embora isso se deu de forma extremamente desigual.
Sobre o histórico do 8 de março
As pesquisas realizadas por feministas sobre a história do 8 de março revelaram que sua
origem é parte história de lutas e militância das socialistas. Sua história remonta à
iniciativa das mulheres estados unidenses de organização do "Woman’s Day”, iniciado
em 1908, dedicado à luta pelo direito ao voto feminino, em um contexto de crescentes
greves organizadas pelas operárias. Clara Zetkin na II Conferência Internacional das
Mulheres Socialistas em 1910 propôs instaurar um dia internacional das mulheres,
seguindo o exemplo das socialistas americanas. Nos anos seguintes, na Europa, se
espalharam as comemorações do dia internacional da mulher ainda sem data fixa e nem
sempre a mesma para todos os países. Mas sempre com referência no direito ao voto
feminino como parte da luta por emancipação das mulheres. Em 1917 na comemoração
desse dia, um 8 de março (23 de fevereiro no calendário ortodoxo), as operárias russas
entram em greve e iniciam um amplo processo de luta que deu início a revolução de
fevereiro.
Em 1921 na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas se propôs o 8 de
março como o Dia Internacional das Mulheres, lembrando a iniciativa das mulheres
russas.
Segunda onda
Nos anos 60 se inicia a segunda onda do movimento feminista que incorpora setores de
classe média e mulheres profissionais na Europa e EUA. Trouxe várias contribuições
das quais se destacam a afirmação da necessidade de organização de um movimento
autônomo das mulheres, consolidou o reconhecimento das mulheres como sujeitos
políticos e de um arcabouço teórico que questionou vários dos paradigmas dominantes
do conhecimento teórico.
Nesse momento conviveram várias posições onde o setor socialista fez o esforço de
articular as dimensões da opressão das mulheres com a opressão de classe e, portanto
colocar a questão do feminismo e socialismo.
Essa onda do movimento feminista teve como grandes méritos afirmar a compreensão
da opressão específica e, portanto do enfrentou o debate da contradição colocada pelas
relações sociais entre homens e mulheres e teve como resultado uma forte politização
do privado.
Mas fruto das contradições e limites da esquerda socialista e também das correntes
radicais e autonomistas do feminismo, é importante ressaltar que a partir de um
determinado momento prevaleceu uma visão de direitos individuais, dentro de uma
perspectiva de incorporar as mulheres ao modelo e pouco questionamento global e isso
será analisado em relação ao processo na América Latina e Caribe.
Na América latina e Caribe
Existe uma avaliação geral que a segunda onda do movimento feminista chegou
à região nos anos 70. Muitas análises que tratam da complexidade desse processo,
levando em conta as especificidades de nossa situação política e cultural.
Um aspecto comum para vários países é que a articulação do movimento
feminista ocorreu em um contexto de ditaduras e que ele foi parte do processo de luta
pela redemocratização. Dentro desse processo houve a construção de relações com
outros movimentos sociais e isso é apontado como um dos fatores pelo crescimento do
debate e da organização das mulheres nos setores populares. De forma geral, pode-se
dizer que havia a influência de uma visão socialista e classista.
O movimento feminista na América Latina e Caribe, nos anos 1980, foi alvo de atenção
de estudiosas em função do crescimento das organizações de mulheres nos setores
populares e de sua aproximação/ incorporação da perspectiva feminista.
Em vários países latino-americanos e caribenhos esse movimento se formou a partir
da existência de grupos autônomos que manifestavam forte crítica à política sexista dos
partidos de esquerda e dos sindicatos. Outro setor importante era constituído por
militantes partidárias que procuravam combinar sua intervenção no movimento de
mulheres com a luta por mudanças dentro dos partidos de esquerda em que militavam.
Diversas análises apontam que as tensões iniciais no movimento feminista se davam em
torno do debate sobre identidade feminista. Uma das modalidades dessa polêmica se
expressa na divisão entre militantes politicas e feministas (Sternbach et al,1994:267) ou
se refere a uma fronteira entre feministas e não-feministas (Alvarez, 2000: 387).
No que se refere aos partidos de esquerda e aos movimentos mistos, estes em geral
não reconheciam a importância do feminismo e o consideravam uma luta de caráter
liberal da classe média e da pequena burguesia. Embora essa visão tivesse gerado um
conflito constante entre as partes, por outro lado, buscaram-se estratégias para que as
mulheres dos setores populares assumissem uma visão feminista.
Um aspecto comum para vários países é que a articulação do movimento
feminista ocorreu em um contexto de ditaduras e que ele foi parte do processo de luta
pela redemocratização. Dentro desse processo houve a construção de relações com
outros movimentos sociais e isso é apontado como um dos fatores pelo crescimento do
debate e da organização das mulheres nos setores populares. De forma geral, pode-se
dizer que havia a influência de uma visão socialista e classista. Isso definiu como
prioridade ações que buscavam levar o feminismo para as mulheres dos setores
populares. Mas isso não impediu que surgisse em vários países a tensão entre
“feministas e movimento amplo de mulheres”.
Durante muitos anos essas tensões apareciam no debate como visões diferentes
acerca do que era a prioridade do movimento de mulheres. A polêmica se deu acerca
como tratar as questões específicas das mulheres e as questões gerais da sociedade que
de modo geral pode-se dizer que conviveram e se enfrentaram três posições. Uma que
postulava que em contexto de ditadura o mais importante era a luta pela
redemocratização e considerava importante incorporar as mulheres nesse processo.
Portanto secundarizava a discussão das chamadas demandas específicas de mulheres e o
enfrentamento das contradições nas relações entre homens e mulheres. Essa visão esteve
mais presente no início e em países com influência dos partidos comunistas.
Uma segunda posição via as chamadas questões específicas como a luta cultural
e as questões gerais como a luta política. Dentro do aspecto cultural estavam colocadas
todas as questões da vida cotidiana, da sexualidade, do sexismo no conjunto das
relações entre homens e mulheres. Com certeza, há diferentes leituras em relação a esse
tema e, portanto, a análise aqui apresentada não necessariamente é compartida por
todas. Apenas para citar um exemplo, muitas brasileiras ainda se lembram quando, na
preparação do 8 de março já no final dos anos 1980, era contestada a proposta de se
colocar o apoio a luta pela Reforma Agrária em nome de que isso não era luta específica
das mulheres. Mesmo que neste momento as bandeiras do aborto, da luta contra a
violência estivessem colocadas na plataforma com prioridade.
Uma terceira posição (talvez minoritária) que defendia que não havia uma
contradição entre o específico e o geral e que era necessário trabalhar ambos os
aspectos, tendo em vista a sociedade como um todo e a necessidade de transformação
no interior da esquerda e que inclusive estas organizações deveriam assumir uma visão
feminista em seu interior e em suas plataformas.
A questão da tensão entre feministas e movimento amplo de mulheres fica mais
evidente a partir da segunda metade dos anos 1980 com a ampliação da participação nos
Encontros Feministas Latino-americanos e do Caribe. O IV Encontro, realizado no
México em 1987, representou um ponto de inflexão nesse sentido quando um setor
propôs que se dividisse em dois encontros: um feminista e outro do movimento de
mulheres. A resposta contundente das participantes foi: “somos todas feministas, nós e
muitas mais”. Este processo foi marcado por uma grande diversificação do movimento
feminista, ampliação da agenda e da composição social e setorial do movimento. Neste
momento também estava colocado o debate sobre modelo organizativo do movimento
onde emergia com força os temas da democracia interna e da representação.
No V Encontro, realizado em San Bernardo, na Argentina em 1990, esteve
presente uma grande diversidade de mulheres e também se expressaram várias
identidades temáticas e setoriais tais como negras, lésbicas sindicalistas etc. Foi também
o Encontro onde se estruturou várias redes temáticas. Olhando posteriormente parece
contraditória a dinâmica do movimento. De um lado se formaram essas redes temáticas
que apontavam nesse processo da especialização e da ação setorial. Mas de fato o que se
consolidou nos anos seguintes foi a participação em fóruns globais, em torno da agenda
da ONU, via fóruns paralelos às Conferências, combinando com a participação de um
pequeno grupo de feministas nas delegações oficiais.
O fato é que já nos meados dos anos 80 se convive com uma dupla dinâmica: de
inicio de institucionalização do feminismo dentro do Estado em que alguns setores
optaram por essa via como forma de construção de relação com o movimento. Esse é o
exemplo dos setores na época identificados com o PMDB no Brasil, que passaram a
atuar por dentro do Conselhos de Direitos da Mulher. Ao mesmo tempo em que crescia
a organização popular via a atuação da igreja progressista, sindicatos e alguns partidos.
Os processos de transição das ditaduras para a democratização definiu a grande
mudança do ponto de vista de orientação política no desenvolvimento de um setor
movimento feminista. A partir daí houve um processo crescente de institucionalização.
Isso ocorreu de um lado via profissionalização das ONGs e de outro pela entrada dessa
temática no Estado através da criação de estruturas governamentais. Em geral é difícil
caracterizar com precisão que setor, pois havia uma diversidade de posições, mas que
naquele momento se identificou com a posição dos governos da transição articulada a
uma visão mais culturalista do feminismo e com menos ênfase em organizações de
massa.
Anos 90: aprofundamento da institucionalização
O início dos anos 1990 foi muito marcado pelos debates que se seguiram à queda do
muro de Berlim, sem uma posição crítica diante das profundas políticas de ajuste e da
implementação do neoliberalismo. A globalização era analisada como um dado
irreversível e vista a partir de seus efeitos positivos e negativos sobre as mulheres.
Houve o deslocamento de um debate mais geral sobre as mudanças, até mesmo no plano
ideológico, para um debate no campo apenas da normatização dos direitos e das
propostas de políticas públicas. Foi o momento em que a palavra de ordem era ser
propositivo, trabalhar em parceria com os governos e organismos multilaterais,
colocando como um grande horizonte o estabelecimento de políticas públicas, mas sem
questionar os limites dados pelo modelo de Estado vigente. Portanto, definindo como
ação fazer o possível, sem pretender mudanças estruturais. Isso era bastante
contraditório, uma vez que o debate geral focava a redução das políticas sociais.
Portanto essa visão se reduziu a uma visão de políticas públicas no Estado mínimo, que
se limitava a políticas focais realizadas em parceria com a sociedade civil.
Foi nesse ambiente que a ONU (Organização das Nações Unidas) organizou o ciclo de
grandes conferências, buscando legitimar-se como a negociadora da agenda social de
combate à pobreza intensificada pelas políticas de ajustes neoliberais. Essa era uma
forma de se legitimar diante da onipotência do FMI (Fundo Monetário Internacional)Banco Mundial na gestão do mundo, com suas políticas de ajuste estrutural e de
abertura comercial. Considerava como grandes avanços as plataformas aprovadas nas
conferências da ONU, mesmo que suas definições fossem genéricas e sem questionar o
fato de que elas não entram nos aspectos estruturantes das desigualdades.
A primeira Conferência sobre Meio Ambiente, a ECO-92, aconteceu no Brasil e
a articulação das mulheres se deu no Planeta Fêmea. Depois a participação na
Conferência de Direitos Humanos, em Viena em 1993, foi organizada em geral por
organismos governamentais e ONGs voltadas para o trabalho de combate à violência. A
Conferência sobre População, realizado no Cairo em 1994, foi preparada por ONGs
voltadas para o tema de saúde e direitos reprodutivos.
Mas foi no processo de preparação para a IV Conferência dos Direitos da
Mulher, em Pequim em 1995, onde se explicita a diversificação e ocorre a incorporação
de novos setores e o reforço de outros que estavam buscando uma identidade própria
dentro desse movimento de mulheres, tais como negras, jovens, indígenas. Mas é
também nesse momento que se explicitam as divergências sobre a participação nesses
processos e que teve como um ponto central a questão da representação, quando se
propôs a incorporação de uma representante do movimento de mulheres na coordenação
do fórum paralelo de ONGs. Pode-se afirmar que a articulação para a Conferência de
Pequim foi o ápice de um processo, mas também foi onde explodiram as tensões
acumuladas nos anos anteriores.
Uma questão a ser ressaltada é que foi na preparação de Pequim que pela
primeira vez o movimento de mulheres do continente estrutura uma coordenação. Isso
rompeu com uma visão anterior de ser contrária à formação de estruturas mais orgânicas
do movimento.
No VI Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe, em Costa del Sol, El
Salvador em 1993, em meio ao processo de Conferências da ONU se expressaram essas
divergências em relação à participação do movimento feminista nesses eventos. Embora
para muitas das ativistas presentes não ter ficado totalmente claro o que estava
ocorrendo. Para muitas a divergência era apenas em relação à orientação filosófica e
política ente feminismo da igualdade e da diferença. Evidentemente isso ocorreu, em
parte, em função de como a polêmica se expressou. Embora houvesse grupos de
discussão com temário comum, nem todas participaram e havia oficinas paralelas. A
iniciativa de explicitar as divergências foi do grupo intitulado “As Cúmplices”, que
organizou uma oficina específica e um debate bastante filosófico. Desta forma a
polêmica não se expressou no debate em torno dos eixos comuns, mas como uma
oficina, parecendo para muitas que eram aspectos e não de concepção. Entretanto, após
o Encontro foi ficando mais claro o mal-estar e as divergências.
O processo de organização do VII Encontro Feminista realizado em Cartagena
no Chile em 1996 foi marcado por essa polêmica desde o processo preparatório e o que
prevaleceu na comissão organizadora foi a proposta de se discutir as correntes
feministas presentes na região. Em função disso foram organizadas conferências
convidando as representantes das correntes e logo depois grupos. Para as organizadoras
havia na região duas correntes: as autônomas e as institucionalizadas. É importante
ressaltar que essa caracterização
era extremamente simplificadora da dinâmica
complexa do movimento feminista em nossa região. Isso se expressou claramente
quando um grupo afirmou que não se enquadrava nessa definição e propôs uma terceira
alternativa, o grupo “nem umas nem outras” que foi o maior em número de
participantes. Além disso, várias participantes não estiveram presentes em nenhum dos
três grupos. Houve a tentativa de continuidade na articulação com a realização de uma
reunião quase um ano não após o Encontro.
Como resultado dessa política, e influenciado por este quadro geral de
desmobilização da esquerda, houve um crescimento da despolitização em geral no
movimento de mulheres e uma perda da radicalidade. Além disso, o discurso triunfalista
manejado por estes setores evitava a construção de uma avaliação dos efeitos do
neoliberalismo sobre as mulheres e fragilizava o processo de crítica à assimilação das
conquistas das mulheres por um discurso conservador. O tom predominante era em
relação aos avanços e nunca dos retrocessos que estavam ocorrendo em todos os
campos. A avaliação dos retrocessos eram ainda mais difícil porque se deu dentro de
uma dinâmica complexa e contraditória. O fato é que enquanto um setor do movimento
de mulheres se limitava ao discurso de políticas públicas no Estado mínimo e ao
investimento na construção de plataformas e convenções internacionais, o mercado
organizava a vida da maioria das mulheres mantendo formas de superexploração do
trabalho, investindo em sobrecarregar a família (as mães) com o cuidado e
sobrevivência das pessoas, investindo de forma agressiva na identificação das mulheres
como um corpo; retomando modas conservadoras na imagem das mulheres etc.
Esse breve histórico mostra que nos anos 90 havia outros espaços que definem a
dinâmica do movimento feminista. Ou seja, não são os Encontros Feministas os únicos
espaços de debate e articulação das feministas. Fica evidente, também, que depois do
encontro feminista chileno, nos próximos não há uma continuidade da dinâmica e o
debate que havia até então. Os Encontros já não são os espaços onde o conjunto dos
setores participam com a intenção de definir seus temas, agenda e até mesmo de ter uma
avaliação geral
Em geral, os estudos analisaram mais exaustivamente determinados aspectos do
movimento de mulheres e, nos últimos anos, o foco tem sido o setor hegemônico nos
anos 90. Ainda que muitas análises reconheçam a diversidade de experiências e que nos
anos 90 se deu uma construção desigual de poder dentro do feminismo, há pouca
visibilidade do setor considerado minoritário.
O desenvolvimento do feminismo nos setores populares, sindicais e camponeses
ainda deve ser mais bem estudado para que se tenha uma maior compreensão dos
processos feministas em nossa região. Entretanto prevalece no movimento uma certa
hierarquia sobre quem é e quem não é feminista. Certamente, essa hierarquia é hoje
muito mais diluída, mas talvez tenha sido substituída por uma nova hierarquia que se
refere a legitimidade de quem é mais ou menos feminista.
Uma nova dinâmica de organização
Embora o ciclo de Conferências da ONU influenciasse a maior parte do
movimento, não se pode afirmar que essa posição hegemônica descrita acima foi
exclusiva. O que foi ficando evidente é que essa posição resultou de muitas mudanças
no interior do movimento. Quanto aos fatos, houve deslocamentos de posições,
formação de novas alianças e, portanto, rupturas em relação às alianças anteriores.
Quanto à visão crítica, ficou conhecida na região a corrente das autônomas cuja posição
política decorre das teorias da diferença e do pós- estruturalismo. Sua intervenção é
muito crítica, mas baseia em uma visão de que o principal é mudar a ordem simbólica,
portanto, não priorizou a organização de lutas sociais amplas.
Por outro lado, durante os anos 90, começaram a se formar outros grupos em
particular para o debate dos temas econômicos. Num primeiro momento esse processo
foi quase invisível e pouco valorizado dentro de feminismo. Neste processo se
organizou o debate sobre mulheres na Aliança Social Continental e a formação das
primeiras redes para discutir o tema de mulheres e economia e mais tarde se estruturou
um debate sobre economia feminista. Foi neste contexto que começou a organização da
Marcha Mundial de Mulheres lançada como uma campanha contra a pobreza e a
violência sexista no 8 de março de 2000. Desde o início, colocava uma crítica global ao
capitalismo e ao neoliberalismo. Sua articulação foi uma ação importante ação onde se
pode concretizar essa opção e recolocar de forma massiva o debate sobre gênero e
classe. A Marcha Mundial das Mulheres se constituiu em vários países como uma
alternativa ao processo de institucionalização e perda de radicalidade, retomando a idéia
de auto-organização das mulheres, de mobilização, de fazer a luta feminista vinculada à
luta anticapitalista, portanto, recolocando a questão de classe sem abandonar outras
questões como de raça, sexualidade e geracional.
A partir de 2006 houve um amplo processo de reacomodação dos discursos
hegemônicos nos anos 90, empurrados pelo crescimento de visões de esquerda.
Desenvolveu-se uma crescente crítica aos limites do conceito de gênero e equidade.
Nesse contexto cresceu, inclusive, a posição crítica em relação a questão de classe, por
setores que haviam abandonado essa categoria em suas análises. Pode se afirmar que o
campo que organizou se em torno da agenda da ONU nos anos 90 redefiniu sua atuação
em torno da Articulação Marcosur, os Diálogos Feministas realizados a partir de 2003
no FSM e a continuidade de redes temáticas. Um aspecto central de sua agenda nesse
periodo foi a Campanha contra os Fundamentalismos iniciada no FSM em 2002 em
Porto Alegre.
Além desses processos amplos de movimentos , segue existindo e até ampliando grupos
aos estilo antigos grupos autônomos, com seus processos de debate. No caso dos
grupos, também ligados ao movimento LGBT, alguns participam ou transitam em
vários espaços do movimento de mulheres.
É importante reafirmar a importância da auto-organizaçao das mulheres e da
legitimitade dessa grande maioria se organizar como ferramenta de luta contra o
patriarcado.
Queremos sim que o sujeito feminista seja mais amplo e por isso sempre propusemos
que a partir da auto-organizaçao das mulheres se buscasse trabalhar o feminismo como
estruturante do conjunto dos processos. Isso está ancorado em uma visão que há uma
relaçao social específica que tem como base material a divisão sexual do trabalho que
define inclusive a imbricação entre capitalismo e patriarcado.
Desafios para os movimentos feministas e anticapitalistas
A situação atual mostra que as vitórias não serão consolidadas enquanto não se
mudar estruturalmente o modelo. As atuais resistências organizadas pelas mulheres e o
dinamismo de um setor do movimento de mulheres cada vez mais conectam essas várias
dimensões. Ou seja, a luta das mulheres não é apenas uma agenda específica a ser
agregada a uma agenda macro. É uma luta de transformação integral da sociedade e se
entende por isso que não se mudará a vida das mulheres enquanto não mudar a vida de
todas. Nossa utopia que define nosso projeto é superação da sociedade capitalista e
machista e de construção uma sociedade socialista que rompa com todas as formas de
exploração, opressão e discriminação em todos nossos povos.
Do ponto de vista dos desafios atuais continua a necessidade de politizar que o
centro do movimento de mulheres é a luta contra a opressão feminina e afirmação do
feminismo socialista como a possibilidade de transformar a vida das mulheres. Isso
passa por enfrentar a banalização que houve paulatinamente do conceito de gênero e a
redução da agenda ao tema dos direitos das mulheres como direitos humanos.
Ou seja, é necessário atuar para a transformação das atuais relações sociais em
geral, que inclui as relações sociais de sexo e, portanto de proposta de mudanças no
modelo como um todo. A tarefa que se coloca é a necessidade de se construir uma visão
crítica em toda a sociedade sobre a opressão das mulheres. Hoje parece uma tarefa
difícil, pois predomina a idéia de que não há mais opressão e existe um discurso
modernizante de que a vida das mulheres mudou muito e que em parte assimilou
aspectos do discurso feminista. Há um discurso de positivação do feminino, que
estrutura o retrocesso no padrão de feminilidade, o qual define que tudo o que as
mulheres são no mundo tem a ver com a maternidade. O que ocorre é que se continua
reforçando que todas as mulheres devem ser mães e que é essa experiênc ia que define
seu lugar no mundo inclusive como profissional ou política. Na verdade afirma que as
mulheres se inserem no mundo a partir das qualidades, virtudes e capacidades definidas
como parte de sua natureza porque são mães.
Outra tendência é de se considerar a desigualdade das mulheres como um
elemento cultural e há uma dificuldade recorrente de perceber que há uma base material
expressa na divisão sexual do trabalho. Dessa forma, há uma tendência de tratar como
um problema apenas de uma cultura patriarcal arraigada e uma questão ideológica.
Um ponto fundamental de nossa compreensão é de que não haverá igualdade se
pensarmos mudanças apenas na chamada esfera pública e do trabalho produtivo. Ou
seja, se em casa as mulheres continuarem arcando sozinhas com o trabalho doméstico,
de cuidados e afetos, se a casa continuar sendo considerada naturalmente o espaço de
supremacia masculina. Essa questão por sua vez está vinculada à ruptura com uma
divisão sexual do trabalho e do poder nos espaços públicos. Não basta apenas o avanço
da participação das mulheres nesses espaços como se, a cada vez que ocupamos um
espaço masculino, tenhamos avançado.
Portanto, são desafios teóricos, políticos e organizativos. Exige posicionar o
debate a partir da compreensão que há uma opressão das mulheres, continuar e
fortalecer a afirmação política de um projeto feminista e socialista que questiona as
bases da sociedade capitalista e patriarcal. Exige um movimento enraizado, com
capacidade de grandes mobilizações, campanhas próprias e que também seja parte da
construção de uma luta no continente.
Um avanço no feminismo que construímos é que cada vez mais não há uma
separação entre o que é reivindicação das mulheres e as chamadas lutas gerais. Mas a
compreensão de que para mudar a vida das mulheres temos que mudar o mundo e,
portanto todas as lutas por mudanças são das mulheres. Mas o principal ganho é que
nesse processo se afirma cada vez mais o direito de autonomia e soberania para as
mulheres e que a igualdade tem que ser parte constitutiva de todos os processos de
transformação.
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