Comunicações Geológicas, 2008, t. 95, pp. 61-71 Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela Contribution for the hydrogeologic characterization of groundwater in the granitic massif of Serra da Estrela E. MENDES*, L. M. FERREIRA GOMES* & M. T. CONDESSO DE MELO** Palavras-chave: Água subterrânea, Serra da Estrela. Resumo: Com o presente estudo pretende-se aumentar o conhecimento hidrogeológico da água subterrânea do maciço granítico da Serra da Estrela. Assim, apresentam-se os resultados de pesquisa efectuados em captações compostas essencialmente por minas, drenos, furos semi-horizontais e nascentes, num conjunto de 64 captações instaladas em granitos hercínicos. No presente estudo apresentam-se, de entre outros, as características detalhadas da água subterrânea, com os resultados de análises químicas completas, os dados de monitorização mensal da quantidade e qualidade da água em todas as captações com a medição de parâmetros “in situ” - pH, potencial redox (Eh), condutividade eléctrica (CE), temperatura (T) e caudal (Q). Salienta-se ainda que as captações estudadas não possuem qualquer sistema de extracção de água do tipo bomba, correspondendo o caudal captado ao fluxo natural em cada local. Keywords: Groundwater, Serra da Estrela Mountain. Abstract: With this study we aim to improve the hidrogeologic knowledge of groundwater in the granitic massif of Serra da Estrela. Thus, this paper present the results of research in captations essentially composed for water mines, drains, sub-horizontal wells and springs, in a set of 64 captations installed in hercynian granitic rocks. Groundwater points were sampled for chemical analysis, and groundwater flow was monitored for quantity and quality characterization. Electrical conductivity (EC), pH, redox (Eh), temperature (T) and flow rate (Q) were monthly measured “in situ”. Is important to enhance that the studied captations don´t have any type of pumping system, corresponding the capture flow rate to the natural flow in each location. INTRODUÇÃO A avaliação quantitativa e qualitativa dos recursos hídricos subterrâneos de uma região é fundamental na satisfação das necessidades hídricas de abastecimento doméstico, industrial e agrícola. Na região da Serra da Estrela (vertente oriental), a investigação neste domínio encontra-se ainda numa fase embrionária, entendendo-se assim a necessidade de se desenvolver e aprofundar o estudo desta temática hidrogeológica na região. É nesta vertente da serra que se encontram as principais captações de água subterrânea para abastecimento público da população da cidade Covilhã e que servem, conjuntamente com o Sistema da Barragem da Cova do Viriato, a totalidade de 28897 habitantes. Assim, no sentido de haver um maior conhecimento disponível sobre este tipo de recurso, apresentam-se os resultados de pesquisa efectuados em captações compostas essencialmente por minas, drenos, furos semi-horizontais e nascentes, num conjunto de 64 captações, cujos trabalhos decorreram de Janeiro a Dezembro de 2005. Com o presente trabalho, pretende-se contribuir para o conhecimento hidrogeológico da Serra da Estrela mediante uma caracterização hidrodinâmica e hidroquímica da água subterrânea captada em rochas graníticas hercínicas. Salienta-se que os elementos aqui apresentados são parte de um estudo mais global onde também foram * Universidade da Beira Interior, Dep. de Engenharia Civil e Arquitectura, 6200-001 Covilhã, Portugal; [email protected]; [email protected] ** CVRM-Centro de Geossistemas, IST, Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa, Portugal; [email protected] © INETI 2008. Todos os direitos reservados. 62 E. MENDES, L. M. FERREIRA GOMES & M. T. CONDESSO DE MELO consideradas captações localizadas em formações metamórficas. Refere-se ainda que a presente área de trabalho foi alvo de um estudo pormenorizado por MENDES (2006) que teve como objectivo a definição do perímetro de protecção das captações de água subterrânea para consumo humano. ENQUADRAMENTO GEOMORFOLÓGICO E GEOLÓGICO Em termos geomorfológicos a região onde as captações estão situadas é marcada profundamente por duas importantes unidades geomorfológicas: a Serra da Estrela imponente e saliente, com cotas muito elevadas que che- gam a atingir os 1993 metros e a Cova da Beira, apresentada com um fundo aplanado, de altitudes entre 400 e 500 metros. A região em estudo localiza-se na vertente oriental da Serra, em cotas acima de 700 metros, a qual se apresenta em patamares tectónicos até se atingir a altitude de 1993 metros (Figura 1). Este arranjo geral da topografia é consequência principal das acções tectónicas, que no essencial levantaram a zona de montanha. Os taludes muito inclinados que a limitam correspondem a escarpas de falha com uma evolução relativamente longa, e que deram origem à actual Serra da Estrela. A actividade tectónica contudo não se extinguiu, existindo ainda hoje actividade neotectónica, com movimentos ao longo das grandes falhas, como prova a ocorrência Fig. 1 – Esboço do relevo da Serra da Estrela, a partir do modelo digital de terreno (adaptado de VIEIRA, 2004 in ALMEIDA, 2005). A vermelho encontra-se delimitada a área em estudo. – Sketch of the Serra da Estrela relief, from the digital land model (adapted from VIEIRA, 2004 in ALMEIDA, 2005). The red line delimit the study area. Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela de sismos na zona da falha da Vilariça, sendo esta, de facto, muito extensa e profunda como orientam as nascentes termais quentes em Unhais da Serra e Manteigas, com produção de água subterrânea em artesianismo, cujas recargas estão também associadas à Serra da Estrela. Em termos gerais, a Serra da Estrela possui uma das redes hidrográficas mais importantes de Portugal, onde nascem três rios inteiramente portugueses: o Rio Zêzere, o Rio Mondego e o Rio Alva. Na maioria dos casos, os cursos fluviais apresentam um traçado com grandes troços rectilíneos, resultante da sua adaptação à fracturação regional. O sector em estudo, encontra-se na unidade geotectónica da zona Centro Ibérica, onde afloram sobretudo rochas graníticas hercínicas com idade entre os 280-340 milhões de anos. Estas rochas são normalmente caracterizadas pelo seu aspecto macroscópico, nomeadamente a composição mineralógica, granulometria e textura. Existem vários tipos de granitos variando desde o granito porfiróide ao granito de grão médio a fino. O mais comum na zona em estudo é o granito de duas micas, porfiróide muito grosseiro em que os megacristais de microclina se apresentam muitas vezes com um grande desenvolvimento em termos de alteração. CLIMATOLOGIA Dos elementos climáticos disponíveis para a caracterização da zona em estudo, usaram-se os elementos de precipitação registados na estação meteorológica da Covilhã 12L/03-Covilhã (INAG, 2006), instalada na vertente oriental da Serra da Estrela genericamente coincidente com a área de estudo. Assim apresentam-se, em termos gráficos, na Figura 2, os registos dos valores de precipitação diária de Janeiro a Dezembro de 2005. Destes elementos salienta-se que o mês de menor e maior precipitação foi Julho (0.0 mm) e Outubro (312.7 mm), respectivamente. Menciona-se, ainda, que 2005 correspondeu a um ano em que só se registaram valores de precipitação em 91 dias, o que em termos percentuais se traduz em 25% do período anual. Na Figura 3, apresenta-se a evolução da precipitação anual onde se pode constatar que no ano de 2005, a precipitação total corresponde a 53% da precipitação média anual, ou seja, claramente um ano com precipitação muito abaixo do normal Em relação aos valores de temperatura, estes variam entre um mínimo, em Janeiro, de 2.4ºC e um máximo em Julho, de 17.2ºC sendo a temperatura média anual de 8.9ºC. 63 Fig. 2 – Precipitação mensal média ao longo de 67 anos e comparação com a precipitação mensal do ano em estudo (2005) a partir de valores médios registados na estação 12L/03-Covilhã (INAG, 2006). – Monthly average precipitation throughout 67 years and comparison with the monthly precipitation of the year in study (2005) from registered average numbers in the weather station 12L/03-Covilhã (INAG, 2006). Para além dos valores de precipitação na fase líquida, não se pode deixar de referir que, outras formas de precipitação atmosférica, entre as quais se destacam a neve, o granizo, a geada e o nevoeiro, desempenham um papel relevante na hidrologia regional. A neve assume particular importância, não só como importante fonte de alimentação da escorrência superficial durante o degelo, mas também, através da fracturação e do diaclasamento, na recarga dos Fig. 3 – Evolução da precipitação anual ao longo de um período de 67 anos e comparação com o valor médio daquele período a partir de valores registados na estação 12L/03-Covilhã (INAG, 2006). – Annual average precipitation evolution throughout 67 years and comparison with the average number of that period from numbers registered in the weather station 12L/03-Covilhã (INAG, 2006). 64 E. MENDES, L. M. FERREIRA GOMES & M. T. CONDESSO DE MELO aquíferos da região, por cobrir os terrenos durante os meses de Inverno, formando por vezes um manto espesso. CARACTERIZAÇÃO HIDRODINÂMICA A região em estudo, composta pelos granitóides hercínicos, corresponde a um meio fracturado de permeabilidade média frequentemente do tipo fissural, onde a capacidade aquífera está directamente relacionada com a densidade da rede de fracturas, falhas, diaclases e ainda de filões predominantemente de quartzo, muito fracturado. A circulação das águas de infiltração nesta unidade processa-se através da rede de descontinuidades e origina numerosas exsurgências com caudais bastante variados. Pontualmente ocorrem locais do maciço bastante arenizado, os quais associados às zonas de declives suaves quase horizontais favorecem a infiltração e recarga dos aquíferos fissurados existentes nos granitos, correspondem assim, estas zonas, a formações com permeabilidade média do tipo intersticial e também como um factor de regularização da escorrência subterrânea. Para caracterizar hidraulicamente esta unidade, foi possível efectuar um ensaio de caudal num furo vertical da região, implantado nos granitóides hercínicos, com uma bomba submersível. Na interpretação do ensaio, admitiu-se um aquífero livre, num modelo contínuo e equivalente a um meio poroso e aplicando o Método de Jacob em regime transitório, considerando a zona produtiva entre os 15 e 40 m, obteve-se, como valor de transmissividade 4.5x10-5 m2/s e de condutividade hidráulica 1.85x10-6 m/s. Ainda no âmbito da caracterização hidráulica deste tipo de maciço, merece referência o trabalho de CARVALHO et al. (2004), cujas investigações realizadas, ao analisar os resultados de um grande número de ensaios, conduziram a uma caracterização da transmissividade da ordem de 5.4x10-5 m2/s. Sobre os caudais monitorizados, de acordo com MEINZER (in TODD, 1980), as captações podem classificar-se em 8 classes de acordo com o valor médio do caudal (Quadro 1), tendo em atenção os registos de 2005, a grande maioria das captações classificam-se com magnitude média e de 6ª ordem. Enfatiza-se ainda que se obteve um caudal médio anual por captação de 0.58 l/s e um caudal total (de todas as captações) médio de 42.9 l/s. Sobre este assunto, e tendo em atenção os dados climatológicos, verificou-se que no ano de 2005, a precipitação ocorrida correspondeu a cerca de 53% da média registada ao longo de 67 anos, pelo que de acordo com os estudos efectuados, num ano médio há a orientação para que o referido caudal seja aumentado 47%, tendo em consideração especial a estreita relação dos caudais das captações subterrâneas em estudo com a precipitação. No presente estudo, para o cálculo do balanço hidrológico sequencial mensal, utilizou-se a metodologia proposta por THORNTHWAITE & MATHER (1957, in LENCASTRE & FRANCO, 1984). O resultado dos cálculos para a determinação de ETP apresentam-se no Quadro 2. A determinação de todos os termos do balanço hidrológico, apresentam-se no Quadro 3. QUADRO 1 Organização das 64 captações em estudo segundo o valor médio do caudal medido em 2005, em relação à classificação de MEINZER in TODD (1980). Organization of the 64 captations in study according to the average of groundwater discharge measured in 2005, by the classification of MEINZER in TODD (1980). Classe Caudal médio (l/s) Número de captações pertencentes à classe > 10 000 - 1000 – 10 000 - 3ª 100 – 1 000 - 4ª 10 – 100 - 1 – 10 17 (correspondente a 13 minas, 1 nascente e 3 drenos) 0.1 – 1 42 (correspondente a 22 minas, 5 nascente e 13 drenos e 2 furos semi-horizontais) 0.01 – 0.1 5 (correspondente a 2 minas, 1 nascente e 2 drenos) < 0.01 – Ordem Magnitude 1ª 2ª 5ª Elevada Média 6ª 7ª Baixa 8ª 65 Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela QUADRO 2 Evapotranspiração potencial (ETP) a partir do método de Thornthwaite para a zona das captações de água subterrânea em estudo. Potential evapotranspiration calculated by the Thornthwaite method for the groundwater captations zones in study. Parâmetro Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. T(ºC) 2.4 3.0 4.7 6.7 9.2 13.9 17.2 17.0 14.3 9.6 5.6 3.2 i 0.330 0.462 1.219 1.556 2.511 4.683 6.460 6.346 4.888 2.678 1.187 0.510 ETP0 (mm) 11.8 14.8 23.4 33.6 46.4 70.8 88.0 87.0 72.9 48.5 28.0 15.8 k 0.80 0.89 0.99 1.10 1.20 1.25 1.23 1.15 1.04 0.93 0.83 0.78 ETP (mm) 9.4 13.2 23.2 37.0 55.7 88.5 108.2 100.1 75.8 45.1 23.2 12.3 I = 32.83 a = 1.022 Nota: T - é a temperatura média diária do mês; i - o índice de calor mensal; ETPo - é a evapotranspiração potencial média para meses teóricos de 30 dias e 12 horas de luz por dia; k - é um factor correctivo; ETP - Evapotranspiração potencial calculada; I - é o índice de calor anual; a - é um parâmetro dado pela seguinte equação: a = 675x10-9 x I3 - 771x10-7 x I2 + 1790x10-5 x I + 0,49. QUADRO 3 Balanço Hidrológico (*) para a zona das captações de água subterrânea em estudo. Hydrological balance for the groundwater captation zone in study. Termo Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Ano P 239.1 200.0 165.0 119.8 107.4 42.4 13.5 15.7 60.2 171.8 214.2 240.8 1589.9 ETP 9.4 13.2 23.2 37.0 55.7 88.5 108.2 100.1 75.8 45.1 23.2 12.3 591.7 P-ETP 229.7 186.8 141.8 82.8 51.7 -46.1 -94.7 -84.4 -15.6 126.7 191.0 228.5 998.2 L - - - - - -46.1 -140.8 -225.2 -240.8 - - - -652.9 Sso 100.0 100.0 100.0 100.0 100.0 63.1 24.5 10.5 9.0 100.0 100.0 100.0 - ∆Sso 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 -36.9 -38.6 -14.0 -1.5 91.0 0.0 0.0 - ETR 9.4 13.2 23.2 37.0 55.7 79.3 52.1 29.7 61.7 45.1 23.2 12.3 441.9 DH - - - - - 9.2 56.1 70.4 14.1 - - - 149.8 SH 229.7 186.8 141.8 82.8 51.7 - - - - 35.7 191.0 228.5 1148.0 Nota: todos os termos têm as unidades em mm. P - é a precipitação média mensal; ETP - é a evapotranspiração potencial; L - é a perda potencial de água; Sso - é o armazenamento de água que fica no solo de capacidade utilizável pelas plantas (nu); ∆Sso - é a variação do armazenamento de água; ETR - é a evapotranspiração real; DH - é o défice hídrico; SH - é o superavit hídrico. (*) admite-se que nu se encontra integralmente satisfeito no início do período seco, ou seja, Sso=100mm, em Maio. Dos resultados do balanço hidrológico verifica-se a ocorrência de um período seco e um período húmido; o primeiro é traduzido pelos défices hídricos (DH), que vai de Junho a Setembro, atingindo o máximo em Agosto; o segundo, o período húmido, traduzido pelo superavit hídrico (SH), que vai de Outubro a Maio, verificando-se o excesso máximo de água, em Janeiro. No período húmido, o superavit divide-se em duas parcelas: o escoamento superficial (R) e escoamento subterrâneo (G), ou seja: SH = R + G = 1148 mm. Os excedentes anuais de 1148 mm sugerem à partida uma significativa recarga aquífera, no entanto, esta situação merece uma análise mais detalhada. Neste sentido, procedeu-se à determinação dos valores de recarga utilizando um método clássico que consiste em determinar a curva de esgotamento das nascentes. Para tal seleccionou-se um conjunto de captações localizadas numa área da região em estudo. Esta área é definida 66 E. MENDES, L. M. FERREIRA GOMES & M. T. CONDESSO DE MELO geomorfologicamente por uma bacia hidrográfica com cerca de 0.18 km2 de área, declives da ordem de 21%, onde aflora um maciço granítico geralmente muito fracturado e uma cobertura vegetal com algum significado. Assim, considerando que o conjunto de captações existentes são o único elemento drenante nesta bacia, procedeu-se à análise da variação do seu caudal, ao longo de todo o ano 2005, período coincidente com os restantes estudos deste trabalho (Figura 4). No sentido de analisar com detalhe a curva de esgotamento num período sem precipitação, considera-se a projecção dos logaritmos naturais dos caudais medidos, em relação ao tempo, no período entre 31 de Maio e 27 de Setembro, obtendo-se uma recta de regressão com um coeficiente de correlação de 0.94, cuja equação é: InQ = 4,16-0,0108x. Fig. 4 – Curva de esgotamento do conjunto de captações estudadas e relação com a precipitação registada ao longo do ano. – Base flow of the set of groundwater captations and relations with the precipitation registered throughout the year. Segundo CUSTÓDIO & LLAMAS (2001), o volume de água armazenado (V0) pode ser calculado através da seguinte expressão: onde: – Q0, corresponde ao caudal no início da recessão, – α, corresponde coeficiente de esgotamento, o qual é definido pelo declive da recta. Assim, para o período temporal em análise tem-se: ln Q0 = 4,16 ⇔ Q0 = 63,8 m3/d, e α = 0,0108 d-1; substituindo, vem que Considerando a área da bacia, é possível calcular a quantidade de água infiltrada (I), ou seja: Admitindo que o episódio de precipitação, responsável por este escoamento em análise, ocorreu entre 05 de Janeiro a 25 de Abril, aquele valor corresponde a um total de 214.3mm de chuva para esse período. Assim, o volume determinado (V0) representa 15% do total da precipitação. Destes resultados há a orientação que os escoamentos subterrâneos (G) sejam desta ordem de grandeza (15%) em relação à precipitação total. Ainda sobre a estimativa de recarga em terrenos graníticos refere-se que LIMA & SILVA (1995), em trabalhos desenvolvidos na região de Braga, admitem um coeficiente de infiltração médio de 18%; LIMA (2000) considera um valor de alfa de 0.016 dia-1 para quatro nascentes situadas na região do Gerês e valores situados entre 0.01 dia-1 e 0.03 dia-1 para outras regiões do Minho. CONSIDERAÇÕES SOBRE O MODELO GEO-HIDRÁULICO Como se apresentou no item anterior, a região em estudo apresenta excedentes com algum significado, que associados à intensa fracturação do maciço se torna muito provavelmente numa situação relativamente favorável em termos de infiltração potencial e a consequente recarga de água subterrânea. Em termos genéricos pode-se referir, para a zona em estudo, que o sentido da escorrência superficial e escoamento subterrâneo se faz de Oeste para Este, ou seja, das zonas a montante do maciço central da Serra da Estrela, para a depressão da Cova da Beira, onde circula o Rio Zêzere (Figura 5). A geomorfologia, a geologia e a tectónica permitem esboçar os limites de uma possível área de recarga situada a montante de cada sector de descarga, cujas altitudes variam entre os 982 m (v.g. Pedra da Albarda) a Sul, passando pelos 1563 m (perto do v.g. Curral dos Ventos) e os 1254 m (v.g. Vila de Mouros) a Norte, tal como se apresenta na Figura 5. É de assinalar que a área de recarga delimitada constitui apenas uma aproximação construída com base nos dados disponíveis, e pretende tão so- Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela 67 Fig. 5 – Esboço sobre a direcção e sentido do escoamento superficial da região em estudo da zona das captações de água subterrânea da cidade da Covilhã (MENDES, 2006). – Sketch about the direction and sense of the superficial drainage of the groundwater captations zones in study (MENDES, 2006). 68 E. MENDES, L. M. FERREIRA GOMES & M. T. CONDESSO DE MELO mente assinalar as zonas onde poderá ocorrer uma parte importante da recarga; a área de recarga real será, eventualmente, mais vasta e contínua, dependendo da real relação entre as grandes fracturas que atravessam as várias sub-bacias hidrográficas. O estudo da fracturação local indica que as fracturas com orientação E-W, NNW-SSE e NNE-SSW são as principais responsáveis pelo transporte dos fluidos até à superfície. O fluxo subterrâneo não é muito profundo, como o atesta em especial a baixa mineralização da água, considerando-se assim que se está na presença de um aquífero de águas normais e superficiais, contendo principalmente águas de infiltração e circulação local, com tempos de residência curtos. As velocidades de escoamento devem ser genericamente elevadas, dado o tipo de permeabilidade por fissuras; a manutenção dos caudais mesmo durante a época seca, deve-se muito provavelmente à capacidade de regularização das zonas de alteração que cobrem algumas áreas de recarga. Nos períodos secos, sobretudo, a permeabilidade por porosidade das zonas de alteração desempenha um papel muito importante, embora seja a circulação através das fracturas que condicionam todo o funcionamento hidráulico. Um esboço hidrogeológico em corte, para a região, apresenta-se na Figura 6, mostrando que a água infiltrada tende a ressurgir em locais relativamente próximos, no entanto note-se que parte do fluxo subterrâneo pode evoluir para grandes profundidades ao longo de extensas falhas, recarregando aquíferos profundos. Fig. 6 – Esboço hidrogeológico da região em estudo (MENDES, 2006). – Hidrogeological conceptual model of the region in study. CARACTERIZAÇÃO HIDROQUÍMICA No Quadro 4 apresentam-se os dados estatísticos dos valores de condutividade eléctrica, pH, temperatura, Eh, respectivamente, nos quais se pode constatar que, os valores das captações em estudo são de uma forma geral bastante uniformes, em que: i) a condutividade eléctrica varia entre 10 µS/cm e 42 µS/cm, com os valores sempre muito baixos e típicos de águas muito pouco mineralizadas; ii) o pH, oscila entre 4.97 e 7.60, sendo de salientar que não se verificam tendências significativas, considerando-se as ligeiras variações consequentes dos erros ou oscilações próprias do sistema de registo. O ligeiro carácter ácido que estas águas apresentam reflecte uma potencial, embora reduzida, interacção da água com o meio de circulação, maciço granítico rico em sílica; iii) a temperatura de surgência varia entre 5.8 e 17.9 ºC, pertencendo estas à classe das águas hipotermais, com os valores menores e maiores no Inverno e Verão, respectivamente. A temperatura da água é naturalmente sensível a variações sazonais, o que indicam que são águas de infiltração recente. iv) os valores de Eh variam entre 1 e 115 mV, sendo de referir que tal como no pH, também aqui não se verificam tendências significativas ao longo do ano. Com objectivo de adquirir e/ou complementar a informação dos dados anteriormente apresentados, realizaram-se um total de 18 análises físico-químicas completas de água recolhida nos meses de Janeiro, Junho e Outubro de 2005. No Quadro 5, apresenta-se, a síntese estatística dos resultados das análises físico-químicas completas. Os vários elementos analisados encontram-se dentro dos parâmetros admissíveis em termos de água para consumo humano de acordo com o Decreto-Lei nº 243/2001 (DL, 2001). Admite-se que o quimismo da água das captações estudadas seja similar à água das outras captações, pois os resultados de condutividade eléctrica, pH e Eh medidos em campo dão essa indicação. Em termos de classificação e de acordo com a composição iónica maioritária, tal como se pode verificar nos diagramas de Piper e de Schoeller representados na Figura 6, respectivamente, as águas dos vários sectores, no geral, classificam-se como bicarbonatadas sódicas, pertencente à família das silicatadas, dada a percentagem de SiO2 em 69 Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela QUADRO 4 Análise estatística dos valores dos vários parâmetros medidos “in situ”. Statistical analysis of the values of several parameters measured “in situ”. Parâmetro n Média Mínimo 1º Quartil Mediana 3º Quartil Máximo Desv. Padrão Condutividade (µS/cm) 774 23 10 19 22 26 42 5,20 pH 774 5,91 4,97 5,68 5,89 6,11 7,60 0,34 T (ºC) 774 12,0 5,8 11,1 11,8 12,6 17,9 1,37 Eh (mV) 774 48 1 34 47 60 115 20,50 relação à mineralização total ter muito significado. Este teor de sílica poderá estar associado à hidrólise dos minerais silicatados presentes nas rochas ígneas, podendo este processo contribuir igualmente para o aumento do teor de HCO3- e metais alcalinos (Na2++K+) ou alcalino terrosos (Ca2++Mg2+). No respeitante à mineralização total, as águas são hipossalinas, sendo o resíduo seco a 180ºC igual ou inferior a 25 mg/l. As águas apresentam reacção levemente ácida, variando o pH entre 5.45 e 6.80, são doces e brandas possuindo uma dureza (CaCO3) inferior a 10 ppm. Sob o ponto de vista químico, a sua composição relativa pode ser expressa por ordem decrescente de importância, sob a forma HCO3- > Cl- > NO3- para os aniões e Na+ > Ca2+ >Mg2+ > K+ para os catiões, evidenciam-se ainda as reduzidas concentrações de ferro, sulfatos, fluo- reto e nitritos em solução, encontrando-se estes na grande maioria abaixo do limite de quantificação. Ainda, no âmbito das análises físico-químicas foram pesquisados os elementos secundários, os Hidrocarbonetos Aromáticos Polinucleares (PAH`S) e os Hidrocarbonetos Totais (Quadro 5), sendo de realçar que na grande maioria aqueles elementos se encontram abaixo do limite de detecção e todos dentro dos limites legais como águas potáveis e adequadas ao consumo humano. Da interpretação das análises físico-químicas, efectuadas ao longo do presente estudo, verifica-se que existe uma relativa constância temporal das características químicas dos diferentes elementos, podendo-se assim proceder a uma caracterização hidrogeoquímica e a definição dos teores de base destes aquíferos, em qualquer altura do ano, sem perda de representatividade dos dados. Fig. 6 – Diagrama de Piper e de Schoeller para as águas subterrâneas em estudo. – Piper and Schoeller diagrams for the groundwaters in study. 70 E. MENDES, L. M. FERREIRA GOMES & M. T. CONDESSO DE MELO QUADRO 5 Análise estatística dos valores das análises físico-químicas completas. Statistical analysis of the chemical-physical analysis. Parâmetros n Média Mínimo Mediana pH 18 5,97 5,45 5,91 6,80 0,35 Condutividade (µS.cm-1) 18 25 18 25 35 5,63 Alcalinidade (mg/l de CaCO3) 18 9,1 3,1 10,0 12,0 2,55 Sílica (mg/l) 18 9,7 5,6 9,8 15,0 2,54 Dureza (mg/l de CaCO3) 18 3,8 2,3 3,1 6,0 1,30 Resíduo seco a 180º (mg/l) 18 20 9 21 25 3,89 Mineralização total (mg/l) 18 23 11 22 36 5,19 Na+ 18 3,1 2,2 2,9 4,8 0,74 Ca 18 1,0 0,6 0,9 1,7 0,31 K+ 18 0,41 0,19 0,38 0,67 0,16 Mg 18 0,33 0,16 0,25 0,81 0,21 Fe2+ 18 – <0,005 – 0,009 – HCO3- 18 10,0 3,8 10,5 15,0 3,36 Cl 18 2,1 1,0 1,8 3,9 0,89 SO42- 18 – <1,0 – <1,0 – F- 2+ Catiões (mg/l) 2+ - Aniões (mg/l) Elementos Secundários (µg/l) Hidrocarbonetos Aromáticos Polinucleares (HAP’s) (mg/l) Hidrocarbonetos Totais (mg/l) Máximo Desv. Padrão 18 – <0,400 – <0,400 – NO3 - 18 – <1,0 – 2,6 – NO2- 18 – <0,3 – <0,3 – Cu 18 – <200 – <200 – Zn 18 – <100 – <100 – Al 18 – <40 – 65,10 – As 18 – <3 – <3 – Pb 18 – <5 – <5 – Ag 6 – <2 – <2 – Hg 12 – <0,2 – <0,2 – Fluoranteno 18 – <0,005 – <0,005 – Benzo(b)fluoranteno 18 – <0,005 – <0,005 – Benzo(k)fluoranteno 18 – <0,005 – <0,005 – Benzo(a)pireno 18 – <0,005 – <0,005 – Benzo(g,h,i)perileno 18 – <0,005 – <0,005 – Indeno(1,2,3cd)pireno 18 – <0,010 – <0,010 – 18 – <0,16 – <0,16 – Contributo para a caracterização hidrogeológica das águas subterrâneas do maciço granítico da Serra da Estrela CONCLUSÕES Considerando o objectivo do trabalho, é importante salientar que se apresenta um conjunto de estudos efectuado num conjunto de 64 captações de água subterrânea, constituídas por minas, drenos, furos semi-horizontais e nascentes. As captações encontram-se localizadas na vertente oriental da Serra da Estrela em áreas a montante da zona urbana da Covilhã, entre as cotas 732 e 1265m, e situam-se nas formações graníticas hercínicas da unidade geotectónica da zona Centro Ibérica. O estudo da fracturação local indica que as fracturas com orientação E-W, NNW-SSE e NNE-SSW são as principais responsáveis pelo transporte dos fluidos até à superfície. O fluxo subterrâneo não é muito profundo, como o atesta em especial a baixa mineralização da água, considerando-se assim que se está na presença de um aquífero de águas normais e superficiais, contendo principalmente águas de infiltração e circulação local, com tempos de residência curtos. Do ensaio de caudal realizado nas formações graníticas em estudo, obtiveram-se como valor de transmissividade 4.5x10-5 m2/d e de condutividade hidráulica 1.85x10-6 m/s. Sobre a recarga de água subterrânea enfatiza-se que nos terrenos graníticos em estudo, com declives da ordem de 21 a 53% e com uma vegetação típica da região serrana da Estrela, entre as cotas 732 e 1265m, o valor estimado de para a taxa de infiltração corresponderá a cerca de 15% do valor da precipitação ocorrida. Sobre os aspectos hidroquímicos da água no maciço granítico, enfatiza-se em especial que pelas análises físico-químicas efectuadas em captações seleccionadas, à partida representativas, que todas as águas são de fácies bicarbonatada sódica, sendo águas de muito baixa mineralização (com valores iguais ou inferiores a 36 mg/l), classificadas como águas doces em relação ao resíduo seco, e por brandas em relação à dureza. Tendo em consideração os elementos químicos menores, os hidrocarbonetos aromáticos polinucleares “HAP’s” e os hidrocarbonetos totais, enfatiza-se que todos estão de acordo com os limites legais como água de consumo humano. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à empresa municipal Águas da Covilhã pelo apoio financeiro no âmbito do protocolo 71 instituído com a Universidade da Beira Interior, bem como as facilidades na utilização de todo o material indispensável para a realização deste estudo. Um agradecimento especial ao Sr. Joaquim Manuel Ramos Varandas, Técnico dos Laboratórios de Geotecnia da Universidade da Beira Interior, pelo intenso apoio em especial nos trabalhos de campo. Agradecemos ainda aos magníficos referees pelas sugestões e apreciações críticas efectuadas no presente trabalho, o qual contribuiu para a valorização técnica e científica do mesmo. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, P.G.F.L.B. (2005) – Deformação em comportamento frágil na região da Serra da Estrela, Tese de Doutoramento em Engenharia Civil, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 368p. CARVALHO, J. M., MEDEIROS, A. L. C., GARCIA, S. C. F. M. V. 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