AS RECENTES TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICAS E O PAPEL DOS INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA EM GOIÁS, PARA A DINÂMICA DO CENTRO OESTE BRASILEIRO. Marcos Bittar Haddad Economista, Mestre em Desenvolvimento e Planejamento Territorial pela PUC GO, doutorando do IE/Unicamp, bolsista Capes. E-mail: [email protected] Fernando Cezar de Macedo Economista, Doutor pela Unicamp. Professor Livre Docente IE/Unicamp E-mail: [email protected] Palavras-chave: Centro Oeste, desenvolvimento regional, infraestrutura, planejamento. 1 - Introdução A partir da década de 1930, o Estado brasileiro foi o grande organizador da acumulação industrial, instituindo políticas de caráter nacional e promotor da integração do mercado interno, tornando-se o responsável maior pela abertura e ampliação das fronteiras de acumulação. Os efeitos dinamizadores, desse novo modelo econômico, tiveram impactos significativos na história econômica brasileira e em especial na Região Centro Oeste, pois a demanda por alimentos foi estimulada pela ampliação do mercado interno e intensificação da industrialização. Assim, ampliaram-se os vínculos das regiões mais desenvolvidas, como o sul e sudeste brasileiro, com as áreas de produção agropecuária. Este fator foi o que motivou a implantação das políticas nacionais de colonização, cujo exemplo pioneiro foi a Marcha para o Oeste. Ao mesmo tempo em que esta busca pela ampliação do mercado interno, através da intensificação da industrialização, estimulou a demanda por alimentos, ampliando os vínculos com as áreas de produção agropecuária, também proporcionou a unificação das diversas regiões brasileiras, impondo a elas certa divisão do trabalho sob o comando da economia paulista. No caso específico do Centro Oeste, estas políticas propostas pelo Estado nacional, sobrepuseram sua formação econômica e social que fora constituída durante o período da mineração e agricultura e pecuária extensivas, já presentes no território, e fez com que a região passasse a ter maior presença no cenário nacional. Seu perfil, tanto o físico territorial como o produtivo, foi gradativamente alterando, à medida que a oferta elástica de terras estimulava a penetração de colonos do Sul e Sudeste e também estrangeiros como alemães e japoneses. O Centro Oeste é a região brasileira que compreende o Planalto Central ou o Brasil Central. É, portanto geograficamente o centro do Brasil. Composta pelos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e pelo Distrito Federal, ocupa 18,8% do território nacional, sendo a segunda maior região em extensão. Toda essa imensidão concentra apenas 7,4% da população brasileira, sendo a região menos povoada. Sua vegetação é predominantemente composta pelo ecossistema Cerrado e a região é detentora de 10% de toda a água doce existente no planeta. Na região chamada de “Águas Emendadas”, nas proximidades do Distrito Federal, estão as nascentes de rios pertencentes as três grandes bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica, São Francisco e Platina. Ainda compõem a vegetação da região, os ecossistemas Pantanal e a Floresta Amazônica, esta 1 última, tem seu “portal”, no norte do estado de Mato Grosso. O clima típico da região é quente, semiúmido e notadamente sazonal, com verão chuvoso e inverno seco. Politicamente, o Centro Oeste é a sede das decisões políticas administrativas do país, por abrigar o Distrito Federal. Economicamente, após o declínio da mineração, a região se configurou como de pecuária (corte e leite) e agricultura (alimentos básicos) extensivas. Mais recentemente, a região tem se tornado a grande produtora de grãos do Brasil (sobretudo de soja e milho). A região abriga várias agroindústrias e algumas consideráveis experiências isoladas de indústrias que demanda maiores tecnologias, como a farmacêutica e a automobilística. Pode-se dizer que o período das transformações ocorridas na região iniciou-se com o avanço da economia cafeeira de São Paulo. À medida que crescia, o café necessitava incorporar novas áreas, para abrir novas rotas de penetração. A ferrovia foi decisiva para impulsionar tal dinâmica. À medida que o Centro Oeste foi sendo ocupado, passou também a ocupar espaço específico na divisão territorial do trabalho, como produtor de alimentos e matérias primas para alimentar populações e indústrias do sudeste. Quando a ferrovia atingiu o sul de Goiás, nos primeiros anos do século XX, mercantilizou a fronteira e viabilizou a exploração agrícola e a especulação de terras. O capital industrial, financeiro e mercantil existente no Triângulo Mineiro, região que geograficamente separa Goiás de São Paulo, se beneficiou diretamente deste fator subordinando as atividades econômicas do Centro Oeste, sobretudo as existentes em Goiás. A modernização das estruturas produtivas do Centro Oeste começa a mudar de fato a partir do final da década de 1960, marcada pelo ingresso de novos migrantes e novos produtos – sobretudo a soja – deslocando os produtos tradicionais de abertura de fronteira - como arroz, milho e feijão. Essa ocupação “moderna” promoveu a expropriação de camponeses e pequenos agricultores tradicionais, literalmente expulsando populações tradicionais e condenando a extinção as economias naturais preexistentes. Nas décadas 1960 e 1970 se constituíram as bases para a introdução das frentes modernas, que impactaram vigorosamente a economia e a estrutura urbana, como as políticas nacionais de colonização, integração e interiorização da economia, a fundação de Brasília – contida no Plano de Metas e ainda a modernização das vias de transportes, das bases energéticas e das telecomunicações. A intervenção do Estado brasileiro ocorreu através dos diversos programas públicos que vieram a seguir como PLADESCO, PRODOESTE, POLOAMAZÔNIA, GEOECONOMICA, PROTERRA, PRODEGRAN, constantes no I e II PND – Plano Nacional de Desenvolvimento. Eram programas de incentivos fiscais, implantação de infraestrutura básica, pesquisas agropecuárias para melhoramento dos solos dos cerrados, controle de imigrações, dentre outros. Nas décadas seguintes, como resultante destes programas, o Centro Oeste passa a apresentar crescimento populacional e produtivo mais substancial, até então. Importantes empresas agroindustriais de capital nacional ou estrangeiro foram para a região. Todo esse processo resulta na realidade atual do Centro Oeste: a de maior produtor de alimentos do Brasil, com lógica baseada no latifúndio e totalmente voltada para o mercado externo. O estado de Goiás tem papel fundamental neste processo, pois foi o primeiro estado da região a receber intervenções. Na década de 1930 foi construída uma nova cidade com a função de ser sua nova capital. A partir da fundação de Goiânia, o estado passou a receber diversos programas que permitiram sua transformação alavancando o processo em toda a região Centro Oeste. A atual realidade do Centro Oeste requer intervenções no sentido de melhorar e ampliar sua malha viária para atender à demanda de transportes gerada por uma alta produção agrícola. Neste sentido, o Governo Federal tem proposto obras que permitiram atender a esta demanda. 2 Assim, no presente artigo será abordado como o Centro Oeste se transforma de uma região pouco povoada e produtiva a uma região que hoje lidera as exportações de commodities do país. Para entender este processo, é preciso entender como agiram as políticas públicas que planejaram a realidade hoje presente. Desde a década de 1930, com a fundação de Goiânia, a Marcha para o Oeste dos anos 1940, as intervenções das décadas de 1950 e 1960, como a fundação de Brasília, até o PAC, o Centro Oeste vem transformando suas estruturas. 2 - As transformações no Centro Oeste. Por compreender o Planalto Central ou o Brasil Central, o Centro Oeste é, portanto geograficamente o centro do Brasil. Por esta localização, a região acaba recebendo correntes migratórias vindas de todas as regiões brasileiras, o que leva alguns autores a afirmar que, cada vez mais, a região vem se tornando a “cara do Brasil”, representando uma síntese nacional1. Desde a década de 1930, mas, sobretudo a partir de 1970, o Centro Oeste vem sofrendo intervenções federais que o transformaram num verdadeiro palco de diversas intervenções federais, através de políticas e programas de governo, visando sua maior inserção na economia nacional, promover seu povoamento, sua integração com as demais regiões brasileiras e ainda seu desenvolvimento econômico e social. Assim, não apenas por sua localização geográfica, mas pelos incentivos governamentais, a região se tornou alvo das migrações. Por sua grande extensão territorial e ainda por suas origens rurais, a região sempre foi vista como local apropriado para produção de alimentos. Então, a maioria destas intervenções foi planejada no sentido de fazer do Centro Oeste “um grande celeiro nacional”. Logo após o esgotamento das riquezas minerais, como o ouro e a prata, - durante o período do Brasil Império - o que restou à Região foi se dedicar às suas aptidões agrícolas e agropecuárias, porém de forma bastante rudimentar e extensiva. O fator que contribuiu para iniciar as modificações no Centro Oeste foi o transbordamento da economia paulista, que graças à grande produção cafeeira e mais tarde com o advento da industrialização, necessitava, para sua expansão econômica, incorporar novas áreas. Este processo teve na agroindústria seu vetor mais importante. A maior dificuldade para promover a integração do Centro Oeste com as regiões mais desenvolvidas do país, era o fato desta região geograficamente ser “isolada” de tudo. Para atingir suas terras, partindo do litoral, onde estavam os centros mais desenvolvidos e habitados, como São Paulo e Rio de Janeiro, levavam-se muitos dias e até meses. Fato resolvido com a chegada da ferrovia no inicio do Século XX. A ferrovia que partia de São Paulo interligou o centro dinâmico do país, com a vasta área ainda a ser ocupada e com forte potencial para produzir e absorver população2. Portanto, a ausência de vias de acesso foi o fator que mais contribuiu com o atraso social e econômico da região. Depois da chegada da ferrovia, outro passo importante que foi dado para sua melhor ocupação, principalmente do Planalto Central, foi a construção de duas cidades, para serem capitais: Goiânia e Brasília3. Com o surgimento destas cidades, uma malha de rodovias foi criada e a região passou a não depender apenas da ferrovia e do lombo de animais para o transporte e a ligação com as demais regiões brasileiras. 1 Conforme Steinberger, 2000. A Ferrovia Noroeste partia de São Paulo e adentrava o território do que hoje é o estado de Mato Grosso do Sul. Já a ligação com Goiás foi feita via o Triângulo Mineiro, pela Ferrovia Mogiana. 3 A construção de Goiânia (1933 a 1942) é considerada como a primeira ação da “Marcha para o Oeste” proposta por Vargas. A construção de Brasília (1955-1960) realizada por JK, e a consequente mudança da capital federal para o interior do país, já era prevista na Constituição brasileira desde 1891. 2 3 2.1 – Transformações territoriais. O Centro Oeste participa do dinâmico processo de urbanização e industrialização brasileira, passando por diversas alterações em seu território. Ações governamentais visavam articular a região, dando a ela uma infraestrutura capaz de receber os excedentes dos processos ocorridos no sudeste e sul do país. Assim, foram muitas as configurações que a região obteve, via ações governamentais, a partir de 1930. Pode-se dizer que estas transformações espaciais iniciaram-se com a edificação de Goiânia (1933 a 1942). Até 1940, “a Região era composta pelos Estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso; contudo, na década seguinte passou a ser composta apenas pelos dois últimos”. (MOYSÉS, 2004, p. 65). Em 1960, surge o Distrito Federal e com ele a edificação de Brasília. Em 1977, o estado de Mato Grosso é dividido, surgindo Mato Grosso do Sul, com uma nova capital, Campo Grande. A Constituição de 1988 criou o Estado do Tocantins e em 1989, Goiás foi então divido ao meio e sua parte norte tornou-se outro estado. Por suas características físicas territoriais amazônicas e pelos baixos índices de desenvolvimento, o novo estado não ficou na Região Centro Oeste e passou a integrar a Região Norte. Assim, em quase 60 anos (1933 a 1989), o Centro Oeste sofreu diversas interferências espaciais para assumir o formato atual. Nenhuma outra região brasileira passou por tantas alterações de seu território como o Centro Oeste. 2.2 – Transformações Econômicas As alterações produtivas e econômicas no Centro Oeste começam a ocorrem quando altera o cenário econômico internacional, no fim da década de 1960. E isto ocorre devido à crise de acumulação nos países centrais, que fez por ascender a reafirmação da hegemonia estadunidense e a consequente desarticulação do arranjo institucional de Bretton Woods. As políticas macroeconômicas avançaram, intensificaram as financeirizações econômicas, fazendo surgir uma renovação das bases produtivas que alterou as dinâmicas regionais por todo o mundo. Assim, elevou-se a inserção na economia internacional, provocando alterações importantes nos padrões de comercio exterior. É importante destacar que as pressões da ordem internacional derivadas deste movimento e a coalizão interna de poder, materializada no perfil das políticas macroeconômicas aplicadas, reforçaram o padrão recente de acumulação da economia brasileira, sustentado principalmente na expansão do agronegócio e no avanço da indústria extrativa (...); atividades intensamente consumidoras de recursos naturais e que se conectam diretamente ao mercado internacional, tensionando antigos laços de articulação regional que se formaram no processo de integração do mercado nacional, entre 1930 e 1980, quando o crescimento das diversas regiões do país dava-se sincronicamente impulsionado pelo adensamento – ainda que incompleto e limitado – do mercado interno, impulsionado pela urbanização acelerada, a partir dos anos sessenta do século XX. (MACEDO, 2011, p. 7). O território brasileiro recebeu diretamente os impactos de uma economia que passa a ser orientada pela nova ordem mundial – principalmente pós 1994, com as implantações, na economia nacional, das políticas macroeconômicas de ordem neoliberal – que insere de maneira passiva, a economia brasileira, no processo de globalização. Tal movimento alterou o padrão de organização territorial do Brasil, “que passou a ser guiado cada vez mais pela lógica do mercado e por agentes internacionais, especialmente grandes global players, que se beneficiaram das políticas promotoras da maior internacionalização da economia brasileira. (MACEDO, 2011, p. 8). Desta maneira, o Brasil passa a atender diretamente os interesses do grande capital privado internacional, com uma nova estrutura econômica e novo ordenamento territorial, abrindo mão de uma soberania nacional e um projeto de Nação, confirmando uma prática histórica de uso e ocupação do território nacional através 4 “de um tipo de capital: aquele que se conecta aos circuitos internacionais da produção e do consumo comandados pelas finanças mundializadas”. (MACEDO, 2011, p. 8). Toda essa alteração na dinâmica econômica do desenvolvimento brasileiro provocou reações que transformaram estruturas por todas as regiões, levando ao processo de desconcentração econômica e populacional que atualmente está em marcha pelo Brasil (CANO, 2007). Indústrias que, até o final da década de 1960, concentravam - se em São Paulo, passaram a migrar, inicialmente para o interior do próprio estado, depois atingiram outras regiões, focando-se mais no sul, depois Nordeste e de forma mais lenta atingiram também as regiões Norte e Centro Oeste4. As estruturas produtivas e mercantis da periferia passam a sofrer alterações devido ao processo de integração do mercado nacional, no período entre 1930 a 1960, desencadeando consideráveis efeitos de complementaridade entre as indústrias que surgiam no interior do país e as já existentes em São Paulo. Assim, “o mútuo crescimento de São Paulo e do restante do país, além de acelerar a integração do mercado interno, reforçava os elos regionais no processo nacional de desenvolvimento” (CANO, 2007, p. 36). E quanto mais aumentava o desenvolvimento e a industrialização do país, mais se intensificavam as relações entre as diversas regiões brasileiras, exigindo que as estruturas regionais se transformassem e assim, consequentemente ocorria o processo de crescimento econômico. Ou seja, de forma direta, o crescimento acelerado da economia paulista, sendo o principal núcleo de acumulação produtiva, fazia crescer também a industrialização dos demais estados brasileiros, devido a este caráter de complementaridade das indústrias. Dos programas voltados para a Região Centro Oeste a fim de torna-la participante deste processo de integração nacional, Foram precursores a Marcha para o Oeste, iniciada por Vargas na década de 1930; a expansão da “fronteira” agrícola, com “paulista, mineiros, baianos e sulistas” colonizando o Paraná, Goiás e Mato Grosso entre 1930 e 1970; as áreas rurais estimuladas pelo Plano de Metas (com as rodovias para o Norte e o Centro Oeste e a criação de Brasília) a partir de fins da década de 1950; e, a partir da década de 1970, a colonização da Amazônia e a expansão da pecuária e da moderna agricultura no Centro – Oeste, que dinamizaram a agricultura dessas regiões, dando azo a que mais tarde ali surgisse também uma agroindustrialização e urbanização. (CANO, 2007, p.44). A forma como se deu a ocupação do território do Centro e alguns destes programas federais, serão abordados, especificamente, na sessão seguinte. 2.3 - O Planejamento Federal. Nos anos 1930, as políticas públicas federais estavam com suas preocupações voltadas para o vazio demográfico do interior do país. A economia em expansão, a crise de 1929, obrigavam o governo a criar áreas que favorecesse a expansão do capitalismo nacional. A Marcha para o Oeste, foi lançada para promover a ocupação do Planalto Central e a partir dele, avançar sobre a Amazônia. Por traz da preocupação, com a baixa densidade demográfica do interior do país, logicamente havia uma questão de caráter econômico. Ao mesmo tempo em que buscavam ocupar novas áreas do território nacional, era necessário articula novos meios de transportar a produção gerada nos grandes centros. A Marcha para Oeste, além de abrir frente populacional, dinamizar a economia e fazer com que a região fosse vista pelos investidores, também possibilitou o apoio federal na implantação de diversos programas que visavam planejar a região para o futuro. O mais importante deles foi certamente a construção da nova capital federal, Brasília, que desencadeou todo um processo de planejamento para a Região. 4 Regiões que são consideradas as menos industrializadas e consequentemente a menos desenvolvidas do país. 5 A ocupação do território brasileiro, no inicio do século XX foi ocorrendo em geral, em função da ampliação do comercio exterior. “A existência de condições favoráveis à exportação do café propiciou a expansão das lavouras cafeeiras até Goiás, sobretudo com a implantação da estrada de ferro que ligava os estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo” (MORAES, 2006, p. 53). A chegada da estada de ferro, em 1889 a Uberaba (MG) e em 1896, a Araguari (MG), deixou Goiás mais próximo do sul desenvolvido. A província, principalmente sua parte sul e sudeste, divisa com Minas Gerais, começou a sofrer mudanças influenciadas pelo desenvolvimento do Triângulo Mineiro. Era a forte e crescente economia paulista incorporando áreas, expandindo fronteiras e subordinando novos territórios. A Ferrovia Mogiana saía do território paulista com vagões carregados, levando produtos manufaturados e alimentos para o interior menos desenvolvido do país. Na volta, seus vagões carregavam matéria prima extraída das terras do Centro Oeste para as indústrias do Sudeste. O Triângulo Mineiro que sempre teve articulação comercial com o centro-sul do estado de Goiás intensificou essa ação, com a chegada da ferrovia. A relação passou a ser mais dominante, seja na importação dos produtos manufaturados ou na exportação do gado goiano, dos derivados da produção agropecuária e beneficiamento do arroz produzido no sul de Goiás. A maior possibilidade de exportar a produção para fora do estado, via os trilhos, favoreceu o crescimento das lavouras. Assim, a agricultura e a pecuária de corte começam a se organizar como atividade comercial. Logicamente que esta “frente pioneira” que partia para a “conquista” do Oeste, impulsionada pelos incentivos governamentais, “se movia impulsionada pelos interesses imobiliários do grande capital, das empresas ferroviárias e da grande agricultura de exportação, como o café, no Sudeste e na Amazônia, que passa a depender da iniciativa do governo federal.” (MARTINS, 1997, p.181). Para reforçar a propagação do capital privado que se expandia pelo país, e para gerenciar a série de projetos criados para o desenvolvimento da Região, o Governo Federal criou a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste – Sudeco, em 1967. Seu modelo foi inspirado no de outras superintendências instaladas nas demais regiões do país, tendo como exemplo mais evidente a região Nordeste, com a Sudene. Sobre a coordenação da Sudeco, foram criados programas para o fortalecimento econômico e social da região que seriam desenvolvidos dentro dos grandes planos nacionais do Governo Federal, como PAEG – Programa de Ação Econômica do Governo e os PNDs – Plano Nacional de Desenvolvimento, que teve três versões. Para o Centro Oestes, estes programas apresentavam subprogramas, com os mais variados nomes e as mais diversas finalidades: Prodoeste – Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste; Pladesco – Plano de Desenvolvimento Econômico e Social do Centro-Oeste; Polocentro – Programa de Desenvolvimento dos Cerrados; Programa Espacial da Região Geoeconômica de Brasília; Polamazônia - Pólos agropecuários e agrominerais da Amazônia; PRODEPAN – Programa de Desenvolvimento do Pantanal; PRODEGRAN- Programa de Desenvolvimento da Grande Dourados. No inicio da década de 1990, já com o Brasil sendo preparado para receber a implantação das políticas neoliberais, a Sudeco foi extinta, sob a alegação de favorecer a prática de corrupção (ARRAIS, 2007). E foi exatamente nessa mesma época, como resultante das políticas de integração, que a região, acabava de passar por um período de considerável intensificação de migrações, principalmente nas regiões próximas à Brasília, que entre as décadas de 1970 e 1990, apresentou as mais elevadas taxas de crescimento populacional do país. Em 1998, foi então criada, a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno – RIDE DF/GO/MG5. Sendo esta a primeira RIDE implantada no Brasil e sua 5 As Rides são políticas do governo federal que tentam coordenar regiões que possuem de dinâmicas semelhantes no seu desenvolvimento, mas que pertencem a unidades federativas diferentes. Existem 6 criação pretendia reduzir as desigualdades regionais causadas pela alta concentração urbana ao redor do Distrito Federal e diminuir as demandas por serviços públicos. Outro programa criado para amenizar os impactos do fim das superintendências regionais no Brasil, foram os ENIDs – Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento. Ao todo, estavam previstos no Plano Avança Brasil, doze eixos de integração e desenvolvimento. Para o Centro Oeste, foram planejados dois eixos: Oeste e Araguaia Tocantins. No entanto, o previsto neste planejamento, não se concretizou. No Eixo Araguaia Tocantins, foi proposta uma estrutura muito grande composta de hidrovias, ferrovias e rodovias. Propunha um desenvolvimento norte sul da Região, enquanto as demandas e os problemas estão no sentido leste oeste, “na verdade, ao desconsiderar o vetor urbano industrial Leste-Oeste (Cuiabá-Goiânia-Anápolis-Brasília), a proposta desvia o olhar dos problemas sociais dessa região” (ARRAIS, 2007, p. 192). Todos estes programas de incentivos, para a ocupação da região, promovido pelo Governo Federal, permitiu que o território do Centro Oeste se integrasse à dinâmica nacional sendo ocupado pelo forte capital privado que de forma exógena gerava o desenvolvimento regional. Porém, essa “modalidade de ocupação proposta era contraditória: a da agropecuária, uma atividade econômica que dispensa mão-de-obra e esvazia o território”. (MARTINS, 1997, p. 74). O rápido movimento de urbanização pelo qual a região passou, é fruto desse processo especulativo financeiro, vigente a partir de 1970. 3 - As transformações em Goiás. Como sabido, o Século XIX, representou para o Brasil um período de transformações sócio econômicas, porém, os dados sobre economia goiana, desta época, mostram apenas a transição da etapa da mineração para a pecuária. Faltam dados mais precisos que permitam melhor compreender o período. A maioria dos autores afirmam que até a chegada da estrada de ferro em território goiano, sua história econômica era praticamente nula6. Apesar de possuir grande extensão territorial, localizado bem ao centro do Brasil, o que poderia considerado como “uma espinha dorsal” do território brasileiro7, Goiás apresentava baixa densidade populacional - quase um deserto - e sua ocupação e povoamento ocorreu de maneira heterogênea e espaçada. Seja pelo próprio crescimento vegetativo ou por correntes migratórias, durante a mineração do século XIX, a população goiana mais que triplicou. De 1830 a 1890 o número de habitantes saltou de 62.518 para 227.572. Mas estes são dados que também não se confirmam, e existem divergências, devido à precariedade de apuração, “Saint Hilaire, por exemplo, incluiu a população indígena em seus cálculos estimados, para o início do século um contingente de 80.000 almas das quais 45.000 silvícolas”. (ESTEVAM, 2004, p. 49). Mas qualquer crescimento populacional que Goiás apresentasse à época, ainda seria modesto, se comparado com outras províncias. Em 1872, a população goiana correspondia a 1,6% do total do Brasil. E mesmo com crescimento que poderia ser considerado elevado, em 1890, essa proporção cai para 1,5%. O grande território goiano foi sendo ocupado por população oriunda de diversas partes, mas, sobretudo do Nordeste e Minas Gerais. A imensidão do território gerou muitas disputas entre o norte e sul. O norte acusava o governo de abandono e por isso se tornou extensão do Maranhão, do Ceará e do Pará (ESTEVAM, 2004). Eram povos que iam trabalhar na exploração do babaçu, no comercio de sal e na criação de gado, mesmo sendo atividades incipientes. A parte sul, foi ocupada, sobretudo por mineiros e paulistas, e por isso mesmo favoreceu seu maior desenvolvimento. À medida que as terras iam se esgotando, sobretudo três experiências destas no Brasil: a Ride DF/GO/MG, formada por todo o DF, a parte de Goiás denominada de Entrono do DF e parte de Minas Gerais. As demais Rides ficam no Nordeste: Teresina PI e Timon MA e Juazeiro BA e Petrolina PE. 6 Conforme relata Estevam, 2004, p. 47. 7 Considerando a configuração territorial anterior com o atual Estado de Tocantins. 7 na parte do que hoje compreende o Triângulo Mineiro8, o governo foi regulando novas concessões de terras no sul e sudoeste de Goiás. Assim como ocorria com o Centro Oeste, consequentemente não seria diferente com Goiás. O fator a ser considerado e que mais prejudicava sua ocupação eram as dificuldades no acesso e comunicação que faziam das localidades goianas, verdadeiras ilhas. As distâncias, tanto pra se chegar ao estado como para percorrer de um ponto a outro, dentro de seu próprio território, eram imensas e as estradas praticamente intransitáveis9. No início dos anos 1900, levava-se cerca de oito meses para percorrer o caminho a cavalo da cidade do Rio de Janeiro até chegar à cidade de Goiás, capital do estado. Isolado, Goiás, possuía atividade mercantil modesta e bastante dependente dos grandes centros da época para a aquisição de alguns produtos considerados indispensáveis. Se o incipiente comércio goiano, bem como sua fraca produção de açúcar, aguardente, café e algodão era apenas para o pequeno consumo local, as atividades agropecuárias, aos poucos, passaram a não se limitar mais apenas à subsistência e atingia outros mercados para além de Goiás, mesmo com as dificuldades de transporte. Apesar do isolamento e a distância dos mercados consumidores maiores e ainda a descapitalização que dificultava o envolvimento mercantil da província com os centros mais povoados, “o pequeno comércio intra-regional consolidou-se e a exportação de excedente bovino fez parte das negociações dos fazendeiros goianos”. (ESTEVAM, 2004, p. 58). E a ausência de estradas e as dificuldades para comunicação com os centros mais desenvolvidos foi o que favoreceu para que a pecuária se emergisse, como a mais significativa atividade econômica em Goiás, devido ao fato de que, ao contrário dos produtos agrícolas, o gado se “auto transportava”, não precisando de estradas para isso. Assim, a atividade agropecuária em Goiás, como em outros estados brasileiros, foi sem dúvida, o que mais contribuiu para promover a ocupação do território. Não é certo afirmar que a produção agropecuária foi o fator que fez surgir uma agricultura em Goiás, pois a verdade é que “uma não poderia existir sem a outra.” (ESTEVAM, 2004, p. 63). Durante o século XIX, agropecuária e agricultura andaram juntas na formação econômica de Goiás. A criação de gado necessitava de produção de alimentos. A agricultura, por exigir mais especificidade no cultivo, maior quantidade de mão de obra e de capital, acabou favorecendo um maior desenvolvimento da pecuária, que pode ser desempenhada sem tantas exigências. A agricultura que surgia para alimentar a pecuária era a típica camponesa, com baixa utilização de insumos e a mão de obra utilizada era dos próprios membros da família. Era realmente uma economia mercantil simples. Gerar excedente numa economia assim, é atividade que raramente consegue ingressar em algum outro mercado. Desse modo e aos poucos foi se formando uma “civilização sertaneja em Goiás apartada das rápidas transformações capitalistas em curso no sudeste do país”. (ESTEVAM, 2004, p. 70). O incipiente comércio de gado da província ocorria via o Triângulo Mineiro. Mesmo inserida na economia capitalista do país, o desenvolvimento econômico da província goiana foi algo que levou algum tempo para acontecer. A vida em Goiás era de toda maneira atrasada e assustava quem o visitasse, mas ao mesmo tempo, dava alguma alusão de que poderia se desenvolver, caso alguma estrutura fosse construída para isto. Saint Hilaire, por exemplo, em sua Viagem à Província de Goiás, vislumbrou que “tempos virá em que cidades florescentes substituirão as miseráveis choupanas que mal me serviam de abrigo...” (HILAIRE, 1975, p. 14). Parecia vislumbrar as duas importantes cidades que seriam erguidas anos depois no território goiano: Goiânia e Brasília, que transformaram definitivamente não só a realidade de Goiás, mas de toda a Região Centro Oeste. 8 Pertencente a Goiás, o Triângulo Mineiro foi alvo de constantes disputas com Minas Gerais, até que em 1833 passou a pertencer definitivamente ao estado do sudeste, desligando o território de Goiás de São Paulo. 9 Para evitar os contrabandos, a atividade extrativa da mineração, o Império, não tinha interesse e nem permitiam a abertura de estradas, atuando ainda no fechamento de alguma que fosse aberta sem a devida permissão. 8 O desenvolvimento do Triângulo Mineiro influenciou também no desenvolvimento das partes sul e sudeste da província goiana. A forte e sempre crescente economia paulista que necessitava incorporar novas áreas para expandir a fronteiras, subordinava novos territórios. A articulação comercial do Triângulo Mineiro com o centro-sul do estado de Goiás aos poucos se intensificava e se tornava mais dominante, seja na importação dos produtos ou na exportação do gado goiano, dos derivados da produção agropecuária e beneficiamento do arroz produzido no sul de Goiás10. Assim, as áreas sul e sudeste do estado, por estarem integradas ao Triângulo Mineiro, diretamente ligado a São Paulo e principalmente após a chegada da ferrovia, passaram a apresentar situação econômica mais dinâmica. Era no sul e sudeste do estado onde ocorriam as maiores transações de imóveis rurais, sobrepondo até ao montante que ocorria na Cidade de Goiás, capital do estado, mas não mais que em Anápolis, na região central, que já se despontava como o principal centro econômico do estado11. Com toda certeza, a estrada de ferro levava progresso aonde chegava. Foi a responsável pelo desenvolvimento do capital comercial do Triângulo Mineiro, tornando a região um entreposto forte no comercio entre o Centro Oeste e São Paulo. Devido sua posição geográfica, as regiões sul e sudeste de Goiás foram as primeiras a se beneficiarem do bom desempenho do Triângulo. As terras foram valorizadas, mas a relação comercial continuava subordinada à região mineira. A chegada dos trilhos a Goiás, abriu a possibilidade de o estado manter algum contato direto com a parte mais rica do país, permitindo assim, uma maior integração com o mercado nacional, sem alguma intermediação ou subordinação. Por onde passava, a ferrovia promovia transformações na produção agrícola, na valorização das terras, no contingente populacional e na urbanização12. Aos poucos, o trem de ferro foi fazendo romper a velha combinação entre agricultura de subsistência e pecuária extensiva. O arroz passou a ser o segundo produto da pauta de exportações do Estado, tornando Goiás o 4º produtor nacional, em 1920. Mas assim como o gado que era levado para ser abatido em São Paulo, o arroz também era vendido em casca. No estado não se desempenhava nenhuma atividade mais especializada. Com relação à pecuária, foi somente na década de 1930, que algumas charqueadas e matadouros se instalaram em cidades goianas cortadas pela estrada e ferro, passando a abater gado, produzindo “charque e produtos semi-industrializados do boi que passaram a constar na pauta de exportações, principalmente charque, couros e sebo”. (ESTEVAM, 2004, p. 84). Dentre as principais transformações estruturais ocorridas no interior do território goiano, está a edificação da nova capital, Goiânia (1933 a 1942) e posteriormente a de Brasília (1955 – 1960), a nova capital federal. Goiânia é considerada o marco inicial da Marcha para o Oeste e sua construção deflagrou o processo de implantação de infraestrutura capaz de interligar o estado com o restante do país. Fato que só foi consumado, mais tarde, com a edificação de Brasília, que levou para o Centro Oeste, mas, sobretudo para Goiás uma malha viária capaz de ligar a região a todo o país e ainda, como já abordado, um pacote de programas federais capaz de promover o desenvolvimento dos solos e garantir condições para o surgimento de uma agricultura e pecuária que se tornaram uma das mais fortes do país. Todos estes fatos, sem dúvida, contribuíram para ampliar ainda mais as migrações para a região, fazendo surgir no interior do estado novos centros comerciais, sobretudo no centro sul – região onde está Goiânia e o Distrito Federal. 10 Na divisão do trabalho na criação de gado, cabia a Goiás fazer a primeira etapa na reprodução, a engorda das reses, cabia ao Triângulo Mineiro e depois eram transportadas para Barretos, SP, onde eram abatidas. 11 Conforme Estevam 2004, o fato de Anápolis ser a localidade onde se instalava o ponto final da estada de ferro, fez com que seu comercio intensificasse, se tornando o locus da chegada e saída de produtos para importante parte do centro e norte de Goiás. 12 As exportações de gado de Goiás aumentaram substancialmente com a implantação da estrada de ferro. A produção agrícola na área sob a influencia da ferrovia atingiu metade do que era produzido em todo o estado. 9 4 - A atual configuração do Centro Oeste. Atualmente o Centro Oeste se destaca no cenário nacional, por seu dinamismo na produção agropecuária. Sua extensão territorial permite que a quantidade de áreas utilizadas para a criação de bovinos e plantio principalmente de soja, cana de açúcar, algodão, arroz e milho, seja cada vez mais crescente. Os números apresentados pela tabela 1 mostram como evoluiu, de forma impressionante, o uso de terras para as lavouras do Centro Oeste. Tabela 1 - Evolução das Lavouras do Centro Oeste Áreas Plantadas por ha. Produto 1965 1980 1990 2000 2010 Arroz 1.174.222 2.367.091 772.771 915.649 417.378 Cana de açúcar 43.519 49.505 215.983 373.396 1.023.738 Milho 514.829 941.123 1.416.480 1.803.292 3.431.652 Soja 804 1.130.093 3.810.153 5.530.455 9.861.994 Algodão 69.342 80.295 123.451 403.730 449.129 Fonte: Ipeadata O arroz, que por ser um produto de baixo valor, é utilizado para a ampliação da fronteira agrícola como preparação das terras para receber culturas mais valorizadas como soja e milho (GUIMARÃES E LEME, 2002), caiu de 1965 para 2010, enquanto elevou – se substancialmente a produção das culturas voltadas para o mercado externo. Dentre toda a área colhida das lavouras do Centro Oeste, o Estado de Mato Grosso é o responsável por mais da metade da produção de arroz, soja e algodão e quase metade da produção de milho, conforme demonstra a tabela 2. O estado de Goiás de grande produtor de arroz no período de expansão da fronteira agrícola para o Centro Oeste13 tornou-se grande produtor de cana de açúcar, devido à política de incentivos fiscais do governo estadual, que busca atrair para seu território usinas produtoras de etanol. Goiás, em 2013 foi segundo maior produtor de etanol do país, sendo responsável por 13,86% da produção nacional, conforme dados da Conab14. Tabela 2 - Proporção dos Estados nas Lavouras do Centro Oeste - áreas plantadas por ha em 2010 Produto DF GO MT MS Arroz 0,01 24,66 67,14 8,19 Cana de açúcar 0,08 51,17 20,82 27,94 Milho 1,17 26,41 48,46 23,96 Soja 0,50 23,48 59,13 16,89 Algodão 0,00 12,22 79,61 8,17 Fonte: Ipeadata A produção pecuária, que também cresceu no número de abates, sobretudo de bovinos, e a agricultura tem atraído para a região grande número de agroindústrias, intensificando a ligação da região com o grande capital nacional e internacional, através da comercialização de alimentos. Também são crescentes as atividades voltadas para a prestação de serviços – principalmente como consequência da elevada movimentação promovida pelo agronegócio - e a industrialização, sobretudo no estado de Goiás. 13 Em 1965, Goiás era responsável por 73% das colheitas de arroz da Região. Em 2013 o Centro Oeste foi responsável por 25,65% do etanol produzido no Brasil, ficando só atrás do sudeste que produziu 51,19%. 14 10 A tabela 3 mostra como é gerada a riqueza de cada um dos estados que compõem a região Centro Oeste. Na composição do PIB cada um deles lidera um dos segmentos econômicos, revelando tendências diferenciadas entre eles. Tabela 3 - Composição do PIB dos estados do Centro Oeste - por segmentos - 2009 a 2011 UF 2009 Indústria Serviços 2010 Agrop Indústria Serviços 2011 Agrop Indústria Serviços Agrop DF 6,50 93,00 0,50 6,50 93,20 0,30 6,40 93,30 0,30 GO 27,00 59,00 14,00 26,60 59,30 14,10 26,80 60,70 12,50 MS 18,50 66,00 15,50 22,10 62,40 15,50 22,80 63,20 14,00 54,50 28,60 20,60 57,30 22,10 18,60 57,30 24,10 MT 16,90 Fonte: IBGE O Distrito Federal lidera o segmento dos serviços. Isto se deve ao fato de lá estar sediado o governo federal. Assim sendo, é a sede de todos os ministérios e demais órgãos estatais, bem como é a sede de grandes empresas nacionais, públicas e privadas, que fazem surgir setor de serviços para atender à demanda aberta por estas instituições. Mato Grosso é o que apresenta o maior PIB agropecuário da região. O estado se destaca como um dos maiores exportadores de grãos do país - em 2013, foi responsável por 69% das exportações de soja do Centro Oeste. É isolado o maior produtor desta oleaginosa 26% da exportação brasileira, em 2013, conforme os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - Mdic. Goiás, que também possui considerável produção agrícola, sobretudo de soja, cana de açúcar e algodão, detém ainda um parque industrial crescente, com destaque para o DAIA – Distrito Agro Industrial de Anápolis, onde se localiza um dos maiores parques na produção de medicamentos do país, cujo maior foco é para os medicamentos genéricos. O estado possui ainda indústrias automobilísticas – Hyundai em Anápolis e Mitsubishi e John Deere em Catalão. Além disso, o governo estadual tem atraído agroindústrias – sobretudo frigoríficos - e usinas de álcool para o território goiano. Dentre todas as regiões brasileiras o Centro Oeste é a região que vem apresentando maior elevação de sua participação na composição das riquezas nacionais. Tabela 4 – Participação de cada região brasileira na composição do PIB. Região 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Norte 4,7 4,8 4,9 5,0 5,1 5,0 5,1 5,0 5,3 5,4 Nordeste 13,0 12,8 12,7 13,1 13,1 13,1 13,1 13,5 13,5 13,4 Sudeste 56,7 55,8 55,8 56,5 56,8 56,4 56,0 55,3 55,4 55,4 Sul 16,9 17,7 17,4 16,6 16,3 16,6 16,6 16,5 16,5 16,2 8,8 9,0 9,1 8,9 8,7 8,9 9,2 9,6 9,3 9,6 Centro Oeste Fonte: IBGE Na composição total do Produto Interno Bruto brasileiro, a região Centro Oeste é a que mais apresentou crescimento no período compreendido entre 2002 e 2011. Enquanto regiões como a Sudeste, cai sua participação de 56,7 para 55,4% e a região Sul, praticamente se mantém estável, mas com leve queda, o Centro Oeste passa de 8,8 para 9,6% na composição total das riquezas geradas pelo Brasil. A Região Centro Oeste também é a que mais apresenta crescimento em seu PIB per capta. A renda na região vem crescendo desde 2006, conforme demonstrado na tabela 5 e disputa 11 colocação com o sudeste, chegando a superar essa região, que é a mais desenvolvida do país, no ano de 2009. Quanto à comparação com a renda per capta nacional, o Centro Oeste, ao lado das regiões Sul e Sudeste, supera à de todo o país. Porém, estes números não pode levar a acreditar que o Centro Oeste seja uma região onde os padrões de qualidade de vida ou a riqueza das pessoas sejam semelhantes com as do sul e o sudeste, pois trata-se de uma riqueza concentrada, que não gera renda à maioria absoluta da população. E o fato de ser a segunda região menos povoada, ficando atrás apenas da região Norte, facilita esta posição, já que a região produz muitas “riquezas” num universo de baixa população. Tabela 5 - PIB Per Capta das Regiões Brasileiras – 2006 - 2010 Regiões Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Brasil Fonte: Ipeadata 2006 4,74 3,58 8,40 10,04 9,23 7,53 2007 5,23 3,86 9,48 11,03 10,21 8,28 2008 5,29 3,88 9,45 10,96 10,55 8,28 2009 5,13 3,94 9,33 10,70 10,80 8,17 2010 5,67 4,27 10,14 11,60 11,13 8,82 Todo esse dinamismo econômico apresentado pela região Centro Oeste deve ser encarado como consequência das intervenções que a região sofreu ao longo dos anos. Este fato faz dela, não só um atrativo para mais investimentos públicos e privados, mas até como consequência destes investimentos, com que ela atraia população para seu território. A participação das pessoas não naturais, que tinham menos de 10 anos ininterruptos de residência na Região Centro Oeste, em relação à população total do Brasil, foi maior dentre todas as regiões brasileiras, de acordo com os dois últimos censos do IBGE (2000 e 2010). Tabela 6 - Participação de migrantes na população total das regiões brasileiras – 2000 e 2010 Regiões Brasileiras 2000 2010 Brasil 5,1 4,2 Norte 8,1 5,6 Nordeste 2,6 2,5 Sudeste 5,5 4,0 Sul 3,6 3,9 Centro-Oeste 13,2 10,7 Mato Grosso do Sul 8,5 7,2 Mato Grosso 14,5 10,5 Goiás 12,0 11,1 Distrito Federal 19,7 13,4 Fonte: IBGE - Censo Demográfico Portanto é o Centro Oeste a região que apresenta a maior atração de imigrantes dentre todas as regiões, embora este número tenha diminuído de 2000 para 2010. O destaque dentro da região continua a ser para o Distrito Federal, que lidera a atração de população. Parece que ainda hoje, mais de 50 anos após a construção de Brasília, a esperança de ela ser a “terra prometida” continua forte na imaginação das pessoas que buscam a cidade ou seus arredores para viverem. Mato Grosso e Goiás revezam na segunda posição, tendo Goiás ficado um pouco a frente no último Censo. 12 Um fato peculiar é que mesmo o Centro Oeste sendo a região que mais atrai população, ainda é considerado de baixa densidade demográfica. Isso ocorre por dois fatores: o primeiro se de à sua grande extensão territorial. O segundo é pela maneira como são divididas as terras em seu interior. As propriedades rurais são, em sua maioria, latifúndios. Mesmo a região apresentando fortes tendências agrícolas, possuindo o maior exportador de grãos do país, que é o estado de Mato Grosso e ainda detentor de grande rebanho bovino, é a segunda região mais urbanizada do país. De acordo com o IBGE, 88,8% da população do Centro Oeste vivem nas cidades, ficando atrás apenas da Região Sudeste, que é a mais industrializada. O que justifica esta urbanização é a lógica de desenvolvimento econômico empregada no Centro Oeste, baseada no latifúndio, na concentração de terras, e na tecnificação e mecanização das lavouras e dos rebanhos, que não geram empregos no campo, fazendo crescer, portanto, a urbanização. Por se tratar de uma agricultura desagregadora, que além de não gerar empregos, expulsa as pessoas do campo, contradizendo com a “vocação” agrícola, da região, tão propalada pelos diversos programas federais que deram o caráter que hoje tem a região. A região Centro-Oeste é a que melhor sintetiza o esforço de inserção comercial do país e a forma acelerada como as modernas atividades comandadas por grandes empresas globais modificaram o território, adaptando-o a suas necessidades de acumulação, redefinindo, assim, sua inserção na geografia econômica (interna e externa) pela substituição de antigas atividades baseadas em subsistência e na economia natural por modernas produções do agronegócio internacionalizado. Com isso, promoveu-se completa redefinição do uso e ocupação do solo (rural e urbano) e, por consequência, reorientação de sua organização espacial. (MACEDO, 2011, p. 190/191). Toda essa dinâmica levou a uma “crise” de infraestrutura na região. Da década de 1980 até o inicio dos anos 2000, os programas federais para o ordenamento do território do Centro Oeste não foram implementados ou falharam. A partir do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento (2007) pode-se considerar que os investimentos federais voltaram a ocorrer na região. Apesar de não ter a finalidade de organizar o território, por não ter caráter de política nacional de desenvolvimento regional, o PAC possui um pacote de obras focadas principalmente na reestruturação da infraestrutura dos transportes e geração de energia. No que se refere aos transportes o foco esta na ampliação e duplicação de rodovias, na implantação de ferrovias, voltada para a grande demanda de escoamento da produção de grãos. A geração de energia elétrica busca não só a construção de usinas, mas de redes de distribuição, capaz de atender as demandas principalmente as geradas pelo agronegócio. 4.1 - O PAC e os investimentos em infraestrutura para a Região Centro Oeste. O Programa de Aceleração do Crescimento, lançado em 2007, para incentivar o crescimento econômico brasileiro, pode ser entendido como a retomada do planejamento federal. Contendo ações que visam o desenvolvimento através do incremento de investimentos, em setores da economia, sobretudo de construções, o PAC tem seu maior foco na implantação de uma infraestrutura adequada que incentive a produção dos diversos segmentos da economia. Uma das maiores críticas à atual configuração produtiva do Centro Oeste, é que a intensificação dos incentivos para que esta região se tornasse uma grande produtora de alimentos, sobretudo para a exportação, não se fez acompanhado de iguais investimentos capaz de criar infraestrutura que favorecesse o escoamento de produção tão significativa. Como é sabido, o Centro Oeste fica distante do mar e as exportações de commodities agrícolas, são realizadas, basicamente por navios. Portanto, se faz necessário criar condições para que esta produção chegue até os portos, para daí alcançar os países de destino, localizados, sobretudo na Europa e Ásia. 13 Nas obras do PAC, previstas para o Centro Oeste, as mais significativas são a construção da Ferrovia Norte Sul, duplicação de rodovias federais e ampliação da geração de energia elétrica. Lançada ainda no Governo Sarney (1985-1989), a Ferrovia Norte Sul começou a ganhar chão com o PAC à partir de 2007. Esta ferrovia, que tem seu quilometro zero na cidade de Anápolis, no centro goiano, para o norte avança no sentido do Estado de Tocantins, Maranhão, até alcançar o porto de Barcarena no Pará. Ao sul, atravessa o extremo oeste do Triângulo Mineiro, todo o estado de São Paulo, Paraná, Santa Cantarina, chegando até a cidade gaúcha de Rio Grande. Ao longo de seu trajeto, a Norte Sul, que foi planejada como a grande “espinha dorsal” no novo sistema ferroviário brasileiro, recebe ramais, que alcançam diversos portos marítimos, como o de São Luiz do Maranhão, Suape em Pernambuco, Ilhéus na Bahia, Campos no Rio de Janeiro e Itajaí em Santa Catarina. Na altura do município de Figueirópolis, em Tocantins, ela se liga à FIOL - Ferrovia de Integração Oeste Leste, que atravessa o estado da Bahia, até alcançar o Oceano Atlântico em Ilhéus (BA). Em Campinorte (GO), nascerá a FICO - Ferrovia de Integração Centro Oeste, que adentrando o estado de Mato Grosso, se unirá à Ferrovia Transcontinetal, em Vilhena (RO). A Transcontinetal, unirá o Brasil ao Oceano Pacifico, atravessando além do Acre, todo o território do Peru. Do município de Panorama (SP), sai a EF 267 (Ferrovia do Pantanal), que vai ligar a Norte Sul com Porto Murtinho (MS), na divisa com o Paraguai15. O PAC é divido em eixos de atuação: Transportes, Energia, Cidade Melhor, Comunidade Cidadã, Minha casa Minha vida, Água e luz para todos. Cada um destes eixos possui programas especificos para as diversas regiões brasileiras. No caso com Centro Oeste, o montante previsto para ser implantado entre 2011 e 2014, para o Eixo de Transportes é de 11,9 bilhões, para Energia, 11,3 bilhões, para o Cidade Melhor, 4,5 bilhões, para o Comunidade Cidadão em torno de 1 bilhão, para o Minha Casa Minha Vida, pouco mais de 32 bilhões e o Água e Luz para Todos, aproximadamente 1 bilhão. Dentro o eixo Transportes, além das ferrovias, está prevista ações como a pavimentação e duplicação de rodovias, construção de anéis viários ou viadutos em grandes travessias urbanas, hidrovias e reforma ou ampliação de aeroportos. O eixo Energia é basicamente composto por construção de hidrelétrica e ampliação ou construção de redes de ligação. O “Cidade Melhor” é focado em ações de saneamento, despoluição de rios urbanos, drenagens e mobilidade urbana. O “Comunidade Cidadã”, é voltado para construções e reformas de unidades básicas de saúde e escolas. O “Minha Casa Minha Vida” é dentre os eixos do PAC o que mais tem recursos e sua execução tem alterado a paisagem urbana de diversas cidades brasileiras, com o surgimento de grandes conjuntos habitacionais. Por fim o “Água e Luz para Todos”, tem a finalidade de promover o abastecimento das residências urbanas e propriedades rurais, bem como levar energia para todas as localidades onde este beneficio ainda não chegou. Encontrar informações sobre o que está programado pelo PAC é tarefa muito simples. O Governo Federal mantém um sítio na internet com todas as informações, inclusive apresentando balanços periódicos. Um material bonito, bem elaborado, rico em imagens. A missão se tornar quase impossível quando é buscar informações do que foi realmente executado. Nos constantes balanços divulgados pelo Governo, aparece o que é proposto para determinado período, que geralmente é de 4 anos, como 2011 a 2014, e em seguida vem a informação do que foi efetivado. Acontece que as informações do que foi executado, é retirada das notas de empenho dos diversos ordenadores de despesas (Ministérios) que compõem o Programa. Isto não significa que a obra tenha sido realizada fisicamente. Não existe uma informação precisa do que de fato foi realizado. 15 De todas estas ferrovias, a única em construção é a Norte Sul. As demais aparecem como projetos ou em fase de estudos, nos balanços do PAC apresentados periodicamente pelo Governo Federal. 14 O sítio SIGA Brasil, mantido pelo Senado brasileiro, divulga a execução orçamentária de todas as despesas realizadas pelo Governo Federal, com informações colhidas diretamente pelo SIAF – Sistema de Administração Financeira. Porém, as informações disponibilizadas pelas diversas planilhas constantes sobre a execução do PAC, aparecem por dotação orçamentária e ministérios, enquanto que as ações divulgadas como planejamento ou realização nos balanços do PAC, constam por programas. Num cruzamento feito, sobre o que está proposto no PAC, para cada estado da região Centro Oeste, com o que consta como realizado, pela planilha de despesas pagas, por estado, pode-se dizer que o PAC caminha em marcha lenta de execução. Tabela 7 – Investimentos previstos no PAC x Investimentos realizados, por estados da Região Centro Oeste - 2011 a 2014 - em R$ milhões Estado Investimentos Previstos - 2011 a 2014 DF 17.188.110.000 GO 18.353.210.000 MS 10.988.750.000 MT 14.597.620.000 CO 61.127.690.000 Fonte: Balanços do PAC e SIGA Investimentos Realizados 2011 a 2013 11.378.806 2.356.780.261 299.540.490 437.909.830 3.105.609.387 % Total 0,07 12,84 2,73 3,00 5,08 Pelos dados mostrados na tabela 7, percebe-se realmente que as obras do PAC caminham lentamente no Centro Oeste. No Distrito Federal, o que contas como obra paga e possivelmente realizada é praticamente zero. No estado de Goiás, tanto o previsto como o executado são os maiores da região. Neste estado esta as obras da Ferrovia Norte Sul, que realmente está praticamente concluída, apesar dos diversos escândalos de corrupção envolvendo os gestores da Valec (empresa estatal responsável pela execução das obras) e das críticas quanto à qualidade do material utilizado para construir a Ferrovia e seu projeto em si que é criticado por conter curvas acentuadas e quase nenhum espaço para o descarrilamento de vagões. Nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, as obras do PAC se resumiram praticamente à duplicação da BR 163, que é a mais importante via de escoamento da produção agrícola destes estados para os portos das regiões norte e sudeste. Outra importante política pública federal voltada para o planejamento da Região é o retorno da Superintendência de Desenvolvimento do Centro Oeste. A Sudeco resurgiu em 2011, para novamente tentar organizar e coordenar as políticas públicas voltadas para a região Centro Oeste. Porém, mais de dois anos após, ainda não esta organizada e funcionando. 5 – O papel de Goiás. O estado de Goiás desempenha um papel chave dentro da atual dinâmica presente no Centro Oeste. Por sua localização geográfica, no centro do Brasil, sempre se interligou diretamente com as regiões mais desenvolvidas, assim sendo, pode ser considerado um centro natural de logística, reforçado pelos investimentos públicos e privados que vêm recebendo nos últimos anos. Dentre as transformações estruturais ocorridas no interior do território goiano, as principais a serem consideradas são as edificações dos polos de Goiânia e Brasília16. A evolução do sistema de transportes, o surgimento de novos centros de comercio e a aceleração do processo de urbanização, se deu a partir de então e fizeram do estado de Goiás o palco de diversas políticas públicas que favoreceram não apenas sua transformação, mas de toda a região Centro Oeste. 16 As duas cidades se interligam desde o nascimento. Os excedentes populacionais que não encontravam espaços em Brasília migravam para Goiânia em busca de condições melhores de vida. Por ser Goiânia também uma cidade planejada, despertava a mesma utopia do moderno, num mundo em desenvolvimento. 15 Junto com Brasília foi construída, no território goiano, uma malha de rodovias, cuja principal foi a BR 153, mais conhecida como Transbrasiliana ou Belém – Brasília, mas que apesar de ter recebido este nome, não liga a capital federal com o norte do país. A BR 153, que inicialmente ligava apenas Anápolis com a CANG17, passou a ligar o Norte (Belém, PA) com o Sul do Brasil (São José do Rio Preto, SP), tornando-se uma espinha dorsal, de onde outras rodovias se conectam a ela através de grandes entroncamentos. A BR 060, corta Goiás, ligando o leste com o oeste do país. A BR 163 (continuação da 060 para o Oeste) adentra o território de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, depois vai para o Pará, e atualmente é considerada a principal via de escoamento da pujante produção de grãos do Mato Grosso. A BR 060 pelo lado leste liga Brasília às BRs 040 e 251, ligando o Centro Oeste com os estados do Nordeste e ainda com Minas Gerais e depois com o Rio de Janeiro e São Paulo. A BR 050, que sai da BR 153, já em território mineiro, uni Goiás com o Triangulo Mineiro e depois com o Eixo da Via Anhanguera onde se localizam os centros econômicos mais dinâmicos do país, como o próprio Triângulo Mineiro, a região de Ribeirão Preto, Campinas e a RM de São Paulo. No centro goiano, a cidade de Anápolis conta com uma estação aduaneira – Porto Seco – que escoa parte da produção do Centro Oeste e Norte do país. Este porto deve ter suas atividades intensificadas nos próximos anos, com a entrada em funcionamento da Ferrovia Norte Sul. O Porto Seco, a ferrovia Norte Sul que se unirá à Ferrovia Centro Atlântica18, juntamente com as duas rodovias que passam pela cidade – BR 153 e BR 060 – e com o aeroporto de cargas em implantação, formarão a Plataforma Logística Multimodal de Goiás PLMG, sendo a única plataforma logística em construção no Brasil e que colocará Anápolis nos centro dos interesses logísticos do país. De forma geral, a PLMG será um nó logístico estratégico e seletivo em seu controle e uso, tendo a função de concentrar e redirecionar fluxos materiais no território brasileiro, além de transformar em um ponto de ligação direto com outras partes do mundo através da construção do aeroporto internacional de cargas. O funcionamento da PLMG em conjunto com o Porto Seco Centro Oeste S. A. torna este nó logístico ainda mais seletivo, uma vez que tende a atrair, sobretudo, empresas do circuito superior que têm possibilidade de mobilizar grandes quantidades de cargas direcionadas ao mercado externo. (BRAGA, 2013, p. 181/182). Depois da Ferrovia Norte Sul, o mais importante projeto em implantação, seja a Plataforma Logística Multimodal de Goiás (PLMG), na cidade de Anápolis, sendo uma parceria entre governos federal, estadual e municipal. Além das estruturas logísticas, o estado de Goiás também possui importância em todo o Centro Oeste no que diz respeito à prestação de serviços e fornecimento de bens e insumos. Goiânia e Anápolis concentram empresas que alimentam a rica cadeia produtiva do agronegócio em todos os estados da região e parte do Norte e Nordeste. Estas cidades assumem tal posição por que foram as que melhor desenvolveram suas redes de comércios e serviços de alto padrão, exigidos pela cadeia do agronegócio19. Goiânia possui ainda um importante polo de saúde que não atende apenas os estados da região Centro Oeste, mas também os da Região Norte, Nordeste e parte do Sudeste, pois se tornou referência em algumas especialidades médicas como oftalmologia, cardiologia, neurologia, oncologia e vítimas de queimaduras. Goiânia e Anápolis, juntas possuem um importante polo educacional. A Universidade Federal de Goiás, sediada em Goiânia e a Universidade Estadual de Goiás, com sede em Anápolis encabeçam esta rede que conta 17 A Colônia Agrícola Nacional de Goiás foi a primeira experiência de colonização de terras para a agricultura do Brasil e localizou onde hoje são as cidades de Ceres e Rialma, ao norte de Anápolis. 18 A Ferrovia Centro Atlântica é parte do que sobrou da Ferrovia Mogiana e agora liga a cidade de Anápolis aos principais portos do Sul e Sudeste do país. 19 Anápolis, desde os tempos da CANG e depois com a chegada da ferrovia se consolidou como importante centro comercial da Região. 16 ainda com várias unidades do Instituto Federal de ensino técnico e uma vasta rede educacional privada de ensino superior ou técnico. Os diversos centros de distribuição e o comercio varejista e atacadista20 existentes nas duas cidades exercem grande influência em seu mercado consumidor que se estende até Belém do Pará. Também existe, por parte do governo estadual, projeto de instalação de um Eixo de Desenvolvimento Tecnológico entre estas duas cidades. Goiânia e Anápolis juntamente com Brasília, formam um importante Eixo de Desenvolvimento21 no interior do Brasil. Este Eixo atualmente ocupa a posição de terceiro maior aglomerado urbano do país e é o segundo mercado consumidor brasileiro, ficando apenas atrás do Eixo Rio - São Paulo (MIRAGAYA, 2001). Conforme o Regic 2007 (IBGE), a capital de Goiás e sua rede urbana concentram 363 municípios, que possuem 3,5% da população e 2,8% do PIB nacional. Goiânia concentra 30,2% da população e 29,7% do PIB da sua rede urbana. A região de influencia de Goiânia abrange todo o território do Estado de Goiás e de Tocantins, tendo ainda alguma penetração no Pará, Maranhão, Piauí e Mato Grosso. Outras capitais regionais, fazem parte da rede urbana liderada por Goiânia: Palmas (TO) (Capital regional B); Araguaína (TO) (Capital regional C); Anápolis (GO), Itumbiara (GO), Rio Verde (GO) e Redenção (PA) (Centros subregionais A); e ainda Balsas (MA) e Gurupi (TO) (Centros sub-regionais B). Considerações Finais. As transformações ocorridas nas bases produtivas e na configuração espacial do Centro Oeste foram decorreram de três frentes: agricultura comercial, pecuária tecnificada e especulação. Durante as décadas de 1960 e 1970 iniciou-se na região Centro Oeste um processo de introdução de lavoura e pecuária ricas em técnicas, favorecidas largamente por programas públicos. Estas diversas políticas de incentivos fiscais, que procuravam dar suporte à região, para sua inserção no mercado interno brasileiro, ainda em formação, não promoveu desenvolvimento regional, pois o que ocorreu foi apenas a transferência de experiências acumuladas em regiões mais dinâmicas do país, como o sudeste e o sul, e ainda favoreceu a especulação fundiária. Ou seja, na verdade o que ocorreu foi uma transferência de recursos e patrimônios a indivíduos e grupos economicamente e politicamente influentes e bem articulados entre si, promovendo impactos reduzidos sobre o desenvolvimento econômico e sobre as condições de vida da população da região, de um modo geral. A ocupação do Centro Oeste representou a abertura de novos espaços econômicos, tão necessária para a reprodução do capital excedente produzido pela lavoura cafeeira e industrial do Sudeste. Na nova divisão interna do trabalho, coube à região, o papel de fornecedora de matérias primas para a indústria do Sudeste e produtora de alimentos para a população do sul e sudeste. Ações casadas do Estado com o capital privado foram capazes de transformar a realidade econômica e social da região, modificando sua dinâmica demográfica, seu perfil econômico, implantando importantes estruturas agroindustriais e de armazenamento de grãos. Em termos espaciais, este processo acabou por consolidar as áreas mais dinâmicas e detentoras de maior capital, onde as atividades privadas foram mais bem sucedidas. Esta dinâmica desigual acentuou os desequilíbrios existentes, condenando à própria sorte as áreas deprimidas, situadas mais ao norte da região – como o território que compõe o atual Estado de Tocantins e o norte de Mato Grosso - tendo em vista que o Estado foi incapaz de atuar sobre as forças do mercado, para impedir o surgimento de desigualdades. 20 Em relação ao comercio atacadista, principalmente Anápolis, perdeu muito pra Uberlândia. Certamente esta disputa não foi vencida pela cidade mineira apenas por sua localização, mas como fruto da guerra fiscal. 21 Alguns autores, como Rosa Moura, usam o termo de “Arranjo Espacial”. 17 É importante salientar que a vasta extensão territorial do Centro Oeste e sua localização central, é estratégica para o desenvolvimento econômico do Brasil, no que se refere à articulação entre todas as regiões brasileiras e ainda com a América do Sul. Por este fato, a região se faz merecedora de atenção especial na elaboração e execução das políticas públicas, não apenas das que promovem a grande agricultura e pecuária. Neste sentido, e ainda pela atual dinâmica produtiva presente no Centro Oeste se torna fundamental os investimentos na infraestrutura de transportes, não só através da recuperação das vias, mas também com a abertura de novos eixos para o escoamento da produção. A implantação de vias mais eficientes para o fluxo produtivo, para o abastecimento dos grandes centros e para facilitar as exportações, será capaz de atrair novos investimentos, sobretudo privados, favorecendo novos meios de integração entre o extremo norte, a área central e o sul-sudeste do território brasileiro, bem como a integração continental com os demais países da América do Sul. Um dos pontos fracos a ser considerado na discussão sobre a região é sua dependência de basicamente um único produto - “monocultura da soja” – que pode colocar em risco o futuro da região, pois se trata de um produto altamente dependente de mercados externos e basicamente de um único comprador - China. Goiás, por ocupar papel fundamental dentro deste processo, também necessita de maiores e melhores investimentos para seu pleno crescimento e continuar ocupando posição estratégica dentro da região. Não só o Governo Federal, mas também ações do governo estadual se fazem importantes e necessárias. Por parte do governo brasileiro, o que de mais relevante pode ocorrer para a região seria além de efetivar o contido na programação do PAC, a implantação de uma política eficaz de desenvolvimento regional, evitando a guerra entre os estados e possibilitando um desenvolvimento menos desigual entre eles. 18 Referências Bibliográficas. ARRAIS, T. A. (2007). A Região como Arena Política. 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