UM OLHAR SOBRE O BULLYING: REFLEXÕES A PARTIR DA
CULTURA
PRODÓCIMO, Elaine- GEPA – FEF- UNICAMP
[email protected]
Eixo Temático: Violências na Escola
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O objetivo do presente estudo é analisar a influência da cultura no bullying escolar e, para
tanto realizamos uma revisão bibliográfica sobre o tema. Reconhecemos a escola como
ambiente de diversidades e vemos o bullying como fato que se manifesta em função da
intolerância a estas diferenças. Percebemos que as diferentes formas de manifestação do
bullying entre meninos e meninas representam intimamente como nossa sociedade vê e educa
de forma diferenciada os sujeitos masculinos e femininos. Acreditamos que a escola poderia
servir como espaço para trabalho com valores sociais que visem a uma sociedade mais
tolerante e que valorize as diferenças entre os alunos.
Palavras-Chave: Agressividade. Bullying. Escola cultura.
Introdução
Cada vez mais somos levados a pensar no sentido da violência em nossa sociedade,
que pode ser justificada por vários motivos, no entanto, nem sempre são bons motivos e
menos ainda motivos justos. Mesmo assim os usamos para justificar nossos atos violentos
gerados pela raiva contra o outro. O problema da violência apresenta-se cada vez mais
crescente nas sociedades e temos atualmente altos índices ocorrendo também nas escolas
entre crianças e adolescentes. Isto tem gerado a preocupação de pais, professores e
estudiosos que sentiram a necessidade de buscar uma compreensão e também de encontrar
denominação para tal fenômeno.
Basta digitarmos a palavra bullying num site de busca na internet para percebemos
o quanto ele já virou “moda”. Não só o senso-comum, mas também as pesquisas
acadêmicas têm se preocupado com o alto índice de agressividade repetitiva na infância e na
adolescência, existente principalmente nas escolas. No entanto, estas inúmeras pesquisas
7376
sobre o fenômeno bullying são realizadas em grande quantidade no âmbito internacional.
São poucas ainda as pesquisas sobre o fenômeno no Brasil. Além de poucas, ainda mais
restritas são aquelas que tratem do assunto no que se refere às questões de gênero, ou seja,
como meninos e meninas praticam a violência de maneira diferenciada dentro das relações
sociais.
Isto acontece não somente pelo fato de existirem diferenças em cada gênero,
diferenças estas que já foram relacionadas em diversos estudos que lidam com o tema, mas
principalmente pela diferença observada entre ambos na prática do bullying. O que nos
chamou a atenção foi a maneira como cada qual (menino e menina) reage diante do “outro”,
do diferente. Quando falamos nesta reação diante do diferente não estamos falando
especificamente das diferenças de gênero e sim de todas as diferenças passíveis de
preconceito. As relações de gênero serão aqui utilizadas somente para explicar o
comportamento diferenciado de meninos e meninas no momento de encararem estas
diferenças, sejam elas quais forem (gênero, raça, etnia, estética etc.), principalmente
comportamentos que levem a algum tipo de violência que possa ser caracterizada como
bullying. Numa sociedade que pretende-se globalizada e que, dentro desta ótica mobiliza em
si uma busca pela homogenização, ser diferente pode ser considerado uma afronta, como
nos aponta Gonçalves (2003).
Pensando a escola como um lugar privilegiado da diversidade cultural e, portanto
um local onde convivemos com o coletivo e principalmente com o diferente, neste texto
buscamos refletir sobre a problemática da intolerância quanto às diferenças existentes entre
as crianças e adolescentes e como isto se manifesta de forma diferente entre meninos e
meninas no ambiente escolar. Para tanto realizamos um estudo de revisão bibliográfica em
que buscamos, num primeiro momento compreender a violência e a agressividade como
fenômenos complementares, e o bullying como uma forma distinta destes comportamentos
pelas suas características; em seguida buscamos enfocar o papel da cultura nos
determinantes do comportamento diferenciado entre meninas e meninos quanto a esta
questão e o papel da escola, em sua diversidade como ambiente propício à manifestação do
fenômeno.
Compreendendo termos
7377
Antes de iniciarmos nosso percurso na busca da compreensão da influência da
cultura no bullying é importante fazer-nos entender em relação a nossa compreensão sobre
agressividade e violência. Vemos que a violência é algo que envolve comportamentos
agressivos, mas que estes, não necessariamente se convertem em violência. Pautamo-nos
em Costa (2003, p.39) quando este afirma que “É porque o sujeito violentado (ou o
observador externo à situação) percebe no sujeito violentador o desejo de destruição (desejo
de morte, desejo de fazer sofrer) que a ação agressiva ganha o significado de ação
violenta” (grifo do autor).
Disto podemos concluir que existem atos agressivos que não são considerados
violentos, por não serem interpretados como tal pelos participantes ou mesmo pelos
observadores. Podemos exemplificar tal situação tomando um fato comum que ocorre
dentro do próprio ambiente escolar, que são algumas brincadeiras manifestadas entre os
grupos em que não são manifestados desejos de destruição, ou seja, tanto os sujeitos
“agressores” quanto os “agredidos” não vêem como tal; diferentes de outras em que há este
desejo, tanto real (físico) quanto simbólico, como é o caso do bullying que veremos a
seguir.
O bullying foi um tema apropriado pelos profissionais da área médica e da
psicologia, também sendo visto como importante para os profissionais da educação. Apesar
de sua relevância, ainda vemos professores que ao presenciarem um ato de agressão acham
que isto “é normal”, ou apenas “briga de criança”, que não merece tanta atenção por parte
deles. Existem aqueles que se preocupam com o fato, mas têm dificuldades em reconhecê-lo
como bullying, visto que não basta uma criança ou adolescente brigar uma ou duas vezes
com outra criança para que o fenômeno se caracterize como tal. Lopes Neto (2005) define
por bullying todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem
motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e
angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. É justamente neste
ponto que queremos nos deter, ou seja, nas relações desiguais de poder que geram
preconceitos, exclusão e a não aceitação do “outro” e que por sua vez são desenroladas no
contexto da cultura.
Apesar do bullying não ser um fato novo nas escolas e mesmo em outros espaços
sociais, o estudo do mesmo e sua caracterização como um fenômeno típico deu-se em 1978,
com a publicação do livro Agression in the Schools: Bullies and Whipping Boys, de Dan
7378
Olweus, relatando uma pesquisa realizada na Noruega. Este primeiro trabalho gerou uma
série de outros em países europeus como Finlândia, Reino Unido, Irlanda e também no
Japão (Smith e Brain, 2000).
Para entendermos melhor o fenômeno bullying utilizamos a definição de Lopes Neto
(2005), que demonstra como o bullying é classificado. Segundo o autor temos o bullying
direto, quando as vítimas são atacadas diretamente, e o bullying indireto, quando as vítimas
estão ausentes. São considerados bullying direto os apelidos, agressões físicas, ameaças,
roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal estar aos alvos. São
considerados bullying indiretos as atitudes de indiferença, isolamento, difamação e negação
aos desejos. A partir desta classificação já podemos perceber a possível diferença entre os
sexos nas diversas formas de praticar o bullying. O autor diz que o modo direto é utilizado
com mais freqüência (cerca de quatro vezes mais) pelos meninos, já o indireto é mais
adotado pelas meninas. Isto é fácil de entender quando pensamos nas construções culturais
de gênero. Afinal, mostrar ou exercer sua força, dar golpes e assumir riscos corporais não
são atributos femininos, são comportamentos que pertencem ao universo masculino. As
meninas são pressionadas a apresentarem uma imagem feminina que evite confrontos
sociais. Ambos os sexos devem exercer bem seus papéis para que não sejam alvos de
desconfiança com relação a sua sexualidade diante dos colegas.
Não podemos nos deter na idéia de que todos têm uma natureza agressiva. Mais do
que uma compreensão naturalizada da agressividade humana, como muitas vezes ocorre, é
preciso um entendimento cultural de tais atos, visto que é justamente a cultura o que
distingue os seres humanos dos outros animais. Os seres humanos variam em conseqüência
das condições sociais, econômicas, políticas e histórica em que vivem, ou seja, são seres
culturais e históricos. É Mauss (2003) quem nos diz que o homem só tem resquícios de
instintos, e é a sua convivência em sociedade que leva a uma intervenção da consciência.
Numa sociedade em que a violência parece algo banal, comum e naturalizada, seus
indivíduos a tomarão desta maneira. Uma criança aprende desde muito pequena que a
agressividade é algo presente em sua realidade. Ela aprende isto com os desenhos que
assiste, com os filmes e novelas que os adultos vêem e principalmente com o dia a dia de
uma sociedade que cada vez mais tende a naturalizar certos atos. No entanto, desde 1926
Mauss já dizia que a vida social é como “um mundo de relações simbólicas”. A partir destas
relações simbólicas percebemos que os meninos não são agressivos e as meninas não são
7379
sutis “por natureza” e sim por uma educação social dotada de símbolos e significados
distintos. O autor fala de uma relação entre o natural e o social para uma justa interpretação
do indivíduo e de seu grupo. Ou seja, um chute (que não é natural) vem sempre junto com
um sentimento, com um significado. Um ato é sempre simbólico e possível de diversas
interpretações.
Para entendermos um ato violento pelo viés interpretativo temos que perceber e nos
perguntar sobre o que vem junto com ele. Sabemos que o que vem junto são significados.
Então precisamos nos questionar sobre o que “significam estes significados”. Por que uma
criança precisa agir de certa forma? Por que um chute possivelmente seria utilizado por um
menino mas não por uma menina? O que faz com que uma criança se torne agressiva?
Quais os significados que ela dá para tais atos e como estes significados são construídos de
formas diferentes dentro de uma cultura de gênero? Enfim, se homens e mulheres são
educados de formas diferentes, não é de se estranhar que nos momentos de raiva eles
também reajam de maneiras distintas. Isto legitima a afirmação de que as ações, mesmo as
violentas, não são naturais e sim construídas culturalmente e dotadas de significados.
Portanto, para entendermos os significados da violência e do bullying como uma de
suas manifestações, não podemos analisar somente o ato da agressão em si, se foi mais
intenso ou não, se machucou mais ou menos sua vítima. É preciso se perguntar sobre “o que
vem junto” com estes atos violentos. Um soco não é somente um soco, um chute não é
simplesmente um chute, eles não são somente movimentos mecânicos e sim gestos
corporais dotados de significados e, neste caso, dotados de um desejo de destruição.
Significados e desejos que são reflexos de uma sociedade e de seus costumes, e que podem
representar “(...) um recurso de expressão dos setores sociais excluídos em busca de
melhores condições de existência e pode servir como forma de apelo às consciências
coletivas” (GONÇALVES, 2003, P.45).
A escola e sua diversidade
Acreditamos que os significados das ações violentas no ambiente escolar têm
relação com a não aceitação das diferenças. E como não falar das diferenças se é justamente
a escola um dos melhores lugares para olharmos para a diversidade. A escola é o local onde
predomina a pluralidade do corpo social. Apesar de se configurar na maioria das vezes
como um lugar que tende a homogeneização dos indivíduos, ela é um local múltiplo, com
7380
uma diversidade cultural admirável. Diversidade esta que apenas se inicia com a diferença
entre os sexos, depois ela se multiplica em diversos setores da sociedade.
É justamente esta diversidade cultural que muitas vezes leva a violência, mas que
segundo Guimarães (1996), também nos permite pensar a vida social, levando-se em conta
a pluralidade de situações existentes.
Como nos diz Fante (2005) a matéria mais difícil na escola não é mais a matemática
ou a biologia, e sim a convivência. A partir do momento em que tratamos a diversidade
estamos nos referindo ao “coletivo”. Só há diversidade cultural com a presença de grupos
sociais distintos e de experiências compartilhadas. É num lugar de encontros e reencontros
que localizamos o coletivo. Por outro lado, a diversidade quando difícil de ser aceita gera
uma racionalização da vida social e de seus indivíduos que segundo Guimarães (1996)
desapropria a conexão com este coletivo. Mauss (2003) percebe uma confusão feita em
torno do que é o coletivo. As pessoas acreditam que para haver a coletividade é necessária
uma homogeneização dos indivíduos, quando o que ocorre é justamente o oposto, ou seja, o
coletivo é a reunião de seres humanos diferentes entre si.
Esta dificuldade de se conviver com o coletivo não passa despercebida nas escolas, e
quando o bullying acontece fica ainda mais evidente a diferença existente na forma como
meninos e meninas constroem suas relações sociais com os outros colegas. Eles mesmos
compreendem que têm papéis sociais distintos, principalmente em se tratando do gênero,
sobretudo durante as brincadeiras em grupos, quando deixam aflorar as representações dos
componentes sígnicos que expressam masculinidade e feminilidade (RIBEIRO, 2006).
Homens e mulheres agem de formas distintas diante “do outro”. A dificuldade que
temos em lidar com as diferenças é fruto de uma tradição cultural passada de geração para
geração e perpetuada no tempo. Viemos de uma longa história de dominações e
preconceitos. Nossa história denuncia o preconceito racial justificado pela escravidão, o
preconceito com o obeso que teve a colaboração da medicina (com o advento da saúde) e
principalmente da mídia (exultando a importância de termos corpos magros), o preconceito
com o pobre, que desencadeou as diversas “lutas de classe” e o preconceito com a mulher
que no decorrer do tempo se rebela através de lutas feministas pela igualdade dos sexos.
Afinal, somos filhos do patriarcado, no qual o elevando o papel do homem gerou a
inferioridade da mulher. Isto certamente estabeleceu e delimitou muito bem o papel de
ambos os sexos em nossa sociedade.
7381
O bullying e suas relações com o feminino e o masculino
Interessa-nos neste texto analisar as diferenças entre o homem e a mulher no que diz
respeito as manifestações agressivas e especificamente no bullying, como estas diferenças
são percebidas nas ações do cotidiano e a cultura como principal causadora destas
diferenças. Até mesmo no momento de agressividade, homens são diferentes de mulheres.
Isto acontece porque a cultura nos ensinou a “sermos homens” e nos ensinou a “sermos
mulheres”. Somos frutos de uma construção histórica de relações de poder que trazem
definições muito claras sobre masculinidade e feminilidade. Desde o primeiro momento em
que chegamos ao mundo recebemos cargas culturais que nos dizem como devemos agir. A
cultura é reguladora do comportamento público (GEERTZ, 1989). É comum ouvirmos, por
exemplo, que: homem não chora, a mulher deve ser delicada etc. Enfim, viemos “nus” ao
mundo, mas logo somos adornados com as roupas da cultura, da educação e da tradição a
que pertencemos. Aprendemos desde cedo que para ser “homem de verdade” tem que ser
“macho”, valente, ao contrário da menina que em hipótese alguma pode demonstrar tais
características. Ela deve ser educada, delicada e sutil. Quando nascemos, modos de ser e de
agir nos são colocados. A cor azul para os meninos e a rosa para as meninas não é uma
distinção tão ingênua quanto parece. Tal distinção nos diz se teremos que ser homens ou se
teremos que ser mulheres, e assim inicia-se o processo de educação não somente dos
indivíduos como também dos sexos. Se eu sou mulher então eu tenho que ser sutil.
Além disso, vemos estas características reforçadas na escola quando percebemos o
distanciamento corporal entre meninos e meninas e que são conduzidos pelas próprias
vontades1. As crianças aprendem desde muito cedo que devem ficar separadas por sexo.
Segundo Ribeiro (2006), as famílias exercem grande pressão para que estas distinções se
mantenham e ainda se acentuem. Ainda segundo a autora, vemos pais, professores e toda a
comunidade realizarem constantes intervenções sobre o comportamento sexual infantil, e
estas maneiras são reproduzidas entre as próprias crianças, afinal, elas reproduzem muito
bem as informações transmitidas pelos adultos. Assim, percebemos exigências quanto aos
padrões de comportamento das crianças que são perpetuadas principalmente na família.
Dessa forma, as crianças “ingenuamente” tomam como legítimo ou não legítimo aquilo que
1
Estas vontades, apesar de serem próprias, não quer dizer que não sejam influenciadas por um
modelo social. A cultura de uma sociedade é capaz de criar desejos e vontades que aparentemente
parecem pessoais e subjetivas, mas que no entanto são reflexos de uma tradição.
7382
homens e mulheres adultas vêem como tais. Teoricamente as crianças aprendem que o
modo de ser do outro sexo é incompatível com o seu. Ou seja, os corpos dos meninos e das
meninas são moldados e ganham identidades de gênero a partir de noções dominantes de
feminilidade e masculinidade.
Ribeiro (2006) se pergunta sobre o porquê, na socialização, as mães precisam dizer
como a menina deve se comportar, andar, sentar. Por que é preciso dizer que “homem não
chora”? A autora acredita que estes discursos que consolidam um tipo de masculinidade e
um tipo de feminilidade estão mais no nível das representações do que das práticas.
Através deste olhar podemos compreender o comportamento inverso de meninas e
meninos no momento de realizar o bullying, pois as diferenças nas relações de gênero nos
ajudam a compreender os fatos da existência humana. Agredir diretamente alguém não é
para meninas. Ser valente e partir para a briga é coisa de meninos.
Quando falamos sobre as diferenças não estamos colocando-a como algo ruim. A
“diferença pela diferença” não é exatamente o problema. Como nos diz Geertz (1989) se há
algo que faz com que os seres humanos sejam iguais é justamente a sua capacidade de se
diferenciarem uns dos outros. O problema é quando estas diferenças são transformadas em
desigualdades, gerando preconceitos étnicos, sociais, raciais e de gênero. Certos
preconceitos e desnivelamentos de poder (relações hierarquizadas) podem ser a causas do
fenômeno bullying por parte de quem se pensa como “melhor” ou “superior” àquele que é
diferente. No caso do bullying pode ocorrer o inverso, ou seja, aquele que se acha inferior
agride o outro como uma espécie de vingança pelo outro “ser melhor” do que ele. A
violência ao diferente pode também significar uma intolerância ao fato dele não ser igual,
não aderindo a homogeneidade tão buscada, ou uma reação ao fato dele mesmo, o agressor,
sentir-se diferente e querer ser igual, a violência funcionaria como um ato de auto afirmação
pela força, por meio da destruição do diferente.
A partir deste resultado podemos fazer uma relação com o modo como meninos e
meninas são educados e modelados pela cultura.. Percebemos que comportamentos
ensinados pela sociedade, ou seja, atitudes aprendidas com uma determinada cultura são
muitas vezes consideradas naturais, inerentes aos seres humanos.
Quando falamos sobre o homem e a sociedade estamos sempre estabelecendo uma
discussão entre o natural e o cultural. Neste texto, quando falamos das diferenças entre
meninos e meninas estamos nos referindo à suas diferenças culturais, mas que ainda estão
7383
assentadas sobre uma base biológica de feminino e masculino. A distinção entre sexo e
gênero ou entre biologia e cultura não são claras. Na verdade não podemos definir com
precisão onde acaba o domínio da biologia e onde começa o domínio da cultura. Se por um
lado a biologia providencia claras diferenças entre os sexos, a sua interação com a cultura
parece não ser reconhecida. Estamos sempre estabelecendo fronteiras entre o que é natural e
o que é cultural. No entanto, deveríamos entender a natureza e a cultura como coisas
complementares, sem limites definidos. Deveríamos pensar no corpo tanto no seu limite
natural como em seu extremo poder de se modificar pela cultura. É isto o que gera a
pluralidade de corpos com suas múltiplas configurações, etnias, raças, gêneros etc. Corpos
que se beneficiam ou sofrem com a educação que lhes foi dada e a cultura em que estão
inseridos.
A escola
A escola facilita a prática do bullying, pois reproduz em seu interior os modelos de
corpos padronizados pela sociedade, e aqui, ao nos referirmos aos corpos, incluímos as
posturas, atitudes, falas, vestimentas que o envolvem. Existem dados que demonstram que
há uma grande possibilidade de meninas que sentem vergonha de seus corpos e medo de
virarem “chacota” por parte da turma desenvolverem doenças como a bulemia e a anorexia.
Este é apenas um exemplo do que a não aceitação das diferenças pode causar. Até mesmo
as crianças e principalmente os adolescentes buscam estar sempre dentro do padrão
estabelecido pela sociedade como o melhor. Consequentemente tornam aquele que não está
dentro destas características alvo de exclusão e de preconceito. Visto que um dos principais
motivos desencadeadores do bullying são as diferenças, todos os que não se “encaixam” no
padrão estabelecido culturalmente são vítimas potenciais da violência, e isto inclui mesmo a
forma corporal, com sujeitos mais obesos ou mais fracos os alvos mais freqüentes.
Acreditamos que a escola traz em seu cotidiano, momentos propícios para a
exclusão, para o preconceito e conseqüentemente para a prática do bullying. A pesquisa de
Fante (2005) nos mostra que as atitudes de bullying acontecem principalmente nos horários
de recreio e nos momentos de entrada e saída da escola. Esses momentos são aqueles,
dentro da rotina escolar em que os corpos e as diferenças são principalmente evidenciadas e
quando o controle exercido sobre os sujeitos diminui.
7384
Analisando o contexto escolar sugerimos incluir nestes dados da autora o momento
da Educação Física, visto que sua dinâmica se aproxima da dinâmica do recreio por seus
aspectos físicos (locais abertos, sem paredes e portas, geralmente numa quadra esportiva ou
num campo com gramado) e também por ser um momento escolar em que o corpo é
amplamente exposto.
A Educação Física também se torna um momento viável para a prática do bullying
por seus aspectos didáticos e pedagógicos que fazem dela um lugar no qual as crianças
ficam mais tempo em contato umas com as outras. A aula de Educação Física permite os
contatos corporais e facilita as trocas sociais de modo semelhante ao que ocorre na hora do
recreio. É justamente este contato corporal e estas trocas sociais na escola que facilitam as
condições para a ocorrência do bullying, pois são nos momentos de proximidade que a
“diferença” se manifesta, e essa diferença envolve tanto questões econômicas demonstradas
nas vestimentas, nos acessórios, no próprio material escolar, quanto pessoais, na exposição
do próprio corpo, de suas habilidades motoras e sociais.
Entre os meninos2, os próprios contatos corporais no momento de jogo e possíveis
problemas quanto ao respeito às regras, o resultado de vitória ou de derrota durante a hora
de recreio ou de Educação Física podem desencadear o bullying. Fante (2005) em seu
estudo reconheceu que a deficiência na coordenação motora é uma das características da
vítima típica do bullying, e é justamente neste espaço da educação física que esta
inabilidade se manifesta de maneira mais acentuada.
Entre as meninas, como já vimos, o bullying ocorre de maneira mais sutil (o que
também não exclui os meninos desta prática). Podem se tornar vítimas do bullying as
meninas que sentem vergonha em expor seu corpo ou em colocá-lo para se relacionar com o
corpo do outro. Ou então, a criança pode sentir medo de não conseguir realizar a atividade
proposta na aula e ser excluída pelo grupo, ou até mesmo, ser sempre o alvo de correção
pelo professor. Oliveira (2006) em sua dissertação de mestrado destaca duas vítimas típicas
do bullying nas aulas de Educação Física de 8a. série por ele observadas, um menino, com
traços afeminados, que era rejeitado pelos seus colegas e uma menina, muito habilidosa, que
por isto, era rejeitada pelas suas colegas, estes fatos observados pelo autor refletem a
questão da cultura que espera dos homens atitudes viris e das mulheres atitudes delicadas.
2
Isto também acontece entre as meninas, mas com menos freqüência.
7385
Enfim, são vários os fatores que podem levar algumas crianças a serem vítimas de
bullying e outras a serem praticantes do fenômeno, que são facilitados pelo ambiente
escolar. Não descartamos a possibilidade de ocorrer o bullying em outras aulas e em outros
momentos da escola, apenas citamos estes momentos por entender que são facilitadores da
violência. O recreio, a Educação Física e os horários de entrada e saída da aula, são os
momentos em que temos os corpos das crianças em contato maior uns com os outros. Estes
também são momentos em que os próprios alunos estão constantemente observando, ou
como nos diria Altmann (1999) vigiando as habilidades, as atitudes, o gênero e a
sexualidade dos colegas. São nestes momentos que podemos ver, com mais facilidade, a
diferença de comportamento entre meninos e meninas e ver e compreender estas diferenças
como fruto de uma construção social, nos permite agir de forma mais adequada aos sujeitos
e a situação em questão.
Considerações finais
Para entendermos o porquê de meninos e meninas agirem de maneiras diferentes
quando ficam zangados, sentem raiva ou não aceitam “o outro” precisamos perceber que
eles também foram educados de maneiras diferentes. Segundo Ribeiro (2006), desde a
infância, as crianças se deparam com conflitos gerados pela delimitação do que seria
adequado aos homens e do que seria adequado às mulheres. Existe certo poder simbólico
que legitima as ações do mundo masculino e do mundo feminino. Há um jeito de ser
feminino e um jeito de ser masculino que legitima as ações e os comportamentos sociais.
Portanto, o que estamos querendo dizer é que meninos e meninas se comportam de
maneiras diferentes em todas as ações do dia a dia (ou pelo menos em quase todas). Isto não
seria diferente no ambiente escolar e muito menos no momento e na maneira de expressar a
raiva. Suas brigas, agressões e confusões são desencadeadas por meios distintos. Meninas
conduzem suas “ações violentas” utilizando atributos que lhes são próprios. O mesmo
acontece com os meninos. Se isto não acontece desta maneira, ou seja, se vemos meninos
agindo da maneira que foi apontada como modo de agir das meninas, ou vice-versa, isto é o
suficiente para que haja certa desconfiança por parte dos colegas com relação a própria
sexualidade da criança. Isto também é comum nas relações entre os adultos, Ribeiro (2006)
diz que entre todas as gerações há um idioma de gênero que organiza as relações sociais,
7386
estruturando as diferenças que qualificam os comportamentos pertinentes aos grupos de
meninos e aos grupos de meninas.
Enfim, se os meninos são mais agressivos e demonstram isto fisicamente, enquanto
as meninas são mais sutis (e nem por isso menos vingativas), isto não acontece porque é
natural. A ordem da natureza é influenciada e modelada pela ordem da cultura. Ou seja,
meninos não são mais violentos “por natureza”. Assim como meninas não são mais
delicadas e gentis “por natureza”. Todos passam por um processo de educação específico de
uma sociedade determinada. Esta educação por sua vez, é transmitida de geração para
geração perpetuando “modos de ser” específicos de homem e de mulher.
Portanto, para entendermos o que “está por trás” dos comportamentos das crianças,
dentre eles os comportamentos agressivos e a prática do bullying, devemos buscar a
compreensão de que todos os seres humanos passam por uma construção cultural de modo
que resta muito pouco de natural em suas ações e comportamentos.
Admitindo o fato de que a agressividade seja inerente a natureza humana, a
responsabilidade de pais e educadores se minimiza, pois estão diante de situações que
acreditam ser naturais, portanto praticamente imutáveis, apenas sujeitas ao controle e a
dominação. Do contrário, se entendermos a agressividade humana como algo construído e
colocado a nós por uma ordem social e cultural, a responsabilidade de modificar essas
situações recai novamente sobre pais, educadores e pessoas responsáveis pela criação de
qualquer indivíduo.
Assim, a partir do momento que olharmos para tais fenômenos com as “lentes da
cultura”, ou seja, atentarmos para a memória cultural de cada indivíduo, refletindo sobre a
diversidade existente numa sociedade, estaremos possibilitando uma reflexão sobre as
dinâmicas sociais, de gênero, de raça etc. Trazendo para o ambiente escolar questões sobre
o processo de socialização infantil e suas relações com a construção do indivíduo adulto,
não mais naturalizando comportamentos e sim compreendendo a diversidade cultural e suas
implicações no cotidiano.
Esta compreensão também nos leva a ver que, embora ocorram diferenças quanto a
forma de manifestação da agressividade e, no caso em questão, do bullying, entre meninos e
meninas, esses atos representam a busca de demonstrar ao outro seu desejo de ser.
7387
REFERÊNCIAS
ALTMANN, H. Meninos e meninas: Expectativas corporais e implicações na educação física
escolar. Cadernos Cedes, vol. 19, n. 48. Campinas, 1999.
FANTE, C. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz.
Campinas: Verus editora, 2005.
COSTA, J.F. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 2003.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC- Livros Técnicos e
Científicos Editora S. A., 1989.
GONÇALVES, H.S. Infância e Violência no Brasil. Rio de Janeiro: NAU Editora
GUIMARÃES, A. Indisciplina e violência: a ambigüidade dos conflitos na escola. In: LOPES
NETO, A. A. Bullying- comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de pediatria, v. 81,
n. 5. Porto Alegre, nov. 2005.
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosacnaify, 2003.
OLIVEIRA, R.C. Educação física, escola e cultura: o enredo das diferenças. Dissertação de
Mestrado, Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, 2006.
RIBEIRO, J. S. B. Brincadeiras de meninas e de meninos: socialização, sexualidade e gênero
entre crianças e a construção social das diferenças. Cadernos Pagu, n. 26. Campinas,
jan./jun. 2006.
Download

um olhar sobre o bullying: reflexões a partir da cultura