SUPLEMENTO
Avaliação do Risco à Saúde da Comunidade por Emissões de
Fundições de Alumínio Primário
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Objetivo: A produção de alumínio primário é um processo industrial com elevado potencial de
riscos à saúde dos trabalhadores. Consideramos neste artigo, como avaliar os riscos à saúde da
comunidade associados a emissões de fundições de alumínio primário. Métodos: Examinamos a
literatura sobre os efeitos na saúde, dados de exposição da comunidade e as relações doseresposta dos principais agentes perigosos emitidos. Resultados: Com base nas concentrações
representativas de exposições medidas das comunidades, tivemos condições de fazer
estimativas aproximadas sobre os riscos de saúde associados com agentes específicos e
categorizá-los como nenhum, baixo, médio ou alto. Conclusões: É possível realizar uma
estimativa aproximada de avaliação de risco à saúde das comunidades para cada fundição,,
com base em informações disponíveis na literatura epidemiológica e em dados de exposição de
comunidades locais.
A produção do metal alumínio primário é um processo industrial bem estabelecido e
vital. O metal alumínio tem inúmeras aplicações na sociedade moderna, que se
tornou muito dependente de sua disponibilidade. Infelizmente, o processo de
fundição (Hall-Héroult) é repleto de riscos bem documentados, para a saúde dos
trabalhadores em suas operações. Ao longo do século, desde a sua criação, têm sido
levantadas questões relativas aos potenciais impactos das emissões do processo
sobre a saúde de moradores dos bairros adjacentes. Este artigo analisa as exposições
tóxicas conhecidas que emanam de fundições e considera alguns dos fatores que
podem tornar certas exposições uma preocupação para a saúde das comunidades.
Ele considera meramente as fundições que utilizam o processo eletrolítico Hall
Héroult e não considera a fabricação de produtos transformados de alumínio ou a
produção secundária de alumínio por meio de processos de reciclagem. Também não
estão abrangidas neste artigo, refinarias de alumina, que extraem e calcinam óxido
de alumínio anidro, grau fundição (alumina), a partir do minério bruto (bauxita)
usando o processo Bayer.
Existem dois tipos básicos de fundições de alumínio:
1. Fundições Søderberg: no processo Søderberg (Fig. 1), os anodos das células
eletrolíticas (cubas) são compostos por uma pasta de coque de petróleo e piche de
alcatrão. O processo ocorre a temperaturas superiores a 900o C, gerando voláteis
abundantes de piche de alcatrão. Esses fumos são ricos em hidrocarbonetos
aromáticos policíclicos (HAPs), cancerígenos, que são liberados diretamente na
área de trabalho durante algumas atividades de alimentação das cubas.
2. Fundições prebake: neste processo (Fig. 2), os anodos são “pré-cozidos”
(geralmente em uma unidade separada em fornos ventilados de pré-cozimento). Os
voláteis de piche de alcatrão são então liberados antes do anodo ser introduzido na
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“cuba” eletrolítica. Algumas exposições a HAPs ainda ocorrem em certas operações
(operações de partidas de cubas e revestimento catodos), mas geralmente em
concentrações muito mais baixas do que nas fundições Søderberg.
Além das grandes diferenças na composição do anodo e nas exposições do
trabalhador ao HAP, os demais componentes dos processos são semelhantes,
envolvendo a passagem de alta corrente elétrica através de um banho eletrolítico
fundido de criolita (Na 3AlF6) e fluoreto de alumínio (AlF3), em que a alumina é
dissolvida. As principais exposições ocupacionais são discutidas a seguir.
OBJETIVOS
Este artigo tem por finalidades considerar as emissões de fundições de alumínio
primário com possível potencial de danos à saúde de moradores próximos às
fundições de alumínio, e, com base nos resultados de estudos epidemiológicos e nos
dados de exposição de comunidades, descrever um método de avaliação de risco à
saúde (HRA - Health Risk Assessment) para identificar aquelas exposições que podem
necessitar de maior prioridade no controle.
MÉTODOS
Foram coletados 298 estudos publicados em jornais revisadas por especialistas (peer
reviwed), usando as palavras-chave "fundição de alumínio, processo Hall-Héroult”,
fluoreto, dióxido de enxofre, PM, PM10, PM2,5, HAP, benzo[α]pireno, câncer
ocupacional, câncer de bexiga, câncer de pulmão, avaliação de risco à saúde, saúde
da comunidade, ruído" e outros. Foram analisados os seguintes dados:
 resultados de estudos epidemiológicos de efeitos da produção de alumínio
sobre a saúde;
 perigos à saúde, conhecidos e suspeitados, procedentes de fundições de
alumínio;
 estudos de efeitos sobre a saúde de comunidades vizinhas a fundições de
alumínio primário;
 estudos de efeitos sobre a saúde de comunidades (não especificamente
cidades com fundições), com a exposição aos principais riscos identificados
anteriormente;
 dados de concentração de exposição das comunidades vizinhas a fundições,
aos agentes perigosos de interesse.
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Assim, foi conduzida uma Avaliação de Risco à Saúde usando-se comparações entre
as concentrações reais ou estimadas de exposição de comunidades e aqueles
associados com resultados adversos nos estudos sobre fundições, comunidades não
ligadas a fundições, ou ambos, com o fim de analisar o risco em comunidades
vizinhas a fundições de alumínio. A etapa final foi a de se atribuir cada perigo a uma
das quatro categorias de risco: nenhum, baixo, médio ou elevado (Tabela 1).
Identificação de potenciais perigos das fundições à saúde
As exposições ocupacionais em fundições de alumínio primário estão bem
identificadas por Jelinic et al1 e a International Agency for Research on Cancer IARC [Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer]2. Elas são mostradas na
Tabela 2, com o(s) respectivo(s) efeito(s) sobre a saúde e uma indicação sobre a
presença ou ausência de evidências para os efeitos adversos à saúde de
trabalhadores de fundições.
Concentrações típicas de exposições no local de trabalho
Concentrações de exposição ocupacional têm sido relatadas em várias publicações1-3.
Benke et al3 analisaram as médias das concentrações ponderadas no tempo
relatadas, dos principais contaminantes em fundições de alumínio primário das
décadas de 1950 a 1996 em vários países, para ambos os processos, prebake e
Søderberg. A Tabela 3 sintetiza tais dados, que podem servir como uma base para
comparação com as concentrações de exposições bem menores, constatados em
comunidades vizinhas.
Revisão de estudos epidemiológicos que examinam os efeitos na saúde em
relação a exposições aos perigos no local de trabalho
O câncer ocupacional
Os primeiros relatórios sobre a suspeita de taxas elevadas de câncer, foram da
Rússia4. Os cânceres de pulmão e estômago, apareceram com valores acima dos
esperados, mas dados de história de o tabagismo não estavam disponíveis. Estudos
posteriores em fundições canadenses e norueguesas confirmaram as taxas de
incidência elevadas de câncer de pulmão 5-7 e bexiga7-10. As relações dose-resposta
foram claramente demonstradas entre esses efeitos e dose de exposição cumulativa
a material solúvel em benzeno e benzo [α] pireno (BaP), após o controle do hábito
de fumar. Estes e outros estudos11,12 também encontraram evidências
frustrantemente inconsistentes sobre o aumento das taxas de incidência de
linfomas, bem como de câncer de estômago e pâncreas.
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FIGURA 1. Célula Søderberg de pino horizontal (cuba). (Da indústria de alumínio primário:
documento de respaldo técnico para padrões de máxima conformidade tecnológica alcançável
propostos. Gabinete da Divisão de Planejamento de Qualidade do Ar e Padrões de Emissão, da
Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, julho de 1996.).
Doenças Pulmonares Ocupacionais
Asma
Os dados de uma associação entre o processo de Hall-Héroult' e a asma têm sido
questionados há mais de 70 anos. Estudos escandinavos 13 e australianos tendem a
concluir pela sua existência e chamar a doença de "asma da sala de cubas", apesar
de estudos norte-americanos deixarem de confirmar a incidência excessiva. Os
supostos agentes causais incluem fluoretos (HF e particulados), dióxido de enxofre e
poeiras de redução (inaláveis, totais, respiráveis, ultrafinos ou nano partículas).
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FIGURA 2. Célula prebake de função central (cuba). (Da indústria de alumínio primário: documento
de respaldo técnico para padrões de máxima conformidade tecnológica alcançável proposto,
Gabinete da Divisão de Planejamento de Qualidade do Ar e Padrões de Emissão da Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos , julho de 1996.)
Um estudo americano, de fato documentou uma incidência elevada de asma14 e
descobriu uma associação com o fluoreto gasoso. Por outro lado, um estudo
australiano15 recente constatou uma forte associação com a exposição ao dióxido de
enxofre. De longe, o maior estudo já realizado sobre a saúde pulmonar na indústria
do alumínio primário (comunicação pessoal; Richard Martin; estudos sobre fundições
de Quebec de 1982 e de 1995-1998) envolveu mais de 5000 trabalhadores de
fundições de Quebec. As taxas de incidência de asma após admissão foram
semelhantes nos trabalhadores expostos e não expostos. Infelizmente, esse estudo
ainda não foi submetido a uma publicação examinada por especialistas.
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica
Há uma boa consistência nos estudos de morbidade-mortalidade com prevalência
aumentada e taxas de mortalidade para esta doença entre os trabalhadores da
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eletrólise na produção de alumínio16. O estudo inédito em Quebec acima
mencionado mostrou uma associação significativa entre o trabalho com exposição ao
processo eletrolítico e o baixo valor do volume expiratório forçado no primeiro
segundo (FEV-1). Isto se confirmou nos dois tipos de fundição: Søderberg e prebake,
sugerindo que os HAPs não representam uma grande influência na geração da doença
pulmonar obstrutiva.
Câncer de Pulmão
Consultar a seção “Câncer Ocupacional”.
Sensibilidade ao Berílio
Embora exista uma exposição significativa à poeira contendo teor de berílio em
certas fundições, a sensibilidade ao berílio nos trabalhadores de fundições de
alumínio parece ser rara como é mostrado em dois estudos realizados na América do
Norte e na Noruega (prevalência de 0,47% e 0,28%, respectivamente). 17,18
Efeitos à Saúde causados pelo barulho
A perda auditiva causada pelo barulho é bem documentada em fundições de
alumínio, onde as exposições de certos grupos homogêneos de exposição ou funções
pode exceder 85 dBA para turnos de 8 horas ou 82 dBA para turnos de 12 horas. A
contribuição das operações de produção de alumínio para os níveis de pressão sonora
nas comunidades continua bem abaixo desses níveis e, portanto, não se espera haver
perda auditiva provocada pelo barulho oriundo de fundições em cidades com
fundições.
Asbestose, mesotelioma e silicose
Estas são doenças identificadas em instalações de produção de alumínio, mas como
os seus agentes causais não são componentes significativos de emissões de fundição
para o meio ambiente, elas não serão discutidas aqui. Os campos eletromagnéticos
também não serão considerados, porque as exposições dentro das fundições não
representam uma "emissão" à qual os moradores possam estar expostos de forma
significativa. Apesar das linhas de transmissão elétrica percorrerem as comunidades
com fundições, os campos por elas gerados não representam exposições originárias
de fundições e estão, portanto, fora do âmbito do nosso tema.
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Estudos dos efeitos dos perigos relevantes para as emissões de fundição de
alumínio primário sobre a saúde das comunidades
Benzo [α] Pireno
Extrapolando as relações dose-resposta observadas nos empregados de fundições,
Gibbs19 estima um risco de 4,4 casos adicionais de câncer de pulmão por 100.000
pessoas expostas durante 50 anos a 1 ηg/m3 BaP. Armstrong e Gibbs20 mais tarde
revisaram a relação dose-resposta para trabalhadores da fundição e descobriram que
um modelo de relação linear previa um risco relativo de 1,35 por 100 μg / m 3-anos
de exposição cumulativa a BaP, e um modelo de curva de potência multiplicativa (o
melhor ajuste) previu um RR de 2,68. Vyskočil et al21 avaliaram criteriosamente os
riscos de câncer de pulmão ao longo da vida em cidades com e sem fundições, com
base nos dados de exposição a BaP disponíveis. Ao realizarem a avaliação
quantitativa do risco, utilizando dados epidemiológicos com base nas exposições a
BaP, eles encontraram (limite superior) riscos excessivos de câncer de pulmão,
considerada a vida toda, entre 0,02 e 89 por 100 mil habitantes em cidades com
fundições. As exposições ocupacionais nas cidades com fundições estudadas são
quase exclusivamente do sexo masculino, o que tenderia a confundir a relação entre
as concentrações de exposição das comunidades com o risco de câncer em homens
nessas comunidades. No entanto, houve uma relação linear entre as taxas de
exposição BaP das comunidades e as de câncer de pulmão em mulheres com um
coeficiente de correlação (R) próximo de 0,8. Além disso, um estudo sobre as taxas
de câncer de pulmão e a exposição regional a BaP na mesma região geográfica
(região de Saguenay-Lac Saint Jean da província de Quebec) fez revelar uma
elevação de câncer de pulmão em mulheres no distrito mais exposto de uma cidade
com fundição. 22
Berílio
As concentrações de aerodispersóide de berílio na vizinhança foram 100 a 300 vezes
mais baixas do que o limite de exposição recomendado pela agência ambiental
americana (EPA), de 0,01 μg/m3 em estações de amostragem de qualidade do ar,
próximas de uma fundição, usando alumina com teor de berílio (comunicação
pessoal; Rio Tinto Alcan). Trabalhadores expostos a concentração de berílio igual ou
superior a uma concentração arbitrária de nível de ação abaixo do novo TLV da
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ACGIH - American Conference of Governmental Industrial Hygienists [Conferência
Americana de Higienistas Industriais Governamentais] e constatou-se que eles não
estavam sensibilizados ao berílio (Teste de Proliferação de Linfócitos de Berílio).
Assim, é razoável pressupor que as exposições das comunidades não estejam
causando sensibilização relacionada com o berílio ou doenças em moradores que
vivem perto daquelas fundições.
Material Particulado
Atualmente existe um impressionante conjunto de literatura científica sobre os
efeitos dos aerodisperóides à saúde das comunidades. Os estudos conjugam a
avaliação dos efeitos sobre a saúde, de partículas mais finas, com um diâmetro
aerodinâmico inferior a 2,5 μm (PM 2,5), e a avaliação dos efeitos de partículas com
menos de 10 μm de diâmetro (PM10).
Material particulado com diâmetro inferior a 10 μm (PM10)
Há uma abundância de estudos sobre os potenciais efeitos na saúde da exposição a
aerossóis de material particulado. A exposição ao PM10 tem sido associada a sintomas
respiratórios de tosse e chiado, surgimento e agravamento da asma em adultos e
crianças, internações por doenças respiratórias e cardiovasculares, taxas de
mortalidade em grupos vulneráveis (idosos e recém-nascidos) e de baixo peso ao
nascer. Um estudo com crianças suecas mostrou uma relação significativa entre a
exposição a PM10 no primeiro ano de vida e o aparecimento de asma antes da idade
de 12 anos23. Uma meta-análise de 36 estudos europeus de concentrações de PM10
(média de 24 horas de concentrações PM10 variando de 10 a167 μg/m3) e sintomas de
asma em crianças, mostrou uma associação significativa24. Em uma análise de cinco
estudos europeus foi confirmada uma associação entre exposições de longo-prazo a
PM10 e a mortalidade (mortes totais e mortes por causas cardiovasculares e
respiratórias), com as relações dose-resposta estatisticamente significativas25. Em
um estudo26 prospectivo de coorte de mulheres na Alemanha, a exposição PM10 foi
significativamente associada com as crescentes taxas de mortalidade por câncer
cardiopulmonar e de pulmão por todas as causas.
Material particulado com diâmetro menor que 2,5 μm (PM2,5)
Foram constatados resultados semelhantes para exposições a estas partículas mais
finas. Todavia, alguns estudos descobriram que estas últimas são mais fortemente
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associadas aos efeitos cardiovasculares adversos. Em idosos de Madrid27, tanto o PM10
como o PM2,5 estavam associados com aumento de mortalidade por causas
respiratórias, enquanto as mortes por causas cardiovasculares foram
significativamente associadas apenas com a exposição ao PM2,5. Em Nova Iorque28, ao
longo de um período de cinco anos, paradas cardíacas fora do hospital foram
significativamente associadas a PM2,5 (RR acima de 1,06 por aumento na exposição a
PM2,5 de 10 μg/m3), durante as estações quentes, mas não com CO 2, ozônio, SO2 ou
NO2. Uma investigação semelhante em Melbourne 29 rendeu resultados quase
idênticos. Um estudo prospectivo de coorte com 125 mil professoras e ex-professores
da Califórnia, acompanhados por mais de 10 anos30, mostrou uma associação entre
PM10, PM2,5, exposições a óxidos de nitrogênio, mortalidade por cardiopatia
isquêmica e incidência de AVC que era mais forte na exposição ao PM2,5. Há sugestão
de que estes efeitos sejam predominantemente importantes em idades mais
avançadas pela falha em se detectar uma associação entre exposições a PM2,5 e PM10
e eventuais efeitos adversos na saúde cardiopulmonar em um grupo de 2.800 jovens
(idade média de 32 anos) militares norte-americanos, durante um período de 18
meses no sudoeste da Ásia31. Um estudo recente com crianças asmáticas que vivem
dentro de um raio de 7,5 km de uma fundição Søderberg, na província de Quebec 32
apontou uma associação significativa com o tempo de exposição em local a favor do
vento, a partir da fonte de emissão da fundição e das internações por asma e
bronquiolite. As concentrações de PM2,5 e SO2 máximas foram de 967 μg/m3 e 434
ppb, respectivamente.
Dióxido de Enxofre
O dióxido de enxofre é um irritante respiratório bem conhecido e tem sido
demonstrado de forma confiável, provocar broncoconstrição em pessoas com asma,
de uma forma dose-relacionada, começando em cerca de 200 ppb em pessoas com
asma de leve a moderada33. Um estudo em Montreal34 com crianças que residiam nos
arredores de uma refinaria de petróleo revelou uma associação dose-dependente
entre o aumento da exposição a SO2 e asma ativa, que se tornou estatisticamente
significativo no precário controle da asma. Outra investigação35 na mesma cidade
constatou que os aumentos de curto prazo de SO2 estavam consideravelmente
relacionados ao aumento do número de episódios de asma, atendimentos de
emergência e hospitalizações por asma (também em crianças). Embora a composição
das emissões de refinarias de petróleo seja bem diferente das de fundições de
alumínio, esses resultados dão plausibilidade a um papel do SO2 em exacerbar a
asma em moradores das comunidades. Descobriu-se em Xangai que a exposição ao
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dióxido de enxofre tem conexão linear independente com a mortalidade total,
mesmo após o controle da exposição a PM10 36. O estudo de Quebec anteriormente
citado32 sobre crianças asmáticas que moravam nas proximidades de uma fundição
Søderberg revelou concentrações médias diárias de SO2 nas regiões a favor do vento
da fundição que vão até 168 ppb, com concentrações médias horárias de até 434
ppb.
Fluoretos
Fundições de alumínio primário emitem fluoretos em formas gasosas e de partículas.
O papel dos fluoretos na saúde de uma comunidade tem sido menos estudado do que
o impacto de PMs, SO2 e NOx. Em cidades com fundições de alumínio, é difícil definir
esse papel, porque os fluoretos vêm invariavelmente acompanhados de uma
quantidade significativa de material particulado e SO 2. Um estudo em crianças na
cidade norueguesa com fundição chamada Årdal37, revelou uma associação
significativa entre responsividade brônquica e exposição recente a concentrações
máximas tanto de SO2 como de fluoretos. Em crianças indígenas, que vivem perto de
uma fundição de alumínio no interior de Nova York, a obstrução respiratória foi
associada ao aumento de fluoreto urinário38. O estudo mencionado por Abramson et
al15 sobre a asma das salas de cuba pode lançar alguma luz sobre a importância
relativa do fluoreto comparado ao do SO2 no impacto sobre o aparelho respiratório
das comunidades vizinhas de fundições. Os níveis médios de fluoreto na região de
Årdal, durante um período de 30 dias, foram de 1,6 μg/m3 com um percentil 10 de
0,8 μg/m3 e percentil 90 de 2,8 μg/m3.
Barulho
Conforme mencionado no tópico anterior "Análise de estudos epidemiológicos, que
examinam os efeitos à saúde de exposições aos perigos no local de trabalho", a
influência de operações de produção de alumínio sobre os níveis de barulho das
comunidades não atinge os padrões elevados necessários para causar perda de
audição e, assim, não se espera haver perda auditiva provocada por ruídos oriundos
de fundições, em cidades com essas operações. No entanto, a contribuição das
fundições para o barulho ambiental pode chegar a níveis ambientais próximos de 50
dBA (comunicação pessoal; fábrica de Laterrière, Rio Tinto Alcan, em Quebec). Os
níveis de barulho de fundo na comunidade com fundição variou de 35 a 38 dBA, na
ausência de operações de fundição, e de 44 a 48 dBA durante as operações (24 horas
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por dia). Esses últimos níveis ficaram muito inferiores aos que têm sido associados ao
risco aumentado de infarto do miocárdio num estudo39, mas cai na faixa de "área
barulhenta" (Leq acima de 45 dBA) para a qual um outro estudo40 descobriu uma
significativa razão de probabilidade ajustada de 1,58 para hipertensão em homens.
O barulho de tráfego rodoviário também foi associado à hipertensão em uma cidade
sueca41 para homens e mulheres. Outro estudo sueco42 mostrou uma razão de
probabilidade significativa de 1,27 para hipertensão arterial em indivíduos de 40 a
59 anos de idade, expostos a 60 a 64 dBA. Cada acréscimo de 5 dB em Leq24 além de
45 dBA foi seguido de um aumento da razão de probabilidade de 1,38 para
hipertensão. A fundição da fábrica Laterrière baixou os níveis sonoros sobre a
comunidade em 1999, ao instalar um sistema abafador nas chaminés com emissões,
resultando em exposições na faixa de 33 a 40 dBA, pouco mais do que o barulho de
fundo da fase prévia à instalação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise de riscos para a saúde, de emissões de fundição de alumínio é uma tarefa
difícil, que requer conhecimento específico dos processos industriais e de seus
subprodutos, resultados de pesquisa dos potenciais efeitos sobre a saúde ocupacional
e da comunidade, dados de medições de exposição regionais, contribuições das
fundições para esses dados, características demográficas da comunidade e dados
sobre os efeitos à saúde da comunidade local.
Encontramos muita incerteza em vários níveis. Uma das tarefas mais difíceis é
estimar a contribuição de uma determinada fundição para a concentração de
contaminantes do ar na comunidade ao redor. Quanto mais urbana for a área, mais
densamente habitada e industrializada ela será e mais difícil essa tarefa se tornará.
Alguns estudiosos como Boullemant43, têm conseguido empregar novas formas de
abordagem usando rastreamento por isótopos para calcular a proporção de PM2.5
sobre a comunidade, que se originou a partir dos anodos de fundições locais, embora
tais subsídios técnicos sejam uma exceção.
Grande parte da informação disponível sobre os impactos na saúde de comunidades
envolve riscos relativos com concentrações crescentes, mas não é tão útil para
fornecer dados sobre os limites de exposição abaixo do quais seja improvável o
dano. Deve-se ter muito cuidado para extrapolar relações dose-resposta
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provenientes de estudos com trabalhadores para moradores de comunidades, cujas
características diferem (por exemplo, este último grupo inclui grupos vulneráveis
como crianças, idosos, mulheres grávidas, um maior número de pessoas com doenças
respiratórias e outras doenças crônicas e deficiências).
Na estimativa de risco, fizemos uma abordagem de pior cenário e utilizamos as
medidas de exposições mais elevadas das comunidades, as estimativas mais altas de
risco de outras fontes19-21, e consideramos estudos que mostraram impactos
plausíveis na saúde da comunidade a partir dos agentes em consideração.
A vida útil das operações modernas de alumínio primário geralmente é de 50 anos ou
mais. Os critérios de concepção desses complexos industriais são determinados para
garantir a sua conformidade de longo prazo com as regulamentações locais e
internacionais de saúde, segurança e meio ambiente. Não obstante, uma ameaça
grave está surgindo: dado o crescimento significativo e sustentado da demanda
global de alumínio, a indústria está enfrentando uma escassez de matérias-primas
com baixo teor de enxofre, como o coque de petróleo. Atualmente, várias unidades
consideram o uso de coque de petróleo com maior teor de enxofre, o que poderia
resultar num acréscimo significativo de emissões de dióxido de enxofre e, por sua
vez, da concentração deste poluente no ar urbano das comunidades situadas no
entorno, representando um risco crescente para a saúde do público em geral.
CONCLUSÕES
Concluímos que a análise de riscos à saúde de comunidades por uma fundição de
alumínio pode ser realizada, comparando níveis representativos de exposição na
comunidade e riscos conhecidos à saúde, presentes em emissões de operações de
alumínio primário com as concentrações de exposição estabelecidas como
prejudiciais nos estudos de saúde das comunidades ou outras análises de impacto.
Onde forem escassos os dados de saúde da comunidade, a literatura de saúde
ocupacional pode fornecer uma visão sobre as relações dose-resposta, que poderiam
ser utilizadas na avaliação do risco. É importante nessas avaliações, considerar os
níveis históricos de exposição, porque alguns dos efeitos de interesse sobre a saúde,
envolvem longos períodos de latência. Os autores consideram, dependendo da
tecnologia, proximidade e outros fatores, que o risco não é zero para os efeitos
adversos à saúde da comunidade a partir de BAP (fundições Søderberg apenas),
fluoreto, barulho, material particulado e dióxido de enxofre. A melhoria contínua no
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controle de emissões continua a ser, portanto, uma alta prioridade para todos os
produtores de alumínio primário.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem (1) Mme Jany McKinnon do Québec Ministère du
Développement durable, de l'Environnement, de la Faune et des Parcs, por sua ajuda
indispensável no fornecimento de dados de qualidade do ar a partir de estações de
coleta nos municípios com fundições em Quebec e (2) Elizabeth Czanyo,
bibliotecária da Canadian Medical Association, por contribuir na busca de artigos
relevantes.
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TABELAS
TABELA 1. Classificação de risco dos riscos mais significativos à saúde da comunidade associados à produção de alumínio
primário
Risco
Dados de exposição da
comunidade*
Níveis de exposição da
comunidade que indicaram ser
prejudiciais em estudos sobre
EPI/limites de exposição
Plausibilidade do
efeito sobre a
saúde da
comunidade
0,5-90‡
Dados insuficientes/0,9§
Sim
Berílio, ¶
µg/ m3
PM10, µg/ m3
0,000031 – 0,00012
PM2,5, µg/ m3
S02 ppb
7,1-15,1#;3,7-16,6‡; 1,7-5,6||;
0,08-335,0332 (média diária)
0,75-3037; 1-12,3‡; 0,2-1,9||;
Nenhum caso da comunidade/0,01
(EPA USA)
Dados inconsistentes/150§/20 média
anual 50 µg/ m3 média 24 horas
(OMS)
RR= 1,09 por 10-µg/aumento28/25
(OMS)/35§
20028,37/75 (EPA EUA)
Fluoretos totais
(como F), µg/ m3
Fluoretos gasosos
(como HF), µg/ m3
Ruído dBA
0,06-0,25**
<2-3††
0,8 – 2,8037
0,16-0,26||
44-48
Benzo(a)pireno
ŋg/m3
11,6 – 31,9‡
8,0-10,9||
2,837/13,0 (REL Calif crônico)
Categoria proposta de risco †
Nenhum: para comunidades de
fundições prebake
Baixo a médio: para comunidades
de fundições Søderberg
Não
Sim
Nenhum
Baixo
Sim
Médio
Sim
Médio
Sim
Nenhum a baixo
Sim
Baixo
14,0 µg/ m3 (REL Calif crônico)
>4541; ≥6042/Leq24 < 45 interior,
<55 exterior (EPA EUA); ‡‡
* Não necessariamente típico ou representativo; média anual, salvo indicação em contrário; contribuição de fundição
desconhecida a menos se indicado. O leitor irá notar que as unidades usadas para medições de ar da comunidade para benzo[
α]pireno, fluoretos e dióxido de enxofre são duas a três ordens de grandeza menores do que para as exposições do trabalhador
(ηg, μg e PPB, conforme comparação com μg, mg e ppm, respectivamente).
† Aos níveis de exposição de comunidades com fundições citados nesta tabela - coluna 2. Julgamento qualitativo que considera
o número de pessoas em situação de risco, gravidade do efeito e probabilidade do efeito.
‡ Quebec Ministry of Sustainable Development, Environment, Wildlife and Parks [Ministério de Desenvolvimento Sustentável,
Meio Ambiente, Vida Animal e Parques] (dados de quatro cidades com fundições de Quebec).
§Padrão nacional de qualidade do ar-ambiente, dos Estados Unidos.
¶Shawinigan QC 2002, média aritmética de julho e agosto.
||Rio Tinto Alcan (RTA) Operações BC, Relatório Ambiental Anual 2012, Capítulo 6, Monitoramento de Qualidade do Ar e
página web da RTA Operações em Alma, seção Meio Ambiente e Comunidade.
# Exposição GM 2012: intervalo para quatro cidades com fundições de Quebec. Contribuição estimada da fundição = 3%.43
**Estimativa baseada no pressuposto de que os fluoretos representam 50% de emissões atmosféricas de uma moderna fundição.
Além disso, a partir do trabalho de Boullemant43 , a emissão PM2,5 de uma moderna fundição de alumínio primário representa
3% da concentração total de PM2,5 no ar urbano.
††Nível relatado pela OMS (critérios ambientais 227) como níveis típicos de SO 2 habitualmente encontrados nos arredores de
fontes de emissão.
‡‡ Esse nível de ruído é muitas vezes usado como um critério de projeto para novas instalações.
EPA, Agência de Proteção Ambiental; REL, Limite Recomendado de Exposição; OMS, Organização Mundial da Saúde.
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TABELA 2. Potencial de perigos à saúde com a base para seus respectivos limites de exposição
Efeito(s) na saúde cujos limites de exposição foram
definidos pela ACGIH ou outra autoridade
Evidência de efeitos
responsável por limites de exposição; Outro(s)
adversos in trabalhadores
Risco à Saúde
Efeito(s) Suspeito(s) ou Plausível(is)
de fundições de alumínio
Óxido de alumínio (Al2O3)
Berílio
Monóxido de carbono (CO)
Dióxido de carbono (CO2)
Pós
Respiráveis e inaláveis
Fluoretos
Campos eletromagnéticos
Correntes alternativas e diretas (AC e
DC)
Dióxido de nitrogênio (NO2)
Ruído
HAPs (como matéria solúvel em benzeno
e benzo(a)pireno
Dióxido de enxofre (SO2)
Irritação do trato respiratório
Toxicidade ao alumínio
Sensibilidade ao berílio
Doenças crônicas causadas por berílio
Dor de cabeça
Náusea
Asfixia química
Dor de cabeça
Náusea
Hipercapnia, acidose, asfixia
Irritação do trato respiratório
Arritmia; outros efeitos cardiovasculares
Exacerbação da asma; bronquite;
Doença pulmonar obstrutiva crônica (DOPC)
Irritação do trato respiratório, olhos e pele
Asma: casos novos e exacerbação
Doença pulmonar obstrutiva crônica (DOPC)
Leucemia
Linfoma
Câncer de cérebro
Irritação do trato respiratório superior e inferior
Inflamação pulmonar
Asma
Aumento de sintomas respiratórios
Diminuição da função pulmonar
Perda auditiva causa por ruído
Perturbação do sono
Estresse
Hipertensão
Câncer: bexiga e pulmão
Outros tipos de câncer: estômago, pâncreas, linfoma?
Irritação do trato respiratório
Exacerbação da asma e bronquite crônica; DOPC
Maior suscetibilidade a infecções pulmonares
Efeitos cardiovasculares
Não
Sim (raro)
Não
Não
Sim
Sim (as contribuições relativas
do fluoreto, SO2 e particulados
para esses efeitos são incertas)
Não
Não
Sim
Sim (fundições Soderberg)
Sim (as contribuições relativas
de fluoretos, SO2 e material
particulado para esses efeitos
são incertas)
AC, corrente alternada; ACGIH, American Conference of Governmental Industrial Hygienists; DOPC, doença pulmonar
obstructiva crônica; DC, corrente contínua; HAPs, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos.
TABELA 3. Faixas usuais de exposições TWA para contaminantes principais de local de trabalho em fundições de alumínio
primário
Contaminante
Níveis de Exposição TWA em Locais Típicos de Trabalho
Benzo(a) pireno
Fundições prebake: 0,02 – 0,20 µg/ m3
Fundições Soderberg: 0,5 – 5 µg/ m3
Fluoretos (Total – HF + particulado F ) 0,2-3,1 mg/m3 (ambos os tipos de fundições)
Dióxido de enxofre
0,4-3 mg/m3 (ambos os tipos de fundições)
Pós totais
2,4-7,6 mg/m3 (ambos os tipos de fundições)
0,2-6,0 mg/m3 (dados de 2009 a 2010 de quatro modernas fundições prebake*)
* Fundição com cuba prebake de operação central com densidade de fluxo de corrente superior a 180 kA e taxa local de
ventilação de exaustão acima de 1,5 m3/s e equipada com depuração a seco.
TWA, time-weighted average (média ponderada no tempo)
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