1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS CENTRO DE ENGENHARIAS NÚCLEO DE MATEMÁTICA APLICADA EQUAÇÕES DIFERENCIAIS Professor: Guilherme J. Weymar APLICAÇÕES 1. Cabos Suspensos O problema que abordaremos é o da determinação da forma tomada por um cabo flexı́vel e inextensı́vel, suspenso em dois pontos, e sujeito a seu próprio peso. A Figura (1) apresenta duas aplicações deste problema: Fios telefônicos suspensos entre dois postes e os cabos suspensos em uma ponte. O conceito de flexı́vel neste modelo, Figura 1: Cabos suspensos significa que a tensão no cabo é sempre no sentido da tangente. Consideremos um sistema de coordenadas cartesianas com origem no ponto mais baixo da curva e eixo y coincidente com a vertical, conforme a figura abaixo. Será considerado que o trecho OP do cabo está em equilı́brio, assim: H + T + V = 0. Onde H é a tensão do cabo em seu ponto mais baixo, T é a tensão no P = (x, y) e V é o peso 2 do trecho OP do cabo: V = αs, α é o peso por unidade de comprimento e s é o comprimento do arco OP. Projetando essa equação de equilı́brio sobre os eixos coordenados XY, obtemos: • Balanço das forças na direção do eixo X: −H + T cos(θ) = 0 (1) • Balanço das forças na direção do eixo Y: −V + T sin(θ) = 0 (2) Dividindo a equação (2) por (1), temos: α s (3) H Note que α e H são constantes, logo podemos substituir: c = α/H, e que tan(θ) = y′ , assim a equação (3) fica: y′ = cs (4) tan(θ) = + Derivando a equação (4) em relação à ”x”, obtemos: ds (5) dx Lembre-se de que o cálculo do comprimento de arco de uma curva plana em certo intervalo é: √ √ ∫ b [ dy ]2 [ dy ]2 ds s= 1+ dx ↔ = 1+ (6) dx dx dx a y′′ = c Concluimos que y(x) deve satisfazer à equação diferencial: √ ′′ y = c 1 + [y′ ]2 (7) Para resolver a E.D. (7), façamos uma troca de variável p = y′ , assim obtemos a seguinte E.D. 1a ordem separável: ∫ ∫ √ dp ′ p = c 1 + p2 −→ = cdx (8) √ 1 + p2 Para calcular a integral indefinida do lado esquerdo da equação (8) façamos a seguinte substituição de variável: p = cot(t), dp = − csc2 (t)dt: ∫ ∫ ∫ ( ) ) (√ dp − csc2 (t)dt t dt = = − ln tan p2 + 1 − p (9) =− = − ln √ √ sin(t) 2 1 + p2 1 + cot2 (t) Portanto as soluções da equação (8): (√ ) − ln p2 + 1 − p = cx + c1 (10) Substituindo p = y′ , chegamos na seguinte equação: ) (√ (y′ )2 + 1 − y′ = cx + c1 − ln (11) Lembrando as propriedades das funções hiperbólicas, concluimos que as soluções da equação (11) são da forma: y(x) = c−1 cosh(cx) + c1 (12) E com y(0) = 0 concluı́mos que: c1 = −c−1 , assim y(x) = c−1 (cosh(cx) − 1) 3 2. Trajetórias Ortogonais: Lembre-se de que a solução geral da equação (13) representa uma famı́lia de curvas que satisfazem a equação diferencial. dy = f (x, y) dx (13) As curvas de uma famı́lia G(x, y, c1 ) dizem-se ortogonais às curvas da famı́lia H(x, y, c2 ), se e somente se cada curva de uma dada famı́lia é intersectada por uma curva qualquer da outra famı́lia, sendo que no ponto de intersecção as respectivas tangentes formam um ângulo reto, conforme mostra a figura (2). Figura 2: Trajetórias Ortogonais Por exemplo, no estudo de geometria analı́tica, de que duas retas R1 e R2 não paralelas aos eixos coordenados são perpendiculares se, e somente se, seus respectivos coeficientes angulares satisfazem a relação m1 ∗ m2 = −1. [R1 : y = m1 x + b1 R2 : y = m2 x + b2 ]. Exemplo 1: Considere as curvas C1 : y = x3 e C2 : x2 + 3y2 = 4, mostre que são curvas ortogonais nos pontos de intersecção. Solução: Pontos de Intersecção: x2 + 3x6 = 4 7→ x = 1 x = −1. Pontos: (1, 1) e (−1, −1) dy dy dy dy 2 2 = = 3x ⇒ = 3x = =3 C1 = dx dx dx x=1 dx x=−1 dy dy dy dy x 1 2 = C2 = =− ⇒ = 3x = =− dx 3y dx dx x=1 dx x=−1 3 Assim: (1, 1) e (−1, −1), temos: ( dy ) dx C1 × ( dy ) dx C2 = −1 Definição Trajetórias Ortogonais: Quando todas as curvas de uma famı́lia F(x, y, c1 ) = 0 interceptam ortogonalmente todas as curvas de outra famı́lia G(x, y, c2 ) = 0, então dizemos que as famı́lias são trajetórias ortogonais uma da outra. 4 Modo Geral: Para determinar as trajetórias ortogonais de uma dada famı́lia de curvas, inicialmente encontramos a equação diferencial que descreve a famı́lia: dy = f (x, y) dx A famı́lia ortogonal é conjunto de funções que satisfazem a seguinte equação diferencial: dy 1 =− dx f (x, y) ( ) , assim garantimos que: dy dx C1 × ( ) dy dx C2 = −1 Exemplo 2: Encontre as trajetórias ortogonais da famı́lia das hipérboles, y= c1 x Solução: Note que: dy dy y c1 = − 2 −→ c1 = yx −→ =− dx x dx x Para encontrar a famı́lia de curvas ortogonais a y = Diferencial: c1 , x dy x = −→ y2 − x2 = c2 dx y Exemplo 3: Encontre as trajetórias ortogonais de: y= c1 x 1+x Solução: Derivando a função em relação à ”x”: dy c1 = dx (1 + x)2 deve satisfazer a seguinte Equação 5 onde c1 = y(x+1) , x assim dy y = = f (x, y) dx x(1 + x) Para encontrar as trajetórias ortogonais devemos resolver a equação diferencial: dy x(1 + x) 1 =− =− dx f (x, y) y Resolvendo a E.D. por separação de variáveis, temos: 3y2 + 3x2 + 2x3 = c2 Referências: FIGUEIREDO, D. G., NEVES, A. F. Equações Diferenciais Aplicadas. Rio de Janeiro: IMPA,2012. ZILL, D. G., CULLEN, M. R. Equações Diferenciais, volume 1. São Paulo: Pearson Makron Books, 2007. ZILL, D. G., CULLEN, M. R. Matemática Avançada para Engenharia Equações diferenciais elementares e transformada de Laplace Volume 1. Porto Alegre: Bookman, 2009.