LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Leite in natura Entende-se por leite, sem outra especificação, o produto oriundo da ordenha completa e ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem alimentadas e descansadas. O leite de outros animais deve denominar-se segundo a espécie de que proceda. Líquido branco opaco constituído por uma dispersão mista em água, contendo substâncias em solução perfeita. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses O leite é utilizado como matéria prima em diversos produtos alimentícios Processo Desnatação do leite Coagulação do leite Coagulação do soro do leite Desidratação do leite Fermentação do leite Aromatização do leite Deslactosação do leite Produtos alimentícios Creme de leite Manteiga Queijos Ricota Leite concentrado Leite evaporado Leite condensado Doce de leite Leite em pó, Leite em pó modificado Farinha Láctea Coalhada Iogurte Leite acidófilo Leite aromatizado Leite deslactosado LEITE E DERIVADOS Classificação do leite fluido Profa. Flávia Meneses a) Quanto à obtenção higiênica Tipo A: ser produzido em granja leiteira; ser pasteurizado e empacotado na própria granja; ser distribuído ao consumo no máximo 12 horas após a ordenha; atender às características físicas, químicas e bacteriológicas do padrão*; ser integral. Tipo B: ser produzido em estábulo leiteiro; é facultativo o beneficiamento no estábulo; ser distribuído ao consumo no máximo 24 horas após a ordenha; atender às características físicas, químicas e bacteriológicas do padrão*; ser integral. Tipo C: ser produzido em fazenda leiteira; ser beneficiado na usina, chegar na usina em até 12 horas do dia da ordenha; ser distribuído ao consumo no máximo em 24 horas após a ordenha; dar entrada na usina em seu estado integral. * Padrões Microbiológicos da RDC n12 de 02/01/2001 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Classificação do leite fluido (continuação) b) Quanto ao teor de gordura Leite Tipo A e Tipo B: integral, teor de gordura do momento da ordenha; Leite Tipo C: padronizado, teor de gordura mínimo 3%; Leite Magro: 2 a 3%; Leite Desnatado: sem gordura. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Classificação do leite fluido (continuação) c) Quanto ao processamento térmico Pasteurizado: os leites tipo A, B e C são pasteurizados pelo processo HTST (alta temperatura em curto tempo) a 72-75C/15-20seg; o leite destinado à fabricação de produtos lácteos é pasteurizado à 65 C/10-20min; a pasteurização é seguida de resfriamento (2-5C) e envase; Esterilizado: o leite é esterilizado pelo processo UHT (temperatura ultra alta) a 130-150C/2-4seg; imediatamente após é resfriado a 32 C e embalado. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Classificação dos tipos de leite conforme a legislação brasileira Tipo A B C Carga bacteriana col/mL (leite cru) Carga bacteriana col/mL (pasteurizado) Coliformes 10.000 500.000 Sem limites 5.000 40.000 150.000 Ausência em 1mL Integral Tolerância em 0,5mL Integral Tolerância em 0,2mL 3,0 Acidez (Dornic) 15-18 15-18 15-18 Densidade (g/L) 1.028-1.033 1.028-1.033 1.028-1.035 Crioscopia (H) -0.54 a –0.56 -0.54 a –0.56 -0.53 a –0.56 Alizarol (68GL) Normal Normal Normal Lactose (% m/V) 4,3 4,3 4,3 Fosfatase + + + Peroxidase + + Matéria gorda (% m/V) LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química o leite é uma emulsão, ou seja, uma solução coloidal onde partículas em suspensão estão dispersas em um solvente Onde: Partículas em suspensão micelas de gorduras e proteínas Responsáveis pela consistência e cor do leite ( a cor branca do leite ocorre pela dispersão e absorção da luz pelos glóbulos de gorduras e micelas protéicas) Solvente fase aquosa que contém carboidratos, minerais e vitaminas Cor amarela (pela presença dos carotenóides) LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química Na homogeneização do produto, a cor amarelada é mascarada pela cor branca em função da maior concentração de gordura e proteínas. Proteínas do leite podem ser classificadas em dois grandes grupos: caseína (sofre precipitação em pH 4,6 coagula e se separa das demais – quebra da emulsão): é uma fosfoproteína e corresponde a 80% das proteínas do leite - -caseína (50%), -caseína (30%), caseína (15%) e -caseína (5%) não é afetada pela pasteurização, permanecendo estável quando há acidificação do leite desestruturação das micelas e formação de coágulo (utilizada para produção de queijos) proteínas do soro - -lactoalbumina, -lactoglobulina, enzimas e imunoglobulinas (não sofrem tal precipitação) LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química (continuação) Carboidratos do leite a lactose é o principal carboidrato do leite, representando o constituinte sólido galactose glicose predominante e menos variável. a lactose tem um leve sabor adocicado, em comparação com outros açúcares, o que torna mais aceitável as dietas lácteas pela ação de ácidos, sob calor, a hidrólise da lactose pode ser produzida pela enzima lactase, obtida industrialmente a partir de uma levedura (Tórula cremoris) e seu emprego é preconizado nas indústrias de laticínios. O leite previamente hidrolizado pode ser consumido por pessoas intolerantes à lactose, visto que a intolerância à lactose deve-se a dificuldade da pessoa digerir a lactose. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química (continuação) Carboidratos do leite acima de 120ºC, a lactose se transforma em ácido lático que então desestabiliza as proteínas do leite, precipitando-as. em altas temperaturas (110 - 150ºC) e prolongados períodos de tempo (10-20 minutos) ela se degrada, escurecendo (caramelização) o leite e dando-lhe um sabor cozido. sob aquecimento, reage com as proteínas do leite ou soro, escurecendo-as ( reações de Maillard) redução do valor nutricional proporcional ao aquecimento LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química (continuação) Lipídios do leite basicamente compostos de triacilgliceróis (95-98%) os glóbulos de gordura estão envoltos por uma membrana constituída de fosfolipídios e uma camada dupla de proteína permite a suspensão dos glóbulos de gordura, já que a camada protéica tem cadeia polar (facilitando sua interação com a fração aquosa) LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química (continuação) Vitaminas todas as vitaminas conhecidas. vitaminas A, D, E estão associadas aos glóbulos de gordura (concentração das lipossolúveis depende da alimentação do gado) vitaminas hidrossolúveis estão na fase aquosa do leite. vitamina K: semelhante às hidrossolúveis, é sintetizada no sistema digestivo dos ruminantes. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Composição química (continuação) Minerais teores consideráveis de Cl, P, K, Na, Ca, Mg baixos teores de Fe, Al, Br, Zn e Mn, formando sais orgânicos e inorgânicos. A associação entre os sais e as proteínas: fator determinante para a estabilidade das caseínas ante diferentes agentes desnaturantes. O fosfato de cálcio, particularmente, faz parte da estrutura das micelas de caseína. LEITE E DERIVADOS Variações na composição do leite Profa. Flávia Meneses origem genética: espécie, raça ou indivíduo; origem fisiológica: estágio de lactação, idade, saúde, alimentação; fraudes e adulterações Controle de qualidade Fraude por aguagem é uma das fraudes mais comuns neste alimento técnicas que analisam este tipo de fraude são: Índice crioscópico: está relacionado ao ponto de congelamento do leite. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Fraude por aguagem Índice crioscópico (máx –0,512C) é determinado, principalmente, pelos elementos solúveis do leite, em especial a lactose na composição do leite, o teor de água é bem alto (~88%), mas pela presença dos outros nutrientes o ponto de congelamento é diferente do da água (0C) quando há adição de água: ponto de congelamento, tendendo ao ponto de congelamento da água quando há adição de substâncias estranhas (p.ex. conservantes): ponto de congelamento. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Fraude por aguagem Índice crioscópico pode ser expressa em graus Hortvet (H), e para conversão entre as escalas C e H, basta utilizar as seguintes fórmulas: C = 0,96418H + 0,00085 H = 1,03711C – 0,00085 apesar de muito usado, estudos indicam que a crioscopia do leite pode sofrer influência da fase de lactação, estação do ano, clima, latitute, alimentação e raça. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Fraude por aguagem Densidade: representa um relação de massa/volume. determinada por dois grupos de substâncias: de um lado a concentração de elementos em solução e suspensão; de outro lado o percentual de gordura varia de 1,023 – 1,040 (a 15C ) quando há adição de água: densidade (os solutos estarão mais diluídos) quando há retirada, parcial ou total, de gordura: densidade LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Fraude por aguagem Densidade: representa massa/volume. um relação de não é muito sensível. Logo, se a amostra apresentar densidade dentro dos parâmetros estabelecidos pela legislação, devem ser feitas provas complementares que garantam a não adição de substâncias ao leite que promovam a correção da densidade, chamadas reconstituintes da densidade. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Reconstituintes da densidade São substâncias adicionadas com o intuito de mascarar a fraude por adição de água. Açúcar Teste: amostra de leite (10mL) + HCl concentrado (1mL) + resorcina 0,5% (1mL) -> aquecimento por 5 minutos O HMF é um produto obtido da desidratação da glicose e frutose, em meio ácido e aquecido. A resorcina se complexa com o HMF, formando um complexo de coloração avermelhada. LEITE E DERIVADOS Controle de qualidade (continuação) Profa. Flávia Meneses Reconstituintes da densidade Sal Teste: amostra de leite (10mL) + AgNO3 10% (5mL) + K2CrO4 5% (5mL) -> homogeneizar e observar. O nitrato de prata precipita o cloreto e também o cromato. Em concentração inadequada de cloreto, não haverá nitrato de prato disponível para precipitação do cromato. AgNO3 + NaCl Sol.incolor Sol.incolor 2 AgNO3 + K2CrO4 AgCl + NaNO3 ppt.branco AgCrO4 + 2 KNO3 LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Reconstituintes da densidade Amido Teste: amostra de leite (10mL) -> aquecer a ebulição por 3 minutos -> resfriar -> adicionar 3 gotas de lugol Amido + lugol composto de coloração azulada LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Condições higiênicos-sanitárias O estado higiênico-sanitário do leite está relacionado ao processo fermentativo. A presença do número de bactérias superior ao preconizado normalmente está relacionado ao aumento da acidez do produto em virtude da fermentação da lactose com produção de ácido lático. É comum a fraude por adição de água oxigenada no leite in natura, visando o controle do crescimento bacteriano. Esta fraude é detectada no leite antes do processamento térmico, pois com o calor a água oxigenada é degradada e não mais detectada. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Condições higiênicos-sanitárias Teor de acidez (0,14 - 0,18g ácido lático%) acidez titulável com NaOH, frente ao indicador de fenolftaleína também pode ser expressa em Dornic, que corresponde a 1mg de ácido lático em 10mL de leite 1 Dornic = 1mg ácido lático/10mL de leite quanto > acidez > a fermentação da lactose por bactérias mesófilas (pode indicar qualidade microbiológica inadequada da matéria-prima) LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Condições higiênicos-sanitárias Estabilidade em Alizarol (teste qualitativo) Método rápido para estimar a estabilidade das proteínas do leite durante o processamento térmico, uma vez que o leite com baixa qualidade higiênica durante a sua produção pode apresentar pH pela fermentação da lactose em ácido lático, resultando em > instabilidade da proteína. Teste: parte iguais da solução de alizarol e de leite fluido em tubo de ensaio -> agitar e observar coloração e aspecto. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Condições higiênicos-sanitárias Estabilidade em Alizarol Leite com resposta normal (boa resistência): coloração vermelho tijolo. Aspecto das paredes do tubo sem grumos ou com ligeira precipitação, com poucos grumos muito finos. Leite ácido: tendência a um esmaecimento da cor, passando para uma tonalidade entre o marrom claro e amarelo. Na acidez elevada, a coloração é amarela, com coagulação forte. Leite com reação alcalina (mastite, neutralizantes): coloração lilás a violeta. presença de LEITE E DERIVADOS Controle de qualidade (continuação) Profa. Flávia Meneses Condições higiênicos-sanitárias Peroxidase É uma enzima presente naturalmente no leite que, após processo de pasteurização adequado, deve estar ausente. Teste: amostra de leite (10mL) -> aquecer a 45C por 5 minutos para ativação da enzima. Adicionar solução hidroalcoólica de guaiacol a 1% (2mL) + 3 gotas de peróxido de hidrogênio a 3%. Aguardar 5 minutos e observar. A peroxidase, ao hidrolisar o peróxido de hidrogênio, libera oxigênio, que transforma o guaiacol em sua forma corada LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Condições higiênicos-sanitárias Redutase ou Teste de Redução do Azul de Metileno (TRAM) Aplicado ao leite podendo substituir a contagem padrão de placas. É avaliado o tempo de descoramento do indicador azul de metileno pela ação bacteriana. A legislação preconiza o TRAM mínimo de 90 minutos. Teste: amostra de leite (10mL) + solução de azul de metileno 0,03% (0,5mL). Observar o tempo de descoramento. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Controle de qualidade (continuação) Adição de conservantes A adição de qualquer substância que não faça parte da composição original do leite é considerada uma fraude. A legislação não permite uso de conservantes, sendo os tratamentos térmicos e embalagens adequadas propícios para conservação do produto. Formol: Teste: amostra de leite (10mL) + solução de fluoroglucina 1% (2mL) + NaOH a 10% (1mL). Agitar e observar. O formol, em meio alcalino, é complexado pela fluoroglucina, formando composto de cor salmão. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Características organolépticas Sabor levemente adocicado e um flavor ligeiramente aromático; livres de sabores e adores estanhos. Depende do equilíbrio entre o teor de lactose e cloreto de sódio. Sensação macia ou áspera é em função do equilíbrio entre os teores de gorduras e proteínas. LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Características organolépticas Aroma: típico, bastante suave. Cor: branco-amarelada opaca, devido à dispersão da luz pelas micelas de caseína, e à reflexão da luz pelos glóbulos de gordura. Podendo apresentar-se levemente amarelada devido a pigmentos carotenóides lipossolúveis. Aspecto: líquido, homogêneo, formando uma camada de gordura na superfície quando deixado em repouso. Não pode conter substâncias estranhas, devendo estar sempre limpo. LEITE E DERIVADOS Derivados do leite Profa. Flávia Meneses Creme: rico em gordura resultado da desnatação do leite Manteiga: produto resultante da agitação do creme de leite fresco ou fermentado pela adição de fermento láctico selecionado ou sal Queijo: obtido do leite integral padronizado, magro ou desnatado, coagulado natural ou artificialmente, adicionado ou não de substâncias complementares permitidas Leite concentrado: desidratação parcial a vácuo do leite fluido seguida de refrigeração LEITE E DERIVADOS Profa. Flávia Meneses Derivados do leite Leite desidratado: desidratação parcial ou total, como por exemplo,leite em pó, leite em pó modificado, leite em pó acidificado e leite em pó maltado e farinhas lácteas Leite evaporado ou condensado sem açúcar: desidratação parcial a vácuo de leite próprio para o consumo , seguido de homogeneização, enlatamento e esterilização. Doce de leite: cocção da mistura de leite e açúcar adicionada ou não de aromatizantes até a concentração conveniente e parcial caramelização.