Aluno(a): online – senha – comunidade:
Considerações sobre EAD a partir de experiências
como aluna online
Andréa Ferreira Lago*
Esta escrita tem por objetivo contribuir para a discussão da Educação à Distância
através da Internet, numa perspectiva do(a) aluno(a) online, expondo, de forma nãolinear, suas expectativas e impressões sobre essa estratégia de ensino.
Com o olhar de aluna, e também de professora interessada nas questões relativas à
inserção das tecnologias digitais na educação, mobilizada pelo desejo de
experimentar esses novos cenários virtuais, iniciei a minha participação em
programas de estudo via Internet. Nesse navegar pelos ambientes, suas metodologias
e interações, fui observando a emergência de problemas e necessidades do(a)s
aluno(a)s frente a esse novo espaço.
Algumas problemáticas são largamente discutidas, embora com pouco consenso, a
exemplo da questão da avaliação à distância, da certificação e da aceitação dos
profissionais com formação em EAD online, da legislação e do cadastro de cursos
online. Tudo parece ser ainda muito novo, embora seja urgente cuidar destas
questões, pois o crescimento da Ead online é exponencial, sendo, portanto,
fundamental refletir sobre suas aplicações e características para que se possa
contribuir com experiências futuras e apropriações cada vez mais produtivas para o
campo educacional.
Tentarei apontar algumas necessidades e frustrações do(a) aluno(a) em relação aos
recursos disponíveis em ambientes virtuais de aprendizagem, o papel fundamental do
professor(a) e outros aspectos que geram uma comunidade podendo proporcionar o
efetivo processo de aprendizagem.
O texto apresenta, dentre outras experiências, um curso de pós-graduação lato sensu,
em que foram constituídas várias redes de sociabilidade e de aprendizagem, de
amizades mais duradouras a projetos profissionais integrados, mesmo que
espacialmente distantes. Estes foram frutos das possibilidades expressas nas
mediações com os computadores e com a Internet.
*
Pedagoga, Mestre em Ciência da Informação – UFBA, [email protected]
O curso
O curso em questão foi estruturado através de onze disciplinas que foram realizadas
no período aproximado de nove meses e com um prazo maior para conclusão e
entrega da monografia, tendo a mediação de quinze professores e três monitores.
Os alunos estavam divididos em dois grupos. Em um grupo estavam os profissionais
que tinham experiência em educação, atuando no ensino fundamental, médio e
superior, ou em outros cargos administrativos. O outro grupo era formado por
profissionais de áreas distintas com interesse específico em conhecer e interagir com
a mediação das tecnologias digitais para aplicação na educação, tema do curso.
Tratava-se de uma turma bastante heterogênea, com sujeitos de diferentes faixas
etárias, situados em espaços territoriais que iam do Sul ao Nordeste do Brasil, da
Argentina ao Chile.
As aulas ministradas foram em sua grande maioria à distância, através de recursos
síncronos e assíncronos, exigindo um tempo diário de quatro horas para dedicação as
atividades do curso. Houve também, três encontros presenciais, objetivando introduzir
as disciplinas, efetivar as avaliações presenciais, a socialização das atividades e a
integração do grupo.
No dia-a-dia do curso, era fundamental estar conectado na Internet, pois
participávamos de no mínimo uma lista de discussão para cada disciplina, e a garantia
do processo de entendimento e interação era estar acompanhando e quando possível
intervindo nas discussões. Era um ritmo frenético, entre ingressar no ambiente
gerenciador do curso e as atividades de responder refletidamente sobre as questões
demandadas nas listas de discussão. Recebíamos cerca de cinqüenta e-mails
diariamente, sendo que, no início, estas mensagens tinham o objetivo de orientar a
ambientação técnica do processo das aulas. O cotidiano virtual do curso foi marcado
por um grande interesse em se inteirar dos temas propostos e interagir uns com os
outros, se conhecendo, para se tornar uma comunidade, adquirindo o sentimento de
pertencimento a aquele novo locus que se instalava.
Aventuras online: experiência como aluna
Nos primeiros contatos com o grupo, foram perceptíveis as diferenças culturais,
expressadas nos idiomas e na forma de falar. No primeiro encontro presencial,
interagimos numa dinâmica de grupo que definiu algumas especificidades de
interesse de cada um. Também foram proveitosas as discussões sobre objetivos do
curso e conceitos em relação às tecnologias digitais, educação à distância, Internet.
Para os organizadores, o objetivo maior era iniciar as pessoas na dinâmica do
ambiente, e dirimir as dúvidas técnicas iniciais, além de procedimentos
administrativos, como cadastro de nomes e senhas. Existiu uma preocupação com a
introdução dos alunos ao processo que iria ser desenvolvido. Acredito que isso foi
fundamental para identificar as dificuldades individuais e/ou grupais. Foi também uma
tentativa de colocar todos em “pé de igualdade” para o início das atividades. Todavia,
é interessante se pontuar que, apesar de quaisquer tentativas de integração e
uniformização do grupo, este nunca deixará de apresentar uma série de distinções e
desnivelamentos, visto que existe muita subjetividade e conhecimento adquirido na
história de vida de cada indivíduo, elementos que não são quantificáveis. Isso se
constitui em um dos problemas das avaliações diagnósticas.
Ainda iniciando uma experiência em que a rotina de vida passa a ter também horários
regulares de leitura e interações na Internet, foram adquiridas algumas habilidades
técnicas como: manutenção de arquivos à distância, efetivação de videoconferências,
geração de “vídeos caseiros” através de webcams e softwares de compactação.
Nesse cotidiano, muitos problemas foram gerados, fruto do fato de que dimensionar e
tornar administrável um curso online é pertencer mesmo a Rede, com todas as suas
contradições, possibilidades e limites. Recordo-me da frase de Turkle: assim como os
instrumentos musicais podem ser extensões da construção do som, os computadores
podem ser extensões da construção mental do pensamento (1997, p. 43). E, assim,
eu começava a pensar através dos computadores. Os cursos tornaram-me mais
próxima, mais íntima da Internet. O fato de estar obrigatoriamente em estado online,
(quase stand by) esperando para ser instigada (o que era uma constância) era
fundamental. O estar on line ultrapassava os limites do tempo e do espaço, visto que
tínhamos acesso à Internet nos vários locais onde transitávamos durante o dia, e nos
vários momentos. Hoje, o tempo se constituiu numa categoria de freqüente reflexão
nas experiências online. Sabe-se do valor potencial das tecnologias para a
transformação das relações dos indivíduos com o espaço e o tempo no momento da
sociabilidade e comunicação.Todavia, essa discussão não é problematizada em
muitos cursos online, onde a carga de atividades com prazos incompatíveis excedem
o tempo reservado para os estudos, sendo motivo de muitas queixas dos alunos. Em
alguns casos, seria necessário o dobro do tempo planejado para estar atualizado e
acompanhando cognitivamente o processo de aprendizagem objetivado. Acredito que
isso ainda é uma questão relevante a ser refletida, para que se dimensionem as
atividades programadas nos cursos, para que se possa respeitando o ritmo individual
de cada aluno e não simplesmente propor uma aceleração de conteúdos para
aprovação e difusão apenas de informação. Uma outra observação interessante,
expressa por muitos alunos online, é a falta de uma cultura de disciplina para a
realização das atividades propostas pelos cursos à distância. É necessário o
esclarecimento de que, embora estejamos em casa ou em outros ambientes, o
momento das aulas é o aquele que deve ser reservado para realizar estas atividades,
que incluem o trabalho com as tecnologias síncronas e assíncronas, além das leituras
e produção intelectual. Em geral, administrar o tempo torna-se uma tarefa complicada,
na medida em que estamos online para a comunidade de alunos e professores, com
teclados e fones de ouvidos em prontidão, mas também estamos online, fisicamente
online, para a família e os movimentos diários de um lar. Mas esta é a habilidade
fundamental para aqueles que desejam construir conhecimentos através de cursos
online.
Dentro dessa imersão proposta pelo curso, identifico também, como elementos
importantes algumas experiências virtuais, que chamo de aventuras, como a incursão
em chats, utilizando e experimentando vários avatares,1 em que vivemos sensações
1
Sobre avatar, Arlindo Machado, relata: “Ao entrar num desses ambientes colaborativos, o usuário deve designar-se um
nome, um sexo e uma descrição física, que podem tomar diretamente a forma de uma figura (humana ou não) estilizada,
um avatar. Alguns “mundos” virtuais destinados aos avatares disponibilizam uma galeria de figuras, onde o usuário pode
encontrar a imagem que melhor o represente, assim como pode também editá-la, se for o caso, e utilizá-la como o seu
ersatz no ciberespaço”. Em Regimes de Imersão e Modos de Agenciamento. XXV Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação – Salvador/BA – 1 a 5 Set 2002
de sermos outras pessoas, com características diferentes, com mobilidade de
personalidade, em diversos cenários, das florestas amazônicas a escritórios high tech,
como num jogo de videogame e/ou computador, jogando em rede com as palavras,
num circuito “banhado” a discussões teóricas sobre a interação com essas
tecnologias digitais.
Outra experiência importante também nesse processo de aprendizagem foi expor
nossas produções a partir dos conhecimentos adquiridos nessas interações, através
de artigos, CD’s educativos, páginas para Internet, dentre outras. Acho fundamental
que essa produção se realize não só no final do curso, mas durante todo o processo,
onde a lógica de criação faça parte do cotidiano do(a) aluno(a), de suas reflexões e
práticas de trabalho.
Não podemos perder de vista a idéia de que a Rede (Internet), com todas as suas
teias e nós, suas possibilidades e desafios, é um ambiente propício para ministrar a
Educação à Distância.
Refletindo sobre a EAD online
A Educação à Distância é uma estratégia de ensino para as modalidades de
educação, como por exemplo, a educação de jovens e adultos. Dessa forma, muitos
cursos estão sendo desenvolvidos para suprir a formação continuada e a
autoformação. Como cita Séraphin, a EAD surge
em resposta a uma dupla necessidade de trabalhadoras e trabalhadores
ligada ao desenvolvimento das TIC: dominar as novas competências no
local de trabalho ou em domicílio e ainda: Os aprendizes expressam
unanimemente a necessidade de dominar as tecnologias da informação e
da comunicação em resposta a uma evolução de sua situação profissional
(2002, p. 93).
E, com os novos suportes das tecnologias digitais, cada vez mais se proliferam cursos
à distância via Internet, contudo havendo uma mixagem e hibridização de mídias e
linguagens como em um dos cursos, onde tínhamos o auxílio do CD-ROM, de
apostilas impressas, e o efetivo uso da Internet, o que possibilitou mesclar o conteúdo
de várias formas.
Pensando sobre as ferramentas de um curso online, acredito que a variedade ainda é
o fator de destaque: ter à disposição vários tipos de recursos e softwares para acesso,
registro e produção do conhecimento torna a aprendizagem mais rica, e ainda, um
ponto fundamental, respeita as opções de uso do(a) aluno(a)/usuário(a), a exemplo do
ter disponíveis materiais didáticos que possam ser interpretados por vários sistemas
operacionais. É a real possibilidade de dar possibilidades de autonomia ao aprendiz,
também a partir das escolhas de suas ferramentas para receber e produzir
informações. Não significa, e ressalto aqui, que os cursos online devem ter milhões de
opções de ferramentas e administrá-las, o que é realmente um trabalho árduo, mas
insisto: ter mais possibilidades é ter mais chances de aprendizado. Se, para muitos
aluno(a)s, um maior número de ferramentas pode ser pior, e para outros quanto maior
a quantidade de opções, melhor, tudo pode ser administrável se estas opções forem
disponibilizadas de forma não impositiva. Pode-se ter, num curso online, diversas
ferramentas, discursos, possibilidades interativas. Conhecê-las e usá-las será um
desafio e uma opção do(a) aluno(a). O objetivo maior é que a cada uso da ferramenta
ou software signifique aprendizagem contextualizada e criticada pelo(a) aluno(a). Usar
ou não uma ferramenta significa ter argumentos de escolha e potencialmente
enriquecimento com seu uso.
Na EAD online, alguns aspectos devem ser tratados como pontos importantes, como
segue essa proposta de classificação:
-
Aspecto humano 1: o desejo e objetivo ao submeter-se ao curso;
-
Aspecto humano 2: assessoria: monitores, tutores, webtutores e o(a)
professor(a);
-
Aspecto técnico: ambientação técnica, recursos disponíveis e acessíveis,
suporte online;
-
O conteúdo: desenvolvido de forma contextualizada.
No primeiro item, o aspecto humano do(a) aluno(a) deve ser destacado como
indicador de permanência e efetivação da aprendizagem; o seu desejo, seu estímulo
inicial num curso online deve ser preservado. Um dos maiores problemas em cursos à
distância via Internet é a evasão online, visto que o(a)s aluno(a)s desistem antes da
conclusão formal do curso. Algumas alternativas para se superar esse problema
podem advir do registro da motivação inicial do(a) aluno(a), dos motivos que o
levaram a fazer o curso, suas pretensões, seus ganhos ao completá-lo, assim como
do relato do processo. Essas informações podem ser lembretes durante sua
caminhada no curso. Incentivos e a preocupação (e acompanhamento) por parte do
curso para com o(a) aluno(a) também afastam a sensação de abandono, muitas
vezes interpretada pela questão da distância. Acredito que a duração dos cursos
também é um fator importante e agregador. Quanto maior a carga horária maior a
necessidade de estar estimulado à distância.
O segundo aspecto humano relaciona-se com a assessoria de profissionais com
conhecimento sobre as tecnologias em uso no curso e são muito importantes, pois
eles serão fontes permanentes de segurança sobre o uso dos recursos e instrumentos
para o desenvolvimento das atividades, além de terem uma atuação importante a
nível psicológico, visto que a sensibilidade humana é um fator fundamental na relação
de aprendizagem, sobretudo quando boa parte da mediação é feita por máquinas.
Essas questões fazem com que o papel do(a) professor(a) seja imprescindível para
formação e educação à distância, como interlocutor, mediador e possibilitador de
cenários ainda não conhecidos.
As questões técnicas são fundamentais por estarem aliadas ao acesso à informação
e a manutenção do(a) aluno(a) no desenvolvimento das atividades. O suporte online,
que pode ser um tutorial, ou a facilidade de “entrar” no ambiente, fazem diferença no
momento que o(a) aluno(a) está se conectando ao curso e as informações.
O conteúdo diz respeito às contextualizações das informações. A utilidade do
conhecimento adquirido coloca o conteúdo como um fator determinante ao êxito do
curso. O entendimento do conteúdo e as várias fontes de pesquisa disponíveis no
curso fazem com que o(a) aluno(a) sinta-se confortável e incluído com as
possibilidades de acesso ao conhecimento. Mas é preciso que se pontue que não
basta digitalizar as apostilas originalmente impressas. Estas devem possuir integração
com o formato/suporte que esta sendo proposto o curso.
Abaixo, coloco algumas idéias acerca daquilo que, como aluno(a), pude mapear das
necessidade para a realização de um curso online rico em possibilidades.
Possíveis indicativos de um curso
Impressão do material ⇒ a possibilidade de imprimir todo o conteúdo do curso;
Biblioteca complexa ⇒ rica em várias linguagens, como texto, imagens
apresentações, arquivos de áudio, banco de imagens, opções de acesso a outras
bibliotecas e banco de dados, bem como sugestões de links já “garimpados”;
Manual de uso do ambiente ⇒ importante ter disponível, para qualquer dúvida a
qualquer tempo, contemplado com as diversas formas uso do ambiente, para quem
tem preferência em ler as instruções ao passo que usa o ambiente e aos que querem
ter todas as informações e possíveis dúvidas resolvidas antecipadamente.
Softwares em Cd ⇒ Importante ter disponíveis softwares adicionais que serão
utilizados no curso no formato de CD, para instalação, de preferência usando
programas gratuitos.
Acesso direto à secretaria do curso ⇒ para envio de documentos e outras
comunicações de ordem mais administrativas. É importante ter um canal direto com a
secretaria, um canal via Internet, onde tudo também pode ser resolvido à distância e
com a eficiência possibilitada pela Internet.
Confirmação simultânea de recebimento de dados ⇒ exercícios, aviso para os prazos
das tarefas e outras informações importantes para o curso devem ser notificados para
ambos os emissores sobre o recebimento destes dados, para criar uma relação de
compromisso e registrar a dinâmica do curso.
Recursos ⇒ ter disponíveis vários recursos de comunicação e de informação como o
áudio, vídeo, chat, fórum, e-mail, banco de imagens, bibliotecas (links, livros e
aplicações), espaço de interesse (que pode facilitar os encontros de interesses entre
o(a)s aluno(a)s e as possíveis trocas de informação e colaboração gerando uma
comunidade de aprendizagem ou interesse).
Interlocução
É interessante que se cruze a esta reflexão questões trazidas por outras pesquisas
que buscam delinear o papel, limites e possibilidades do(a)s aluno(a)s da EAD.
Numa pesquisa relatada pela professora Sarmento (2001), aluno(a)s que participaram
de cursos online apresentaram suas impressões sobre a experiência, destacando,
como o item de maior dificuldade, o acesso (de má qualidade e a um custo elevado).
Mas como compreender os cursos online sem acesso?
Como profissionais e professores, é fundamental que pensemos sobre essas
questões, porque queremos a EAD, com suporte na Internet, com a perspectiva de
dispor e melhorar a educação para a sociedade. Temos que ter uma visão ampla dos
problemas de conexão, acompanhar a questão dos terminais públicos de acesso, das
escolas públicas conectadas. Isso também é uma questão de acesso, e para todos.
Estamos talvez na pré-história da Educação à Distância via Internet, mas são essas
reflexões que podem delinear os caminhos a serem propostos.
Nessa mesma pesquisa, o fator mais positivo apresentado pelo(a)s aluno(a)s foi à
interação em grupo. Penso que aqui pode ser constatado o valor humano mediado
pela técnica, isto é, o quanto é rica a interação de tantas pessoas movidas por
interesses comuns, o quanto a tecnologia digital em rede potencializa a interlocução
de vários atores em diferentes momentos e espaços.
Em outro relato Lorraine Priest,2 aponta a importância dos serviços de suporte e o
mais fundamental: a presença do(a) professor(a) que provoca cenários onde, a cada
situação, o(a) aluno(a) poderá encontrar seus próprios caminhos, ensinando formas
de como achar as soluções e direcionando para formação ou alimentação de
comunidades de aprendizagem.
Esses são indicativos da importância do(a) professor(a) e do suporte. Acredito que o
conjunto de fatores como esses citados compõe um contexto ideal para a interação e
aprendizagem no ciberespaço. A comunidade gerada a partir desse movimento e
desses “nós” — como o(a) professor(a), suporte, conteúdo, acesso, tecnologias,
ambiente, interesses em comum, canais de comunicação — fazem com que seja
desenvolvida e possibilitada imensuráveis dimensões sócio-educativas.
Para o(a) aluno(a), existe uma grande expectativa quando nos submetemos a um
curso online. A própria formatação do curso é diferente de qualquer outra que já
vivemos anteriormente nos bancos da escola, na nossa formação anterior. Mais do
que a expectativa da aprendizagem do conteúdo e da aplicação dos conhecimentos
adquiridos é a sensação de ser também provocado pela forma como “acontece” esse
aprendizado.
Ainda de acordo com o depoimento de Priest (2000, p. 42), algumas questões
perpassam quando passamos a ser aluno(a)s online: Como será o(a) professor(a)?
Que tipo de trabalho ele irá desenvolver? Será que ele seguirá os “padrões”
presenciais ou agirá diferente? E posso completar, com a ansiedade e preocupação
instalada historicamente que é a da avaliação. Mas como em todo o curso que nos
propomos a realizar, a expectativa de um enriquecimento e de um retorno substancial
para nosso crescimento pessoal e profissional está sempre presente, fazendo com
que essas sensações iniciais sejam aos poucos diluídas ou transformadas em outros
sentimentos.
Professores, aluno(a)s e a criação de comunidades
Distante de fechar a discussão sobre essas interações entre aluno(a)s, ambientes,
professor(a) e conhecimento, proponho uma reflexão sobre os itens de sucesso
quanto à efetiva aprendizagem e troca entre os atores da educação. Não aluno(a)s e
professores, mas uma comunidade com um interesse comum.
2
Aluna online que conta sua experiência no artigo: The story of one learner – a student´s perspective on Online teaching ,
em WHITE (2000).
Partindo dessas reflexões, ressalto o papel do(a) professor(a), do orientador na EAD
online. Este deve possuir agora outras habilidades. Antes, poderia bastar uma boa
retórica, visto que o poder da fala era o pré-requisito para que fosse “passado” o
conteúdo, mas agora, agora é diferente, é preciso mais ... As tecnologias de mediação
ampliaram-se, o(a) professor(a) precisa saber escrever bem, sintetizar, moderar uma
discussão, em situações em que não se vê o(a)s aluno(a)s, não se pode usar gestos
ou olhares que representem determinações. Além disso, o(a) professor(a) precisa
saber usar as tecnologias digitais, precisa saber usar as câmeras de transmissão, “dar
aula” em outro formato. Usar o vídeo e o retroprojetor não é mais o único prérequisito. O(A) professor(a) precisa ter habilidades para comunicar! Coordenar o seu
tempo de fala, suas atividades como correção de tarefas e produção do seu material
de forma objetiva, bastante contextualizada, precisa estar aberto a indagações e
construções online, precisa ainda propor e provocar discussões à distância, via e-mail
ou fórum, precisa estar conectado, online, quase em tempo integral, e com uma carga
horária de trabalho muitas vezes não compatível com seu retorno financeiro (Ufa!).
Nesse sentido, ser professor(a) em tempos modernos (ou pós-modernos?) não é
mesmo fácil, mas é igualmente desafiador.
Para a formação de professores, em especial, esse contexto chama a atenção, pois
saber na prática o conceito de mediação e de moderar, por exemplo, é um exercício
de refletir sobre sua atividade, é a sintonia de estudar, aprender, gerar novos
conhecimentos para melhorar seu cotidiano, é contextualizar o aprendizado.
É função do curso e do(a) professor(a) propor experiências de aprendizagem,
proporcionar a aquisição de habilidade em achar soluções para os desafios, encontrar
fontes de informação, estimular a criatividade para construção de novos
conhecimentos. E a interação, o poder interferir no processo de comunicação e “dar
voz ao outro” é a melhor ação educativa, seja na modalidade presencial ou nos cursos
à distância. É de grande riqueza o movimento gerado a partir dessa relação e não
pode ser uma estrada de mão única, devendo possibilitar a construção de vários
entroncamentos, em muitas direções e com a participação de todos os emissores
(origem) e receptores (destino) da rodovia.
No curso à distância online, a figura do(a) professor(a) fica muito “viva”. O mediador e
provocador das interações para o conhecimento adquire novas habilidades nesta
sociedade da informação. Embora muito ainda tenha que ser melhorado em relação
às nossas políticas públicas e o acesso à informação, já é possível verificar inovações
na postura do(a) professor(a). Mudanças podem ser observadas em comunidades
educacionais, onde já existe uma relação de comunicação fora da sala de aula, à
distância, permitindo uma maior interação entre o(a) professor(a), o(a)s aluno(a)s e o
conhecimento. Em recursos como o chat (encontro síncrono), o(a) aluno(a) não
precisa levantar o dedo para falar, mas vai falando. É uma outra dinâmica! A relação
com a Internet instiga isso, a velocidade, o receber e enviar, ao mesmo tempo, o que
muitas vezes não é permitido na antiga sala de aula. A estrutura lá é bem offline.
Retomo, nesse momento, o titulo dessa escrita, “ALUNO(A): ONLINE — SENHA:
COMUNIDADE” para que possa expressar a intenção (talvez desnecessária) desse
titulo, compondo o meu argumento de reestruturação e ressignificação dos cursos
online a partir de reflexões como essas apresentadas. Eu poderia colocar como titulo:
“Aluno(a): online — Senha: professor(a)”, para que pudesse expressar o papel do(a)
professor(a), num curso online, como senha ou solução para a efetiva satisfação na
aprendizagem. Mas é dado a ele (a) a devida importância quando em suas mais
novas habilidades, ele(a) orienta a criação de grupos que permanecem “vivos” e em
desenvolvimento, mesmo quando o curso acaba formalmente. São essas
comunidades que continuam respirando na rede e permitindo a constituição de um
conhecimento coletivo, gerado e permanentemente aberto a partir das interações.
Então, ao conjunto de fatores já citados e também aqueles desejados num curso
online, soma-se a disposição desses atores/autores (professores, aluno(a)s,
monitores, administradores, e etc.) para a constituição de comunidades, constituídas
nesse movimento de interações e sem prazo de validade, como a senha para os
cursos à distância via Internet.
Para finalizar esse relato, faço uma última reflexão sobre as possibilidades e limites
do(a)s aluno(a)s online, através de uma frase nada distante de Fernando Pessoa
“somos do tamanho do que vemos e não do tamanho de nossa altura”.
Referências
SARMENTO, Maristela L. M. O percurso da aprendizagem dos alunos em Educação a
Distancia, In: ALMEIDA, Fernando José. Educação a distancia: formação de professores
em ambientes virtuais e colaborativos de aprendizagem – Projeto NAVE. São Paulo: s.n,
2001
SÉRAPHIN, Alava (Org.) . Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas
educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.
TURKLE, Sherry. La vida em la pantala – La construcció de la identidad en la era de
Internet. Barcelona: Paidós, 1997.
PRIEST, Lorraine. The story of one learner: a student´s perspective on online teaching. IN:
WHITE, Ken W., WEIGHT, Bob H. The online teaching guide: a handbook of attitudes,
strategies, and techniques for virtual classroom. Boston, MA, EUA: Allyn & Bacon, 2000.
Download

Aluno(a): online – senha – comunidade: Considerações sobre EAD