SANEANTES DOMISSANITÁRIOS E SAÚDE:
UM ESTUDO SOBRE A EXPOSIÇÃO
DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS
LILIA MODESTO LEAL CORRÊA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
NÚCLEO DE ESTUDOS EM SAÚDE COLETIVA
MESTRADO EM SAÚDE COLETIVA
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: PRODUÇÃO, AMBIENTE E SAÚDE
ORIENTADOR:
PROF. DR. VOLNEY DE MAGALHÃES CÂMARA
Professor Titular da Faculdade de Medicina/UFRJ
Professor Titular do NESC/UFRJ
RIO DE JANEIRO
2005
II
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
NÚCLEO DE ESTUDOS EM SAÚDE COLETIVA
SANEANTES DOMISSANITÁRIOS E SAÚDE:
UM ESTUDO SOBRE A EXPOSIÇÃO
DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS
LILIA MODESTO LEAL CORRÊA
Dissertação apresentada com vistas à obtenção do título
de Mestre em Saúde Coletiva
Área de concentração: Produção, Ambiente e Saúde
ORIENTADOR:
PROF. DR. VOLNEY DE MAGALHÃES CÂMARA
RIO DE JANEIRO
2005
III
SANEANTES DOMISSANITÁRIOS E SAÚDE:
UM ESTUDO SOBRE A EXPOSIÇÃO
DE EMPREGADAS DOMÉSTICAS
Lília Modesto Leal Corrêa
Dissertação submetida ao corpo docente do Núcleo de Saúde Coletiva da UFRJ como parte dos
requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.
Aprovada por:
__________________________________
Prof. Dr. Volney de Magalhães Câmara – Orientador
Professor Titular da Faculdade de Medicina/UFRJ
Professor Titular do NESC/UFRJ
_______________________________________
Prof. Dra. Heloisa Pacheco Ferreira
Professora Adjunta do Departamento de Medicina Preventiva/UFRJ
Professora Adjunta do NESC/UFRJ
________________________________________
Profa. Dra. Laís de Carvalho
Professora Adjunta do Departamento de Histologia e Embriologia/UERJ
RIO DE JANEIRO
2005
IV
614.07
C824
Corrêa, Lília Modesto Leal
Saneantes domissanitários e saúde: um estudo sobre a exposição de empregadas
domésticas/ Lília Modesto Leal Corrêa. – Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.
xi, 94 f.; il.
Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Universidade Federal do Rio de
Janeiro – UFRJ, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – NESC.
Orientador: Volney de Magalhães Câmara
Inclui referências bibliográficas: f. 69 – 74
1. Saúde Pública 2. Empregadas Domésticas – Saúde 3. Saneantes
Domissanitários I. Câmara, Volney de Magalhães (Orientador) II. Universidade
Federal do Rio de Janeiro – Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC) III.
Título.
V
RESUMO
Os agentes químicos utilizados nos saneantes domissanitários têm provocado fortes
impactos ambientais e sérios danos à saúde humana. Nossa pesquisa pretende realizar
uma investigação preliminar tomando como universo um grupo de empregadas domésticas
que estudam numa mesma instituição de ensino. Por meio de entrevistas organizadas a
partir de um questionário pré-elaborado, investigamos a percepção de risco que essas
profissionais desenvolvem à medida que acumulam experiência no desempenho de sua
função. Fizemos também um levantamento das principais atividades realizadas, e dos
principais produtos de limpeza utilizados, averiguando, ademais, numa amostra
selecionada aleatoriamente, o nível de compreensão das informações técnicas contidas
nos rótulos das embalagens, bem como a adesão dos sujeitos às orientações de
segurança aí presentes. Na variável relacionada ao relato de risco à saúde, 23,9% das
trabalhadoras entrevistadas afirmaram terem tido algum problema já no primeiro emprego;
61,6% perceberam algum risco durante o segundo emprego; e 77,3% reconhecem que
durante o terceiro emprego tiveram algum problema de saúde associado ao uso de
produtos de limpeza. Quanto à leitura e entendimento das informações contidas nos rótulos
das embalagens, 24,8% do nosso universo o fazem; 23,6% declararam que apenas às
vezes; e 51,6% das trabalhadoras afirmaram que nunca consultam as instruções para
manuseio do produto. A variável referente à compreensão das informações presentes no
rótulo também apresentou um percentual significativo (52,2%) para aquelas que nunca
entendem o que está escrito; 31,2% declararam que compreendem às vezes, e apenas
16% compreendem freqüentemente.
Palavras-Chave: saneantes domissanitários, empregadas domésticas, riscos à saúde
VI
ABSTRACT
Chemical agents used in household cleaning materials have produced strong environmental
impacts and caused serious damage to their users’ health. Our research is directed toward
a preliminary investigation of these impacts on a universe of domestic servants who are all
studying at the same institution. Conducting interviews based on a prepared questionnaire,
we investigate the extent to which these employees develop a perception of the inherent
risks as they accumulate experience with the cleaning materials. We look additionally at the
principal tasks involved as well as the main cleaning products used, and evaluate at the
same time the level of understanding in a randomly selected group of the technical
information supplied on the labels and the degree to which precautionary suggestions about
their use are followed.
Perception of health risks were discovered in a sampling of 23.9% of servants on their first
job; 61.6% were aware of some risk by the time of their second job; and 77.3% realized that
they had incurred some health problem arising from use of the detergents by their third job.
24.8% of the respondents said the read and understood information on the labels, whereas
only 23.6% claimed to do so occasionally. 51.6% of the servants said that they never
consult instructions on the product labels. Insofar as understanding what is written on the
labels, a significant portion (52.2%) said they never understood such printed information,
whereas 31.2% claimed to understand the precautions occasionally and 16% frequently.
Key words: household cleaning products, household servants, health risks
VII
AGRADECIMENTOS
Ao doutor Volney de Magalhães Câmara, meu querido orientador, pela acolhida,
paciência e respeito por saber compreender o tempo de amadurecer as idéias, e também
pelo incentivo nestes dois anos de convivência.
À doutora Heloisa Pacheco, querida amiga, pelas orientações nos momentos
iniciais que me ajudaram a trilhar o caminho para realização de um sonho.
À doutora Laís de Carvalho, amiga de longa data, pela disponibilidade e
contribuição como membro da banca neste trabalho.
Ao doutor Herling Gregório Aguilar Alonzo, pelas sugestões durante a
construção deste trabalho.
À Maria Izabel de Freitas Filhote, pela solidariedade nas incógnitas horas de
solidão, quando me encontrava perdida num turbilhão de idéias... Obrigado por ensinar a
fazer da realidade uma fonte de aprendizagem.
À Maria Imaculada Medina Lima, a força para começar e a luz para um caminho,
sua ajuda foi de grande importância.
À Sigrid Haikel, amiga e colaboradora, sempre presente nos caminhos tortuosos
que me levaram a este tema.
À Delvaci, sempre com seu sorriso e paciência para comigo durante toda a
nossa convivência ao longo desses anos.
Ao Geraldo de Oliveira e ao João Cruz, pela presteza e carinho que sempre me
acolheram nas horas difíceis.
A todo o pessoal do NESC, doutores, mestres e funcionários, pelo apoio e
amizade, e também por terem me agüentado por todo esse tempo.
Aos colegas de turma , pela acolhida nesta jornada tão preciosa da minha vida.
Ao Colégio Santo Inácio e ao Professor Carlos Alberto Gomes dos Santos,
Diretor do Curso Noturno, por mais uma vez acolher a idéia de uma pesquisa na instituição.
Obrigado pela oportunidade, confiança e credibilidade na construção desse trabalho.
VIII
À Neusa Maria Gonçalves Rocha, Coordenadora do Serviço de Orientação do
Curso Noturno do Colégio Santo Inácio, e toda sua equipe pelo carinho, ajuda e presteza
de criar a possibilidade para esta pesquisa acontecer.
A todos os educadores do Curso Noturno do Colégio Santo Inácio, sempre
disponíveis, compartilhando momentos de intenso trabalho.
A todas as alunas do Curso Noturno do Colégio Santo Inácio, que com suas
alegrias e sofrimentos, em momento algum se recusaram a atender qualquer solicitação
para que esta pesquisa acontecesse... Este trabalho é de vocês!
Ao Toni Faria, um anjo que caiu do céu, grande incentivador para concretização
deste trabalho.
À Regina Guariglia, pelo apoio pessoal e por me ajudar a buscar forças dentro
de mim quando muitas portas pareciam se fechar na minha frente.
Ao André Rapozo, pelos agradáveis momentos em sua companhia durante as
nossas reflexões pelas serras cariocas.
Aos meus grandes amigos que me suportaram nestes anos de luta, e sem os
quais não teria concluído este trabalho.
A todos, muito obrigada!!!
IX
“O que provém unicamente do coração
conquistará para si o coração dos outros”
Goethe
X
LISTA DE GRÁFICOS, QUADROS E TABELAS
Página
Gráfico 1. Principais casos de intoxicação no Brasil, por agentes (2001)......................................12
Gráfico 2. Principais casos de intoxicação na região Sudeste, por agentes (2001)........................13
Quadro 1. Principais substâncias químicas encontradas em domissanitários,
com indicação de danos causados ao organismo humano............................................14
Tabela 1. Vendas de domissanitários, por país latino-americano, em bilhões de US$
(1996-2000)....................................................................................................................17
Tabela 2 . Previsão de venda de produtos domissanitários, por país latino-americano,
em bilhões de US$ (2000-2005)......................................................................................18
Tabela 3 . Vendas de produtos domissanitários, por setor, em bilhões de dólares
(1996-2000).....................................................................................................................19
Tabela 4a. Distribuição de variáveis selecionadas sobre exposição a saneantes
domissanitários segundo trabalhadoras domésticas estudadas........................................54
Tabela 4b. Distribuição de variáveis selecionadas sobre exposição a saneantes
domissanitários segundo trabalhadoras domésticas estudadas........................................58
Tabela 5a. Distribuição de variáveis selecionadas de identificação segundo associação
de risco para a saúde pela manipulação de saneantes domissanitárisos no
último emprego das trabalhadoras domésticas estudadas................................................63
Tabela 5b. Distribuição de variáveis selecionadas de exposição segundo associação
de risco para a saúde pela manipulação de saneantes domissanitárisos no
último emprego das trabalhadoras domésticas estudadas................................................65
XI
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ....................................................................................................................................... 1
CAPÍTULO 1 - A GUERRA CONTRA A SUJEIRA: UMA GUERRA LIMPA?.................................... 5
1.1 DOMISSANITÁRIOS: AGENTES DE LIMPEZA OU “ARMAS-SUJAS”?........................................................ 8
1.2 EMPREGADAS DOMÉSTICAS: ATRIZES COADJUVANTES OU COMBATENTES VITIMADAS? .................... 20
1.3 OBJETIVOS DA PESQUISA .............................................................................................................. 24
1.4 JUSTIFICATIVA .............................................................................................................................. 25
1.5 MATERIAIS E MÉTODOS ................................................................................................................. 27
CAPÍTULO 2 - REVISÃO BIBLIOGRÁFICA....................................................................................... 35
2.1 O USO DE DESINFETANTES NO AMBIENTE DOMÉSTICO .................................................................... 39
2.2 O DEBATE ENTRE AUTORIDADES ALEMÃES E HIGIENISTAS .............................................................. 42
2.3 ASMA, PRODUTOS E ATIVIDADES DE LIMPEZA E SAÚDE OCUPACIONAL ............................................ 45
CAPÍTULO 3 - ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO........................................................ 53
CAPÍTULO 4 - CONCLUSÕES ........................................................................................................... 66
BIBLIOGRAFIA.................................................................................................................................... 69
ANEXOS .............................................................................................................................................. 75
INTRODUÇÃO
Segundo reportagem da revista Cosméticos e Perfumes (2001), desde o início
da Idade Média a fabricação de sabão é uma atividade bem estabelecida e regulamentada,
e os segredos de sua fabricação muito bem guardados. Porém, até meados do século XIX
o sabão era taxado pesadamente como artigo de luxo, e somente quando as taxas foram
suprimidas o produto ficou mais acessível à população.
O primeiro grande passo para a fabricação comercial do sabão foi a descoberta,
em 1791, do processo de fabricação do carbonato de sódio, ou barrilha, o componente
alcalino que se mistura com as gorduras, o material que servia de base no preparo do
sabão. Os custos de produção foram ainda mais reduzidos com a descoberta, na segunda
metade do século XIX, do processo da amônia.
No início do século XX, começaram a aparecer os sabões de toalete, os sabões
em escama, os sabões em pó, e os primeiros detergentes domésticos surgiram no início
dos anos 1930. Mas foi somente com o fim da Segunda Guerra Mundial que a sua indústria
realmente se desenvolveu.
Antes disso, por volta de 1918, aparece na Alemanha o primeiro surfactante, em
função da falta de gorduras de origem animal no mercado. Os surfactantes (do inglês,
surface active agents) são produtos químicos orgânicos que modificam as propriedades da
água, ao diminuir a sua tensão superficial e facilitar o processo da lavagem. Essas
substâncias são hoje também conhecidas como tensoativos, e são fabricadas por síntese,
ou seja, juntadas quimicamente a partir de uma grande variedade de matérias-primas,
exercendo a função de agente de limpeza nos sabões.
Em 1946, nos Estados Unidos, surgiu o primeiro detergente reforçado, contendo
um surfactante e um adjuvante, componente essencial para limpeza e eficiência da
lavagem, como os fosfatos complexos ou polifosfatos, que favorecem a capacidade de
lavar roupas extremamente sujas. Atualmente, os surfactantes de síntese encontram-se em
todos os detergentes, e para desenvolverem eficazmente as funções para as quais são
destinados, muitos produtos de limpeza contêm, pelo menos, dois surfactantes.
2
Desde 1950, o mais famoso produto, o alquilbenzeno sulfonato de sódio,
utilizado em detergentes líquidos, em pó e em barras, demonstrou ser muito eficiente, tanto
em termos de diminuir a tensão superficial da água, quanto para a remoção e o isolamento
de sujeiras oleosas e de diversas naturezas. No entanto, demonstrou-se ser este um
produto poluidor de águas residuais despejadas em rios e córregos, uma vez que nelas ele
não se degrada naturalmente. O avanço das pesquisas permitiu que essa substância fosse
modificada, agregando às suas funções de limpeza a capacidade de ser biodegradável.
Hoje em dia, para comporem os produtos comerciais são adicionados diversos
outros agentes químicos, tais como os coadjuvantes ou auxiliares do processo de lavagem
– abrasivos, ácidos, solventes, álcalis, enzimas, hidrotópicos, anticalcários, reguladores de
espuma (estabilizantes e supressores), reforçadores, antiredepositantes e amaciantes –, os
aditivos inibidores de corrosão e inibidores de manchas, os branqueadores (óticos e
químicos) e os abrilhantadores de tecido (de ação amaciante), os agentes antimicrobianos,
os conservantes, os opacificantes, os corantes e perfumes, e demais materiais inertes. Por
conseguir conciliar aumento na eficiência da lavagem com redução do custo global, esses
agentes químicos têm promovido um rápido incremento da aceitação dos detergentes entre
os consumidores. No entanto, muitos deles provocam fortes impactos ambientais, e – como
têm provado as recentes pesquisas científicas –, sérios danos à saúde humana, exigindose limitações legais contra sua utilização exagerada na composição da fórmula final do
produto de limpeza.
Inicialmente acreditou-se que as reações alérgicas e as síndromes respiratórias
de diversos tipos pudessem ser derivadas apenas de susceptibilidades individuais, não se
constituindo propriamente problemas de saúde pública. Com o desenrolar das pesquisas,
os cientistas têm conseguido relacionar a exposição aos saneantes domissanitários com
riscos de desenvolvimento de doenças associadas a atividades de limpeza, sendo a asma
a principal delas. Trabalhadores de escritório, profissionais de ambiente hospitalar e
faxineiros, e, mais recentemente também, empregadas domésticas e donas-de-casa têm
sido investigados no intuito de estabelecer relações mais precisas entre variáveis
selecionadas no ambiente de trabalho e decorrentes de hábitos comportamentais.
Nossa pesquisa se alinha com as preocupações desses pesquisadores
internacionais, e de organizações governamentais e não-governamentais envolvidas nas
investigações sobre os possíveis danos que os agentes químicos presentes em
domissanitários provocam em trabalhadores submetidos à sua exposição. Em virtude da
3
inexistência no Brasil de trabalhos sobre o tema (salvo aqueles relacionados com a
exposição a agrotóxicos e a inseticidas), procuramos realizar uma investigação preliminar
tomando como universo amostral um grupo de empregadas domésticas, alunas de uma
mesma instituição de ensino.
Por meio de entrevistas organizadas a partir de um questionário pré-elaborado,
investigamos a associação de risco que essas profissionais desenvolvem à medida que
acumulam experiência no desempenho de sua função. Fizemos também um levantamento
das principais atividades realizadas, e dos principais produtos de limpeza utilizados,
averiguando, ademais, numa amostra selecionada aleatoriamente, o nível de compreensão
das informações técnicas contidas nos rótulos das embalagens, bem como a adesão dos
sujeitos às orientações de segurança aí contidas.
Os dados coletados sugerem que as autoridades governamentais deveriam
realizar mais campanhas educativas, no sentido de esclarecer a população (e não apenas
as empregadas domésticas) acerca dos riscos envolvidos e da necessidade do uso de
equipamentos de segurança durante a manipulação de domissanitários. Acreditamos
também que as autoridades deveriam prestar mais atenção aos procedimentos de
rotulagem, procurando tornar mais acessível a linguagem excessivamente técnica que eles
apresentam.
Para efeito de apresentação, organizamos esta dissertação em quatro capítulos.
No primeiro, procuramos construir nosso objeto de pesquisa, apresentando aos
leitores as informações disponíveis sobre os domissanitários, os principais agentes
químicos neles contidos, e os principais danos à saúde humana que eles comportam.
Fornecemos também alguns dados sobre o mercado latino-americano dos produtos de
limpeza na última década, e tratamos de refletir sobre o mercado de serviços domésticos
remunerados no Brasil.
Discutimos, ainda, os objetivos principais e específicos de nossa pesquisa, bem
como a sua justificativa e a metodologia empregada. Aí também apresentamos dados sobre
a população de estudo e a instituição em que realizamos a investigação.
No segundo capítulo, realizamos a revisão da bibliografia específica sobre o
nosso tema, apresentando um trabalho que organizou as primeiras pesquisas, efetuadas
nas décadas de 1950, 1960 e 1970, sobre o uso de desinfetantes no ambiente doméstico.
Focamos igualmente a arena discursiva internacional em que se trava hoje a batalha entre
4
higienistas e ambientalistas a respeito do uso de biocidas, e as contribuições recentes de
pesquisadores das áreas de Saúde Ocupacional e Epidemiologia.
No capítulo III, organizamos os dados coletados em duas tabelas, e procedemos
à sua análise. Procuramos também fornecer alguns resultados, ainda que iniciais, de nossa
pesquisa, cotejando nossas informações com os principais trabalhos brasileiros sobre
serviço doméstico remunerado existente no país desde a nossa perspectiva (Melo, 1998; e
Santana et al., 2003a).
O último capítulo traz as principais conclusões, além de algumas sugestões para
o desenvolvimento da pesquisa num momento posterior.
5
CAPÍTULO 1
A GUERRA CONTRA A SUJEIRA:
UMA GUERRA LIMPA?
As décadas de 1950 e 1960 são consideradas pelos historiadores como “Os
Anos Dourados” da civilização ocidental (Hobsbawm, 2001, pp. 253-81). Sobretudo nas
principais sociedades européias, o processo de reconstrução dos países devastados pela
Segunda Guerra Mundial foi acompanhado por um grande crescimento econômico, o que
tornou possível à grande parte da população acesso aos bens e serviços que até então
eram privilégios apenas dos ricos. Durante esse período também foram construídos os
sistemas de seguridade social e previdenciária que vieram a ser conhecidos como Estados
do Bem-Estar Social, ou Welfare States.
O crescimento explosivo da economia mundial é hoje principalmente
representado pela revolução tecnológica, e pela produção mundial de manufaturas (que
segundo o historiador inglês, quadruplicou em duas décadas), bem como o seu comércio
(que aumentou dez vezes). Igualmente, a produção agrícola disparou graças ao aumento
da produtividade por hectare durante o mesmo período, assim como as capturas da
indústria de pesca (idem, p. 257).
De acordo com a ideologia do progresso que dominou aquela época, “o
crescente domínio da natureza pelo homem era a mesma medida do avanço da
humanidade” (ibidem). Esse desenvolvimento vertiginoso gerou, nas palavras de
Hobsbawm, um “subproduto ameaçador” que nos afeta a todos, bem como deixará suas
marcas para as gerações futuras. A poluição e a deterioração ecológica que pouco chamou
a atenção durante a Era de Ouro são hoje um fato preocupante. Entre 1950 e 1973, o
tráfego movido a petróleo fez quase triplicar as emissões de dióxido de carbono que
aquecem a atmosfera, e a produção de clorofluorcarbonetos, produtos que afetam a
6
camada de ozônio, cresceram quase verticalmente. Logo, era de se esperar que a poluição
atmosférica fosse se transformar numa das primeiras preocupações dos ecologistas
(p.258).
Segundo Hobsbawm, “as principais inovações que começaram a transformar o
mundo assim que a guerra acabou talvez tenham sido as do setor químico e farmacêutico”
(p. 265). Se as essas últimas só se fizeram sentir mais tarde, possibilitando nas décadas de
1960 e 1970 a eclosão da revolução sexual graças aos antibióticos e a pílula
anticoncepcional, as primeiras são, por um lado, grandes conquistas se pensarmos nos
avanços para a indústria alimentícia e no setor químico; mas também grandes responsáveis
por malefícios de variada índole, tanto para os seres humanos, como para o meio ambiente
que nos abriga desde sempre.
Como afirma o eminente historiador inglês:
“A revolução tecnológica entrou na consciência do consumidor em tal medida que a novidade
se tornou o principal recurso de venda para tudo, desde os detergentes sintéticos (que
passaram a existir na década de 1950) até os computadores laptop. A crença era que ‘novo’
equivalia não só a melhor, mas ao absolutamente revolucionário” (p. 261).
Essa enorme sedução pelo novo e suas diversas manipulações pela indústria
cultural serviram de fonte de inspiração para outro grande humanista europeu. Entre os
anos 1954 e 1956, o estudioso francês Roland Barthes dedicou-se a escrever uma série de
textos, que em 1957 foram reunidos e publicados sob o título de Mitologias. Tentava, na
época, o autor, como ele próprio afirma, “refletir regularmente sobre alguns mitos da vida
cotidiana francesa. O material dessa reflexão veio a ser muito variado (um artigo de jornal,
uma fotografia de semanário, um filme, um espetáculo, uma exposição) e o assunto muito
arbitrário: tratava-se evidentemente da minha atualidade” (Barthes, 1987, p. 7).
Dentre a série de pequenos ensaios, há um artigo surpreendente intitulado
“Saponáceos e detergentes”. Passados 50 anos percebemos que os comentários do
pensador francês, suscitados pela observação do seu cotidiano, ainda hoje são instigantes
e sugestivos. Naquela ocasião, Barthes insistia na necessidade de se investigar o universo
da publicidade de alguns produtos de limpeza disponíveis no mercado francês, opondo,
num efeito de retórica, três “psicanálises”: a dos líquidos purificadores, a dos saponáceos
em pó, e a dos detergentes. A cada uma dessas “psicanálises” corresponderia uma
potência contida nos diferentes produtos de limpeza, tematizadas pelos publicitários ora
7
como “guerra”, ora como “ação libertadora”, ora como “transformação da matéria”, todas
marcadas fortemente pelo sentido civilizatório da ação.
No primeiro caso, destaca-se o poder dos abrasivos, tais como o cloreto de
sódio e a amônia, que “’matam’ a sujeira”. No caso dos saponáceos em pó, destaca-se seu
poder de separação: “’expulsa-se’ a sujeira”. Em ambos o prestígio do produto de limpeza
está fundamentado no resultado, representado pelo objeto imaculado e livre de impurezas.
No terceiro caso, a publicidade desloca o foco de atenção do consumidor para o
processo de limpeza, que se dá em duas dimensões sensuais: a limpeza em profundidade,
e através da espuma produzida pelos detergentes. Apela-se para o imaginário coletivo,
culturalmente codificado, associando o processo de limpeza com um certo caráter de
“espiritualidade da espuma”, que mascara a função abrasiva do detergente ao mesmo
tempo em que evoca sensações e motivos positivamente valorizados pela sociedade
ocidental. O autor chama a atenção dos leitores para a maneira como os publicitários
manipulam valores, incorporando à matéria “estados-valores” que a matéria em si não
possui.
É costumeiro referir-se aos produtos de limpeza (cleaning products) de forma
diversa, e, poderíamos dizer, em função daquilo que se quer neles destacar. Os
fabricantes, segundo a sua utilidade, classificam em lavadores de roupa e louça,
limpadores de superfície, alvejantes, purificadores do ar, polidores, produtos de higiene
pessoal e repelentes (inseticidas, raticidas e outros). Os órgãos estatais de vigilância e os
especialistas acadêmicos, por outro lado, enfatizam a sua dimensão saneante,
desinfetante, higienizante, isto é, anti-infecções e infestações de todo tipo, e empregam no
Brasil o nome genérico “domissanitários”.
Seguindo a sugestão de Barthes, notamos que esses produtos também tendem
ser classificados, mormente pela indústria publicitária, segundo a natureza do mal que se
pretende combater, e contra o qual se dirige a ação de limpeza. Assim, valorizam-se as
suas funções de remoção da sujeira em geral, desde manchas de gordura, a acúmulos e
sobreposição de pós e demais resíduos invasores dos ambientes que deveriam ser
resguardados, enfim, a sua função de remoção daquilo que nos é visível. Por outro lado,
destacam seu poder de higienização e desinfecção, sua ação sobre os micróbios e
microorganismos oportunistas que se proliferam invisivelmente nos ambientes domésticos e
coletivos. A atuação eficaz dos produtos de limpeza decorre, aqui, de sua capacidade de
penetração nos mais recônditos espaços, onde se esconderiam os germes e demais
8
patógenos nocivos à saúde humana. Há, portanto, dois discursos que estão articulados por
uma idéia comum, sendo que a limpeza surge como resultado físico-químico de uma guerra
vitoriosa.
Em relação à sujeira visível, as adjetivações empregadas na classificação
tendem a ressaltar a capacidade de transformação da superfície inanimada que será objeto
de conservação e/ou manutenção. Nesta classe estão os alvejantes (geralmente à base de
cloro, e responsáveis pelo branqueamento), os abrasivos (tais como os removedores e
produtos à base de amoníaco, verdadeiros “fogos líquidos”, na expressão de Barthes, que
agem por atrito, arrancando as partículas de forma devastadora), os detergentes, os
saponáceos e seus congêneres (que dissolvem as gorduras, clareiam e purificam); e
também os polidores, tais como ceras e lustra-móveis (que “arrematam” a limpeza,
tornando as superfícies brilhosas e perfumadas).1 No grupo dos higienizadores, que
combatem a “sujeira invisível”, estão os desinfetantes (e biocidas em geral), os
esterelizantes e os desodorizantes.
Acreditamos que essa oposição – visível / invisível – pode nos ser útil para
desenvolvermos nossa reflexão sobre os efeitos nocivos, e não previstos, decorrentes da
exposição contínua aos produtos de limpeza de uma população específica que os utiliza
como instrumento de trabalho, isto é, mulheres que exercem serviço doméstico
remunerado, também conhecidas como “empregadas domésticas”.
1.1 Domissanitários: agentes de limpeza ou “armas-sujas”?
Os agentes de limpeza são empregados no intuito de tornar possível e facilitar a
remoção de contaminantes de superfícies, e são utilizados em grandes quantidades ao
redor do mundo. Tipicamente são compostos de um componente ativo (ou alguns
componentes, dependendo da função técnica do agente de limpeza), aditivo e usualmente
água. Embora um amplo espectro de exposição a agentes químicos resulte em problemas
de saúde, tais como alergias, eczemas e asma reportados entre trabalhadores em limpeza,
somente um reduzido número de estudos sobre agentes de limpeza têm sido realizados.
Dado o grande número de problemas de saúde que podem ser derivados dos componentes
9
utilizados como princípio ativo, aditivos, conservantes, solventes ou função desinfetante,
caberia perguntar, como faz Janice Hughes (2004), até que ponto estamos convertendo
nossos lares em “fábricas químicas em miniatura”.
Por meio de campanhas publicitárias, a cada dia novos produtos de limpeza
lutam para conquistar a preferência dos consumidores, apelando para cores reluzentes,
aromas refrescantes e embalagens sedutoras. Ressaltando o “brilho” e o “cheiro” da
limpeza (“casa perfumada é sinônimo de casa limpa”; “produto com agradável perfume de
longa duração”), antropomorfizando os seus agentes (como o poder dos “maridos ideais” de
uma recente marca de saponáceo), ou convertendo em monstros animados a sujeira
invisível (que se torna “rebelde”, “difícil”), a publicidade tenta ganhar a visibilidade num
mercado hiper-competitivo, sem mencionar, ou mesmo mascarando, poderíamos dizer, ao
tornar invisíveis (como os germes que afirma combater) os inúmeros males que os mesmos
produtos podem causar à saúde humana, conforme veremos na próxima seção.
Mais recentemente, segundo uma nova tendência que se fortalece nos países
europeus, na sua composição os produtos de limpeza vêm sendo adaptados no sentido de
se empregarem ingredientes “ecologicamente corretos” (ecologically friendly), isto é, que
adotam os requisitos da biodegradabilidade e a não toxidade, ou, ao menos, uma toxidade
mínima para os organismos vivos. A introdução do eco-selo europeu, e do Swan-labelling,
na Escandinávia, tem acelerado este processo.2
1.1.1 Principais componentes dos agentes de limpeza3
Os surfactantes (detergentes e tensoativos) são os principais componentes da
maior parte dos agentes de limpeza. A sua função é incrementar o efeito do agente de
limpeza ao diminuir a tensão de superfície da água. Os detergentes são considerados
responsáveis por um conjunto de problemas de pele entre trabalhadores em limpeza.
1
Como veremos adiante, mais recentemente uma nova subclasse de produtos contra a sujeira visível vêm ganhando uma
importante fatia do mercado. São os chamados “limpadores multiuso”, cuja capacidade de conjugar várias potências de
ação removedora os tem convertido no sonho de consumo daquele(a)s que se dedicam a essas tarefas domésticas.
2
De acordo com Wolkoff et al. (1998, p. 141), para obter o eco-selo, por exemplo, as ceras e polidores em geral não podem
ser classificados como muito tóxicos, tóxicos, danosos à saúde, corrosivos, irritantes, alergênicos, carcinogênicos,
teratogênicos ou mutagênicos. Eles não podem ainda provocar risco ambiental, risco de incêndio ou serem passíveis de
provocar explosões.
3
Baseamo-nos largamente nesta seção nas informações técnicas contidas em Wolkoff et al., 1998.
10
Além deles, são empregados substâncias ácidas ou alcalinas que têm o poder
de dissolver o cálcio e as gorduras, respectivamente, e funcionam na regulação do pH da
solução resultante. Os compostos alcalinos também inibem a corrosão das superfícies de
metal, e alguns ácidos também agem como desinfetantes. Agentes complexos ou
“amaciantes” (water softeners) são adicionados para dissolver e dar liga ao cálcio,
magnésio e outros íons metálicos, que diminuiriam o efeito do surfactante. Muitos deles são
prejudiciais à saúde e provocam efeitos ambientais adversos, e têm sido evitados ou
eliminados nos países desenvolvidos nos últimos anos como os fosfatos.
Os aditivos são inibidores de corrosão e protegem as superfícies metálicas.
Também entram nessa classe os perfumes e fragrâncias, que são usados para emprestar
ao produto um odor agradável ou mascarar um cheiro desagradável. Eles não são
essenciais para a função técnica do produto. Muitos são alergênicos, logo o risco de
exposição dos trabalhadores em limpeza a essas substâncias é freqüentemente
desnecessário. O mesmo se pode dizer dos corantes e dos pigmentos.
Também são considerados aditivos as substâncias conservantes, que inibem o
crescimento microbiano durante a estocagem e o uso de um produto, e servem, portanto,
para prolongar a sua vida útil. Os conservantes freqüentemente criam problemas
ambientais, uma vez que muitos deles são sensibilizadores de organismos vivos. Isto
acontece
com as isotiazolinonas, os formaldeídos e os compostos liberadores de
formaldeídos, que além do efeito alergênico, também é classificado como carcinogênico.
Os solventes dissolvem as substâncias gordurosas. Eles são usados para
promover a homogeneidade do produto final. Os solventes mais típicos são os álcoois
(propanol e etanol), e os éteres glicóis.
Os polidores em geral são produtos que “tratam as superfícies” (Surface care
produtcs ou ‘Film-formers’). Eles são agentes que combinam as funções de limpeza e
manutenção das superfícies em que são aplicados, uma vez que formam uma película de
proteção nas superfícies (‘care film’), cuja função é proteger o piso ou móveis contra a
destruição química ou o desgaste pelo uso, ao mesmo tempo em que facilitam a limpeza
devido ao efeito antiestático que alguns possuem. Além dos seus componentes básicos
(emulsões e ceras), os polidores tipicamente contêm um polímero de dispersão,
plastificadores e solventes. Geralmente é necessária a aplicação de removedores antes de
se aplicar uma nova camada de cera.
11
Os removedores são emulsões aquosas de etanolaminas, éteres glicóis e sais
alcalinos, ou metasilicatos e conservantes. A maior parte dos produtos empregados como
polidores e removedores contêm substâncias potencialmente perigosas, tais como
alergênicos, carcinogênicos, neurotóxicos ou tóxicos para a reprodução humana.
Os desinfetantes são substâncias ativas que destroem bactérias e outros
microrganismos. Eles são usados sobre superfícies caso seja necessário um ambiente
especialmente limpo, ou estéril, como nos hospitais. Os componentes ativos nos
desinfetantes são liberadores de cloro (hipocloritos, álcoois (etanol e isopropanol), aldeídos
(formaldeídos e glutaraldeídos) e compostos quaternários de amônia. Compostos
liberadores de oxigênio e enzimas também são utilizados para esse fim.
O hipoclorito de sódio é classificado como corrosivo e muitos exemplos de
efeitos danosos à saúde devido à exposição aos produtos que contêm hipoclorito são
mencionados pela literatura médica. A maior parte dos casos notificados têm sido descritas
como dermatites alérgicas de contato. Os formaldeídos e os glutaraldeídos são bem
conhecidos como alergênicos, e também foram identificados como causadores da asma
ocupacional. Os desinfetantes podem conter outros componentes que causam problemas
crônicos de saúde, tais como boratos que são considerados tóxicos para a reprodução
humana .
12
O gráfico abaixo, elaborado a partir de dados do Sinitox sobre casos de
intoxicação registrados no Brasil em 2001, permite-nos perceber que dentre os oitos
principais agentes de intoxicação, os domissanitários representam o segundo maior índice
de ocorrência (9%) das internações por esse motivo, seguidos respectivamente por picadas
de escorpiões (7,83%), agrotóxicos de uso agrícola (7,15%), raticidas (6,79%), picadas de
serpente (6,28%), produtos químicos industriais (6,09%), e animais não peçonhentos
(5,72%).
As possíveis causas por esta elevada percentagem de domissanitários seriam a
ingestão por acidente, o risco ocupacional e mesmo o intencional onde são muito utilizados
na tentativa de suicídio. As mais freqüentes intoxicações em crianças são causadas por
remédios, produtos de uso doméstico, como alvejantes, querosene, polidores de móveis,
detergentes e inseticidas pois, de modo geral, elas encontram esses produtos em local de
fácil acesso. Deste modo as crianças também contribuem com uma maior participação
neste percentual. Em função disto, estes produtos devem ser bem guardados, trancados e
fora de alcance das crianças.
Gráfico 1
Principais casos de Intoxicação por Agente
Brasil - 2001
30
20
15
10
5
Agentes
Fonte: MS/FIOCRUZ/Sinitox, 2004.
pe
ço
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to
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om
is
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ni
tá
r
ed
ic
am
en
to
s
0
M
% dos casos
25
13
Quando comparamos com o total de casos para a região Sudeste, observamos
uma incidência ainda mais significativa, uma vez que podemos considerar que os casos de
picadas de animais peçonhentos são mais comuns nas áreas rurais.
De fato, como podemos observar no gráfico 2, abaixo, a porcentagem de casos
de intoxicação por domissanitários na região Sudeste sobe para quase 12%, mantendo a
segunda posição entre os oitos principais, enquanto que os agrotóxicos de uso agrícola são
responsáveis por 8,43% dos casos de internação, seguidos respectivamente pelos produtos
químicos industriais (6,43%), os raticidas (6,02%), as picadas de escorpião (5,04%), os
agrotóxicos de uso doméstico (4,14%), e os animais não peçonhentos (3,25%).
Gráfico 2
Principais Casos de Intoxicação por Agente
Região Sudeste - 2001
40
% dos casos
35
30
25
20
15
10
5
nt
os
pe
ço
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tic
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D
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sa
ni
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M
ed
ic
am
en
to
s
0
Agentes
Fonte: MS/Fiocruz/Sinitox, 2004.
O quadro 1, apresentado a seguir, indica de forma esquemática os principais
perigos para seres humanos representados por alguns agentes químicos presentes em
produtos domissanitários utilizados para a limpeza dos ambientes domésticos, segundo a
Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
14
Quadro 1.
humano
Principais substâncias químicas encontradas em domissanitários, com indicação de danos causados ao organismo
Hipoclorito de sódio
(alvejantes)
Destilados do
petróleo. (polidores
de metais)
Provoca irritação de
olhos e pulmões.
Dentre os alvejantes
domésticos é aquele
que mais comumente
é ingerido
acidentalmente pelas
crianças. Se
misturado com
amônia ou outro
detergente de base
ácida (incluindo o
vinagre), libera o gás
cloroamina,
altamente tóxico.
Uma pequena
exposição a este gás
pode causar sintomas
asmáticos brandos ou
problemas
respiratórios mais
sérios.
(Fonte: Children's
Health
Environmental
Coalition)
Mesmo uma
exposição por curto
espaço de tempo pode
causar
temporariamente
embaçamento dos
olhos. Uma exposição
por período mais
longo pode afetar o
sistema nervoso, pele
rins e olhos.
Amônia
(limpa-vidro)
Pode causar irritação de
pele e pulmões. Se
misturado com cloro
libera o gás tóxico
cloroamina. A
exposição a este gás
mesmo por curto
período pode causar
tosse, parada
respiratória e danos aos
pulmões. Os asmáticos
são particularmente
vulneráveis aos vapores
deste gás.
(Fonte: Children's
Health Environmental
Coalition)
Fenol e Cresol
(desinfetantes)
Nitrobenzeno
(lustra-móvies e
ceras para o
chão)
Formaldeído
(material prima de
muitos produtos
caseiros, tais como
móveis de madeira
compensada)
Percloroetileno ou
solventes 1-1-1
tricloroetano
(lavagem à seco,
removedores de
manchas, limpadores de
carpete)
Naftaleno ou
paradiclorobenzeno
(bolinhas de naftalinas, e
sapólios, utilizados para
limpar pias e vasos
sanitários)
Ácido
hidroclorídrico ou
sulfato ácido de
sódio (sapólios)
Formaldeído,
fenol e
pentaclorofenol
(sprays)
Corrosivo. Pode
causar diarréia,
vertigem, tonteira
e danos aos rins e
ao fígado.
Pode provocar
dificuldades na
respiração,
vômitos, e mesmo
morte. Esta
substância está
associada com o
câncer e defeitos
de nascimento.
Provável carcinógeno
humano. Um nível de
formaldeído no ar tão
baixo quanto 0,1 p.p.m
(parte por milhão) pode
causar lacrimejamento,
sensação de ardência nos
olhos, nariz e garganta,
dificuldades para
respirar, náusea, tosse,
pressão no peito,
rachaduras na pele e
reações alérgicas.
(Fonte: U.S. Consumer
Product Safety
Commission)
Provoca irritações nos
olhos, pele e pulmões.
Pode prejudicar o fígado e
os rins se for ingerido. O
percloroetileno pode
causar câncer em alguns
animais de laboratório e é
considerado um provável
carcinógeno humano.
Pode se acumular e
persistir nos tecidos
gordurosos humanos e nas
lactantes.
Os vapores do naftaleno
podem irritar os olhos, a
pele e o sistema
respiratório. A exposição
crônica ao naftaleno pode
causar danos ao fígado,
rins, pele e sistema nervoso
central. O
paradiclorobenzeno é um
provável carcinógeno que
também pode afetar o
sistema nervoso central,
fígado e rins. Uma alta
concentração dos seus
vapores pode irritar os
olhos, nariz garganta e
pulmões.
(Fonte: Children's Health
Environmental Coalition)
Ambos podem
causar
queimaduras na
pele, vômitos,
diarréia e
queimação no
estômago se
ingeridos. Também
podem causar
cegueira se
descuidamente
caírem nos olhos.
Qualquer tipo de
aerossóis. Podem
irritar os
pulmões.
Fonte: Adaptado de U.S. Environmental Protection Agency, 2004.
15
1.1.2 O mercado de domissanitários
As associações e federações internacionais dos fabricantes dos produtos
domissanitários (Abipla, 2004; AISE, 1997)4 costumam classificá-los, segundo a sua
utilidade, em:
1. Produtos para lavagem de roupas (Textile washing products): Inclui entre outras
categorias sabões em barra, detergentes em pó, amaciantes e removedores de
manchas. Segundo o Market Overview (Euromonitor, 2000), uma publicação
destinada às empresas do ramo, trata-se de um subsetor relativamente maduro
em termos do mercado latino-americano, que apesar de demonstrar um
considerável potencial de crescimento para os detergentes em pó, à medida que
cresce a demanda por máquinas de lavar, tem sustentado a demanda por sabões
em barra devido a tradicional popularidade das práticas de lavagem manual, e a
disponibilidade de mão-de-obra barata.
2. Produtos para lavagem de louças (Dishwashing products): Inclui saponáceos
em geral, sabão em pastas e detergentes líqüidos (lavagem manual) e em pó
(para máquinas). Este subsetor é dominado pelos detergentes manuais em virtude
dos baixos níveis de penetração de lavadoras automáticas na América Latina. Nos
anos mais recentes os fabricantes têm se dedicado ao lançamento de produtos
com formulações e extensões que visam a agregar maior valor aos produtos já
existentes, oferecendo maior poder bactericida e propriedades biodegradáveis,
além de investirem em fórmulas que supostamente protegem a pele e evitam
irritações cutâneas.
4
A Ablipla (Associação Brasileira dos Produtos de Limpeza e Derivados de Plástico) é o principal órgão de
representação dos industriais brasileiros. “As empresas associadas da AISE [Association Internationale de la
Savonnerie, de la Detergence et des Produits d'Entretien – Associação Internacional de Fabricantes de Sabões, de
Detergentes e de Produtos de Manutenção] no mercado Industrial e Institucional [I & I] oferecem uma grande
variedade de produtos e serviços, que tornam suas atividades fundamentalmente diferentes daquelas do mercado de
produtos domésticos. Conhecido como segmento I&I, seus clientes típicos são profissionais [o que o diferencia do
mercado doméstico] e os produtos e serviços oferecidos satisfazem às suas necessidades de limpeza e higiene”
(AISE, 1997).
16
3. Limpadores de superfícies (Surface cleaners): Inclui os limpadores à base de
amoníaco, desinfetantes, produtos para tirar limo e outras categorias. Atualmente,
devido à demanda crescente, vêm sendo desenvolvidas pesquisas para oferecer
uma maior gama de produtos que possam ser empregados em diferentes
superfícies, tais como cerâmica, pisos de madeira, etc., os chamados “limpadores
multiuso”.
4. Alvejantes à base de cloro (Chlorine bleach): Basicamente o hipoclorito de sódio,
também conhecido como água sanitária. Além de sua usual função germicida
sendo,por isso, bastante utilizado na limpeza de banheiros, os consumidores
freqüentemente misturam o hipoclorito de sódio com outros produtos de limpeza,
tais como saponáceos e sapólios, para produzir limpadores de superfície
alternativos. Os fabricantes têm incrementado as vendas desses produtos graças
à introdução de fragrâncias diversas que têm sido bem recebidas pelo público
consumidor e têm ajudado a manter a demanda por esses produtos.
5. Produtos para higiene pessoal (Toilet care products): Inclui os sabonetes,
condicionadores e xampus. Geralmente tais produtos são considerados pelo
público como não essenciais e mesmo supérfluos.
6. Polidores
(Polishes):
Ceras,
graxas,
lustra-móveis
e
demais
produtos
empregados em polimentos. Trata-se de um subsetor bastante tradicional devido
às características culturais dos latino-americanos, que valorizam as roupas limpas
e bem passadas, bem como os sapatos e pisos brilhantes, tal como avalia o
relatório supracitado.
7. Purificadores de ar (Air fresheners): Aerossóis e fragrâncias do tipo “Bom Ar”.
São pouco consumidos na região, uma vez que o clima por aqui favorece a
ventilação natural, o que pesa contra às fragrâncias artificiais. A baixa renda da
população combinada com oferta irregular de eletricidade impedem a expansão do
mercado de purificadores de ar elétricos. No entanto, como aponta o relatório que
vimos citando, uma área de potencial crescimento para esses produtos são os
purificadores de ar para automóveis, dado o grande número de carros existentes
na região.
17
8. Inseticidas (Insecticides): Trata-se de um mercado sujeito às variações sazonais.
As maiores vendas desses produtos ocorrem entre novembro e fevereiro
(coincidindo com o verão no hemisfério sul). Os formatos elétricos não são
comuns, devido ao preço elevado. Os consumidores tendem a preferir os mais
baratos, e a conveniência e o efeito imediato dos sprays e aerossóis. As inovações
mais recentes neste subsetor têm focado na questão de incremento da segurança,
com a introdução de novos ingredientes ativos que são menos perigosos tanto
para humanos quanto para animais domésticos.
As tabelas a seguir demonstram a variação no crescimento do volume de
vendas de certos domissanitários entre 1996-2000, e a sua previsão para os anos
2000-2005.
O Mercado dos Domissanitários
Tabela 1.
Vendas de domissanitários, por país latino-americano,
em bilhões de US$ (1996-2000)
1996
1997
1998
1999
2000
4,59
1,51
1,13
0,91
0,50
0,41
1,15
5,16
1,61
1,23
0,98
0,52
0,43
1,17
5,44
1,82
1,32
0,93
0,50
0,43
1,17
4,08
1,99
1,40
0,87
0,46
0,41
1,15
4,11
2,24
1,38
0,64
0,44
0,40
1,14
10,20
11,10
11,61
10,36
10,35
Brasil
México
Argentina
Colômbia
Chile
Venezuela
Outros países da região
TOTAL
Fonte: Euromonitor, www.euromonitor.com, 2000.
Na
última
década
o
mercado
de
domissanitários
se
ampliou
consideravelmente na América Latina e, sobretudo no Brasil, que é responsável por
quase metade das vendas totais de produtos de limpeza na região (valores
destacados em negrito). Como verificamos pela tabela acima, em 1998, ano de maior
consumo destes produtos, a indústria de produtos de limpeza na América Latina
18
faturou cerca de US$ 11,6 bilhões. O mercado brasileiro movimentou na mesmo ano
cerca de US$ 5,4 bilhões. Tamanho crescimento é creditado pela Euromonitor ao
maior poder aquisitivo dos consumidores, que conseqüentemente são capazes de
trocar produtos mais simples por aqueles de maior valor agregado, e também ao
grande investimento em propaganda por parte das grandes multinacionais.
Segundo a Abipla (2004), “a Argentina é o único país com gasto per capita
em produtos de limpeza doméstica maior que o Brasil. No entanto, devido ao tamanho
de sua população, muito menor que a brasileira, seu total de vendas foi bem menos
significativo, totalizando em um pouco mais de US$ 1,3 bilhões em 1998. O México,
ao contrário da Argentina, teve como responsável por valor de venda a sua grande
população, de aproximadamente 97 milhões em 1998, apesar do gasto per capita
nestes produtos ser o menor da região”.
A partir de 1999, com a desvalorização do real, as vendas sofreram uma
queda, mas houve uma leve recuperação a partir de 2000, com previsão de retomada
no crescimento para os anos subseqüentes, como se pode observar na tabela 2,
abaixo.
Tabela 2.
Previsão de venda de produtos domissanitários, por país latinoamericano, em bilhões de US$ (2000-2005)
Brazil
Mexico
Argentina
Colombia
Chile
Venezuela
Outros países da região
TOTAL
Fonte:
Euromonitor, 2000.
2000
2001
2002
2003
2004
2005
4,11
2,24
1,38
0,64
0,44
0,40
1,14
4,27
2,24
1,41
0,63
0,43
0,37
1,12
4,44
2,25
1,44
0,63
0,43
0,37
1,12
4,62
2,27
1,48
0,64
0,43
0,37
1,14
4,81
2,31
1,52
0,67
0,43
0,39
1,17
5,00
2,37
1,56
0,71
0,43
0,40
1,21
10,35
10,47
10,68
10,95
11,30
11,68
19
Observando a tabela 3, a análise por setor demonstra que a maior parte
dos gastos com domissanitários está concentrada em produtos para lavar roupas,
seguidos pelos limpadores de superfície, que incluem os desinfetantes, os limpadores
multiuso, os limpadores especializados (como os xampus para tapete, os produtos
para tirar limo, os limpadores de canalizações, os limpa-vidros, os limpa-fornos, etc.) e
outras categorias.
Tabela 3.
Vendas de produtos domissanitários, por setor, em bilhões de
dólares (1996-2000)
1996
1997
1998
1999
2000
Produtos para lavar roupas
Limpadores de superfície
Alvejantes à base de cloro
Polidores
Produtos para lavar louças
Inseticidas
Purificadores de ar
Produtos de higiene pessoal
5,73
1,26
0,69
0,85
0,64
0,71
0,19
0,14
6,21
1,44
0,75
0,92
0,68
0,75
0,21
0,16
6,50
1,53
0,81
0,95
0,72
0,75
0,21
0,16
5,70
1,45
0,81
0,76
0,71
0,62
0,20
0,13
5,43
1,53
0,88
0,75
0,75
0,67
0,21
0,13
TOTAL
Fonte: Euromonitor, 2000.
10,21
11,12
11,63
10,38
10,35
O setor de produtos para lavar roupas (que inclui entre outras categorias
detergentes, amaciantes e removedores de manchas) foi aquele que apresentou
melhor desempenho, movimentando US$ 6,5 bilhões em 1998, o equivalente a quase
56% do mercado total. Este setor deve ter sido beneficiado, entre outras fatores, pela
substituição por parte do consumidor da água sanitária por limpadores multiusos e
desinfetantes para a limpeza geral. Dentre as classes de maior poder aquisitivo,
cresce a participação de produtos mais específicos, como aqueles para limpar vidros,
cozinhas ou contra o limo. Segundo o relatório da empresa Euromonitor (1999), “o uso
de limpadores multiuso ainda prevalece na região, sendo a categoria responsável por
35% das vendas totais do setor em 1998, seguida pela categoria de desinfetantes,
com 33%”.
20
1.2 Empregadas domésticas: atrizes coadjuvantes ou combatentes vitimadas?
A guerra contra a sujeira é travada todos os dias nos lares brasileiros.
Contra as manchas e os germes, as donas-de-casa contam com importantes
auxiliares que ainda são consideradas coadjuvantes nessa batalha. São as
empregadas domésticas, um exército de trabalhadoras invisíveis para a mídia e
apenas pouco visíveis para as estatísticas oficiais, conforme veremos abaixo.
O trabalho doméstico no Brasil tem suas raízes no escravagismo do
período colonial e ainda hoje é considerado imprescindível na maioria das famílias,
tanto nas áreas urbanas como rurais, pois permite uma redução da sobrecarga do
trabalho de casa, liberando as mulheres, outrora exclusivamente dedicadas a essas
tarefas, para o mercado de trabalho formal. Num dos primeiros trabalhos de avaliação
da participação dessa categoria profissional no seio das atividades econômicas – e
que traça um quadro da realidade do serviço doméstico remunerado no país e nas
suas grandes regiões –, Melo (1998) afirma que:
“A história do serviço doméstico no Brasil não difere muito da acontecida nos Estados
Unidos. Aqui como lá, antes da abolição da escravatura, escravos domésticos eram
encarregados das tarefas do lar. Ao longo do século XIX, as famílias tinham além das
escravas domésticas a possibilidade de contar com mocinhas para uma espécie de
‘ajuda contratada’. Essa era uma fonte adicional de trabalho doméstico que no Brasil e
nos Estados Unidos, depois da Abolição, tornou-se a maior fonte de trabalho feminino.
A ajudante era enviada pela sua família para outra casa, como um passo intermediário
entre a casa de sua família e o matrimônio” (p. 1).
Como decorrência dessa herança cultural, a maioria da sociedade não vê
a empregada doméstica como uma profissional: ainda hoje não há isonomia de
tratamento dessa categoria em relação às demais; e o serviço doméstico remunerado
é uma profissão desvalorizada. Segundo a Melo, o serviço doméstico é um verdadeiro
“bolsão de ocupação” para a mão-de-obra feminina no Brasil, do qual participavam,
em 1995, 19% das mulheres da população economicamente ativa.
Dada a peculiaridade dessa atividade profissional, a autora afirma que:
“é difícil fazer uma análise econômica do serviço doméstico remunerado, porque os
indicadores econômicos não permitem captar as sutilezas ideológicas e culturais que
essa questão envolve. Essas atividades não são organizadas de forma capitalista, porque
se realizam no interior de residências particulares e as patroas/patrões não são
empresários. O contrato de trabalho firmado, seja verbal ou escrito, define que as
21
empregadas realizam tarefas cujo produto — cozimento de alimentos (bens) ou
lavagem de roupas e pratos (serviços) — é consumido diretamente pela família. Esses
bens/serviços não circulam no mercado e não se mobiliza capital para a realização
dessas tarefas, mas rendas pessoais. (idem, pp. 1-2).
O trabalho doméstico também funciona como porta de entrada para as
jovens migrantes rural-urbanas e existe uma forte presença de crianças do sexo
feminino exercendo essas atividades em casas de família. O mais grave é que esse
trabalho infantil doméstico é muito mais difícil de fiscalizar do que outras formas de
trabalho infantil, uma vez que é invisível porque ocorre no âmbito do privado. Mas não
só ele.
Segundo a Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade
Racial (SEPPIR, 2005), as trabalhadoras no serviço doméstico remunerado
representam:
“um exército formado por oito milhões de trabalhadores, sendo que 95% são mulheres e
82% mulheres negras. Todas elas sofrem com a precariedade na regulamentação do seu
trabalho. Cerca de 300 mil têm carteira assinada. No árduo dia-a-dia são
desconsideradas e tratadas de maneira pouco profissional. Muitas são vítimas ainda de
violência sexual e racismo. Sofrem em silêncio. Esse pequeno quadro é uma amostra da
situação invisível dos trabalhadores domésticos no Brasil (SEPPIR, 2005, grifo nosso).
A jornada de trabalho dessas trabalhadoras também costuma ser ainda
maior do que a média brasileira, sendo que muitas trabalham de 9 a 10 horas diárias,
e algumas até mais do que isso. Segundo Melo (1998):
“A jornada de trabalho no Brasil é muito superior aos padrões internacionais embora
tenha declinado nos últimos anos. Essa categoria tem uma jornada de trabalho definida
por uma relação de trabalho mesclada por trabalho assalariado com um certo regime
servil”.
Embora as empregadas domésticas formem uma categoria profissional
que possui grande dificuldade para se organizar, já que exercem um trabalho
extremamente atomizado, as reivindicações dessa categoria vêm de longa data. A
Associação de Empregadas Domésticas do Brasil foi fundada em 1936, mas somente
na década de 1970, elas conquistaram o direito de ter Carteira de Trabalho e
Previdência Social assinada.
Porém, ainda falta muito para que essas profissionais participem dos
direitos de cidadania como as demais categorias: o trabalho doméstico é regulado
22
pelo artigo 7 da Constituição Federal, e não pela Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT). Hoje essas trabalhadoras ainda se encontram desamparadas, pois a
Constituição reconhece apenas alguns de seus direitos trabalhistas: elas não têm
direito à hora-extra, têm assegurado apenas 20 dias por ano de direito a férias, e os
patrões só recolhem o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) se quiserem.
Conforme dados recentes do IBGE (2004), em 2003 o total de trabalhadores
domésticos no país era de 6.081.879, sendo que 397.891 homens (6,6%) e 5.683.988
mulheres (93,4%). Menos de 30% deles têm registro em carteira.
Além disso, como afirma Melo (idem):
“Não se pode esquecer que existe uma heterogeneidade de situações dentro do serviço
doméstico remunerado. Existem as empregadas domésticas residentes, que vivem no
local de trabalho, recebem salário mensal, mais casa e comida — as mensalistas. No
outro extremo, as diaristas, isto é, empregadas que não residem no local de trabalho,
trabalham em várias casas de famílias, recebem salário diário ou semanal/mensal” (p. 2,
grifo no original).
Até 1985, a classificação utilizada pelo IBGE para a Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) não permitia uma análise mais precisa do serviço
doméstico remunerado, pois a categoria utilizada pelo órgão oficial abrangia tanto os
serviços de ama, ama-de-leite, arrumadeira, babá, como os de camareiro, caseiro,
copeiro, cozinheiro, criado, dama-de-companhia, doméstica, governanta, mordomo,
pajem e servente. A partir de 1995,
“essas atividades foram abertas em várias ocupações, num total de seis, o que
possibilitou separar cozinheiras de babá, diarista, lavadeira, doméstica polivalente e
governanta. No entanto, um aspecto importante para o seu estudo seria a separação das
empregadas domésticas que residem no local de trabalho e as chamadas diaristas. Seria
possível, assim, afirmar que a “profissionalização” dessas relações favorece o
crescimento das diaristas, enquanto as domésticas que residem na casa da patroa estão
fadadas a desaparecer. Infelizmente os dados não permitem claramente essa separação.
Nos grandes centros urbanos tudo indica que há provavelmente uma tendência de
contratar domésticas mensalistas ou diaristas, mas que tenham domicílio próprio”
(Melo, 1998, p. 3).
Ao que parece, de modo geral as empregadas domésticas são
trabalhadoras solteiras, provavelmente em função da dificuldade de conciliar esta
atividade com as demandas por atenção de suas próprias famílias. Segundo a
Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do Dieese, 17% das empregadas
domésticas são analfabetas e 64,3% não completaram o Ensino Fundamental.
23
Como vemos, a maioria das vagas de empregada doméstica é ocupada
por mulheres e parece ser esta uma das poucas opções de trabalho para aquelas
com baixa escolaridade. De todo modo, empregar-se como doméstica significa para
muitas delas uma “possibilidade de autonomia relativa” em termos de dinheiro e de
acesso a um mundo cultural e social diferente do seu meio.
A antropóloga Jurema Brites (2003) esclarece que o serviço doméstico
remunerado não pode ser considerado uma ocupação preferida no espectro de
escolhas profissionais das trabalhadoras. Quando outras opções de inserção no
mercado de trabalho se mostram inatingíveis, o serviço doméstico surge como uma
possibilidade, inexistente no mercado de trabalho formal. Além disso, vantagens de
negociar adiantamentos, faltas, horários e as ajudas materiais advindas da casa dos
patrões foram apontadas pelas informantes da pesquisa antropológica como “o que
vale a pena neste tipo de serviço”. A falta de assinatura da carteira também pode
significar outra coisa. Grande parte das pessoas que trabalham como empregadas
domésticas vêem a ocupação como temporária, sendo, por isso, refratárias à
assinatura em carteira para não “sujar” o documento.
A baixa escolaridade e o baixo nível socioeconômico das mulheres que
trabalham como empregadas domésticas dificultam a escolha de outras opções no
mercado de trabalho. Esses fatores alimentam um ciclo vicioso iniciado pela
precariedade das condições nos estágios iniciais da vida e o restrito acesso à
educação e qualificações profissionais, reforçados pelo ingresso em idades muitos
jovens no mercado de trabalho. O emprego precário e o trabalho insalubre e pouco
seguro, por sua vez, favorecem o adoecimento e acidentes de trabalho, e, como um
grande número dessas trabalhadoras não possuem carteira assinada (ou outra forma
de cobertura por seguro social), o afastamento do trabalho em decorrência do
adoecimento produz mais empobrecimento e piores condições de saúde em geral.
Embora o emprego em atividades domésticas tenha sido abordado em
alguns estudos sociológicos, antropológicos, econômicos e feministas,5 poucas são as
pesquisas voltadas para a saúde dessas trabalhadoras, conforme veremos no
5
Ver, por exemplo, Mota, 1977; Saffioti, 1984; Chaney & Castro (eds.), 1989; Melo, 1989 e 2002; Senes, 1996;
Barros et al., 1997; e Brites, 2003.
24
próximo capítulo. E a falta de dados de morbidade em acidentes de trabalho para
essas profissionais dificulta a implantação de medidas de controle e prevenção.
Em um dos raros trabalhos existentes no Brasil (Santana et al., 2003a),
estimou-se que a ocupação em serviços domésticos proporciona um risco maior de
envolvimento em acidentes não fatais do que as demais profissões, e que esse risco
tende a aumentar com o tempo de trabalho medido pela jornada diária ou semanal
das empregadas domésticas. Também foi observado que a maioria dos casos
ocorreram sempre na casa do patrão, confirmando as expectativas de ser o ambiente
doméstico fonte de muitos riscos ocupacionais.
1.3 Objetivos da pesquisa
1.3.1 Objetivo geral da pesquisa
Caracterizar a exposição e os possíveis efeitos nocivos à saúde de
trabalhadoras
domésticas
devido
à
manipulação
rotineira
de
saneantes
domissanitários em seu local de trabalho.
1.3.2 Objetivos específicos
1
Investigar variáveis que possam contribuir para explicar os eventuais efeitos à
saúde identificados em um grupo de empregadas domésticas que manipulam
cotidianamente produtos saneantes domissanitários em domicílios urbanos.
2
Avaliar a compreensão do material informativo, presente nos rótulos de
embalagens de produtos saneantes domissanitários quanto à clareza das
informações, à forma de apresentação e à linguagem utilizada na descrição das
informações técnicas.
3
Fornecer subsídios para propor medidas de prevenção aos possíveis agravos de
saúde dessas trabalhadoras, considerando as relações que as mesmas
estabelecem com os saneantes domissanitários nos seus afazeres diários.
25
1.4 Justificativa
Em geral, as atividades econômicas são reguladas apenas de acordo com
o desenrolar das forças produtivas. No cotidiano essas práticas não estão orientadas
segundo princípios ambientalmente corretos, e na maior parte das vezes elas são
desfavoráveis à natureza.
Na manipulação dos domissanitários sem a dimensão do cuidado
preventivo, o trabalhador doméstico acaba por tornar-se susceptível à exposição a
substâncias químicas, além de ser um agente poluidor ambiental. As atividades que
envolvem a manipulação e utilização de substâncias químicas geram riscos de
intoxicação que podem conduzir a processos de enfermidades. Nestes casos o
trabalhador acaba se prejudicando ao se converter num potencial produtor de
doenças para si mesmo. Como essas substâncias estão presentes na vida moderna
quase sempre de forma imperceptível, elas acabam por comprometer a qualidade de
vida de toda a sociedade. Como, acertadamente, afirmam Druck e Franco (1995):
A incorporação de milhares de novas substâncias químicas, o aumento das plantas
industriais, dos volumes produzidos e transportados e da aplicação de diversas formas
de energia trouxeram, indubitavelmente, a ampliação da grandeza e do alcance dos
impactos sócio-ambientais das atividades humanas nas sociedades contemporâneas.
Assim, os padrões de produção e de consumo passaram a redefinir, cada vez mais
profundamente, tanto o estado das águas, do ar, dos solos, da fauna e flora, quanto às
próprias condições da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho, seus
fluxos migratórios, as situações de saúde e morte. A evolução desta relação – entre
riscos industrial, meio ambiente e saúde das populações – é particularmente forte e
perceptível quando focalizamos certos ramos industriais, altamente poluentes e de
maior risco, como o nuclear, o petroquímico, o químico e o siderúrgico (p. 120).
A poluição do meio ambiente por saneantes domissanitários – cujo
consumo, aliás, aumenta maciçamente ano após ano, devido à falta de controle no
seu emprego e a disseminação de seu uso – nos expõe a todos a substâncias
químicas perigosas e aos efeitos nocivos que elas trazem. Como vimos acima, ao
longo dos anos os produtos químicos têm se tornado cada vez mais populares entre
os contaminantes do meio ambiente. A liberação química pode ocorrer numa
determinada fase do ciclo de vida de um produto, seja durante sua manufatura,
durante seu uso, ou após ele entrar na cadeia residual para ser lançado no meio.
Alguns dos produtos mais comuns já são detectados nas mais remotas áreas do
26
planeta, tais como o Ártico e nas profundezas dos oceanos (Greenpeace, 2004).
Porém, este risco tende a passar quase despercebido pelo usuário de tais produtos,
seja por falta de esclarecimento na sua utilização, seja pela própria negação da
existência do risco, como prática de convivência em um processo de trabalho injurioso
(Dejours, 1994).
Muitos dos produtos que consumimos ou com os quais entramos em
contato diariamente, em casa ou no trabalho, contêm substâncias químicas perigosas,
e é inegável o impacto que eles exercem em nossa sociedade. Logo, poderíamos
perguntar qual a utilidade de tantos aditivos químicos para manter limpos os bens de
consumo cotidiano, uma vez que ao mesmo tempo em que nos livram de certos
agentes patogênicos eles também podem causar danos desconhecidos à nossa
saúde?
É importante ressaltar que alguns dos produtos mais comumente
encontrados nas prateleiras dos supermercados são nocivos ao ser humano, e que,
freqüentemente, quando liberados no meio doméstico ou lançados descuidadamente
no meio ambiente estes produtos não se transformam facilmente em outros menos
tóxicos. Seus compostos podem simplesmente se dispersar no meio externo, levados
pelas correntes de ar ou água, e, em função de sua degradação natural, podem cair
na cadeia alimentar, se acumulando durante anos nos corpos dos animais e dos seres
humanos.
No entanto, praticamente inexiste informação sobre a presença e a
quantidade de substâncias químicas em nosso meio, e a isto não é dado o devido
valor. Como então, desenvolver ações no sentido de criar uma abordagem
interdisciplinar entre ambiente e a saúde na perspectiva de construir alternativas para
o desenvolvimento sustentável? Como afirma Akerman (2002), se "promover a saúde
é fortalecer potenciais e desenvolver capacidades", o trabalho que não é um estímulo
de potencialidades pode se converter em um produtor de doenças.
É fundamental, portanto, que a coletividade elabore conjuntamente
medidas de promoção da saúde ambiental que não apenas reduzam o risco, a
exposição e os agravos à saúde individual e coletiva, mas que também desnudem as
potencialidades daqueles que participam ativamente dos processos produtivos e de
consumo.
27
Além de seu consumo, também são questões para a Saúde Coletiva os
resíduos destes produtos. Dentro da lógica do processo produtivo que contempla
elementos da extração da matéria prima, consumo dos produtos e os resíduos finais
(Tambellini & Câmara, 1998), os recursos do ambiente são explorados infinitamente
como insumos para a produção de acordo com as imposições do mercado, na
produção de bens e do lucro. Trata-se, na verdade, de um consumo predatório da
água, das fontes de energia e das riquezas minerais. Além disso, uma externalidade
negativa do processo produtivo em si é a produção de dejetos, de qualquer tipo e em
qualquer quantidade, que são lançados na natureza sem um mínimo de cuidado ou
critério. Os limites impostos pela natureza e sua incompatibilidade com a lógica
capitalista são discutidos por Stahel (1995):
“A busca de expansão constante é inerente ao próprio capitalismo, é sua”. base de
funcionamento. A eficiência produtiva, uma necessidade de sobrevivência do
capitalismo de mercado, é priorizada e mensurada sem levar em conta os custos sociais
ou ambientais da produção”.
1.5 Materiais e Métodos
Para cumprir os objetivos, foi realizado um estudo descritivo através de
entrevistas semi-estruturadas aplicadas a uma população de empregadas domésticas
que enfatizava dados sobre exposição a domissanitários. Todas as entrevistas foram
realizadas pela pesquisadora principal deste estudo. Mais especificamente, através de
questionários, buscou-se a freqüência de relatos de exposição aos saneantes
domissanitários, bem como uma proporção de efeitos à saúde relatados pelas
pessoas, os quais poderiam estar associados a este tipo de exposição.
1.5.1 População estudada
A população alvo constituiu-se de todas as empregadas domésticas
matriculadas numa instituição de ensino que exerciam sua atividade laboral na
limpeza geral em ambientes domésticos. A intenção foi investigar o universo dessas
trabalhadoras, observando se através da manipulação dos saneantes domissanitários
elas faziam algum tipo de associação com possíveis riscos à sua saúde. Como
28
percebemos de início, nossos sujeitos podiam ser/estar expostos aos saneantes
domissanitários de diversas maneiras, e por períodos variados de tempo.
Foram estudados um total de 159 trabalhadoras dentre todas as
empregadas domésticas existentes na instituição e que se dispuseram participar da
pesquisa. A seleção da população estudada foi feita a partir de um levantamento
sobre a situação econômica de todos os estudantes do curso noturno para fins de
adequação à lei da filantropia. Desta enquete foram aproveitados todos os alunos que
declararam a sua profissão como empregada doméstica, o que equivaleria uma
população de 190 mulheres.
Gostaríamos de ressaltar, entretanto, que ao longo do período letivo
muitas delas desistiram do curso, abandonaram ou trancaram sua matrícula por
motivos diversos, tais como, mudança de endereço de trabalho, cansaço físico,
desemprego, depressão e falta de dinheiro para pagar o transporte público. Além
disso, havia algumas mulheres que se incomodaram de serem chamadas de
“empregadas domésticas”, e, por isso, se recusaram a fazer parte da pesquisa. Na
realidade, foram consideradas apenas aquelas que voluntariamente responderam o
questionário durante a entrevista (n=159, o que corresponde a 83% da população
total). Consideramos a amostra aleatória na medida que não ocorreu entrevista
diferenciada para qualquer trabalhadora que constituía a população alvo.
Conforme classificação usualmente utilizada por pesquisadores desta
categoria profissional (Melo, 1998), definimos empregada doméstica como aquela
trabalhadora que exerce seu ofício em residências, diariamente, em tempo integral ou
parcial, ou por jornada diária. A doméstica que mora/dorme no próprio emprego, de
modo geral, possui longas jornadas de trabalho, sem horário fixo para começar e
terminar suas atividades. Já as funções da diarista e de faxineira são um pouco
distintas. As residentes, que vivem no local de trabalho recebem salário mensal, mais
casa e comida, são as mensalistas. No outro extremo, encontramos as diaristas, isto
é, empregadas que não residem no local de trabalho pois trabalham em várias casas
de família, recebendo salário diário ou semanal/mensal.
Em relação à formação escolar, o grupo estudado englobou tanto
empregadas que estavam matriculadas no Ensino Fundamental, quanto aquelas que
freqüentavam o Ensino Médio, ou o Profissionalizante. Isto porque optamos por
investigar como era realizada (e/ou, se realmente o era) a leitura dos rótulos dos
29
produtos de limpeza, e qual o nível de compreensão dos termos presentes nos rótulos
em função do tamanho das letras. Esses foram, por assim dizer, nossos “indicadores
ideais” de investigação.
Inicialmente o estudo foi explicado claramente a cada uma das
participantes e dada a oportunidade de se esclarecerem eventuais dúvidas a partir
dos questionamentos que surgiram. Todos os integrantes do grupo leram e assinaram
um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo 1), demonstrando sua
disponibilidade para participar deste projeto de pesquisa.
1.5.2 O local do estudo
O presente estudo foi realizado em uma instituição prestadora de serviços
de caráter sócio-educativo, localizada no coração do Bairro de Botafogo, zona sul do
município do Rio de Janeiro. Essa escola oferece um curso diurno com cerca de
3.500 alunos e um curso noturno que possui, atualmente, cerca de 1.300 alunos,
sendo a população noturna constituída basicamente pela classe trabalhadora de
diferentes categorias profissionais.
A escolha da instituição teve como principal critério ser a escola que
concentra o maior número de empregadas domésticas de uma área do município do
Rio de Janeiro, onde trabalham a maior parte das profissionais dessa categoria. Além
disso, pudemos contar com a facilidade de acesso à população estudada, em virtude
da pesquisadora trabalhar na mesma instituição.
O curso noturno dessa instituição, direcionado para jovens e adultos
trabalhadores com pouca ou nenhuma escolaridade, foi fundado em março de 1968
com o objetivo de oferecer cursos de Alfabetização, Ensinos Fundamental e Médio,
além de Educação Profissional no sentido de criar oportunidades para o mercado de
trabalho. A clientela do curso noturno é constituída, em sua grande maioria, por
pessoas provenientes do fluxo migratório das zonas rurais, ou ainda de outros centros
urbanos, oriundos de famílias sem recursos econômicos, as quais tiveram que lançar
mão de seus filhos em idade escolar como força de trabalho.
A instituição enfatiza também ações preventivas, desenvolvendo junto aos
alunos programas de educação para a saúde. Ela possui uma estrutura profissional
composta de 76 educadores, sendo que 54 são docentes e 22 não docentes. O
30
serviço de orientação é composto de quatro assistentes sociais, dois pedagogos, um
médico e um psicólogo.
A manutenção de uma equipe de Serviço de Orientação, constituída por
oito educadoras, é um sinal evidente das dificuldades e dos problemas especiais em
que vivem estes alunos. Essa equipe trabalha interdisciplinarmente, acompanhando
os alunos tanto em suas dificuldades relativas ao processo ensino-aprendizagem,
quanto
também
existenciais,
procurando
auxiliá-los
em
suas
dificuldades
momentâneas, isto é, que afetam diretamente seu rendimento escolar, como perda de
emprego, doenças, problemas financeiros, problemas com familiares ausentes,
problemas de moradia, de alimentação, passagens, problemas emocionais e afetivos.
As idades do alunado variam desde adolescentes de quinze anos (idade mínima para
ingresso na instituição), até adultos na terceira idade.
Numa pesquisa realizada pelo serviço social da instituição, no segundo
semestre de 2003, alguns dados foram levantados:
a) em relação ao sexo, observa-se uma predominância do sexo feminino sobre o
masculino: 67,3% nos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental; e, 63,3%
nos últimos quatro anos restantes.
b) em relação à idade, verifica-se que a faixa etária predominante situa-se entre os
19-35 anos, com maior incidência entre os 20 e 25 anos. Podemos perceber com
isso que os alunos estão eqüitativamente distribuídos nas faixas de jovens e
adultos. Esta predominância de idade na faixa etária entre os 19 e 35 anos ocorre
em todo Ensino Fundamental.
c) em relação ao estado civil, predominam os alunos solteiros sobre os casados, com
cerca de 84,4%.
d) em relação à procedência, podemos perceber que os alunos provêm de diferentes
estados da Federação, sendo em maior número do Rio de Janeiro, Paraíba,
Ceará, Maranhão e Minas Gerais.
e) em relação à residência, observa-se que aproximadamente 51% dos alunos moram
em apartamento, seguido de 26,7%, residentes em casa. Esse dado encontra-se
relacionado com a atividade profissional dos alunos.
31
f) em relação à profissão, das 70 atividades profissionais computadas, a maior
incidência se encontra nos trabalhos domésticos: 41,7% nos quatro primeiros anos
do Ensino Fundamental e 22% nos quatro últimos anos. Observamos, portanto,
que na medida em que vai crescendo o nível de escolaridade, diminui o percentual
de alunos nestas ocupações.
Ainda como uma caracterização da clientela, podemos dizer que muitos
apresentam dificuldades na área da aprendizagem, dificuldades estas relacionadas
provavelmente à deficiência alimentar e outros fatores decorrentes da dura infância.
Para muitos deles estas dificuldades persistem até hoje devido à jornada de trabalho
estafante, além de más condições de habitação e falta de lazer.
1.5.3 Instrumentos de pesquisa
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Núcleo de Estudo de
Saúde Coletiva (NESC-UFRJ), incorporando os aspectos éticos recomendados pela
resolução 196/96 sobre pesquisa envolvendo seres humanos. Após sua aprovação
houve um esclarecimento a cada trabalhadora dos objetivos e benefícios deste
estudo, sendo então apresentados a elas os termos de Consentimento Livre e
Esclarecido (Anexo 1), que cada uma assinou por livre e espontânea vontade.
Na segunda etapa da pesquisa, cada indivíduo foi submetido a uma
entrevista
com
um
questionário
semi-estruturado
(Anexo
2)
aplicado
pela
pesquisadora com a finalidade de levantar aspectos ocupacionais relacionados à
saúde desta população de empregadas domésticas e possíveis implicações derivadas
da utilização dos saneantes domissanitários, sempre levando em consideração a
relação saúde e trabalho que vimos discutindo nos capítulos anteriores. Estas
entrevistas representaram a principal fonte de dados do presente estudo. Foi
realizado um piloto para teste deste instrumento aplicado em 10 trabalhadoras, sendo
este precedido de explicação dos objetivos da pesquisa.
Selecionamos ainda um grupo de 16 entrevistadas, para as quais foi
solicitado que lessem três rótulos de produtos de limpeza. A pesquisadora assinalou à
margem das questões a clareza da leitura e os termos que não foram lidos ou
compreendidos pelas entrevistadas. A escolha dessas informantes recaiu nos
múltiplos de dez (aleatória) e os produtos de limpeza foram também escolhidos
32
aleatoriamente. A sala onde foi aplicado o referido instrumento era clara, ampla e bem
iluminada, de modo a facilitar a leitura dos rótulos. Outras questões que se fizeram
relevantes, além daquelas contidas no questionário, também foram abordadas pela
pesquisadora, de acordo com a natureza dos desdobramentos das respostas obtidas.
Na tentativa de traçar alguns parâmetros, o presente estudo levou em
consideração as seguintes variáveis:
ƒ Identificação: nome, estado civil, naturalidade, idade e formação escolar.
ƒ História ocupacional pregressa: foram solicitadas informações sobre o primeiro e os
dois últimos empregos. Tratamos de identificar a idade em que a informante
começou a trabalhar, atividade(s) que realizava, tempo que permaneceu em cada
um dos respectivos empregos, motivo(s) da(s) demissão(ões), percepção de risco
e tempo de afastamento.
ƒ História ocupacional atual: foram solicitadas informações sobre a data de admissão,
situação funcional, jornada de trabalho em horas, benefícios, moradia, carga
horária e atividades desenvolvidas no trabalho.
ƒ Morbidade geral: Por meio dessas questões buscamos informações sobre algum
problema de saúde que a informante tenha apresentado nos últimos quinze dias
que antecederam a entrevista, e quais foram estes problemas.
ƒ Avaliação: Tentativa de estabelecer relações entre o nexo ocupacional do sujeito, a
utilização de saneantes domissanitários e os possíveis problemas de saúde
mencionados pelas informantes, além da avaliação na compreensão da leitura dos
rótulos.
1.5.4 Armazenamento e análise dos dados
Com os dados coletados através dos questionários, foi criado, com a
utilização do software EPIINFO 6.04, um banco de dados por meio do qual foram
33
obtidas freqüências simples de cada uma das variáveis selecionadas com o objetivo
de descrevê-las. As variáveis consideradas importantes foram cruzadas para uma
melhor caracterização da população em estudo.
O tempo de atividade nos empregos e a manipulação de saneantes
domissanitários foram as variáveis independentes consideradas mais importantes
para a análise de associação. Como a atividade da trabalhadora doméstica tem como
especificidade a manipulação destes produtos de limpeza ou atividades afins, o tempo
de exposição foi considerado igual ao tempo de atividade na manipulação desses
produtos.
1.5.5 Outros aspectos éticos
Como citado anteriormente, este projeto incorporou os aspectos éticos
recomendados pela Resolução 196/96 sobre Pesquisa Envolvendo Seres Humanos e
não apresentou atividades que pudessem acarretar danos às dimensões físicas,
psíquicas, morais, intelectuais, sociais, culturais ou espirituais de nossos informantes.
Trata-se de um estudo que pode se reverter em recomendações para diminuir a
exposição do grupo estudado aos saneantes domissanitários.
Os dados que foram coletados referentes aos sujeitos da pesquisa foram
de uso exclusivo da equipe de pesquisa, e a pesquisadora responsável garantiu que
nenhum estranho tivesse acesso a essas informações e que foi preservado a
confidencialidade necessária. Não obstante, a divulgação dos resultados da pesquisa
deverá ser pública, e, em primeiro lugar, endereçada aos sujeitos da pesquisa.
Os sujeitos da pesquisa tiveram garantia de livre consentimento após total
esclarecimento de todos os benefícios e possíveis riscos que poderão advir do
desenvolvimento da pesquisa. A pesquisadora principal foi a pessoa responsável pela
coordenação e realização da pesquisa e pela integridade e bem-estar dos sujeitos
envolvidos.
Vale também considerar que a equipe contou com o apoio da direção da
instituição onde foi realizada a pesquisa. Vale acrescentar que a mestranda é
funcionária da referida instituição onde foi realizado o estudo.
34
Finalmente, caso ocorresse algum motivo imprevisto, a suspensão ou
encerramento da pesquisa deveria ser decidido após discussão com todos os atores
sociais envolvidos, e sujeita à análise das razões pelos responsáveis deste projeto.
35
CAPÍTULO 2
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
O estudo das relações entre saúde e ambiente requer um tratamento
interdisciplinar, isto é, trata-se de um processo que pressupõe pensar estratégias e
diretrizes que devem ser construídas a partir de referenciais teóricos acerca da saúde,
do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. Isso quer dizer que para
solucionar problemas complexos precisamos atuar não apenas nas suas partes
constituintes, mas, ao contrário, investir na compreensão sobre o todo do problema.
Para tal, é requerida a contribuição de diversas áreas e especialidades, pois quando
reconhecemos a complexidade dos problemas coletivos da saúde, do ambiente e da
qualidade de vida, somos levados a construir um modelo de compreensão e de
atuação interdisciplinar.
Os ambientes de trabalho vêm despertando interesse nos pesquisadores,
seja devido às situações de risco específicas para a saúde, seja por conta do
crescimento das estatísticas de acidentes, e/ou doenças que têm acometido os
trabalhadores. Segundo Câmara e Corey (1992), embora os ambientes de trabalho
apresentem comumente situações de risco que podem ser categorizadas como
físicas, químicas, mecânicas, biológicas, ergonômicas e psicossociais, os fatores de
risco em determinadas situações ultrapassam os limites dos ambientes de trabalho e
atingem também a população não trabalhadora.
Tambellini (1996) define a Saúde do Trabalhador como uma das áreas
presentes na Saúde Coletiva, um campo de práticas teóricas e de intervenção
concreta na realidade que tem como objeto os processos de saúde e de doença nas
coletividades. As relações entre saúde, doença e trabalho têm como ponto de partida
a investigação dos riscos para a saúde, presentes no âmbito da produção e do
consumo de bens e serviços, no meio ambiente e no modo de viver dos indivíduos.
36
Entre as diferentes situações de risco para a saúde originadas por
processos produtivos deve-se destacar a elevada toxicidade das substâncias
químicas. O uso indiscriminado destas substâncias propicia um processo intenso de
exposição das populações a esses produtos e uma deterioração ambiental crescente.
Como afirmam Tambellini & Câmara (2002):
[como] o ambiente pode de muitas maneiras afetar a saúde humana, é fundamental o
conhecimento das situações de risco de origem no ambiente e suas conseqüências para a
saúde (p. 86).
No ambiente circula um elevado número de substâncias químicas, e para a
grande maioria delas ainda não estão disponíveis conhecimentos toxicológicos,
ecotoxicológicos, metodologias e tecnologias, tanto para o diagnóstico de situações
de risco para a saúde quanto para o desenvolvimento de atividades de vigilância que
visem sua prevenção e controle (Geo-Brasil, 2002). Além disso, um grande número de
produtos é elaborado pelas indústrias ano após ano, mas geralmente o público
consumidor não dispõe de informações mais claras sobre o seu possível impacto na
saúde humana e ambiental. Ainda que as indústrias aleguem que estes produtos
estão diluídos em outras substâncias e, deste modo, não representam ameaças aos
consumidores, cientistas e grupos ambientalistas têm demonstrado uma preocupação
crescente em virtude da falta de controle mais efetivo por parte das autoridades
públicas, visto que uma exposição prolongada, mesmo em pequenas doses, a estes
produtos, pode virtualmente causar sérios danos à saúde:
A cada ano são incorporadas aos processos produtivos milhares de novas substâncias.
Mas é escasso, quanto aos efeitos sobre a saúde, o conhecimento sobre a grande maioria
das substâncias químicas (Câmara et al., 2003).
A própria lógica do desenvolvimento industrial e inovações tecnológicas no
ramo químico vêm possibilitando um crescimento dos riscos numa velocidade bem
maior do que a capacidade científica e institucional de analisá-los e gerenciá-los.
Embora diversos produtos sejam comprovadamente prejudiciais à saúde humana, seu
consumo ainda é incentivado pelos meios de propaganda, sem, acreditamos,
adequada orientação técnica. E conforme indica um recente estudo do Greenpeace
(2004), os estudos que investigam a associação de agravos à saúde com o uso de
37
saneantes domésticos são escassos e baseados apenas em casos de intoxicação
aguda.
À medida que as pesquisas em Epidemiologia avançam, 6 sobretudo nas
instituições de ponta dos chamados países desenvolvidos, vem sendo constituído um
conhecimento mais sólido que tem permitido aos pesquisadores estabelecer relações
mais precisas entre algumas doenças respiratórias, gastrointestinais, dérmicas e
outras (tais como conjuntivites e otites) e a exposição a agentes químicos presentes
em produtos domissanitários, ou por compostos gerados a partir de sua aplicação nos
ambientes internos, ou mesmo decorrentes da própria atividade de limpeza.
No Brasil, entretanto, ainda é freqüente que se subestimem as várias
conseqüências desses casos de enfermidades e intoxicações no que tange à saúde
coletiva e à economia.7 O que se nota é que existe uma certa tendência para
considerar certas infecções que afetam a coletividade como secundárias, mesmo
sabendo-se que elas representam um sério problema que afeta tanto indivíduos
adultos, que compõem a população economicamente ativa, quanto crianças em fase
escolar. Nos indivíduos pertencentes aos grupos de risco os casos podem ser ainda
mais sérios, requerendo até hospitalização, o que ocasiona custos adicionais para a
coletividade.
Além disso, como veremos adiante, apesar de haver uma grande variação
na incidência de doenças pulmonares ao redor do mundo, seja com relação à asma, à
pneumonia, à tuberculose, ou mesmo ao câncer de pulmão, todas essas doenças
podem ser causadas pela exposição a agentes nocivos no ambiente de trabalho, ou
seja, terem em sua origem uma causa de tipo ocupacional, o que requer atenção das
6
A Epidemiologia descritiva mostra a freqüência de uma determinada doença nos diferentes grupos populacionais,
considerando o local e o momento em que isto é observado. Procura, também, esclarecer as causas da variabilidade
de uma doença na população. As vantagens deste tipo de estudo consistem na sua facilidade de execução,
simplicidade da análise dos dados, apresentando um custo relativamente baixo e, suas desvantagens seriam o baixo
poder analítico (inadequado para testar hipóteses causais) e o tempo, pois se o estudo for muito prolongado poderá
apresentar sérias alterações metodológicas (Klein & Bloch, 2002).
7
De um levantamento realizado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional entre os anos de 1974 e 1994, foram
encontrados poucos trabalhos. Em 1974, Goelzer chamava a atenção para um componente cancerígeno (o cloreto de
vinila) presente nos aerossóis, o qual poderia vir a comprometer a saúde de cabeleireiros. Em 1979, Morita e outros
publicavam um trabalho sobre casos de intoxicação com inseticidas organofosforados, seguido por Lombardi e
outros (1983), que pesquisaram os inseticidas de uso doméstico. Mais recentemente, começam a surgir alguns
trabalhos sobre contaminações com agrotóxicos, e destacam-se os trabalhos de Câmara Neto (2000), que estudou as
relações entre condições sanitárias do ambiente urbano e o uso de pesticida doméstico; e de Diel e outros (2003),
que estabeleceram relações entre o consumo de inseticidas e a renda per capita. Porém, pouca relevância tem sido
dada aos problemas decorrentes da exposição aos produtos de limpeza e/ou demais domissanitários, a não ser
38
autoridades para encarar o desafio de converter os dados da pesquisa epidemiológica
em informação específica o bastante no sentido de iniciar mudanças nas práticas de
trabalho.
Como afirma o editorial do volume 26, do ano de 2000, do Scandinavian
Journal of Work, Environment & Health,
“as causas etiológicas precisas das doenças pulmonares têm recebido mais atenção do
que aquelas relacionadas a outras enfermidades, particularmente porque a resposta dos
pulmões aos agentes externos pode ser monitorada com mais precisão do que muitos
outros órgãos, e parcialmente porque a maior parte das doenças pulmonares podem se
derivar de substâncias inaladas, e essas substâncias podem ser medidas no ar que nós
respiramos”.
Ainda segundo o mencionado editorial, o exame de raio-x foi o primeiro
método objetivo para o acesso aos pulmões. As reações fibróticas e inflamatórias,
provocadas pela retenção de poeira nos pulmões, são freqüentemente visíveis nas
radiografias do tórax, e as pneumocistoses foram as primeiras doenças pulmonares
de origem ocupacional bem estabelecidas. É necessário, entretanto – segundo os
editores –, distinguir entre as causas de doenças ocupacionais e não-ocupacionais.
Embora o câncer pulmonar e a doença crônica de obstrução pulmonar podem ser
provocados por fatores ocupacionais, somente pode ser atribuída uma causa
particular a uma determinada doença através das estimativas de risco derivadas de
uma abordagem epidemiológica.
De todo modo, o estudo epidemiológico de doenças crônicas no ambiente
de trabalho é notoriamente difícil, pois os trabalhadores que desenvolvem uma
doença crônica geralmente se afastam (ou são afastados), e somente aqueles que
são relativamente resistentes aos efeitos da exposição ocupacional permanecem para
serem estudados.8 Conforme veremos mais adiante, os estudos observacionais em
base de coortes, utilizando usualmente mensurações feitas durante surveys seguidos
de follow-up, têm sido empregados para lidar com os problemas que surgem em
função das dificuldades inerentes à pesquisa em ambientes de trabalho. O
acompanhamento dos sujeitos da pesquisa durante um período de tempo permite
algumas denúncias publicadas em revistas especializadas (Gonçalves, 2003), e jornais de grande circulação (Santos,
2005).
8
Esse risco de deturpar os dados da pesquisa devido a uma contingência temporal e espacial específica é chamado
pela literatura especializada como healthy worker effect, ou o “efeito do trabalhador saudável”.
39
avaliar potenciais fatores de risco ocupacionais ou ambientais, isto é, potenciais
causas de uma dada condição clínica (Hulley et al., 2003, pp. 113-25).
2.1 O uso de desinfetantes no ambiente doméstico
Como demonstra nosso recenseamento da literatura especializada no
assunto, os estudos relativos ao uso de saneantes domissanitários em ambientes
domésticos eram escassos até algumas décadas atrás. Num primeiro esforço de
organizar as pesquisas realizadas até meados da década de 1970, Saly Bloomfield
(1978) procurou passar em revista ao conjunto dos produtos desinfetantes destinados
ao uso doméstico e tentou estabelecer o valor potencial do seu emprego em várias
áreas do lar. Porém, apesar do foco no ambiente doméstico, a autora nos alerta, já no
início do seu artigo, que os dados disponíveis até aquele momento se baseavam, na
sua maioria, em pesquisas realizadas em hospitais.
A autora relata que a partir da década de 1950 foram sendo desenvolvidas
investigações em microbiologia aplicada e áreas afins, e realizados testes de
laboratório e simulações para demonstrar a atividade dos desinfetantes como agentes
de redução da contaminação ambiental e controle de infecções em ambiente
hospitalar, onde o risco de disseminação mais freqüentemente ocorre via a
contaminação cruzada (de um paciente a outro), e essencialmente via mãos ou
vestimentas dos enfermeiros e médicos, ou ainda através do ar e das partículas de
poeira.9
As pesquisas usualmente diferenciavam as chamadas áreas “secas” e
“molhadas”, procurando estabelecer em cada uma delas a capacidade de
sobrevivência de microorganismos potencialmente patogênicos: bactérias, vírus,
fungos e outros germes.
Com relação às áreas secas, descobriu-se que os pisos e material de
forração do solo (carpetes e tapetes) são mais fortemente contaminados do que
9
Uma avaliação microbiológica de desinfetantes químicos de uso doméstico foi realizada no Brasil por Timenetsky
(1990). O Grupo Técnico de Saneantes Domissanitários (GTSAN), da FioCruz, realiza um relevante trabalho de
análise de saneantes domissanitários, alertando os órgãos de vigilância sanitária para a importância da inspeção das
empresas fabricantes e do monitoramento desses produtos, consumidos de forma constante e rotineira pela
população.
40
outras áreas nas mesmas condições (paredes, janelas e teto; vestimentas e roupas
de cama e banho), e que, apesar de efetivo após a aplicação, o uso de desinfetantes
era em geral de pouca valia, uma vez que essas áreas voltavam a se contaminar
poucas horas após a atividade de desinfecção. Recomendava-se, simplesmente, o
controle da poeira, complementando a rotina por meio da limpeza com água quente e
detergente, considerados suficientes para a descontaminação; ou o acréscimo de
uma certa proporção de hipoclorito de sódio, no caso do emprego de água fria nos
procedimentos de lavagem de roupa.
As chamadas áreas molhadas, por outro lado, onde pode haver acúmulo
de líqüidos de diversos tipos, representam as principais áreas em que o uso de
desinfetantes é recomendado. Mesmo aí, no entanto,
“as evidências de hospitais e outros locais indicam que a aplicação per se de
desinfetantes produz pouca ou nenhuma permanente redução na contaminação bacterial
em situações que estão expostas à contínua recontaminação do ambiente.
Consistentemente, baixos níveis de contaminação podem ser alcançadas em áreas
molhadas somente pela limpeza com água quente e detergentes, e a aplicação de
desinfetantes onde for apropriado” (p. 16).
É impressionante pensar que o conjunto desses estudos apontava que a
eficácia da limpeza e descontaminação era derivada mais dos cuidados com os
utensílios e métodos de limpeza empregados, do que propriamente com o acréscimo
de produtos químicos, tais como desinfetantes. E, de fato, em 1976, um documento
sobre o uso de alvejantes e desinfetantes no lar, do Public Health Laboratory da GrãBretanha, recomendava
“o uso de água quente e detergente para a maioria dos processos de limpeza, e sugeria
também, quando fosse possível, que itens tais como roupas e outros utensílios de
limpeza deveriam ser descontaminados por fervura; em certos casos o uso adicional de
alvejante era recomendado, mas apenas em situações em que fosse considerado que
esse produto químico fosse trazer alguma contribuição para o controle da infecção no
lar, e apenas quando acompanhado por todos os procedimentos de limpeza” (apud
Bloomfield, p. 17; grifo nosso).
Bloomfield afirma que, como existem várias áreas molhadas dentro de uma
casa,
os
níveis
e
os
tipos
de
contaminação
que
elas
abrigam
variam
consideravelmente. Em função do conhecimento existente até aquele momento, a
autora elenca uma série de situações em que os desinfetantes poderiam ser de
grande valia no controle das infecções. Certos recipientes, tais como pias e lavatórios,
41
utensílios de limpeza, banheiras, vasos sanitários e ralos mereceriam uma atenção
especial. Além disso, em virtude do alto risco de contaminação existente em
banheiros e cozinhas (sobretudo no preparo de alimentos crus), recomendava-se para
esses locais o uso de desinfetantes.
Tanto a higiene pessoal, quanto o que autora denomina de “situações de
alto risco” (isto é, primeiros socorros e cuidados com pessoas idosas e enfermas, e
higiene infantil), também são objeto de sua atenção.
No que tange à higiene pessoal, afirma Bloomfield que há relatos
conflitantes na literatura sobre a relação entre os efeitos dos produtos empregados e
a possível redução na incidência de infecções. Em geral, as pessoas sadias são
adequadamente resistentes contra organismos patogênicos que se depositam na
superfície da pele, a chamada “flora transiente”, e o uso de sabões, sabonetes e
xampus com propriedades bactericidas e/ou fungicidas é somente recomendado em
casos específicos, pois reações adversas, tais como irritação e fotossensibilidade,
podem ocorrer. Normalmente, o cuidado com a lavagem regular das mãos com água
e sabão é suficiente para conter a contaminação cruzada no ambiente doméstico.
Quanto às situações de alto risco, recomenda-se, no primeiro caso,
cuidado na administração de desinfetantes, porque eles podem estar incorretamente
diluídos, ou mesmo contaminados, transformando-se em reservatórios de infecções.
No que se refere à higiene infantil, a utilização de água fervida juntamente com a
imersão em solução com hipoclorito tende a surtir bons resultados, ainda que não
inteiramente satisfatórios.
Nas décadas seguintes foram realizadas várias pesquisas – muitas das
quais conduzidas por Bloomfield10 –, que permitiram avançar no conhecimento dos
potenciais riscos de infecção no ambiente doméstico, e novas recomendações foram
traçadas. Como veremos na próxima seção, o uso de desinfetantes passou a ser
indicado em certas situações específicas, sendo que os cuidados com a higiene do
lar, a higiene dos alimentos e a higiene pessoal têm adquirido uma importância vital,
na opinião dos higienistas, no sentido de conter o avanço das infecções na
coletividade. Em publicação recente (IFH, 2002b), o Fórum Internacional de Higiene
Doméstica credita o sucesso do controle das doenças infecciosas, sobretudo nos
10
As referências bibliográficas podem ser encontradas em IFH, 2002b; e 2002c.
42
países em desenvolvimento, a uma política pública de saúde que combina
saneamento ambiental (tratamento da água e esgotos) e políticas educacionais de
higiene doméstica.
2.2 O debate entre autoridades alemães e higienistas
Em 2000, o Instituto Alemão de Proteção à Saúde do Consumidor e à
Medicina Veterinária, juntamente com a Autoridade Alemã do Meio Ambiente e o
Instituto Robert Koch publicaram um relato em que se afirmava que no ambiente
doméstico o processo de limpeza com um detergente convencional era suficiente para
reduzir o risco de contaminação a um nível seguro e saudável, isto é, que o uso de
bactericidas e demais saneantes domissanitários eram nitidamente desnecessários.
Também afirmava que a utilização de produtos desinfetantes neste meio acarretava
potenciais riscos a saúde, tais como alterações na flora natural da epiderme e o
favorecimento de mecanismos de resistência dos germes (IFH,2002b). Além disso, as
autoridades alemães estavam preocupadas com os efeitos adversos promovidos
pelos agentes que contêm fenóis ou halogênios, tanto sobre a funcionalidade do
tratamento biológico do esgoto, como sobre os equipamentos de tratamento da água
potável.
Em 2002, o Fórum Internacional de Higiene Doméstica (IFH, 2002a)
questionou essas colocações, que, segundo os pesquisadores reunidos, estavam
baseadas em dados desatualizados de pesquisas realizadas na década de 1970. O
IFH traçou outras recomendações, visto que as questões levantadas pelos alemães
poderiam confundir a percepção do público em relação aos riscos de doenças
infecciosas no ambiente doméstico e sobre a importância de medidas eficazes no
controle de tais riscos.
O Fórum Internacional acredita, como as agências alemãs, que em muitas
situações o processo de limpeza com um detergente básico é suficiente no controle
de riscos à saúde. No entanto, reitera que existem situações em casa nas quais o uso
de desinfetantes é recomendável. Segundo os pesquisadores ali reunidos, para ser
efetiva, a política de higiene doméstica precisa estar baseada na relação entre a taxa
de risco e a prevenção do risco. O IFH destaca, ainda, a importância de se escolher
43
um produto próprio de acordo com a necessidade, de modo a evitar o uso excessivo
de agentes químicos dentro do ambiente doméstico. O Fórum se propôs também a
elaborar uma política de higiene doméstica baseando-se em estudos mais recentes,
que indicam as principais fontes de contaminação doméstica: o manuseio de comidas
cruas; a existência de pessoas doentes em casa; e a presença de animais de
estimação em ambientes domésticos (IFH, 2002b).
Segundo essas pesquisas, a contaminação pode ser disseminada a partir
dessas fontes através de atividades cotidianas via manuseio de alimentos, superfícies
e outras rotas, e de pessoa a pessoa dentro de uma mesma família. O IFH concluiu
que a interrupção das rotas de transmissão através de uma boa política de higiene
doméstica poderia reduzir significantemente a incidência de infecções na comunidade
e no ambiente doméstico (IFH, 2002c).
Os pesquisadores estabeleceram uma diferença entre as atividades de
limpeza rotineiras e a prevenção de uma contaminação cruzada. A higiene doméstica,
diária ou semanal, reduz o risco de infecção, evitando a reprodução dos germes. Mas
em alguns casos o uso de desinfetante é recomendável; isto é, mesmo que as
autoridades alemães afirmassem que a atividade de limpeza por si só poderia estar
associada com a disseminação de germes no ambiente doméstico, em relação ao
desenvolvimento de mecanismos de resistência dos germes nada ainda foi
comprovado.
De modo geral, as bactérias resistentes a antibióticos são trazidas para o
ambiente doméstico por animais, mas os agentes virais também podem provocar não
somente infecções gastrointestinais como também respiratórias. Como as infecções
virais não são tratadas com antibióticos, deve-se, segundo o IFH, reforçar a
necessidade de prevenção através da higiene.
Estudos têm apontado ainda a disseminação de um grande número de
vírus e bactérias potencialmente infecciosas a partir de comidas infectadas, pessoas
ou animais doentes, e também através das mãos, roupas e outras superfícies. No
ambiente doméstico também pode ocorrer a disseminação de vírus respiratórios,
como o rinovírus e o vírus sincicial respiratório durante as preparações de alimentos
crus na lavagem de roupas, ou por meio de lenços, maçanetas de portas e telefones.
Os experimentos indicam que o vírus é transferido pelos dedos à mucosa nasal ou
conjuntiva, e isto possibilita uma infecção.
44
Em alguns casos o ambiente doméstico, por ter se tornado um meio de
cuidados médicos, vem se transformando num fator de risco bem semelhante ao de
um hospital. Em função do envelhecimento da população, um maior número de
pessoas carecem de serviços de saúde em casa, e nesse caso em particular o uso de
desinfetantes tem sido considerado indispensável para a higiene doméstica, e
recomendado como política de saúde para o controle de situações de risco.
Quanto à possível correlação entre a utilização de biocidas e à resistência
aos antibióticos, os estudos até o presente momento concluíram que não há
evidências suficientes na prática clínica, mesmo porque, talvez seja a prescrição
demasiada de antibióticos a principal responsável pela resistência dos germes. Outro
argumento dos higienistas a favor do uso de desinfetantes no ambiente doméstico,
seria que os biocidas utilizados na higiene poderiam contribuir para reduzir o impacto
da resistência ao antibiótico pela diminuição do número de infecções, o que levaria,
conseqüentemente, a uma menor taxa de prescrição aos antibióticos.
No que se refere às questões ambientais, estudos recentes provaram que
os desinfetantes baseados nos aldeídos, cloro e álcool, quando usados no ambiente
doméstico, são degradáveis e não contaminam o tratamento do esgoto ou da água
potável. Embora o hipoclorito produza traços de substancias organocloradas (cerca de
1,5% do cloro original), essas substâncias são geralmente biodegradáveis e solúveis
em água tornando-se improvável que causem sérios danos ao meio ambiente. Para
se ter uma idéia, o consumo de hipoclorito doméstico na Inglaterra é cerca de dez
vezes maior que o consumo na Alemanha, e mesmo assim o Comitê Técnico da
Inglaterra para Detergentes e Meio Ambiente concluiu que não há nenhum relato de
que os biocidas contendo halogênios exerçam efeitos adversos nos trabalhos de
tratamento de esgotos.
O impacto dos componentes biocidas no meio ambiente deve ser avaliado
caso a caso, visto que o comportamento e a natureza de cada um varia dentro de
uma faixa muito grande. Mas com relação à experiência em países onde o consumo
destes produtos é elevado e utilizado há muitos anos, nada tem sido sugerido que tais
produtos possam trazer riscos significativos para a saúde coletiva. No entanto,
afirmam os higienistas, é importante elaborar dossiês detalhados e atualizados de
45
cada componente químico destes produtos, para uma melhor avaliação sobre o seu
impacto ambiental.11
Em suma, ao se pensar num balanço de probabilidades entre os riscos de
biocidas e a necessidade de um processo efetivo de higiene para reduzir riscos de
infecção no ambiente doméstico, o IFH concluiu que os benefícios da utilização no
ambiente doméstico de processos de desinfecção em determinadas situações de
risco devem ser considerados, e que esta medida representa uma importante atitude
na proteção da saúde, no controle de infecções e da disseminação de
microorganismos que são resistentes aos antibióticos.
2.3 Asma, produtos e atividades de limpeza e Saúde Ocupacional
A relação entre alergênicos existentes no ambiente doméstico e a asma
tem sido extensivamente estudada por especialistas médicos, mas apenas
recentemente estudos têm sugerido a possibilidade do papel de poluentes químicos
no ambiente interno relacionado com a gênese da asma. Dados da pesquisa
bibliográfica que realizamos nos sugerem que foi nos países escandinavos que
surgiram as primeiras investigações sobre o tema, em parte motivados pelo que se
convencionou chamar de “Síndrome dos Edifícios Doentes”; em parte devido ao
grande número de casos de problemas respiratórios decorrentes do clima gélido e da
necessidade de contar com equipamentos de isolamento térmico e aquecimento
central. Neste sentido, a preocupação com a poluição dos interiores (indoor pollution)
se tornou um problema de saúde pública que motivou pesquisadores de vários
países.12
O estudo de Burge & Richardson (1994) é um exemplo de um dos
primeiros trabalhos a relatar um grave caso de asma ocupacional desenvolvido pela
exposição a um agente químico (lauryl dimethyl benzyl ammonium chloride) presente
11
Ver a respeito a publicação da OMS (2000).
Em 1993, S. Meredith (apud Medina-Ramón et al., 2003) já investigava casos de asma ocupacional notificados
no Reino Unido. Nos EUA, trabalho semelhante foi desenvolvido por Jojosky R. et al. (1999, apud Medina-Ramón
et al., idem) entre os anos de 1993 e 1995. Reinisch et al. (2001, apud Zock et al., 2002) analisaram casos de
notificação de asma ocupacional na Califórnia entre os anos de 1993 e 1996. Na Finlândia, Karjalainem, A. et al.
(2002 apud Zock et al., idem) estudaram a incidência de asma entre trabalhadores em limpeza em diferentes
indústrias.
12
46
em um produto de limpeza utilizado para a desinfecção do piso de um local de
trabalho. Trata-se de um estudo de caso individual de um farmacêutico de 44 anos
que se viu ameaçado de perder seu emprego. Seu caso foi confirmado por uma série
de medidas dos picos de fluxo respiratório, tanto em casa como no trabalho. A
substituição deste produto de limpeza por um simples detergente levou a um
substancial melhora da sua situação clínica.
Em 1998, Wolkoff e outros publicaram um trabalho que fornecia uma
abrangente introdução aos agentes de limpeza, e tratava do impacto da atividade de
limpeza sobre os trabalhadores domésticos e ocupantes de ambientes fechados. Os
agentes de limpeza são usualmente agrupados em diferentes categorias em função
de suas funções técnicas e a intenção de uso (isto é, desinfetantes e limpadores de
superfície, por exemplo), mas o estudo também indica que existe uma relação entre
efeitos adversos de saúde ou desconforto associados com esses agentes em
conexão com o processo de limpeza.
Em virtude de conterem tanto substâncias voláteis como não voláteis, os
desinfetantes foram identificados pelos autores como o mais perigoso grupo dentre os
agentes de limpeza. Os seus constituintes mais significantes são os compostos
orgânicos voláteis (COVs). Partículas de sujeira também contêm uma grande
variedade, tanto de substâncias voláteis como não voláteis, incluindo alergênicos.
Enquanto a fração volátil pode consistir de mais de 200 diferentes COVs, incluindo
formaldeídos, a fração não volátil pode conter consideráveis quantidades de sais de
gordura ácida e tensoativos, tais como sulfonatos alquil benzeno lineares. Como o
nível dessas substâncias pode ser alto imediatamente após o processo de limpeza, é
provável que elas se originem parcialmente do uso dos agentes de limpeza. No
entanto, as atividades de limpeza também geram poeira, principalmente por
ressuspensão, assim como outras atividades desenvolvidas nos ambientes internos,
as quais podem ressuspender a poeira por longos períodos de tempo.
De acordo com Wolkoff et al. (1998), um dos mais extensivos estudos
sobre agentes de limpeza foi realizado na Dinamarca, no final dos anos 80, em virtude
de uma notificação de registro compulsório, emitida em 1986, pela Agência de
Proteção Ambiental Dinamarquesa para agentes utilizados em processos de lavagem
e limpeza em geral (Børglum & Hansen, 1994, apud autores). Foram coletadas
informações sobre quantidades manufaturadas e importadas, bem como sobre a total
47
composição química de agentes de limpeza em uso naquele ano: um total de 2.567
agentes, num montante de aproximadamente 250 mil toneladas!
Também na Dinamarca, entre os anos de 1989 e 1991, Nielsen & Bach
(1999) realizaram um estudo de coorte prospectivo com faxineiras empregadas em
enfermarias, escolas e escritórios. O trabalho foi conduzido de forma a descrever a
incidência de sintomas oculares, nasais ou de garganta derivados da asma e da
bronquite entre faxineiras de diferentes faixas etárias, e diferentes experiências
profissionais, com relação ao uso de sprays.13
Os estudos basearam-se em questionários, tendo sido acompanhado um
grupo de 1.011 mulheres durante o período. A média de idade em 1989 era de 45
anos e a média de anos de trabalho entre as mais experientes era de 10 anos.
Concluiu-se que o risco para desenvolver sintomas respiratórios era o mesmo entre
as menos e as mais experientes trabalhadoras. O uso de sprays durante o período da
investigação, no entanto, foi associado a um risco incremental de ocorrência de
sintomas oculares e respiratórios.
Apesar de estudos realizados com indivíduos ter mostrado que alguns
biocidas e aditivos causam asma ocupacional tanto em faxineiros como em
trabalhadores cujos ambientes de trabalho foram limpos enquanto eles não estavam
presentes, o Survey da Comunidade Européia para a Saúde Respiratória (SCESR),
predominantemente investigando a asma, descobriu que trabalhadores em limpeza
têm um maior risco para desenvolver asma. As investigações ainda estão sendo
realizadas, buscando identificar entre os diferentes tipos desses profissionais
(domésticos, industriais, comerciais, etc.) os tipos particulares de exposição no seu
ambiente de trabalho.
Exemplos desses estudos são os trabalhos de Zock et al. (2001; 2002) e
de Medina-Ramón et al. (2003), que foram realizados no sentido de aprofundar os
conhecimentos sobre a incidência de doenças respiratórias de origem ocupacionais,
sobretudo a asma, que afetam os trabalhadores em limpeza em ambientes fechados.
A originalidade desses estudos decorre do fato de, além de ser particularmente difícil
realizar uma investigação com trabalhadores domésticos (como se trata de uma
13
Segundo consta, J. Nielsen também realizou o primeiro trabalho em Saúde Ocupacional de empregados em
limpeza, intitulado “The health of cleaners”, apresentado como tese PhD na Universidade de Copenhagen, em 1995.
Infelizmente seu trabalho ainda não foi traduzido do dinamarquês (Nielsen, J., 1995, apud Wolkoff et al., 1998).
48
ocupação com alto grau de informalidade, mesmo nos países europeus não estão
disponíveis registros oficiais), estão sendo encontradas evidências de que a própria
natureza da atividade ocupacional, bem como a exposição a produtos químicos pode
estar associada ao risco do desenvolvimento da asma.
O primeiro deles (Zock et al., 2001) trata-se de um estudo transversal a
partir de dados coletados com trabalhadores em limpeza na Espanha, como parte do
SCESR. Os autores afirmam que até que os primeiros trabalhos do grupo de
pesquisadores do Survey começassem a vir à luz, em 1999, as atividades de limpeza
não eram geralmente associadas como uma ocupação de alto risco com relação à
asma ocupacional. Os estudos baseados em uma determinada categoria profissional
(work-force based studies), e os estudos de comunidade (community-based studies)
haviam identificado algumas profissões de risco, tais como pintores que utilizam
sprays, padeiros e confeiteiros, soldadores, agricultores, técnicos de laboratório que
lidam com animais, cabeleireiros e enfermeiras.
Apesar de não haver até aquele momento nenhum estudo epidemiológico
focado nos trabalhadores em limpeza, alguns trabalhos anteriores haviam sugerido
que agentes químicos presentes em produtos de limpeza poderiam causar asma, tais
como os derivados de cloro e amônia, os compostos quaternários de amônia, e as
etanolaminas. Os pesquisadores se propuseram então a investigar o uso de produtos
de limpeza específicos em determinadas atividades de limpeza, procurando
estabelecer as condições de risco para essa população contrair asma ocupacional, se
comparados com um grupo de referência formado por trabalhadores de escritório. Os
próprios autores reconhecem, entretanto, que a amostra muito pequena (21 sujeitos)
e bastante seleta era uma limitação potencial do trabalho realizado.
De todo modo, segundo eles, o risco excessivo para asma foi confirmado
usando informações específicas sobre a atividade de limpeza e questões sobre
sintomas respiratórios relacionados com o trabalho. Além disso, foram investigados os
determinantes da asma entre trabalhadores em limpeza de ambientes fechados, que
foram predominantemente atribuídos à limpeza de domicílios particulares. A limpeza
de banheiros e cozinhas, a aplicação de lustra-móveis, e o uso de limpa-fornos em
spray e polidores surgiram como os principais fatores de risco para asma ocupacional
entre trabalhadores de limpeza domésticos.
49
Algumas hipóteses foram traçadas a partir dos resultados encontrados (p.
79-80). Em primeiro lugar, o fato de a asma ocupacional estar relacionada com a
limpeza de cozinhas deve dizer respeito ao uso de compostos de amônia e sprays
limpa-forno, cujo componente ativo é a soda cáustica. Inclusive, algumas
queimaduras de pele devido ao uso desses produtos já tinham sido reportadas. Além
disso, o uso de produtos de limpeza na forma de sprays facilitam a inalação da soda
cáustica contida em aerossóis, possivelmente similar ao que ocorre com a amônia.
Em segundo lugar, o polimento de móveis e o uso de lustra-móveis em
spray também já foram relacionados com a asma. Esses produtos contêm uma
variedade de compostos químicos que podem agir como irritantes das vias
respiratórias. E, sobretudo, alguns deles possuem uma fragrância à base de pinho ou
limão que contém (mono) terpenos, os quais têm potencialmente propriedades
sensibilizadoras.
Finalmente, os trabalhadores domésticos também apresentavam maior
propensão a desenvolver alergias do que trabalhadores de limpeza em outros
ambientes, para as quais os autores apontam um mecanismo plausível de
agravamento da asma em virtude das atividades ocupacionais: irritantes, aditivos,
conservantes, biocidas e inibidores de corrosão em metais, todos esses compostos
podem provocar problemas de saúde de diversa índole, conforme vimos no primeiro
capítulo (Wolkoff et al., 1998). O uso de luvas de borracha também podem introduzir o
risco de sensibilização e asma devido a alergênicos do látex, e a mistura de
compostos de cloro e amônia produz um gás altamente tóxico, a monocloramina, que
provoca a síndrome reativa de disfunção das vias respiratórias.
O trabalho seguinte de Zock et al. (2002) foi um estudo epidemiológico de
base comunitária internacional (international community-based epidemiological study)
a partir de amostras aleatórias selecionadas em países de diferentes continentes.
Embora, conforme afirmam os autores, não tenha sido possível estabelecer o papel
desempenhado por características específicas do trabalho em limpeza, o estudo
demonstrou que os casos de asma de trabalhadores em limpeza apresentam grande
similaridade com a asma em trabalhadores que sabidamente correm o risco de
adquirir asma ocupacional. Além disso, os resultados alcançados destacam o fato de
que os trabalhadores em limpeza têm uma excessiva prevalência para apresentar
bronquite crônica, sendo importante, como indicam os autores, desenvolver estudos
50
posteriores “cujo foco recaia na identificação da exposição (química), incluindo
irritantes, e a sensibilização específica a agentes de limpeza, e o diagnóstico clínico
dos casos” (p. 683).
O artigo de Medina-Ramón et al. (2003), realizado a partir dos estudos
epidemiológicos acima, afirma que aqueles pesquisadores haviam mostrado uma
associação entre o trabalho em limpeza e a asma, mas reconhece que os fatores de
risco ainda eram incertos, uma vez que tais estudos se basearam numa pequena e
seleta amostra populacional, sob a qual poderia ter incidido um viés específico (recall
bias). Assim, o objetivo dos autores era estabelecer o risco de mulheres empregadas
em serviços domésticos de limpeza adquirirem asma, pois não havia, até aquela data,
estudos epidemiológicos publicados que estabelecessem uma associação precisa
entre esses fatores (p. 952). Dado o cuidado metodológico com que foi conduzida a
pesquisa, acreditamos também ser importante nos determos um pouco mais sobre
este artigo.
O trabalho do grupo de pesquisadores de Medina-Ramón trata-se de um
estudo transversal (cross sectional) que foi conduzido em Cornellà, uma cidade da
área metropolitana de Barcelona, na Espanha. Utilizando um censo municipal,
selecionou-se uma amostra aleatória de 5.390 mulheres residentes (37%), com
idades variando entre 30 e 65 anos, e com menos de oito anos de educação formal. A
partir de um questionário padrão elaborado no seio da pesquisa para a Comunidade
Européia (Burney, P. et al., 1994; e Galobardes. B. et al., 1998 apud Medina-Ramon
et al., 2003), foram selecionadas as variáveis-teste em base de questões sobre
sintomas relacionados à presença de asma (current asthma), à asma em estágio
inicial (adult onset asthma), à bronquite crônica (chronic bronchitis), à rinite (rhinitis), e
a sintomas respiratórios relacionados com atividades ocupacionais (work related
respiratory symptoms). Questões mais detalhadas acerca do trabalho em limpeza
seguiram as perguntas sobre sintomas respiratórios.
Os sujeitos foram classificados de acordo com o tempo de trabalho e o tipo
de atividade de limpeza realizado, tornando possível a distinção entre trabalhadores
mais e menos experientes. Distinguiu-se também entre as faxineiras domésticas e
não domésticas. Por meio da análise estatística, utilizando modelos de regressão,
foram estimados as freqüências desviantes (odd ratios) e um intervalo de confiança
de 95% para cada grupo de trabalhadores em limpeza segundo a classificação em
51
função do status respiratório. Freqüências desviantes foram ajustadas para grupos de
idade e situação em relação ao hábito de fumar. As mulheres que nunca tinham
trabalhado em limpeza foram usadas como grupo de referência.
As evidências do trabalho foram conclusivas: 25% dos casos de asma na
população em estudo foram atribuídos ao histórico de trabalhos em limpeza
doméstica (p. 953). O incremento significativo no risco de apresentar asma e outros
sintomas
respiratórios
foram
encontrados
em
mulheres
que
correntemente
trabalhavam como faxineiras domésticas, bem como entre aquelas que tinham
trabalhado em atividades de limpeza no passado. A variável exposição ocupacional foi
considerada igualmente relevante para a alta prevalência de asma em faxineiras
domésticas seja como um líquido incremento na sua incidência entre elas, seja como
resultado de uma exposição de longo prazo em casos de asma pré-existente.
Além disso, e para o que nos interessa particularmente, como os
trabalhadores em limpeza em ambiente doméstico são expostos a uma grande
variedade de produtos de limpeza, contendo tanto irritantes, como sensibilizadores,
bem como alergênicos de ambientes fechados (indoor allergens), os autores sugerem
a hipótese de que a asma em estágio inicial, ou o agravo da asma em empregadas
domésticas podem estar relacionados com um mecanismo indutor de irritação (irritant
induced mechanism) ou a uma sensibilização específica (specific sensitisation) (p.
952). O estudo sugere ainda que esse tipo de atividade tem um importante impacto
em saúde pública, provavelmente envolvendo não apenas os seus respectivos
profissionais, mas também demais pessoas que assumem essas tarefas no lar, como
as donas-de-casa.
Apesar de relativamente abrangente, nossa pesquisa bibliográfica não
identificou a existência no Brasil de estudos sobre problemas de saúde em
trabalhadoras domésticas derivados da exposição contínua a produtos de limpeza.
Um trabalho que tangencia nosso objeto de estudo, no entanto, merece ser citado em
virtude da originalidade da investigação em Saúde Ocupacional com relação às
trabalhadoras domésticas.
O trabalho de Santana et al. (2003a) trata da incidência de acidentes não
fatais entre trabalhadoras em serviços domésticos, o qual foi estimado em 5% maior
entre as empregadas em serviços domésticos (7,3%), do que entre as demais
trabalhadoras. Afirmam os autores que “metade dos acidentes entre empregadas em
52
atividades domésticas causou efeitos, freqüentemente não incapacitantes, mas que
levaram 38,1% dessas mulheres a faltar ao trabalho” (p. 65). O estudo conclui que
como “mulheres com emprego em atividades domésticas representam um contingente
expressivo da força de trabalho (...) a alta incidência de acidentes ocupacionais não
fatais entre elas revela sua importância em saúde pública, o que requer ações
apropriadas de prevenção” (idem).
Noutro trabalho (Santana et al, 2003b) a equipe de pesquisadores já havia
demonstrado preocupação com as freqüências de acidentes de trabalho não fatais e
investigaram se diferenças de gênero e tipos de contrato de trabalho poderiam ser
destacados como variáveis explicativas para essas ocorrências. Segundo eles, “no
Brasil, trabalhadores sem vínculo formal de trabalho representam mais da metade da
força de trabalho, cuja maioria é composta por mulheres”. Os autores observaram
uma incidência anual de acidentes “discretamente maior entre os homens (6,05%) do
que entre as mulheres (5,53%), ou entre trabalhadores sem contrato formal de
trabalho (5,92%) do que no grupo de comparação (5,67%)”, diferenças, estas,
consideradas não estatisticamente significantes. No entanto, os autores afirmam que
“a semelhança entre as freqüências de acidentes de trabalho entre mulheres e
homens independentemente do tipo de contrato de trabalho apontam para a
necessidade de maior atenção a estes eventos no sexo feminino, e entre os
trabalhadores informais, amplamente ignorados nas estatísticas oficiais do país”.
53
CAPÍTULO 3
ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da base de dados foi realizada a partir das respostas obtidas no
questionário padrão, o que nos possibilitou a construção de um perfil das empregadas
domésticas que estudaram nesta instituição e que também manipularam saneantes
domissanitários em seus respectivos empregos. Com esse material, elaboramos as
tabelas 4 e 5.
As tabelas 4a e 4b trazem uma caracterização das trabalhadoras de
acordo com algumas variáveis selecionadas do nosso questionário. Nas tabelas 5a e
5b, nós selecionamos uma amostra de 123 trabalhadoras que declararam possuir
uma percepção de risco à saúde associada à exposição aos saneantes
domissanitários no último emprego. Em seguida, nós verificamos o comportamento
desta variável em relação a algumas variáveis independentes selecionadas, como
veremos adiante.
A tabela 4a apresenta a caracterização individual das trabalhadoras
domésticas segundo a idade, escolaridade, estado civil, inicio da vida produtiva,
residência e carga horária diária.
Essa tabela evidenciou que 40,3% das entrevistadas se encontravam na
faixa etária entre 29 a 39 anos de idade, e 32,7% entre 18 e 28 anos, as quais
somadas representam 73% do nosso universo. A presença de jovens nessa ocupação
pode ser uma pista para a afirmação de que essa atividade é a porta de entrada para
o mercado de trabalho menos qualificado.
Quanto ao nível de escolaridade, observou-se que apenas um pequeno
contingente do universo estudado (3,1%) possui o Ensino Fundamental Completo,
enquanto 80% não completaram este segmento. A grande maioria do nosso universo,
54
TABELA 4a: Distribuição de variáveis selecionadas sobre exposição a saneantes domissanitários
segundo trabalhadoras domésticas estudadas. Rio de Janeiro, Brasil – 2005.
Variáveis selecionadas
Idade (anos)
18 a 28
29 a 39
40 a 49
50 ou mais
Total
Escolaridade
Ensino Fundamental incompleto
Ensino Fundamental completo
Ensino Médio incompleto
Acima destes níveis
Estado civil
Solteira
Casada
Separada
Início da vida produtiva
7 a 11 anos
12 a 17 anos
18 a 23 anos
24 anos ou mais
Residência no local de trabalho
Sim
Não
Carga horária diária
6 a 8 horas
9 a 10 horas
Sem informação
N (%)
(n = 159)
52 (32,7%)
64 (40,3%)
20 (12,6%)
23 (14,4%)
159 (100 %)
127 (79,9 %)
5 (3,1 %)
18 (11,3 %)
9 (5,7 %)
93 (58,5 %)
48 (30,2 %)
18 (11,3 %)
31 (19,5 %)
99 (62,3 %)
20 (12,6 %)
9 (5,7 %)
109 (68,6 %)
50 (31,4 %)
40 (25,9 %)
113 (73,4 %)
6 (0,7 %)
55
portanto, não possui elementos necessários e suficientes para a leitura e
compreensão da linguagem verbal, configurando um perfil de escolaridade que nos
parece extensivo à classe das trabalhadoras domésticas.
A grande presença de jovens e a baixa escolaridade nesta categoria
profissional reforça a afirmação de que essa atividade é a principal fonte de emprego
de mulheres que têm opções limitadas de inserção no mercado de trabalho em função
de seu baixo nível de qualificação. Como vimos no primeiro capítulo, o serviço
doméstico tem um papel fundamental na absorção das mulheres de menor
escolaridade e sem experiência profissional no mercado de trabalho (Melo, 1998).
Esse fato é importante quando comparamos os dados que retratam o início
da vida produtiva dessas trabalhadoras. 81,8% dessas trabalhadoras começaram a
trabalhar muito cedo, justamente no período que deveriam estar desenvolvendo
atividades escolares. Como este tipo de trabalho funciona como a porta de entrada
para as jovens migrantes rural-urbanas no mercado informal, existe uma forte
presença de crianças do sexo feminino exercendo essas atividades de diferentes
maneiras.
Quanto ao estado civil, evidenciou-se que a maioria das trabalhadoras são
solteiras (58,5%), as casadas representando 30,2%, e uma pequena parcela de
mulheres separadas (11,3%). Esse dado confirma a sugestão de Melo (1998) de que
a maior parte das trabalhadoras em atividades domésticas são solteiras,
provavelmente em função da dificuldade de conciliar este emprego com as demandas
por atenção das suas próprias famílias.
Um aspecto importante, como pudemos observar na tabela 4a, foi que a
percentagem de trabalhadoras domésticas que residem no local de trabalho alcançou
68,6% nesta amostra, apesar da tendência à “profissionalização” desta profissão.
Atualmente, nos grandes centros urbanos, tudo indica que há uma tendência a
empregar domésticas, mensalistas ou diaristas que tenham domicílio próprio, pois não
oferecer alojamento e todas as refeições é uma maneira de cortar custos para a
classe média (Melo, 1998). Além disso, a situação das trabalhadoras diaristas
representa uma forma mais clara para demarcar as relações de classe, definindo
melhor a relação patroa/empregada e separando mais facilmente a jornada de
trabalho.
56
As formas como essas relações patroa-empregada se conjugam têm
influenciado nas condições da vida social, de trabalho e de saúde dessas
trabalhadoras, embora pouca atenção é dada para saúde desta categoria.14
Com relação à carga horária trabalhada notou-se que as trabalhadoras
domésticas têm uma jornada laborativa diária de aproximadamente 9-10 horas
(73,4%), confirmando os dados de Melo (1998), que afirma que as relações de
trabalho do serviço doméstico são inscritas num contexto mais amplo do que as
simples relações estritamente empregatícias.
A tabela 4b apresenta a caracterização individual das trabalhadoras
domésticas segundo diversas variáveis: os principais tipos de saneantes utilizados, o
hábito de ler o rótulo, o entendimento das informações do rótulo, o manuseio correto
do produto conforme as informações do rótulo, o local de armazenamento dos
saneantes, o hábito de alimentar-se durante a exposição a saneantes, a associação
de problemas de saúde ao uso de saneantes, o afastamento do trabalho por
problemas de saúde, a escolha do produto, e relato de risco à saúde na manipulação.
Vejamos abaixo como se distribuem as freqüências.
Os dados indicaram que toda a população estudada (100%) havia sido
exposta aos saneantes domissanitários no ambiente de trabalho. A maioria das
trabalhadoras tinha de 11 anos até 21 anos ou mais de exposição (71%).
Também foi observada a preferência das 159 trabalhadoras entrevistadas
em relação aos produtos de limpeza empregados no ambiente de trabalho. Por
categoria de uso, o consumo preferido foi dos limpadores multiuso (100%), seguidos
bem próximo pela água sanitária (83%), e sabões em pó e amaciantes (70,4%) e os
detergentes à base de formol (47,8%). Abaixo dessa freqüência encontramos outros
produtos, tais como outros clorados (32,7%), sabão de coco (19,5%), e os
removedores (7,5%).
Quanto à rotulagem, investigamos três variáveis: o hábito de ler o rótulo, a
compreensão das informações nele contidas, e a correta utilização do produto
segundo as indicações prescritas, oferecendo às informantes uma gradação de
14
No estudo de Santana et al. (2003), foi observado que a ocupação em serviços domésticos proporcionou um risco
maior do que as demais profissões, e esse risco aumentou com o tempo de trabalho, medido pela jornada diária ou
semanal nas empregadas domésticas, levando ao afastamento por cerca de duas semanas (22,7%) ou mais semanas
(18,2%).
57
intensidade representada pelas alternativas “freqüentemente”, “às vezes”, e “nunca”.
Nosso objetivo era investigar não somente se o rótulo cumpria sua função, mas
também se a linguagem era adequada para a população a que se destina. Da mesma
maneira, subentende-se por “correta utilização do produto” não apenas o cuidado na
sua aplicação, sua dosagem e especificidades técnicas, mas também se os
equipamentos de segurança indicados pelos produtores estavam sendo utilizados
pelas trabalhadoras.
24,8% do nosso universo lêem freqüentemente as informações do rótulo.
23,6% declararam que apenas às vezes o fazem, e 51,6% das trabalhadoras
afirmaram que nunca consultam as instruções para manuseio do produto. A variável
referente à compreensão das informações presentes no rótulo também apresentou
um percentual significativo (52,2%) para aquelas que nunca entendiam o que estava
escrito no texto do rótulo. 31,2% declararam que compreendem às vezes, e apenas
16% compreendem freqüentemente.
Cruzando os dados, percebemos que embora quase ¼ da nossa
população lêem freqüentemente os rótulos, mais da metade não compreende o que
está escrito. Da mesma forma, um grande número de trabalhadoras (54,4%) nunca
seguiu as instruções dos rótulos, enquanto que 27,8% as seguem às vezes e apenas
17,7% afirmam que aplicam o produto corretamente.
Quanto ao local de armazenamento, a cozinha despontou como o principal
cômodo da casa utilizado para esse fim (52,2%). Bem abaixo desse percentual,
seguem o quarto (15,7%) e o banheiro (11,9%). Não obstante, outros locais (fora da
casa, área de serviço, dispensa, etc.) alcançam um percentual significativo (20,1%).
58
TABELA 4b: Distribuição de variáveis selecionadas sobre exposição a saneantes domissanitários
segundo trabalhadoras domésticas estudadas. Rio de Janeiro, Brasil – 2005.
Variáveis selecionadas
Exposição a saneantes domissanitários no ambiente de trabalho
Tempo de exposição aos saneantes
2 a 10 anos
11 a 20 anos
21 anos ou mais
Principais tipos de saneantes utilizados
Detergentes multiuso
Água sanitária
Sabão em pó e amaciantes
Detergentes à base de formol
Outros clorados
Sabão de coco
Removedores
Hábito de ler o rótulo
Freqüentemente
Às vezes
Nunca
Entendimento das informações do rótulo
Freqüentemente ou às vezes
Nunca
Manuseio do produto conforme as instruções do rótulo
Freqüentemente
Às vezes
Nunca
Local de armazenamento dos saneantes
Cozinha
Quarto
Banheiro
Outros
Alimentação durante exposição a saneantes
Freqüentemente
Às vezes
Nunca
Problemas de saúde decorrentes do uso de saneantes
Sim
Afastamento do trabalho por problemas de saúde (n=62)
Sim
Escolha do produto
Empregador
Trabalhadora Doméstica
Relato de risco à saúde na manipulação
No Primeiro Emprego
No Segundo Emprego
No Último Emprego
N (%)
(n = 159)
159 (100%)
46 (28,9 %)
71 (44,6 %)
42 (26,4 %)
159 (100 %)
132 (83,0 %)
112 (70,4 %)
76 (47,8 %)
52 (32,7%)
31 (19,5 %)
12 (7,5 %)
39 (24,8 %)
37 (23,6 %)
83 (51,6 %)
75 (47,2 %)
84 (52,2 %)
28 (17,7 %)
44 (27,8 %)
87 (54,4 %)
83 (52,2%)
25 (15,7%)
19 (11,9 %)
32 (20,1%)
30 (18,9 %)
45 (28,3 %)
84 (52,2 %)
62 (39,0 %)
10 (16,1 %)
52 (33,1 %)
107 (66,9 %)
38 (23,9 %)
98 (61,6 %)
123 (77,3%)
59
Felizmente, a maior parte de nossas informantes (52,2%) procuram nunca
fazer suas refeições enquanto manipulam os saneantes domissanitários. No entanto,
a soma daquelas que o fazem com freqüência e às vezes correspondem a quase
metade do nosso universo (47,2%), o que é preocupante.
É impressionante perceber que 66,9% das trabalhadoras são responsáveis
pela escolha do produto, enquanto que a patroa/patrão (ou empregador) o fazem em
33,1% dos casos. Durante as entrevistas, fomos informados que essa escolha é
realizada em função de preferências não necessariamente relacionadas com a função
técnica do produto, e sim com variáveis subjetivas, tais como a fragrância, a beleza da
embalagem (cores, formas, etc.) e a propaganda veiculada nos meios de
comunicação. Parece, ademais, que outras empregadas domésticas, eventualmente
colegas de nossas informantes, também exercem forte influência no quesito escolha.
Elas relataram ainda que quando a patroa vai perguntar sobre os produtos a serem
usados, é sugerido que se faça uma listagem, sempre a partir de um conhecimento
supérfluo e da falsa idéia acerca da existência de produtos inócuos à saúde.
Ora, o papel das campanhas publicitárias, com suas mensagens de cunho
apelativo e embalagens atrativas, são influenciar a preferência do consumidor, e atraílo para escolher um determinado produto, sem necessariamente demonstrar
preocupação em alertá-lo adequadamente sobre os possíveis riscos a que está
exposto: limpeza e desinfecção do ambiente e dos utensílios domésticos são
garantidos; aromas agradáveis e outros atrativos criam motivações para o uso destes
produtos. Mas não podemos esquecer que essa forma de escolher os produtos pode
acarretar forte impacto na saúde não somente da trabalhadora, como também em
todo âmbito domiciliar.
O mais freqüente é que boa parte dos consumidores não procura no rótulo
as informações para a aquisição do produto. Isso é preocupante, já que a maioria dos
indivíduos não sabe nada sobre os riscos a que estão sujeitos, ou não se preocupam
com eles. Por isso é fundamental um critério de escolha que não leve em
consideração somente aparência do produto, mas também a sua qualidade e eficácia
na limpeza doméstica e menor risco à saúde e ao ambiente.
Quanto a afastamento do trabalho por motivos de saúde, do total de 159
informantes, 62 delas declararam ter tido algum caso de afastamento do trabalho
devido à manipulação de saneantes domissanitários, o que compreende 39% de
60
nosso universo, ou seja, mais de 1/3 das mulheres entrevistadas. Dessa amostra
de 62 (100%), 10 (16,1%) foram efetivamente afastadas por motivo de doença
comprovadamente relacionada com a exposição aos produtos de limpeza.
Na variável relacionada ao relato de risco à saúde pela manipulação de
saneantes domissanitários, 23,9% das trabalhadoras entrevistadas afirmaram terem
tido algum problema já no primeiro emprego. 61,6% perceberam algum risco durante
o segundo emprego, e 77,3% reconhecem que durante o terceiro emprego tiveram
algum problema de saúde associado ao uso de produtos de limpeza. Isso quer dizer
que quanto maior a experiência das trabalhadoras, e tanto maior o tempo de
manipulação desses produtos, maior é a percepção das empregadas domésticas dos
riscos a que estão sujeitas. Se, por exemplo, durante o primeiro emprego um caso de
alergia poderia estar associado a outras razões, durante o segundo e o terceiro
empregos, a associação parece ser evidente por parte de nossas informantes.
Dentre os problemas de saúde associados a manipulação dos produtos
domissanitários, os sintomas mais citados foram alergias de contato, alergias
respiratórias devido a inalação de produtos, coceiras no nariz e nas mãos, rinites
alérgicas, crise de espirros, asma, ardência nos olhos e no rosto, lesões de pele e
dores de cabeça. Porém, existem os “riscos invisíveis”, aqueles que não são
percebidos conscientemente, de difícil diagnóstico associativo, tais como: a tristeza, o
hipotireodismo, depressão, labilidade emocional, irritabilidade, alteração do ciclo
menstrual dentre outros. Acreditamos poder considerá-los como distúrbios sentinelas
de intoxicação que se manifestam em cargas laborais e padrões de desgaste
constitutivos dos ambientes e das condições de trabalho, que precisam de maior
investigação clínica e epidemiológica.
Outra questão relevante é que sendo a maioria das entrevistadas solteiras
e residindo no local de trabalho (uma vez que das mensalistas se exige a
permanência por dias seguidos no local do emprego), é importante levar-se em
consideração que ao tempo de exposição nesses casos se acrescenta um grande
desgaste na saúde física e psíquica destas trabalhadoras. Também é importante
registrar que a jornada de trabalho diária é estafante, e que existem situações em que
o descanso está planejado, mas não é usufruído. O trabalho de Santana et al.
(2003a), estimou uma incidência anual de 33,78/1000 acidentes de trabalho não fatais
entre diaristas e, de 41,11/1000 em mensalistas.
61
Há algumas questões que não foram aproveitadas na confecção das
tabelas, mas gostaríamos de fazer alguns comentários em torno das freqüências que
achamos mais relevantes.
Em primeiro lugar, o local onde as residentes no emprego dormem: 76%
dormem no quarto situado na área de serviço, e 20,2% em outro cômodo anexo à
casa; 2,8% dormem em locais onde também se armazenam os produtos de limpeza,
mas essas trabalhadoras não percebem nenhum problema com relação a isso. Essas
trabalhadoras são expostas desde o momento em que acordam até sua hora de deitar
e dormir.
Em segundo lugar, quando entrevistadas sobre o treinamento ou qualquer
esclarecimento sobre o uso destes produtos, 100% delas afirmaram que nunca
receberam qualquer tipo de instruções ou informações sobre os cuidados na
manipulação dos saneantes. Poucas trabalhadoras domésticas relataram que alguns
informes foram adquiridos ao longo da vida laboral, por iniciativa própria, lendo os
rótulos das embalagens dos produtos.
Com relação às embalagens vazias, todas foram unânimes em afirmar que
não as utilizam para outros fins. 46,1% das trabalhadoras separam as embalagens
para uma futura reciclagem, mas 53,9% ainda misturam as embalagens com outros
tipos de lixo.
No que diz respeito aos equipamentos de proteção individual que foram
citados (luvas e botas), apenas 21% utilizam esse material para sua proteção,
enquanto 79% não fizeram nenhuma referência ao fornecimento de uniformes, luvas,
botas ou qualquer material que lhes protegesse, e confirmaram que apenas utilizam
bermuda e camiseta para fazer a faxina diária.
Quanto à periodicidade da limpeza, as respostas apresentaram uma
grande variação, embora a maioria das trabalhadoras tenham dito fazê-la diariamente,
ou pelo menos três vezes por semana.
Especificamente quanto aos riscos à saúde e de outros indivíduos, 93%
das entrevistadas afirmaram ter informações de que os saneantes domissanitários
são prejudiciais à sua saúde, ou a da comunidade, do ambiente e de seus familiares,
principalmente com o uso prolongado.
Durante a aplicação do questionário, foi selecionada, aleatoriamente, uma
amostra equivalente a 10% do nosso universo. Para essas 16 trabalhadoras, pedimos
62
que realizassem a leitura dos rótulos de três diferentes produtos. Para aquelas que
conseguiram ler todo o texto foi pedido que explicassem o que haviam compreendido
das respectivas leituras.
50% leram (8) e 50% (8) declararam não serem capazes de ler os rótulos
por afirmarem, entre outras coisas, que as letras eram muito pequenas ou que não
entenderam os termos técnicos utilizados pelos fabricantes. Estas questões,
juntamente com a baixa escolaridade, constituem uma barreira na compreensão das
informações apresentadas nos rótulos das embalagens dos produtos saneantes
domissanitários. As minúsculas letras, além da quantidade de informações
apresentadas nos conteúdos dos rótulos, e a dificuldade de interpretação das
informações técnicas são as principais queixas relatadas pelas trabalhadoras
domésticas.
Dentre aquelas que conseguiram ler, somente três (37,5%) declararam
compreender o conteúdo. As demais cinco que leram mas não compreenderam o que
dizia no rótulo,somadas com as oito que não conseguiram ler, perfazem um total de
13 entrevistadas nessa amostra, o que corresponde a 81,3% desse microuniverso.
Parece que as informações contidas nos rótulos desses produtos, aparentemente se
destinam a um grupo de pessoas que tenham um grau de instrução melhor, podendo
assim entender o emprego da linguagem técnica usada para construir os conteúdos
presentes nas embalagens.
63
TABELA 5a: Distribuição de variáveis selecionadas de identificação segundo associação de risco para a
saúde pela manipulação de saneantes domissanitárisos no último emprego das trabalhadoras
domésticas estudadas. Rio de Janeiro, Brasil – 2005.
Variáveis selecionadas
Idade (anos)
18 - 28
29 - 39
40 - 49
50 ou mais
Total
Escolaridade
Ens. Fund. Incompleto
Acima deste Nível
Total
Estado civil
Solteira
Casada
Separada
Total
Início da vida produtiva
7 a 11 anos
12 a 17 anos
18 a 23 anos
24 anos ou mais
Total
Residência no local de trabalho
Sim
Não
Total
Carga horária de trabalho diária
6 a 8 horas
9 a 10 horas
Sem Informação
Total
Associação de risco
Não associação de
pela exposição aos
risco pela exposição
saneantes no último
aos saneantes no
emprego (n=123)
último emprego (n=36)
n
%
n
%
39
(31,7)
13
(36,1)
53
(43,1)
11
(30,6)
14
(11,4)
6
(16,7)
17
(13,8)
6
(16,7)
123
(77,4)
36
(22,6)
Total
(n=159)
n
%
52
64
20
23
159
(32,7)
(40,3)
(12,6)
(14,5)
(100,0)
93
30
123
(75,6)
(24,4)
(77,4)
34
2
36
(94,4)
(5,6)
(22,6)
127
5
159
(79,9)
(3,1)
(100,0)
70
38
15
123
(56,9)
(30,9)
(12,2)
(77,4)
23
10
3
36
(63,9)
(27,8)
(8,3)
(22,6)
93
48
18
159
(58,5)
(30,2)
(11,3)
(100,0)
22
81
15
5
123
(17,9)
(65,9)
(12,2)
(4,1)
(77,4)
9
18
5
4
36
(25,0)
(50,0)
(13,9)
(11,1)
(22,6)
31
99
20
9
159
(19,5)
(62,3)
(12,6)
(5,7)
(100,0)
82
41
123
(66,7)
(33,3)
(77,4)
27
9
36
(75,0)
(25,0)
(22,6)
109
50
159
(68,6)
(31,4)
(100,0)
30
90
3
123
(24,4)
(73,1)
(2,5)
(77,3)
10
23
3
36
(27,8)
(63,8)
(8,4)
(22,7)
40
113
6
159
(25,2)
(71,0)
(3,8)
(100,0)
Foi realizada ainda uma tentativa de associação entre dois grupos de
empregadas domésticas, o primeiro grupo representado pelas trabalhadoras que
associavam risco pela exposição aos saneantes no último emprego e aquelas que
não faziam esta associação. Nas tabelas 5a (acima) e 5b (a seguir) foram feitos
cruzamentos destes dois grupos com diversas variáveis estudadas, observando-se
entre outros, uma associação estatisticamente significante para as variáveis:
64
“Escolaridade” (Teste Qui Quadrado Yates Corrected = 6,15; p < 0,01) e “Problemas
de saúde decorrentes do uso de saneantes” (Teste Qui Quadrado Yates Corrected =
27,66; p < 0,000).
Com relação ao grau de escolaridade (tabela 5a, variável destacada em
negrito), é possível afirmar que existe uma significativa correlação entre aqueles que
atingiram níveis mais avançados (acima do Ensino Fundamental Incompleto) e a
percepção de risco à saúde. Dentre as 36 que não associaram risco à saúde pela
exposição aos saneantes no último emprego, apenas duas (5,6%) estavam entre as
mais escolarizadas. Quando observamos a coluna daquelas que declaravam perceber
o risco a saúde, 30 informantes (24,4%) dentre as 123, tinham grau de escolaridade
mais elevado. Isso comprova que o acesso a educação formal fornece elementos
para julgar com maior propriedade os riscos que os agentes químicos representam no
cotidiano laboral dessas trabalhadoras.
Era nosso objetivo verificar se os danos à saúde percebidos pelas
trabalhadoras domésticas estavam associados por elas a alguns dos produtos
manipulados em seu cotidiano. Isso quer dizer que, provavelmente, com o tempo de
exposição crescente, a observação no próprio corpo levou-as a estabelecer uma
relação causa-efeito com determinados produtos.
De fato, quanto à variável problemas de saúde decorrentes do uso de
saneantes (tabela 5b, destacada em negrito), de 123 que associam o risco à saúde no
último emprego, 62 (50,4%) afirmaram ter efetivamente tido algum problema de
saúde, enquanto que as demais 61 (49,6%) não reconheceram ter tido ainda nenhum
dano associado à exposição aos domissanitários. Isso quer dizer que é possível que
toda vez que essas mulheres se sentem mal, tendem a averiguar se a sua causa foi
devido à manipulação de produtos de limpeza. Na outra coluna, por sua vez, todas as
36 entrevistadas (100%) afirmam nunca terem tido problemas de saúde pelo mesmo
motivo. Provavelmente, isso se deva ao fato de que muitas doenças percebidas no
trabalho doméstico apresentam sintomas comuns a outras patologias, tornando-se
difícil identificar os processos que as geraram, bem mais amplos que a simples
exposição a um agente exclusivo.
65
TABELA 5b: Distribuição de variáveis selecionadas de exposição segundo associação de risco para a
saúde pela manipulação de saneantes domissanitárisos no último emprego das trabalhadoras
domésticas estudadas. Rio de Janeiro, Brasil – 2005.
Associação de risco
Não associação de risco
pela exposição aos
pela exposição aos
Variáveis selecionadas
Total
saneantes no último
saneantes no último
(n = 159)
emprego (n = 123)
emprego (n =36)
%
n
%
n
%
n
Tempo de exposição aos saneantes
2 a 10 anos
37
(30,1%)
9
(25,0%)
46
(28,9%)
11 a 20 anos
54
(43,9%)
17
(47,2%)
71
(44,7%)
32
(26,0%)
10
(27,8%)
42
(26,4%)
21 anos ou mais
Total
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Hábito de ler o rótulo
Freqüentemente
30
(24,4%)
9
(25,0%)
39
(24,5%)
As vezes
27
(22,0%)
10
(27,8%)
37
(23,3%)
Nunca
66
(53,7%)
17
(47,2%)
83
(52,2%)
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Total
Entendimentos das instruções do rótulo
Freqüentemente
18
(14,6%)
8
(22,2%)
26
(16,4%)
As vezes
38
(30,9%)
11
(30,6%)
49
(30,8%)
67
(54,5%)
17
(47,2%)
84
(52,8%)
Nunca
Total
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Seguimento das instruções do rótulo
Freqüentemente
21
(17,1%)
7
(19,4%)
28
(17,6%)
34
(27,6%)
10
(27,8%)
44
(27,7%)
As vezes
Nunca
68
(55,3%)
19
(52,8%)
87
(54,7%)
Total
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Local de armazenamento dos saneantes
Cozinha
67
(54,5%)
16
(44,4%)
83
(52,2%)
Quarto
17
(13,8%)
8
(22,2%)
25
(15,7%)
16
(13,0%)
3
(8,4%)
19
(11,9%)
Banheiro
Outros
23
(18,7%)
9
(25,0%)
32
(20,2%)
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Total
Alimentação durante exposição a saneantes
Freqüentemente
23
(18,7%)
7
(19,4%)
30
(18,9%)
33
(26,8%)
12
(33,3%)
45
(28,3%)
As vezes
Nunca
67
(54,5%)
17
(47,2%)
84
(52,8%)
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Total
Problemas de saúde decorrentes do uso de saneantes
Sim
62
(50,4%)
0
(0,0%)
62
(39,0%)
Não
61
(49,6%)
36
(100,0%)
97
(61,0%)
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
Total
Afastamento do trabalho por problema de saúde (n = 62)
Sim
10
(16,2%)
10
(16,2%)
52
(83,8%)
52
(83,8%)
Não
62
(100,0%)
62
(100,0%)
Total
Escolha do produto
Empregador
40
(32,5%)
12
(33,3%)
52
(32,7%)
83
(67,5%)
24
(66,7%)
107
(67,3%)
Trabalhadora Doméstica
Total
123
(77,4%)
36
(22,6%)
159
(100,0%)
66
CAPÍTULO IV
CONCLUSÕES
Dentre as diferentes categorias profissionais no Brasil, o serviço doméstico
remunerado é um dos que apresenta um dos maiores graus de informalidade e
precariedade em termos de relações de trabalho. Algumas pesquisas têm abordado
esse tipo de serviço, mas poucas são as investigações voltadas para a saúde de
mulheres, que em sua maioria desempenham essas funções. A falta de dados de
morbidade centrados em doenças de ordem química nesta profissão dificulta a
implantação de medidas de controle da saúde dessas trabalhadoras, não contribuindo
para a melhoria de suas condições de vida e trabalho.
Essa lacuna tem alimentado um ciclo vicioso, que, como vimos, se inicia
com a precariedade de condições durante a infância dessas profissionais, se reforça
com o restrito acesso à educação e qualificação profissional, e conduz essas
mulheres ao ingresso em idades muito jovens no mercado de trabalho, em cujo
ambiente estão sujeitas ao adoecimento ou aos acidentes ocupacionais, muitas vezes
sem cobertura médica ou previdenciária, o que acaba por gerar mais empobrecimento
dessa parcela da população.
É importante reconhecer que a falta de informação em relação aos riscos e
ao agravo potencial à saúde pela exposição aos produtos saneantes domissanitários,
somados aos efeitos não muito claros sobre a saúde dos trabalhadores domésticos
em geral, e de outros tipos de trabalho informal que são exercidos por um grande
número de mulheres, provocam transtornos relacionados com determinadas
enfermidades, que por vezes podem resultar em posterior afastamento do emprego.
Por isso é preciso pensar estratégias para intervir nos processos que
afetam, particularmente, a saúde da mulher que realiza o serviço doméstico
remunerado, avaliando riscos invisíveis comprovadamente existentes. Como vimos
acima, a maioria delas associam os problemas de saúde ao uso ou à exposição aos
produtos de limpeza, porém, em geral, não se preocupam com sua toxicidade.
67
Como sugestão, deveria haver um incentivo junto às associações e
sindicatos da categoria no sentido de esclarecer os danos à saúde quando se
manipulam estes produtos inadequadamente, explicar o manuseio adequado dos
produtos, e reforçar a importância da leitura dos rótulos para minimizar os riscos de
exposição a esses produtos. As mudanças necessárias devem incorporar a
participação das empregadas domésticas, pois elas são as principais conhecedoras
do processo de trabalho, que inclui diversos saberes. Deve-se buscar, portanto,
conjugar o saber-fazer adquirido através da experiência profissional acerca da
eficiência de certas atividades e certos produtos de limpeza, com o conhecimento
sobre os possíveis danos à saúde e ao ambiente, procurando internalizá-los no seu
cotidiano.
O uso adequado dos produtos de limpeza no lar é fundamental para que
sua função seja atingida, seja na chamada “limpeza pesada”, seja na higienização,
desinfecção e/ou desinfestação. Neste sentido, as informações contidas nas
embalagens têm importante papel para alertar o consumidor sobre o uso correto de
um determinado produto. Porém, acreditamos que as embalagens, de modo geral,
não empregam uma linguagem adequada para o público ao qual se destina, nem
esclarece cuidadosamente sobre os riscos decorrentes da exposição a determinados
agentes químicos. Além disso, as informações contidas nos rótulos, em letras miúdas,
não são de fácil consulta. Por isso seria importante que os órgãos públicos tornassem
mais eficaz a vigilância na produção, comercialização, e utilização destes produtos tão
empregados na “guerra contra à sujeira”.
Gostaria de sugerir a elaboração de um manual ou cartilha de fácil
compreensão tanto para as empregadas domésticas quanto para os patrões. Este
documento poderia conter formas alternativas de limpeza com substancias mais
simples e caseiras que desempenhassem a mesma eficiência dos produtos
comerciais.
Parece-nos cada vez mais evidente que a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde deveriam prestar mais atenção na
fiscalização dos atuais e novos produtos domissanitários à venda nos supermercados,
bem como na elaboração de campanhas de esclarecimento sobre os riscos que esses
aparentemente inofensivos produtos podem representar para a saúde de todos
aqueles que os manipulam com maior freqüência, sejam empregadas domésticas,
68
donas-de-casa ou faxineiras eventuais. É necessário também pensar estratégias
específicas para intervir nos processos que afetam particularmente a saúde da
trabalhadora doméstica, submetida a riscos invisíveis.
As questões ambientais, por seu lado, encontram-se intrinsecamente
relacionadas ao grau de desenvolvimento industrial e populacional de um país. E não
se pode esquecer que, concomitantemente ao desgaste e degradação ambientais,
cresce também o número de trabalhadores agredidos pelo próprio ambiente de
trabalho. Mas também são possíveis transformações nas formas de organização e
nos processos de trabalho. Acreditamos ser necessário trazer para uma ampla
discussão, um “outro” meio ambiente, que muitas vezes passa despercebido, mas que
polui, desgasta e adoece homens e mulheres: o ambiente do trabalho. Trabalhar
integradamente as questões relacionadas à saúde do trabalhador e ao meio ambiente
é fundamental para desenvolver novas abordagens teórico-metodológicas que
possibilitam avançar nos processos de análise e intervenção sobre as situações e
eventos de riscos que são colocados para trabalhadores e para o meio ambiente
como um todo.
69
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75
ANEXOS
ANEXO 1
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
NÚCLEO DE ESTUDOS DE SAÚDE COLETIVA
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
O Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
através do Curso de Mestrado em Saúde Coletiva, está realizando um estudo
desenvolvido pela Dra. Lília Modesto Leal Corrêa, cujo título é: Domissanitários e
Saúde: Um Estudo sobre a Exposição de Empregadas Domésticas.
O principal objetivo deste estudo é avaliar os problemas de saúde que podem ser
causados pelo uso de domissanitários durante o trabalho em domicílios urbanos e,
para sua realização as pessoas que participarão do estudo serão submetidas a
perguntas sobre saúde que serão feitas numa população de empregadas domésticas.
A participação nesta pesquisa é voluntária e a realização destas atividades não
oferece riscos para a saúde dos participantes da pesquisa, que a qualquer momento
podem recusar esta participação. Os dados colhidos serão inteiramente sigilosos,
avaliados apenas pelos pesquisadores e seu orientador e a identidade dos
participantes do estudo será preservada. Entretanto, os resultados, em sua totalidade,
serão publicados em literatura científica especializada. Será marcada uma data para
divulgação dos resultados e, caso seja detectada alguma anormalidade, os
participantes da pesquisa serão encaminhados para avaliação clínica. Em caso de
76
alguma dúvida, os pesquisadores podem ser contatados pelos telefones citados
abaixo.
Atenciosamente,
Lilia Modesto Leal Corrêa / Psicóloga e Pesquisadora.
Volney de M. Câmara / Prof. Titular e Orientador da Pesquisa.
Eu,
_______________________________________________RG
no__________,
certifico que lendo as informações acima concordo com o que foi exposto e autorizo a
minha participação nesta pesquisa.
Rio de Janeiro, ____ de _____________________ de 2004.
Assinatura
77
ANEXO 2
QUESTIONÁRIO
Pesquisa sobre a utilização de domissanitários por empregadas domésticas
A) Perfil da população
Nome: ____________________________________________ Idade: ________
Estado civil:
( ) solteiro
( ) casado
( ) separado
Natural (UF): ________
Grau de escolaridade:
( ) ensino fundamental incompleto
( ) ensino fundamental completo
( ) médio incompleto
( ) médio completo
( ) técnico incompleto
( ) técnico completo
78
B) História ocupacional
B.1.a. História pregressa
♦ Com que idade começou a trabalhar? ____ anos.
♦ Que atividades realizava na primeira moradia?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_________________________________________________________
♦ Tempo que ficou no trabalho?
( ) meses
( ) anos
♦ Motivo(s) da saída do trabalho?
( ) desentendimento c/ patrões
( ) insatisfação salarial
( ) gravidez
( ) doença (1 – familiar; 2 – própria)
( ) contenção de despesas
( ) outros:__________________________________________________________
♦ Você percebia algum risco para sua saúde quando usava algum produto de
limpeza? ( ) sim ( ) não
Qual:_____________________________________________________________
B.1.b.
♦ Com que idade começou a trabalhar? ______ anos.
♦ Que atividades realizava na segunda moradia?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_________________________________________________________
79
♦ Tempo que ficou no trabalho?
( ) meses
( ) anos
♦ Motivo(s) da saída do trabalho?
( ) desentendimento c/ patrões
( ) insatisfação salarial
( ) gravidez
( ) doença (1 – familiar; 2 – própria)
( ) contenção de despesas
( ) outros:__________________________________________________________
♦ Você percebia algum risco para sua saúde quando usava algum produto de
limpeza? ( ) sim ( ) não
Qual: _____________________________________________________________
B.1.c.
♦ Com que idade começou a trabalhar? ______ anos.
♦ Que atividades realizava na terceira moradia?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_________________________________________________________
♦ Tempo que ficou no trabalho?
( ) meses
( ) anos
♦ Motivo(s) da saída do trabalho?
( ) desentendimento c/ patrões
( ) insatisfação salarial
( ) gravidez
( ) doença (1 – familiar; 2 – própria)
( ) contenção de despesas
( ) outros:_________________________________________________________
♦ Você percebia algum risco para sua saúde quando usava algum produto de
limpeza? ( ) sim ( ) não
Qual: ____________________________________________________________
80
♦ Nestes empregos ocorreu algum tipo de afastamento? ( ) sim ( )não
♦ Motivo(s) do(s)afastamento(s):_______________________________________
♦ Qual o benefício?
( ) doença
( ) acidentário
( ) invalidez
♦ Tempo de afastamento:
( ) dias
( ) meses
( ) anos
B2. História ocupacional atual
♦ Data da admissão:________________________________________________
♦ Situação funcional:
( ) em atividade
( ) afastado em benefício previdenciário/ auxílio-doença
♦ Mora no emprego: ( ) sim ( ) não
♦ Onde?
( ) quarto anexo à casa
( ) quarto na área de serviço
( ) quarto com produtos de limpeza
( ) outros:_________________________________________________________
♦ Carga Horária diária: __________ hs.
♦ Atividade desenvolvida no trabalho:
Como faz?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
______________________________________________________
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Quando faz?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
______________________________________________________
Por que faz?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
______________________________________________________
♦ Você apresentou problemas de saúde nos últimos 15 dias? ( ) sim ( ) não
♦ Você sofreu alguma internação nesse último ano? ( ) sim ( ) não
♦ Que problemas apresentou?
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________
___________________________________________________
C) Avaliação
1. Na sua atividade, você trabalha com produtos químicos/limpeza?
( ) sim ( ) não
2. Há quanto tempo trabalha com estes produtos?_________________________
3. Quais são os produtos que você mais utiliza no seu trabalho?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
________________________________________________
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4. Você recebe algum tipo de orientação sobre como usar estes produtos?
( ) sim ( ) não
5. Quem dá essa orientação?_________________________________________
6. Como é dada?___________________________________________________
7. Você sabe para que serve o rótulo do produto?
( ) Ensina a aplicar / usar o produto.
( ) Mostra o tipo de proteção para o manuseio do produto
( ) Fala sobre saúde
( ) Fala sobre ambiente
( ) Outros: ________________________________________________________
8. Você tem o hábito de ler o rótulo das embalagens dos produtos que você utiliza?
( ) freqüentemente ( ) às vezes ( ) nunca
9. Você entende as informações presentes nos rótulos?
( ) freqüentemente ( ) às vezes ( ) nunca
10. Você costuma seguir as instruções contidas no rótulo?
( ) freqüentemente ( ) às vezes ( ) nunca
11. Qual o destino que você dá as embalagens vazias dos produtos?
( ) Joga no lixo (1- separadas / 2- misturadas)
( ) Recicla esse material
( ) Utiliza embalagem vazia para outros fins
12. No seu trabalho, onde ficam guardados os produtos que você usa na limpeza
geral?
( ) na cozinha
( ) no quarto
( ) no banheiro
( ) em outro ambiente da casa:
Qual? ____________________________________________________________
13. Você tem acesso a toda casa?
( ) sim ( ) não
14. Você costuma alimentar-se quando está usando estes produtos?
( ) freqüentemente ( ) às vezes ( ) nunca
15. Qual a roupa que você usa para trabalhar? ____________________________
16. Você usa luvas/botas quando está lavando/limpando algo?
( ) sim ( ) não
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17. Você acredita que o produto pode fazer mal para sua saúde e de outros?
( ) sim ( ) não
18. Você já teve alguma doença relacionada com o uso de substância química?
( ) sim ( ) não
19. Você ficou afastado do emprego por este problema?
( ) sim ( ) não
20. Você acha que o uso destes produtos pode fazer mal a comunidade, para os
vizinhos ou familiares?
( ) sim ( ) não
21. O que você acha que pode ser feito para melhorar esta situação?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
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22. Quem escolhe o produto a ser comprado?
( ) patroa
( ) empregada
( ) indiferente
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um estudo sobre a exposição de empregadas domésticas