Posicionamento da Rede WWF para a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas em Poznan, na Polônia Dezembro de 2008 Faltando apenas um ano para a conferência definitiva sobre mudanças climáticas da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) em Copenhague, a 14ª COP (Conferência das Partes) que se realiza em Poznan, na Polônia, representa uma etapa importante para o tratado internacional, o qual é necessário para impedir o aumento catastrófico da temperatura do Planeta. Durante a 14ª COP, os ministros precisam agir de forma decisiva para progredir rumo a negociações que preparem um tratado global do clima justo e ambicioso para dezembro de 2009. Para manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C, a comunidade internacional precisa agir conjuntamente, a fim de chegar a um acordo sobre as formas de reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. Para se ter êxito em Copenhague em 2009, é essencial obter avanços em Poznan em 2008. Para citar o presidente eleito dos EUA, Barack Obama: “…uma palavra especial para os delegados de todo o mundo que irão se reunir na Polônia no mês que vem: o trabalho de vocês é vital para o Planeta. O adiamento deixou de ser uma opção. Negar não é mais uma resposta aceitável. O que está em jogo é alto demais. E as conseqüências são graves demais”. A opinião da Rede WWF: as idéias precisam evoluir em Poznan Principais fatores para o sucesso em Poznan: 1) Os ministros mudarem o teor das conversações, passando de idéias voláteis para negociações sérias e com base em textos redigidos. 2) As opções e os conceitos em negociação para o acordo pós-2012 terem potencial de resultar num acordo justo e baseado no conhecimento científico. 3) Os ministros esboçarem uma visão compartilhada, para que em Copenhague se alcance um resultado a ser ratificado, com objetivo de se conseguir um tratado de implicações legais, que seja justo e adequado, e que: • reconheça a necessidade de assegurar que as emissões globais alcancem o pico bem antes de 2020, dentro de uma visão de longo prazo onde o nível fica bem abaixo de 2°C; • implemente princípios para ação cooperativa demonstrando ambição, urgência e equidade; • suponha que os países industrializados irão prover os meios apropriados para que as nações em desenvolvimento implementem as medidas de redução e adaptação. 1 4) Com relação ao período anterior a 2012, as partes já estejam comprometidas com mais ações programáticas para melhorar a capacidade institucional dos países em desenvolvimento para (1) se adaptarem às mudanças climáticas e (2) diminuírem suas emissões de gases de efeito estufa por meio de medidas referentes a energia e floresta. 5) Os ministros explicitamente demonstrarem que as mudanças climáticas permanecem como alta prioridade dos governos, que enfrentarão a crise do clima junto com a crise econômica global, e não permitirão que esta interfira nos esforços para alcançar um acordo de clima ambicioso em Copenhague. 6) Com essa finalidade, os ministros – principalmente aqueles dos países desenvolvidos – anunciarem novos e maiores esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que serão rapidamente implementados ainda em 2009, na condição de atividades para ajudar a preparar os ambiciosos compromissos pós-2012. Liderança Sul-Norte e compromisso são chaves para o sucesso Mais do que nunca, o êxito dessas negociações dependerá, em grande parte, da vontade de muitas nações de demonstrarem um compromisso genuíno com um resultado positivo. Alguns países procuraram fazer esse processo avançar por meio da inserção de idéias criativas e conceitos inovadores nas negociações da UNFCCC ou por meio da implementação, no âmbito doméstico, de políticas graduais do clima. Especialmente os países em desenvolvimento do G77 e seus membros, países como o México e um país industrializado como a Noruega já demonstraram essa tão necessária liderança. De acordo com a Rede WWF, são os grandes países industrializados que entregaram menos do que o esperado, tanto no âmbito doméstico como no processo de negociação internacional. Por exemplo: apesar de alguns sucessos de estados membros da União Européia na redução de emissões nos últimos anos e no cumprimento das metas de Quioto, a UE como um todo se encontra paralisada quanto a um acordo de política construtiva pós-2012. Isso se deve principalmente ao papel negativo da Polônia e da Itália. Países chaves não exerceram a liderança necessária; em vez disso, enfraqueceram medidas importantes, mediante atuações um tanto egoístas da Alemanha, França, Reino Unido, Holanda, República Tcheca, Hungria e outros. Isso faz com que o pacote de clima & energia proposto para a UE esteja ameaçado de se diluir antes mesmo de ser reconhecido. Dezembro será um mês chave, pois a UE tomará suas decisões paralelamente à realização da COP em Poznan. A Rede WWF conclama a UE a manter seus compromissos anteriores, que são relativos a cortar em 30% os gases de efeito estufa (GHG), junto com outras ações de países industrializados; à variação de redução conforme o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC); e a disponibilizar o dinheiro para a redução e adaptação no Sul. Nos Estados Unidos, o novo presidente eleito irá designar os membros de sua administração e prometeu priorizar as questões de clima. A Rede WWF continuará a conclamar os líderes da União Européia e dos Estados Unidos para que demonstrem liderança e coragem, implementando políticas que sirvam como exemplo para o resto do mundo. 2 Países em desenvolvimento que são chaves demonstraram sinceridade ao longo de 2008 e apresentaram conceitos inovadores na negociação. Precisamos, agora, de liderança dos países industrializados, de forma que uma liderança conjunta SulNorte possa acabar com a retórica e dar início às negociações reais em Poznan. A proteção do clima precisa ser parte da solução da tríplice crise global de pobreza, finanças e mudanças climáticas. No recente início da crise financeira, foram observados paralelos entre a má gestão dos recursos da natureza e a crise de crédito mundial que gerou metástases de uma recessão global. Ambas as situações nos ensinam que só é possível ter uma certa quantidade de dívidas antes de acarretar conseqüências catastróficas. Mas, quando a natureza quebra, não há quem socorra. Em última análise, a crise financeira também constitui uma grande ameaça para aqueles que estão mais vulneráveis aos impactos climáticos, ao desgastar ainda mais sua limitada base econômica e seu meio de vida. Isso torna ainda mais urgente um apoio maior para as estratégias de adaptação. Um dos sinais mais esperançosos que emergiram nessa crise financeira é o crescente consenso, entre os economistas, banqueiros e cientistas, de que os valores ambientais não constituem um impedimento para o progresso econômico. Os governos precisam adotar estratégias, tais como investir em energia renovável e tecnologias de eficiência energética, que ajudem a acabar com ambos os nossos déficits - o econômico e o ecológico -, e que, ao mesmo tempo, façam crescer a economia de uma forma ‘verde’. Detalhes de Poznan Colocar as conversações das Nações Unidas no rumo certo para Copenhague não será uma tarefa fácil para os ministros e suas delegações em Poznan. Será preciso avançar em níveis múltiplos na COP 14, caso se queira que as negociações tenham qualquer chance de êxito. Sobre o Processo: energizar as conversações da ONU por meio de um processo adequado de negociação. Uma análise séria deixa claro que o processo da UNFCCC não faz jus à escala e urgência do problema. É preciso chegar a um acordo e começar realmente a negociar, com base em textos, sobre as opções sustentáveis e ambiciosas para chegar à Convenção (o Grupo de Trabalho Ad Hoc em Cooperação de Longo Prazo – AWG-LCA), assim como para Quioto (o Grupo de Trabalho Ad Hoc do Protocolo de Quioto – AWG-KP e a Revisão do Artigo 9). Os resultados de Poznan devem incluir os seguintes pontos específicos para fazer avançar mais o real processo de negociação: • Os resultados de ambas as negociações devem ser a base do texto a ser negociado. Os membros de ambos os grupos de trabalho devem receber um mandato para desenvolver mais esses textos. • É preciso aprofundar e dar mais substância aos chamados “blocos” com os quais é construída a redação dos textos de negociação. E 3 • • é preciso que eles contenham todas as opções possíveis que possam viabilizar o resultado necessário, conforme a escala e o ideal ambicionados. Os textos de negociação devem estar acompanhados de um plano de trabalho e de um cronograma até Copenhague. Como parte disso, o AWG-KP não deve ficar aquém do cronograma de trabalho já acordado. A Rede WWF considera que o Protocolo de Quioto e seus acordos de Marrakesh são os principais marcos para um acordo pós-2012. A revisão do Procotolo de Quioto (Art.9), que ocorrerá em Poznan, pode ajudar em questões específicas, inclusive a reforma dos mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL), aumentando o financiamento para a adaptação e aspectos jurídicos relevantes para emendas ao Protocolo de Quioto. Sobre a Visão Compartilhada Acordar uma visão compartilhada que explicite a necessidade de parar com o aumento das emissões globais durante a próxima década e implemente os princípios de cooperação baseados no ideal ambicionado, na urgência e na equidade. a) Urgência de ação – Até 2020, as emissões globais devem atingir seu pico - As emissões continuam em alta – o pico global é uma prioridade: em contraste com a preocupação assustadoramente crescente de muitos governos em relação às mudanças climáticas e apesar dos altos preços do petróleo, dos debates sobre segurança energética e das oportunidades de crescimento verde, as emissões continuam aumentando. O nível de aumento registrado nos últimos anos foi de 3% em média – um aumento cada vez mais acelerado. Embora seja uma tarefa cada vez mais difícil fazer com que o pico global das emissões aconteça bem antes de 2020 continua a ser a prioridade chave, pois isso tem uma chance razoável de diminuir o aquecimento global e mantê-lo abaixo de 2°C. A ciência nos avisa que é preciso ficar bem abaixo de 2°C se quisermos evitar impactos catastróficos: o conhecimento científico indica que, com temperaturas em alta e principalmente com um aquecimento acima de 2°C, existe um risco crescente de serem deflagradas mudanças climáticas que ficarão fora de controle, podendo ocasionar uma elevação das temperaturas globais em muitos graus. Esses aumentos drásticos teriam impactos irreversíveis e a adaptação deixaria de ser uma opção para muitos - inclusive para as comunidades mais pobres, os estados localizados em ilhas e regiões costeiras de terras baixas, bem como para as espécies e os ecossistemas. Com base no 4° Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) de 2007 e outros estudos científicos, é fundamental que o pico global fique bem abaixo de 2° C, para proteger o Planeta das perigosas mudanças climáticas. 4 No entanto, o relatório Climate Solutions da Rede WWF e outras pesquisas demonstram que a janela de oportunidade para manter os níveis bem abaixo de 2°C continua aberta para nós – embora não por muito mais tempo. - Identificar um orçamento global de carbono: a ciência confirma que, para evitar, com a maior probabilidade possível, as perigosas mudanças climáticas, só é seguro ter níveis de concentração de gases de efeito estufa (GHG) <350 partes por milhão (ppm). Além disso, o limiar de concentração equivalente a 450 ppm de CO2 , muitas vezes citado, representaria uma chance de 50:50 na prevenção do aumento de 2° C na temperatura. Dada a reação não-linear do sistema climático de aumentar os gases de efeito estufa, a Rede WWF considera que uma abordagem mais apropriada do que quaisquer níveis de estabilização seria determinar um limite de temperatura e um orçamento cumulativo global de carbono, distribuído entre as nações com base na justiça, responsabilidade, riqueza e outros critérios. - Os países industrializados precisam liderar e comprometer-se com metas de redução acentuada; os países em desenvolvimento precisam se comprometer com reduções para ficar abaixo do cenário da tendência atual: para ter o pico das emissões globais antes de 2020, os países industrializados precisam demonstrar, enquanto grupo, seu apoio à redução, até 2020, de 25% a 40% e abaixo dos níveis de 1990. Conforme os objetivos acima para os países industrializados, o grupo de países em desenvolvimento, principalmente no caso daqueles de economias emergentes, precisa ter como objetivo a redução substancial das emissões para que, até 2020, elas fiquem abaixo do cenário das tendências atuais. As partes precisam determinar, de forma científica e com base em princípios, qual é o nível certo de desvio para o grupo de países em desenvolvimento. Qualquer "compensação" a ser feita pelos países desenvolvidos tem que ser adicional ao desvio de emissões tendenciais dos países em desenvolvimento. - Até 2050, as emissões globais precisam cair no mínimo 80% abaixo dos níveis de 1990. Para os países industrializados, isso significa uma meta de emissão zero, aproximadamente, até meados deste século. Até lá, as emissões nos países em desenvolvimento, enquanto grupo, precisam ter alcançado o pico e encontrar-se em queda acentuada, ficando abaixo dos níveis de 1990. É claro que essas ações ousadas, por parte dos países em desenvolvimento, requerem, para implementá-las, uma provisão substancial de meios por parte dos países desenvolvidos, já que historicamente são eles os maiores poluidores. São os países com um nível muito mais elevado de emissões per capita e de renda per capita que devem apoiar essa transição imediata para um futuro de carbono zero. b) Implementar os princípios de ideal, cooperação e equidade que irão fortalecer o Tratado de Copenhague. A visão compartilhada terá que ir além da redução de emissões. Ela deverá mostrar como os princípios da UNFCCC e do Protocolo de Quioto irão se refletir no tratado de Copenhague, a fim de cumprir o principal objetivo da Convenção (Artigo 2), que é prevenir o perigo das mudanças climáticas. 5 O enfrentamento das mudanças climáticas requer um novo contrato global de cooperação e solidariedade, baseado em: • • • • Princípios de responsabilidades e capacidades comuns, embora diferenciadas, e necessidade de ação urgente e ousada de acordo com a abordagem de precaução baseada no conhecimento científico; Viabilizar o direito ao desenvolvimento sustentável e baixo em carbono, com base numa estrutura em que o poluidor é quem paga. Isso também exige o compromisso de evitar ações que possam paralisar ainda mais o caminho do desenvolvimento e intensifica o carbono; Reconhecer que os países desenvolvidos são especialmente responsáveis e têm capacidade de fornecer os meios para implementar as medidas de redução e adaptação (tecnologia, finanças, capacitação); Uma conexão clara entre os níveis de redução e as necessidades e restrições de adaptação. A visão compartilhada precisa ir além de uma mera declaração desses princípios e delinear claramente como eles podem ser implementados. Em resumo, a estrutura de uma visão compartilhada deveria: • Identificar um objetivo de longo prazo para manter o aumento da temperatura bem abaixo dos 2°C e o orçamento de carbono/gases de efeito estufa que ainda está disponível; • projetar o caminho das emissões correspondentes até meados deste século, com a prioridade imediata de se alcançar um objetivo de curto prazo em que o pico das emissões globais aconteça bem antes de 2020; • implementar princípios para repartição de esforços de redução e de apoio de adaptação, bem como para uma redução passível de ser mensurada, reportada e verificada (MRV), refletindo um conjunto identificável de princípios de equidade, direitos e oportunidades de desenvolvimento sustentável, ideal ambicionado, urgência e precaução; • incluir períodos qüinqüenais de compromissos para implementar o tratado; • prever revisão periódica, com base no conhecimento científico e em casos recentes de sucesso, para determinar se é preciso aumentar os esforços. Sobre as ações antes de 2012 para fortalecer a capacidade dos países em desenvolvimento Acordar medidas pré-2012 para melhorar a capacidade institucional e de implementação, a fim de realizar ações relacionadas à energia para reduzir ou parar o desmatamento, diminuir a vulnerabilidade e fazer as adaptações aos impactos climáticos. As negociações não se referem somente ao que vai acontecer depois de 2012. O sucesso de longo prazo depende de nossa capacidade de construir, no curto prazo, as fundações do futuro. O desenvolvimento de capacidades, 6 principalmente em nível institucional, assim como aprender a compartilhar, são questões que preocupam principalmente os países em desenvolvimento. A Rede WWF gostaria de ver atividades de implementação conjuntas Sul-Norte e Sul-Sul, com foco no desenvolvimento de capacidades e ênfase nas instituições e no desenvolvimento de know-how para formular políticas de redução relacionada à questão energética, Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação (REDD) e de adaptação, necessárias para a implementação do tratado de Copenhague. Só será possível colocar em prática ações sérias e intensificadas se realizarmos tais atividades agora e pré-2012 (veja mais detalhes abaixo). Blocos para implementar uma visão compartilhada do Tratado de Copenhague Uma visão compartilhada deve projetar o ideal que a norteia e os princípios de ação. No entanto, o êxito em Copenhague em 2009 dependerá, também, de se assegurar que a estrutura e as opções referentes a esses “blocos” com os quais os negociadores constroem essa visão, sejam suficientemente ambiciosas em Poznan. Isso requer abordar temas como adaptação, mitigação e mecanismos para mitigar, energia, Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação (REDD), financiamento, cooperação em tecnologia, e também os setores marítimo e aéreo. Esses temas estão sendo negociados, hoje, no âmbito da Convenção e do Protocolo de Quioto. Nesse contexto, a Rede WWF acredita que o Protocolo de Quioto e os Acordos de Marrakesh forneçam a estrutura do núcleo do tratado de Copenhague. Admitimos, no entanto, que para implementar os objetivos da Convenção será preciso entrar em acordo sobre muitas outras capacidades e estruturas institucionais. Com relação a esses blocos para construir o tratado, as negociações de Poznan precisam: • • • identificar as opções mais promissoras para se atingir a escala necessária e o ideal ambicionado; fornecer uma estrutura melhor para os elementos que compõem cada um dos blocos; delinear os princípios e critérios que deveriam impulsionar o desenvolvimento futuro desses blocos. Os países em desenvolvimento fizeram muitas propostas, especialmente referentes à tecnologia e financiamento, considerados elementos chaves para poder tratar da mitigação. Para garantir o êxito em Poznan, os países industrializados precisam procurar um patamar comum para as posições e os conceitos propostos pelos países em desenvolvimento, principalmente o G77. 1. Adaptação 7 Nas negociações sobre os blocos referentes à adaptação, foram delineados, até agora, os princípios preliminares e os elementos potenciais de um pacote de adaptação. No entanto, os atuais compromissos para se alcançar um acordo sobre adaptação no âmbito da Convenção estão, na melhor das hipóteses, fragmentados, com o foco evidente nas avaliações científicas e workshops de peritos, mas sem conteúdo de implementação ou financiamento. Se quiserem trabalhar para a obtenção de um tratado efetivo em Copenhague, todas as partes precisam colocar uma ênfase muito maior no reconhecimento de que os primeiros cortes de emissões reduzirão, rapidamente e em grande parte, os crescentes custos de adaptação. Além disso, as partes precisam dar fortes incentivos às ações imediatas que entrem em vigor pré-2012. Os seguintes componentes centrais são relevantes para os períodos pré-2012 e pós-2012: - É preciso providenciar os recursos que faltam para a adaptação: aumentar a escala da adaptação exige a garantia de apoio financeiro relevante, seguro e previsível, por meio de mecanismos eficazes e sob boa gestão. Uma insuficiência orçamentária prejudicará a adaptação e enfraquecerá a confiança e boa vontade necessárias para que todas as partes assumam o compromisso de realizar os demais elementos do acordo mais amplo no âmbito da Convenção em Copenhague. As Partes precisam agir imediatamente para garantir fontes sustentáveis de financiamento da adaptação. - Planejamento do risco e seguro: a melhor forma de apoiar os planos regionais de seguro é por meio de um esquema de fundo de adaptação. O workshop do Grupo de Trabalho Ad Hoc em Cooperação de Longo Prazo (AWG-LCA) em Poznan sobre a gestão do risco e as abordagens de compartilhamento do risco precisa identificar possíveis mecanismos e oportunidades. - Financiamento de NAPAs e NAPs: é preciso alocar recursos para permitir que os países menos desenvolvidos (designados pela sigla LDCs) implementem seus Programas Nacionais de Ação de Adaptação (NAPAs), bem como alocar recursos para os países vulneráveis que não fazem parte do grupo dos LDCs para que eles desenvolvam seus Planos Nacionais de Adaptação (NAPs). Será necessário, ainda, prover recursos para que os países vulneráveis possam abordar os riscos climáticos e integrar a adaptação em seus processos nacionais de desenvolvimento. - Promoção da expertise para a adaptação global e regional: coordenar, em âmbito internacional, o apoio aos centros de excelência em adaptação, tanto os novos como os já existentes, e focar no fortalecimento da resiliência de ecossistemas vulneráveis como base para sobrevivência humana; apoio internacional para o desenvolvimento de centros de excelência em adaptação e uma rede de centros especializados em adaptação; total apoio para a capacitação nas especialidades de adaptação Sul-Sul, com transferência 8 Norte-Sul de capacidades e conhecimentos sobre abordagens com foco na demanda e orientadas para a ação. - Preparação para cenários nos quais os impactos excedem a capacidade de adaptação: se as emissões mantiverem a tendência atual e o pico e o declínio não aconteçam bem antes de 2020, e ainda se não forem implementadas medidas preventivas/pró-ativas, a adaptação deixará de ser uma opção viável para muitos dos Estados, comunidades e ecossistemas mais vulneráveis. Os negociadores precisam pensar além do presente discurso de adaptação e considerar a criação de sistemas de seguro, com algum tipo de mecanismo de financiamento para os refugiados e vítimas da destruição, bem como para aqueles mais afetados por impactos irreversíveis. - Tecnologia de adaptação: a adaptação deve fazer parte de todas as discussões tecnológicas, especialmente no que se refere à remoção de barreiras para a cooperação tecnológica. Isso deve acontecer juntamente com o maior reconhecimento do papel fundamental que o meio ambiente natural desempenha no fornecimento de bens e serviços ecológicos e que são fundamentais para a adaptação e para a redução da pobreza. - Harmonização por meio de um Comitê de Adaptação da Convenção: tal comitê teria como tarefa a coordenação das ações sobre questões de adaptação nas cadeias de trabalho da Convenção, de forma a criar um sentido maior de compromisso e urgência. É relevante inserir a questão da adaptação nos Órgãos Subsidiários de Aconselhamento Científico e Tecnológico e de Implementação (SBIs) para que as ações de adaptação progridam na Convenção, mas tais cadeias de trabalho precisam ser melhor coordenadas. Vários itens da agenda dos SBIs estão ligados à adaptação, mas as discussões na 1/CP.10 não se mostraram benéficas para implementar a adaptação. - Entrada em vigor do Fundo de Adaptação de Quioto: itens interligados com a realização imediata de projetos pilotos de adaptação incluem a operacionalização do Fundo de Adaptação, recentemente criado pelo Protocolo de Quioto, e o compromisso com a capacitação. 2. Mitigação nos países desenvolvidos e em desenvolvimento O bloco de mitigação redução ficou atrasado em função de diversas sensibilidades políticas e, até agora, é um dos que menos avançou. É preciso obter progresso significativo em Poznan: Para os países industrializados - Discutir o nível comparativo de esforço: Poznan deve começar a trabalhar os conceitos e critérios do nível comparativo de esforço no grupo de países desenvolvidos, juntamente com a variação de -25% a -40% de emissões até 2020 e com um objetivo de emissão zero até meados deste século. Esse debate pode ganhar fôlego em 2009 com o início de uma nova administração nos EUA, mais comprometida com a proteção do clima. É necessário, ainda, iniciar a discussão, no trilho do Protocolo de Quioto, sobre a diferenciação dentro do Anexo 1. 9 - Fortalecer a variação de redução das emissões: A variação de -25 a -40% das emissões até 2020 faz parte da agenda do AWG do Protocolo de Quioto. Para ficar abaixo da meta de 2° C, a redução de emissões no mundo desenvolvido precisa alcançar o ponto mais elevado dessa variação. Qualquer “compensação” precisa incidir sobre o desvio da tendência atual nos países em desenvolvimento. Para os países em desenvolvimento - Considerar “ações intensificadas”: o Plano de Ação de Bali propôs a questão de Ações Nacionalmente Apropriadas e “Intensificadas” de mitigação, que sejam Mensuráveis, Relatáveis e Verificáveis (MRV NAMAs), viabilizadas pelo apoio MRV oferecido - e agora é preciso trazer isso à vida. Os países em desenvolvimento devem discutir os tipos de ações intensificadas e em que nível elas se darão, bem como os meios suficientes para implementá-las e qual seu papel. É preciso, ainda, abordar o papel potencial e a conexão estratégica dos planos de desenvolvimento nacionais de baixo carbono, bem como abordagens setoriais, tipos de mecanismos e instrumentos de políticas públicas (veja as seções abaixo). - Discutir níveis de redução que fiquem abaixo das tendências atuais: os países em desenvolvimento deveriam considerar qual o nível de redução, abaixo da tendência atual, que será necessário para eles, enquanto grupo, ou para aqueles mais desenvolvidos entre eles, de forma que até 2020 esse nível de redução fique bem abaixo dos 2°C. Isso ajudaria a estimular o ideal ambicionado e a escala dos blocos, sem prejuízo nem exigência de igualdade nas metas legais para o grupo de países em desenvolvimento. 3. Novos mecanismos de redução e mercados de carbono Nos últimos anos surgiram novas propostas sobre mecanismos alternativos futuros, pois ficou claro que os Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) não fariam jus às expectativas no seio das exigências crescentes de maior redução das emissões. Os mecanismos em discussão que o WWF considera relevantes incluem: • Variantes de MDL bem modificado e com base em projeto; • Mecanismos de mercado de carbono em nível setorial (comércio setorial, crédito setorial, metas em que não há perdedor, MDL setorial e política MDL para países em desenvolvimento); • Mecanismos que não se referem ao mercado, tais como políticas e medidas de desenvolvimento sustentável (SDPAMs), opções climáticas baseadas em recursos financeiros e conceitos relacionados à cooperação em tecnologia, inclusive um mecanismo para programas de ação tecnológica. As discussões estão acontecendo no âmbito do tratado de Quioto (AWG-KP e a revisão do Art.9 do Protocolo de Quioto), bem como do AWG-LCA – e eles devem se ancorar nas duas negociações que irão continuar a partir de Poznan. Em Poznan, as partes devem: 10 - Identificar e avaliar os princípios para desenhar mecanismos que aprofundem a discussão e tenham por objetivo trabalhar em prol de um regime de clima eficiente e coerente (veja abaixo). - Identificar o mix de instrumentos e mecanismos em ambas as negociações: nenhum mecanismo pode, por si só, satisfazer todas as expectativas e necessidades da Convenção. Portanto, o propósito específico pode diferir de um mecanismo para outro, dentro de um conjunto de múltiplos mecanismos. - Ampliar o alcance dos mecanismos disponíveis para garantir escala: no geral, será necessário dispor de novos mecanismos, de mercado e não, em âmbito setorial, para possibilitar a escala necessária de redução, cooperação tecnológica e desenvolvimento sustentável. - Analisar a interação dos blocos de mecanismos e financiamento, tecnologia e redução: eles não podem existir isoladamente e têm que ser analisados em relação à sua capacidade de apoiar os esforços de redução das Ações de Redução Nacionalmente Apropriadas que sejam mensuráveis, reportáveis e verificáveis (MRV NAMAs), assim como o apoio dos países desenvolvidos à MRV. Tais blocos chaves precisam interagir de forma dinâmica e devem se fortalecer mutuamente. - Ritmo/cronograma, praticidade/exeqüibilidade e escala: quando entrarão em vigor os mecanismos para garantir, em escala, o pico e declínio em termos globais? Que capacidade, instituições e base de dados devem existir para aplicá-los? As negociações deveriam debater essas questões práticas. A barganha política e as instruções sobre se é possível realmente discutir esses conceitos ou se isso atrapalha algumas dessas questões chaves. a) Princípios para examinar o MDL com base em projeto Pode-se continuar com o MDL enquanto mecanismo baseado em projeto desde que algumas melhorias sejam introduzidas, mas seu uso geral deve ser bastante limitado em favor de um mix bem amplo de mecanismos. Na melhor das hipóteses, o MDL é apenas um mecanismo de compensação e não contribui para promover reduções adicionais de emissões nos países em desenvolvimento, caso as metas dos países desenvolvidos não sejam colocadas num nível comparativamente mais elevado. É óbvio que a atual estrutura de MDL tem falhas e, caso se pretenda continuar com isso no futuro, é preciso um exame completo no âmbito de Quioto e das negociações pós-2012. Acreditamos que se fazem necessárias muitas melhorais: - Garantir reduções e uma rígida avaliação da contrapartida; - Contribuição para o desenvolvimento sustentável; - Assegurar o envolvimento das partes interessadas e os direitos das comunidades locais e indígenas; - Distribuição equilibrada; - Excluir dos mecanismos as atividades não-prioritárias (tais como projetos de hidrofluorocarbono – HFC ou de óxido nitroso - N2O), que podem ser tratadas de forma mais efetiva de outras maneiras. • Incentivar a metodologia Gold Standard de MDL e as escolhas tecnológicas. 11 Algumas dessas melhorias podem e devem ser implementadas no âmbito do compromisso inicial do Protocolo de Quioto e revisadas no Art.9. b) Princípios para desenhar mecanismos alternativos para setores alvos Novos “mecanismos” de redução de emissões que visam setores não se limitam a opções com base no mercado, mas deveriam incluir também aquelas baseadas em financiamento e aquelas focadas na cooperação tecnológica (veja seção abaixo). Em geral, a tendência de mecanismos de aplicação setorial é o caminho certo, mas requer uma discussão sobre o papel potencial dos instrumentos do mercado de carbono. A adoção de mecanismos setoriais de carbono com base em mercado não elimina, necessariamente, os problemas que ocorrem com o MDL; e podem ainda criar novas questões ou agravar algumas. Por esse motivo, para estabelecer um conjunto de mecanismos, é preciso ter em mente os seguintes princípios: - Trocar os mecanismos de compensação por mecanismos de contrapartida de redução líquida de emissões; - Integridade ambiental e escala possível de redução; - Consistência entre os múltiplos mecanismos; - Cooperação tecnológica e financiamento de investimento limpo como parte do apoio mensurável, reportável e verificável (MRV); - Priorizar objetivos de desenvolvimento sustentável; - Assegurar o envolvimento das partes interessadas e os direitos das comunidades locais e indígenas; - Não dar incentivos perversos para o desenvolvimento sustentável mediante essa nova estrutura de mecanismos de incentivo. 4. Reduzir as Emissões oriundas do Desmatamento e da Degradação florestal (REDD) O workshop em Acra sobre abordagens de políticas e incentivos positivos para reduzir as Emissões oriundas do Desmatamento e da Degradação florestal nos países em desenvolvimento (REDD) constituiu uma reunião construtiva onde as partes apresentaram propostas claras e mostraram convergência em várias questões chaves. Poznan deve continuar com essa abordagem construtiva e trabalhar com AWG-LCA e SBSTA, com recomendações à COP, para assegurar a manutenção do ímpeto para a inclusão de REDD no tratado de Copenhague. Reduzir as emissões oriundas do desmatamento e da degradação florestal nos países em desenvolvimento é vital como parte integrante das reduções das emissões em geral e é necessário para limitar o aumento da temperatura média global para que ela fique bem abaixo de 2º C. Portanto, é importante que o REDD seja considerado adicional e não substitua os graves cortes a serem feitos nas emissões dos países desenvolvidos, conforme foi reconhecido na recente atitude da Noruega e solicitado por vários países em Acra. É preciso criar um marco mensurável, reportável, verificável, adicional e permanente (MRVAP) e que forneça o financiamento e o apoio político necessários para 12 implementá-lo, de forma que o REDD possa se tornar uma parte integrante da solução climática. Com essa finalidade, as decisões de Poznan deveriam incluir declarações claras que: - Felicitem países desenvolvidos, como é o caso da Noruega, que já decidiram apoiar a capacitação e incluíram apoio financeiro e assistência técnica. A Rede WWF gostaria de ver mais apoio sistemático e coordenado das Partes à capacitação, especialmente por parte dos países desenvolvidos, como parte deste processo da Convenção. Qualquer financiamento terá que ser adicional aos compromissos da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA). - Reconheçam que a redução sustentável das emissões oriundas do desmatamento e da degradação florestal nos países em desenvolvimento requer uma disponibilidade de recursos adicionais à ODA que seja estável, adequada e de longo prazo. A COP precisa, então, mostrar as opções de arrecadação de fundos suficientes e um plano de trabalho para definir os mecanismos internacionais adequados de financiamento até o tratado de Copenhague. - Incentivem mais os países em desenvolvimento a se dedicarem a atividades demonstrativas, em nível subnacional e nacional, que possam: ajudar a testar e desenvolver abordagens nacionais para mensurar e monitorar as emissões florestais de carbono; guias os meios efetivos de redução do desmatamento tanto em nível regional como nacional; e desenvolver meios para fornecer benefícios tangíveis e seguros para as comunidades locais e povos indígenas, advindos dos recursos financeiros para o clima. - Reconheçam que o arcabouço de REDD deve promover benefícios colaterais, inclusive a conservação da biodiversidade e as funções e serviços dos ecossistemas, e fazer com que as comunidades locais e indígenas consigam acessar esses benefícios. - Em Acra, um número crescente de Partes sugeriu uma abordagem ampla para a inclusão de fontes de carbono florestal e de atividades de depósito de carbono. À vista disso, a Rede WWF: o Pede a priorização e foco imediato na redução das emissões oriundas do desmatamento e da degradação florestal; o Sugere examinar as opções de como abordar a manutenção dos estoques de carbono florestal nos países com menores índices de desmatamento; o Que as partes identifiquem princípios, questões, critérios e um plano claro de trabalho para incluir outras atividades no sistema até 2020. - Com base no workshop técnico SBSTA de outubro, desenhar o marco metodológico e identificar as principais lacunas para fazer avançar o trabalho, incluindo a degradação nos aspectos de clima e floresta, no acordo de Copenhague. 5. Financiamento da mitigação e da adaptação no mundo em desenvolvimento Os países devem ir a Poznan prontos para concordar com um número limitado de opções que, realisticamente, abordem o âmbito e a escala do desafio do financiamento. As partes também precisarão concordar sobre os princípios que regem o desenvolvimento de uma nova arquitetura financeira para a proteção do 13 clima nas seguintes três áreas: 1) mecanismos para arrecadar recursos financeiros; 2) arranjo institucional e governança desses recursos; 3) desembolso e execução dos recursos. - A urgência de ter mais recursos financeiros, principalmente para adaptação: O Relatório de Fluxo dos Recursos Financeiros da UNFCCC procura apenas a estabilização das emissões até 2030 e estima que os países em desenvolvimento precisem de no mínimo US $130 bilhões para enfrentar as mudanças climáticas. Tais investimentos não são suficientes para limitar o aquecimento global e mantê-lo bem abaixo dos 2° C, nem para enfrentar completamente esses impactos. Para adaptação, por exemplo, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calculou que será necessário uma soma de US $86 bilhões por ano. Mesmo assim, os números dão uma idéia da necessidade financeira. Enquanto os esforços de mitigação e adaptação nos países em desenvolvimento irão exigir níveis semelhantes de recursos financeiros. Os recursos atuais, novos e prometidos hoje para medidas de redução ultrapassam os recursos de adaptação em vinte vezes. Recursos para adaptação deveriam, portanto, constituir uma prioridade em Poznan, junto com o reconhecimento de que o financiamento da mitigação terá, paralelamente, de aumentar sua escala. - Princípios de financiamento da adaptação para arrecadação, governança e desembolso de recursos: o financiamento da adaptação deve ser orientado pelos princípios seguintes: o poluidor paga, responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e financiamento além e acima da ODA. Os recursos devem ser gerenciados de forma transparente sob a orientação da COP/MOP. Devem ser sustentáveis, previsíveis e adequados, além de focar nos países e comunidades mais vulneráveis, dando acesso prioritário a SIDS, LDCs e áreas sujeitas a secas e inundações na África. É preciso ter o apoio de um sistema de financiamento bastante expandido, baseado na geração de mecanismos que estejam de acordo com princípios chaves, como contrapartida, previsibilidade, sustentabilidade, adequação, responsabilidades e capacidades comuns, porém diferenciadas. Isso deve ser acompanhado de uma estrutura de governança equitativa e nãofragmentada, com desembolsos pragmáticos e estratégicos, inclusive um mecanismo internacional de seguro. A futura arquitetura de financiamento deve estar ligada a um mecanismo de compartilhamento do ônus, que defina quanto ou que partes devem ser contribuídas pelos países (baseado, por exemplo, em indicadores de responsabilidade e de capacidade). A concessão de financiamento para adaptação deve se basear nas necessidades identificadas em nível nacional e subnacional, com ênfase naqueles que são vulneráveis às mudanças climáticas. - Fontes de financiamento: a urgência, assim como os limites do futuro financiamento do carbono como a principal fonte, requer uma combinação de políticas e de mecanismos de financiamento, onde os mercados de carbono 14 desempenham um papel importante, mas, provavelmente, não sejam capazes de fornecer toda a escala. A proposta da Noruega de fazer um leilão AAUs com fluxo contínuo por meio de mecanismos de financiamento para os países em desenvolvimento enfrentarem as necessidades de adaptação, energia e mitigação de REDD é uma opção atraente que pode resultar numa grande escala de financiamento do clima. Adicionalmente, a questão de arrecadar fundos de atividades setoriais, tais como os setores de navegação e aviação, deve ser mais explorada, conforme sugerido em diferentes propostas de Tuvalu, Índia e outros países. - Recursos dentro e fora da UNFCCC: nos últimos dois anos foi observado um grande crescimento de recursos novos e prometidos para a mitigação nos países em desenvolvimento. Hoje existem mais recursos para o clima fora do sistema da ONU do que dentro dele (sem contar o MDL). Essa situação cria um risco de falta de coerência entre a orientação política e os financiamentos, o que poderia enfraquecer o processo da ONU. Claramente, a arquitetura da UNFCCC precisa arrecadar e movimentar grandes quantidades de recursos financeiros. Princípios são necessários para abordar o papel da UNFCCC frente aos fundos públicos e privados fora do acordo da ONU. 6. Cooperação Tecnológica Até agora, só o G77 e a China desenvolveram propostas adequadas para um mecanismo tecnológico. Um aspecto chave disso é o estabelecimento de um “Fundo Multilateral de Tecnologia do Clima” para financiar o desenvolvimento e a difusão, inclusive a transferência, de tecnologias para os países em desenvolvimento. Apesar do crescente desenvolvimento baixo em carbono, a tecnologia eficiente e sustentável fica em escala e velocidade muito aquém do necessário, embora seja cada vez mais usada. Uma abordagem de aumento seria dificilmente aceitável no acordo de Copenhague. Portanto, a Rede WWF conclama os países em Poznan para acordarem um entendimento compartilhado para uma real cooperação global em tecnologias climáticas. As barreiras fundamentais para uma expansão acelerada das tecnologias mais limpas muitas vezes não são apenas financeiras, mas sim políticas, educacionais e de infra-estrutura, incluindo os subsídios para tecnologias em vigor, convencionais e de elevada emissão. Ao analisar o sucesso do fundo do Protocolo de Montreal como um modelo para o clima, a Rede WWF propõe organizar os futuros esforços tecnológicos no âmbito da UNFCCC por meio de uma série de Programas de Ação Tecnológica, como parte do mecanismo tecnológico da UNFCCC: esses programas durariam um período de cinco anos e ofereceriam metas claras. Seriam criados cerca de 20 programas desse tipo para apoiar as várias tecnologias de adaptação e mitigação que precisam de desenvolvimento e aplicação, inclusive várias tecnologias de energia renovável, sistemas de alarme precoce, eletrodomésticos e prédios eficientes do ponto de vista energético, economia de energia em prédios e processos industriais com eficiência energética em setores como o de cimento. 15 • Utilizar os programas de ação como uma maneira de aumentar a escala e estruturar a cooperação tecnológica global possibilita dividir o desafio tecnológico em partes fáceis de administrar; permite, assim, selecionar as ferramentas mais apropriadas para as diversas tecnologias. Os instrumentos necessários para intensificar o uso de uma determinada tecnologia dependem do ponto do ciclo tecnológico em que ela se encontra. • Um aspecto principal dos programas de ação tecnológica deve ser que os insumos/recursos disponíveis sejam previsíveis. As condições para participação nos programas também deve ser definida de forma precisa. • Ao criar um mecanismo tecnológico que inclua programas de ação tecnológica para um conjunto de tecnologias de adaptação e redução, a UNFCCC estaria enviando sinais claros para o setor privado, as instituições de pesquisa e os cidadãos do mundo que buscam soluções para os problemas climáticos. • Os programas de ação deveriam financiar as atividades dos países em desenvolvimento, mas também deveriam servir de mecanismo de coordenação das atividades relacionadas às várias tecnologias nos países desenvolvidos, inclusive a cooperação em R&D, padrões e regulamentação governamental. Os programas de ação tecnológica seriam um aspecto chave do mecanismo tecnológico da UNFCCC. Outras questões teriam quer ser abordadas, tais como a questão das patentes, a ligação com o mecanismo financeiro, bem como as ações e planos de mitigação, criando condições para o meio ambiente. 7. Inclusão das emissões marítimas e aéreas no acordo de Copenhague As emissões dos setores internacionais de aviação e navegação marítima (chamadas de "emissões da casamata”) foram omitidas das metas obrigatórias de redução de emissões do Protocolo de Quioto; em vez disso, elas são relatadas como ‘itens de memória’ em inventários nacionais. O Artigo 2.2 conclama as partes do Anexo I a ‘perseguir a limitação ou redução’ de GEEs desses setores, trabalhando por meio da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) e da Organização Marítima Internacional (IMO). As emissões combinadas desses dois setores chegam a mais de 1.350 MtCO2 ao ano – isso é mais do que as emissões do quinto maior emissor do mundo, que é o Japão. É fundamental que tais fontes significativas de emissões sejam incluídas num acordo abrangente de mudanças climáticas globais em Copenhague – desde 1997, as emissões aumentaram consideravelmente e sem nenhum mecanismo para reduzir ou compensar esse crescimento. É claro que a IMO e a ICAO não serão capazes de realizar nada, agora, para a COP 15 em Copenhague, além de propostas tecnológicas e operacionais para melhorar a eficiência, e que tais medidas não serão suficientes para sobrepujar o crescimento previsto. Isto é duplamente decepcionante, dadas as numerosas propostas setoriais para lidar com a aviação e a navegação (como, por exemplo, os esquemas comerciais), que não apenas atingiriam os objetivos de redução como também 16 poderiam gerar rendas substanciais para financiar a adaptação e o desenvolvimento de baixo carbono nos países em desenvolvimento. Atualmente, as partes não têm incentivos para introduzir tais medidas e tampouco têm obrigações de reduzir as “emissões de casamata”. Se a COP15 simplesmente reiterar os princípios de que tais emissões deverão ser enfrentadas no âmbito da IMO e da ICAO, pode-se esperar mais uma década de inação por parte daqueles órgãos. Ambos os setores precisam ser levados a participar do acordo de Copenhague. Sua inclusão é vital para controlar o rápido crescimento das emissões do transporte internacional e oferecer a oportunidade de levantar fundos adicionais para a proteção do clima: a) Aviação: A Rede WWF recomenda que a UNFCCC coloque as emissões da aviação internacional no âmbito dos totais nacionais das partes do Anexo I e, paralelamente, endosse as políticas e medidas que irão reduzir as emissões nos países desenvolvidos. b) Navegação: no caso da navegação, a Rede WWF acredita que esse setor é especialmente adequado a uma abordagem global (que precisa ser desenhada para respeitar o princípio da CBDR), e que esta abordagem teria potencial para arrecadar fundos substanciais para as mudanças climáticas. Se isto não for obtido até a COP 15 em Copenhague, então é preciso inserir as emissões da navegação no âmbito dos totais nacionais das partes do Anexo 1 para garantir que elas sejam controladas. Nesse caso, seria importante propor alguma forma de abordagem de política setorial para o setor de navegação nos países em desenvolvimento, de forma a assegurar a efetividade ambiental, já que não seria correto, de forma alguma, fazer uma alocação aos países do setor de navegação e isso poderia ter alcance limitado. Discutimos abaixo cada setor e como as emissões podem ser alocadas às Partes do Anexo I – o que deveria ser feito no âmbito do AWG-KP. As opções de políticas setoriais e de financiamento do setor deveriam ser incluídas no sumário das propostas dos Membros, no âmbito da LCA, para serem mais elaboradas em 2009. Aviação As emissões da aviação internacional estão em torno de 500 MtCO2 – é mais do que França, Brasil, Indonésia ou Austrália – e desde 1997 elas aumentaram em cerca de 50%. É correto incluir tais emissões nos totais nacionais das partes do Anexo I, já que o método mais sensível é, de fato, a medição conforme as vendas de combustível da “casamata” (conforme estabelecido nas diretrizes IPCC para relatar ‘itens de memória’). Um esquema global de comércio de emissões para a aviação tem o endosso da União Européia. Algumas das Partes do Anexo I também endossam isso, embora em alguns casos esse apoio seja compreendido mais como uma oposição retórica ao desenvolvimento de um esquema regional da UE do que um entusiasmo pela ação global. Esta é a atitude prevalente na ICAO, onde não tem havido discussão substancial sobre um esquema global de comércio. 17 Navegação As emissões da navegação internacional ficam em torno de 850 MtCO2 – praticamente igual às da Alemanha e maior do que Canadá ou Reino Unido – e desde 1997 elas cresceram em cerca de 50%. A inclusão das emissões da navegação nos totais nacionais é um procedimento menos correto do que no caso da aviação. No entanto, a alocação às Partes do Anexo I poderia ser feita baseada nas emissões dos navios que navegam para os portos no território de cada uma das Partes, com o princípio de que o importador gera a demanda e, portanto, tem a responsabilidade pelas emissões relacionadas ao transporte. Uma forma alternativa de estabelecer as emissões da Parte seria pelo montante que lhe pertence da carga importada. A primeira opção de alocação, em especial, implicaria o risco de ter uma de parte relativamente elevada de vazamento. Um sistema que inclua os totais nacionais de A1 não cobre todas as emissões do setor (e a proporção irá diminuir se houver um vazamento substancial de carbono). Para ser eficaz, o sistema teria que ser acompanhado de políticas e medidas setoriais para reduzir as emissões nos países em desenvolvimento. Dadas essas complexidades, a opção de redução mais atraente para o setor é uma abordagem global. Segundo demonstrado em estudos da Rede WWF, um esquema global poderia ser desenhado de forma a respeitar a CBDR mediante a redistribuição das rendas geradas (embora, até agora, muitas Partes dos países em desenvolvimento não estejam dispostas a aceitar essa interpretação da “compensação” do princípio da CBDR). Vários esquemas globais de comércio, coleta de taxas e sistemas híbridos de coleta/comércio para o setor de navegação têm sido desenvolvidos na IMO. Assim, é decepcionante que as diferenças de opinião sobre o alcance da sua aplicação ainda não tenham sido resolvidas entre as Partes do Anexo I e não-Anexo I (e não podem agora ser resolvidas antes da COP 15, devido aos procedimentos da IMO). A Rede WWF continuará a examinar com as Partes como o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas e as respectivas capacidades pode ser respeitado em cada setor, e como podem ser eliminados os impactos adversos nas Partes dos países em desenvolvimento mais vulneráveis. Para mais detalhes sobre os esquemas de navegação e seus impactos, veja o briefing específico da Rede WWF sobre navegação no site www.panda.org. Conclusão: uma nova liderança entre as partes é fundamental para o sucesso de Poznan e depois A Rede WWF conclama todas as nações a demonstrarem coragem, visão e liderança para superar os obstáculos ao êxito das negociações. Nos últimos meses, diversos países demonstraram o tipo certo de coragem política em sua disposição de aproveitar as oportunidades ensejadas por essas negociações internacionais. Até agora, os países em desenvolvimento assumiram e demonstraram a liderança, oferecendo idéias inovadoras ou adotando ações climáticas no âmbito doméstico. É hora de os países industrializados do mundo fazerem o mesmo. 18 A África do Sul desenvolveu uma visão ambiciosa para um plano de desenvolvimento baixo em carbono e está trabalhando para adotar políticas que, entre outras coisas, irão prover uma base para aplicar os mecanismos internacionais e ajudar a financiar uma trajetória de emissões com ‘pico, planalto e declínio’. O México propôs um novo esquema global para redirecionar fundos, enquanto trabalha com abordagens setoriais e esquemas de comércio de emissões no âmbito doméstico. A Coréia do Sul, um país industrializado há pouco tempo, deve anunciar, no início do próximo ano, uma meta de emissão para 2020; a Rede WWF espera que essa meta seja atingida com sua responsabilidade e capacidade. A Noruega focou na necessidade de financiamento de larga escala por parte do mundo industrializado mediante a proposta sobre o leilão da AAU. O G77/China e seus membros, tais como países africanos e as pequenas ilhas, apresentam conceitos e propostas de adaptação, tecnologia, financiamento e mitigação. O desenvolvimento de baixo carbono e a segurança energética são temas de debates na China, com seu recente posicionamento sobre mudanças climáticas. China, Brasil e Índia, entre vários outros países em desenvolvimento, deram uma indicação de que o clima já constitui uma prioridade política séria naquelas nações. Recentemente, as Filipinas concordaram que as fontes renováveis devem representar 50% de todo o consumo energético primário até 2020 – hoje é o caso em até cerca de 20%. Além disso, no que se refere a REDD, Brasil, Indonésia e Paraguai recentemente anunciaram metas e objetivos de longo alcance para diminuir substancialmente o desmatamento até 2020. A Rede WWF reconhece que alguns dos esquemas de baixo carbono, em alguns países em desenvolvimento, possuem falhas. A tarefa de mitigação de emissões representa um desafio político enorme e será preciso muito mais. No entanto, continua muito anêmico o debate sobre clima em muitas das nações industrializadas consideradas chave para essa questão: - Os EUA ainda têm que embarcar no esquema climático sob o novo Presidente. A Rede WWF espera que a decisão do Presidente eleito, de que sua administração irá priorizar as mudanças climáticas, leve a um apoio do regime internacional do clima por meio de ações nacionais fortes e a um apoio do mundo em desenvolvimento. - O Japão esconde sua falta de ação atrás de um resultado fraco do G8 e ainda não propôs uma meta adequada para 2020. A Austrália está confiante de que vai anunciar uma meta de redução para 2020. Será que eles terão coragem de aceitar o que diz a ciência e fazer sua parte justa na variação de -25 a -40% no IPCC até 2020? - A União Européia, que há apenas um ano era a brilhante líder das negociações, agora luta para adotar uma política climática consistente. A decisão européia acontecerá no pacote de clima e energia da UE, na mesma época em que se realiza a COP de Poznan. Esta é uma oportunidade para a UE mostrar ao mundo que, depois de tudo, ela é uma parceira séria nas questões 19 climáticas. Amarrada no pacote da UE está a questão sobre se a Europa está pronta para se comprometer com um apoio financeiro concreto para o Sul, independentemente das metas de redução e das políticas para atingí-las. - A Polônia parece estar especialmente em conflito, pois as preocupações nacionais colidem com seu papel internacional na COP14. Enquanto o Ministro do Meio Ambiente da Polônia, Maciej Nowicki, na qualidade de presidente da COP, tenta concluir com êxito a etapa de Poznan, o governo polonês barra elementos chaves para um pacote energético e climático da UE, argumentando que, sendo um país de base carvoeira, a Polônia tem um nível de necessidade e capacidade comparável ao da China. Os olhos do mundo se voltam para a Polônia durante a COP14 e a Rede WWF conclama o primeiro ministro polonês, Donald Tusk, a deixar de lado as preocupações paroquiais e agarrar esse momento histórico para impulsionar sua nação de forma decisiva na liderança climática global. 20