Aluno(a): online – senha – comunidade: Considerações sobre EAD a partir de experiências como aluna online Andréa Ferreira Lago* Esta escrita tem por objetivo contribuir para a discussão da Educação à Distância através da Internet, numa perspectiva do(a) aluno(a) online, expondo, de forma nãolinear, suas expectativas e impressões sobre essa estratégia de ensino. Com o olhar de aluna, e também de professora interessada nas questões relativas à inserção das tecnologias digitais na educação, mobilizada pelo desejo de experimentar esses novos cenários virtuais, iniciei a minha participação em programas de estudo via Internet. Nesse navegar pelos ambientes, suas metodologias e interações, fui observando a emergência de problemas e necessidades do(a)s aluno(a)s frente a esse novo espaço. Algumas problemáticas são largamente discutidas, embora com pouco consenso, a exemplo da questão da avaliação à distância, da certificação e da aceitação dos profissionais com formação em EAD online, da legislação e do cadastro de cursos online. Tudo parece ser ainda muito novo, embora seja urgente cuidar destas questões, pois o crescimento da Ead online é exponencial, sendo, portanto, fundamental refletir sobre suas aplicações e características para que se possa contribuir com experiências futuras e apropriações cada vez mais produtivas para o campo educacional. Tentarei apontar algumas necessidades e frustrações do(a) aluno(a) em relação aos recursos disponíveis em ambientes virtuais de aprendizagem, o papel fundamental do professor(a) e outros aspectos que geram uma comunidade podendo proporcionar o efetivo processo de aprendizagem. O texto apresenta, dentre outras experiências, um curso de pós-graduação lato sensu, em que foram constituídas várias redes de sociabilidade e de aprendizagem, de amizades mais duradouras a projetos profissionais integrados, mesmo que espacialmente distantes. Estes foram frutos das possibilidades expressas nas mediações com os computadores e com a Internet. * Pedagoga, Mestre em Ciência da Informação – UFBA, [email protected] O curso O curso em questão foi estruturado através de onze disciplinas que foram realizadas no período aproximado de nove meses e com um prazo maior para conclusão e entrega da monografia, tendo a mediação de quinze professores e três monitores. Os alunos estavam divididos em dois grupos. Em um grupo estavam os profissionais que tinham experiência em educação, atuando no ensino fundamental, médio e superior, ou em outros cargos administrativos. O outro grupo era formado por profissionais de áreas distintas com interesse específico em conhecer e interagir com a mediação das tecnologias digitais para aplicação na educação, tema do curso. Tratava-se de uma turma bastante heterogênea, com sujeitos de diferentes faixas etárias, situados em espaços territoriais que iam do Sul ao Nordeste do Brasil, da Argentina ao Chile. As aulas ministradas foram em sua grande maioria à distância, através de recursos síncronos e assíncronos, exigindo um tempo diário de quatro horas para dedicação as atividades do curso. Houve também, três encontros presenciais, objetivando introduzir as disciplinas, efetivar as avaliações presenciais, a socialização das atividades e a integração do grupo. No dia-a-dia do curso, era fundamental estar conectado na Internet, pois participávamos de no mínimo uma lista de discussão para cada disciplina, e a garantia do processo de entendimento e interação era estar acompanhando e quando possível intervindo nas discussões. Era um ritmo frenético, entre ingressar no ambiente gerenciador do curso e as atividades de responder refletidamente sobre as questões demandadas nas listas de discussão. Recebíamos cerca de cinqüenta e-mails diariamente, sendo que, no início, estas mensagens tinham o objetivo de orientar a ambientação técnica do processo das aulas. O cotidiano virtual do curso foi marcado por um grande interesse em se inteirar dos temas propostos e interagir uns com os outros, se conhecendo, para se tornar uma comunidade, adquirindo o sentimento de pertencimento a aquele novo locus que se instalava. Aventuras online: experiência como aluna Nos primeiros contatos com o grupo, foram perceptíveis as diferenças culturais, expressadas nos idiomas e na forma de falar. No primeiro encontro presencial, interagimos numa dinâmica de grupo que definiu algumas especificidades de interesse de cada um. Também foram proveitosas as discussões sobre objetivos do curso e conceitos em relação às tecnologias digitais, educação à distância, Internet. Para os organizadores, o objetivo maior era iniciar as pessoas na dinâmica do ambiente, e dirimir as dúvidas técnicas iniciais, além de procedimentos administrativos, como cadastro de nomes e senhas. Existiu uma preocupação com a introdução dos alunos ao processo que iria ser desenvolvido. Acredito que isso foi fundamental para identificar as dificuldades individuais e/ou grupais. Foi também uma tentativa de colocar todos em “pé de igualdade” para o início das atividades. Todavia, é interessante se pontuar que, apesar de quaisquer tentativas de integração e uniformização do grupo, este nunca deixará de apresentar uma série de distinções e desnivelamentos, visto que existe muita subjetividade e conhecimento adquirido na história de vida de cada indivíduo, elementos que não são quantificáveis. Isso se constitui em um dos problemas das avaliações diagnósticas. Ainda iniciando uma experiência em que a rotina de vida passa a ter também horários regulares de leitura e interações na Internet, foram adquiridas algumas habilidades técnicas como: manutenção de arquivos à distância, efetivação de videoconferências, geração de “vídeos caseiros” através de webcams e softwares de compactação. Nesse cotidiano, muitos problemas foram gerados, fruto do fato de que dimensionar e tornar administrável um curso online é pertencer mesmo a Rede, com todas as suas contradições, possibilidades e limites. Recordo-me da frase de Turkle: assim como os instrumentos musicais podem ser extensões da construção do som, os computadores podem ser extensões da construção mental do pensamento (1997, p. 43). E, assim, eu começava a pensar através dos computadores. Os cursos tornaram-me mais próxima, mais íntima da Internet. O fato de estar obrigatoriamente em estado online, (quase stand by) esperando para ser instigada (o que era uma constância) era fundamental. O estar on line ultrapassava os limites do tempo e do espaço, visto que tínhamos acesso à Internet nos vários locais onde transitávamos durante o dia, e nos vários momentos. Hoje, o tempo se constituiu numa categoria de freqüente reflexão nas experiências online. Sabe-se do valor potencial das tecnologias para a transformação das relações dos indivíduos com o espaço e o tempo no momento da sociabilidade e comunicação.Todavia, essa discussão não é problematizada em muitos cursos online, onde a carga de atividades com prazos incompatíveis excedem o tempo reservado para os estudos, sendo motivo de muitas queixas dos alunos. Em alguns casos, seria necessário o dobro do tempo planejado para estar atualizado e acompanhando cognitivamente o processo de aprendizagem objetivado. Acredito que isso ainda é uma questão relevante a ser refletida, para que se dimensionem as atividades programadas nos cursos, para que se possa respeitando o ritmo individual de cada aluno e não simplesmente propor uma aceleração de conteúdos para aprovação e difusão apenas de informação. Uma outra observação interessante, expressa por muitos alunos online, é a falta de uma cultura de disciplina para a realização das atividades propostas pelos cursos à distância. É necessário o esclarecimento de que, embora estejamos em casa ou em outros ambientes, o momento das aulas é o aquele que deve ser reservado para realizar estas atividades, que incluem o trabalho com as tecnologias síncronas e assíncronas, além das leituras e produção intelectual. Em geral, administrar o tempo torna-se uma tarefa complicada, na medida em que estamos online para a comunidade de alunos e professores, com teclados e fones de ouvidos em prontidão, mas também estamos online, fisicamente online, para a família e os movimentos diários de um lar. Mas esta é a habilidade fundamental para aqueles que desejam construir conhecimentos através de cursos online. Dentro dessa imersão proposta pelo curso, identifico também, como elementos importantes algumas experiências virtuais, que chamo de aventuras, como a incursão em chats, utilizando e experimentando vários avatares,1 em que vivemos sensações 1 Sobre avatar, Arlindo Machado, relata: “Ao entrar num desses ambientes colaborativos, o usuário deve designar-se um nome, um sexo e uma descrição física, que podem tomar diretamente a forma de uma figura (humana ou não) estilizada, um avatar. Alguns “mundos” virtuais destinados aos avatares disponibilizam uma galeria de figuras, onde o usuário pode encontrar a imagem que melhor o represente, assim como pode também editá-la, se for o caso, e utilizá-la como o seu ersatz no ciberespaço”. Em Regimes de Imersão e Modos de Agenciamento. XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Salvador/BA – 1 a 5 Set 2002 de sermos outras pessoas, com características diferentes, com mobilidade de personalidade, em diversos cenários, das florestas amazônicas a escritórios high tech, como num jogo de videogame e/ou computador, jogando em rede com as palavras, num circuito “banhado” a discussões teóricas sobre a interação com essas tecnologias digitais. Outra experiência importante também nesse processo de aprendizagem foi expor nossas produções a partir dos conhecimentos adquiridos nessas interações, através de artigos, CD’s educativos, páginas para Internet, dentre outras. Acho fundamental que essa produção se realize não só no final do curso, mas durante todo o processo, onde a lógica de criação faça parte do cotidiano do(a) aluno(a), de suas reflexões e práticas de trabalho. Não podemos perder de vista a idéia de que a Rede (Internet), com todas as suas teias e nós, suas possibilidades e desafios, é um ambiente propício para ministrar a Educação à Distância. Refletindo sobre a EAD online A Educação à Distância é uma estratégia de ensino para as modalidades de educação, como por exemplo, a educação de jovens e adultos. Dessa forma, muitos cursos estão sendo desenvolvidos para suprir a formação continuada e a autoformação. Como cita Séraphin, a EAD surge em resposta a uma dupla necessidade de trabalhadoras e trabalhadores ligada ao desenvolvimento das TIC: dominar as novas competências no local de trabalho ou em domicílio e ainda: Os aprendizes expressam unanimemente a necessidade de dominar as tecnologias da informação e da comunicação em resposta a uma evolução de sua situação profissional (2002, p. 93). E, com os novos suportes das tecnologias digitais, cada vez mais se proliferam cursos à distância via Internet, contudo havendo uma mixagem e hibridização de mídias e linguagens como em um dos cursos, onde tínhamos o auxílio do CD-ROM, de apostilas impressas, e o efetivo uso da Internet, o que possibilitou mesclar o conteúdo de várias formas. Pensando sobre as ferramentas de um curso online, acredito que a variedade ainda é o fator de destaque: ter à disposição vários tipos de recursos e softwares para acesso, registro e produção do conhecimento torna a aprendizagem mais rica, e ainda, um ponto fundamental, respeita as opções de uso do(a) aluno(a)/usuário(a), a exemplo do ter disponíveis materiais didáticos que possam ser interpretados por vários sistemas operacionais. É a real possibilidade de dar possibilidades de autonomia ao aprendiz, também a partir das escolhas de suas ferramentas para receber e produzir informações. Não significa, e ressalto aqui, que os cursos online devem ter milhões de opções de ferramentas e administrá-las, o que é realmente um trabalho árduo, mas insisto: ter mais possibilidades é ter mais chances de aprendizado. Se, para muitos aluno(a)s, um maior número de ferramentas pode ser pior, e para outros quanto maior a quantidade de opções, melhor, tudo pode ser administrável se estas opções forem disponibilizadas de forma não impositiva. Pode-se ter, num curso online, diversas ferramentas, discursos, possibilidades interativas. Conhecê-las e usá-las será um desafio e uma opção do(a) aluno(a). O objetivo maior é que a cada uso da ferramenta ou software signifique aprendizagem contextualizada e criticada pelo(a) aluno(a). Usar ou não uma ferramenta significa ter argumentos de escolha e potencialmente enriquecimento com seu uso. Na EAD online, alguns aspectos devem ser tratados como pontos importantes, como segue essa proposta de classificação: - Aspecto humano 1: o desejo e objetivo ao submeter-se ao curso; - Aspecto humano 2: assessoria: monitores, tutores, webtutores e o(a) professor(a); - Aspecto técnico: ambientação técnica, recursos disponíveis e acessíveis, suporte online; - O conteúdo: desenvolvido de forma contextualizada. No primeiro item, o aspecto humano do(a) aluno(a) deve ser destacado como indicador de permanência e efetivação da aprendizagem; o seu desejo, seu estímulo inicial num curso online deve ser preservado. Um dos maiores problemas em cursos à distância via Internet é a evasão online, visto que o(a)s aluno(a)s desistem antes da conclusão formal do curso. Algumas alternativas para se superar esse problema podem advir do registro da motivação inicial do(a) aluno(a), dos motivos que o levaram a fazer o curso, suas pretensões, seus ganhos ao completá-lo, assim como do relato do processo. Essas informações podem ser lembretes durante sua caminhada no curso. Incentivos e a preocupação (e acompanhamento) por parte do curso para com o(a) aluno(a) também afastam a sensação de abandono, muitas vezes interpretada pela questão da distância. Acredito que a duração dos cursos também é um fator importante e agregador. Quanto maior a carga horária maior a necessidade de estar estimulado à distância. O segundo aspecto humano relaciona-se com a assessoria de profissionais com conhecimento sobre as tecnologias em uso no curso e são muito importantes, pois eles serão fontes permanentes de segurança sobre o uso dos recursos e instrumentos para o desenvolvimento das atividades, além de terem uma atuação importante a nível psicológico, visto que a sensibilidade humana é um fator fundamental na relação de aprendizagem, sobretudo quando boa parte da mediação é feita por máquinas. Essas questões fazem com que o papel do(a) professor(a) seja imprescindível para formação e educação à distância, como interlocutor, mediador e possibilitador de cenários ainda não conhecidos. As questões técnicas são fundamentais por estarem aliadas ao acesso à informação e a manutenção do(a) aluno(a) no desenvolvimento das atividades. O suporte online, que pode ser um tutorial, ou a facilidade de “entrar” no ambiente, fazem diferença no momento que o(a) aluno(a) está se conectando ao curso e as informações. O conteúdo diz respeito às contextualizações das informações. A utilidade do conhecimento adquirido coloca o conteúdo como um fator determinante ao êxito do curso. O entendimento do conteúdo e as várias fontes de pesquisa disponíveis no curso fazem com que o(a) aluno(a) sinta-se confortável e incluído com as possibilidades de acesso ao conhecimento. Mas é preciso que se pontue que não basta digitalizar as apostilas originalmente impressas. Estas devem possuir integração com o formato/suporte que esta sendo proposto o curso. Abaixo, coloco algumas idéias acerca daquilo que, como aluno(a), pude mapear das necessidade para a realização de um curso online rico em possibilidades. Possíveis indicativos de um curso Impressão do material ⇒ a possibilidade de imprimir todo o conteúdo do curso; Biblioteca complexa ⇒ rica em várias linguagens, como texto, imagens apresentações, arquivos de áudio, banco de imagens, opções de acesso a outras bibliotecas e banco de dados, bem como sugestões de links já “garimpados”; Manual de uso do ambiente ⇒ importante ter disponível, para qualquer dúvida a qualquer tempo, contemplado com as diversas formas uso do ambiente, para quem tem preferência em ler as instruções ao passo que usa o ambiente e aos que querem ter todas as informações e possíveis dúvidas resolvidas antecipadamente. Softwares em Cd ⇒ Importante ter disponíveis softwares adicionais que serão utilizados no curso no formato de CD, para instalação, de preferência usando programas gratuitos. Acesso direto à secretaria do curso ⇒ para envio de documentos e outras comunicações de ordem mais administrativas. É importante ter um canal direto com a secretaria, um canal via Internet, onde tudo também pode ser resolvido à distância e com a eficiência possibilitada pela Internet. Confirmação simultânea de recebimento de dados ⇒ exercícios, aviso para os prazos das tarefas e outras informações importantes para o curso devem ser notificados para ambos os emissores sobre o recebimento destes dados, para criar uma relação de compromisso e registrar a dinâmica do curso. Recursos ⇒ ter disponíveis vários recursos de comunicação e de informação como o áudio, vídeo, chat, fórum, e-mail, banco de imagens, bibliotecas (links, livros e aplicações), espaço de interesse (que pode facilitar os encontros de interesses entre o(a)s aluno(a)s e as possíveis trocas de informação e colaboração gerando uma comunidade de aprendizagem ou interesse). Interlocução É interessante que se cruze a esta reflexão questões trazidas por outras pesquisas que buscam delinear o papel, limites e possibilidades do(a)s aluno(a)s da EAD. Numa pesquisa relatada pela professora Sarmento (2001), aluno(a)s que participaram de cursos online apresentaram suas impressões sobre a experiência, destacando, como o item de maior dificuldade, o acesso (de má qualidade e a um custo elevado). Mas como compreender os cursos online sem acesso? Como profissionais e professores, é fundamental que pensemos sobre essas questões, porque queremos a EAD, com suporte na Internet, com a perspectiva de dispor e melhorar a educação para a sociedade. Temos que ter uma visão ampla dos problemas de conexão, acompanhar a questão dos terminais públicos de acesso, das escolas públicas conectadas. Isso também é uma questão de acesso, e para todos. Estamos talvez na pré-história da Educação à Distância via Internet, mas são essas reflexões que podem delinear os caminhos a serem propostos. Nessa mesma pesquisa, o fator mais positivo apresentado pelo(a)s aluno(a)s foi à interação em grupo. Penso que aqui pode ser constatado o valor humano mediado pela técnica, isto é, o quanto é rica a interação de tantas pessoas movidas por interesses comuns, o quanto a tecnologia digital em rede potencializa a interlocução de vários atores em diferentes momentos e espaços. Em outro relato Lorraine Priest,2 aponta a importância dos serviços de suporte e o mais fundamental: a presença do(a) professor(a) que provoca cenários onde, a cada situação, o(a) aluno(a) poderá encontrar seus próprios caminhos, ensinando formas de como achar as soluções e direcionando para formação ou alimentação de comunidades de aprendizagem. Esses são indicativos da importância do(a) professor(a) e do suporte. Acredito que o conjunto de fatores como esses citados compõe um contexto ideal para a interação e aprendizagem no ciberespaço. A comunidade gerada a partir desse movimento e desses “nós” — como o(a) professor(a), suporte, conteúdo, acesso, tecnologias, ambiente, interesses em comum, canais de comunicação — fazem com que seja desenvolvida e possibilitada imensuráveis dimensões sócio-educativas. Para o(a) aluno(a), existe uma grande expectativa quando nos submetemos a um curso online. A própria formatação do curso é diferente de qualquer outra que já vivemos anteriormente nos bancos da escola, na nossa formação anterior. Mais do que a expectativa da aprendizagem do conteúdo e da aplicação dos conhecimentos adquiridos é a sensação de ser também provocado pela forma como “acontece” esse aprendizado. Ainda de acordo com o depoimento de Priest (2000, p. 42), algumas questões perpassam quando passamos a ser aluno(a)s online: Como será o(a) professor(a)? Que tipo de trabalho ele irá desenvolver? Será que ele seguirá os “padrões” presenciais ou agirá diferente? E posso completar, com a ansiedade e preocupação instalada historicamente que é a da avaliação. Mas como em todo o curso que nos propomos a realizar, a expectativa de um enriquecimento e de um retorno substancial para nosso crescimento pessoal e profissional está sempre presente, fazendo com que essas sensações iniciais sejam aos poucos diluídas ou transformadas em outros sentimentos. Professores, aluno(a)s e a criação de comunidades Distante de fechar a discussão sobre essas interações entre aluno(a)s, ambientes, professor(a) e conhecimento, proponho uma reflexão sobre os itens de sucesso quanto à efetiva aprendizagem e troca entre os atores da educação. Não aluno(a)s e professores, mas uma comunidade com um interesse comum. 2 Aluna online que conta sua experiência no artigo: The story of one learner – a student´s perspective on Online teaching , em WHITE (2000). Partindo dessas reflexões, ressalto o papel do(a) professor(a), do orientador na EAD online. Este deve possuir agora outras habilidades. Antes, poderia bastar uma boa retórica, visto que o poder da fala era o pré-requisito para que fosse “passado” o conteúdo, mas agora, agora é diferente, é preciso mais ... As tecnologias de mediação ampliaram-se, o(a) professor(a) precisa saber escrever bem, sintetizar, moderar uma discussão, em situações em que não se vê o(a)s aluno(a)s, não se pode usar gestos ou olhares que representem determinações. Além disso, o(a) professor(a) precisa saber usar as tecnologias digitais, precisa saber usar as câmeras de transmissão, “dar aula” em outro formato. Usar o vídeo e o retroprojetor não é mais o único prérequisito. O(A) professor(a) precisa ter habilidades para comunicar! Coordenar o seu tempo de fala, suas atividades como correção de tarefas e produção do seu material de forma objetiva, bastante contextualizada, precisa estar aberto a indagações e construções online, precisa ainda propor e provocar discussões à distância, via e-mail ou fórum, precisa estar conectado, online, quase em tempo integral, e com uma carga horária de trabalho muitas vezes não compatível com seu retorno financeiro (Ufa!). Nesse sentido, ser professor(a) em tempos modernos (ou pós-modernos?) não é mesmo fácil, mas é igualmente desafiador. Para a formação de professores, em especial, esse contexto chama a atenção, pois saber na prática o conceito de mediação e de moderar, por exemplo, é um exercício de refletir sobre sua atividade, é a sintonia de estudar, aprender, gerar novos conhecimentos para melhorar seu cotidiano, é contextualizar o aprendizado. É função do curso e do(a) professor(a) propor experiências de aprendizagem, proporcionar a aquisição de habilidade em achar soluções para os desafios, encontrar fontes de informação, estimular a criatividade para construção de novos conhecimentos. E a interação, o poder interferir no processo de comunicação e “dar voz ao outro” é a melhor ação educativa, seja na modalidade presencial ou nos cursos à distância. É de grande riqueza o movimento gerado a partir dessa relação e não pode ser uma estrada de mão única, devendo possibilitar a construção de vários entroncamentos, em muitas direções e com a participação de todos os emissores (origem) e receptores (destino) da rodovia. No curso à distância online, a figura do(a) professor(a) fica muito “viva”. O mediador e provocador das interações para o conhecimento adquire novas habilidades nesta sociedade da informação. Embora muito ainda tenha que ser melhorado em relação às nossas políticas públicas e o acesso à informação, já é possível verificar inovações na postura do(a) professor(a). Mudanças podem ser observadas em comunidades educacionais, onde já existe uma relação de comunicação fora da sala de aula, à distância, permitindo uma maior interação entre o(a) professor(a), o(a)s aluno(a)s e o conhecimento. Em recursos como o chat (encontro síncrono), o(a) aluno(a) não precisa levantar o dedo para falar, mas vai falando. É uma outra dinâmica! A relação com a Internet instiga isso, a velocidade, o receber e enviar, ao mesmo tempo, o que muitas vezes não é permitido na antiga sala de aula. A estrutura lá é bem offline. Retomo, nesse momento, o titulo dessa escrita, “ALUNO(A): ONLINE — SENHA: COMUNIDADE” para que possa expressar a intenção (talvez desnecessária) desse titulo, compondo o meu argumento de reestruturação e ressignificação dos cursos online a partir de reflexões como essas apresentadas. Eu poderia colocar como titulo: “Aluno(a): online — Senha: professor(a)”, para que pudesse expressar o papel do(a) professor(a), num curso online, como senha ou solução para a efetiva satisfação na aprendizagem. Mas é dado a ele (a) a devida importância quando em suas mais novas habilidades, ele(a) orienta a criação de grupos que permanecem “vivos” e em desenvolvimento, mesmo quando o curso acaba formalmente. São essas comunidades que continuam respirando na rede e permitindo a constituição de um conhecimento coletivo, gerado e permanentemente aberto a partir das interações. Então, ao conjunto de fatores já citados e também aqueles desejados num curso online, soma-se a disposição desses atores/autores (professores, aluno(a)s, monitores, administradores, e etc.) para a constituição de comunidades, constituídas nesse movimento de interações e sem prazo de validade, como a senha para os cursos à distância via Internet. Para finalizar esse relato, faço uma última reflexão sobre as possibilidades e limites do(a)s aluno(a)s online, através de uma frase nada distante de Fernando Pessoa “somos do tamanho do que vemos e não do tamanho de nossa altura”. Referências SARMENTO, Maristela L. M. O percurso da aprendizagem dos alunos em Educação a Distancia, In: ALMEIDA, Fernando José. Educação a distancia: formação de professores em ambientes virtuais e colaborativos de aprendizagem – Projeto NAVE. São Paulo: s.n, 2001 SÉRAPHIN, Alava (Org.) . Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002. TURKLE, Sherry. La vida em la pantala – La construcció de la identidad en la era de Internet. Barcelona: Paidós, 1997. PRIEST, Lorraine. The story of one learner: a student´s perspective on online teaching. IN: WHITE, Ken W., WEIGHT, Bob H. The online teaching guide: a handbook of attitudes, strategies, and techniques for virtual classroom. Boston, MA, EUA: Allyn & Bacon, 2000.