Programa de Recursos Humanos da ANP para o Setor Petróleo & Gás Parametrização de Recursos e Reservas Minerais: uma Aplicação à Indústria do Petróleo PRH – ANP Aluna: Noele Ferreira Carvalho Orientador: Prof. Dr. Saul B. Suslick Outubro - 2005 1 Resumo – O presente trabalho trata da parametrização dos recursos e reservas minerais visando a uma classificação dos mesmos em diagramas próprios de análise para a indústria do petróleo. Em outras palavras, através de simulação de parâmetros geológicos e econômicos, obtém-se curvas de probabilidade em que se quantifica incertezas e risco de recuperação e, conseqüentemente, análise da viabilidade econômica de desenvolvimento do campo. Como os diagramas de classificação são basicamente quadros que relacionam as funções de recuperação de uma jazida, as incertezas e riscos simulados permitem que se escolha um desses diagramas – baseado em incerteza, risco ou maturidade do projeto – para alocação dos resultados e, a partir daí, obtenção de uma classe de recursos/reservas para comparação entre estimativas de recuperação e custo de produção. Com isso, o planejamento de desenvolvimento se torna facilitado, assim como a comercialização dos recursos e a garantia de segurança aos investidores. Palavras-Chave: diagramas de classificação, parametrização, viabilidade econômica, simulação Abstract – This work is about the parameterization of mineral resources and reserves for the classification in analysis diagrams. In other words, with simulations of geological and economic parameters we can get a probability curve in what is able some quantification of uncertainties and risks of recovery and, consequently, analysis of economic feasibility of the field development. Since the classification diagrams are frameworks that relate the recovery functions of a reservoir, simulated risk and uncertainty allows the selection of a diagram – based on uncertainty, risk or project maturity – to plot the results and, since that, get a class of resource/reserve to compare recovery estimates and production costs. Thus, the development plan becomes easier, like become the resource commercialization and the investors security. Keywords: classification diagrams, parameterization, economic feasibility of recovery, simulation 2 1) Introdução O conhecimento dos parâmetros que determinam a classificação de recursos e reservas é de importância fundamental para a economia de um país. Em outras palavras, a quantificação de recursos e reservas é relevante para a formulação de uma política mineral racional, já que tanto a indústria quanto os investimentos públicos dependem das estimativas de depósito/reserva para agirem no mercado (MACHADO, 1989). Uma vez que a classificação de reservas identifica o grau das incertezas do depósito e sua comercialização exige dados e definições mais precisos, o sistema ganha destaque. Diversos tipos de procedimentos e códigos são empregados pelas entidades e bolsas mercantis para proteger pequenos investidores, divulgando informações técnicas mais confiáveis. Por isso, as reservas com maior número de informações, ou dados mais precisos, ou menor incerteza são aquelas comercializadas a preços maiores. Além disso, a indústria se desenvolveu de tal modo que países e companhias não conseguem idealizar um sistema próprio que facilite comparações entre eles. E aí a classificação se torna, novamente, de extrema importância. Porque um sistema único completo de recursos e reservas permite que aqueles possam utilizar bases iguais de classificação (e acrescentar dados que lhes forem convenientes) e, com isso, interrelacionarem-se comercial e economicamente, realizando transações e aquisições em bases internacionais. No caso do petróleo, a estimativa das reservas de óleo é uma das fases mais importantes do trabalho dos engenheiros e geólogos, visto que soluções para problemas que possam ocorrer geralmente dependem da comparação entre estimativa de custos em dólares e resultados antecipados da quantidade de barris de óleo (ARPS, 1956). E aí o sistema de recursos/reservas permite classificar o empreendimento no início em vista da quantidade esperada de barris recuperáveis. Ademais, a expectativa econômica é um elemento chave no sistema de classificação. Se, no menor limite de erro para quantidades, o projeto não corresponder ao retorno esperado, a reserva não pode ser considerada viável (na época de análise). E é nesse ponto que se procede à parametrização de recursos e reservas, além de um estudo probabilístico e/ou geoestatístico dos dados geológicos e econômicos. 3 O que se pretende dizer é que um controle de forma parametrizada permite selecionar os recursos e reservas na ocasião do estudo de viabilidade econômica e possibilita melhor acompanhamento da produção. E, mais, que a análise de reservas baseada em parâmetros geoestatísticos e econômicos é indicada ao uso de investidores como orientação do grau de risco associado a uma classe específica de reservas. A avaliação probabilística permite calcular mais precisamente a quantidade do “material” estimado a ser recuperável de uma reserva e o grau de risco associado à exploração dessa reserva. Isto capacita, pois, os empreendedores a quantificar as incertezas de rentabilidade dessas reservas. Voltando a parametrização – que, de acordo com o DNPM, consiste em estabelecer para cada categoria de recurso ou reserva um quadro que relacione basicamente as funções de recuperação do depósito – temos que ela influi na conversão de recursos em reservas por relacionar os números do depósito e atuar na viabilização econômica do mesmo. E, portanto, é daí que se estrutura o trabalho a ser realizado com objetivos descritos mais adiante. 2) Objetivos Os objetivos deste trabalho centram-se na obtenção de um diagrama de classificação de reservas que melhor represente a necessidade da indústria do petróleo. Desta necessidade, advém o estudo dos parâmetros geológicos e econômicos de um reservatório, que serão selecionados para simulação. A simulação é, também, objetivo do trabalho. O entendimento dos parâmetros ligados ao input e output de dados do simulador devem ser conhecidos para que se proceda corretamente à classificação dos recursos e reservas de óleo e gás. Ainda mais, essa seleção de características que permitirão dizer se uma acumulação é um recurso ou uma reserva serão descritas, com a finalidade maior de se chegar a um diagrama que leve em conta risco, incerteza e maturidade do projeto (ou seja, que possua as qualidades necessárias à classificação e, posteriormente, à análise de portfólios). 4 3) Método adotado na pesquisa O fluxograma do método utilizado na pesquisa pode ser visto na figura 3.1. Figura 3.1: Fluxograma do método adotado na pesquisa Em primeiro lugar, foi feita uma revisão bibliográfica para que se pudesse estudar os conceitos de classificação de reservas e os parâmetros usados nela, como análise geológica (fatores sedimentológicos, estratigráficos e geofísicos de reservatórios, por exemplo), volumétrica e econômica. No caso dos sistemas de classificação, a atenção foi centrada nos diagramas que possibilitam a comparação entre classes de reservas e recursos. Estudou-se, então a evolução dos sistemas, desde Arps (1956) até o sistema SPE/WPC/AAPG (1998). Através da evolução dos sistemas, pode-se perceber as deficiências e vantagens de um em relação a 5 outro. Através dessa diferenciação, selecionou-se o diagrama SPE/WPC/AAPG (figura 4.3.8) como mais completo para utilização neste trabalho. A partir daí, procedeu-se a uma comparação com a portaria ANP que regulamenta a classificação dos recursos e reservas no Brasil, para se chegar a um sistema unificado de classificação. De posse desse sistema, passou-se ao estudo do sistema petrolífero, que determina as acumulações num campo e engloba todo o processo de formação do reservatório, desde a rocha geradora até a trapa. Com isso, puderam ser analisados os componentes geológicos de um reservatório, assim como a relação desses conceitos geológicos com os econômicos na classificação – como, por exemplo, o que é bacia sedimentar, play ou prospecto. Selecionou-se, então, o campo de Namorado (Bacia de Campos) para simulação. Dele foram estudados a evolução tectono-sedimentar, características econômicas como as reservas e recursos, além de características do reservatório e do óleo (porosidade, permeabilidade, ºAPI, contato óleo/água, idade das rochas reservatório, entre outros). Através de pesquisa de dados nos relatórios da Petrobrás e na Revista Brasil Energia, foi possível obter a produção por ano do campo, assim como CAPEX e OPEX. Esses dados de produção foram usados no simulador estocástico (@Risk) para se fazer uma estimativa volumétrica e econômica do campo. Este simulador trabalha com planilhas do excel em que as células são transformadas em inputs do simulador através de um recurso chamado Risk View Pro (figura 3.2). Para cada célula, escolhe-se um tipo de distribuição (lognormal, normal, triangular, etc.) neste recurso. Depois de todas as células de input definidas, seleciona-se o que deve ser o output desejado como resposta do simulador. 6 Figura 3.2: Recurso Risk View Pro do @Risk Os resultados do simulador são apresentados como na figura 4.3 , com média, desvio padrão, variância, skewness, moda, entre outros. A planilha com os dados de distribuição é dada de acordo com o output selecionado e, cada dado de input traz sua distribuição associada (triangular, lognormal...). Pode-se, ainda, ter os cenários, todas as estatísticas detalhadas e a sensibilidade dos dados. Nesta página, são obtidos as probabilidades estimadas e seus valores, e é onde aparecem P10, P50 e P90, objetivo da simulação. 7 Figura 3.3: Página de resultados do @Risk Inicialmente, para as simulações, fez-se necessário definir alguns parâmetros de classificação. Através dos sistemas de classificação e definição de classes de reservas, foram reconhecidos conceitos básicos para se proceder às simulações, isto é, na definição de cada classe de reserva está associada uma certa característica econômica e volumétrica que deve ser levada em conta quando da classificação. A distribuição do tamanho das reservas nos campos normalmente segue um padrão lognormal de distribuição e a razão disto é que os parâmetros que controlam essa distribuição são multiplicativos como, por exemplo, tamanho do campo e fator de recuperação. Portanto, cada classe de reservas deve ter implícito um nível de confiança utilizado pelos tomadores de decisão e, por isso, são importantes as simulações para estimar quanto volume deve ficar em cada classe, assim como as incertezas associadas a eles. É, então, evidente que as reservas provadas têm o menor volume de toda a acumulação e que o maior volume está associado aos recursos prospectivos. Porque a 8 menor incerteza está associada a uma parte do volume total in situ e não ao reservatório como um todo. E as curvas de probabilidade simuladas vão refletir os volumes associados a cada classe de reservas através de uma estimativa de probabilidade de recuperação, de acordo com a variação dos parâmetros definidos como de entrada. Os volumes de reserva provados, prováveis e possíveis serão, portanto, definidos através das probabilidades simuladas, com os valores provados sendo igual a 10% do total resultante, as reservas prováveis 50% e as possíveis 100%. Porque, de acordo com as definições SPE/WPC/AAPG as reservas provadas têm valor provado + provável e as possíveis, valor provado + provável + possível. Além do mais, para todos os parâmetros (P10, P50 e P90) foram feitas simulações do VPL, para que se possa comparar as vantagens econômicas de uma série de resultados de prospectos. Normalmente, as companhias costumam usar somente o valor da média. Contudo, para projetos importantes, é necessária a análise de toda a série para que se possa observar o comportamento do VPL frente a variações no projeto. E isto é fundamental para comercialização de projetos e para explorações em offshore – que geralmente têm custo muito elevado e em que pequenas mudanças de plano de desenvolvimento podem representar maior lucro ou menor perda. E se há possibilidade de simular os resultados econômicos do projeto, há também possibilidade de se estimar a chance de sucesso do reservatório em questão. Aliás, através da simulação dos volumes e estimativa do sucesso geológico, pode-se chegar ao sucesso comercial e, então, ao sucesso econômico (Rose, 2000). A proporção, como porcentagem, da distribuição de reservas que é maior que a reserva mínima necessária para que se tenha sucesso comercial e econômico, respectivamente, representa a chance de encontrar aqueles volumes de reserva (ou mais), assumindo-se que os volumes de hidrocarbonetos acumulados foram totalmente encontrados (Rose,2001). Partindo-se, então, desse pressuposto, utilizou-se o programa @Risk com o Campo de Namorado com um volume in situ inicial de 700 milhões de barris e uma planilha excel de dados de entrada (tabela 3.1) com valores de CAPEX, OPEX, produção e preço do barril. Outros dados como taxa de declínio, royalties, PIS COFINS, etc. foram omitidos. Tomou-se um período de 20 anos com produções estimadas até 2019 através da produção atual e de curvas de declínio (associada a parâmetros como o risco, por exemplo) . 9 Tabela 3.1: Tabela de dados de entrada para o simulador INPUT ELEMENTS - GENERAL COSTS PROJECT NAME NAMORADO Flag Well 1 Flag Well=0 (>1000) ou Flag Well=1(<1000m) GIVEN DATA CASE 1 Price Year 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 0 Total Oil US$/bbl Gas US$/mm3 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 30,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 89,0 ------------- ------------- Oper Cost Exploration Investment Appraisal Development Exp&Bonus Appraisal Oil Gas mmUS$ mmUS$ mmUS$ mmUS$ mmUS$ mmUS$ mbbls mbbls 0 0 0 0 0 102,00 120,00 120,33 90,67 88,00 82,67 77,00 75,33 77,00 75,00 77,67 70,00 66,00 48,00 47,33 30,00 29,33 26,67 17,33 0 0 Risked Investment 24,67 13,67 0,35 0,62 0,68 Production 20180,00 18060,00 15410,00 13280,00 11630,00 10460,00 9550,00 8110,00 6980,00 5620,00 4900,00 4330,00 3900,00 3520,00 3200,00 1970,00 1690,00 920,00 790,00 0,6566667 0,00 0,00 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 3000,00 2000,00 3000,00 3051,00 2470,00 2430,00 1910,00 1770,00 3670,00 3500,00 3030,00 3370,00 3220,00 2590,00 1580,00 120,00 100,00 40,00 40,00 0 1320,33 0 0 0 40,64 0 0 144500 40891 Na simulação volumétrica deste trabalho, usou-se a produção, associando a ela uma distribuição lognormal dos dados com diversas variâncias e mantendo-se fixos os valores de CAPEX e OPEX. Além deles, foi adotado um preço médio de US$30 para o barril de óleo e US$ 89 para o m3 de gás e , a estes, foi associada uma distribuição lognormal. Assim, obteve-se os valores estimados P10, P50 e P90 de volume para as reservas. Na avaliação econômica, adotou-se para a simulação das probabilidades os dados da tabela 3.1, com diferentes variações para CAPEX e OPEX, utilizando-se do Recurso Risk View Pro (figura 3.2). Entretanto, para as simulações de VPL as distribuições foram triangulares, adaptadas para cada um dos dados. Com os valores das reservas, elas foram classificadas em provadas, prováveis e possíveis (P90, P50 e P10, respectivamente) utilizando-se o diagrama SPE/WPC/AAPG. 10 Deve-se, contudo, deixar claro que o valor P90 se refere à incerteza associada à estimativa de recuperação; seria, então, uma reserva com 90% de certeza na estimativa. Portanto, nos resultados do simulador, elas aparecem como e menores valores e a probabilidade de 10% já que, estatisticamente, os valores são inversos. Depois dessa primeira etapa concluída, passou-se à estimativa dos recursos prospectivos. A distribuição dos recursos prospectivos é uma estimativa da última quantidade de volume de óleo e gás que devem ser recuperados se o prospecto descobrir uma acumulação de hidrocarbonetos em condições de produzir e de se tornar um campo de óleo ou gás. Estes valores são definições que devem sofrer mudanças durante a vida do campo, através de curvas de declínio, escoamento e dados econômicos. Em outras palavras, conforme a produção avança, dados que não existiam durante a fase de exploração permitem que os volumes “troquem” de classe e “subam” no diagrama de classificação. Conforme dito, estes estudos não são possíveis na fase de exploração. Algumas companhias, então, utilizam-se de parâmetros simples que são mais consistentes com o elevado grau de incerteza que se aplica aos prospectos: Recursos Prospectivos = Área produtiva X Net Pay médio X Fator de Recuperação. Estes parâmetros são determinísticos (Rose, 2001) e os prospectos são considerados a estimativa pessimista dessa classe de recursos. A área de produtividade é estimada através de modelos geológicos que levam em conta dados sísmicos, condições de contorno, falhas, trapas, etc. Através da superestimação e subestimação dos dados, ou seja, considerando-se condições melhores ou piores de alguns dados, são feitos mapas de maior e menor área refletindo, respectivamente, casos otimista (P10) e pessimista (P90). O caso P50 é a intersecção dos dois casos anteriores. No caso deste trabalho, entretanto, utilizou-se uma análise estocástica dos prospectos através do programa Geo-X. Este programa possibilita a determinação dos volumes P10, P50 e P90 dos recursos prospectivos com base em uma planilha de input que leva em conta dados como: área do reservatório de óleo, razão Net/Gross, porosidade, saturação de óleo, entre outros (Tabela 3.2). Assim como no @Risk, para cada parâmetro de input no Geo-X deve-se ajustar uma distribuição de probabilidade. 11 Tabela 3.2: Planilha de input do Geo-X (prospectos) O próximo passo, então, foi determinar um play para o qual se encaixam esses volumes. Conquanto, a determinação de um play depende da geologia da bacia em questão, já descrita anteriormente. Deve ser levada em conta a estratigrafia, a geologia estrutural, geoquímica, geofísica, entre outros. Por isso, para essa análise, torna-se necessário um estudo geológico do reservatório em questão. Porque há necessidade de uma estimativa base de incerteza geológica para que se estabeleça o tamanho mínimo do play e se possa associar ao sucesso econômico mínimo esperado. Em outras palavras, na ausência de uma análise adequada, um play viável pode se transformar em perda de dinheiro – por exemplo, uma estimativa muito pessimista pode subestimar o valor do reservatório e implicar em gastos adicionais futuros ou perda de lucros com a impossibilidade de explotar todo o volume viável; assim como um play superestimado pode significar perda do dinheiro investido. Novamente, o Geo-X foi de fundamental importância. Da mesma maneira que para os prospectos, inserem-se os dados na planilha de input do simulador (Tabela 3.3) para análise dos dados de play. Depois de carregados todos os dados de volume, há também uma planilha de input para dados de característica do óleo e do reservatório, cahmanda de Reservoir Equations, que leva em conta a pressão do reservatório, temperatura, gradiente de variação com a profundidade, fator de compressão, fator formação de óleo, razão gás óleo, entre outros. 12 Tabela 3.3: Planilha de input do Geo-X (play) 4) Classificação de Recursos e Reservas minerais A classificação de recursos e reservas é uma etapa de grande importância tanto na indústria quanto no ambiente que demanda um conhecimento desses conceitos e enfoques, que serão desenvolvidos neste item. 4.1) Risco X Incerteza Para o estudo da classificação de reservas e de alguns de seus métodos, faz-se crucial a distinção entre risco e incerteza visto que, apesar desses conceitos serem largamente aplicados nos sistemas de classificação e fundamentais na exploração e produção de petróleo, são tomados como iguais ou erroneamente confundidos. Segundo STERMOLE & STERMOLE (1993), o termo incerteza é usado para referir à possível variação nos parâmetros que afetam a avaliação de investimento. Risco refere à avaliação de um investimento usando um mecanismo conhecido que incorpore as probabilidades de ocorrência de sucesso e falha e/ou diferentes valores de parâmetros de investimento. 13 GROEBNER & SHANNON (1993) dão, para incerteza, o conceito de impossibilidade em prever resultados. Pode-se especificar os possíveis resultados para cada alternativa de decisão, mas não se pode conhecer o exato resultado de um caminho qualquer a ser tomado. Para exemplificar, esses autores descrevem uma situação em que um especulador que deve decidir se compra ou não uma propriedade para revendê-la futuramente e obter lucro. Ele não pode saber se ganhará – e, nesse caso, quanto – ou se perderá dinheiro. Contudo, se não comprar, não terá lucro algum. Por isso, a escolha envolve um ambiente de incerteza, que existe para decisões em que possíveis resultados são conhecidos, mas as probabilidades associadas a eles não. Já para projetos de exploração, o risco é um desvio nos valores esperados para o fluxo de caixa (GENTRY & O’NEIL). Vários fatores fornecem a incerteza, como custos de operação, quantidade de reserva, preço do produto, etc. Na classificação de reservas o grau de incerteza está ligado a cada categoria que, conseqüentemente, direciona ao risco. Num projeto de exploração ainda não perfurado, há um risco de que o poço não seja bem-sucedido (isto é, um buraco seco) mas, se for, há incerteza no volume recuperável de hidrocarbonetos que devem estar presentes. Então, o fato das reservas prováveis serem menos certas que as provadas que dizer que elas carregam mais risco. Todavia, a estimativa de ambas deve ter a mesma precisão, ou seja, podem ter o mesmo nível de incerteza (ROSS, 1997). Além do mais, essa diferença representa, também, discernimento entre maturidade do projeto e incerteza volumétrica. Esses dois aspectos da classificação de recursos representam a diferença entre risco e incerteza. Risco pode ser definido como probabilidade de um evento discreto ocorrer ou não. É geralmente usado em relação ao resultado negativo; então, o termo chance é preferido ao termo risco. Os princípios usados pelos exploradores podem ser estendidos para recursos descobertos. Por exemplo, um campo não-desenvolvido pode ser descrito como menos maduro que um campo que está sob desenvolvimento e, conseqüentemente, há um risco maior de que ele não alcance produção comercial. Risco é usado como sinônimo de desviopadrão que é, por definição, uma medida de incerteza na estimativa (ROSS, 2001). 14 4.2) Definição dos termos usados no Brasil: ANP Em primeiro lugar, é importante dizer que há várias classificações para recursos e reservas, o que torna vasto o campo das definições. McKelvey (1972), por exemplo, descreve recurso como uma concentração de materiais de ocorrência natural em estado sólido, líquido ou gasoso, no interior ou sobre a crosta terrestre, de tal modo que a extração econômica de um produto seja presente ou potencialmente viável. Já as reservas seriam aquela porção do recurso identificado, a partir do qual um mineral utilizável ou um produto energético pode ser extraído econômica e legalmente à época de sua determinação. Aqui, todavia, seguiremos o sistema elaborado pela SPE (Society of Petroleum Engineers) e ajustado pela ANP à legislação brasileira. • Volume In-situ – volume de petróleo ou gás natural, apurado em uma determinada data, contido em reservatórios descobertos ou de existência inferida com base em critérios geológicos e estatísticos • Volume In-situ Original – volume In-situ originalmente contido no reservatório, antes de qualquer produção de petróleo ou gás natural. Quanto à comprovação de existência, o Volume In-situ pode ser classificado em: • Volume In-situ Descoberto – volume de petróleo ou gás natural, apurado em uma determinada data, contido em reservatórios cuja existência seja comprovada pela perfuração de poços e avaliados através de testes de formação ou em reservatórios que possam ser avaliados por correlações de perfis ou análise de testemunhos em reservatórios vizinhos e/ou geologicamente análogos. • Volume In-situ Não Descoberto – volume de petróleo e gás natural, apurado em uma determinada data, que se estima existir em acumulações não descobertas de bacias ainda não produtoras ou em áreas inexploradas de bacias produtoras, inferido com base em critérios geológicos e estatísticos na época da avaliação. • Recursos – volumes In-situ de petróleo e gás natural potencialmente recuperáveis, a partir de uma determinada data em diante. • Recursos Originais – recursos de petróleo e gás natural que podem ser obtidos como resultado da produção de um reservatório, a partir das condições originais deste reservatório em diante. 15 Quanto à comprovação de existência, os recursos de petróleo e gás natural podem serclassificados em: • Recursos Descobertos – volumes in-situ descobertos de petróleo e gás natural que podem ser recuperados a partir de uma determinada data em diante. • Recursos Não Descobertos – volumes In-situ não descobertos de petróleo e gás natural que se estimam serem passíveis de recuperação a partir de uma determinada data em diante. • As reservas são consideradas provadas quando: os reservatórios encontram-se em produção ou os hidrocarbonetos neles contidos tenham sua existência comprovada por testes de formação; os reservatórios possam ser avaliados por correlação de perfis ou análise de testemunhos; as instalações para processamento e movimentação dos fluidos produzidos encontram-se desenvolvidas ou existe orçamento aprovado para que tais instalações venham a ser desenvolvidas. As reservas decorrentes da aplicação de métodos de recuperação melhorada de petróleo e gás natural são consideradas provadas quando existe um projeto piloto testado com sucesso; existe um projeto implantado no mesmo reservatório ou em reservatório análogo com propriedades de rocha e fluido similares; embora ainda não implantado, existe uma razoável certeza de que o projeto será implementado. As condições econômicas vigentes, consideradas na estimativa de reservas provadas, devem ser estabelecidas com base no histórico de preços de petróleo e custos associados, bem como as obrigações do Contrato de Concessão e as regulamentações brasileiras quanto à tributação, segurança operacional e preservação ambiental. • As reservas provadas devem incluir: reservas previstas de serem provadas através da perfuração de poços, porém localizadas onde não exista um controle geológico de subsuperfície adequado para classificá-las como provadas; reservas em formações que devem ser produtoras com base em suas características de perfis, mas que não têm dados de testemunhos ou testes de poços, bem como correlação com reservatórios provados na área; incremento de reservas que poderiam ser classificadas como provadas devido a adensamento de malha de perfuração se espaçamento mais refinado estivesse sido aprovado pela ANP, na data da estimativa. Reservas relativas a métodos de recuperação suplementar de comprovada aplicação comercial quando: o projeto ou o piloto estiver planejado, mas não em operação; as características geológicas e hidrodinâmicas dos reservatórios são 16 favoráveis à aplicação comercial do método em questão. Reservas de uma área da formação que deve estar separada da porção provada devido a falhamento e a interpretação geológica indica ser essa área estruturalmente mais alta que a provada; reservas atribuídas a trabalhos futuros de restauração, tratamento ou re-tratamento de poços, mudança de equipamentos, ou outros procedimentos mecânicos, onde essas técnicas não tenham sido testadas com sucesso em poços que apresentem comportamento similar em reservatórios análogos; reservas que excedam àquelas classificadas como provadas quando se utiliza uma interpretação alternativa de desempenho ou de dados volumétricos. • As reservas possíveis podem incluir: reservas além do limite do provável, quando o controle geológico de sub-superfície for inadequado para classificá-las como prováveis; reservas em formações que podem ser portadoras de hidrocarbonetos, baseadas nas características de perfis e análise de testemunhos, mas onde existam incertezas elevadas quanto a sua capacidade de produzir com vazões comerciais; incremento de reservas atribuído a adensamento de malha de perfuração, porém sujeito a incertezas técnicas. Reservas relativas a métodos de recuperação suplementar quando: projeto ou o piloto estiver planejado, porém não em operação; as características geológicas e hidrodinâmicas dos reservatórios são tais que exista uma razoável dúvida de que o projeto será comercial. Reservas de uma área da formação que parecem estar separadas da porção provada devido a falhamento e a interpretação geológica indica ser esta área estruturalmente mais baixa que a provada; recursos descobertos onde as avaliações de projeto indiquem alto risco econômico, principalmente devido a insuficiência de mercado (ANP, 2000). As reservas provadas receberam, então, status de reservas em produção. As reservas prováveis, status de reservas em avaliação e as possíveis, de desenvolvimento planejado (ver figura 4.3.8), com o risco decrescendo das possíveis para as provadas. Portanto, na legenda da tabela 6.1.2 pode-se ler para os volumes, respectivamente, em produção, em avaliação e em desenvolvimento. 17 4.3) Cronologia dos sistemas de classificação usados para jazidas de petróleo Os primeiros trabalhos sobre o sistema de classificação de reservas e recursos devem-se a Arps (1956). Este primeiro sistema relaciona o tempo com a produção BARRIS acumulada e a última estimativa de recuperação (figura 4.3.1). Última estimativa de recuperação Série de estimativas de recuperação Produção acumulada E F Completação TEMPO Abandono no limite de Viabilibade econômica Figura 4.3.1: Gráfico das séries de estimativa de recuperação (Arps, 1956) Durante os primeiros estágios de exploração, antes de qualquer poço ser perfurado no campo, as estimativas são genéricas, baseadas em experiências de poços e reservatórios similares na mesma área e, geralmente, expressas em barris/Km2. As estimativas podem abranger todo o caminho de AB (propriedade não produtiva) a CD, representando a visão mais otimista. O segundo estágio ocorre quando alguns volumes são prospectados e, assumindo-se que o campo é produtivo, torna-se possível fixar a última estimativa de recuperação com limites muito próximos EF e GH. Durante este intervalo de tempo muitas estimativas são volumétricas e baseadas em pagamentos em Km2/m e unidade de recuperação em bbl/Km2*m. O tipo de informação disponível consiste em alguns perfis e poços, análise de testemunho, amostragens do furo e mapas de subsuperfície. Interpretações desses dados em conjunto com o comportamento da pressão inicial levam a conclusões relacionadas ao tipo 18 de mecanismo de produção esperado. Curvas de declínio de produção ainda não estão disponíveis. O terceiro estágio vem quando dados suficientes do desempenho do campo estão disponíveis para permitir a correlação entre as previsões volumétricas e as curvas de declínio possíveis. Além disso, o comportamento da pressão deve, agora, tornar o balanço de materiais possível e oferecer outras indicações de valor relacionadas ao tipo de mecanismo de produção e quantidade de óleo in situ. Esta quantidade adicional de dados cai nas linhas HJK e FLK, que delineiam a série entre estimativas otimista e pessimista, e convergem para o ponto K, que representa a verdadeira recuperação final e a produção acumulada até o abandono. A curva BK representa a produção acumulada do campo (ARPS, 1956). Entretanto, esse sistema proposto por Arps só cobria reservas descobertas com poços perfurados. McKelvey (1972), documentou muito bem a distinção entre recursos e reservas em seu diagrama, que proporciona uma excelente base para o sistema de descrição das reservas. A necessidade de diferenciar o conhecido e recuperável, do não-descoberto ou de economicidade conhecida requeria que um sistema de classificação tivesse dois elementos principais: o grau de certeza sobre a existência de materiais e a possibilidade de recuperá-los. Segundo McKelvey (op.cit.), o grau de certeza sobre a existência de materiais é classificada como provado, provável e possível, termos tradicionalmente usados pela indústria, e as classificações medida, indicada e inferida, termos difundidos durante a II GG. O uso desses três termos para diferentes graus de certeza não é padronizado, mas todas as suas definições referem-se, apenas, a depósitos conhecidos. As definições para possível ou inferido – termos usados pela indústria e por alguns países – somente faziam menção a corpos expostos ou com evidência geológica comprovada. Não relatavam corpos em distritos não conhecidos ou não descobertos. Portanto, o sistema de classificações que esses termos compreendiam não tratava de depósitos que poderiam ser lavrados a partir de inovação econômica e tecnológica. Para remediar esses efeitos, McKelvey sugeriu que a terminologia existente fosse expandida para o diagrama mostrado na figura 4.3.2 (diagrama de McKelvey), em que o grau de certeza decresce da esquerda para a direita e a possibilidade de recuperação diminui do topo 19 para a base. Além disso, as séries de termos usados para descrever o grau de certeza podem ser usadas como referência para depósitos identificados, e aplicadas não só a depósitos mineráveis na época de análise, mas também a outros que foram identificados com o mesmo grau de certeza. As categorias de possibilidade de recuperação são designadas por termos: recuperável, paramarginal e submarginal. Recursos paramarginais são definidos como aqueles recuperáveis a preços de 1,5 vez aos prevalecentes atualmente. Apesar de não parecer provável, há chances de que avanços tecnológicos tornem esses recursos disponíveis a preços maiores ou menores dos que os que prevalecem agora. O diagrama de McKelvey considera que, depois de um longo período, pode-se esperar que a tecnologia torne possível a mineração de recursos que seriam muito caros de se produzir hoje e, certamente, esta é a razão de se tentar levar em conta os recursos submarginais (MCKELVEY, 1972). Porque mesmo parecendo improvável explorar futuramente um recurso que custa menos agora, deve-se pensar em fatores de mudança. O teor de corte do cobre, como ilustração, não só reduziu de um fator de 2 ou 3, mas de um fator de 10 desde a virada do século. E muitos outros recursos submarginais se tornaram viáveis com mudanças tecnológicas. Entretanto, apesar de identificar imediatamente um recurso que algumas companhias têm dificuldade em localizar logicamente (isto é, um recurso descoberto que não é comercialmente recuperável nas condições atuais), o diagrama de McKelvey possuía certas limitações quando tentava lidar com a maturidade do projeto ou com incertezas volumétricas (ROSS, 1998). 20 Não descobertas Prováveis Possíveis RESERVAS + + RECURSOS + Viabilidade econômica de recuperação Submarginal Paramarginal Recuperável Identificadas Provadas Grau de certeza Figura 4.3.2: Diagrama de McKelvey pra classificação de reservas (McKelvey, 1972) Procedeu-se, então, a uma versão modificada da McKelvey Box (figura 4.3.3) em que as reservas possíveis pudessem incluir potencial a mais num campo produtor ou volumes numa acumulação que provavelmente não se desenvolverá num futuro próximo. Vários sistemas foram propostos usando a McKelvey Box, mas enfatizando mais o risco do que a incerteza. Os termos recursos contingentes e especulativos foram incorporados para designar, respectivamente, os volumes descobertos, mas não viáveis em condições correntes e aqueles ainda não descobertos. Contudo, estes dois tipos de reservas são diferentes e a mistura deles restringe o estabelecimento de melhores formas de análise e gerenciamento. Há restrições quanto a importantes fatores de classificação, como incerteza, por exemplo. Apenas o volume das reservas possíveis é tomado para as descobertas não desenvolvidas e não há nenhuma medida de incerteza para essa estimativa. Somente o termo prospectivo designa todo o conjunto de reservas não descobertas. Haveria, portanto, uma falha para classificação de alguns volumes que poderiam se tornar recuperáveis. 21 NÃO DESCOBERTO PROVADO RECURSOS SUB-COMERCIAL PROSPECTIVOS PROVÁVEL POSSÍVEL Possibilidade de recuperáção econômica COMERCIAL DESCOBERTO Risco decrescente Figura 4.3.3 : Diagrama modificado de McKelvey (Ross, 1998) Outro ponto a ser considerado é que, se as categorias de reserva são aceitas refletindo uma média das incertezas, os diagramas como o da figura 4.3.3 trazem o problema da mistura de risco e incerteza. Nos modelos não existe uma implicação específica para a incerteza a não ser que ela decresce para algumas acumulações. Em outras palavras, a incerteza está implícita em termos como provado, provável e possível, mas não está bem determinada. Há o grau de risco associado à possibilidade de recuperação e comercialidade, o que dificulta a identificação das incertezas e de melhor análise do projeto. Reconhecendo a necessidade de um sistema interno de classificação que, especificamente inclua descobertas não-comerciais (assim como volumes não-descobertos) algumas companhias usam o termo contingente (supracitado) para classificar alguns volumes enquanto mantêm habilidade de capturar séries de incerteza nos volumes recuperáveis estimados. Uma aproximação fornece terminologias para outras regiões do diagrama de McKelvey, e representa uma melhoria significante na aplicação da definição de reservas (figura 4.3.4). O termo contingente é considerado apropriado desde que a comercialidade da acumulação seja condicionada a alguma ação ou mudança nas circunstâncias - avanços tecnológicos ou mudanças no mercado, por exemplo (ROSS, 2001). 22 COMERCIAL DESCOBERTO NÃO DESCOBERTO RESERVAS SUB-COMERCIAL RECURSOS PROSPECTIVOS RECURSOS CONTINGENTES Figura 4.3.4: Segundo diagrama modificado de McKelvey ( Ross, 1998) Todavia, em contraste com o diagrama de McKelvey, a Norwegian Petroleum Directorate (NPD) desenvolveu um sistema baseado na maturidade do projeto (figura 4.3.5). Nesse sistema, recursos descobertos de óleo e gás são classificados e agrupados de acordo com um sistema baseado em sua posição numa cadeia de desenvolvimento, que vai desde uma nova descoberta a uma decisão de investimento e, posteriormente, até cessar a produção. O sistema é constituído de oito classes de recursos e reservas recuperáveis, e duas classes cobrindo propriedades que têm recuperação aumentada devido a algum procedimento extra e recursos adicionais que podem ser ligados aos campos. A estimativa de recursos é baseada em registros feitos anualmente pelas operadoras. Neste sistema, um campo ou descoberta deve ter recursos em mais de uma classe. Conseqüentemente, não são os campos ou depósitos os classificados, mas os recursos que eles contêm. 23 TP 7 RECURSOS RESERVAS 6* 5* 4* 3* 2 1 0 MT Figura 4.3.5: Diagrama de classificação NPD Tabela 4.3.1 : classes do sistema NPD CLASSES DESCRIÇÃO 0 Reservas em que a produção cessou 1 Reservas em produção 2 Reservas com plano de desenvolvimento aprovado 3* Reservas em fase final de planejamento (aprovação esperada para 2 anos) 4* Recursos em fase inicial de planejamento (aprovação esperada para 10 anos) 5* Recursos que podem se desenvolver num certo tempo (mais de 10 anos) 6* Recursos com pequenas descobertas em que há muita incerteza 7 Recursos com novas descobertas TP Recursos adicionais em prospectos planejados e conectados ao campo MT Possivelmente, novos procedimentos que aumentarão a recuperação 24 A NPD leva em conta todas as estimativas de depósito com previsões otimista e pessimista somadas a uma estimativa base. Estas previsões são baseadas em modelagem estocástica (Simulação Monte Carlo). Para depósitos individuais, a incerteza estará ligada às incertezas no mapeamento geológico, parâmetros do reservatório ou fator de recuperação. Outro tipo de incerteza reside no fato de algumas medidas – compra de equipamento que aumentará a recuperação, por exemplo – serem empreendidas. Isto é refletido na classificação dos recursos, em que alguns destes (de recuperação não primária) são alocados em uma classe própria. A incerteza total é a combinação de todas essas incertezas. A NPD (2001), contudo, realizou uma revisão desse primeiro sistema. Ambos são baseados na maturidade dos recursos relativo a sua recuperação, mas existem algumas diferenças. No antigo sistema, volumes vendidos são incluídos nas reservas. A revisão distingue o histórico de produção como classe e categoria separados. O termo reserva no sistema revisado abrange os recursos recuperáveis restantes em campos que estão produzindo e recursos que serão recuperados (com decisão já tomada). A diferenciação entre recursos e recursos não descobertos também foi alterada e os recursos ligados a futuros procedimentos para melhorar o fator de recuperação são, agora, incluídos em recursos condicionais na categoria “não-avaliados” (figura 4.3.6). 25 Figura 4.3.6 : Diagrama NPD modificado 26 DESENV. NÃO MUITO PROVÁVEL 6 2A AUTORIZAÇÃO PARA RECUPERAÇÃO 3A FASE DE PLANEJAMENTO 4A POSSÍVEIS MUDANÇAS QUE MELHORAM A PRODUÇÃO INICIAL 7A 2F PLANO DE DESENV. E OPERAÇÃO APROVADO 3F RESERVAS RECURSOS INDICADOS E NÃO MAPEADOS 9 4F PROJETO INICIAL DE RECUPERAÇÃO 7F PROSPECTOS 5F RECUPERAÇÃO PROVÁVEL MAS NÃO CERTA 5A RECURSOS CONDICIONAIS RECURSOS NÃO DESCOBERTOS 8 EM PRODUÇÃO 1 PRODUÇÃO CESSADA 0 PRODUÇÃO HISTÓRICA Tabela 4.3.2: classes do sistema NPD modificado CATEGORIA 0 DESCRIÇÃO Recursos em depósitos que já produziram e passaram pelos pontos de referência de reservas. Incluem quantidades produzidas em campos que estão em produção assim como campos que foram permanentemente desativados 1 Quantidades de petróleo restantes, recuperáveis, comerciais e negociáveis que são cobertas por planos de desenvolvimento aprovados pelas autoridades. As reservas nessa categoria são obtidas subtraindo-se as quantidades da categoria “0” das reservas originalmente recuperáveis 2 Reservas com plano aprovado para desenvolvimento e operação 3 Reservas com autorização para serem recuperadas 4 Recursos em fase de planejamento 5 Recursos em que a recuperação é provável, mas não certa 6 Recursos em que a recuperação não é muito provável 7 Recursos ainda não avaliados (petróleo em campos com as categorias 1, 2, 3, 4, 5 e que pode ter recuperação secundária) 8 Quantidades não descobertas em prospectos mapeados. Não há certeza sobre a presença de recursos 9 Recursos indicados e não mapeados F First oil/gas: ligados ao projeto inicial de recuperação de relevante quantidade de petróleo in-place A Additional oil/gas: ligados a projetos que melhoram a produção relativa ao planejamento inicial 27 No desenvolvimento da classificação SPE/WPC/AAPG, o diagrama de McKelvey foi usado como base para desenvolvimento do sistema. No entanto, quando da tentativa de incorporar o diagrama de McKelvey com o sistema NPD (importante por levar em conta um outro aspecto da classificação dos recursos e reservas) tanto a maturidade do projeto quanto a incerteza volumétrica não eram compatíveis com um sistema bidimensional. Primou-se, então, pela maturidade do projeto em um sistema de baseado em (i) descobertas x não descobertas e (ii) se descobertas comerciais ou não. Volumes comerciais não descobertos (sem perfuração suficiente) são classificados como recursos prospectivos; volumes sub-comerciais descobertos como contingentes e volumes comerciais descobertos COMERCIAL SUB-COMERCIAL PETRÓLEO IN SITU DESCOBERTO PRODUÇÃO RESERVAS PROVADA PROVADA + PROVÁVEL + POSSÍVEL PROVADA + PROVÁVEL RECURSOS CONTINGENTES ESTIMATIVA PESSIMISTA MELHOR ESTIMATIVA ESTIMATIVA OTIMISTA NÃO RECUPERÁVEL PETRÓLEO IN SITU NÃO DESCOBERTO QUANTIDADE TOTAL DE PETRÓLEO IN SITU como reservas (figura 4.3.7). RECURSOS PROSPECTIVOS ESTIMATIVA PESSIMISTA MELHOR ESTIMATIVA ESTIMATIVA OTIMISTA NÃO RECUPERÁVEL MÉDIA DE INCERTEZA Figura 4.3.7: Diagrama SPE/WPC /AAPG (modificado de Ross, 1997) Para a expansão do projeto, esse último sistema de classificação permite adições ao diagrama. Além das três subdivisões maiores, baseadas na maturidade do projeto, uma média de incerteza é reconhecida como sendo apropriada em qualquer nível de maturidade. Para recursos contingentes e prospectivos, os termos otimista, melhor, e pessimista são 28 usados para refletir as classes de incerteza volumétrica. A expansão do projeto adiciona classes que melhoram a análise dos recursos e reservas sob ponto de vista da maturidade, risco e incerteza. É reconhecido que países e companhias devem desejar estabelecer suas próprias categorias consistentes com seu próprio sistema de classificação. Subdividindo-se as maiores categorias de recursos baseados na maturidade/status do projeto e, a partir daí, estabelecendo um sistema mais integrado e detalhado, pode-se fornecer melhor base de Risco baixo gerenciamento (figura 4.3.8). Provada mais Provável Provada mais Provável mais possível Recursos Contingentes Estimativa Pessimista Melhor Estimativa Estimativa Otimista Recursos Prospectivos Estimativa Pessimista Melhor Estimativa Estimativa Otimista y P la Não recuperável Figura 4.3.8: Diagrama modificado SPE/WPC/AAPG incluindo status do projeto (modificado de Ross, 1998) 29 Risco alto Provada Maturidade do projeto Commercial Sub-commercial Petróleo in situ descoberto Petróleo in situ Não descoberto Quantidade total de petróleo originalmente in situ Reservas eto roj o uçã rod p Em ção do al i a eja Av lan Em op t n e te vim den vol n n e e s op De ent o im v l rid efe nv o d e s o De ent im vel olv v ová r n e p s De o im ent m i v vol sen o De ect osp Pr o ad dic n I Sta Produção tus p do Para esse sistema, as categorias de subdivisão são: • Reservas - em produção: o projeto está produzindo (nas condições correntes de mercado) e vendendo petróleo ao mercado - em desenvolvimento: todas as aprovações necessárias foram obtidas e o desenvolvimento está a caminho - desenvolvimento planejado: satisfaz todos os critérios de reserva e há uma firme pretensão de desenvolvimento, mas o planejamento detalhado e as aprovações/contratos necessários estão, ainda, para serem finalizados. • Recursos contingentes - desenvolvimento pendente: requer mais dados ou avaliação econômica - desenvolvimento em espera: projeto de tamanho significante mas aguardando desenvolvimento do mercado ou remoção de alguns entraves (ambientais, técnicos ou políticos, por exemplo) - desenvolvimento inviável: sem planos de desenvolvimento. • Recursos prospectivos - prospecto: a acumulação potencial está suficientemente bem definida para representar viabilidade de perfuração - indicado: acumulação potencial atualmente pobre, requerendo mais dados ou avaliação de prospecção - play: reconhecidas como prospectivas necessitando mais dados e avaliações de sondagem e prospecções. Para documentação das incertezas nessas classes de volume descritas no sistema, usa-se a abordagem da melhor estimativa (figura 4.3.9) . A lógica por trás desse método é que o objeto do exercício (de estimativa de reservas) é: a) fazer a melhor estimativa possível para volumes de hidrocarboneto realmente recuperáveis até o abandono do campo, e b) para avaliar qual é a variação de incerteza nessa estimativa. Esta filosofia é baseada nos métodos probabilísticos, mas os determinísticos também são usados e a “melhor estimativa” é igualada às reservas provadas mais as prováveis - sem descontar a incerteza (ROSS,1997). 30 A variação é definida por uma estimativa inferior e uma superior, que devem ser igualadas às reservas provadas e às reservas provadas + prováveis + possíveis, respectivamente. As estimativas inferior e superior não representam valores mínimo e máximo absolutos possíveis; ao invés disso, representam os cenários reais, maior e menor esperados. Se a variação de incerteza é muito grande, outras estimativas devem ser feitas antes que se autorize o começo do desenvolvimento do campo. O sistema baseado na incerteza (opostamente ao risco) tem vantagem de aplicar e comparar métodos probabilísticos e determinísticos. Mas um dos problemas da melhor estimativa é a ênfase nas reservas provadas. Com base nas definições da SPE, as reservas provadas representam caso mínimo. Argumenta-se que níveis específicos de certeza (cerca de 90%) devem ser especificados para evitar enganos com o significado de “razoável certeza”. Baseando-se na lógica da incerteza, a melhor estimativa pode ser o melhor indicador de valor (figura 9). Outra vantagem do sistema baseado na incerteza é que ele é diretamente equivalente à metodologia usada por muitas companhias em prospectos não perfurados. Além do mais, o sistema distingue entre incerteza e risco, e uma lógica similar pode ser apropriada para recursos descobertos. Usando-se a BEP (Best Estimate Philosophy), para qualquer acumulação de hidrocarbonetos, é possível estimar volumes de hidrocarbonetos recuperáveis que constituem: (i) Melhor estimativa (ii) Estimativa pessimista (iii) Estimativa otimista Estes valores devem ser estabelecidos por técnicas determinísticas e probabilísticas e podem ser relacionados. Ademais, podem ser aplicados a recursos contingentes (exceto para requerimentos comerciais). Em outras palavras, a menor estimativa para reservas provadas deve ser a mesma para recursos contingentes para um campo que se torna comercial devido a uma mudança por razões não técnicas. Entretanto, para evitar confusões de interpretação, os termos provado, provável e possível não devem ser usados para recursos contingentes e prospectivos (ROSS, 1997). 31 Última Estimativa de recuperação (MMB) EXPLORAÇÃO AVALIAÇÃO DESENVOLVIMENTO/ PRODUÇÃO 80 Estimativa Otimista 60 Abandono do Campo MÉDIA DE INCERTEZA Melhor Estimativa 40 20 Estimativa Pessimista 0 2 4 6 8 10 12 Anos Figura 4.3.9: Gráfico da vida (em anos) de uma campo de petróleo, desde a exploração até o abandono (modificado de Ross, 1997) A combinação de métodos probabilísticos e determinísticos proporciona uma valiosa ferramenta de avaliação dos volumes recuperáveis de hidrocarbonetos e a probabilidade de recuperar esses volumes. Em sistemas como o da Mobil Oil E&P Corp, quando o cálculo determinístico está completo, todos os dados são usados, então, na avaliação probabilística. Mesmo se o teste com o maior volume for usado na avaliação determinística, ambos os testes são usados no cálculo das probabilidades. 32 Tabela 4.3.3: comparação dos diagramas de classificação SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO Arps McKelvey McKelvey modificado 1 McKelvey modificado 2 NPD SPE/WPC/AAPG VANTAGENS DESVANTAGENS Permite a visualização de toda a série de estimativas de recuperação do campo, assim como associação das incertezas de recuperação Primeiro diagrama a diferenciar recurso de reserva e a considerar volumes não descobertos e não econômicos em condições correntes Inclui os recursos prospectivos Só leva em conta as reservas provadas e com poços perfurados que, na realidade, representam uma minoria Inclui os recursos contingentes para designar volumes que podem se tornar reservas através de mudanças tecnológicas, econômicas, etc. Utiliza a maturidade do projeto na classificação Engloba risco, incerteza e maturidade do projeto. Usa o método da melhor estimativa para quantificar as incertezas. Mistura risco e incerteza Possui limitações quando se trata da maturidade do projeto e das incertezas volumétricas Há restrições quanto a importantes fatores de classificação, como incerteza, por exemplo. Apenas o volume das reservas possíveis é tomado para as descobertas não desenvolvidas e não há nenhuma medida de incerteza para essa estimativa. Somente o termo prospectivo designa todo o conjunto de reservas não descobertas. Haveria, portanto, uma falha para classificação de alguns volumes que poderiam se tornar recuperáveis. Dificuldade em lidar com o risco Um dos problemas da melhor estimativa é a ênfase nas reservas provadas. 33 5) Estudo de caso: Campo de Namorado Para o estudo de caso, escolheu-se o campo de Namorado por ser ele um campo com todos os dados divulgados pela Petrobrás, sendo chamado de “campo escola”, com alguns anos de desenvolvimento e, conseqüentemente, geologia bem descrita e análises econômicas. 5.1) Aspectos geológicos da Bacia de Campos A Bacia de Campos está situada no litoral do Estado do Rio de Janeiro, abrangendo uma área de aproximadamente 100.000 Km2 até a cota batimétrica de 3.400m. Desse total, apenas uma porção encontra-se emersa. A Bacia de Campos é uma bacia típica de margem divergente. Contudo, alguns fatores como baixo afinamento crustal, reativação das fontes de sedimento, intensa tectônica adiastrófica e as variações globais no nível do mar no NeoCratáceo e Terciário interagiram de forma tal que propiciaram a acumulação de enorme volume de hidrocarbonetos (Raja Gabaglia & Milani, 1990). Baseado em características tectono-sedimentares, individualizou-se três grandes unidades na Bacia: Seqüência Continental, englobando os basaltos da Formação Cabiúnas e parte dos sedimentos continentais da Formação Lagoa Feia, afetados pela tectônica rifte; Seqüência Transicional, caracterizada pelos evaporitos; e Mega Seqüência Marinha, caracterizada pela deposição de sedimentos marinhos e afetada por intensa tectônica adiastrófica. O primeiro evento tectônico (Neocomiano) é carcaterizado pela seqüência continental. A origem da Bacia de Campos está relacionada à ruptura crustal do continente Gondwana, como resultado da atuação de esforços distensivos no Eocretáceo. Produziu-se um sistema de riftes, onde se desenvolveram horsts e grabens limitados por falhas. Os falhamentos da fase rifte apresentam paralelismo com o embasamento pré-Cambriano, 34 admitindo-se que o fraturamento crustal tenha aproveitado as descontinuidades já existentes. Um importante alinhamento é a Falha-Charneira de Campos, que separa os sedimentos cretácicos do embasamento. O rifteamneto esteve associado à intensa atividade vulcânica, que constitui o substrato da região. Mais tarde, sedimetos siliciclásticos e carbonáticos da Formação Lagoa Feia foram depositados em lagos tectonicamente controlados (sendo essas rochas carbonáticas produtoras de hidrocarbonetos em alguns campos da Bacia). A Seqüência Transicional (Andar Alagoas) foi de caráter erosivo e nivelou o relevo da Bacia. Houve reativação local de alguns falhamentos. O pacote sedimentar depositado nessa fase marca a transição dos sedimentos de origem continental para os de origem marinha, caracterizados por clastos cobertos por um pacote de evaporitos (halita e anidrita). A Megasseqüência Marinha é subdividida em três seqüências: Seqüência Carbonática Nerítica Rasa (Albiano Inferior/Médio), Seqüência Oceânica Hemipelágica (Albiano Superior/Paleoceno Superior) e Seqüência Oceânica Progradante (Eoceno Médio/Recente). A primeira dessas seqüências corresponde à parte inferior da Formação Macaé. No Eoalbiano, devido ao progressivo afastamento das placas da América do Sul e África, ocorreu a implantação definitiva da fase marinha e instalação da plataforma clásticocarbonática. A sedimentação carbonática desenvolveu-se sob clima quente e seco, em ambiente nerítico raso, fundo oxigenado e águas hipersalinas, o que é sugerido pelo escasso conteúdo fossilífero de baixa diversidade específica (Dias-Brito et al., 1986). Na transição Eoalbiano/Mesoalbiano tem-se o primeiro registro do desenvolvimento da tectônica adiastrófica relacionado à movimentação de sal (halocinese), originada pela sobrecarga de sedimentos e basculamento da bacia, resultando na formação de almofadas de sal (Raja Gabaglia & Milani, 1990). O Macaé Inferior é formado por sedimentos terrígenos, que ocorrem nas partes costeiras da Bacia com calcários ocupando as porções de plataforma. A seção basal é formada dominantemente por dolomitos. A Seqüência Oceânica Hemipelágica engloba a porção superior da Formação Macaé e a mudança do Neoalbiano para o Mesoalbiano. Uma nova fase de movimentação halocinética foi instaurada na Bacia como resultado da sobrecarga. O processo halocinético 35 evoluiu a partir da formação de falhas de crescimento (do que decorreu a formação de estruturas dômicas em que os turbititos se depositaram). A deposição se deu em ambiente de periplataforma, ainda na fase pré-oceânica. Os carbonatos foram depositados em resposta à elevação relativa do nível do mar, que imergiu os carbonatos Macaé Inferior. Esta elevação do nível do mar é condizente com aquela prevista por Vail (1977) para este período. Dados qualitativos de foramníferos bentônicos indicam que a sedimentação ocorreu em ambiente nerítico médio a profundo (Azevedo et al., 1987), com profundidades batiais reconhecidas nas porções de maior subsidência. Corpos turbidíticos ocorrem como extensos lençóis, predominantemente na parte norte da Bacia. Dados do Campo de Albacora indicam uma extensão lateral de 200Km2. Todavia, há também corpos confinados em calhas, como os do Campo de Namorado. Estes corpos são compostos de arenitos médios, maciços, alcançando espessuras de até 150m. A fase oceânica definitiva, estabelecida no Eoturoniano/Neopaleoceno, é englobada pela Formação Campos, com sedimentos de ambiente marinho profundo a batial. Estes sedimentos são, basicamente, folhelhos e margas, além de grandes corpos de turbiditos. A movimentação halocinética diminuiu em intensidade, mas continuou a produzir calhas deposicionais confinadas. Estes movimentos refletem o progressivo basculamento da margem continental leste, em regime de subsidência térmica. Os folhelhos e margas dessa seqüência constituem o Membro Ubatuba e as areias turbidíticas o Membro Carapebus (Raja Gabaglia & Milani, 1990). As trapas em que se localizam os hidrocarbonetos nessa seqüência são, praticamente, estruturais devido à movimentação de sal durante o processo de deposição. No Neocretáceo ocorreu reativação tectônica distensiva na Bacia de Campos e o padrão de sedimentação foi alterado, iniciando-se uma seqüência progradante. Além disso, a variação no nível do mar e o Soerguimento da Serra do Mar influenciaram o desenvolvimento sedimentar da bacia terciária, de característica progradante (offlap). Os turbiditos terciários do Membro Carapebus foram depositados nessas condições de regressão marinha. Depois dessas reativações do Neocretáceo, o Oligoceno representou a fase estável da Bacia. A grande quantidade de sedimentos siliciclásticos depositados no período anterior 36 explicam o volume de arenitos no sopé e planície abissal durante o Oligoceno. Este período, ainda mais, é representado por três sistemas de leques turbidíticos estabelecidos em três variações do nível do mar, em intervalos de 5Ma (retrabalhamentos desses corpos podem ser observados em testemunhos dos Campos de Marlim e Albacora). Esta descrição geológica pode ser observada na Seção da figura 5.2.2. 5.2) Carta dos eventos temporais da Bacia de Campos e perfil geológico Para melhor determinar quando a rocha geradora (Formação Lagoa Feia) estava ativa (gerando petróleo), usa-se a carta dos eventos temporais da Bacia (figura 5.2.1). Baseado nesta carta, pode-se dizer que o momento crítico, ou seja, aquele do pico de produção de petróleo, ocorreu no Neógeno (provavelmente no Mioceno, há cerca de 22 Ma). Figura 5.2.1: carta dos eventos temporais da Bacia de Campos (extraído de Guardado et. al., 2000) 37 Figura 5.2.2: Seção geológica regional da Bacia de Campos (ANP, 2000) 38 Figura 5.2.3: Carta Estratigráfica da Bacia de Campos 39 5.3) Reservatórios O campo de Namorado localiza-se na Bacia de Campos, a 80 km a sudeste do Cabo de São Tomé (RJ), sob lâmina d’água de 200 metros. Foi descoberto em 23/11/75 e teve sua produção iniciada em 30/06/79. As produções acumuladas totalizam 254,732 milhões de barris de óleo e 4,783 bilhões m3 de gás. Na área do campo, existem 861 km de sísmica 2D, 702 km2 de sísmica 3D e 58 poços perfurados. O reservatório principal é o Arenito Namorado (reservatório NA-1) da Formação Macaé, de idade albiana superior/cenomaniana. Trata-se de arenitos turbidíticos, depositados em ambiente marinho profundo, sendo as trapas do tipo misto. Observa-se a usual e excelente qualidade dos dados sísmicos coletados na Bacia de Campos, não obstante a complexidade estrutural (forte falhamento) e estratigráfica (inúmeras intercalações de folhelhos e margas) do arenito Namorado. A seção estrutural mostra a importância do controle estratigráfico (acunhamentos) na delimitação deste reservatório. Os outros reservatórios deste campo são os arenitos turbidíticos da Formação Carapebus (Arenito Enchova) de idade Eoceno Médio/Inferior. O reservatório do Campo de Namorado apresenta uma pressão original de 321 kgf/cm2 e pressão de saturação de 248,7 kgf/cm2, estando originalmente subsaturado. O mecanismo principal de produção primário é o de gás em solução. O campo encontra-se sob injeção de água. O fluido principal é óleo leve, com 28o API. As características de permeabilidade, viscosidade e espessura definem o reservatório como de altíssima transmissibilidade (11.465 mD.m/cP). Tabela 5.3.1: Propriedades dos fluidos e rochas dos reservatórios de Namorado Reservatório Namorado Enchova Prof. (m) (n. mar) -3.000 ni Dados Gerais Fluido Pi 2 % VIP † (kgf/cm ) Tipo óleo 92,0 321 gás 99,9 ni Temp. (°C) 110 ni Propriedades das Rochas k Sw Espessura φ HC (m) (%) (mD) (%) 45 26 400 16 ni ni ni ni 40 Tabela 5.3.2 : Propriedades dos hidrocarbonetos dos reservatórios de Namorado Reservatório Namorado Enchova Dados Gerais Rs Psat (kgf/cm2) (m3/m3) 248,7 126,7 ni ni °API 28 ni Óleo µ (cP @ °C) 1,5 110 7 ni ni Bo (m3/m3) 1,439 ni γg (ar=1) 0,8 Gás P.Cal. (kcal/m3) 9.400 Bg (m3/m3) 0,0075 ni ni ni 5.4) Reservas O fator de recuperação calculado por correlações empíricas (Garb & Smith, Estimation of Oil & Gas Reserves, 1985) é de 20,8 % para o mecanismo de gás em solução e de 36,6 % para o de influxo de água, assumindo as propriedades gerais de rocha e fluido fornecidas para todos os reservatório. O valor de 42,9 %, calculado a partir dos dados de volume original, da produção acumulada e da reserva total, obtida utilizando-se o simulador IMEX, é um pouco otimista, em relação às estimativas anteriores. De acordo com os dados constantes do relatório da Petrobrás, já estão em operação os sistemas de injeção de água, com um volume injetado acumulado de 334,63 milhões de barris. O campo encontra-se em produção, com previsão de produzir 64,368 milhões de barris de óleo e 4,823 bilhões m3 de gás, significando 83,7 % da reserva total de óleo. Está previsto o aumento da vazão de injeção de gás até 1,0 milhão m3 por dia, com posterior liberação da capa no ano 2004. A recuperação prevista, considerando a previsão de produção até o ano 2012 e a produção acumulada atual, é da ordem de 41,3 %, estando consistente do ponto de vista de produção e reservatório. O índice reserva/produção é de 5,7 anos, considerando o fluido principal óleo, sendo compatível com as condições operacionais do campo. As reservas provadas de óleo e de gás representam 91,2 % e 85,7 % das respectivas reservas totais, indicando, para o óleo e o gás, um alto grau de certeza na comprovação dos volumes envolvidos. O campo possui 2 reservatórios de gás não associado (CRP e Enchova), com volume in place de 1,180 bilhão m3. 41 Fluido Óleo Gás associado Gás não associado Óleo+Gás VIP 773,343 milhões barris 15.515,049 milhões m3 1.179,788 milhões m3 878,350 milhões boe Reservas (30/06/97) Total Provada 76,889 milhões barris 70,140 milhões barris 3.412,177 milhões m3 3.227,560 milhões m3 3 353,840 milhões m 0,000 milhão m3 100,576 milhões boe 90,441 milhões boe 6) Resultados obtidos: simulação Os resultados das simulações feitas para os dados de produção e econômicos do Campo de Namorado podem ser vistas neste item. Os dados utilizados inicialmente são os da tabela 3.1 e os resultados são apresentados nas tabelas que se seguem e seus respectivos gráficos. 6.1) Estimativa das reservas Foram feitas quatro simulações de volume considerando-se os volumes com distribuição lognormal e diferentes variâncias para cada caso. Para alterar os dados de volume, utilizou-se do recurso Risk view Pro (figura 3.2). Para as simulações de volume usou-se variância 2, 5, 10 e 15, e obteve-se os resultados mostrados na tabela 6.1.1 e no gráfico da figura 6.1.1. 42 91,2 % 94,6 % 0,0 % 89,9 % Tabela 6.1.1: resultados das simulações de volume Simulações Volume (MMbbl) Probabilidade (%) variância = 2 variância = 5 variância = 10 variância = 15 5 144,4755 144,4482 144,4192 144,3709 10 144,478 144,4548 144,4401 144,3934 15 144,4813 144,4627 144,452 144,4092 20 144,4829 144,4678 144,4646 144,4251 25 144,4846 144,4738 144,4695 144,4325 30 144,4874 144,4766 144,4763 144,4436 35 144,4881 144,4781 144,4797 144,4558 40 144,489 144,4832 144,4855 144,4688 45 144,49 144,4869 144,4936 144,4768 50 144,4904 144,4918 144,4972 144,485 55 144,491 144,4948 144,5046 144,4991 60 144,4919 144,5002 144,5082 144,5069 65 144,4925 144,5018 144,5115 144,5131 70 144,4942 144,5054 144,5193 144,5223 75 144,4957 144,5068 144,5318 144,5329 80 144,4968 144,5092 144,5395 144,5554 85 144,4981 144,5188 144,5485 144,5615 90 144,5006 144,5197 144,563 144,5877 95 144,5028 144,5237 144,583 144,6151 Legenda reservas provadas provadas + prováveis provadas + prováveis + possíveis 43 Probabilidade (%) Curvas de Probabilidade 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 144,35 144,4 144,45 144,5 144,55 144,6 144,65 simulação var = 2 simulação var = 5 simulação var = 10 simulação var = 15 Volume (MMbbl) Figura 6.1.1: Curvas de probabilidade das simulações de volume O mesmo modelo foi utilizado na simulação de VPL. Contudo, criaram-se três cenários de simulação. Na simulação 1, os valores de OPEX foram 15% maiores e os de CAPEX 2%. Na segunda simulação, valores de OPEX variando15% em torno dos valores reais (ou seja, valores 15% acima e abaixo dos originais) e os de OPEX com variação de cerca de 2%. Finalmente, na terceira simulação, valores de OPEX 15% menores e de CAPEX, novamente, 2%. Os valores de produção foram mantidos fixos e os resultados obtidos estão expressos na tabela 6.1.2 e figura 6.1.2. 44 Tabela 6.1.2: resultados das simulações econômicas Simulação 1 OPEX 15% maior CAPEX Probabilidade 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 90 95 2% maior 950,0903 1001,174 1018,145 1032,73 1045,167 1054,908 1065,644 1080,059 1088,392 1091,31 1098,981 1114,842 1125,057 1134,992 1141,809 1150,533 1172,056 1195,794 1243,376 Simulação 2 variando 15% em torno da média variando 2% em torno da média VPL (US$MM) 983,3852 1029,311 1050,697 1059,549 1065,568 1074,268 1081,964 1089,179 1104,846 1114,285 1119,865 1129,806 1146,744 1165,656 1180,777 1191,444 1214,977 1229,676 1256,479 Simulação 3 15% menor 2% menor 990,2821 1041,333 1054,716 1082,131 1098,709 1104,683 1116,368 1124,488 1130,327 1141,948 1146,976 1154,599 1173,592 1181,274 1203,704 1218,192 1238,504 1250,036 1311,455 Legenda reservas provadas provadas + prováveis provadas + prováveis + possíveis 45 Probabilidade (%) Curvas de Probabilidade 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 900 simulação 1 simulação 2 simulação 3 950 1000 1050 1100 1150 1200 1250 1300 1350 VPL (US$MM) Figura 6.1.2: Curvas de probabilidade das simulações econômicas 6.2) Estimativa dos recursos Com os dados da tabela 3.2 mais os dados das tabelas 5.3.1 e 5.3.2 usados de input, obteve-se os resultados dos prospectos no Simulador Geo-X . Os resultados são apresentados na tabela 6.2.1 e na figura 6.2.1. Tabela 6.2.1: Volume de óleo dos prospectos simulados no Geo-X 46 Figura 6.2.1: Diagrama de Recursos para os prospectos simulados no Geo-X No caso da análise do play, utilizaram-se as tabelas 3.3, 5.3.1 e 5.3.2 como input para o simulador. Como resposta, obteve-se os resultados da tabela 6.2.2 e da figura 6.2.2. É importante ressaltar que, no caso do play, as incertezas na estimativa são muito maiores visto que há de menos informações sobre o campo e, alguns parâmetros, são tratados com base na correlação com outros reservatórios de características semelhantes. Por isso, o valor obtido para os recursos in situ na fase de play são maiores que para os prospectos. Porque as incertezas são maiores. Geralmente, nesta fase de exploração, dispõe-se das seções sísmicas e, às vezes, de poços pioneiros ou exploratórios. Contudo, os poços exploratórios estão mais presentes na fase de prospecto, quando já há um volume prévio identificado e um local assinalado para a perfuração dos poços. 47 Tabela 6.2.2: Volume de óleo no play simulado no Geo-X Figura 6.2.2: Diagrama de Recursos para o play simulado no Geo-X 48 6.3) Classificação dos recursos e reservas Com os resultados das simulações, obteve-se um diagrama para classificação dos volumes simulados, assim como sugerido na metodologia e utilizando-se da figura 4.3.8 Risco baixo como base. Este diagrama pode ser observado na figura 6.3.1. o jet pro do s tu Sta Prováveis (P50) Possíveis (P10) VPLs (US$MM) 144,307 950,090 144,419 983,385 144,448 990,282 144,485 1091,310 144,497 1114,285 144,4948 1141,948 144,5237 1243,376 144,583 1256,479 144,6151 1311,455 Recursos contingentes Recursos prospectivos Prospecto 436,6 Play 785,3 E o uçã rod p m E De se v mA ç alia ão do ej a lan p o ent lvim o v n Risco alto Reservas Volumes (milhões) Maturidade do projeto Commercial Petróleo in situ descoberto Provadas (P90) Petróleo in situ Não descoberto Sub Quantidade total de petróleo originalmente in situ Categoria cto spe Pr o y Pl a Não recuperável Média de incertezas Figura 6.3.1: Diagrama de classificação dos volumes simulados 7) Referências bibliográficas Arps, J. J. 1956. Estimation of primary oil reserves. Petroleum Transactions AIME, Dallas, Texas – USA. p. 182-191 49 Brasil, 1992. Portaria nº 03 de 24 de outubro de 1990. Secretaria Nacional de Minas e Metalurgia. 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Independentemente, Demaison (1984), desenvolveu o conceito de bacia geradora, Meissner et. al. (1984) descreveram a “máquina de hidrocarboneto” e Ulmishek (1986) identificou um sistema petrolífero independente. Todos esses conceitos são muito similares ao sistema petrolífero. Expandindo o primeiro trabalho, Magoon e Dow (1994) formalizaram o critério de identificação, mapeamento e nomenclatura de um sistema petrolífero. Como o primeiro conceito de sistema petrolífero só incluía as acumulações descobertas, Magoon (1995) incluiu os termos play complementar e prospecto complementar para adicionar os campos não descobertos ao sistema. Depois, o TPS (total petroleum system) se igualou ao conceito inicial de Magoon e Dow (1994), e à soma de todos os campos não descobertos no play complementar e nos prospectos complementares dentro do sistema (Magoon & Beaumont, 1999). Um sistema petrolífero compreende uma rocha geradora e todas as acumulações de óleo e gás correlatas. Ele inclui todos os elementos e processos geológicos que são essenciais a existência de óleo e gás. Os elementos essenciais de um sistema petrolífero são: rocha geradora, rocha reservatório, rocha selante e trapa. Em primeiro lugar, o sistema deve passar pela formação 53 da trapa e , depois, geração, migração e acumulação de hidrocarbonetos. Estes elementos e processos essenciais devem ocorrer em um tempo e espaço tais que permitam que a matéria orgânica depositada na rocha geradora se transforme em uma acumulação. E um sistema petrolífero existe se todos esses processos são de ocorrência conhecida ou se há uma razoável chance ou probabilidade de que ocorra (Magoon & Beaumont, 1999). Para determinar o tamanho do sistema petrolífero deve-se agrupar todas as ocorrências relacionadas de petróleo usando características geoquímicas e estratigráficas. Depois disso, identificar a fonte usando correlações óleo-rocha geradora. O terceiro passo seria localizar a área do corpo da rocha geradora responsável pelas ocorrências de petróleo. Por fim, fazer uma tabela de acumulações para determinar a quantidade de hidrocarbonetos no sistema e qual rocha reservatório contém a maior acumulação de petróleo. Extensão temporal, geográfica e estratigráfica Como dito anteriormente, um sistema petrolífero é limitado por tempo e espaço característicos de cada sistema. Com relação aos aspectos temporais, os mais importantes são a idade, o momento crítico e o tempo de preservação. A idade do sistema se refere ao tempo necessário para o processo de geraçãomigração-acumulação dos hidrocarbonetos. O momento crítico é o tempo que melhor descreve este processo e um mapa feito neste momento é o que melhor mostra a extensão geográfica e estratigráfica do sistema. A figura 8.1 representa um exemplo dos elementos essenciais no momento crítico. O tempo de preservação começa imediatamente após o processo de geraçãomigração-acumulação e se extende até o presente. Durante este tempo podem ocorrer diversas mudanças no sistema, como remigração e degradação. 54 Fig 8.1: Tabela dos elementos essenciais no momento crítico do sistema fictício Deer-Boar (extraído de Magoon & Dow, 1994). A extensão geográfica de um sistema petrolífero é determinada no momento crítico e é definida por uma linha que circunscreve o corpo de rocha geradora ativa, os caminhos pelos quais os hidrocarbonetos migram, as descobertas e acumulações do óleo originado daquela fonte. Ela deve ter um tamanho máximo e um mínimo. Este deve coincidir com a linha da extensão geográfica, e aquele deve ser um pouco maior para incluir possíveis reservatórios dos quais não se conhece a linha de migração. A figura 8.2 é um exemplo de delimitação geográfica. 55 Fig 8.2: extensão geográfica TPS (extraído de USGS Worl Petroleum Assessment, 2000). A extensão estratigráfica é a dimensão das unidades litológicas que englobam os principais elementos dentro da extensão geográfica do sistema. Vai desde a parte inferior da rocha geradora até o topo da rocha que cobre o reservatório. Ela pode ser obtida através da tabela de história de deposição (figura 8.1) e da seção geológica no momento crítico. A figura 8.3 mostra um exemplo desta seção. 56 Fig 8.3: extensão estratigráfica do sistema fictício Deer-Boar (extraído de Magoon & Dow, 1994). Bacia sedimentar, play e prospecto Uma Bacia sedimentar é uma depressão preenchida por rochas sedimentares (Magoon & Beaumont, 1999). A presença de rochas sedimentares é uma prova de que uma bacia existiu. A depressão formada por um processo tectônico possui um embasamento, que pode ser ígneo, metamórfico, ou mesmo sedimentar. O material de preenchimento da bacia inclui sedimentos, matéria orgânica e água depositada e os elementos essenciais de um sistema petrolífero estão associados a estas bacias. Play e prospecto são termos usados pelo exploracionistas como um argumento geológico para justificar a procura de acumulações econômicas e não descobertas de petróleo. O play consiste de um ou mais prospectos geologicamente relacionados, e um prospecto é uma trapa que deve ser avaliada através de perfuração para determinar de possui ou não uma quantidade comercial de petróleo. Uma vez perfurado, o termo prospecto é abandonado e o local passa a ser chamado de buraco seco ou campo em produção. Em um play, as acumulações de óleo são comerciais e não descobertas. Em um sistema petrolífero, as ocorrências acabaram de ser descobertas (Magoon, 1995).Geralmente, um play é estabelecido sem nenhum sistema petrolífero em mente. Contudo, quando um play é baseado em um sistema particular, ele é chamado de complementar. Este termo é também usado para designar as acumulações não descobertas restantes em um sistema petrolífero. 57 Anexo II - Fluxo de Caixa e VPL Em toda a indústria do petróleo, a análise econômica dos projetos de investimento é feita para selecionar o projeto ou projetos que darão o máximo valor a partir do investimento do capital disponível. Os investidores, em geral, usam técnicas de análise econômica baseadas em taxas de retorno, valor presente, valor anual, valor futuro, ou outras análises para alcançar a melhor decisão econômica. Quando as técnicas mencionadas são baseadas em se trabalhar o valor do dinheiro no tempo mediante taxas de juros compostas, estas técnicas são chamadas de fluxo de caixa descontado (Stermole & Stermole, 1984). Os juros são o preço pago pelo uso do dinheiro ou fundos de empréstimo, expresso em porcentagem de empréstimo ou de fundos emprestados. Esta taxa de juros tem, geralmente, base anual de cálculo. Assim, uma taxa de juros de 10% ao ano sobre um investimento de $100 irá somar $110. Portanto, $100 é o valor principal e o $10 é a taxa de retorno do investimento. E como o juro se torna custo para quem pegou emprestado e lucro para quem emprestou, ele é considerado importante elemento nas decisões financeiras (Mian, 2002). Há dois tipos de juros, o simples e o composto. Aquele é calculado usando-se apenas o valor principal, que acumula juros ao longo do período fixo. Os juros compostos são aqueles acumulados tanto no valor principal quanto nos juros não pagos, conseguidos em adiantamento. No final do período de juros, o valor principal e o adquirido são deixados para acumular juros para o próximo período. O principal e o adquirido se tornam, então, a soma do principal para calcular o juro no período seguinte. O termo desconto é considerado sinônimo de valor presente em análise econômica. Quando trabalham com o valor do dinheiro no tempo, os investidores levam em conta o fato de que uma unidade monetária hoje vale menos do que futuramente, porque essa unidade monetária pode ser investida e para acumular juros e gerar um retorno. Assim sendo, o valor presente de um valor futuro seria a soma do dinheiro que, investido hoje a taxas específicas de juros compostos, crescerá para dar este valor futuro. Quando se consideram taxa de juros positivas, o valor futuro é sempre maior que o valor presente. E desde que o termo desconto implica em redução, pode ser considerado sinônimo de valor 58 presente porque ambos implicam, em reduzir o valor da unidade monetária (Stermole & Stermole, 1984). O termo fluxo de caixa é usado para designar uma entrada ou saída de dinheiro que ocorre durante um período específico de operação. Já o fluxo de caixa descontado (DCF) se desenvolveu do fato de que investidores quase sempre trabalham com o valor do dinheiro no tempo, usando cálculos de valor presente. Portanto, eles “descontam” fluxos de caixa negativos e positivos de um investimento (antecipados para o presente) para avaliar o potencial econômico de um projeto. O DCF força o investidor a pensar sistemática e quantitativamente sobre todos os fatores econômicos relevantes que possam afetar o potencial econômico do projeto. Devese, por isso, levar em conta parâmetros como a magnitude e o timing dos custos e lucros do investimento, os efeitos da inflação, o risco e as incertezas associadas, as taxas para descontos futuros, etc (Stermole & Stermole, 1984). Então, para que se pudesse comparar os projetos, fez-se necessária a utilização de um método que o permitisse e DCF forneceu a base com os parâmetros que são usados por quase todas as empresas para a análise econômica dos projetos de exploração. O modelo de fluxo de caixa nas explorações de petróleo é usado como uma quantificação das descobertas e acompanha cada prospecto desde a exploração até o abandono do campo. Assim como para as reservas e suas estimativas, o fluxo de caixa deve ter uma distribuição probabilística (P10, P50 e P90) de valores ao invés de uma única média. Em outras palavras, deve-se ter calculada, ao invés de um valor de VPL para a média das estimativas de reserva, uma média de todos os resultados de VPL obtidos ( com distribuição probabilística igual àquela feita para as reservas). Desta maneira, não se estima um cenário muito otimista nem um muito pessimista, que podem superestimar ou subestimar, respectivamente, a dimensão do projeto. Para tal, necessita-se um cenário geológico com chances de sucesso já estimadas, de onde tomamos uma média para a avaliação econômica. A partir desse cenário, atribuem-se valores compatíveis para itens de exploração, como volume de óleo por poço, curvas de declínio, custos do projeto (CAPEX e OPEX, por exemplo), vida útil estimada do campo, além de um preço fixado para o óleo (que em certos casos pode inviabilizar o projeto). 59