“O Condomínio da Terra é uma acção necessária e exemplar: forte, valente, inovadora, profundamente comprometida.” Martí Boada, Prémio Global 500 das Nações Unidas “(...) uma janela de luz e esperança para todos aqueles que não se resignaram à condição de sermos a primeira geração, à escala global, a quem o futuro ameça ser roubado.” Viriato Soromenho-Marques, Prof. Universidade de Lisboa e ex-presidente da Quercus “Só na prossecução do interesse comum, poderemos garantir a cada um o seu direito.” Immanuel Kant Índice Ficha Técnica Sede do Condomínio da Terra Fotografias e texto: Paulo Magalhães Praceta das Camélias, 58 4430-037 GAIA, Portugal Tel: +351 223 749 249 Fax: +351 223 749 247 [email protected] Fotografia da página 5: NASA Supervisão: Ricardo Marques Design gráfico: Helena Marques www.condominiodaterra.org 2 Falso Alarme? – Introdução C. N. UNESCO 4 O Desafio Mais Difícil – Introdução Quercus 6 Plataforma de Responsabilidade – Introdução C. M. Gaia 9 Organizar a Vizinhança Global 10 Partes Comuns 12 Partes Comuns e os Serviços dos Ecossistemas 13 Uma Soberania Complexa 15 Uma Economia de Simbiose 18 A Terra é já um Condomínio? 20 Um Movimento Global de Cidadania 23 Gaia, Conceito Universal 24 Gaia, Deusa da Terra 25 Gaia, Cidade Portuguesa 27 Declaração de Gaia 30 Quercus, uma Associação com História Depósito Legal: 29072309 Impressão: Indugráfica Sede da Quercus Agradecimentos: Dra Adília Alarcão; Concept Media; GKM – Global Knowledge Management; Ideia Clara; On Air. Centro Associativo do Calhau Bairro do Calhau, Parque Florestal de Monsanto 1500-045 Lisboa, Portugal Tel: +351 217 788 474 Fax: +351 217 787 749 [email protected] Apoios: www.quercus.pt 1 A existência de tais instrumentos de Falso Alarme? estes últimos quinze anos foram na verdade pontuados por uma actividade intensa nos campos cívico e político Introdução protecção, preservação e valorização, não é, todavia, em si mesma suficiente. É igualmente necessária uma interpelação individual, que fomente em primeiro lugar a acção individual; a mudança de rumo começa por se operar no plano dos comportamentos. E para que os resultados sejam eficazes, tal mudança tem de se repercutir noutros planos, até à escala global, num enquadramento de Fenómenos climáticos extremos, degradação de ecossistemas, perda da biodiversidade, integração e concertação. secas e cheias, insegurança alimentar, deterioração da saúde, deslocação de populações devido à subida do nível do mar… E se tudo não passasse, afinal, de um falso alarme? Todas estas temáticas têm sido objecto de ampla divulgação e crescente adesão, mas os perversos caminhos da mediatização induzem também, por outro lado, algum cansaço Tal é a mensagem que alguns pretendem transmitir, fundamentando a sua tranquilidade visível na opinião pública, ao mesmo tempo que nem todos os destinatários potenciais distante no sábio conhecimento da lenta progressão verificada em ciclos passados da têm ainda a (in)formação suficiente para a sua tomada de consciência e a sua constituição evolução do Universo. como agentes de mudança. Algo parece diferir, no entanto, na situação que hoje testemunhamos e de que participa- O abrandamento da atenção pode ter o seu contraponto no recurso constante a uma óptica mos, tendo as implicações da intervenção humana adquirido no presente um peso que diferente, tendente a manter o debate e a actuação cívica numa fasquia elevada. E aqui, altera significativamente as matrizes anteriores – desde logo, no que diz respeito à capaci- uma vez mais, é desejável que as novas perspectivas assentem em linguagens que reme- dade de recuperação dos sistemas, ao seu nível de resiliência, mas também à sobrevivên- tam para o foro individual como ponto de partida. cia a prazo da própria espécie humana. É a este nível que se situa a proposta de pensarmos a Terra como um imenso condomínio Não se trata, pois, de um falso alarme, mas antes de uma chamada de atenção que já nem sequer surge como um ‘alerta precoce,’ atendendo a que os sinais se avolumam numa repartição geográfica que contempla todo o planeta e que, por outro lado, os avisos não se destinam a prevenir um futuro comodamente ainda longínquo, e de cuidarmos das partes comuns, correspondendo tal postura a um conceito acessível, somos já nós mesmos, neste momento, gerações em risco que apelidaríamos ‘de proximidade,’ e que aposta nas alterações comportamentais com base no compromisso individual e no espírito de voluntariado. Mas este texto não se limita a apresentar e advogar o conceito, propõe-nos que acompanhemos um programa concreto para 2008-2012, relativamente ao qual já existe um compromisso de execução. nem a beneficiar em primeiro lugar as gerações vindouras: somos já nós mesmos, neste momento, gerações em risco. Trata-se claramente de um instrumento estratégico que tem o seu enquadramento natural na Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável e surge Longo foi o caminho percorrido pela agenda mundial entre o Rio e Bali, passando por muito apropriadamente no Ano Internacional do Planeta Terra. Ano esse de 2008, em Joanesburgo e Quioto; estes últimos quinze anos foram na verdade pontuados por uma que todos também celebrámos o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos actividade intensa nos campos cívico e político que contribuiu para debater e afinar con- Humanos – e o direito à própria existência, no usufruto de condições dignas, encontra-se ceitos e estratégias, nem sempre se pautando, contudo, por uma eficaz e alargada corres- aí indelevelmente consagrado, do mesmo modo que, hoje em dia, começamos a falar de pondência prática. um imperativo de ordem ética quando abordamos, por exemplo, o tema das alterações Antes mesmo de 1992, as organizações internacionais multilaterais já vinham, entretanto, climáticas e procuramos melhor compreender e prevenir o seu impacto no nosso ‘imenso desenvolvendo programas e produzindo instrumentos normativos nesta área, com parti- condomínio.’ cular destaque para a UNESCO, através, por exemplo, do seu programa MAB, relativo às Fernando Andresen Guimarães Presidente da Comissão Nacional da UNESCO reservas da Biosfera, da Convenção do Património Mundial, ou da Convenção de Ramsar sobre as Zonas Húmidas. 2 3 O Desafio Mais Difícil tecção das partes comuns do Planeta de modo a que possam continuar a cumprir as suas Introdução climáticas, como sejam a perda de biodiversidade, a desertificação dos solos e a escassez funções ecológicas e, especificamente, atenuar as consequências associadas às alterações de recursos hídricos. Como já se percebe, a implementação do conceito Condomínio da Terra tem a virtude de constituir um chapéu tão abrangente que consegue enquadrar as respostas a um conjunto diversificado de desequilíbrios ambientais que se fazem sentir global e localmente. Consegue integrar também os princípios ‘poluidor-pagador’ e ‘utilizador-pagador’ tradu- Os desafios que as questões ambientais nos colocam hoje requerem alterações profundas zindo-os na transferência de recursos para a gestão, minimização e prevenção de danos na nossa visão e funcionamento. Caminhar no sentido de uma sociedade humana em equi- sobre bens naturais ‘sagrados’ de natureza indivisível e que cumprem funções comuns. líbrio com a Natureza implica mudar determinadas questões estruturais, quer na vertente Enquanto as partes comuns do Planeta, porque são de todos, não forem responsabilida- conceptual quer prática, de forma a alavancar um processo com maiores probabilidades de de alguém, os interesses de alguns irão continuar a por em causa o suporte de vida de sucesso. da humanidade. É essencial um gestor do grande condomínio que é o Planeta Terra mas O conceito Condomínio da Terra, enquanto esse dia não chega temos, pelo menos, a obrigação de ir cuidando e gerindo que nasce a partir da Quercus no momento em que esta Organização Não Governamental de Ambiente se aproxima de um percurso de 25 O Condomínio da Terra é um conceito simples e de fácil assimilação que possui ao mesmo tempo a complexidade necessária... algumas das suas fracções. É isso que estamos já a fazer e vamos continuar. Hélder Spínola Presidente da Direcção Nacional da Quercus anos de existência e se associa às comemorações do Ano Internacional do Planeta Terra, surge na hora certa e é uma resposta directa à necessidade de um novo enquadramento local, nacional e internacional a aplicar neste preciso momento em que temos em mãos um grave problema ambiental global, as alterações climáticas. O Condomínio da Terra é um conceito simples e de fácil assimilação que possui ao mesmo tempo a complexidade necessária para enquadrar tanto a realidade humana como a realidade natural do Planeta, num contexto em que já não é possível continuar a definir fronteiras sobre bens indivisíveis como são a hidrosfera, a atmosfera e em grande medida a biodiversidade. O desafio mais difícil inerente a este conceito, que abre uma nova perspectiva sobre a forma como a espécie humana percepciona e actua no contexto global, é conseguir singrar na alteração das relações entre Estados e desbravar caminho para a aplicação da soberania complexa. Nos contextos nacional, regional e local o Condomínio da Terra também tem enormes potencialidades. O Programa “Cuidar das Partes Comuns: Criar Bosques, Conservar a Biodiversidade” é um exemplo muito concreto destas potencialidades e um contributo directo dado pela Quercus, juntamente com vários parceiros, para a aplicação do conceito Condomínio da Terra. É um programa que permitirá reunir e aplicar recursos na gestão e promoção de habitats e da biodiversidade associada, com particular atenção para os ecossistemas florestais. Será uma forma de contribuir objectivamente para a gestão e pro- 4 5 Plataforma de Responsabilidade Introdução E se pensássemos... Ambiente e qualidade de vida são condições indissociáveis dos padrões de excelência que pretendemos continuar a implementar no concelho. Com equilíbrio e sensatez, as nossas preocupações de desenvolvimento têm obedecido ao estrito cumprimento de regras e normas ambientais, até porque se assim não fosse todo o trabalho estaria desarticulado. pretendemos estabelecer uma plataforma de responsabilidade entre todos na preservação de um ‘condomínio global’ No próximo dia 5 de Julho vamos assinar A Declaração de Gaia, documento no qual pretendemos estabelecer uma plataforma de responsabilidade entre todos na preservação de um ‘condomínio global,’ o nosso planeta. Queremos ser uma voz activa de alerta social para a importância de um contributo geral na preservação da Natureza, dos ecossistemas e do combate ao aquecimento global. Do macro para o micro, em Gaia vamos seguindo esse caminho. Em 2007 estabelecemos a nossa ‘Carta Verde,’ onde tomamos como meta o ano de 2010, onde queremos que cada gaiense possua 5,9 m2 de espaço verde. Através do Parque Biológico, convidamos as empresas a integrarem a nossa ‘bolsa imobiliária’ de dióxido de carbono, sendo padrinhos de um equilíbrio entre o mercado e o meio ambiente. Ao nível de espaços físicos, apostamos na requalificação da Baía de São Paio, analisamos e intercedemos na conjuntura da Serra de Negrelos e pugnamos por um Parque da Lavandeira de interligação com o desporto, saúde e lazer. Saliento também o importante contributo dado pela Agência Municipal de Energia, Energaia, no sentido de implementar uma regulação e controlo eficiente da iluminação pública, reduzindo com esta medida os custos implicados na facturação. Disponibilizamos um pacote de actividades de sensibilização ambiental nos estabelecimentos de ensino e temos infra-estruturas de estudo mais detalhado, através do Parque Biológico E. M. , Estação Litoral da Aguda e Centro de Educação Ambiental das Ribeiras de Gaia. Luís Filipe Menezes Presidente da C. M. de Gaia 6 ...a Terra como um imenso condomínio? Organizar a Vizinhança Global Esta é a época das alterações climáticas, uma época em que a humanidade assiste a um confronto sem precedentes, entre a nossa civilização e o planeta que habitamos. As alterações climáticas revelaram-nos que a estratégia de ‘ver para crer,’ de ‘provar para validar,’ falhou na rede de complexidade da natureza. A partir do momento em que se descobre que entre a crosta terrestre, o mar, a atmosfera e os seres vivos, existe um emaranhado de interligações permanentes que sustentam a vida no planeta, temos de adaptar o nosso ultrapassado conceito de vizinhança fronteiriça, a esta vizinhança verdadeiramente global. Somos todos funcionalmente dependentes de partes que circulam e se relacionam de forma incerta a nível planetário e de cujo consumo nenhum cidadão ou Estado se pode excluir. Todos dependemos de todos e nada se resolve isoladamente. As novas descobertas acerca do funcionamento do planeta, acrescidas de todas as ameaças globais que caracterizam a nossa época (económicas, ambientais, geopolíticas e sociais), criaram uma oportunidade única para, com uma visão de longo prazo, corrigir caminhos errados que têm vindo a ser percorridos nos últimos anos. É fundamental fazer evoluir as instituições multilaterais, adaptando-as ao mundo actual e ao funcionamento global da Biosfera. A globalização não basta ser nomeada, tem de ser vivida. Para corrigirmos o nosso relacionamento com o planeta, não é suficiente reduzir as emissões de gases que provocam as alterações climáticas globais. É necessário encontrar uma organização que permita compatibilizar os sistemas económico e jurídico com o carácter unitário e interdependente do sistema ambiental do planeta, assegurando a manutenção das partes comuns. 9 Partes Comuns diferentes, nos três grandes reservatórios. O ciclo da água não tem, por definição, nem princípio nem fim. E ninguém consegue parar ou dividir esse ciclo, ou sequer prever para onde é que a água vai a seguir. A hidrosfera está presente apenas de forma temporária no território dos Estados e sempre integrada no ciclo global. Como tal, é uma parte comum do planeta. Biodiversidade Embora a humanidade tenha dividido a superfície terrestre com linhas imaginárias de modo a poder exercer sobre elas a sua titularidade e soberania, a verdade é que o planeta comporta partes que não são passíveis de divisão jurídica – as partes comuns do planeta: A biodiversidade define-se como a totalidade dos recursos vivos e dos recursos genéticos do planeta. O conjunto das formas de vida do planeta compõe um ecossistema global e os serviços essenciais que a biodiversidade presta, não respeitam qualquer fronteira. Assim, a biodiversidade é uma parte comum do planeta. Atmosfera A atmosfera pode ser definida como uma fina camada de gases presa à Terra pela força da A Atmosfera, a Hidrosfera e a Biodiversidade, são partes comuns do gravidade. A atmosfera protege a vida no planeta, absorvendo radiação solar ultravioleta planeta. Não só porque ultrapassam todas as fronteiras e os serviços e variações extremas de temperatura entre o dia e a noite. O facto de criarmos fronteiras que prestam não podem ser divididos mas também porque todos e de definirmos Espaços Aéreos, não impede a livre circulação do ar, de forma constante, dependemos delas para viver e todos as podemos afectar de forma por todo o globo. Se nenhum país consegue evitar que a poluição produzida por outros positiva ou negativa. países o atinja, ou que o ar limpo que as suas florestas produzem permaneça no seu espaço aéreo, muito menos consegue isolar-se dos efeitos globais da alteração química da atmosfera que de forma contínua e cumulativa, temos provocado desde a revolução industrial. Devido ao carácter uno, limitado e interdependente da atmosfera e às suas constantes mutações e movimentações de massas de ar, esta é juridicamente indivisível. Como tal, é uma parte comum do planeta. Hidrosfera A hidrosfera define-se como o conjunto de todas as águas, compreendendo todos os rios, lagos, lagoas e mares e todas as águas subterrâneas, bem como as águas marinhas e salobras, águas glaciares e vapor de água. A água circula de forma incessante por todo o planeta, independentemente das fronteiras políticas. A quantidade de água existente à superfície da terra é de alguma forma sempre constante. Está num movimento permanente, já circulou milhões de vezes à volta de todo o planeta, sob as mais variadas formas. Todas as moléculas de água podem, teoricamente, passar por este ciclo mas demoram tempos 10 11 Partes Comuns e os Serviços dos Ecossistemas Uma Soberania Complexa Os ecossistemas são os ‘motores’ das partes comuns, ou seja, são eles que as beneficiam O Condomínio da Terra tem como objectivo conciliar a necessidade comum a todos os e desenvolvem. Por exemplo, uma floresta, beneficia a Atmosfera, fazendo trocas gasosas povos da posse de um território definido e delimitado, com a unidade interdependente da de CO2 por O2, beneficia a Hidrosfera, aumentando a humidade do ar e potenciando o ci- Biosfera. Esta harmonização é realizada através de uma proposta de coexistência de sobe- clo da água, protege o solo, beneficia a Biodiversidade pois é suporte de animais, plantas, ranias autónomas num espaço colectivo, ou seja, um poder político, supremo e indepen- fungos, etc... dente, relativo à fracção territorial de cada Estado, e partilhado, no que concerne às partes insusceptíveis de divisão jurídica, (atmosfera, hidrosfera e biodiversidade) das quais todos A Biodiversidade sustenta a regulação dos ciclos da natureza, sendo determinante no funcionamento dos serviços ambientais vitais. os povos são funcionalmente dependentes. Esta será pois a Soberania Complexa. As implicações globais, duradouras, cumulativas e combinadas da poluição, tornaram incontornável a necessidade da definição da titularidade comum da atmosfera, hidrosfera e biodiversidade. O Condomínio da Terra é uma proposta de evolução das instituições Estes serviços podem ser definidos como aqueles capazes de sustentar e satisfazer as internacionais e tem por base a indivisibilidade factual dos bens mais essenciais à nossa condições de vida humana (De Groot, 1992). Os ecólogos Paul e Anne Ehrlich enumera- existência. O sistema que articula e concilia a propriedade individual com a comproprie- ram os principais ‘serviços ecológicos’ prestados pelos sistemas naturais, essenciais ao ser dade das partes indivisíveis e as torna interdependentes, é o sistema jurídico do Condomí- humano: nio. 1. manter a qualidade do ar e controlar a poluição através da regulação da composição dos gases atmosféricos; O Condomínio, depois de separar e organizar 2. controlar a temperatura e o regime de chuvas através do ciclo biogeoquímico do carbono e da vegetação; permite que os interesses individuais e colec- 3. regular o fluxo de águas superficiais e controlar enchentes; e se tornem mesmo simbióticos, no sentido de 4. formar e manter o solo pela decomposição da matéria orgânica e pelas relações entre raízes de plantas e micorrízas; 5. degradar resíduos industriais e agrícolas e realizar a reciclagem de minerais; 6. reduzir a incidência de pragas e doenças através do controle biológico; 7. assegurar a polinização de plantas agrícolas e silvestres. o que são partes comuns e partes individuais, tivos, em muitos casos opostos, se conciliem Condomínio da Terra é uma proposta de evolução das instituições internacionais serem mutuamente dependentes. São vários os autores que sugerem que se utilizem institutos jurídicos civis provenientes de direitos nacionais, no direito internacional. Para alguns autores é mesmo recomendável, como salienta Christopher G. Weeramantry: “Face à velocidade do progresso e da tecnologia, os direitos nacionais e o direito internacional deverão seguir o movimento e aumentar a sua capacidade de rendimento e adaptação. Novos conceitos, novos procedimentos devem rapidamente ser imaginados para fazer face a situações inéditas resultantes do progresso da tecnologia.” Se no planeta os problemas que se nos deparam são os mesmos que num condomínio, isto é, se também aqui existe a necessidade de conciliar as parcelas individuais com a necessária gestão colectiva das partes juridicamente indivisíveis, porque não organizamos a Terra 12 13 como um imenso condomínio? Uma Economia de Simbiose A presente proposta alicerça-se pois, na experiência jurídica, amplamente testada, da propriedade condominial, agora trabalhada à escala da Casa Comum da Humanidade. Por analogia, propomos que a soberania que cada Estado exerce dentro do seu território seja exercida, em simultâneo, sob a forma de soberania partilhada relativamente às partes insusceptíveis de divisão jurídica. Por isso, e dada a circulação incerta e global da Atmosfera, Hidrosfera e da Biodiversidade e os seus serviços, propõe-se a existência de um administrador de condomínio que contabilize e organize o seu uso. A humanidade sempre dependeu dos serviços prestados pela Biosfera e os seus ecossistemas. Enquanto a necessidade destes serviços tem aumentado de forma exponencial, de forma inversa, as actividades humanas têm provocado uma forte diminuição da capacidade dos ecossistemas absorverem estes excessos. De modo discreto mas ininterrupto, os ecossistemas prestam os serviços que a humanidade mais necessita. No entanto, o seu real valor é omitido em avaliações financeiras por serem difusos e de difícil quantificação. Esta disfunção económica está na base da crise ambiental. Isto é, enquanto a nossa economia só a nossa economia só atribui valor à natureza depois de a destruir ou transformar atribuir valor à natureza depois de a destruir ou transformar e não valorar os serviços vitais que ela presta, está condenada à insustentabilidade. Os serviços ambientais prestados pelos ecossistemas são absolutamente essenciais para a manutenção dos suportes da vida, por isso, cuidar e recuperar os ecossistemas deve constituir uma actividade económica. Por exemplo, as florestas prestam serviços imprescindíveis: reciclam o ar, regulam o clima, contribuem para o ciclo da água, fornecem alimento e abrigo a animais e plantas, entre outros. No entanto, as árvores só têm valor económico quando são transformadas em madeira. Por isso já destruímos 80% da floresta original do planeta e, mantendo esta lógica, não conseguiremos evitar a sua destruição contínua. Em 1996, doze economistas e ecólogos, coordenados por Robert Costanza, chegaram à conclusão de que não existe alternativa senão a de encontrar um valor económico para os serviços ecológicos vitais. Propuseram-se então definir quais os serviços prestados pelos ecossistemas e estimar o seu valor. Dividiram a superfície do planeta em 16 biomas, de florestas tropicais até recifes de corais e definiram 17 categorias de serviços. O resultado foi a surpreendente estimativa de 33 mil biliões dólares (US$) por ano, quase o mesmo valor do produto interno bruto mundial. A composição da atmosfera e do solo, a circulação dos elementos pelo ar e pelos cursos hídricos e muitos outros bens e serviços ecológicos são o resultado de processos vivos, e todos são mantidos e reabastecidos por ecossistemas vivos. Se o valor destes serviços vitais é de alguma forma incalculável, precisamente porque são vitais, resta-nos a certeza 14 15 condições sustentáveis da Biosfera. Sumário dos Valores dos Serviços Prestados por Ecossistemas Serviço Ecológico Valor Global (US$ mil biliões/ano) Na prática, tem de ser feito um balanço do impacto, ou da pegada, de cada país sobre as Reciclagem de minerais, em especial carbono, nitrogénio e fósforo 17,07 partes comuns. Quem as afecta positivamente é compensado por quem as afecta negativa- Valor cultural (estético, artístico, científico e espiritual) 3,01 mente. Tratamento de resíduos e filtragem de produtos tóxicos 2,28 Controle de distúrbios climáticos como tempestades, enchentes e secas 1,78 Armazenamento de água em bacias hidrográficas, reservatórios e aquíferos 1,69 Produção de alimentos (pescado, caça, produtos extrativistas) 1,39 Com este novo sistema, cada país vai procurar, por um lado, danificar o mínimo possível Regulação dos níveis de gases atmosféricos poluentes (CO2, O2, SOx, etc.) 1,34 as partes comuns e, por outro, cuidar delas o melhor possível. Da tradicional economia, Regulação de fluxos hidrológicos que suprem águas industriais e de irrigação 1,11 baseada apenas na produção, é necessária uma evolução para uma economia em que a Recreação (ecoturismo, pesca desportiva, actividades ao ar livre) 0,81 manutenção e reposição dos serviços vitais sejam incorporadas na avaliação da riqueza e Fonte de matérias-primas (madeira, combustíveis e rações animais) 0,72 do bem-estar de cada sociedade. Só com esta avaliação, em que todos os serviços vitais Regulação de gases que afectam o clima, especialmente CO2, NO2, CH4 e CFC 0,68 estão incluídos, é que os objectivos de sustentabilidade poderão deixar de ser meras boas Controle de erosão e sedimentação através da retenção do solo 0,57 intenções. Num planeta finito, é insustentável aplicar um sistema de valoração económica Controle biológico de pragas e doenças 0,42 baseado numa produção infinita. Protecção de habitats utilizados na reprodução e migração de espécies 0,12 Preservação de polinizadores vitais para a reprodução de plantas 0,11 Para entender o conceito agora proposto, é fundamental distinguir a soberania ou proprie- Fonte de material genético para melhoramento e controle de pragas 0,08 dade que é exercida sobre os ecossistemas, dos serviços que estes prestam. Estes serviços Intemperismo da rocha-matriz e formação do solo 0,05 não se confinam a nenhuma linha de fronteira, a nenhuma forma de titularidade ou so- Fonte: Adaptado de Constanza e Outros (1997) a economia deve estar ao serviço das necessidades vitais da humanidade berania, são ‘usados’ por todos, em qualquer ponto do planeta e por isso são de interesse comum. de que os ecossistemas prestam serviços cujo valor económico deveria ser muito superior aos lucros gerados pela exploração tradicional dos seus recursos. Este estudo demonstrou que o valor indirecto dos ecossistemas é muito maior que o valor de mercado dos seus produtos. A Economia de Simbiose propõe uma integração daquilo a que se poderia chamar de ‘economia da manutenção dos sistemas vitais’ com a economia de produção, tornando-as simbioticamente dependentes. Utiliza-se a palavra ‘Simbiose’, porque em biologia a relação simbiótica implica uma inter-relação de tal forma íntima entre os organismos Um exemplo é a estimativa, feita nas Honduras, de que os habitantes das florestas do país envolvidos que se torna obrigatória. Sem os serviços ambientais vitais dos ecossistemas, retiravam delas de 17,8 a 23,7 dólares/hectare ao ano em bens de consumo e de mercado, nem nós nem a nossa economia podem existir. Logo, esta relação da nossa economia com irrisórios em relação ao valor dos serviços ecológicos das florestas tropicais, avaliado em os ciclos e serviços naturais é obrigatória. A Economia de Simbiose só será possível atra- 1.660 dólares/hectare no estudo de Robert Costanza. vés de uma articulação do conceito jurídico de partes comuns com o sistema económico, Porque a economia deve estar ao serviço das necessidades vitais da humanidade, é necessário atribuir um valor, não às árvores em si, mas aos serviços que as florestas e todos os outros ecossistemas prestam. Estes serviços, que afectam de forma positiva as partes comuns, são os serviços de que mais precisamos hoje e mais vamos precisar no futuro. Adaptando-se às novas necessidades e ao recém-descoberto funcionamento do planeta, a economia terá de fomentar a redução do uso das partes comuns e ao mesmo tempo 16 que por sua vez já reconhece a existência de uma falha de mercado, devido à inexistência de uma instituição de troca onde o sujeito que afecta positivamente outro(s) receba uma compensação por isso ou o sujeito que afecta negativamente outro(s) suporte o respectivo custo. Essa instituição de troca, esse administrador de um condomínio global, deveria ser preferencialmente um organismo já existente, por exemplo, a Organização das Nações Unidas com novas funções. recuperar a quantidade total dos serviços prestados pelos sistemas naturais, equilibrando Embora seja prioritário controlar as emissões de CO2, a abordagem deste problema numa esta capacidade com o nosso uso. O grande desafio é criar um modelo que promova a perspectiva exclusiva de redução de emissões, pode a breve prazo trazer novos problemas produção e manutenção dos bens vitais e que ao mesmo tempo faça repercutir os verda- associados, uma vez que ficam de fora uma série de serviços ecológicos fundamentais ao deiros custos de produção dos bens não essenciais que contribuem para a destruição das funcionamento dos ciclos que sustentam a vida. 17 A Terra é já um Condomínio? Como foi já demonstrado, a Biosfera possui partes comuns que requerem manutenção. Este facto obriga a existência de uma organização que zele pelo funcionamento dessas partes e procure um equilíbrio entre os diferentes usos, por parte de cada um. Esta tarefa só pode ser realizada através de um trabalho contínuo que assegure uma série de serviços permanentes de interesse comum de que toda a humanidade depende. No nosso planeta existem soberanias separadas, que actuam de forma concorrencial sobre partes que não são separáveis e que são de utilização conjunta. ainda não foi aceite a titularidade comum das partes indivisíveis... individualizadas a coexistir com partes inseparáveis, a total dependência de todos os Tal como nos prédios em que vivemos, também no nosso planeta conseguimos encontrar condóminos relativamente ao estado das partes comuns e ainda o facto de nenhum deles todos os pressupostos necessários para a constituição de um condomínio. Existem partes se poder auto-excluir da sua utilização. A grande diferença reside no facto de, no nosso planeta, não existir a prossecução de interesses comuns uma vez que ainda não foi aceite a titularidade comum das partes indivisíveis e a consequente necessidade de administração comum. Para todos os efeitos, e porque o uso em excesso das partes comuns provoca sempre um prejuízo a todos os outros, da mesma forma que quem cuida destas partes, afecta de forma positiva todos os outros, todos os Estados, independemente das zonas económicas exclusivas ou dos espaços aéreos, vivem na condição de partilharem o dominium sobre as partes comuns e de usufruírem, igualmente de forma partilhada, dos serviços vitais dos ecossistemas. Portanto, o Condomínio da Terra já existe, só que este condomínio está desorganizado e sem zelador/ administrador. Uma das regras para o funcionamento de um sistema de condomínio é que ele só funciona com todos os vizinhos, o que pressupõe um Princípio de Não Exclusão. Neste sentido, os Condóminos da Terra serão todas as pessoas individuais ou colectivas, de direito privado ou público que, por livre e espontânea iniciativa, reconheçam esta condição. 18 19 Um Movimento Global de Cidadania Tendo em conta que, neste momento, os objectos da definição deste interesse comum são a Atmosfera, Hidrosfera e a Biodiversidade, teremos de partir das suas características para podermos encontrar um critério válido, susceptível de harmonizar o relacionamento entre os vários estados. O único critério válido que poderia sustentar algum consenso na definição do uso de partes comuns, seria o critério da distribuição equitativa per capita. Tal critério, ao qual corresponde “um direito per capita a uma quota-parte da capacidade do vazadouro atmosférico, indexado à projecção actual das Nações Unidas para o crescimento demográfico por país em 2050” (Singer, 2004, p.77) será uma concretização do “direito de visita” temporalmente alargado a todas as gerações, “que assiste todos os homens, em virtude do direito da propriedade comum, da superfície da Terra,” tal como preconizou Kant. Daqui deriva esse direito cosmopolita inalienável e inter-geracional de uso do meio ambiente e o correlativo dever de uso sustentável dos bens comuns por parte de cada geração. O facto de cada ser humano, ter direito, na sua curta visita ao Sistema Natural Terrestre, a uma quota-parte do uso dos bens ambientais, permite-lhe não só partilhar o uso desse bem ambiental com os seus contemporâneos, como também com eles decidir a forma comum do uso desse bem que está temporariamente a ser usufruído pela geração a que pertence. Logo, a votação relativa de cada condómino, não só para a escolha do administrador do condomínio como para a definição dos assuntos relativos à prossecução do interesse comum, deverá ser cotejada em função do número de habitantes de cada soberania. Esta será a base da legitimidade da cidadania global. O único critério válido (...) seria o critério da distribuição equitativa per capita. 20 21 A própria Declaração Universal dos Direitos do Homem, integra-se nesta lógica, dado que, em termos jurídicos, esta “só pode ser seriamente equacionada à escala universal Gaia, Conceito Universal em ligação íntima com os direitos ao desenvolvimento ou a um ambiente ecologicamente equilibrado” (Cassese, p.141). Como também entende Peter Singer, “nos casos em que não há um critério claro para atribuição de quotas-partes, este pode ser um compromisso ideal que conduzirá a uma solução pacífica, e não a disputas prolongadas” (Singer, 2004, p. 78). Não se pretende com este movimento chegar ao desenho final dos processos decisórios no quadro de uma possível administração do Condomínio Terra, designadamente, em matéria As ideias nucleares da Teoria de Gaia suscitaram uma mudança substancial na percep- da definição da política comum de ambiente ou de um sistema de valoração global dos ção que temos do planeta. Gaia é uma teoria científica, elaborada por James Lovelock, serviços vitais do ambiente, mas tão só a proposição de uma ideia, de um modelo que que apresenta o planeta Terra como um único organismo vivo. A teoria foi apresentada parece fazer todo o sentido que seja aproveitado à escala global. em 1969 afirmando que é a Biosfera que gera, mantém e regula as condições para a sua própria sobrevivência. O nome escolhido para esta teoria foi o de Gaia devido ao facto de O Condomínio da Terra pretende ser um movimento global de cidadania que tem cons- na mitologia grega, Gaia ser a deusa da Terra. ciência desta interdependência global de todos os cidadãos e estados e do consequente A abordagem holística da Teoria de Gaia, é profundamente ino- direito de cada um a participar no futuro comum. Esta vivência em sistema de condomínio, em que os interesses individuais de cada Estado se misturam de forma interdependente com os interesses comuns de todos os Estados, não corresponde a nenhuma ideologia política de carácter individualista ou comunitarista, mas sim a uma realidade factual que nos é pré-existente. não faz muita diferença falar-se em Biogeoquímica ou em Teoria de Gaia vadora pelo trabalho extremo de juntar o que estava separado e assumir o desafio de pensar global arriscando pelos caminhos complexos da interdisciplinaridade. A explicação da rede de retroalimentação descrita por Lovelock e Margulis, em que os seres vivos e o ambiente físico formam um sistema em evolução intimamente interligado e indivisível, do qual resulta a auto-regulação do clima e a composição química atmosférica, teve a coragem de fugir da segurança que apenas a descoberta isolada e desconectada do sistema global, pode garantir. Esta possibilidade abriu portas à junção da Geologia, Microbiologia, Química Atmosférica, Biologia Evolutiva, Ecologia e outras ciências numa abordagem integrada de uma série de fenómenos naturais, em que as rochas, o ar e os oceanos são sistemas fortemente conjugados, que evoluem por um processo único e não por vários processos separados. Afinal, no que diz respeito à interdisciplinaridade, não faz muita diferença falar-se em Biogeoquímica, ou em Teoria de Gaia. Gaia representa este planeta vivo que é muito mais do que uma colecção de seres vivos e ecossistemas, é uma complexa e transcendente rede de ligações, uma união de seres e fenómenos que produz um todo incomparavelmente maior que a soma das partes. Todos reconhecem que, aceitando ou não a teoria Gaia, temos de reflectir com muita seriedade sobre as consequências da actuação do homem no planeta, uma vez que as alterações climáticas tornaram claro que o sistema natural terrestre é profundamente interdependente. 22 23 Gaia, Deusa da Terra Gaia, Cidade Portuguesa Na mitologia grega, Gaia é a personificação da Terra como Deusa. Foi uma das primeiras divindades a surgir no universo e mãe de todas as coisas. Nasceu imediatamente depois de Caos. E é a deusa Gaia que, ao separar a terra dos céus, vem ordenar o cosmos e terminar com o caos. Neste processo dá origem a inúmeras outras divindades e também aos oceanos, às montanhas, às plantas, aos animais… Por isso ela personifica a origem do mundo, o triunfo, a propiciadora dos sonhos, a protectora da fecundidade e dos jovens.O nome Gaia, Géia ou Gê, é utilizado como prefixo para designar as diversas ciências relacionadas com o estudo do planeta, como por exemplo: Geografia e Geologia. O caos em que vivem hoje os vizinhos deste planeta, exige uma tarefa urgente de organização, para que o ‘telhado’ não se abata sobre todos. Desta vez, usando a mesma metáfora, precisamos de novo de uma Gaia que organize a vida na Terra, mas de uma nova forma, separando o que pode ser alvo de soberania de cada Estado, o território, daquilo que não é separável e requer uma gestão comum: os céus, toda a água do planeta e a biodiversidade. O tarefa é de tal forma gigante para a humanidade, que não será demais invocar Deuses. Para (...) mudar um destino que parece não ter solução, esta cidade aceita este desafio. No Norte de Portugal, frente à Cidade do Porto, está localizada a Cidade de Gaia a qual, pelo próprio nome, quer assumir-se como um local onde a questão da tão necessária organização da vizinhança global seja debatido, porque este é um problema de homens e mulheres. Embora palavra homónima, aqui, o nome Gaia tem origem diversa do nome da deusa grega. O nosso nome teve origem na palavra Cale (ou Gale, no latim clássico). Desta ligação de proximidade entre vizinhos nasceu a palavra PortusCale que por sua vez evoluiu e deu origem ao nome do país – Portugal, que não deixa de significar o Porto de Gaia. 24 25 Declaração de Gaia Declaração Constitutiva do Condomínio da Terra Preâmbulo Considerando que: As alterações climáticas são consequência de uma alteração química da atmosfera provocada essencialmente pelas actividades humanas e se tornaram numa realidade ameaçadora para todos os povos do planeta; Situada na margem sul da foz do Rio Douro, na região do Porto, Gaia é a 3ª maior cidade de Portugal com mais de 300.000 habitantes. É em Gaia que se situam as caves do Vinho do Porto, uma das suas maiores riquezas e emblemas. A zona ribeirinha, onde vai ter lugar o Compromisso de Gaia, configura um cenário deslumbrante com as pontes monumentais a ligarem Gaia e Porto e ambas as cidades a revelarem sem pudor o melhor do seu património histórico sobre as suas colinas de granito, espelhadas no rio Douro, ondulado pelos barcos Rabelos. Embora bastante desenvolvida e cosmopolita, Gaia conta com riquezas naturais ímpares, com rio, praias e mar, parques naturais e zonas rurais bem preservadas. Para que Gaia não seja apenas uma figura mitológica longínqua e distante, mas um símbolo vivo que pode e sabe mudar um destino que parece não ter solução, a cidade de Gaia aceita este desafio. Mário Fontemanha Vereador do Ambiente da C. M. Gaia Disposições Gerais Artigo 1º Âmbito A composição da atmosfera e do solo, a circulação dos elementos no ar e nos recursos hídricos, e todos os bens e serviços ecológicos, são o resultado de processos bióticos e abióticos, todos mantidos e reabastecidos pelos ecossistemas. A presente Declaração é o documento constitutivo do Condomínio da Terra, um movimento global, da iniciativa de cidadãs, cidadãos e instituições de todo o planeta, dirigido a todos os actores da comunidade internacional. A Biosfera possui bens que circulam de forma incerta e permanente a nível planetário e, como tal, a Atmosfera, Hidrosfera e Biodiversidade são material e juridicamente indivisíveis; Artigo 2º Objecto Todos os povos estão em contacto directo com estes bens, dos quais todos são funcionalmente dependentes, pelo que nenhum cidadão ou Estado se pode excluir do seu consumo, podendo todos, individual ou colectivamente, afectá-los de forma positiva ou negativa; O uso em excesso de cada um destes bens ambientais provoca sempre um prejuízo em todos os outros, sendo necessário criar um sistema económico que potencie a redução desse uso, assegure a conservação dos ecossistemas remanescentes e promova a recuperação da integridade dos ecossistemas destruídos; Enquanto a nossa economia só atribuir valor à natureza depois de a destruir ou transformar e não valorar os serviços vitais que ela presta, está condenada à insustentabilidade; O sistema jurídico que articula e compatibiliza a propriedade individual com a compropriedade de partes indivisíveis e ao mesmo tempo assegura um sistema financeiro de cuidado das partes comuns, é o sistema jurídico do Condomínio; Convictos de que “só na prossecução dos interesses comuns, poderemos garantir a cada um o seu direito” (I. Kant), convidam-se todos os cidadãos e instituições deste planeta a assinarem a presente declaração – um acordo global de cidadãos e instituições que preconiza a gestão global da sua Casa Comum. 26 Tendo por base a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a presente Declaração proclama os seguintes princípios: O Condomínio da Terra ambiciona compatibilizar a organização interna das sociedades humanas com o funcionamento global e interdependente da Biosfera. Artigo 3º Princípio Geral O Planeta Terra é indivisível, limitado e vivo. Entre o espaço físico da crosta terrestre, a atmosfera, o mar e os seres vivos existem complexas interacções que sustentam a vida. A Terra Viva, explicada pela Teoria de Gaia de James Lovelock, comporta-se como um sistema auto-regulado, constituído por componentes físicas, químicas, biológicas e humanas. Artigo 4º Um Problema do Ser Humano A crise ambiental tem origem numa deficiente adaptação das sociedades humanas às circunstâncias impostas pelo planeta que habitam. Esta unidade do funcionamento global da Biosfera, revelou uma vizinhança não só global mas também intergeracional. Artigo 5º Partilha de Danos e Benefícios A vizinhança global coloca-nos na condição irrenunciável de todos sermos condóminos da Terra, partilhando de forma involuntária os danos e os benefícios que cada um de nós provoca nos bens indivisíveis do planeta. 27 Artigo 6º Divisão Equitativa Artigo 9º Das Partes Comuns Todo e qualquer cidadão do planeta tem direito a uma quota equitativa de uso da Atmosfera, da Hidrosfera e da Biodiversidade. Este é um direito fundamental de cada pessoa, inerente à própria condição humana. A quota individual varia em função do número de cidadãos que em cada momento habitam o planeta. Embora a humanidade tenha dividido a superfície terrestre com linhas imaginárias, as fronteiras, a verdade é que o planeta comporta partes que não são passíveis de divisão jurídica. Por isso, para fins da presente Declaração, consideram-se como partes obrigatoriamente comuns a todos os povos do planeta: Artigo 7º Objectivos A presente Declaração pretende alcançar os seguintes objectivos: • Integrar os sistemas jurídico e económico das sociedades humanas na forma de funcionamento da Biosfera; • Estabelecer de forma clara a separação entre os bens que podem ser alvo de uma forma de titularidade privada ou estatal e os que são juridicamente indivisíveis; • Valorar economicamente os serviços vitais de interesse comum, realizados pelos ecossistemas, e que ultrapassam os limites das soberanias estatais e da propriedade; • Regular o uso das partes comuns e a prestação dos serviços de interesse comum; • Partilhar os custos da reconstrução/compensação dos danos provocados sobre as partes comuns, tendo em conta as diferentes participações de cada um para a sua degradação. • Atingir objectivos, não só de conservação da natureza e fomento dos serviços ecológicos, mas também de maior justiça social entre quem cuida de ecossistemas e quem os usa para lá dos limites equitativos. Artigo 8º Soberania Complexa A Soberania Complexa é uma proposta de coexistência de soberanias autónomas num espaço colectivo, ou seja, um poder político, supremo e independente, relativo à fracção territorial de cada Estado, e partilhado, no que concerne às partes insusceptíveis de divisão jurídica, (Atmosfera, Hidrosfera e Biodiversidade) das quais todos os povos são funcionalmente dependentes. a) A Atmosfera é definida como a fina camada de gases presa em torno da Terra pela força da gravidade. A atmosfera protege a vida no planeta Terra, absorvendo radiação solar ultravioleta e amenizando as variações extremas de temperatura entre o dia e a noite. A atmosfera circula de forma global sem respeito pelo espaço aéreo de cada Estado. b) A Hidrosfera é definida como o conjunto de todas as águas do planeta ou a camada descontínua de água sobre a superfície do planeta. Compreende todos os rios, lagos, lagoas, mares e águas subterrâneas, bem como as águas marinhas e salobras, águas glaciares e vapor de água, e circula de forma incessante por todo o planeta, independentemente das fronteiras políticas. A hidrosfera está presente apenas de forma temporária no território dos Estados e sempre integrada no ciclo global. c) A Biodiversidade é definida como a totalidade dos recursos vivos e genéticos do planeta. A Biodiversidade, que vai desde as bactérias aos animais, passando pelas plantas, fungos, entre incontáveis outros seres, é determinante no funcionamento dos serviços ambientais vitais. Artigo 10º Serviços Vitais Ecológicos de Interesse Comum Entende-se por Serviços Ecológicos Vitais de Interesse Comum, todos os processos ecológicos, realizados pelos ecossistemas, que beneficiam e desenvolvem as partes comuns, e que podem ser definidos como aqueles capazes de sustentar e satisfazer as condições de vida humana. Não são limitados por nenhuma forma de titularidade ou soberania, pois produzem benefícios de que todos usufruem e, por isso, são inevitavelmente globais e de interesse comum. Artigo 11º Propriedade e Soberania A existência de partes comuns não esvazia os poderes das diferentes formas de propriedade e de soberania que se exercem sobre os territórios. É necessário distinguir a titularidade ou a soberania exercida sobre os ecossistemas, dos Serviços Ecológicos Vitais de Interesse Comum que eles prestam e que ultrapassam todas as fronteiras. 28 Artigo 12º Partes comuns de Usufruto Privado Apesar da circulação global das partes comuns, é frequente a sua permanência, por diferentes períodos de tempo, no interior do território dos diferentes Estados. Durante estes períodos, essas partes comuns ficam afectas ao uso exclusivo desse Estado, embora não deixem de estar sujeitas às regras do Condomínio da Terra que disciplinam o seu uso, fruição e conservação. Artigo 13º Princípio da Não Exclusão Todo e qualquer cidadão do planeta tem direito a participar directa ou indirectamente na administração dos bens globais indivisíveis, tendo como matriz a sua quota equitativa. Esta participação não pode ser recusada a pretexto de cor, raça, sexo ou religião. Todos os cidadãos, organizações civis ou Estados, são condóminos do Condomínio da Terra. Artigo 14º Cuidar das Partes Comuns Toda e qualquer actividade que realize a manutenção ou recuperação da integridade dos ecossistemas, que promova a sustentação dos Serviços Ecológicos Vitais de Interesse Comum, constitui uma actividade de cuidar das partes comuns. A redução de uma actividade que afecta de forma negativa as partes comuns é igualmente considerada uma actividade de cuidar. Artigo 17º Entidade de Troca A entidade de troca que venha a colmatar a falha de mercado que existe entre quem afecta de forma positiva os bens comuns e quem os usa para lá dos limites equitativos, deverá ser encontrada entre um dos organismos internacionais já existentes, ao qual deverão ser atribuídas as novas funções. Artigo 18º Urgência A cada novo estudo sobre alterações climáticas renovam-se evidências e cenários cada vez mais alarmantes, que revelam o atraso de uma resposta prática, alargada e eficaz. Organizarmos a nossa vizinhança global é urgente e tem de ser uma prioridade da agenda mundial. Artigo 19º Da Amizade Entre os Povos Embora a amizade entre nações seja um objectivo a perseguir, não é condição necessária para a organização do Condomínio da Terra e a prossecução de interesses comuns a todos os povos. Assine a declaração online: www.condominiodaterra.org Artigo 15º Economia de Simbiose A Economia de Simbiose constitui uma proposta de articulação da já aceite necessidade de valoração económica dos Serviços Ecológicos Vitais de Interesse Comum, com uma nova aproximação jurídica relativa às partes comuns, permitindo assim a sua gestão global e assegurando a sua conservação e uso sustentável. Porque a economia deve estar ao serviço das necessidades vitais da humanidade, toda a actividade de Cuidar das Partes Comuns, deve ser um activo económico contabilizado nos índices de riqueza de uma nação e que, como tal, é devidamente compensada por quem usa os bens comuns para lá dos limites equitativos. Artigo 16º Nova Contabilidade É insustentável continuar a confundir degradação da Biosfera com desenvolvimento e a considerar que a sua manutenção é sinónimo de atraso e empobrecimento. É necessário encontrar uma nova fórmula de medir o crescimento, em que a depreciação dos activos ambientais e a manutenção e recuperação destes activos que cada país realizou, sejam incluídos na contabilidade do Produto Nacional Bruto de cada país. Só assim poderemos ter indicadores fidedignos da riqueza, orientados no sentido do bem-estar e da qualidade de vida, que não existe sem qualidade ambiental. 29 Quercus, uma Associação com História A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, foi fundada a 31 de Outubro de 1985. É uma associação independente, apartidária, de âmbito nacional, sem fins lucrativos e constituída por cidadãos que se juntaram em torno do mesmo interesse pela Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais e na Defesa do Ambiente em geral, numa perspectiva de desenvolvimento sustentado. A Associação designa-se Quercus, por serem os Carvalhos, as Azinheiras e os Sobreiros (cuja designação comum em latim é: Quercus) as árvores características dos ecossistemas florestais mais evoluídos que cobriam o nosso país e de que restam, actualmente, apenas relíquias muito degradadas. Desde a sua fundação, a Quercus tem vindo a ocupar na sociedade portuguesa um lugar, simultaneamente irreverente e construtivo, da defesa das múltiplas causas da natureza e do ambiente. Este estatuto foi progressivamente conquistado através de uma conduta atenta ao real, sem perder o ponto de referência fundamental dos princípios, nem se afastar das necessidades de complementar a denúncia crítica com o esforço para a construção de consensos na sociedade portuguesa, sem os quais nenhum efectivo modelo de desenvolvimento sustentável será possível no nosso país. Uma das características da Quercus é a sua descentralização. De facto, existem Núcleos regionais da Quercus espalhados um pouco por todo o país, incluindo as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Em 1992, a Associação recebeu o Prémio Global 500 das Nações Unidas e o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído pelo Senhor Presidente da República, Dr. Mário Soares. 30